101VOLUME 3 LINGUAGENS, CÓDIGOS e suas tecnologias d) o texto 1, em oposição ao texto 2, revela distanciamento geográfico do poeta em relação à pátria. e) ambos os textos apresentam ironicamente a paisagem brasileira. 7. VAGABUNDO Eu durmo e vivo ao sol como um cigano, Fumando meu cigarro vaporoso; Nas noites de verão namoro estrelas; Sou pobre, sou mendigo e sou ditoso! Ando roto, sem bolsos nem dinheiro; Mas tenho na viola uma riqueza: Canto à lua de noite serenatas, E quem vive de amor não tem pobrezas. (...) (Álvares de Azevedo) A visão de mundo expressa pelo eu lírico nos versos de Álvares de Azevedo revela o(a): a) desequilíbrio do poeta adolescente e indeciso, que não é capaz de amar uma mulher nem a si próprio. b) valorização da vida boêmia que proporciona um outro tipo felicidade, desvinculada de valores materiais. c) postura acrítica que o poeta tem diante da realidade, seja em relação ao amor, seja em relação à vida social. d) lamento do poeta que leva a vida peregrina e pobre, sem bens materiais e nenhuma forma de felicidade. e) constatação de que a música é o único expediente capaz de levá-lo à obtenção de recursos materiais. 8. MÃE PENITENTE Ouve-me, pois!... Eu fui uma perdida; Foi este o meu destino, a minha sorte... Por esse crime é que hoje perco a vida, Mas dele em breve há de salvar-me a morte! E minh’alma, bem vês, que não se irrita, Antes bendiz estes mandões ferozes. Eu seria talvez por ti maldita, Filho! sem o batismo dos algozes! Porque eu pequei... e do pecado escuro Tu foste o fruto cândido, inocente, — Borboleta, que sai do — lodo impuro... — Rosa, que sai de — pútrida semente! Filho! Bem vês... fiz o maior dos crimes — Criei um ente para a dor e a fome! Do teu berço escrevi nos brancos vimes O nome de bastardo — impuro nome. Por isso agora tua mãe te implora E a teus pés de joelhos se debruça. Perdoa à triste — que de angústia chora, Perdoa à mártir — que de dor soluça! [...] (www.dominiopublico.gov.br. Acessado em 07/10/2011) A fala do sujeito poético exprime uma das formas da violência simbólica denunciada por Castro Alves. No poema, mais do que os maus tratos sofridos fisicamente, é denunciada a consequência: a) da humilhação imposta pelos algozes que torturam a mulher chicoteando-a. b) da subordinação da mulher negra que serve aos desejos sexuais do senhor de engenho. c) do erotismo livre que leva a mulher a realizar seus desejos sem pensar em consequências. d) do excesso de religiosidade que leva a mulher negra a uma confissão de culpa. e) da tortura psicológica que obriga a mãe a abandonar o filho. TEXTOS PARA A PRÓXIMA QUESTÃO TEXTO I ADORMECIDA Uma noite, eu me lembro... Ela dormia Numa rede encostada molemente... Quase aberto o roupão... solto o cabelo E o pé descalço do tapete rente. ‘Stava aberta a janela. Um cheiro agreste Exalavam as silvas da campina... E ao longe, num pedaço do horizonte, Via-se a noite plácida e divina. De um jasmineiro os galhos encurvados, Indiscretos entravam pela sala, E de leve oscilando ao tom das auras, Iam na face trêmulos — beijá-la. Era um quadro celeste!... A cada afago Mesmo em sonhos a moça estremecia... Quando ela serenava... a flor beijava-a... Quando ela ia beijar-lhe... a flor fugia... Dir-se-ia que naquele doce instante Brincavam duas cândidas crianças... A brisa, que agitava as folhas verdes. Fazia-lhe ondear as negras tranças! E o ramo ora chegava ora afastava-se... Mas quando a via despeitada a meio. P’ra não zangá-la... sacudia alegre Uma chuva de pétalas no seio... Eu, fitando a cena, repetia Naquela noite lânguida e sentida: “Ó flor! – tu és a virgem das campinas! “Virgem! — tu és a flor da minha vida!...” CASTRO ALVES. Espumas flutuantes. In Obra compIeta Rio de Janeiro: Nova Aguar, 1986. p. 124-125. TEXTO II o amor, esse sufoco agora há pouco era muito, agora, apenas um sopro ah, troço de louco,
102VOLUME 3 LINGUAGENS, CÓDIGOS e suas tecnologias corações trocando rosas, e socos. LEMINSKI, Paulo. Melhores poemas. São Paulo: Global, 1996. p.119. 9. Os poemas de Castro Alves e Paulo Leminski exemplificam diferenças entre as estéticas romântica e contemporânea. Nas alternativas a seguir, apresentam-se oposições, em que a primeira afirmativa se refere ao Texto I e a segunda ao Texto II. Assinale a única alternativa inteiramente correta. a) Presença de pontuação excessiva e inadequada. / Presença de contenção verbal. b) Emprego de adjetivação abundante. / Emprego de expressões cerimoniosas e formais. c) Percepção do amor como desejo e expectativa. / Percepção do amor como contradição e incerteza. d) Olhar descrente sobre as relações amorosas. / Olhar irônico sobre as relações amorosas. e) Utilização de citações clássicas. / Utilização de recursos de humor. 10. (UFSM) Assinale a alternativa que contém características encontradas na poesia de Gonçalves Dias. a) Temática indianista e natureza pátria. b) Culto da morte e erotização da mulher. c) Defesa dos escravos e sátira política. d) Elementos da mitologia grega e de lendas medievais. e) Temas sobre a república e sobre o descobrimento. E.O. Fixação 1. (PUC-RS) Para responder à questão, leia os versos abaixo e o comentário sobre o poema do qual a estrofe foi extraída, preenchendo as lacunas com o nome do autor e o título das obras. [...] Senhor Deus dos desgraçados! Dizei-me vós, Senhor Deus! Se é loucura... se é verdade Tanto horror perante os céus... Ó mar, por que não apagas Co’a esponja de tuas vagas De teu manto este borrão?... Astros! noites! tempestades! Rolai das imensidades! Varrei os mares, tufão! [...] “Se observarmos os poemas mais conhecidos de _________, como _________ ou _________, vislumbraremos o quanto é possível cada um desses famosos textos serem cadernos de gravuras, em que uma imagem completa outra, na lógica irrefutável do sonho. [...] Tanto em um como no outro, a visão é a de quem contempla do alto, com asas do futuro, desde os filhos da África, livres, em sua terra, até as cenas da tragédia no mar que os torna escravos sob o açoite.” (Adaptado de Carlos Nejar, História de Literatura Brasileira). A alternativa que completa corretamente as lacunas do comentário é: a) Castro Alves – ‘Vozes d’África’ – ‘O navio negreiro’. b) Gonçalves Dias – ‘Canção do exílio’ – ‘O canto do Piaga’. c) Álvares de Azevedo – ‘Vozes d’ África’ – ‘No mar’. d) Gonçalves Dias – ‘O navio negreiro’ – ‘O canto do guerreiro’. e) Castro Alves – ‘Canção do exílio’ – ‘Saudação a Palmares’. 2. (PUC-RS) Leia o trecho a seguir. Minha terra tem palmeiras, Onde canta o Sabiá; As aves que aqui gorjeiam Não gorjeiam como lá. (...) Não permita Deus que eu morra, Sem que eu volte para lá; Sem que desfrute os primores Que não encontro por cá; Sem qu’inda aviste as palmeiras, Onde canta o Sabiá. Os versos do famoso poema “Canção do Exílio” evidenciam um grande amor à pátria, simbolizada por sua natureza. Criado por _________ e pertencente à escola _________, o poema revela, em tom _________, um eu lírico que exterioriza sua _________. A alternativa correta para o preenchimento das lacunas acima é: a) Gonçalves de Magalhães – árcade – bucólico – solidão b) Gonçalves Dias – romântica – ufanista – saudade c) Gregório de Mattos – barroca – contraditório – ironia d) Casemiro de Abreu – indianista – regionalista – nacionalidade e) Castro Alves – condoreira – emancipatório – liberdade TEXTO PARA A PRÓXIMA QUESTÃO IDEIAS ÍNTIMAS (FRAGMENTO) VII Em frente do meu leito, em negro quadro A minha amante dorme. É uma estampa De bela adormecida. A rósea face Parece em visos de um amor lascivo De fogos vagabundos acender-se... E com a nívea mão recata o seio... Oh! quantas vezes, ideal mimoso, Não encheste minh’alma de ventura, Quando louco, sedento e arquejante, Meus tristes lábios imprimi ardentes No poento vidro que te guarda o sono! (...)
103VOLUME 3 LINGUAGENS, CÓDIGOS e suas tecnologias XIII Havia uma outra imagem que eu sonhava No meu peito na vida e no sepulcro. Mas ela não o quis... rompeu a tela Onde eu pintara meus doirados sonhos. Se posso no viver sonhar com ela, Essa trança beijar de seus cabelos E essas violetas inodoras, murchas, Nos lábios frios comprimir chorando, Não poderei na sepultura, ao menos, Sua imagem divina ter no peito. (Álvares de Azevedo) 3. (Fatec) Assinale a alternativa correta com relação ao Texto a) O idealismo, o sonho, a presença da morte, a imagem da mulher amada, presentes no poema, revelam o seu caráter romântico de segunda geração. b) Filiado ao Simbolismo, o poema recorre a imagens nebulosas e sugestivas, tais como: ventura e tristeza, vida e morte. c) Ao dizer “É uma estampa/de bela adormecida”, o poema denuncia sua familiaridade com relatos infantis, característica primordial do Romantismo. d) As referências ao universo da pintura, “negro quadro”, “rompeu a tela”, “onde eu pintara”, criam efeitos sinestésicos, confirmando a filiação do poema à estética simbolista. e) As marcas do erotismo, da loucura e do sonho presentes no poema serão retomadas de maneira similar na poesia parnasiana. TEXTO PARA A PRÓXIMA QUESTÃO Leia o poema de Tobias Barreto. A Escravidão Se é Deus quem deixa o mundo Sob o peso que o oprime, Se ele consente esse crime, Que se chama escravidão, Para fazer homens livres, Para arrancá-los do abismo, Existe um patriotismo Maior que a religião. Se não lhe importa o escravo Que a seus pés queixas deponha, Cobrindo assim de vergonha A face dos anjos seus, Em delírio inefável, Praticando a caridade, Nesta hora a mocidade Corrige o erro de Deus! 4. (UFTM) Considerando a temática abordada no poema, é correto afirmar que ele se enquadra no movimento romântico: a) condoreiro, a exemplo de Castro Alves que, com o poema Navio Negreiro, aborda a questão da escravidão no Brasil. b) indianista, a exemplo de Gonçalves Dias que, com o poema I – Juca Pirama, analisa a condição dos excluídos socialmente. c) ultrarromântico, a exemplo de Fagundes Varela que, com o poema Cântico do Calvário, mostra o sofrimento do negro no Brasil. d) condoreiro, a exemplo de Castro Alves que, com o poema Vozes d’África, exalta a força e a simpatia dos negros africanos. e) ultrarromântico, a exemplo de Casimiro de Abreu que, com o poema Meus oito anos, recorda a escravidão que conhecera na infância. TEXTOS PARA AS PRÓXIMAS 3 QUESTÕES TEXTO I Ontem a Serra Leoa, A guerra, a caça ao leão, O sono dormido à toa Sob as tendas d’amplidão! Hoje... o porão negro, fundo, Infecto, apertado, imundo, Tendo a peste por jaguar... E o sono sempre cortado Pelo arranco de um finado, E o baque de um corpo ao mar... Ontem plena liberdade, A vontade por poder... Hoje... cúm’lo de maldade, Nem são livres p’ra morrer... Prende-os a mesma corrente – Férrea, lúgubre serpente – Nas roscas da escravidão. E assim roubados à morte, Dança a lúgubre coorte Ao som do açoite... Irrisão!... (Castro Alves. Fragmento de O navio negreiro – tragédia no mar.) TEXTO II (...) Um poeta dizia que o menino é o pai do homem. Se isto é verdade, vejamos alguns lineamentos do menino. Desde os cinco anos merecera eu a alcunha de “menino diabo”; e verdadeiramente não era outra coisa; fui dos mais malignos do meu tempo, arguto, indiscreto, traquinas e voluntarioso. Por exemplo, um dia quebrei a cabeça de uma escrava, porque me negara uma colher do doce de coco que estava fazendo, e, não contente com o malefício, deitei um punhado de cinza ao tacho, e, não satisfeito da travessura, fui dizer à minha mãe que a escrava é que estragara o doce “por pirraça”; e eu tinha apenas seis anos. Prudêncio, um moleque de casa, era o meu cavalo de todos os dias; punha as mãos no chão, recebia um cordel nos queixos, à guisa de freio, eu trepava-lhe ao dorso, com uma varinha na mão, fustigava-o, dava mil voltas a
104VOLUME 3 LINGUAGENS, CÓDIGOS e suas tecnologias um e outro lado, e ele obedecia, – algumas vezes gemendo – mas obedecia sem dizer palavra, ou, quando muito, um – “ai, nhonhô!” – ao que eu retorquia: “Cala a boca, besta!” – Esconder os chapéus das visitas, deitar rabos de papel a pessoas graves, puxar pelo rabicho das cabeleiras, dar beliscões nos braços das matronas, e outras muitas façanhas deste jaez, eram mostras de um gênio indócil, mas devo crer que eram também expressões de um espírito robusto, porque meu pai tinha-me em grande admiração; e se às vezes me repreendia, à vista de gente, fazia-o por simples formalidade: em particular dava-me beijos. Não se conclua daqui que eu levasse todo o resto da minha vida a quebrar a cabeça dos outros nem a esconder-lhes os chapéus; mas opiniático, egoísta e algo contemptor dos homens, isso fui; se não passei o tempo a esconder-lhes os chapéus, alguma vez lhes puxei pelo rabicho das cabeleiras. (Machado de Assis. Memórias póstumas de Brás Cubas.) 5. Compare o trecho de Memórias Póstumas de Brás Cubas, de Machado de Assis, com o fragmento do poema O navio negreiro – tragédia no mar, de Castro Alves. Indique a alternativa que apresenta aspectos observáveis nos dois textos. a) Tema da escravidão, contenção expressional, exploração do ritmo da frase, visão crítica da realidade. b) Ironia, exploração do ritmo da frase, intertextualidade explícita, denúncia de problemas sociais. c) Tema da escravidão, visão crítica da realidade, exploração do ritmo da frase, representação do homem como objeto do homem. d) Estilo apurado, visão crítica da realidade, representação do homem como objeto do homem, intertextualidade explícita. e) Tema da escravidão, tom arrebatado, visão crítica da realidade, estilo apurado. 6. (PUC-SP) “Nova Canção do Exílio” Um sabiá na palmeira, longe. Estas aves cantam um outro canto. O céu cintila sobre flores úmidas. Vozes na mata, e o maior amor. Só, na noite, seria feliz: um sabiá, na palmeira, longe. Onde é tudo belo e fantástico, só, na noite, seria feliz. (Um sabiá, na palmeira, longe.) Ainda um grito de vida e voltar para onde é tudo belo e fantástico: a palmeira, o sabiá, o longe. O poema anterior integra a obra “Rosa do Povo”, de Carlos Drummond de Andrade. Deste poema, como um todo, é incorreto afirmar que: a) é uma variação do tema da terra natal, espécie de atualização moderna de uma idealização romântica da pátria. b) estabelece uma relação intertextual com a “Canção do Exílio”, de Gonçalves Dias, e se mostra como uma espécie de paráfrase. c) evidencia que o poeta se apropriou indevidamente do poema de Gonçalves Dias e manteve os esquemas de métrica e de rima do texto original. d) traduz na palavra “longe”, o significado do “lá”, lugar do ideal distante, caracterizador de visão de uma pátria idealizada. e) utiliza a imagem do sabiá e da palmeira para sugerir um espaço “onde tudo é belo e fantástico” e, afastado do qual, o poeta se sente em exílio. 7. (UFSM) Leia com atenção as seguintes estrofes de “A cruz da estrada”, de Castro Alves: Caminheiro que passas pela estrada, Seguindo pelo rumo do sertão, Quando vires a cruz abandonada, Deixa-a em paz dormir na solidão. Caminheiro! do escravo desgraçado O sono agora mesmo começou! Não lhe toques no leito de noivado, Há pouco a liberdade o desposou. As duas estrofes apresentam vocábulos do mesmo campo semântico, como cruz, paz, solidão, sono, leito. Pode-se, através dessas estrofes, inferir que: I. o escravo dorme depois de um dia estafante de trabalho. II. “sono” e “liberdade o desposou” são eufemismos para a morte. III. o eu lírico, que é o próprio escravo, dirige-se ao leitor, em 2ª pessoa. IV. o eu lírico se dirige ao caminheiro. Está(ão) correta(s): a) apenas I. b) apenas I e III. c) apenas I e IV. d) apenas II e III. e) apenas II e IV. 8. (Ufrgs) Leia o seguinte fragmento do poema “Murmúrios da Tarde”, de “Espumas Flutuantes”, de Castro Alves.
105VOLUME 3 LINGUAGENS, CÓDIGOS e suas tecnologias Ontem à tarde, quando o sol morria, A natureza era um poema santo, De cada moita a escuridão saía, De cada gruta rebentava um canto, Ontem à tarde, quando o sol morria. Do céu azul na profundeza escura Brilhava a estrela, como um fruto louro, E qual a foice, que no chão fulgura, Mostrava a lua o semicirc’lo d’ouro, Do céu azul na profundeza escura. Assinale com V (verdadeiro) ou F (falso) as afirmações a seguir sobre este fragmento. ( ) O primeiro e o último verso de ambas as estrofes apresentam estrutura paralela. ( ) As duas estrofes seguem a orientação romântica de libertar-se dos preceitos formais clássicos. ( ) Os versos exaltam a nostalgia do cair da tarde através de imagens sombrias e soturnas. ( ) A lua, ao contrário das demais imagens do poema, adquire um brilho vivo e luminoso, que contrasta com as sombras e a melancolia dos demais versos. A sequência correta de preenchimento dos parênteses, de cima para baixo, é: a) V – F – V – F. b) V – V – F – V. c) F – F – V – V. d) V – V – V – F. e) F – F – F – V. 9. (PUC-Camp) Ideias liberais, tornadas públicas, entraram em conflito com a realidade escravista do Brasil, tal como se pode avaliar na força dramática que assumiram: a) os poemas libertários de Castro Alves, já ao final do período romântico. b) os romances naturalistas de Aluísio Azevedo e Machado de Assis. c) as páginas de literatura documental de Antonil e Pero de Magalhães Gândavo. d) os manifestos pré-modernistas de Euclides da Cunha e Augusto dos Anjos. e) as crônicas de costumes de Olavo Bilac e João do Rio. 10. (UEG) Leia o fragmento e observe a imagem para responder à questão. É ela! é ela! – murmurei tremendo, e o eco ao longe murmurou – é ela! Eu a vi... minha fada aérea e pura – a minha lavadeira na janela. Dessas águas furtadas onde eu moro eu a vejo estendendo no telhado os vestidos de chita, as saias brancas; eu a vejo e suspiro enamorado! Esta noite eu ousei mais atrevido, nas telhas que estalavam nos meus passos, ir espiar seu venturoso sono, vê-la mais bela de Morfeu nos braços! Como dormia! que profundo sono!... Tinha na mão o ferro do engomado... Como roncava maviosa e pura!... Quase caí na rua desmaiado! AZEVEDO, Álvares de. É ela! É ela! É ela! É ela. In: Álvares de Azevedo. São Paulo: Abril Educação, 1982. p. 44. Tanto a pintura quanto o excerto apresentados pertencem ao Romantismo. A diferença entre ambos, porém, diz respeito ao fato de que: a) no fragmento verifica-se o retrato de um ser idealizado, ao passo que no quadro tem-se uma figura retratada de modo pejorativo. b) na pintura tem-se o retrato de uma mulher de feições austeras, ao passo que no poema nota-se a descrição de uma mulher sofisticada. c) no excerto tem-se a descrição realista e não idealizada de uma mulher, ao passo que na pintura retrata- -se uma mulher pertencente à burguesia. d) na imagem tem-se uma moça cuja caracterização é abstrata, ao passo que no poema tem-se uma mulher cujo aspecto é burguês e requintado. e) no quadro constata-se a imagem de uma moça simplória, ao passo que no poema nota-se a caracterização de uma donzela de vida airada. E.O. Complementar 1. Leia o poema de Francisco Otaviano. ILUSÕES DA VIDA Quem passou pela vida em branca nuvem, E em plácido repouso adormeceu; Quem não sentiu o frio da desgraça, Quem passou pela vida e não sofreu; Foi espectro de homem, não foi homem,
106VOLUME 3 LINGUAGENS, CÓDIGOS e suas tecnologias Só passou pela vida, não viveu. (SECCHIN, Antonio Carlos. Roteiro da poesia brasileira – Romantismo. São Paulo: Global, 2007.) Este poema pertence à estética romântica porque: a) sugere que o leitor, para ser feliz, viva alienado e distante da realidade. b) são explícitas as referências a alguns cânones do Catolicismo. c) expõe os problemas sociais que afetavam a sociedade da época. d) nele se percebe a vassalagem amorosa, isto é, a submissão do homem em relação à mulher. e) sugere que é importante viver, de forma intensa e profunda, as experiências da existência humana. 2. — Tu prisioneiro, tu? — Vós o dissestes. — Dos índios? — Sim. — De que nação? — Timbiras. — E a muçurana funeral rompeste, Dos falsos manitôs quebraste a maça... — Nada fiz... aqui estou. — Nada! — Emudecem; Curto instante depois prossegue o velho: — Tu és valente, bem o sei; confessa, Fizeste-o, certo, ou já não foras vivo! — Nada fiz; mas souberam da existência De um pobre velho, que em mim só vivia... — E depois?... — Eis-me aqui. — Fica essa taba? Na direção do sol, quando transmonta. — Longe? — Não muito. — Tens razão; partamos! — E quereis ir?... — Na direção do ocaso. DIAS, Gonçalves. I-Juca-Pirama. Gonçalves Dias: antologia. São Paulo: Melhoramentos, s.d. p. 164. Com base no texto, contextualizado na obra, está incorreto o que se afirma na alternativa: a) A narrativa, em sua totalidade, evidencia uma imagem sentimentalizada do índio. b) Tanto o pai quanto o filho, na narrativa, são apresentados como heróis idealizados. c) O diálogo entre pai e filho traduz a resignação daquele em relação ao comportamento deste. d) O comportamento do filho, na condição de prisioneiro dos Timbiras, para o pai, fere a honra dos Tupis. e) O velho pai lança mão de sua história de invencibilidade como guerreiro para reconduzir o filho ao rito de morte. TEXTO PARA A PRÓXIMA QUESTÃO MODINHA DO EXÍLIO Os moinhos têm palmeiras Onde canta o sabiá. Não são artes feiticeiras! Por toda parte onde eu vá, Mar e terras estrangeiras, Posso ver mesmo as palmeiras Em que ele cantando está. Meu sabiá das palmeiras Canta aqui melhor que lá. Mas, em terras estrangeiras, E por tristezas de cá, Só à noite e às sextas-feiras. Nada mais simples não há! Canta modas brasileiras. Canta – e que pena me dá! Ribeiro Couto 3. Os versos dos poetas modernistas e românticos apresentam relação de intertextualidade com o poema de Ribeiro Couto, EXCETO em uma alternativa. Assinale-a. a) “Vou-me embora pra Pasárgada / Lá sou amigo do rei / Lá tenho a mulher que eu quero / Na cama que escolherei” (Manuel Bandeira) b) “Dá-me os sítios gentis onde eu brincava / Lá na quadra infantil; / Dá que eu veja uma vez o céu da pátria, / O céu do meu Brasil!” (Casimiro de Abreu) c) “Minha terra tem macieiras da Califórnia / onde cantam gaturamos de Veneza. / Os poetas da minha terra / são pretos que vivem em torres de ametista,” (Murilo Mendes) d) “Ouro terra amor e rosas / Eu quero tudo de lá / Não permita Deus que eu morra / Sem que volte para lá” (Oswald de Andrade) e) “Em cismar, sozinho, à noite, / Mais prazer eu encontro lá; / Minha terra tem palmeiras, / Onde canta o Sabiá.” (Gonçalves Dias) TEXTO PARA A PRÓXIMA QUESTÃO “ONDE ESTÁS” É meia-noite... e rugindo Passa triste a ventania, Como um verbo de desgraça, Como um grito de agonia. E eu digo ao vento, que passa Por meus cabelos fugaz: “Vento frio do deserto, Onde ela está? Longe ou perto?” Mas, como um hálito incerto, Responde-me o eco ao longe: “Oh! minh’amante, onde estás?...”
107VOLUME 3 LINGUAGENS, CÓDIGOS e suas tecnologias Vem! É tarde! Por que tardas? São horas de brando sono, Vem reclinar-te em meu peito Com teu lânguido abandono!... ’Stá vazio nosso leito... ’Stá vazio o mundo inteiro; E tu não queres qu’eu fique Solitário nesta vida... Mas por que tardas, querida?... Já tenho esperado assaz... Vem depressa, que eu deliro Oh! minh’amante, onde estás?... Estrela – na tempestade, Rosa – nos ermos da vida, Íris – do náufrago errante, Ilusão – d’alma descrida! Tu foste, mulher formosa! Tu foste, ó filha do céu!... ... E hoje que o meu passado Para sempre morto jaz... Vendo finda a minha sorte, Pergunto aos ventos do Norte... “Oh! minh’amante, onde estás?” (CASTRO ALVES, A. F. Espumas flutuantes. São Paulo: Companhia Editora Nacional, 2005. p. 84-85.) 4. Assinale a alternativa que relaciona corretamente versos do poema a figuras de linguagem. a) A comparação entre o vento e a amada é verificada nos versos “Mas por que tardas, querida?... / Já tenho esperado assaz...”. b) Em “Como um verbo de desgraça, / Como um grito de agonia.”, a antítese opõe a fugacidade do vento à tristeza da ventania. c) Os versos “Tu foste, mulher formosa! / Tu foste, ó filha do céu!...” comparam a amada à triste e fugaz ventania, pois ambas impedem seu brando sono. d) A comparação presente nos versos “Mas, como um hálito incerto, / Responde-me o eco ao longe:” reforça a ausência de resposta sobre o paradeiro da amada. e) A antítese, presente em todo o poema, é exemplificada pelos versos “... E hoje que o meu passado / Para sempre morto jaz...”. E.O. Dissertativo 1. (UFJF) As estrofes apresentadas a seguir foram retiradas do poema “Vozes d’África”, de Castro Alves. “Vozes d’África” é um dos textos em que o poeta expressa sua indignação diante da escravidão. Leia, com atenção, o fragmento selecionado para responder às questões propostas em a) e b): VOZES D’ÁFRICA Deus! ó Deus, onde estás que não respondes!? Em que mundo, em qu’estrela tu t’escondes, Embuçado nos céus? Há dois mil anos te mandei meu grito, Que embalde, desde então, corre o infinito... Onde estás, Senhor Deus?... (...) Mas eu, Senhor! ... Eu triste, abandonada, Em meio dos desertos esgarrada, Perdida marcho em vão! Se choro... bebe o pranto a areia ardente! Talvez... pra que meu pranto, ó Deus clemente, Não descubras no chão!... a) Cite e explique a figura de linguagem através da qual o poeta estrutura todo o poema. b) IDENTIFIQUE OS ELEMENTOS que representam, figuradamente, o abandono e o desespero advindos da escravidão. 2. (UFRJ) Senhor Deus dos desgraçados! Dizei-me vós, Senhor Deus! Se é loucura...se é verdade Tanto horror perante os céus... Ó mar! Por que não apagas Co’a esponja de tuas vagas Do teu manto este borrão? Astros! Noite! Tempestades! Rolai das imensidades! Varrei os mares tufão! (Castro Alves. “Navio negreiro”. In: - “Obra completa”. Rio de Janeiro, Aguilar, 1960: p.281.) Qual a geração romântica a que pertence o poema e que traço estilístico-formal é dominante na estrofe acima? TEXTO PARA AS PRÓXIMAS 2 QUESTÕES TEXTO I HAPPY END (Cacaso) O meu amor e eu nascemos um para o outro agora só falta quem nos apresente. TEXTO II ADEUS, MEUS SONHOS! (Álvares de Azevedo) Adeus, meus sonhos, eu pranteio e morro! Não levo da existência uma saudade! E tanta vida que meu peito enchia Morreu na minha triste mocidade! Misérrimo! votei meus pobres dias À sina doida de um amor sem fruto, E minh’alma na treva agora dorme Como um olhar que a morte envolve em luto.
108VOLUME 3 LINGUAGENS, CÓDIGOS e suas tecnologias Que me resta, meu Deus? morra comigo A estrela de meus cândidos amores, Já que não levo no meu peito morto Um punhado sequer de murchas flores! O poema de Álvares de Azevedo, assim como o de Cacaso, trabalha com o par desejo/ realidade. Com base nessa afirmação, demonstre, a partir de elementos textuais, que “Adeus, meus sonhos!” constitui forte ilustração da poética da segunda geração romântica, à qual pertence o autor. 3. (UFRJ) O texto “Happy end” - cujo título (“final feliz”) faz uso de um lugar-comum dos filmes de amor - constrói-se na relação entre desejo e realidade, e pode ser considerado uma paródia de certo imaginário romântico. Justifique a afirmativa, levando em conta elementos textuais. 4. (UFRJ) O poema de Álvares de Azevedo, assim como o de Cacaso, trabalha com o par desejo/realidade. Com base nessa afirmação, demonstre, a partir de elementos textuais que “Adeus, meus sonhos!” constituiu forte ilustração poética da segunda geração romântica, à qual pertence o autor. 5. (UFG) Leia o trecho a seguir. X Um velho Timbira, coberto de glória, Guardou a memória Do moço guerreiro, do velho Tupi! E à noite, nas tabas, se alguém duvidava Do que ele contava, Dizia prudente: – “Meninos, eu vi!” “Eu vi o brioso no largo terreiro Cantar prisioneiro Seu canto de morte, que nunca esqueci: Valente, como era, chorou sem ter pejo; Parece que o vejo, Que o tenho nest’hora diante de mi. “Eu disse comigo: que infâmia d’escravo! Pois não, era um bravo; Valente e brioso, como ele, não vi! E à fé que vos digo: parece-me encanto Que quem chorou tanto, Tivesse a coragem que tinha o Tupi!” Assim o Timbira, coberto de glória, Guardava a memória Do moço guerreiro, do velho Tupi! E à noite nas tabas, se alguém duvidava Do que ele contava, Tornava prudente: “Meninos, eu vi!” DIAS, Gonçalves. I - Juca Pirama seguido de Os Timbiras. Porto Alegre: LP&M Pocket, 2007. p. 28. A respeito do canto transcrito, correspondente à parte final de I – Juca Pirama, de Gonçalves Dias, responda: a) Por que o guerreiro Tupi, prisioneiro dos Timbiras no passado, parece ainda mais heroico na fala do velho que narra a história do que ao longo do poema? b) Que efeito produz a sentença “Meninos, eu vi!”, repetida duas vezes no poema? 6. (PUC-RJ) A amizade Já farto da vida, dos anos na flor, O peito me rala pungente saudade; Traído nas crenças, traído no amor, Meu canto recebe, celeste amizade. Poeta e amante, eu um mundo sonhei Repleto de gozos, um mundo ideal, Quando terna outrora a mulher que eu amei A mim me jurara ser sempre leal. Ó tu, meu amigo, permite que um pouco A fronte recline num peito de irmão; Enxuga, se podes, o pranto do louco, Que em paga de afetos só teve a traição! Em tempos felizes, num dia formoso, Na relva sentados, bem juntos, unidos, No peito encostado seu rosto mimoso, A ingrata me dava sorrisos… fingidos! Ai! crente, eu beijava seus lábios corados Com beijos ardentes, com beijos de amor, E Laura jurava que, quando apartados, Viver não queria, morreria de dor! Partir foi preciso… abracei-a chorando… E Laura chorou!… eu de dor solucei… Mas tempos depois que, contente voltando... Julgava beijá-la, já não a encontrei! Mulher enganosa, quebraste essas juras Que em prantos me deste diante de Deus! Mas tu não te lembras que as faces impuras, Que os lábios corados roçaram os meus?! Poeta e amante, eu um mundo sonhei Repleto de gozos, um mundo ideal… Fugiram os sonhos que eu tanto afaguei, Como flor tombada por um vendaval. Errante vagando por vales sombrios Co’a mente em delírio, em cruel ansiedade; A morte buscando nas águas dos rios, Me disse uma voz: – «Inda resta a amizade! «Esquece esse fogo, esse amor, um delírio «Que aqui te cavava profundo jazigo; «Ao mundo de novo, termina o martírio, «A fronte reclina num peito de amigo.» – Ao mundo voltei, esqueci os amores
109VOLUME 3 LINGUAGENS, CÓDIGOS e suas tecnologias No peito apagando uma forte paixão; Agora a amizade mitiga-me as dores, Sê tu meu amigo, serei teu irmão! Agosto, 1853. ABREU, Casimiro de. Disponível em: <https://archive.org/details/ obrascompletasd00abregoog>. Acesso em: 10 set. 2014. a) Há no poema de Casimiro de Abreu a exaltação da amizade como um sentimento de compreensão, acolhida e apoio. Comente com suas próprias palavras os motivos que levaram o eu poético a valorizar a amizade como um contraponto à tristeza, à solidão e ao delírio. b) Determine o gênero literário predominante no texto, associando-o às características do estilo de época do qual Casimiro de Abreu foi um dos expoentes. 7. (Ufrrj) “A rigor, o texto em questão era a ‘Canção do Exílio’, de Gonçalves Dias, que até dez anos atrás todos os brasileiros sabiam de cor, não exatamente por causa da ditadura mais recente, mas porque era texto que aparecia em todas as antologias escolares.” A passagem acima cita o poema “Canção do Exílio”, de Gonçalves Dias. A popularidade dessa composição é devida não só à presença em várias antologias escolares, como diz a crônica, mas também à exaltação à pátria e à musicalidade. Tendo em vista esses aspectos, a que escola literária se filia o referido poema? E.O. Enem TEXTO PARA A PRÓXIMA QUESTÃO O CANTO DO GUERREIRO Aqui na floresta Dos ventos batida, Façanhas de bravos Não geram escravos, Que estimem a vida Sem guerra e lidar. – Ouvi-me, Guerreiros, – Ouvi meu cantar. Valente na guerra, Quem há, como eu sou? Quem vibra o tacape Com mais valentia? Quem golpes daria Fatais, como eu dou? – Guerreiros, ouvi-me; – Quem há, como eu sou? Gonçalves Dias. MACUNAÍMA (Epílogo) Acabou-se a história e morreu a vitória. Não havia mais ninguém lá. Dera tangolomângolo na tribo Tapanhumas e os filhos dela se acabaram de um em um. Não havia mais ninguém lá. Aqueles lugares, aqueles campos, furos puxadouros arrastadouros meios-barrancos, aqueles matos misteriosos, tudo era solidão do deserto... Um silêncio imenso dormia à beira do rio Uraricoera. Nenhum conhecido sobre a terra não sabia nem falar da tribo nem contar aqueles casos tão pançudos. Quem podia saber do Herói? Mário de Andrade. 1. (Enem) A leitura comparativa dos dois textos indica que: a) ambos têm como tema a figura do indígena brasileiro apresentada de forma realista e heroica, como símbolo máximo do nacionalismo romântico. b) a abordagem da temática adotada no texto escrito em versos é discriminatória em relação aos povos indígenas do Brasil. c) as perguntas “- Quem há, como eu sou?” (1o texto) e “Quem podia saber do Herói?” (2o texto) expressam diferentes visões da realidade indígena brasileira. d) o texto romântico, assim como o modernista, aborda o extermínio dos povos indígenas como resultado do processo de colonização no Brasil. e) os versos em primeira pessoa revelam que os indígenas podiam expressar-se poeticamente, mas foram silenciados pela colonização, como demonstra a presença do narrador, no segundo texto. 2. (Enem) TEXTO I A canção do africano Lá na úmida senzala. Sentado na estreita sala, Junto ao braseiro, no chão, entoa o escravo o seu canto, E ao cantar correm-lhe em pranto Saudades do seu torrão... De um lado, uma negra escrava Os olhos no filho crava, Que tem no colo a embalar... E à meia-voz lá responde Ao canto, e o filhinho esconde, Talvez p’ra não o escutar! “Minha terra é lá bem longe, Das bandas de onde o sol vem; Esta terra é mais bonita. Mas à outra eu quero bem.” ALVES, C. Poesias completas. Rio de Janeiro: Ediouro, 1995 (fragmento). TEXTO II No caso da Literatura Brasileira, se é verdade que prevalecem as reformas radicais, elas têm acontecido mais no âmbito de movimentos literários do que de gerações literárias. A poesia de Castro Alves em relação à de Gonçalves Dias não é a de negação radical, mas de superação, dentro do mesmo espírito romântico. MELO NETO, J. C. Obra completa. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 2003 (fragmento)
110VOLUME 3 LINGUAGENS, CÓDIGOS e suas tecnologias O fragmento do poema de Castro Alves exemplifica a afirmação de João Cabral de Melo Neto porque a) exalta o nacionalismo, embora lhe imprima um fundo ideológico retórico. b) canta a paisagem local, no entanto, defende ideais do liberalismo. c) mantém o canto saudosista da terra pátria, mas renova o tema amoroso. d) explora a subjetividade do eu lírico, ainda que tematize a injustiça social. e) inova na abordagem de aspecto social, mas mantém a visão lírica da terra pátria. 3. (Enem) SONETO Já da morte o palor me cobre o rosto, Nos lábios meus o alento desfalece, Surda agonia o coração fenece, E devora meu ser mortal desgosto! Do leito embalde no macio encosto Tento o sono reter!... já esmorece O corpo exausto que o repouso esquece... Eis o estado em que a mágoa me tem posto! O adeus, o teu adeus, minha saudade, Fazem que insano do viver me prive E tenha os olhos meus na escuridade. Dá-me a esperança com que o ser mantive! Volve ao amante os olhos por piedade, Olhos por quem viveu quem já não vive! AZEVEDO, A. Obra completa. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 2000. O núcleo temático do soneto citado é típico da segunda geração romântica, porém configura um lirismo que o projeta para alem desse momento especifico. O fundamento desse lirismo é: a) a angústia alimentada pela constatação da irreversibilidade da morte. b) a melancolia que frustra a possibilidade de reação diante da perda. c) o descontrole das emoções provocado pela autopiedade. d) o desejo de morrer como alívio para a desilusão amorosa. e) o gosto pela escuridão como solução para o sofrimento. 4. (Enem) TEXTO 1 Mulher, Irmã, escuta-me: não ames, Quando a teus pés um homem terno e curvo jurar amor, chorar pranto de sangue, Não creias, não, mulher: ele te engana! As lágrimas são gotas da mentira E o juramento manto da perfídia. (Joaquim Manoel de Macedo) TEXTO 2 Teresa, se algum sujeito bancar o sentimental em cima de você E te jurar uma paixão do tamanho de um bonde Se ele chorar Se ele ajoelhar Se ele se rasgar todo Não acredite não Teresa É lágrima de cinema É tapeação Mentira CAI FORA (Manuel Bandeira) Os autores, ao fazerem alusão às imagens da lágrima sugerem que: a) há um tratamento idealizado da relação homem/mulher. b) há um tratamento realista da relação homem/mulher. c) a relação familiar é idealizada. d) a mulher é superior ao homem. e) a mulher é igual ao homem. E.O. UERJ Exame Discursivo 1. (UERJ) Vagabundo Eu durmo e vivo ao sol como um cigano, Fumando meu cigarro vaporoso; Nas noites de verão namoro estrelas; Sou pobre, sou mendigo e sou ditoso1! Ando roto, sem bolsos nem dinheiro Mas tenho na viola uma riqueza: Canto à lua de noite serenatas, E quem vive de amor não tem pobreza. (...) Oito dias lá vão que ando cismado Na donzela que ali defronte mora. Ela ao ver-me sorri tão docemente! Desconfio que a moça me namora!... Tenho por meu palácio as longas ruas; Passeio a gosto e durmo sem temores; Quando bebo, sou rei como um poeta, E o vinho faz sonhar com os amores. O degrau das igrejas é meu trono, Minha pátria é o vento que respiro, Minha mãe é a lua macilenta, E a preguiça a mulher por quem suspiro. Escrevo na parede as minhas rimas, De painéis a carvão adorno a rua; Como as aves do céu e as flores puras Abro meu peito ao sol e durmo à lua.
111VOLUME 3 LINGUAGENS, CÓDIGOS e suas tecnologias (...) Ora, se por aí alguma bela Bem doirada e amante da preguiça Quiser a nívea2 mão unir à minha, Há de achar-me na Sé, domingo, à Missa. Álvares de Azevedo Obra completa. rio de Janeiro: nova aguilar, 2000 Na quinta estrofe do poema Vagabundo, Álvares de Azevedo, poeta da segunda geração do Romantismo, aborda um tema muito frequente entre os primeiros românticos. Identifique o tema e explique a diferença entre a abordagem desse tema por Álvares de Azevedo e pelos poetas românticos da primeira geração. E.O. Objetivas (Unesp, Fuvest, Unicamp e Unifesp) TEXTOS PARA AS QUESTÕES 1 E 2 Ontem a Serra Leoa, A guerra, a caça ao leão, O sono dormido à toa Sob as tendas d’amplidão! Hoje... o porão negro, fundo, Infecto, apertado, imundo, Tendo a peste por jaguar... E o sono sempre cortado Pelo arranco de um finado, E o baque de um corpo ao mar... Ontem plena liberdade, A vontade por poder... Hoje... cúm’lo de maldade, Nem são livres p’ra morrer... Prende-os a mesma corrente — Férrea, lúgubre serpente — Nas roscas da escravidão. E assim roubados à morte, Dança a lúgubre coorte Ao som do açoite... Irrisão!... (Castro Alves. Fragmento de O navio negreiro — tragédia no mar.) 1. (Unifesp) Nesse fragmento do poema: a) o poeta se vale do recurso ao paralelismo de construção apenas na primeira estrofe. b) o eu-poemático aborda o problema da escravidão segundo um jogo de intensas oposições. c) os animais evocados – leão, jaguar e serpente – têm, respectivamente, sentidos denotativo, denotativo e metafórico. d) o tom geral assumido pelo poeta revela um misto de emoção, vigor e resignação diante da escravidão. e) os versos são constituídos alternadamente por sete e oito sílabas poéticas. 2. (Unifesp) Considere as seguintes afirmações. I. O texto é um exemplo de poesia carregada de dramaticidade, própria de um poeta-condor, que mostra conhecer bem as lições do “mestre” Victor Hugo. II. Trata-se de um poema típico da terceira fase romântica, voltado para auditórios numerosos, em que se destacam a preocupação social e o tom hiperbólico. III. É possível reconhecer nesse fragmento de um longo poema de teor abolicionista o gosto romântico por uma poesia de recursos sonoros. Está correto o que se afirma em: a) I, apenas. b) II, apenas. c) III, apenas. d) I e II, apenas. e) I, II e III. TEXTO PARA A PRÓXIMA QUESTÃO: Nasceu o dia e expirou. Já brilha na cabana de Araquém o fogo, companheiro da noite. Correm lentas e silenciosas no azul do céu, as estrelas, filhas da lua, que esperam a volta da mãe ausente. Martim se embala docemente; e como a alva rede que vai e vem, sua vontade oscila de um a outro pensamento. Lá o espera a virgem loura dos castos afetos; aqui lhe sorri a virgem morena dos ardentes amores. Iracema recosta-se langue ao punho da rede; seus olhos negros e fúlgidos, ternos olhos de sabiá, buscam o estrangeiro, e lhe entram n’alma. O cristão sorri; a virgem palpita; como o saí, fascinado pela serpente, vai declinando o lascivo talhe, que se debruça enfim sobre o peito do guerreiro. José de Alencar, Iracema. 3. (Unesp) Outro traço importante da poesia de Álvares de Azevedo é o gosto pelo prosaísmo e o humor, que formam a vertente para nós mais moderna do Romantismo. A sua obra é a mais variada e complexa no quadro da nossa poesia romântica; mas a imagem tradicional de poeta sofredor e desesperado atrapalhou a reconhecer a importância de sua veia humorística. (Antonio Candido. “Prefácio”. In: Álvares de Azevedo. Melhores poemas, 2003. Adaptado.) A veia humorística ressaltada pelo crítico Antonio Candido na poesia de Álvares de Azevedo está bem exemplificada em: a) Cavaleiro das armas escuras, Onde vais pelas trevas impuras Com a espada sanguenta na mão? Por que brilham teus olhos ardentes E gemidos nos lábios frementes Vertem fogo do teu coração? b) Ontem tinha chovido... Que desgraça! Eu ia a trote inglês ardendo em chama, Mas lá vai senão quando uma carroça Minhas roupas tafuis encheu de lama...
112VOLUME 3 LINGUAGENS, CÓDIGOS e suas tecnologias c) Pálida, à luz da lâmpada sombria, Sobre o leito de flores reclinada, Como a lua por noite embalsamada, Entre as nuvens do amor ela dormia! d) Se eu morresse amanhã, viria ao menos Fechar meus olhos minha triste irmã; Minha mãe de saudades morreria Se eu morresse amanhã! e) Quando em meu peito rebentar-se a fibra, Que o espírito enlaça à dor vivente, Não derramem por mim nem uma lágrima Em pálpebra demente. E.O. Dissertativas (Unesp, Fuvest, Unicamp e Unifesp) TEXTO PARA AS PRÓXIMAS 2 QUESTÕES LEITO DE FOLHAS VERDES Por que tardas, Jatir, que tanto a custo À voz do meu amor moves teus passos? Da noite a viração, movendo as folhas, Já nos cimos do bosque rumoreja. E sob a copa da mangueira altiva Nosso leito gentil cobri zelosa Com mimoso tapiz de folhas brandas, Onde o frouxo luar brinca entre flores. Do tamarindo a flor abriu-se, há pouco, Já solta o bogari mais doce aroma! Como prece de amor, como estas preces, No silêncio da noite o bosque exala. Brilha a lua no céu, brilham estrelas, Correm perfumes no correr da brisa, A cujo influxo mágico respira-se Um quebranto de amor, melhor que a vida! A flor que desabrocha ao romper d’alva Um só giro do sol, não mais, vegeta: Eu sou aquela flor que espero ainda Doce raio do sol que me dê vida. Sejam vales ou montes, lago ou terra, Onde quer que tu vás, ou dia ou noite, Vai seguindo após ti meu pensamento; Outro amor nunca tive: és meu, sou tua! Meus olhos outros olhos nunca viram, Não sentiram meus lábios outros lábios, Nem outras mãos, Jatir, que não as tuas A arazóia na cinta me apertaram. Do tamarindo a flor jaz entreaberta, Já solta o bogari mais doce aroma; Também meu coração, como estas flores, Melhor perfume ao pé da noite exala! Não me escutas, Jatir! Nem tardo acodes À voz do meu amor, que em vão te chama! Tupã! Lá rompe o sol! Do leito inútil A brisa da manhã sacuda as folhas! (DIAS, Gonçalves. OBRAS POÉTICAS, II, p.17) VOCABULÁRIO arazoia – variante de araçóia, saiote de penas usado pelas mulheres indígenas. bogari – arbusto, trepador, cultivado em jardins, que apresenta flores alvas, de perfume penetrante. tapiz – tapete. viração – vento brando e fresco, aragem, brisa. 1. (Unesp) Baseando-se nos temas presentes no poema de Gonçalves Dias, bem como nos recursos estilísticos usados para expressá-los, situe o texto em um movimento literário e justifique sua resposta. 2. (Unesp) No poema de Gonçalves Dias, o título – “Leito de Folhas Verdes” – possui significação relevante e se manifesta mais claramente na segunda e nona estrofes. O percurso entre essas estrofes demarca uma transformação de sentido. Explique essa transformação e justifique sua resposta. TEXTO PARA A PRÓXIMA QUESTÃO “Seja qual for o lugar em que se ache o poeta, ou apunhalado pelas dores, ou ao lado de sua bela, embalado pelos prazeres; no cárcere, como no palácio; na paz, como sobre o campo de batalha; se ele é verdadeiro poeta, jamais deve esquecer-se de sua missão, e acha sempre o segredo de encantar os sentidos, vibrar as cordas do coração, e elevar o pensamento nas asas da harmonia até as ideias arquétipas.” 3. (Unesp) O trecho foi extraído da “Advertência” ao leitor feita por Domingos José Gonçalves de Magalhães nas páginas iniciais de seu livro SUSPIROS POÉTICOS E SAUDADES. Que representa esta obra na História da Literatura Brasileira? 4. (Unicamp) Casimiro de Abreu é um poeta romântico e Cacaso é um poeta contemporâneo. “E Com Vocês a Modernidade”, de Cacaso, remete-nos ao poema “Meus Oito Anos”, de Casimiro de Abreu. Leia, com atenção, os dois textos a seguir transcritos e, aproximando seus elementos comuns e distinguindo os elementos divergentes, explique como o poema contemporâneo dialoga com a tradição romântica. “Oh! que saudades que tenho Da aurora da minha vida, Da minha infância querida, Que os anos não trazem mais! Que amor, que sonhos, que flores, Naquelas tardes fagueiras à sombra das bananeiras Debaixo dos laranjais!” (Casimiro de Abreu, “Meus oito Anos”)
113VOLUME 3 LINGUAGENS, CÓDIGOS e suas tecnologias “Meu verso é profundamente romântico. Choram cavaquinhos luares se derramam e vai por aí a longa sombra de rumores e ciganos. Ai que saudade que tenho de meus negros verdes anos!” (Cacaso, “E Com Vocês a Modernidade”, poema de Beijo na Boca, 1975) 5. (Fuvest) I. “Pálida, à luz da lâmpada sombria Sobre o leito de flores reclinada, Como a lua por noite embalsamada, Entre as nuvens do amor, ela dormia!” II. “Uma noite, eu me lembro... Ela dormia Numa rede encostada molemente.. Quase aberto o roupão... solto o cabelo E o pé descalço no tapete rente. “ Os dois textos apresentam diferentes concepções da figura da mulher. a) Apontar nos dois textos situações contrastantes que revelam essas diferentes concepções. b) Se ambos os textos são românticos, como explicar a diferença no tratamento do tema? 6. (Fuvest) Canção do exílio Minha terra tem palmeiras, Onde canta o Sabiá; As aves que aqui gorjeiam, Não gorjeiam como lá. Nosso céu tem mais estrelas, Nossas várzeas têm mais flores, Nossos bosques têm mais vida, Nossa vida mais amores. [...] Não permita Deus que eu morra, Sem que eu volte para lá; Sem que desfrute os primores Que não encontro por cá; Sem qu’inda aviste as palmeiras, Onde canta o Sabiá. Gonçalves Dias, Primeiros cantos. Canto do regresso à pátria Minha terra tem palmares Onde gorjeia o mar Os passarinhos daqui Não cantam como os de lá Minha terra tem mais rosas E quase que mais amores Minha terra tem mais ouro Minha terra tem mais terra [...] Não permita Deus que eu morra Sem que volte pra São Paulo Sem que veja a Rua 15 E o progresso de São Paulo. Oswald de Andrade, Pau-Brasil. a) Considerando que os poemas foram escritos, respectivamente, em 1843 e 1924, caracterize seus contextos históricos sob os pontos de vista político e social. b) Comparando os dois poemas, indique uma diferença estética e uma diferença ideológica entre ambos. TEXTOS PARA A PRÓXIMA QUESTÃO Em dezembro Olhai: naquele operário Tudo é força, ânimo e vida; Se o trabalho é o seu calvário Sobe-o de cabeça erguida. Deus deu-lhe um anjo na esposa, E as filhas são tão pequenas Que delas a mais idosa Conta dez anos apenas. Tem cinco, e todas tão belas Que, ao ver-lhes a alegre infância, Julga estar vendo as estrelas E o céu a menos distância; Por isso, quando o trabalho Lhe fatiga as mãos calosas, Tem no suor o fresco orvalho Que dá seiva àquelas rosas, [...] Depois, da ceia ao convite, Toda a família o rodeia À mesa, aonde o apetite Faz soberba a humilde ceia. [...] No entanto, como a existência Não tem em si nada estável, Num dia de decadência Este obreiro infatigável, Por ter gasto a noite inteira Na luta, cede ao cansaço, E cai da máquina à beira, E a roda esmaga-lhe um braço... Ai! o infortúnio é severo! Bastou por tanto um só dia Para entrar o desespero Donde fugiu a alegria! Empenha em vão tudo, a esmo, Pouco dinheiro lhe fica, E não lhe cobre esse mesmo As despesas da botica.
114VOLUME 3 LINGUAGENS, CÓDIGOS e suas tecnologias Pobre mãe, pobres crianças! Já, de momento em momento, Vão minguando as esperanças, Vai crescendo o sofrimento; (Heras e violetas, 1869.) Pedreiro Waldemar Você conhece O pedreiro Waldemar? Não conhece? Mas eu vou lhe apresentar De madrugada Toma o trem da Circular Faz tanta casa E não tem casa pra morar Leva a marmita Embrulhada no jornal Se tem almoço, Nem sempre tem jantar O Waldemar, Que é mestre no ofício Constrói um edifício E depois não pode entrar. (Roberto Lapiccirella (org.), Antologia musical popular brasileira, 1996.) 7. (Unesp) Considerando que os textos mencionam fatos da vida de dois trabalhadores, descreva a diferença observada quanto a menções a sentimentos do operário, no poema de Guilherme Braga, e do pedreiro Waldemar, na letra da marcha de carnaval. 8. (Fuvest) Considere os dois trechos de Machado de Assis relacionados a “Iracema”, publicados na época em que apareceu esse romance de Alencar, e responda ao que se pede. a) A poesia americana está completamente nobilitada; os maus poetas já não podem conseguir o descrédito desse movimento, que venceu com o autor de “I – Juca Pirama”, e acaba de vencer com o autor de “Iracema”. (Adaptado de Machado de Assis, “Crítica literária”). Machado de Assis refere-se, nesse trecho, a um movimento literário chamado, na época, de “poesia americana” ou “escola americana”. Sob que outro nome veio a ser conhecido esse movimento? Quais eram seus principais objetivos? b) Tudo em “Iracema” nos parece primitivo; a ingenuidade dos sentimentos, o pitoresco da linguagem, tudo, até a parte narrativa do livro, que nem parece obra de um poeta moderno, mas uma história de bardo* indígena, contada aos irmãos, à porta da cabana, aos últimos raios do sol que se entristece. (Adaptado de Machado de Assis, “Crítica literária”) *bardo: poeta heroico, entre os celtas e gálios; por extensão, qualquer poeta, trovador etc. No trecho, Machado de Assis afirma que a narração de “Iracema” não parece ter sido feita por um “poeta moderno”, mas, sim, por um “bardo indígena”. Essa afirmação se justifica? Explique sucintamente. Gabarito E.O. Aprendizagem 1. A 2. B 3. B 4. E 5. D 6. C 7. B 8. B 9. C 10. A E.O. Fixação 1. A 2. B 3. A 4. A 5. C 6. C 7. E 8. A 9. A 10. C E.O. Complementar 1. E 2. C 3. A 4. D E.O. Dissertativo 1. a) O poeta estrutura o poema usando a apóstrofe, ou seja, faz a inversão pelos vocativos, “Deus”, “Senhor”. Exemplo: “Deus! ó Deus, onde estás...” “Onde estás, Senhor Deus?...” b) O abandono é marcado pelos versos: “Há dois mil anos te mandei meu grito”; “corre o infinito”. O desespero é marcado pelos versos: “Deus, onde estás que não respondes” “Onde estás, Senhor Deus” “Não descubras no chão” 2. Última geração, preocupada com o social; o uso de exclamações para expressar indignação; grandiloquência. 3. Observamos no texto uma ironia destrutiva, característica do discurso paródico. Exemplo: O título do poema de Cacaso e seus dois primeiros versos remetem a um amor idealizado. Mas, o desejo de realização desse amor é quebrado pelo terceiro verso, que traz a ideia de realidade. 4. Características fortes da segunda geração romântica são a melancolia, o culto à morte, o pessimismo, o amor platônico, e, no poema de Álvares de Azevedo, o sonho de uma concretização amorosa desfaz-se diante de uma realidade que frustra o desejo do eu lírico: “adeus meus sonhos, eu pranteio e morro!”. 5. a) Por se tratar de um vencedor que destaca a coragem do guerreiro Tupi, o narrador confere ainda mais valor às ações do guerreiro vencido. b) A repetição da frase “Meninos, eu vi” confere autoridade ao relato, uma vez que o narrador tinha sido testemunha dos fatos narrados.
115VOLUME 3 LINGUAGENS, CÓDIGOS e suas tecnologias 6. a) A amizade é mais valorizada que o amor, porque logo nos primeiros versos o eu poético lamenta as desilusões amorosas sofridas quando ainda jovem. Por outro lado, a amizade representa o amor sem cobranças, sincero, sem medo de ser traído. Representa a estabilidade amorosa, o acolhimento e a aceitação. b) Trata-se do gênero lírico, composto no período da segunda geração do Romantismo brasileiro, em que se valorizava o subjetivismo, o platonismo, a dor do amor, sonho e escapismo bem como a íntima relação entre a vida e a morte. 7. O poema “Canção do Exílio”, de Gonçalves Dias, filia-se ao Romantismo. E.O. Enem 1. C 2. E 3. B 4. A E.O. UERJ Exame Discursivo 1. Tema: a pátria. Ter a pátria como tema é apenas uma forma de ver o poema e é a que corresponde ao gabarito oficial. Enquanto os primeiros românticos exaltavam, com sentimento nacionalista, as belezas e qualidades da pátria brasileira, Álvares de Azevedo considera a pátria sob uma ótica individual e subjetiva. E.O. Objetivas (Unesp, Fuvest, Unicamp e Unifesp) 1. B 2. E 3. B E.O. Dissertativas (Unesp, Fuvest, Unicamp e Unifesp) 1. Romantismo, pelo tema amoroso e indianista. Também pelo sentimentalismo expresso pelas exclamações. 2. A transformação consiste na expressividade da natureza descrita pelo eu lírico: Na estrofe 2 ela prepara uma cama, para o amante que não veio – estrofe 9. 3. É considerada a obra iniciadora do Romantismo no Brasil. 4. Elementos comuns: subjetivismo, saudosismo. Elementos divergentes: métrica (redondilhos x versos livres); o passado em Casimiro é exaltado, mas em Cacaso é ironizado. 5. a) No texto I, a mulher está distante e envolta numa atmosfera mórbida. No texto II, a mulher é mais terrena e tem maior sensualidade. b) O texto I, de Álvares de Azevedo, pertence à 2a geração romântica e o texto II, de Castro Alves, pertence à 3a geração. 6. a) O contexto histórico de consolidação do Estado nacional brasileiro explica o nacionalismo ufanista de Gonçalves Dias, postura comum aos poetas da época, que tinham como propósito a construção de uma literatura verdadeiramente nacional, que refletisse a identidade da jovem nação brasileira. Nesse contexto se insere o Modernismo, iniciado a partir da Semana de Arte Moderna, em 1922. O propósito dos poetas dessa época, entre eles Oswald de Andrade, era de revolucionar a literatura brasileira. Há, nesse período, também uma tendência nacionalista, mas não o nacionalismo ufanista dos românticos, mas um nacionalismo crítico, capaz de expressar a complexidade da realidade brasileira. b) Diferenças estéticas: o primeiro poema, de Gonçalves Dias, possui rimas e métrica de sete sílabas poéticas – trata-se de uma redondilha maior. Além disso, é uma obra original que descreve a terra brasileira em seus aspectos naturais. O segundo poema, de Oswald de Andrade, estrutura-se predominantemente em sete sílabas poéticas também, com exceção do segundo verso, que possui seis; no entanto, não possui rimas. A temática é urbana e ele parodia “Canção do exílio”, de Gonçalves Dias. Diferenças ideológicas: o primeiro poema pertence ao Romantismo e apresenta um nacionalismo ufanista. Já o segundo é da primeira fase do modernismo e caracteriza-se pela iconoclastia – o que justifica a paródia ao poema do Romantismo –, pela irreverência e pela criticidade. 7. No poema de Guilherme Braga, percebe-se inicialmente que o trabalhador, apesar das dificuldades para sobreviver e sustentar humildemente mulher e filhas, encontra compensação na estrutura familiar que o apoia e alegra. No entanto, um acidente laboral acontece e todo o conjunto vai ser afetado por isso, pois, sem o salário do chefe de família, todos ficam condenados às mais duras privações. Em “Pedreiro Waldemar”, a realidade do trabalhador é vista de forma mais generalizada e concreta. Trata-se de uma denúncia socioeconômica extensiva a todos os trabalhadores, explorados no seu cotidiano e incapacitados de atingirem os níveis de bem estar da classe para quem trabalham. 8. a) Esse movimento também era conhecido como indianismo e marcou o Romantismo. Seus principais objetivos eram a criação de uma literatura nacional (nacionalista), por meio da valorização da língua indígena e a valorização do índio, como modelo de herói à exaltação nacionalista. b) A afirmação de Machado de Assis justifica-se pelo fato de José de Alencar ter criado uma representação da maneira como o índio supostamente pensa, visualiza o seu universo, que é a natureza selvagem, e interage com ele. Para isso, estilizou a linguagem de modo a permitir que a narrativa de “Iracema” se articulasse como prosa-poética, valorizando os efeitos de sentido para compor artisticamente uma imagem idealizada do índio e da natureza.
116VOLUME 3 LINGUAGENS, CÓDIGOS e suas tecnologias E.O. Aprendizagem 1. O realismo foi um movimento de: a) volta ao passado; b) exacerbação ultra-romântica; c) maior preocupação com a objetividade; d) irracionalismo; e) moralismo. 2. A respeito de Realismo, pode-se afirmar: I. Busca o perene humano no drama da existência. II. Defende a documentação de fatos e a impessoalidade do autor perante a obra. III. Estética literária restritamente brasileira; seu criador é Machado de Assis. a) São corretas apenas II e III. b) Apenas III é correta. c) As três afirmações são corretas. d) São corretas I e II. e) As três informações são incorretas. 3. Em texto sobre O Primo Basílio, de Eça de Queirós, Machado de Assis afirma: “o tom carregado das tintas, que nos assusta, para ele é simplesmente o tom próprio.” Assinala que o escritor português já provocara admiração dos leitores com O crime do Padre Amaro e acrescenta: Pois que havia de fazer a maioria, senão admirar a fidelidade de um autor, que não esquece nada, e não oculta nada? Porque a nova poética é isto, e só chegará à perfeição no dia em que nos disser o número exato dos fios de que se compõe um lenço de cambraia ou um esfregão de cozinha. Considerados o estilo de Machado e seu contexto, deve-se compreender as palavras acima destacadas como: a) elogio a uma prática inovadora que o autor brasileiro adotou desde a obra inicial, tornando-se o maior representante do Realismo no Brasil; b) recusa do Realismo entendido como reprodução fotográfica, que não propicia a escolha dos detalhes mais significativos de uma situação ou perfil humano; c) crítica à “velha poética”, que, mais sutil, mais sugeria do que explicitava, negando-se a descrições detalhadas; d) negação dos procedimentos típicos dos escritores românticos, que, evitando a observação da realidade, em nada podiam contribuir para a formação da consciência da nacionalidade; e) elogio ao público pelo reconhecimento do valor do escritor português, fiel à descrição e avaliação da sociedade burguesa que retrata em suas obras. 4. O realismo, como escola literária, é caracterizado: a) pelo exagero da imaginação. b) pelo culto da forma. c) pela preocupação com o fundo. d) pelo subjetivismo. e) pelo objetivismo. 5. Podemos verificar que o Realismo revela: I. senso do contemporâneo. Encara o presente do mesmo modo que romantismo se volta para o passado ou para o futuro. II. o retrato da vida pelo método da documentação, em que a seleção e a síntese operam buscando um sentido para o encadeamento dos fatos. III. técnica minuciosa, dando a impressão de lentidão, de marcha quieta e gradativa pelos meandros dos conflitos, dos êxitos e dos fracassos. Assinale: a) se as afirmativas II e III forem corretas. b) se as três afirmativas forem corretas. c) se apenas a afirmativa III for correta. d) se as afirmativas I e II forem corretas. e) se as três afirmativas forem incorretas. 6. Das características abaixo, assinale a que não pertence ao Realismo: a) Preocupação critica. b) Visão materialista da realidade. c) Ênfase nos problemas morais e sociais. d) Valorização da Igreja. e) Determinismo na atuação das personagens. 7. Assinale a única alternativa incorreta. a) O Realismo não tem nenhuma ligação com o Romantismo. b) A atenção ao detalhe é característica do Realismo. c) Pode-se dizer que alguns autores românticos já possuem certas características realistas. d) O cientificismo do século XIX forneceu a base da visão do mundo adotada, de um modo geral, pelo Naturalismo. e) O Realismo apresenta análise social. ESTÉTICA REALISTA E REALISMO EM PORTUGAL COMPETÊNCIA(s) 5 HABILIDADE(s) 15, 16 e 17 LC AULAS 19 E 20
117VOLUME 3 LINGUAGENS, CÓDIGOS e suas tecnologias 8. (Fac. Albert Einstein - Medicina) Nem este meu supercivilizado amigo compreendia que longe de armazéns servidos por três mil caixeiros; e de mercados onde se despejam vergéis e lezírias de trinta províncias; e de bancos em que retine o ouro universal, e de fábricas fumegando com ânsia, inventando com ânsia; e de bibliotecas abarrotadas, a estalar, com a papelada dos séculos; e de fundas milhas de ruas, cortadas, por baixo e por cima, de fios de telégrafos, de fios de telefones, de canos de gases, de canos de fezes; e da fila atroante dos ônibus, tramways, carroças, velocípedes, calhambeques, parelhas de luxo; e de dois milhões de uma vaga humanidade, fervilhando, a ofegar, através da Polícia, na busca dura do pão ou sob a ilusão do gozo – o homem do século XIX pudesse saborear, plenamente, a delícia de viver. O trecho acima é do romance A Cidade e as Serras, escrito por Eça de Queirós e publicado em 1901. O amigo a que se refere o texto é a) Zé Fernandes que, estando em Paris depois de voltar de Guiães, torna-se um homem feliz porque vive plenamente a civilização. b) Jacinto que, denominado também “o Príncipe da Grã- -Ventura”, nasceu e viveu na França, mas vai encontrar a plena felicidade apenas em contato com a natureza. c) O narrador, que também entende que a civilização da cidade salva o homem e, por isso, enceta uma apetecida romagem às cidades da Europa. d) Jacinto, o D. Galeão que comprara a um príncipe polaco aquele palacete nos Campos Elíseos, e o aparelhou com todos os recursos tecnológicos da época. E.O. Fixação 1. (PUC-SP – Adaptado) A obra “O Primo Basílio”, escrito por Eça de Queirós em 1878, é considerada uma das mais representativas do romance realista-naturalista português. Indique a alternativa a seguir que NÃO confirma o conteúdo desse romance. a) Romance de tese, apresenta os mecanismos do casamento e analisa o comportamento da pequena burguesia de Lisboa. b) Luísa, personagem central do romance, é caracterizada como uma mulher romântica, sonhadora e frágil, comportamento esse que a predispõe ao adultério. c) O narrador do romance aproxima-se bastante do modelo proposto pela literatura realista, que se caracteriza pela objetividade e pelo senso da minúcia. d) Entre as diferentes personagens que se movem na narrativa, está Juliana, uma burguesa que perdera tudo na vida e tornara-se empregada. e) Basílio, personagem que dá titulo ao romance, não se compromete nem se envolve emocionalmente; apenas busca na aventura amorosa uma maneira agradável de ocupar o tempo. 2. (Mackenzie) Assinale a alternativa incorreta a respeito de Eça de Queirós. a) Embora tenha militado intensamente na implantação do Realismo em Portugal, não participou das Conferências do Cassino Lisbonense. b) Costuma-se dividir sua obra em três fases, sendo a segunda aquela em que desenvolveu um estilo realista implacável. c) Sua obra é considerada o ponto mais alto da prosa realista portuguesa. d) Em O CRIME DO PADRE AMARO, critica a sociedade burguesa de Portugal e mostra a influência do clero na sociedade provinciana. e) Em O PRIMO BASÍLIO, temos um romance no qual se denuncia a rede de vícios e de adultérios que infestava a Lisboa de então. 3. (UFRGS) Considere o enunciado a seguir e as três propostas para completá-lo. “O Crime do Padre Amaro”, de Eça de Queirós, é um romance: I. em que a ironia queirosiana se volta para a burguesia lisboeta e suas mazelas. II. no qual o autor denuncia a corrupção da Igreja, criticando, assim, a sociedade portuguesa, marcada por um falso catolicismo. III. cujo painel social abrange todas as classes, denotando, dessa forma, o profundo envolvimento do autor com as tendências socialistas da época. Quais propostas estão corretas? a) Apenas 1. d) Apenas 2 e 3. b) Apenas 2. e) 1, 2 e 3. c) Apenas 3. 4. (Fac. Albert Einstein - Medicina) Então o meu príncipe, sucumbido, arrastou os passos até ao seu gabinete, começou a percorrer todos os aparelhos complementadores e facilitadores da Vida – o seu Telégrafo, o seu Telefone, o seu Fonógrafo, o seu Radiômetro, o seu Grafofone, o seu Microfone, a sua Máquina de Escrever, a sua Máquina de Contar, a sua Imprensa Elétrica, a outra Magnética, todos os seus utensílios, todos os seus tubos, todos os seus fios... Assim um suplicante percorre altares donde espera socorro. E toda a sua suntuosa Mecânica se conservou rígida, reluzindo frigidamente, sem que uma roda girasse, nem uma lâmina vibrasse, para entreter o seu Senhor. O trecho acima é da obra A Cidade e as Serras, de Eça de Queirós, escrita em 1901 e que integra a fase pós-realista da produção do autor. Deste romance é correto afirmar que a) compõe um conjunto de obras batizado pelo autor de “Cenas da Vida Portuguesa”, caracterizando um vasto painel da sociedade lisboeta, retratada em seus múltiplos aspectos. b) analisa a corrupção e a depravação dos costumes numa cidade provinciana fortemente influenciada pelo clero, assim como critica a pequena e média burguesia locais. c) retrata a sociedade de Lisboa, ou seja, a alta burguesia, a aristocracia, a diplomacia, artistas e jornalistas, criando um quadro da vida romântica como sinônimo de comportamento burguês. d) engendra uma oposição entre a industrializada Paris e uma pequena aldeia portuguesa, concluindo que a verdadeira felicidade só pode ser encontrada na vida pura do campo.
118VOLUME 3 LINGUAGENS, CÓDIGOS e suas tecnologias 5. (PUC-MG) Assinale a alternativa que expressa adequadamente tanto o ponto de vista narrativo quanto o enredo do conto “José Matias”, de Eça de Queirós. a) Um professor de filosofia narra a um amigo, enquanto ambos acompanham o enterro de José Matias, a trajetória deste homem que, fiel a um amor de natureza espiritual por uma mulher, recusa todas as oportunidades de concretizar sua paixão por ela. b) Alves Capão narra a um professor de filosofia, enquanto ambos acompanham o enterro do amigo José Matias, a incrível história de Elisa, objeto do desejo de inúmeros homens. c) Uma mulher, após ficar viúva por duas vezes consecutivas, passa a manter um amante, ao mesmo tempo em que alimenta por si a paixão platônica de José Matias, com quem tinha querido se casar. d) Um professor de filosofia narra a um amigo o enterro de José Matias, sujeito romântico que viveu para amar a irresistível Elisa. 6. (UFV) Leia atentamente a proposição: O Romantismo era a apoteose do sentimento; o Realismo é a anatomia do caráter. É a crítica do homem. É a arte que nos pinta a nossos próprios olhos - para nos conhecermos, para que saibamos se somos verdadeiros ou falsos, para condenar o que houver de mau na nossa sociedade. (Eça de Queirós. IN: PROENÇA FILHO, Domício. “Estilos de época na literatura.” São Paulo: Liceu, 1969. p.207) O texto de Eça de Queirós reúne alguns princípios básicos do Realismo. Dentre as alternativas abaixo, assinale aquela que NÃO está em conformidade com as definições do romancista português: a) As preocupações psicológicas da prosa de ficção realista levaram o romancista a uma conscientização do próprio “eu” e à manifestação de sua mais profunda interioridade. b) Em oposição à idealização romântica, o escritor realista procurou descobrir a verdade de seus personagens, dissecando-lhes o comportamento. c) O autor realista retratou com fidelidade a psicologia do personagem, demonstrando um interesse maior pelas fraquezas humanas e pelos dramas existenciais. d) O Realismo foi marcado por um forte espírito crítico e assumiu uma atitude mais combativa diante dos problemas sociais contemporâneos. e) O sentido de observação e análise vigente no Realismo exigiu do escritor uma postura racional e crítica diante das contradições do homem enquanto ser social. 7. (Mackenzie) Suma ciência x Suma potência O ideal exposto anteriormente faz parte da filosofia de vida de importante personagem de Eça de Queirós. O mesmo pode ser encontrado em: a) O primo Basílio. b) O crime do Padre Amaro. c) A Cidade e as serras. d) Os Maias. e) A ilustre casa de Ramires. E.O. Complementar TEXTO PARA AS PRÓXIMAS 5 QUESTÕES O melro veio com efeito às três horas. Luísa estava na sala, ao piano. – Está ali o sujeito do costume – foi dizer Juliana. Luísa voltou-se corada, escandalizada da expressão: – Ah! meu primo Basílio? Mande entrar. E chamando-a: – Ouça, se vier o Sr. Sebastião, ou alguém, que entre. Era o primo! O sujeito, as suas visitas perderam de repente para ela todo o interesse picante. A sua malícia cheia, enfunada até aí, caiu, engelhou-se como uma vela a que falta o vento. Ora, adeus! Era o primo! Subiu à cozinha, devagar, — lograda. – Temos grande novidade, Sr.a Joana! O tal peralta é primo. Diz que é o primo Basílio. E com um risinho: – É o Basílio! Ora o Basílio! Sai-nos primo à última hora! O diabo tem graça! – Então que havia de o homem ser se não parente? – observou Joana. Juliana não respondeu. Quis saber se estava o ferro pronto, que tinha uma carga de roupa para passar! E sentouse à janela, esperando. O céu baixo e pardo pesava, carregado de eletricidade; às vezes uma aragem súbita e fina punha nas folhagens dos quintais um arrepio trêmulo. – É o primo! – refletia ela. – E só vem então quando o marido se vai. Boa! E fica-se toda no ar quando ele sai; e é roupa-branca e mais roupa-branca, e roupão novo, e tipoia para o passeio, e suspiros e olheiras! Boa bêbeda! Tudo fica na família! Os olhos luziam-lhe. Já se não sentia tão lograda. Havia ali muito “para ver e para escutar”. E o ferro estava pronto? Mas a campainha, embaixo, tocou. (Eça de Queirós. O primo Basílio, 1993.) 1. Considere o antepenúltimo parágrafo do texto. Nas reflexões de Juliana, está sugerido o que acaba por ser o tema gerador desse romance de Eça de Queirós, a saber: a) o amor impossível, em nome do qual Luísa abandona o marido. b) a vingança, em que Luísa vitima seu amante Basílio. c) o triângulo amoroso, em que Basílio ocupa o lugar de amante. d) o casamento por interesse, mediante a compra do amor de Basílio. e) o casamento por conveniência, no qual Luísa foi lograda. 2. A leitura do antepenúltimo parágrafo do texto permite concluir que as reflexões de Juliana são pautadas: a) pelo inconformismo com os encontros, que lhe representam mais afazeres. b) pela falta de interesse que tem de se ocupar dos afazeres domésticos. c) pelo ressentimento que experimenta, por não receber a atenção desejada. d) pela insatisfação de contemplar o bem-estar da família. e) pelo descaso que revela ter em relação a Luísa e aos seus familiares.
119VOLUME 3 LINGUAGENS, CÓDIGOS e suas tecnologias 3. A leitura do trecho de O Primo Basílio, em seu conjunto, permite concluir corretamente que essa obra: a) expõe a sociedade portuguesa da época para recuperar a tradição e os vínculos sociais. b) traz as relações humanas de forma idealista, ainda que recupere a ideologia vigente. c) retrata a sociedade portuguesa da época de forma romântica e idealizada. d) faz explicitamente a defesa das instituições sociais, como a família. e) faz um retrato crítico da sociedade portuguesa da época, exibindo os seus costumes. 4. Quando é avisada de que Basílio estava em sua casa, Luísa escandaliza-se com a forma de expressão de sua criada Juliana. A reação de Luísa decorre a) da linguagem descuidada com que a criada se refere a seu primo Basílio, rapaz cortês e de família aristocrática. b) da intimidade que a criada revela ter com o Basílio, o que deixa a patroa enciumada com o comentário. c) do comentário malicioso que a criada faz à presença de Basílio, sugerindo à patroa que deveria envolver-se com o rapaz. d) da indiscrição da criada ao referir-se ao rapaz, o qual, apesar do vínculo familiar, não era visita frequente na casa da patroa. e) da ambiguidade que se pode entrever nas palavras da criada, referindo-se com ironia às frequentes visitas de Basílio à patroa. 5. Como se sabe, Eça de Queirós concebeu o livro “O primo Basílio” como um romance de crítica da sociedade portuguesa, cujas “falsas bases” ele considerava um “dever atacar”. A crítica que ele aí dirige a essa sociedade incide mais diretamente sobre a) o plano da economia, cuja estagnação estava na base da desordem social. b) os problemas de ordem cultural, como os que se verificavam na educação e na literatura. c) a excessiva dependência de Portugal em relação às colônias, responsável pelo parasitismo da burguesia metropolitana. d) a extrema sofisticação da burguesia de Lisboa, cujo luxo e requinte conduziam à decadência dos costumes. e) os grupos aristocráticos, remanescentes da monarquia, que continuavam a exercer sua influência corruptora em pleno regime republicano. E.O. Dissertativo 1. (FGV) Leia o trecho do Manifesto do Partido Comunista, de Marx e Engels. A burguesia submeteu o campo ao domínio da cidade. Ela criou cidades enormes, aumentou o número da população urbana, em face da rural, em alta escala e, assim, arrancou do idiotismo* da vida rural uma parcela significativa da população. Da mesma forma como torna o campo dependente da cidade, ela torna os países bárbaros e semibárbaros dependentes dos civilizados, os povos agrários dependentes dos povos burgueses, o Oriente dependente do Ocidente. Estudos Avançados, vol. 12, nº 134. São Paulo, 1998. *idiotismo: “Idiotismus”, no original. Segundo E. Hobsbawn, tem o sentido de “horizontes estreitos” e não propriamente de “estupidez”. a) Aponte um aspecto em que o processo de modernização tal como tematizado em A cidade e as serras, de Eça de Queirós, assemelha-se à visão desse mesmo processo presente no trecho do Manifesto do Partido Comunista, aqui reproduzido. Justifique sucintamente sua resposta. b) Indique um aspecto em que a visão da oposição entre campo e cidade, em A cidade e as serras, de Eça de Queirós distingue-se, de modo mais nítido, do ponto de vista presente no trecho citado do Manifesto do Partido Comunista. Explique sucintamente. TEXTO PARA A PRÓXIMA QUESTÃO: A(s) questão(ões) a seguir focalizam um trecho de uma crônica do escritor Eça de Queirós (1845-1900) e uma tira da cartunista Ciça (Cecília Whitaker Alves Pinto). XXIV O Parlamento vive na idade de ouro. Vive nas idades inocentes em que se colocam as lendas do Paraíso – quando o mal ainda não existia, quando Caim era um bom rapaz, quando os tigres passeavam docemente par a par com os cordeiros, quando ninguém tinha tido o cavalheirismo de inventar a palavra calúnia! – e a palavra mente! não atraía a bofetada! Senão vejam! Todos os dias aqueles ilustres deputados se dizem uns aos outros: É falso! É mentira! E não se esbofeteiam, não se enviam duas balas! Piedosa inocência! Cordura1 evangélica! É um Parlamento educado por S. Francisco de Sales! O ilustre deputado mente! Ah, minto? Pois bem, apelo... Cuidam que apela para o espalmado da sua mão direita ou para a elasticidade da sua bengala? – Não, meus caros senhores, apela – para o País! Quanta elevação cristã num diploma de deputado! Quando um homem leva em pleno peito, diante de duzentas pessoas que ouvem e de mil que leem, este rude encontrão: É falso! – e diz com uma terna brandura: Pois bem, apelo para o País! – este homem é um santo! Não entrará decerto nunca no Jockey- -Club, donde a mansidão é excluída, mas entrará no reino do Céu, onde a humildade é glorificada. É uma escola de humildade este Parlamento! Nunca em parte nenhuma, como ali, o insulto foi recebido com tão curvada paciência, o desmentido acolhido com tão sentida resignação! Sublime curso de caridade cristã. E veremos os tempos em que um senhor deputado, esbofeteado em pleno e claro Chiado2 , dirá modestamente ao agressor, mostrando o seu diploma: –“Sou deputado da Nação Portuguesa! Apelo para o País! Pode continuar a bater!” (Uma campanha alegre. Agosto, 1871.) 1 - cordura: sensatez, prudência. 2 - Chiado: um bairro tradicional de Lisboa e importante área cultural em meados do século XIX.
120VOLUME 3 LINGUAGENS, CÓDIGOS e suas tecnologias 2. (Unesp) Indique a semelhança e a diferença entre a tira de Ciça e a crônica de Eça de Queirós, no que diz respeito aos alvos da crítica que fazem, e identifique a intenção dessa crítica nos dois textos. E.O. Objetivas (Unesp, Fuvest, Unicamp e Unifesp) 1. (Fuvest) Tendo em vista o conjunto de proposições e teses desenvolvidas em A cidade e as serras, pode-se concluir que é coerente com o universo ideológico dessa obra o que se afirma em: a) A personalidade não se desenvolve pelo simples acúmulo passivo de experiências, desprovido de empenho radical, nem, tampouco, pela simples erudição ou pelo privilégio. b) A atividade intelectual do indivíduo deve-se fazer acompanhar do labor produtivo do trabalho braçal, sem o que o homem se infelicita e desviriliza. c) O sentimento de integração a um mundo finalmente reconciliado, o sujeito só o alcança pela experiência avassaladora da paixão amorosa, vivida como devoção irracional e absoluta a outro ser. d) Elites nacionais autênticas são as que adotam, como norma de sua própria conduta, os usos e costumes do país profundo, constituído pelas populações pobres e distantes dos centros urbanos. e) Uma vida adulta equilibrada e bem desenvolvida em todos os seus aspectos implica a participação do indivíduo na política partidária, nas atividades religiosas e na produção literária. 2. (Unifesp) Leia os versos de Cesário Verde. Duas igrejas, num saudoso largo, Lançam a nódoa negra e fúnebre do clero: Nelas esfumo um ermo inquisidor severo, Assim que pela História eu me aventuro e alargo. (www.astormentas.com) Em relação à Igreja, o eu - lírico assume, nesses versos, uma posição: a) anticlerical. b) submissa. c) evangelizadora. d) saudosista. e) ambígua. TEXTO PARA AS PRÓXIMAS 4 QUESTÕES UMA CAMPANHA ALEGRE, IX Há muitos anos que a política em Portugal apresenta este singular estado: Doze ou quinze homens, sempre os mesmos, alternadamente possuem o Poder, perdem o Poder, reconquistam o Poder, trocam o Poder... O Poder não sai duns certos grupos, como uma pela* que quatro crianças, aos quatro cantos de uma sala, atiram umas às outras, pelo ar, num rumor de risos. Quando quatro ou cinco daqueles homens estão no Poder, esses homens são, segundo a opinião, e os dizeres de todos os outros que lá não estão — os corruptos, os esbanjadores da Fazenda, a ruína do País! Os outros, os que não estão no Poder, são, segundo a sua própria opinião e os seus jornais — os verdadeiros liberais, os salvadores da causa pública, os amigos do povo, e os interesses do País. Mas, coisa notável! — os cinco que estão no Poder fazem tudo o que podem para continuar a ser os esbanjadores da Fazenda e a ruína do País, durante o maior tempo possível! E os que não estão no Poder movem-se, conspiram, cansam-se, para deixar de ser o mais depressa que puderem — os verdadeiros liberais, e os interesses do País! Até que enfim caem os cinco do Poder, e os outros, os verdadeiros liberais, entram triunfantemente na designação herdada de esbanjadores da Fazenda e ruína do País; em tanto que os que caíram do Poder se resignam, cheios de fel e de tédio — a vir a ser os verdadeiros liberais e os interesses do País. Ora como todos os ministros são tirados deste grupo de doze ou quinze indivíduos, não há nenhum deles que não tenha sido por seu turno esbanjador da Fazenda e ruína do País... Não há nenhum que não tenha sido demitido, ou obrigado a pedir a demissão, pelas acusações mais graves e pelas votações mais hostis... Não há nenhum que não tenha sido julgado incapaz de dirigir as coisas públicas — pela Imprensa, pela palavra dos oradores, pelas incriminações da opinião, pela afirmativa constitucional do poder moderador... E todavia serão estes doze ou quinze indivíduos os que continuarão dirigindo o País, neste caminho em que ele vai, feliz, abundante, rico, forte, coroado de rosas, e num chouto** tão triunfante! (*) Pela: bola. (**) Chouto: trote miúdo. (Eça de Queirós. Obras. Porto: Lello & Irmão-Editores, [s.d.].) 3. (Unesp) ... cheios de fel e de tédio... Nesta passagem do sexto parágrafo, o cronista se utiliza figuradamente da palavra fel para significar: a) rancor. b) eloquência. c) esperança. d) medo. e) saudade. 4. (Unesp) Não há nenhum que não tenha sido demitido, ou obrigado a pedir a demissão, pelas acusações mais graves e pelas votações mais hostis... esta frase, o cronista afirma que:
121VOLUME 3 LINGUAGENS, CÓDIGOS e suas tecnologias a) a atividade política está sempre sujeita a acusações descabidas. b) é altamente honroso, em certos casos, demitir-se para evitar males ao estado. c) a defesa de boas ideias frequentemente leva à renúncia. d) os políticos honestos sofrem acusações e perseguições dos desonestos. e) todos os políticos se equivalem pelos desvios da ética. 5. (Unesp) Considerando que o último parágrafo do fragmento representa uma ironia do cronista, seu significado contextual é: a) Portugal vai muito bem, apesar de seus maus governantes. b) A alternância dos grupos no poder faz bem ao país. c) O país experimenta um progresso vertiginoso. d) O país vai mal em todos os sentidos. e) Portugal não se importa com seus políticos. 6. (Unesp) Considere as frases com relação ao que se afirma na crônica de Eça de Queirós: I. Os que estão no poder não querem sair e os que não estão querem entrar. II. Quando um partido ético está no poder, tudo fica melhor. III. Os governantes são bons e éticos, mas vivem a trocar acusações infundadas. IV. Os políticos que estão fora do poder julgam-se os melhores eticamente para governar. As frases que representam a opinião do cronista estão contidas apenas em: a) I e II. b) I e III. c) I e IV. d) I, II e III. e) II, III e IV. TEXTO PARA A PRÓXIMA QUESTÃO O melro veio com efeito às três horas. Luísa estava na sala, ao piano. — Está ali o sujeito do costume – foi dizer Juliana. Luísa voltou-se corada, escandalizada da expressão: — Ah! meu primo Basílio? Mande entrar. E chamando-a: — Ouça, se vier o Sr. Sebastião, ou alguém, que entre. Era o primo! O sujeito, as suas visitas perderam de repente para ela todo o interesse picante. A sua malícia cheia, enfunada até aí, caiu, engelhou-se como uma vela a que falta o vento. Ora, adeus! Era o primo! Subiu à cozinha, devagar, — lograda. — Temos grande novidade, Sra. Joana! O tal peralta é primo. Diz que é o primo Basílio. E com um risinho: — É o Basílio! Ora o Basílio! Sai-nos primo à última hora! O diabo tem graça! — Então que havia de o homem ser se não parente? – observou Joana. Juliana não respondeu. Quis saber se estava o ferro pronto, que tinha uma carga de roupa para passar! E sentou-se à janela, esperando. O céu baixo e pardo pesava, carregado de eletricidade; às vezes uma aragem súbita e fina punha nas folhagens dos quintais um arrepio trêmulo. – É o primo! – refletia ela. – E só vem então quando o marido se vai. Boa! E fica-se toda no ar quando ele sai; e é roupa-branca e mais roupa-branca, e roupão novo, e tipoia para o passeio, e suspiros e olheiras! Boa bêbeda! Tudo fica na família! Os olhos luziam-lhe. Já se não sentia tão lograda. Havia ali muito “para ver e para escutar”. E o ferro estava pronto? Mas a campainha, embaixo, tocou. (Eça de Queirós. O primo Basílio, 1993.) 7. (Unifesp) Observe as passagens do texto: — Ora, adeus! Era o primo! (7.º parágrafo) — E o ferro estava pronto? (penúltimo parágrafo) Nessas passagens, é correto afirmar que se expressa o ponto de vista: a) da personagem Juliana, em discurso direto, independente da voz do narrador. b) da personagem Juliana, sendo que sua voz mescla- -se à voz do narrador. c) do narrador, em terceira pessoa, distanciado, portanto, do ponto de vista de Juliana. d) do narrador, em primeira pessoa, próximo, portanto, do ponto de vista de Juliana. e) da personagem Luísa, em discurso indireto, independente da voz do narrador. E.O. Dissertativas (Unesp, Fuvest, Unicamp e Unifesp) 1. (Fuvest) Leia o excerto de A cidade e as serras, de Eça de Queirós, e responda ao que se pede. Na sala, a tia Vicência ainda nos esperava desconsolada, entre todas as luzes, que ardiam no silêncio e paz do serão debandado: — Ora uma coisa assim! Nem querem ficar para tomar um copinho de geleia, um cálice de vinho do Porto! — Esteve tudo muito desanimado, tia Vicência! – exclamei desafogando o meu tédio. — Todo esse mulherio emudeceu, os amigos com um ar desconfiado... Jacinto protestou, muito divertido, muito sincero: — Não! Pelo contrário. Gostei imenso. Excelente gente! E tão simples... Todas estas raparigas me pareceram ótimas. E tão frescas, tão alegres! Vou ter aqui bons amigos, quando verificarem que eu não sou miguelista. Então contamos à tia Vicência a prodigiosa história de D. Miguel escondido em Tormes... Ela ria! Que coisas! E mau seria... — Mas o Sr. Jacinto, não é? — Eu, minha senhora, sou socialista... a) Defina sucintamente o miguelismo a que se refere o texto e indique a relação que há entre essa corrente política e a história do Brasil. b) Tendo em vista o contexto da obra, explique o que significa, para Jacinto, ser “socialista”.
122VOLUME 3 LINGUAGENS, CÓDIGOS e suas tecnologias 2. (Unicamp) Os trechos a seguir foram extraídos de A cidade e as serras, de Eça de Queirós. Mas dentro, no peristilo, logo me surpreendeu um elevador instalado por Jacinto – apesar do 202 ter somente dois andares, e ligados por uma escadaria tão doce que nunca ofendera a asma da Srª. D. Angelina! Espaçoso, tapetado, ele oferecia, para aquela jornada de sete segundos, confortos numerosos, um divã, uma pele de urso, um roteiro das ruas de Paris, prateleiras gradeadas com charutos e livros. Na antecâmera, onde desembarcamos, encontrei a temperatura macia e tépida duma tarde de Maio, em Guiães. Um criado, mais atento ao termômetro que um piloto à agulha, regulava destramente a boca dourada do calorífero. E perfumadores entre palmeiras, como num terraço santo de Benares, esparziam um vapor, aromatizando e salutarmente umedecendo aquele ar delicado e superfino. Eu murmurei, nas profundidades do meu assombrado ser: — Eis a Civilização! — Meus amigos, há uma desgraça... Dornan pulou na cadeira: – Fogo? — Não, não era fogo. Fora o elevador dos pratos que inesperadamente, ao subir o peixe de S. Alteza, se desarranjara, e não se movia, encalhado! (...) O Grão-Duque lá estava, debruçado sobre o poço escuro do elevador, onde mergulhara uma vela que lhe avermelhava mais a face esbraseada. Espreitei, por sobre o seu ombro real. Em baixo, na treva, sobre uma larga prancha, o peixe precioso alvejava, deitado na travessa, ainda fumegando, entre rodelas de limão. Jacinto, branco como a gravata, torturava desesperadamente a mola complicada do ascensor. Depois foi o Grão-Duque que, com os pulsos cabeludos, atirou um empuxão tremendo aos cabos em que ele rolava. Debalde! O aparelho enrijara numa inércia de bronze eterno. (Eça de Queirós, A cidade e as serras. São Paulo: Companhia Editora Nacional, 2006, p. 28, p. 63.) a) Levando em consideração os dois trechos, explique qual é o significado do enguiço do elevador. b) Como o desfecho do romance se relaciona com esse episódio? 3. (Fuvest) Leia o excerto de A cidade e as serras, de Eça de Queirós, e responda ao que se pede. Era um domingo silencioso, enevoado e macio, convidando às voluptuosidades da melancolia. E eu (no interesse da minha alma) sugeri a Jacinto que subíssemos à basílica do Sacré-Coeur, em construção nos altos de Montmartre. (...) Mas a basílica em cima não nos interessou, abafada em tapumes e andaimes, toda branca e seca, de pedra muito nova, ainda sem alma. E Jacinto, por um impulso bem jacíntico, caminhou gulosamente para a borda do terraço, a contemplar Paris. Sob o céu cinzento, na planície cinzenta, a cidade jazia, toda cinzenta, como uma vasta e grossa camada de caliça* e telha. E, na sua imobilidade e na sua mudez, algum rolo de fumo**, mais tênue e ralo que o fumear de um escombro mal apagado, era todo o vestígio visível de sua vida magnífica. *Caliça: pó ou fragmentos de argamassa ressequida, que sobram de uma construção ou resultam da demolição de uma obra de alvenaria. **Fumo: fumaça. a) Em muitas narrativas, lugares elevados tornam-se locais em que se dão percepções extraordinárias ou revelações. No contexto da obra, é isso que irá acontecer nos “altos de Montmartre”, referidos no trecho? Justifique sua resposta. b) Tendo em vista o contexto histórico da obra, por que é Paris a cidade escolhida para representar a vida urbana? Explique sucintamente. c) Sintetizando-se os termos com que, no excerto, Paris é descrita, que imagem da cidade finalmente se obtém? Explique sucintamente. 4. (Unicamp) Leia o trecho a seguir de A cidade e as serras: — Sabes o que eu estava pensando, Jacinto?... Que te aconteceu aquela lenda de Santo Ambrósio... Não, não era Santo Ambrósio... Não me lembra o santo. Ainda não era mesmo santo, apenas um cavaleiro pecador, que se enamorara de uma mulher, pusera toda a sua alma nessa mulher, só por a avistar a distância na rua. Depois, uma tarde que a seguia, enlevado, ela entrou num portal de igreja, e aí, de repente, ergueu o véu, entreabriu o vestido, e mostrou ao pobre cavaleiro o seio roído por uma chaga! Tu também andavas namorado da serra, sem a conhecer, só pela sua beleza de verão. E a serra, hoje, zás! de repente, descobre a sua grande chaga... É talvez a tua preparação para S. Jacinto. (Eça de Queirós, As cidades e as serras. São Paulo: Ateliê Editorial, 2007, p. 252.) a) Explique a comparação feita por Zé Fernandes. Especifique a que chaga ele se refere. b) Que significado a descoberta dessa chaga tem para Jacinto e para a compreensão do romance? 5. (Unesp) No ano de 1865, em Portugal, se inicia uma grande polêmica. De um lado, Antônio Feliciano de Castilho (1800-1875); de outro, Antero Tarquínio de Quental (1842-1891). Em posfácio ao livro POEMA DA MOCIDADE de Pinheiro Chagas, Castilho referiu-se com pouco caso e algum deboche aos jovens poetas que, em Coimbra, defendiam ideias novas. Antero, um dos mencionados por Castilho, faz logo publicar uma carta em resposta ao velho mestre, na qual retribui as ironias, ao mesmo tempo em que faz ataque cerrado e contundente a Castilho. Em pouco tempo cada um ganha adeptos e com isso se produz uma das mais ricas polêmicas da História da literatura Portuguesa. Tal episódio ficou conhecido como a Questão Coimbrã ou também pelo título recebido pela publicação de Antero: Bom Senso e Bom Gosto. Com base nestas informações e considerando-se o texto dado, responda: a) o que representavam Antônio Feliciano de Castilho e Antero de Quental nessa polêmica? b) o que marca a Questão Coimbrã na História da Literatura Portuguesa? TEXTO PARA A PRÓXIMA QUESTÃO: O fragmento de texto apresentado foi retirado do romance O crime do padre Amaro, de Eça de Queirós.* FRAGMENTO IV Ela então, movendo-se com uma cautela solene, chegou-se ao espelho da sacristia – um antigo espelho de reflexo esverdeado,
123VOLUME 3 LINGUAGENS, CÓDIGOS e suas tecnologias com um caixilho negro de carvalho lavrado, tendo no topo uma cruz. Mirou-se um momento, naquela seda azul-celeste que a envolvia toda, picada do brilho agudo das estrelas, com uma magnificência sideral. 1 Sentia-lhe o peso rico. A santidade que o manto adquirira no contacto com os ombros da imagem penetrava-a duma voluptuosidade beata. Um fluido mais doce que o ar da terra envolvia-a, fazia-lhe passar no corpo a carícia do éter do Paraíso. 2 Parecia-lhe ser uma santa no andor, ou mais alto, no Céu... Amaro babava-se para ela: – Oh filhinha, és mais linda que Nossa Senhora! Ela deu uma olhadela viva ao espelho. Era, decerto, linda. Não tanto como Nossa Senhora... Mas com o seu rosto trigueiro, de lábios rubros, alumiado por aquele rebrilho dos olhos negros, se estivesse sobre o altar, com cantos ao órgão e um culto sussurrando em redor, faria palpitar bem forte o coração dos fiéis... Amaro então chegou-se por detrás dela, cruzou-lhe os braços sobre o seio, apertou-a toda – e estendendo os lábios por sobre os dela, deu-lhe um beijo mudo, muito longo... Os olhos de Amélia cerravam-se, a cabeça inclinava-se-lhe para trás, pesada de desejo. (...) Mas endireitou-se de repente, fixou Amaro batendo as pálpebras como acordada de muito longe; 3 uma onda de sangue escaldou- -lhe o rosto: – Oh Amaro, que horror, que pecado!... – Tolice! disse ele. Mas ela desprendia-se do manto, toda aflita: 4 – Tira-mo, tira-mo! gritava, como se a seda a queimasse. Então Amaro fez-se muito sério. Realmente não se devia brincar com coisas sagradas... (CAPÍTULO XVIII) * Lisboa: Imprensa Nacional-Casa da Moeda, 2000. 6. (Uerj 2019) No fragmento IV, observa-se que Amaro e Amélia têm atitudes distintas após se beijarem na sacristia. Suas atitudes são resultado do conflito entre dois temas presentes na obra de Eça de Queirós. Explicite esses dois temas e, em seguida, retire do fragmento uma expressão que sintetize esse conflito. 7. (Unicamp – adaptado) Sobre “O Crime do Padre Amaro”, romance de Eça de Queirós, o poeta Antero de Quental, em carta dirigida ao autor, afirmou: “A longanimidade, a indiferença inteligente com que V. descreve aquela pobre gente e os seus casos, encantou- -me. Com efeito, aquela gente não merece ódio nem desprezo. Aquilo, no fundo, é uma pobre gente, uma boa gente, vítimas da confusão moral do meio de que nasceram, fazendo o mal inocentemente, em parte porque não entendem mais nem melhor, em parte porque os arrasta a paixão, o instinto, como pobres seres espontâneos, sem a menor transcendência.” a) Aceitando-se essas considerações de Antero de Quental, em qual ato específico residiria o verdadeiro “crime” do Padre Amaro? b) Eça trata com sarcasmo as libertinagens, tanto do clero como de algumas figuras da sociedade portuguesa da província. Se, como disse Antero de Quental, são todos vítimas da confusão moral do meio, arrastados pela paixão e pelo instinto, como se pode justificar o sarcasmo por parte do escritor? 8. (Fuvest) Os romances de Eça de Queirós costumam apresentar críticas a aspectos importantes da sociedade portuguesa, frequentemente acompanhadas de propostas (explícitas ou implícitas) de reforma social. Em A Cidade e as Serras: a) qual o aspecto que se critica nas elites portuguesas? b) qual é a relação, segundo preconiza o romance, que essas elites deveriam estabelecer com as classes subalternas? Gabarito E.O. Aprendizagem 1. C 2. D 3. B 4. E 5. B 6. D 7. A 8. B E.O. Fixação 1. D 2. A 3. B 4. D 5. A 6. A 7. C E.O. Complementar 1. C 2. A 3. E 4. E 5. B E.O. Dissertativo 1. a) Marx e Engels apontam a cidade dominando o campo, fato ilustrado pela primeira parte do enredo de A Cidade e as Serras, de Eça de Queirós. No romance, o protagonista, Jacinto, vive com opulência em Paris, defendendo que o Homem só é superiormente feliz se for superiormente civilizado; no entanto, sua riqueza é oriunda de Tormes, propriedade de sua família situada no interior de Portugal. b) Em A Cidade e as Serras, não há nitidamente a relação de dependência entre campo e cidade. Na segunda parte do enredo, Jacinto passa a viver em Tormes, e encontra a felicidade exatamente ao mesclar elementos campestres com citadinos 2. A crítica expressa na tira de Ciça e na crônica de Eça de Queirós têm o mesmo alvo: parlamentares que legislam em benefício próprio sem se preocuparem em resolver situações prementes que afetam a maior parte da população. Enquanto na primeira, com linguagem verbal e não verbal, é o povo que critica os parlamentares fisiológicos, na segunda, em linguagem verbal, essa denúncia é feita pelo próprio Eça de Queirós numa das crônicas que compõem a obra “Uma campanha alegre”. E.O. Objetivas (Unesp, Fuvest, Unicamp e Unifesp) 1. A 2. A 3. A 4. E 5. D 6. C 7. B
124VOLUME 3 LINGUAGENS, CÓDIGOS e suas tecnologias E.O. Dissertativas (Unesp, Fuvest, Unicamp e Unifesp) 1. a) No final do século XIX, estabeleceu-se na sociedade portuguesa uma visão generalizada de duas correntes políticas que se opunham: miguelismo, defensora da corrente absolutista, e liberalismo, portadora de anseios políticos renovadores. Reagindo negativamente à aclamação de D. Pedro como rei de Portugal, os adeptos de seu irmão D. Miguel, ligados às alas mais conservadoras da burguesia e à igreja católica mais retrógrada, conspiravam secretamente para derrubar os liberais, ligados ao rei. Assim, o miguelismo era considerado pela população como a facção defensora dos princípios absolutistas, símbolo de um estado retrógrado e reativo aos anseios republicanos que já se faziam sentir, o que explica a deserção de todos os convidados da tia Vicência. D. Pedro I do Brasil e IV de Portugal, depois de abdicar do trono brasileiro, parte para Portugal, derrota os miguelistas e abre espaço para o estabelecimento de governo regencial no Brasil enquanto D. Pedro II não atinge a maioridade. b) Em “A cidade e as serras”, desenvolve-se a tese de que a prosperidade social acontece como resultado da intervenção patronal na melhoria de condições de sobrevivência dos trabalhadores, assim como a introdução da tecnologia na produção rural. Trata-se de uma visão reformista, pois não interfere na divisão da propriedade, nem altera a estratificação social do regime vigente, o que contraria a filosofia socialista clássica. Jacinto declara-se “socialista” por ter amenizado as duras condições de vida dos seus empregados, à luz de uma ação assistencial e paternalista. 2. a) No primeiro trecho, o narrador surpreende-se com o requinte das novas tecnologias, entre elas o elevador apetrechado com os mais diversos acessórios para oferecer o máximo de conforto aos usuários: divã, pele de urso, roteiro das ruas de Paris, prateleiras com charutos e livros. Como o elevador servia apenas dois pavimentos ligados por suaves escadas, percebe-se a excessiva preocupação do morador em dispor da tecnologia da época. No segundo trecho, o leitor percebe claramente que essa tecnologia, muitas vezes, mais atrapalhava do que ajudava, pois o peixe, que poderia ter sido transportado facilmente pelas escadas, tinha ficado preso no poço do ascensor, construído para levar a comida da cozinha para a sala de jantar no andar superior. O enguiço do elevador simboliza, assim, os reveses causados pelo excesso de tecnologia. b) O final do romance constitui a síntese dos conceitos apresentados por Jacinto e Zé Fernandes. À tese inicial de que a felicidade se obtém em ambiente urbano, único espaço em que a tecnologia e o conhecimento conferem ao homem o estatuto de civilizado, contrapõe-se a convicção antitética de que a felicidade só pode ser encontrada na vida simples em contato com a natureza. Jacinto encontra equilíbrio emocional, recupera a alegria e realiza-se completamente no regresso ao meio rural dos seus antepassados, na atividade agrícola e no uso sensato da tecnologia. 3. a) Sim, pois Jacinto, que no início da obra era deslumbrado com a Cidade, defendendo a vida urbana como superior, agora, nos “altos de Montmartre”, em um momento de intenso pessimismo, reconhece que tudo o que havia valorizado outrora poderia ser ilusão. b) Paris, no final do século XIX, era a “cidade-luz”, símbolo do mundo moderno, auge da ciência e da cultura, por isso é ela a escolhida, já que, como símbolo, aparece como modelo ideal de progresso, desejado por aqueles que sonham chegar ao mesmo estágio em que ela se encontra. c) No texto, Paris não é mais descrita como a cidade “luminosa” do início do livro, mas como cinzenta e sem vida, “a cidade jazia, toda cinzenta, como uma vasta e grossa camada de caliça e telha”. 4. a) Zé Fernandes compara a impressão que Jacinto teve inicialmente ao entrar em contato com a serra com a do cavaleiro pecador quando foi atraído pela beleza de uma mulher: ambas foram idealizadas, produto do encantamento inicial, que não pressupõe os defeitos. Nenhuma delas tinha revelado ainda os pontos negativos que iriam chocar os seus admiradores: a mulher, com a chaga no peito e a serra, com a chaga da miséria dos trabalhadores. b) Na Quinta de Tormes, Jacinto continuava a experimentar os acessos de idealismo que o acometiam em Paris, desconhecendo o profundo grau de pobreza em que viviam os trabalhadores da sua propriedade. Quando se depara com a realidade, sobressalta-se e dispõe- -se a promover melhorias para atenuar essas condições de penúria. Transforma-se em homem de ação, procura resolver paternalisticamente a situação, a ponto de começar a ser confundido com um “santo” ou com “D.Sebastião”. Introduz no campo alguma tecnologia (telefone), mas sem colidir com a harmonia da vida rústica e a simplicidade da natureza. 5. a) Castilho representa a estética romântica e Quental, a realista. b) Marca o início do Realismo em Portugal. 6. Estão em conflito, no trecho apresentado, a religiosidade e o erotismo, uma vez que Amélia deixa-se envolver pelo pároco enquanto ela veste o manto de Nossa Senhora. Uma expressão que sintetiza tal conflito é “voluptuosidade beata”. 7. a) O ato específico do “crime” do Padre Amaro reside na entrega do filho bastardo, que tivera com Amélia, para uma ama-de-leite. A quebra dos votos, o cinismo e o assassinato são uma série de transgressões feitas pelo padre. b) Eça de Queiroz pretendia por meio do sarcasmo e crítica à sociedade reformular os valores éticos. 8. a) O que se critica da elite portuguesa no romance é o conservadorismo e a futilidade. b) As elites deveriam ter uma relação assistencialista com a classe subalterna.
125VOLUME 3 LINGUAGENS, CÓDIGOS e suas tecnologias E.O. Aprendizagem 1. (ITA) O texto abaixo é o início da obra Dom Casmurro, de Machado de Assis. Uma noite dessas, vindo da cidade para o Engenho Novo, encontrei no trem da Central um rapaz aqui do bairro, que eu conheço de vista e de chapéu. Cumprimentou-me, sentou-se ao pé de mim, falou da lua e dos ministros, e acabou recitando-me versos. A viagem era curta, e os versos pode ser que não fossem inteiramente maus. Sucedeu, porém, que, como eu estava cansado, fechei os olhos três ou quatro vezes; tanto bastou para que ele interrompesse a leitura e metesse os versos no bolso. [...] No dia seguinte entrou a dizer de mim nomes feios, e acabou alcunhando-me Dom Casmurro. Os vizinhos, que não gostam dos meus hábitos reclusos e calados, deram curso à alcunha, que afinal pegou. [...] Não consultes dicionários. Casmurro não está aqui no sentido que eles lhe dão, mas no que lhe pôs o vulgo de homem calado e metido consigo. Dom veio por ironia, para atribuir-me fumos de fidalgo. Tudo por estar cochilando! Também não achei melhor título para a minha narração; se não tiver outro daqui até ao fim do livro, vai este mesmo. Considere as afirmações abaixo referentes ao trecho, articuladas ao romance: I. O narrador já apresenta seu estilo irônico de narrar. II. O narrador assume uma alcunha que o caracteriza ao longo do enredo. III. Os eventos narrados no trecho inicial desencadeiam o conflito central da obra. IV. O título Dom Casmurro não caracteriza adequadamente o personagem Bentinho. Estão corretas apenas: a) I e II. c) II e III. e) III e IV. b) I e III. d) II e IV. 2. (Insper) As imagens abaixo fazem parte do game “Filosofighters”. Inspirado em jogos de lutas, ele propõe uma batalha verbal entre importantes filósofos. Nele os argumentos dos pensadores valem como golpes, conforme se verifica na ilustração abaixo. Relacione as teorias dos pensadores citados ao excerto de Machado de Assis. Por defender posição similar, infere-se que, no jogo, o “filósofo” Quincas Borba NÃO poderia ser adversário de: REALISMO NO BRASIL: MACHADO DE ASSIS COMPETÊNCIA(s) 5 HABILIDADE(s) 15, 16 e 17 LC AULAS 21 E 22
126VOLUME 3 LINGUAGENS, CÓDIGOS e suas tecnologias a) Aristóteles, pois ao definir a paz como “destruição” e a guerra como “conservação”, Quincas Borba recupera a ideia de que “o homem é livre só dentro de regras”. b) Jean Paul-Sartre, pois, assim como o filósofo existencialista, o mentor do Humanitismo mostra que a necessidade de alimentação determina a obediência ou a violação às regras. c) Hobbes, pois a tese do Humanitismo reafirma a ideologia do autor de “Leviatã”, entendendo que o estado natural é o conflito. d) Rousseau, pois defende os mesmos princípios do filósofo iluminista, mostrando que, embora pareça ser uma solução, a guerra traz grandes prejuízos à humanidade. e) nenhum dos pensadores citados, pois Quincas Borba, ao contrário deles, prevê um destino promissor para a humanidade. 3. Jesus, filho de Sirach, se soubesse dos meus primeiros ciúmes, dir-me-ia, como no seu cap.IX, vers. 1: “Não tenhas ciúmes de tua mulher, para que ela não se meta a enganar-te com a malícia que aprender de ti”. Mas eu creio que não, 1 e tu concordarás comigo; se te lembras bem da Capitu menina, hás de reconhecer que uma estava dentro da outra, 2 como a fruta dentro da casca. Machado de Assis, D.Casmurro Considerado o fragmento no contexto do romance, assinale a alternativa correta. a) O narrador onisciente, ao confirmar sua insegurança afetiva, dá pistas ao leitor de que Capitu, mesmo adulta, manteve o comportamento ingênuo da infância, tendo na verdade sido vítima da malícia do amigo Escobar. b) O narrador protagonista, buscando a cumplicidade do leitor (e tu concordarás comigo, ref. 1), afirma sua convicção de que a esposa, já falecida, desde muito jovem já manifestara indícios de um comportamento suspeito. c) A ambiguidade do discurso de Bento Santiago converge para a expressão como a fruta dentro da casca (ref. 2) que pode ser lida tanto como prova da inocência da esposa como, ao contrário, prova de sua culpa. d) Valendo-se de um discurso tendencioso, o advogado Bento Santiago evita ressalvas e modalizações na fala, expondo ao leitor inquestionáveis indícios da traição de sua mulher Capitu. e) O discurso bíblico citado no início do fragmento revela que o narrador, preocupado em caracterizar o comportamento da esposa infiel, omite informações importantes acerca de si próprio. 4. Leia o texto e examine a ilustração: ÓBITO DO AUTOR (...) expirei às duas horas da tarde de uma sexta-feira do mês de agosto de 1869, na minha bela chácara de Catumbi. Tinha uns sessenta e quatro anos, rijos e prósperos, era solteiro, possuía cerca de trezentos contos e fui acompanhado ao cemitério por onze amigos. Onze amigos! Verdade é que não houve cartas nem anúncios. Acresce que chovia – peneirava – uma chuvinha miúda, triste e constante, tão constante e tão triste, que levou um daqueles fiéis da última hora a intercalar esta engenhosa ideia no discurso que proferiu à beira de minha cova: –”Vós, que o conhecestes, meus senhores, vós podeis dizer comigo que a natureza parece estar chorando a perda irreparável de um dos mais belos caracteres que tem honrado a humanidade. Este ar sombrio, estas gotas do céu, aquelas nuvens escuras que cobrem o azul como um crepe funéreo, tudo isto é a dor crua e má que lhe rói à natureza as mais íntimas entranhas; tudo isso é um sublime louvor ao nosso ilustre finado.” (....) (Adaptado. Machado de Assis. Memórias póstumas de Brás Cubas. Ilustrado por Cândido Portinari. Rio de Janeiro: Cem Bibliófilos do Brasil, 1943. p.1.) Compare o texto de Machado de Assis com a ilustração de Portinari. É correto afirmar que a ilustração do pintor: a) apresenta detalhes ausentes na cena descrita no texto verbal. b) retrata fielmente a cena descrita por Machado de Assis. c) distorce a cena descrita no romance. d) expressa um sentimento inadequado à situação. e) contraria o que descreve Machado de Assis. 5. (Ufrgs) Considere as seguintes afirmações sobre o romance Memórias Póstumas de Brás Cubas de Machado de Assis. I. Quando filiado a uma ordem religiosa, Brás contrariou sua natureza interesseira e sentiu-se verdadeiramente recompensado ao diminuir a desgraça alheia. II. Baseado na constatação de que, ao olhar para o próprio nariz, o indivíduo deixa de invejar o que é dos outros, Brás teoriza sobre a utilidade da ponta do nariz para o equilíbrio das sociedades. III. A teoria do Humanitismo de Quincas Borba foi fundamentada no episódio da borboleta negra, que morreu nas mãos do protagonista por não ser azul e bela. Quais estão corretas? a) Apenas I. b) Apenas II. c) Apenas I e II. d) Apenas I e III. e) I, II e III.
127VOLUME 3 LINGUAGENS, CÓDIGOS e suas tecnologias 6. (UCS) Memórias Postumas de Brás Cubas, de Machado de Assis, inaugura a chamada segunda fase da produção literária do autor. A esse momento está também ligada a obra Dom Casmurro. Em relação ao romance Dom Casmurro, analise a veracidade (V) ou a falsidade (F) das proposições abaixo. ( ) A ambiguidade e a incerteza permeiam as ações dos protagonistas e isso não é amenizado nem mesmo no desfecho. ( ) Capitu, Bentinho, Sancha e Escobar formam os pares românticos da trama, marcada pela busca de ascensão social. ( ) O motivo principal que inicialmente impede Bentinho de namorar Capitu é o fato de ela pertencer a uma classe social inferior à dele. Assinale a alternativa que preenche corretamente os parênteses, de cima para baixo. a) V – V – V d) F – F – F b) V – F – F e) F – V – V c) V – F – V 7. (UPF) Leia as seguintes afirmações sobre a obra Memórias póstumas de Brás Cubas, de Machado de Assis: I. A idealização das personagens é um traço significativo do romance. II. Constata-se, na narrativa, uma ruptura com os lugares-comuns que caracterizavam a linguagem no Romantismo. III. No romance, destaca-se a presença de um narrador que é também o protagonista da história e que se apresenta como defunto autor. Qual(is) está(ão) correta(s)? a) Apenas I. d) I e III. b) Apenas II. e) II e III. c) Apenas III. 8. No texto a seguir, Machado de Assis faz uma crítica ao Romantismo: Certo não lhe falta imaginação; mas esta tem suas regras, o astro, leis, e se há casos em que eles rompem as leis e as regras é porque as fazem novas, é porque se chama Shakespeare, Dante, Goethe, Camões. Com base nesse texto, notamos que o autor: a) Preocupa-se com princípios estéticos e acredita que a criação literária deve decorrer de uma elaborada produção dos autores. b) Refuga o Romantismo, na medida em que os autores desse período reivindicaram uma estética oposta à clássica. c) Entende a arte como um conjunto de princípios estéticos consagrados, que não pode ser manipulado por movimentos literários específicos. d) Defende a ideia de que cada movimento literário deve ter um programa estético rígido e inviolável. e) Entende que o Naturalismo e o Parnasianismo constituem soluções ideais para pôr termo à falta de invenção dos românticos. 9. (Upe-ssa) TEXTO 1 Tinha dezessete anos; pungia-me um buçozinho que eu forcejava por trazer a bigode. Os olhos, vivos e resolutos, eram a minha feição verdadeiramente máscula. Como ostentasse certa arrogância, não se distinguia bem se era uma criança, com fumos de homem, se um homem com ares de menino. Ao cabo, era um lindo garção, lindo e audaz, que entrava na vida de botas e esporas, chicote na mão e sangue nas veias, cavalgando um corcel nervoso, rijo, veloz, como o corcel das antigas baladas, que o romantismo foi buscar ao castelo medieval, para dar com ele nas ruas do nosso século. O pior é que o estafaram a tal ponto, que foi preciso deitá-lo à margem, onde o realismo o veio achar, comido de lazeira e vermes, e, por compaixão, o transportou para os seus livros. Sim, eu era esse garção bonito, airoso, abastado; e facilmente se imagina que mais de uma dama inclinou diante de mim a fronte pensativa, ou levantou para mim os olhos cobiçosos. De todas porém a que me cativou logo foi uma... uma... não sei se diga; este livro é casto, ao menos na intenção; na intenção é castíssimo. Mas vá lá; ou se há de dizer tudo ou nada. A que me cativou foi uma dama espanhola, Marcela, a “linda Marcela”, como lhe chamavam os rapazes do tempo. E tinham razão os rapazes. Era filha de um hortelão das Astúrias; disse-mo ela mesma, num dia de sinceridade, porque a opinião aceita é que nascera de um letrado de Madri, vítima da invasão francesa, ferido, encarcerado, espingardeado, quando ela tinha apenas doze anos. Memórias Póstumas de Brás Cubas, de Machado de Assis TEXTO 2 Durante dois anos, o cortiço prosperou de dia para dia, ganhando forças, socando-se de gente. E ao lado o Miranda assustava- -se, inquieto com aquela exuberância brutal de vida, aterrado defronte daquela floresta implacável que lhe crescia junto da casa, por debaixo das janelas, e cujas raízes, piores e mais grossas do que serpentes, minavam por toda a parte, ameaçando rebentar o chão em torno dela, rachando o solo e abalando tudo. Posto que lá na Rua do Hospício os seus negócios não corressem mal, custava-lhe a sofrer a escandalosa fortuna do vendeiro “aquele tipo! um miserável, um sujo, que não pusera nunca um paletó, e que vivia de cama e mesa com uma negra!” À noite e aos domingos, ainda mais recrudescia o seu azedume, quando ele, recolhendo-se fatigado do serviço, deixava-se ficar estendido numa preguiçosa, junto à mesa da sala de jantar, e ouvia, a contragosto, o grosseiro rumor que vinha da estalagem numa exalação forte de animais cansados. Não podia chegar à janela sem receber no rosto aquele bafo, quente e sensual, que o embebedava com o seu fartum de bestas no coito. E depois, fechado no quarto de dormir, indiferente e habituado às torpezas carnais da mulher, isento já dos primitivos sobressaltos que lhe faziam, a ele, ferver o sangue e perder a tramontana, era ainda a prosperidade do vizinho o que lhe obsedava o espírito, enegrecendo-lhe a alma com um feio ressentimento de despeito. Tinha inveja do outro, daquele outro português que fizera fortuna, sem precisar roer nenhum chifre; daquele outro que, para ser mais rico três vezes do que ele, não teve de casar com a filha do patrão ou com a bastarda de algum fazendeiro freguês da casa! Mas então, ele Miranda, que se supunha a última expressão da
128VOLUME 3 LINGUAGENS, CÓDIGOS e suas tecnologias ladinagem e da esperteza; ele, que, logo depois do seu casamento, respondendo para Portugal a um ex-colega que o felicitava, dissera que o Brasil era uma cavalgadura carregada de dinheiro, cujas rédeas um homem fino empolgava facilmente; ele, que se tinha na conta de invencível matreiro, não passava afinal de um pedaço de asno comparado com o seu vizinho! Pensara fazer-se senhor do Brasil e fizera-se escravo de uma brasileira mal-educada e sem escrúpulos de virtude! Imaginara-se talhado para grandes conquistas, e não passava de uma vítima ridícula e sofredora!... Sim! no fim de contas qual fora a sua África?... Enriquecera um pouco, é verdade, mas como? a que preço? hipotecando-se a um diabo, que lhe trouxera oitenta contos de réis, mas incalculáveis milhões de desgostos e vergonhas! Arranjara a vida, sim, mas teve de aturar eternamente uma mulher que ele odiava! E do que afinal lhe aproveitar tudo isso? Qual era afinal a sua grande existência? Do inferno da casa para o purgatório do trabalho e vice-versa! Invejável sorte, não havia dúvida! O Cortiço, de Aluízio de Azevedo Considerando as características temáticas e estilísticas dos textos 1 e 2, analise as proposições a seguir. I. O Texto 1 é um trecho de um importante romance de Machado de Assis, o qual destaca episódios da vida do próprio autor. II. No Texto 1, é possível perceber costumes do cotidiano burguês numa cidade do século XIX, levando o leitor a constatar, pela postura individual do protagonista, um segmento social dosado de humor nas suas próprias experiências. III. No Texto 2, é apresentado o comportamento decadente da sociedade burguesa da segunda metade do século XIX, em que prevalece o interesse individual. IV. As personagens de Aluísio Azevedo, em O Cortiço, são alicerçadas nas ideias de Taine, presas ao ambiente e à hereditariedade, limitadas pelas questões sociais e pelo meio onde vivem suas experiências. Estão CORRETAS: a) I, II, III e IV. b) I, III e IV, apenas. c) II e III, apenas. d) II, III e IV, apenas. e) II e IV, apenas. E.O. Fixação TEXTO PARA A PRÓXIMA QUESTÃO Antes de concluir este capítulo, fui à janela indagar da noite por que razão os sonhos hão de ser assim tão tênues que se esgarçam ao menor abrir de olhos ou voltar de corpo, e não continuam mais. A noite não me respondeu logo. Estava deliciosamente bela, os morros palejavam de luar e o espaço morria de silêncio. Como eu insistisse, declarou-me que os sonhos já não pertencem à sua jurisdição. Quando eles moravam na ilha que Luciano lhes deu, onde ela tinha o seu palácio, e donde os fazia sair com as suas caras de vária feição, dar-me-ia explicações possíveis. Mas os tempos mudaram tudo. Os sonhos antigos foram aposentados, e os modernos moram no cérebro da pessoa. Estes, ainda que quisessem imitar os outros, não poderiam fazê-lo; a ilha dos Sonhos, como a dos Amores, como todas as ilhas de todos os mares, são agora objeto da ambição e da rivalidade da Europa e dos Estados Unidos. Machado de Assis - D. Casmurro palejavam: tornavam pálidos 1. (Mackenzie) Assinale a alternativa correta sobre “D. Casmurro.” a) A linguagem concisa e objetiva do autor são recursos usados a fim de não prejudicar o desenvolvimento linear da narrativa. b) O aproveitamento da mitologia segue o princípio da mimese (“imitação”) de tradição clássico-renascentista. c) A idealização da natureza é prova da influência que o Romantismo exerceu sobre o estilo machadiano. d) A crítica ao determinismo cientificista é índice do estilo naturalista de Machado de Assis. e) A digressão permite ao narrador interromper o fluxo narrativo para tecer comentários críticos em tom irônico. 2. (Mackenzie) Sobre Machado de Assis, é INCORRETO afirmar que: a) seus primeiros romances como RESSURREIÇÃO e IAIÁ GARCIA apresentam traços ainda ligados ao Romantismo. b) sua poesia apresenta, muitas vezes, características próprias do Parnasianismo como a busca da perfeição formal e um vocabulário elevado. c) nos contos, não se percebem elementos que o consagraram nos romances, como o pessimismo, negativismo e leitor incluso. d) os romances de sua segunda fase tornam-se totalmente realistas, evidenciando as características que o diferenciam na literatura brasileira. e) em sua extensa obra, ainda se podem encontrar peças de teatro, crônicas e ensaios. 3. (Mackenzie) Leia as afirmações a seguir: I. DOM CASMURRO, MEMÓRIAS PÓSTUMAS DE BRÁS CUBAS e QUINCAS BORBA são romances narrados em primeira pessoa. II. “Helena” e “Iaiá Garcia” encaixam-se na primeira fase dos romances machadianos, apresentando ainda alguns aspectos ligados ao Romantismo. III. Há exemplos do pessimismo e da ironia de Machado de Assis tanto em seus romances como em seus contos. Assinale: a) se todas estiverem corretas. b) se apenas II e III estiverem corretas. c) se apenas II estiver correta. d) se apenas III estiver correta. e) se todas estiverem incorretas. 4. (Mackenzie) "Imagine a leitora que está em 1813, na igreja do Carmo, ouvindo uma daquelas boas festas antigas, que eram todo o recreio público e toda a arte musical. Sabem o que é uma missa cantada; podem imaginar o que seria uma missa cantada
129VOLUME 3 LINGUAGENS, CÓDIGOS e suas tecnologias daqueles tempos remotos. Não lhe chamo a atenção para os padres e os sacristãos, nem para o sermão, nem para os olhos das moças cariocas, que já eram bonitos nesse tempo, nem para as mantilhas das senhoras graves, os calções, as cabeleiras, as sanefas, as luzes, os incensos, nada. Não falo sequer da orquestra, que é excelente; limito-me a mostrar-lhes uma cabeça branca, a cabeça desse velho que rege a orquestra, com alma e devoção." O trecho anterior, que inicia CATINGA DE ESPONSAIS, extraordinário conto de Machado de Assis, apresenta uma das características de sua prosa. Trata-se: a) do pessimismo. b) do humor. c) da denúncia da hipocrisia e do egoísmo. d) da análise psicológica do personagem. e) do leitor incluso. TEXTO PARA A PRÓXIMA QUESTÃO Algum tempo hesitei se devia abrir estas memórias pelo princípio ou pelo fim, isto é, se poria em primeiro lugar o meu nascimento ou a minha morte. Suposto o uso vulgar seja começar pelo nascimento, duas considerações me levaram a adotar diferente método: a primeira é que eu não sou propriamente um autor defunto, mas um defunto autor, para quem a campa foi outro berço; a segunda é que o escrito ficaria assim mais galante e mais novo. Moisés, que também contou a sua morte, não a pôs no introito, mas no cabo: diferença radical entre este livro e o Pentateuco. Dito isto, expirei às duas horas da tarde de uma sexta-feira do mês de agosto de 1869, na minha bela chácara de Catumbi. Tinha uns sessenta e quatro anos, rijos e prósperos, era solteiro, possuía cerca de trezentos contos e fui acompanhado ao cemitério por onze amigos. Machado de Assis, Memórias póstumas de Brás Cubas. 5. (FGV-RJ) Ao configurar as Memórias póstumas de Brás Cubas como narrativa em primeira pessoa, conforme se verifica no trecho, Machado de Assis: a) deu um passo decisivo em direção ao Realismo, adotando os procedimentos mais típicos dessa escola. b) visa a criticar o subjetivismo romântico e os excessos sentimentalistas em que este incorrera. c) deu a palavra ao proprietário escravista e rentista brasileiro do Oitocentos, para que ele próprio exibisse sua desfaçatez. d) parodia as Memórias de um sargento de milícias, retomando o registro narrativo que as caracterizava. e) confere confiabilidade aos juízos do narrador, uma vez que este conhece os acontecimentos de que participou. TEXTO PARA A PRÓXIMA QUESTÃO CAPÍTULO 73 - O Luncheon* O despropósito fez-me perder outro capítulo. Que melhor não era dizer as coisas lisamente, sem todos estes solavancos! Já comparei o meu estilo ao andar dos ébrios. Se a ideia vos parece indecorosa, direi que ele é o que eram as minhas refeições com Virgília, na casinha da Gamboa, onde às vezes fazíamos a nossa patuscada, o nosso luncheon. Vinho, frutas, compotas. Comíamos, é verdade, mas era um comer virgulado de palavrinhas doces, de olhares ternos, de criancices, uma infinidade desses apartes do coração, aliás o verdadeiro, o ininterrupto discurso do amor. Às vezes vinha o arrufo temperar o nímio adocicado da situação. Ela deixava-me, refugiava-se num canto do canapé, ou ia para o interior ouvir as denguices de Dona Plácida. Cinco ou dez minutos depois, reatávamos a palestra, como eu reato a narração, para desatá-la outra vez. Note-se que, longe de termos horror ao método, era nosso costume convidá-lo, na pessoa de Dona Plácida, a sentar-se conosco à mesa; mas Dona Plácida não aceitava nunca. Machado de Assis, Memórias póstumas de Brás Cubas. (*) Luncheon (Ing.): lanche, refeição ligeira, merenda. 6. (FGV-RJ) Considere as seguintes afirmações sobre o excerto das Memórias póstumas de Brás Cubas, obra fundamental da literatura brasileira: I. Depois de haver comparado seu estilo ao andar dos ébrios, o narrador resolve compará-lo também ao “luncheon”, penitenciando-se, assim, dos vícios que praticara em vida – entre eles, o do alcoolismo. II. Nas comparações com o “luncheon”, presentes no excerto, o narrador revela ser o capricho (ou arbítrio) o móvel dominante tanto de seu estilo quanto das ações que relata. III. Na autocrítica do narrador, realizada com ingenuidade no excerto, oculta-se a crítica do realista Machado de Assis ao Naturalismo dominante em sua época. Está correto o que se afirma em: a) I, apenas. b) II, apenas. c) I e II, apenas. d) II e III, apenas. e) I, II e III. TEXTO PARA A PRÓXIMA QUESTÃO É interessante notar como, em Machado de Assis, se aliavam e se irmanavam a superioridade de espírito, a maior liberdade interior e um marcado convencionalismo. Dois termos que se repelem, pensador e burocrata, são os que melhor o exprimem. Entre Memórias póstumas de Brás Cubas e Quincas Borba, a vida nacional passara pelas profundas modificações da Abolição e da República. − Que pensa de tudo isso Machado de Assis? indagava Eça de Queirós. À queda da Monarquia, disse Machado no seu gabinete de burocrata, diante da conveniência de tirar da parede o retrato do imperador: − Entrou aqui por uma portaria, só sairá por outra portaria. Era o que tinha a dizer aos republicanos, atônitos com esse acatamento ao ato de um regime findo. Adaptado de: PEREIRA, Lúcia Miguel. Machado de Assis. 6. ed. rev., Belo Horizonte: Itatiaia; São Paulo: EDUSP, 1988, p. 208
130VOLUME 3 LINGUAGENS, CÓDIGOS e suas tecnologias 7. (PUC-CAMP) Nos romances maduros de Machado de Assis, de que são exemplos Memórias póstumas de Brás Cubas e Quincas Borba, e diante das profundas modificações que foram a Abolição e a República, o narrador machadiano a) costuma discorrer longamente em apoio a essas duas transformações históricas. b) mostra-se inteiramente avesso a ambas, por serem contrárias às suas convicções. c) mantém-se um tanto distante, pois sua crítica atua mais incisivamente pela ironia sutil. d) constitui, juntamente com o eu poético de Castro Alves, o duo mais combativo das letras do século XIX. e) posiciona-se com grande energia, abraçando os mais altos ideais do positivismo que predominava na época. E.O. Complementar 1. Sobre “Dom Casmurro”, de Machado de Assis, leia as afirmações a seguir e depois assinale a alternativa CORRETA: I. A obra mais conhecida de Machado de Assis tem como temática o adultério feminino, a exemplo de outras narrativas suas contemporâneas. II. O ciúme foi a causa da separação de Bentinho e Capitu, pois o fato de que Ezequiel é filho de Bentinho fica comprovado na narrativa. III. Ao criticar a sociedade de seu tempo, Machado de Assis desnuda as relações interpessoais, sempre egoístas, como acontece com Bentinho e Capitu. IV. Capitu, a mulher dissimulada, de olhos de cigana oblíqua, não consegue dissimular sua dor, por ocasião da morte de Escobar. V. Dom Casmurro é o marco inicial do Realismo brasileiro, de que Machado de Assis é o maior representante. a) As afirmações I, III e IV estão corretas. b) As afirmações II, III e V estão corretas. c) Somente a afirmação I está correta. d) Somente a afirmação V está errada. e) Nenhuma das afirmações acima está errada. 2. A ficção realista de Machado de Assis, no século XIX, a) inaugura a literatura regionalista de problemática existencial. b) continua uma literatura de caráter cientificista iniciada no Naturalismo. c) cria uma literatura que retrata os conflitos das camadas populares. d) incorpora a temática da oposição entre meio urbano e meio rural. e) antecipa o romance moderno de linha introspectiva. TEXTO PARA A PRÓXIMA QUESTÃO Joaquim Maria Machado de Assis é cronista, contista, dramaturgo, jornalista, poeta, novelista, romancista, crítico e ensaísta. Em 2008, comemora-se o centenário de sua morte, ocorrida em setembro de 1908. Machado de Assis é considerado o mais canônico escritor da Literatura Brasileira e deixou uma rica produção literária composta de textos dos mais variados gêneros, em que se destacam o conto e o romance. Segue o texto desse autor, em poesia. A Carolina Querida, ao pé do leito derradeiro Em que descansas dessa longa vida, Aqui venho e virei, pobre querida, Trazer-te o coração do companheiro. Pulsa-lhe aquele afeto verdadeiro Que, a despeito de toda a humana lida, Fez a nossa existência apetecida E num recanto pôs um mundo inteiro. Trago-te flores, – restos arrancados Da terra que nos viu passar unidos, São pensamentos idos e vividos. Que eu, se tenho nos olhos mal feridos Pensamentos de vida formulados, São pensamentos idos e vividos. (Machado de Assis) 3. (Ibmecrj) Quanto à sua forma, podemos afirmar que o texto: a) Apresenta versos regularmente rimados e metrificados, bem ao gosto da tradição estética clássica. b) Apresenta versos livres e sem rimas, conforme a tendência moderna da poesia. c) É um soneto, forma poética desprestigiada pela tradição clássica. d) Apresenta estrofação regular, típica de rondós. e) Não contém preocupações formais. 4. Todas as passagens de D.Casmurro, de Machado de Assis, são exemplos da dissimulação de Capitu, na visão de Bentinho, EXCETO: a) “A confusão era geral. No meio dela, Capitu olhou alguns instantes para o cadáver tão fixa, tão apaixonadamente fixa, que não admira-lhe saltassem algumas lágrimas poucas e caladas...” b) “– E você, Capitu, interrompeu minha mãe voltando-se para a filha do Pádua que estava na sala, com ela, – você não acha que o nosso Bentinho dará um bom padre?” “ - Acho que sim, senhora, respondeu Capitu cheia de convicção.” c) “Capitu estava melhor e até boa. Confessou-me que apenas tivera uma dor de cabeça de nada, mas agravara o padecimento para que eu fosse divertir-me. Não falava alegre, o que me fez desconfiar que mentia (...)” d) “Eu levantei-me depressa e não achei compostura: meti os olhos pelas cadeiras. Ao contrário, Capitu ergueu-se naturalmente e perguntou-lhe se a febre aumentara (...) Como era possível que Capitu se governasse tão facilmente e eu não?” e) “Ouvimos passos no corredor; era D.Fortunata. Capitu compôs-se depressa, tão depressa que, quando a mãe apontou à porta, ela abanava a cabeça e ria. Nenhum laivo amarelo, nenhuma contração de acanhamento (...)”
131VOLUME 3 LINGUAGENS, CÓDIGOS e suas tecnologias 5. (Ufrrj) O tema do ciúme foi abordado por Machado de Assis em “Dom Casmurro:” “CAPÍTULO CXXXV OTELO Jantei fora. De noite fui ao teatro. Representava-se justamente Otelo, que eu não vira nem lera nunca; sabia apenas o assunto, e estimei a coincidência. (...) O último ato mostrou-me que não eu, mas Capitu deveria morrer. Ouvi as súplicas de Desdêmona, as suas palavras amorosas e puras, e a fúria do mouro, e a morte que este lhe deu entre aplausos frenéticos do público. – E era inocente, vinha eu dizendo rua abaixo; – que faria o público, se ela deveras fosse culpada, tão culpada como Capitu?” (...) (ASSIS, Machado de. “Obra completa”. Rio, Aguilar, 1982.) No fragmento acima, observa-se uma característica recorrente nos romances machadianos, que é a: a) crítica aos excessos sentimentais do personagem. b) ausência de monólogos interiores. c) preocupação com questões político-sociais. d) abordagem de tema circunscrito à época realista. e) análise do comportamento humano. E.O. Dissertativo 1. (UFU) “NÃO HOUVE LEPRA Não houve lepra, mas há febres por todas essas terras humanas, sejam velhas ou novas. Onze meses depois, Ezequiel morreu de uma febre tifoide, e foi enterrado nas imediações de Jerusalém, onde os dois amigos da universidade lhe levantaram um túmulo com esta inscrição, tirada do profeta Ezequiel, em grego: ‘Tu eras perfeito nos teus caminhos’. Mandaram-me ambos os textos, grego e latino, o desenho da sepultura, a conta das despesas e o resto do dinheiro que ele levava; pagaria o triplo para não tornar a vê-lo. Como quisesse verificar o texto, consultei a minha Vulgata, e achei que era exato, mas tinha ainda um complemento: ‘Tu eras perfeito nos teus caminhos, desde, o dia da tua criação’. Parei e perguntei calado: ‘Quando seria o dia da criação de Ezequiel?’ Ninguém me respondeu. Eis aí mais um mistério para ajuntar aos tantos deste mundo. Apesar de tudo, jantei bem e fui ao teatro.” (Machado de Assis. “Dom Casmurro” - Cap. CXLVI) Este capítulo de “Dom Casmurro” permite classificar a narrativa de Machado de Assis como realista. Desenvolva essa ideia, comprovando-a com dois elementos do texto 2. (UFV) Observe como o narrador inicia o primeiro capítulo de “Memórias Póstumas de Brás Cubas”: Algum tempo hesitei se devia abrir estas memórias pelo princípio ou pelo fim, isto é, se poria em primeiro lugar o meu nascimento ou a minha morte. Suposto o uso vulgar seja começar pelo nascimento, duas considerações me levaram a adotar diferente método: a primeira é que eu não sou propriamente um autor defunto, mas um defunto autor , para quem a campa foi outro berço; a segunda é que escrito ficaria assim mais galante e mais novo. (ASSIS, Machado de. “Obra completa.” In: COUTINHO, Afrânio, org. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1992. p. 513. v. I) Escreva, de forma concisa, sobre o narrador-personagem, Brás Cubas, apontando elementos que justifiquem a postura revolucionária de Machado de Assis, como iniciador do movimento literário realista. 3. (UFMG) “Vim... Mas não; não alonguemos este capítulo. Às vezes, esqueço-me a escrever, e a pena vai comendo papel, com grave prejuízo meu, que sou autor. Capítulos compridos quadram melhor a leitores pesadões; e nós não somos um público infólio, mas in-12, pouco texto, larga margem, tipo elegante, corte dourado e vinhetas... principalmente vinhetas... Não, não alonguemos o capítulo.” REDIJA um pequeno texto justificando a maneira como o narrador de MEMÓRIAS PÓSTUMAS DE BRÁS CUBAS, de Machado de Assis, considera o leitor. TEXTO PARA A PRÓXIMA QUESTÃO A questão deve ser respondida com base no fragmento textual a seguir, retirado do capítulo "O debuxo e o colorido", do romance Dom Casmurro, de Machado de Assis. Quando nem mãe nem filho estavam comigo o meu desespero era grande, e eu jurava matá-los a ambos, ora de golpe, ora devagar, para dividir pelo tempo da morte todos os minutos da vida embaçada e agoniada. Quando, porém, tornava a casa e via no alto da escada a criaturinha que me queria e esperava, ficava desarmado e diferia o castigo de um dia para outro. (Machado de Assis - Obra Completa. Organizada por Afrânio Coutinho. Rio de Janeiro: Aguilar, 1971.) 4. (UFRN) A partir da fala do narrador-personagem, reproduzida acima, caracterize o relacionamento entre Bentinho (pai) e Ezequiel (filho) ao longo do romance. Justifique sua resposta. 5. (UFSCar) A questão baseia-se no texto a seguir, de Machado de Assis. Começo a arrepender-me deste livro. Não que ele me canse; eu não tenho que fazer; e, realmente, expedir alguns magros capítulos para esse mundo sempre é tarefa que distrai um pouco da eternidade. Mas o livro é enfadonho, cheira a sepulcro, traz certa contração cadavérica; vício grave, e aliás ínfimo, porque o maior defeito deste livro és tu, leitor. Tu tens pressa de envelhecer, e o livro anda devagar; tu amas a narração direita e nutrida, o estilo regular e fluente, e este livro e o meu estilo são como os ébrios, guinam à direita e à esquerda, andam e param, resmungam, urram, gargalham, ameaçam o céu, escorregam e caem... O trecho apresentado faz parte de “Memórias póstumas de Brás Cubas”, obra que tem como narrador o falecido Brás Cubas. Daí poder-se entender que escrever distrai um pouco da eternidade. a) O narrador tem toda a eternidade para escrever. O leitor, porém, tem um tempo diferente. Essa oposição estabelece que tipo de relação entre a obra e o leitor, segundo o narrador? b) O narrador compara seu estilo aos ébrios (bêbados), usando orações coordenadas e curtas. O que essas orações sugerem?
132VOLUME 3 LINGUAGENS, CÓDIGOS e suas tecnologias 6. (UNB) O emplasto Um dia de manhã, estando a passear na chácara, 3 pendurou-se- -me uma ideia no trapézio que eu tinha no cérebro. Uma vez pendurada, entrou a bracejar, a pernear, a fazer as mais 1 arrojadas cambalhotas. Eu deixei-me estar a contemplá-la. Súbito, deu um grande salto, estendeu os braços e as pernas, 4 até tomar a forma de um X: decifra-me ou devoro-te. Essa ideia era nada menos que a invenção de um medicamento sublime, um emplasto anti-hipocondríaco, destinado a aliviar a nossa melancólica humanidade. 6 Na petição de privilégio que então redigi, chamei a atenção do governo para esse resultado, verdadeiramente cristão. Todavia, não neguei aos amigos as vantagens pecuniárias que deviam resultar da distribuição de um produto de tamanhos e tão profundos efeitos. Agora, porém, que estou cá do outro lado da vida, posso confessar 7 tudo: o que me influiu principalmente foi o gosto de 9 ver impressas nos jornais, mostradores, folhetos, esquinas e, enfim, nas caixinhas do remédio, 8 estas três palavras: Emplasto Brás Cubas. Para que negá-lo? Eu tinha a paixão do arruído, do cartaz, do foguete de lágrimas. Talvez os 11modestos me arguam esse defeito; fio, porém, que esse talento me 10hão de reconhecer os 12hábeis. Assim, 5 a minha ideia trazia duas faces, como as medalhas, uma virada para o público, outra para mim. De um lado, filantropia e lucro; de outro, 2 sede de nomeada. Digamos: — amor da glória. Um tio meu, cônego de prebenda inteira, costumava dizer que o amor da glória temporal era a perdição das almas, que só devem cobiçar a glória eterna. 13Ao que retorquia outro tio, oficial de um dos antigos terços de infantaria, que o amor da glória era a coisa mais verdadeiramente humana que há no homem e, consequentemente, a sua mais genuína feição. Decida o leitor entre o militar e o cônego; eu volto ao emplasto. Machado de Assis. Memórias póstumas de Brás Cubas. Obra completa, v. I. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1992, p. 514-5 (com adaptações). Com relação ao texto acima, à obra Memórias Póstumas de Brás Cubas e a aspectos por eles suscitados, julgue os itens subsequentes. a) O compromisso do narrador com a verdade dos fatos, honestidade decorrente da vida além-túmulo, e o seu interesse pela ciência e pela filosofia aproximam a narrativa de Memórias Póstumas de Brás Cubas da forma de narrar do Naturalismo, ou seja, da descrição objetiva da realidade. b) As “arrojadas cambalhotas” (ref. 1) da ideia inventiva de Brás Cubas relacionam-se à forma como Machado de Assis compôs esse romance, no qual o narrador intercala a narrativa de suas memórias com divagações acerca de temas diversos, o que produz constante vaivém na condução do enredo. c) A narrativa das diferentes faces de uma mesma ideia expressa a singularidade do realismo machadiano, que ultrapassa as convenções realistas — focadas em desvelar as razões econômicas das causas humanitárias — e alcança dimensão mais profunda: a de desnudar o cinismo com que filantropia e lucro são reduzidos a caprichos do defunto autor em sua “sede de nomeada” (ref. 2). d) A partir de Memórias Póstumas de Brás Cubas, o conjunto da obra machadiana divide-se em duas fases: a primeira é constituída por obras em que o foco narrativo é em terceira pessoa e o tema revela interesse pela sorte dos pobres, como em Helena, por exemplo; a segunda é formada de obras construídas a partir da perspectiva do narrador-personagem associado à classe dominante local, a exemplo de Dom Casmurro. e) No trecho “pendurou-se-me uma ideia no trapézio que eu tinha no cérebro” (ref. 3), a combinação dos pronomes “se” e “me” exemplifica a variante padrão da língua portuguesa à época do texto. No que se refere ao português contemporâneo, uma estrutura equivalente que manteria a ênfase no sujeito da oração e a correção gramatical seria a seguinte: uma ideia pendurou-se no trapézio que eu tinha em meu cérebro. f) Se considerada a noção de signo linguístico no trecho “até tomar a forma de um X: decifra-me ou devoro-te” (ref. 4), observa-se uma relação não arbitrária entre o significado de “X” e o seu significante, assim como acontece com o signo “ideia” no trecho “a minha ideia trazia duas faces, como as medalhas” (ref. 5). g) No trecho “Na petição de privilégio que então redigi” (ref. 6), o pronome tem a função de complemento do verbo. h) O termo “tudo” (ref. 7) especifica e resume as ideias evocadas na estrutura após o sinal de dois- -pontos. i) O termo “estas três palavras” (ref. 8) é complemento direto de “ver” (ref. 9) e sintetiza o termo coordenado que antecede essa expressão. j) Em “hão de reconhecer” (ref. 10), o verbo auxiliar denota tempo futuro e de obrigatoriedade de ação, o que ratifica, no nível estrutural, a oposição postulada pelo autor entre “modestos” (ref. 11) e “hábeis” (ref. 12). k) No texto, o vocábulo “sede” (ref. 2) significa ânsia, desejo e distingue-se de sede, local onde funciona a representação principal de firma ou empresa. No que se refere a esses dois vocábulos, o acento tônico é o recurso da língua com capacidade de discriminar os significados distintos. l) No trecho “Ao que retorquia outro tio, oficial” (ref. 13), observa-se oração adjetiva como elemento modificador do aposto, que inicia o período. 7. (UFMG) Leia estes trechos: TRECHO 1 “Tinham batido quatro horas no cartório do tabelião Vaz Nunes, à Rua do Rosário. Os escreventes deram ainda as últimas penadas: depois limparam as penas de ganso na ponta de seda preta que pendia da gaveta ao lado; fecharam as gavetas, concertaram os papéis, arrumaram os autos e os livros, lavaram as mãos; alguns, que mudavam de paletó à entrada, despiram o do trabalho e enfiaram o da rua; todos saíram. Vaz Nunes ficou só.” MACHADO DE ASSIS, J.M. O empréstimo. In: “Papéis avulsos”. São Paulo: Martin Claret, 2007. p.120-121. TRECHO 2 “Um dia, andando a passeio com Diogo Meireles, nesta mesma cidade Fuchéu, naquele ano de 1552, sucedeu deparar-se-nos
133VOLUME 3 LINGUAGENS, CÓDIGOS e suas tecnologias um ajuntamento de povo, à esquina de uma rua, em torno a um homem da terra, que discorria com grande abundância de gestos e vozes. O povo, segundo o esmo mais baixo, seria passante de cem pessoas, varões somente, e todos embasbacados.” MACHADO DE ASSIS, J.M. O segredo do bonzo. In: “Papéis avulsos”. São Paulo: Martin Claret, 2007. p.102. REDIJA um texto, caracterizando a posição do narrador em relação ao acontecimento narrado em cada um desses trechos. 8. (ITA) O texto abaixo é um dos mais importantes capítulos do romance “Dom Casmurro”, de Machado de Assis. Leia-o com atenção e responda às perguntas seguintes. Capítulo 123: “Olhos de ressaca” Enfim, chegou a hora da encomendação e da partida. Sancha quis despedir-se do marido, e o desespero daquele lance consternou a todos. Muitos homens choravam também, as mulheres todas. Só Capitu, amparando a viúva, parecia vencer-se a si mesma. Consolava a outra, queria arrancá-Ia dali. A confusão era geral. No meio dela, Capitu olhou alguns instantes para o cadáver tão fixa, tão apaixonadamente fixa, que não admira lhe saltassem algumas lágrimas poucas e caladas... As minhas cessaram logo. Fiquei a ver as dela; Capitu enxugou- -as depressa, olhando a furto para a gente que estava na sala. Redobrou de carícias para a amiga, e quis levá-la; mas o cadáver parece que a retinha também. Momento houve em que os olhos de Capitu fitaram o defunto, quais os da viúva, sem o pranto nem palavras desta, mas grandes e abertos, como a vaga do mar lá fora, como se quisesse tragar também o nadador da manhã. a) Como é o comportamento de Capitu no velório de Escobar? O que chama a atenção de Bentinho no comportamento de Capitu? b) Por que essa passagem é importante no desenvolvimento do romance de Machado de Assis? E.O. UERJ Exame Discursivo TEXTO PARA A PRÓXIMA QUESTÃO O DISCURSO Natividade é que não teve distrações de espécie alguma. Toda ela estava nos filhos, e agora especialmente na carta e no discurso. Começou por não dar resposta às 1 efusões políticas de Paulo; foi um dos conselhos do conselheiro. Quando o filho tornou pelas férias tinha esquecido a carta que escrevera. O discurso é que ele não esqueceu, mas quem é que esquece os discursos que faz? Se são bons, a memória os grava em bronze; se ruins, deixam tal ou qual amargor que dura muito. 2 O melhor dos remédios, no segundo caso, é supô-los excelentes, e, se a razão não aceita esta imaginação, consultar pessoas que a aceitem, e crer nelas. A opinião é um velho óleo incorruptível. Paulo tinha talento. O discurso naquele dia podia pecar aqui ou ali por alguma ênfase, e uma ou outra ideia vulgar e exausta. Tinha talento Paulo. Em suma, o discurso era bom. Santos achou-o excelente, leu-o aos amigos e resolveu transcrevê-lo nos jornais. 3 Natividade não se opôs, mas entendia que algumas palavras deviam ser cortadas. – Cortadas, por quê? perguntou Santos, e ficou esperando a resposta. – Pois você não vê, Agostinho; estas palavras têm sentido republicano, explicou ela relendo a frase que a afligira. Santos ouvia-as ler, leu-as para si, e não deixou de lhe achar razão. Entretanto, não havia de as suprimir. – Pois não se transcreve o discurso. – Ah! isso não! O discurso é magnífico, e não há de morrer em S. Paulo; é preciso que a Corte o leia, e as províncias também, e até não se me daria fazê-lo traduzir em francês. Em francês, pode ser que fique ainda melhor. – Mas, Agostinho, isto pode fazer mal à carreira do rapaz; o imperador pode ser que não goste... Pedro, que assistia desde alguns instantes ao debate, interveio docemente para dizer que os receios da mãe não tinham base; era bom pôr a frase toda, e, a rigor, não diferia muito do que os liberais diziam em 1848. – Um monarquista liberal pode muito bem assinar esse trecho, concluiu ele depois de reler as palavras do irmão. – Justamente! 4 assentiu o pai. 5 Natividade, que em tudo via a inimizade dos gêmeos, suspeitou que o intuito de Pedro fosse justamente comprometer Paulo. Olhou para ele a ver se lhe descobria essa intenção torcida, mas a cara do filho tinha então o aspecto do entusiasmo. Pedro lia trechos do discurso, acentuando as belezas, repetindo as frases mais novas, cantando as mais redondas, revolvendo-as na boca, tudo com tão boa sombra que a mãe perdeu a suspeita, e a impressão do discurso foi resolvida. Também se tirou uma edição em folheto, e o pai mandou encadernar ricamente sete exemplares, que levou aos ministros, e um ainda mais rico para a Regente. MACHADO DE ASSIS Esaú e Jacó. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1997. 1 efusão − manifestação expansiva de sentimentos 4 assentir − concordar 1. (Uerj 2017) Natividade, que em tudo via a inimizade dos gêmeos, suspeitou que o intuito de Pedro fosse justamente comprometer Paulo. Olhou para ele a ver se lhe descobria essa intenção torcida, mas a cara do filho tinha então o aspecto do entusiasmo. Pedro lia trechos do discurso, acentuando as belezas, repetindo as frases mais novas, cantando as mais redondas, revolvendo-as na boca, tudo com tão boa sombra que a mãe perdeu a suspeita, e a impressão do discurso foi resolvida. (ref. 5) Nesse trecho, observa-se que Pedro, mesmo com posição política contrária à de Paulo, lê com entusiasmo o discurso do irmão, trocando de lugar com ele. Essa troca de papéis sugere uma crítica acerca da política daquela época. Explicite essa crítica. Aponte, ainda, a relação de sentido que a oração sublinhada estabelece com a anterior.
134VOLUME 3 LINGUAGENS, CÓDIGOS e suas tecnologias E.O. Objetivas (Unesp, Fuvest, Unicamp e Unifesp) TEXTO PARA A PRÓXIMA QUESTÃO (…) Um poeta dizia que o menino é o pai do homem. Se isto é verdade, vejamos alguns lineamentos do menino. Desde os cinco anos merecera eu a alcunha de “menino diabo”; e verdadeiramente não era outra coisa; fui dos mais malignos do meu tempo, arguto, indiscreto, traquinas e voluntarioso. Por exemplo, um dia quebrei a cabeça de uma escrava, porque me negara uma colher do doce de coco que estava fazendo, e, não contente com o malefício, deitei um punhado de cinza ao tacho, e, não satisfeito da travessura, fui dizer à minha mãe que a escrava é que estragara o doce “por pirraça”; e eu tinha apenas seis anos. Prudêncio, um moleque de casa, era o meu cavalo de todos os dias; punha as mãos no chão, recebia um cordel nos queixos, à guisa de freio, eu trepava-lhe ao dorso, com uma varinha na mão, fustigava-o, dava mil voltas a um e outro lado, e ele obedecia, — algumas vezes gemendo — mas obedecia sem dizer palavra, ou, quando muito, um — “ai, nhonhô!” — ao que eu retorquia: “Cala a boca, besta!” — Esconder os chapéus das visitas, deitar rabos de papel a pessoas graves, puxar pelo rabicho das cabeleiras, dar beliscões nos braços das matronas, e outras muitas façanhas deste jaez, eram mostras de um gênio indócil, mas devo crer que eram também expressões de um espírito robusto, porque meu pai tinha-me em grande admiração; e se às vezes me repreendia, à vista de gente, fazia-o por simples formalidade: em particular dava-me beijos. Não se conclua daqui que eu levasse todo o resto da minha vida a quebrar a cabeça dos outros nem a esconder-lhes os chapéus; mas opiniático, egoísta e algo contemptor dos homens, isso fui; se não passei o tempo a esconder-lhes os chapéus, alguma vez lhes puxei pelo rabicho das cabeleiras. (Machado de Assis. Memórias póstumas de Brás Cubas.) 1. (Unifesp) É correto afirmar que: a) se trata basicamente de um texto naturalista, fundado no Determinismo. b) o texto revela um juízo crítico do contexto escravista da época. c) o narrador se apresenta bastante sisudo e amargo, bem ao gosto machadiano. d) o texto apresenta papéis sociais ambíguos das personagens em foco. e) os comportamentos desumanos do narrador são sutilmente desnudados. TEXTO PARA A PRÓXIMA QUESTÃO Ultimamente ando de novo intrigado com o enigma de Capitu. Teria ela traído mesmo o marido, ou tudo não passou de imaginação dele, como narrador? Reli mais uma vez o romance e não cheguei a nenhuma conclusão. Um mistério que o autor deixou para a posteridade. (Fernando Sabino, O bom ladrão.) 2. (Unifesp) “Tinha-me lembrado a definição que José Dias dera deles, “olhos de cigana oblíqua e dissimulada”. Eu não sabia o que era oblíqua, mas dissimulada sabia, e queria ver se se podiam chamar assim. Capitu deixou-se fitar e examinar. Só me perguntava o que era, se nunca os vira; eu nada achei extraordinário; a cor e a doçura eram minhas conhecidas. A demora da contemplação creio que lhe deu outra ideia do meu intento; imaginou que era um pretexto para mirá-los mais de perto, com os meus olhos longos, constantes, enfiados neles, e a isto atribuo que entrassem a ficar crescidos, crescidos e sombrios, com tal expressão que... Retórica dos namorados, dá-me uma comparação exata e poética para dizer o que foram aqueles olhos de Capitu. Não me acode imagem capaz de dizer, sem quebra da dignidade do estilo, o que eles foram e me fizeram. Olhos de ressaca? Vá, de ressaca. É o que me dá ideia daquela feição nova. Traziam não sei que fluido misterioso e enérgico, uma força que arrastava para dentro, como a vaga que se retira da praia, nos dias de ressaca.” (Machado de Assis, “Dom Casmurro”.) No texto de Sabino, o narrador questiona a traição de Capitu. Lendo o texto de Machado, pode-se entender que esse questionamento decorre de: a) os fatos serem narrados pela visão de uma personagem, no caso, o narrador em primeira pessoa, que fornece ao leitor o perfil psicológico de Capitu. b) a personagem ser vista por José Dias como “oblíqua e dissimulada”, o que gerou mal-estar no apaixonado de Capitu, deixando de vê-la como uma mulher de encantos. c) a apresentação da personagem Capitu ser feita no romance de maneira muito objetiva, sem expressão dos sentimentos que a vinculavam ao homem que a amava. d) os aspectos psicológicos de Capitu serem apresentados apenas pelos comentários de José Dias, o que lhe torna a caracterização muito subjetiva. e) o amado de Capitu não conseguir enxergar nela características mais precisas e menos misteriosas, o que o faz descrevê-la de forma bastante idealizada. 3. (Unifesp) Para o narrador, os olhos de Capitu eram “olhos de ressaca, como a vaga que se retira da praia, nos dias de ressaca”. Entende-se, então, que ele: a) começava a nutrir sentimento de repulsa em relação a ela, como está sugerido em [seus olhos] “entrassem a ficar crescidos, crescidos e sombrios, com tal expressão que...” b) se sentia fortemente atraído por ela, como comprova o trecho: “Traziam não sei que fluido misterioso e enérgico, uma força que arrastava para dentro...” c) passou a desconfiar da sinceridade dela, como está exposto em: “mas dissimulada sabia, e queria ver se se podiam chamar assim.” d) começava a vê-la como uma mulher comum, sem atrativos especiais, como demonstra o trecho: “eu nada achei extraordinário...” e) deixava de vê-la como uma mulher enigmática, como está sugerido em: “Olhos de ressaca? Vá, de ressaca. É o que me dá ideia daquela feição nova.” 4. (Unifesp) Ao afirmar que Capitu tinha olhos de “cigana oblíqua”, José Dias a vê como uma mulher: a) irresistível. d) evasiva. b) inconveniente. e) irônica. c) compreensiva.
135VOLUME 3 LINGUAGENS, CÓDIGOS e suas tecnologias 5. (Unicamp 2017) O romance Memórias póstumas de Brás Cubas é considerado um divisor de águas tanto na obra de Machado de Assis quanto na literatura brasileira do século XIX. Indique a alternativa em que todas as características mencionadas podem ser adequadamente atribuídas ao romance em questão. a) Rejeição dos valores românticos, narrativa linear e fluente de um defunto autor, visão pessimista em relação aos problemas sociais. b) Distanciamento do determinismo científico, cultivo do humor e digressões sobre banalidades, visão reformadora das mazelas sociais. c) Abandono das idealizações românticas, uso de técnicas pouco usuais de narrativa, sugestão implícita de contradições sociais. d) Crítica do realismo literário, narração iniciada com a morte do narrador-personagem, tematização de conflitos sociais. E.O. Dissertativas (Unesp, Fuvest, Unicamp e Unifesp) 1. (Fuvest) Responda ao que se pede. Qual é a relação entre o “sistema de filosofia” do “Humanitismo”, tal como figurado nas Memórias póstumas de Brás Cubas, de Machado de Assis, e as correntes de pensamento filosófico e científico presentes no contexto histórico-cultural em que essa obra foi escrita? Explique resumidamente. 2. (Fuvest) No excerto abaixo, narra-se parte do encontro de Brás Cubas com Quincas Borba, quando este, reduzido à miséria, mendigava nas ruas do Rio de Janeiro: Tirei a carteira, escolhi uma nota de cinco mil-réis, – a menos limpa, – e dei-lha [a Quincas Borba]. Ele recebeu-ma com os olhos cintilantes de cobiça. Levantou a nota ao ar, e agitou-a entusiasmado. — In hoc signo vinces!* bradou. E depois beijou-a, com muitos ademanes de ternura, e tão ruidosa expansão, que me produziu um sentimento misto de nojo e lástima. Ele, que era arguto, entendeu-me; ficou sério, grotescamente sério, e pediu-me desculpa da alegria, dizendo que era alegria de pobre que não via, desde muitos anos, uma nota de cinco mil-réis. — Pois está em suas mãos ver outras muitas, disse eu. — Sim? acudiu ele, dando um bote para mim. — Trabalhando, concluí eu. * “In hoc signo vinces!”: citação em latim que significa “Com este sinal vencerás” (frase que teria aparecido no céu, junto de uma cruz, ao imperador Constantino, antes de uma batalha). Machado de Assis, Memórias póstumas de Brás Cubas. a) Tendo em vista a autobiografia de Brás Cubas e as considerações que, ao longo de suas Memórias póstumas, ele tece a respeito do tema do trabalho, comente o conselho que, no excerto, ele dá a Quincas Borba: “— Trabalhando, concluí eu”. b) Tendo, agora, como referência, a história de D. Plácida, contada no livro, discuta sucintamente o mencionado conselho de Brás Cubas. 3. (Fuvest) No capítulo CXIX das Memórias póstumas de Brás Cubas, o narrador declara: “Quero deixar aqui, entre parênteses, meia dúzia de máximas das muitas que escrevi por esse tempo.” Nos itens a) e b) encontram-se reproduzidas duas dessas máximas. Considerando-as no contexto da obra a que pertencem, responda ao que se pede. “Máxima”: fórmula breve que enuncia uma observação de valor geral; provérbio. a) “Matamos o tempo; o tempo nos enterra.” Pode-se relacionar essa máxima à maneira de viver do próprio Brás Cubas? Justifique sucintamente. b) “Suporta-se com paciência a cólica do próximo.” A atitude diante do sofrimento alheio, expressa nessa máxima, pode ser associada a algum aspecto da filosofia do “Humanitismo”, formulada pela personagem Quincas Borba? Justifique sua resposta. Gabarito E.O. Aprendizagem 1. A 2. C 3. B 4. A 5. B 6. B 7. E 8. A 9. D E.O. Fixação 1. E 2. C 3. B 4. E 5. C 6. B 7. C E.O. Complementar 1. A 2. E 3. A 4. B 5. E E.O. Dissertativo 1. No trecho, Bentinho relata a morte de seu filho, Ezequiel, de forma objetiva, sem emoções. E é com crueldade que se refere às despesas do enterro de Ezequiel, afirmando que “pagaria o triplo para não tornar a vê-lo”. Tais situações comprovam a abordagem realista e nada idealizada da obra. 2. Embora a enunciação de Brás Cubas paire no absurdo, pois um morto não fala, e sobretudo não escreve, o personagem identifica-se na obra como um “defunto-autor”. Talvez Machado, inovando sua técnica, entendesse que seu narrador merecia uma exceção, dado que ao figurar-se como morto, dava-lhe uma vantagem: mostrar-se multifacetado. Enquanto morto caracterizava-se como ser inteligente; e morto, um “debochado”, “palhaço”. 3. O narrador machadiano expõe ao leitor os problemas da criação literária e da técnica narrativa, chamando-o a participar do processo narrativo. 4. Bentinho não sente uma afinidade com Ezequiel. Após a morte de Escobar, começa a ver no filho Ezequiel a fisionomia, os gestos, a personalidade do amigo. É enorme a crueldade de Bentinho com o filho ao tentar matá-lo, envenenando-o, ou quando se refere às despesas de seu enterro, afirmando que “pagaria o triplo para não o ver mais”.
136VOLUME 3 LINGUAGENS, CÓDIGOS e suas tecnologias 5. a) A obra é atemporal; e o leitor está sujeito a um tempo limitado: o da leitura. b) As orações são “ilustrações” do andar de um ébrio. 6. a) Incorreto. b) Correto. c) Correto. d) Correto. e) Correto. f) Incorreto. g) Correto. h) Incorreto. i) Incorreto. j) Incorreto. k) Incorreto. l) Correto Não são verdadeiras as avaliações respeitantes aos itens [A], [F], [H], [I], [J] e [K], pois: Em [A], a narrativa de Memórias Póstumas de Brás Cubas representa a vertente realista de cunho psicológico, a qual, ao invés de descrever a sociedade objetiva e detalhadamente, se concentra na visão de mundo de seus personagens, expondo suas contradições. Assim, não se preocupa com a veracidade dos fatos, uma vez que pretende apenas gerar reflexões sobre o conflito da essência do ser humano frente às circunstâncias do mundo que o cerca. Em [F], chama-se de “arbitrário” o sinal linguístico que nada contém em si mesmo da ideia que representa, estando o seu significado determinado pela relação que mantém com outros sinais. Ora os trechos citados constituem uma alegoria que explica a decisão de Brás Cubas em inventar o emplastro: a ideia transforma-se em figura humana e esta, na letra enigmática de um X, estabelecendo a incógnita cuja decifração depende exclusivamente do narrador. Assim, o sinal linguístico X não pode ser considerado “não arbitrário”. Em [H], as funções especificativas ou resumitivas são determinadas pelo aposto, sempre relacionado com termos anteriores. Assim, a estrutura enunciada depois dos dois pontos é que especifica o termo “tudo” e não o contrário; Em [I], o termo “estas três palavras” constitui um objeto direto com um único núcleo, portanto, não coordenado. As três palavras referidas serão mencionadas a seguir no aposto enumerativo “Emplasto Brás Cubas”. Em [J], o verbo auxiliar denota tempo futuro e de obrigatoriedade, mas não está relacionado estruturalmente à oposição “modestos e “hábeis”. O narrador atribui a capacidade de percepção do seu talento apenas aos “hábeis”, inteligentes e astutos. Em [K], ambas as palavras são paroxítonas, portanto, não é o acento tônico que as diferencia, mas sim o timbre da vogal tônica “e” que é fechado em sede quando significa ânsia, desejo e aberto em sede, local onde funciona a representação principal de firma ou empresa. 7. No primeiro trecho, temos um narrador em 3ª pessoa, observador. No segundo trecho, temos um narrador em 1ª pessoa, personagem. 8. a) Capitu parece sofrer muito com a morte de Escobar, tenta consolar a viúva e olha o defunto fixamente, dando a Bentinho a ideia de que agia como se fosse a própria viúva. b) Porque o romance gira em torno dos ciúmes de Bentinho por Capitu. A cena no velório fortalece o pensamento de Bentinho com relação a uma traição da esposa com o amigo morto Escobar. E.O. UERJ Exame Discursivo 1. A crítica acerca da política daquela época que a troca de papéis sugere é que não há uma oposição nítida entre os discursos monarquista e republicano. A relação de sentido que a oração sublinhada estabelece com a anterior é de consequência. E.O. Objetivas (Unesp, Fuvest, Unicamp e Unifesp) 1. B 2. A 3. B 4. D 5. C E.O. Dissertativas (Unesp, Fuvest, Unicamp e Unifesp) 1. O Humanitismo, sistema filosófico tão perfeito que nasceu para arruinar todo arcabouço teórico da época, é uma crítica velada, sobretudo ao Positivismo de Comte, que resumia o mundo aos fenômenos observáveis. Segundo Quincas Borba, a sobrevivência dos mais aptos, ditada pela máxima a vida é luta, era a força propulsora para as guerras e para a fome, sempre convenientes aos mais fortes e prejudicial aos mais fracos, uma crítica também ao evolucionismo de Darwin. 2. a) O conselho de Brás Cubas a Quincas Borba revela a hipocrisia do personagem-narrador que, nascido em família abastada e amparado pelos privilégios concedidos à elite burguesa do Segundo Reinado, nunca teve de trabalhar para garantir a sua sobrevivência. b) O conselho de Brás Cubas é desprovido de significado e o destino de Dona Plácida é uma das maiores ironias no contraste com o excerto apresentado, pois D. Plácida, mesmo tendo trabahado muito, morreu miserável. 3. a) Sim, a vida ociosa de Brás Cubas, a displicência com que encarou cada etapa da sua carreira profissional e a superficialidade das relações afetivas com as pessoas de quem se aproximou revelam um percurso existencial sem valor ou qualidade. O balanço final da sua vida, exposto no capítulo “Das negativas”, apre-
137VOLUME 3 LINGUAGENS, CÓDIGOS e suas tecnologias senta um narrador que analisa o gênero humano com ceticismo e desprezo, confirmando melancolicamente a máxima “Matamos o tempo; o tempo nos enterra.” b) O “Humanitismo” do filósofo Quincas Borba defende a supremacia “do império da lei do mais forte, do mais rico e do mais esperto”. Surge pela primeira vez, na prosa machadiana, para desnudar ironicamente as teorias do Positivismo de Auguste Comte, do Cientificismo do século XIX e do caráter desumano e antiético da teoria de Charles Darwin acerca da seleção natural da “lei do mais forte” se associada às ciências sociais. A frase “Suporta-se com paciência a cólica do próximo” é condizente com a filosofia do Humanitismo, já que privilegia tudo o que seja em beneficio próprio e apregoa a total indiferença ao sofrimento dos outros.
138VOLUME 3 LINGUAGENS, CÓDIGOS e suas tecnologias E.O. Aprendizagem 1. (UFPE - adaptada) Os movimentos ou tendências literárias que surgiam na Europa letrada alcançaram o Brasil através dos colonizadores portugueses e tiveram nomes que se destacaram no continente americano. A esse propósito, analise as afirmações a seguir. ( ) No século XVII, o Barroco procurava, através da ênfase na religiosidade, solucionar os dilemas humanos. Esse movimento foi introduzido no Brasil pelos jesuítas, sendo seu representante capital Padre Antônio Vieira, cuja obra – Sermões – constitui um mundo rico e contraditório. ( ) No século XVIII, floresceu o Arcadismo em Minas Gerais, Vila Rica. Com o estabelecimento de relações sociais mais concentradas, formou-se um público leitor, elemento importante para o desenvolvimento de uma literatura nacional. Entre o grupo de literatos, destaca-se Tomás Antônio Gonzaga, autor da obra lírica Marília de Dirceu. ( ) O Naturalismo surgiu no século XIX, tendo sido, no Brasil, contemporâneo da Abolição e da República. O Mulato, de Aluísio de Azevedo, foi o primeiro romance naturalista brasileiro e o primeiro a abordar, de forma crítica, o racismo, o reacionarismo clerical e a estreiteza do universo provinciano no país. ( ) A oscilação entre imobilismo econômico e modernização, na sociedade brasileira, foi absorvida pela produção literária, o que marcou os vinte primeiros anos do século XX. Tendo em Olavo Bilac seu principal autor, o Parnasianismo procurou corresponder ao Realismo/Naturalismo na prosa e adotou, como lema, a objetividade e impessoalidade no tratamento dos temas sociais. 2. (UFG) No romance O cortiço, de Aluísio Azevedo, tem- -se a representação da prestação de serviços domésticos na sociedade carioca do século XIX. Nesse sentido, a relação entre o enredo e o espaço do trabalho doméstico de tal período se expressa pelo fato de que: a) Piedade se torna lavadeira no Brasil, demonstrando que os serviços domésticos eram realizados por pessoas de diversas classes sociais. b) Bertoleza serve João Romão como criada e amante, o que expressa a presença da cultura escravista em ambiente urbano. c) Pombinha se muda para a casa de Léonie, comprovando a possibilidade de ascensão social por meio da prostituição. d) Rita Baiana se destaca como exímia dançarina, o que reafirma o exercício das atividades artísticas como uma especialidade feminina. e) Nenen se especializa como engomadeira, o que mostra a incorporação do modelo fordista de produção ao ambiente familiar. 3. (Ufrgs) No bloco superior abaixo, estão listados dois nomes de personagens da obra O cortiço, de Aluísio Azevedo; no inferior, descrições dessas personagens. Associe adequadamente o bloco inferior ao superior. 1. Pombinha 2. Rita Baiana ( ) É loura, pálida, com modos de menina de boa família. ( ) Casa-se, a fim de ascender socialmente. ( ) Possui farto cabelo, crespo e reluzente. ( ) Mantém personalidade inalterada ao longo do romance. ( ) Descobre, a certa altura do romance, sua plenitude na prostituição. A sequência correta de preenchimento dos parênteses, de cima para baixo, é: a) 2 – 1 – 1 – 2 – 1. b) 1 – 2 – 2 – 1 – 2. c) 1 – 1 – 2 – 1 – 2. d) 1 – 1 – 2 – 2 – 1. e) 2 – 2 – 1 – 2 – 1. 4. (ESPM) (...) desde que Jerônimo propendeu para ela, fascinando-a com a sua tranquila seriedade de animal bom e forte, o sangue da mestiça reclamou os seus direitos de apuração, e Rita preferiu no europeu o macho de raça superior. O cavouqueiro, pelo seu lado, cedendo às imposições mesológicas, enfarava a esposa, sua congênere, e queria a mulata, porque a mulata era o prazer, a volúpia, era o fruto dourado e acre destes sertões americanos, onde a alma de Jerônimo aprendeu lascívias de macaco e onde seu corpo porejou o cheiro sensual dos bodes. (Aluísio Azevedo, O Cortiço) NATURALISMO NO BRASIL COMPETÊNCIA(s) 5 HABILIDADE(s) 15, 16 e 17 LC AULAS 23 E 24
139VOLUME 3 LINGUAGENS, CÓDIGOS e suas tecnologias Tendo em vista as características naturalistas e cientificistas, sobretudo do Determinismo, que predominam no romance O Cortiço, o trecho (assinale o item não pertinente): a) explicita a personagem que age de acordo com os impulsos característicos de sua raça. b) põe em evidência o zoomorfismo, em que se destacam os elementos instintivos de prazer, sensualidade e desejo. c) faz alusão à competição entre os mais fortes (europeus) e os mais fracos (brasileiros). d) ressalta o homem sucumbindo aos fatores preponderantes do meio. e) condena veladamente o sexo e defende indiretamente os princípios morais. 5. (UFG) As trajetórias das personagens do romance O cortiço, de Aluísio Azevedo, são representativas da força com que o meio age sobre seus comportamentos. Afetadas por essa força, as personagens: a) Albino e Leocádia se tornam promíscuas devido às más influências dos amigos do cortiço. b) João Romão e Bertoleza se anulam em nome da ambição de fazer progredir o cortiço. c) Miranda e Estela se corrompem à medida que se aproximam dos moradores do cortiço. d) Jerônimo e Pombinha são transformadas pela sensualidade reinante no cortiço. e) Firmo e Rita Baiana têm seu caráter modificado pela malandragem própria dos habitantes do cortiço. 6. (UFG) O contexto sócio-histórico do Brasil, no século XIX, evidencia-se no enredo do romance O cortiço, de Aluísio Azevedo, por meio das: a) práticas de trabalho na pedreira de João Romão, que se baseiam na exploração de mão de obra excedente do processo de industrialização no Rio de Janeiro. b) condições de moradia do cortiço São Romão, que reproduzem o modo de vida próprio do principal tipo de habitação popular da então Capital Federal. c) disputas territoriais, que expressam, no confronto entre os carapicus e os cabeças-de-gato, a violência característica dos primeiros cortiços cariocas. d) manifestações folclóricas, que representam, na dança, na música e na culinária dos moradores do cortiço, o exotismo inerente ao povo brasileiro. e) correntes migratórias, que configuram o cortiço São Romão como uma comunidade formada por comerciantes portugueses em busca de ascensão social. 7. (USF) “Também conhecidos como escolas, correntes ou movimentos, os períodos literários correspondem a fases histórico-culturais em que determinados valores estéticos e ideológicos resultam na criação de obras mais ou menos próximas no estilo e na visão de mundo. Diferenciam-se do estilo de época por ter uma abrangência maior, englobando circunstâncias como as condições do meio, as influências filosóficas e políticas, etc.” (Gonzaga, Sergius, Curso de literatura brasileira. 2.ª ed. – Porto Alegre: Leitura XXI, 2007. p.12) A partir da segmentação da produção literária nacional, como descrita por Sergius Gonzaga no excerto acima, nos aspectos que se referem a contexto histórico, características, autores e obras, é correto afirmar que a) o Barroco surge do conflito entre Teocentrismo e Antropocentrismo e tem como resultado uma poética dicotômica e instável emocionalmente. Já a prosa barroca, expressa nos sermões do Padre Vieira, não reflete esse conflito à medida que registra as relações homem/entorno seguindo a ótica analítico-racional que deriva do pensamento calcado na razão. b) o Arcadismo apresenta o primado do sentimento em detrimento da razão. Autores como Cláudio Manuel da Costa e Tomás Antônio Gonzaga – este em especial na poesia lírica e épica – antecipam o sentimentalismo amoroso que encontrará seu ápice no Romantismo. A poesia dos autores citados vem impregnada, ainda, do forte senso de nação, de onde derivará a vertente nacionalista de nossa poesia do século XIX. c) o Romantismo brasileiro apresenta divisão temática tanto na prosa quanto na poesia. Nesta, a produção divide-se em três gerações: Indianista-Nacionalista; Ultrarromântica-Byroniana-Mal do século e Social-Hugoana-Condoreira. A prosa se organiza sob as temáticas indianista, histórica, regionalista e urbana, sendo que o autor que mais se destaca nesses segmentos é Joaquim Manuel de Macedo. d) o Realismo e o Naturalismo são contemporâneos. Embora derivados do mesmo contexto, algumas das obras sofreram as influências de correntes cientificistas – como Determinismo, Positivismo, Marxismo, a Psicanálise de Freud – e apresentam características muito particulares. No Realismo, há predomínio dos aspectos psicológicos sobre a ação, e o Naturalismo apresenta a animalização do homem. Destacam-se Dom Casmurro e O cortiço como grandes obras desses períodos. e) O Modernismo no Brasil, à maneira do Romantismo, é segmentado em três gerações, que se organizam cronologicamente, a partir de 1922, quando da Semana de Arte Moderna, até os dias de hoje, cuja produção retoma os princípios dos primeiros tempos modernistas. Destaca-se, na produção modernista, a obra de João Guimarães Rosa, Carlos Drummond de Andrade, Manuel Bandeira e Clarice Lispector, entre outros. 8. (Upe-ssa) Machado de Assis e Aluísio Azevedo, no mesmo ano, 1881, deram início, respectivamente, ao Realismo e Naturalismo no Brasil. O primeiro, com Memórias Póstumas de Brás Cubas e o segundo, com O Mulato, embora o Cortiço é que tenha celebrizado o autor maranhense. Sobre esses movimentos literários, aos quais pertencem os textos, leia o que se segue: TEXTO 1 Ao verme que primeiro roeu as frias carnes do meu cadáver dedico como saudosa lembrança estas Memórias Póstumas
140VOLUME 3 LINGUAGENS, CÓDIGOS e suas tecnologias TEXTO 2 Eram cinco horas da manhã e o cortiço acordava, abrindo, não os olhos, mas a sua infinidade de portas e janelas alinhadas. Um acordar alegre e farto de quem dormiu de uma assentada sete horas de chumbo. Como que se sentiam ainda na indolência de neblina as derradeiras notas da última guitarra da noite antecedente, dissolvendo-se à luz loura e tenra da aurora, que nem um suspiro de saudade perdido em terra alheia. Roupa lavada, que ficara de véspera nos coradouros, umedecia o ar e punha-lhe um farto acre de sabão ordinário. As pedras do chão, esbranquiçadas no lugar da lavagem e em alguns pontos azuladas pelo anil, mostravam uma palidez grisalha e triste, feita de acumulações de espumas secas. Entretanto, das portas surgiam cabeças congestionadas de sono; ouviam-se amplos bocejos, fortes como o marulhar das ondas; pigarreava-se grosso por toda a parte; começavam as xícaras a tilintar; o cheiro quente do café aquecia, suplantando todos os outros; trocavam-se de janela para janela as primeiras palavras, os bons-dias; reatavam-se conversas interrompidas à noite; a pequenada cá fora traquinava já, e lá dentro das casas vinham choros abafados de crianças que ainda não andam. No confuso rumor que se formava, destacavam-se risos, sons de vozes que altercavam, sem se saber onde, grasnar de marrecos, cantar de galos, cacarejar de galinhas. De alguns quartos saíam mulheres que vinham pendurar cá fora, na parede, a gaiola do papagaio, e os louros, à semelhança dos donos, cumprimentavam-se ruidosamente, espanejando-se à luz nova do dia. Daí a pouco, em volta das bicas, era um zunzum crescente; uma aglomeração tumultuosa de machos e fêmeas. Uns, após outros, lavavam a cara, incomodamente, debaixo do fio de água que escorria da altura de uns cinco palmos. O chão inundava-se. As mulheres precisavam já prender as saias entre as coxas para não as molhar; via-se-lhes a tostada nudez dos braços e do pescoço, que elas despiam, suspendendo o cabelo todo para o alto do casco; os homens, esses não se preocupavam em não molhar o pelo, ao contrário, metiam a cabeça bem debaixo da água e esfregavam com força as ventas e as barbas, fossando e fungando contra as palmas da mão. As portas das latrinas não descansavam, era um abrir e fechar de cada instante, um entrar e sair sem tréguas. Não se demoravam lá dentro e vinham ainda amarrando as calças ou as saias; as crianças não se davam ao trabalho de lá ir, despachavam-se ali mesmo, no capinzal dos fundos, por detrás da estalagem ou no recanto das hortas. O rumor crescia, condensando-se; o zunzum de todos os dias acentuava-se; já se não destacavam vozes dispersas, mas um só ruído compacto que enchia todo o cortiço. [...] Analise as afirmativas a seguir: I. O texto 1 é a dedicatória de Brás Cubas, que inicia suas memórias póstumas. Nessa obra, o autor textual e narrador ironicamente dedica suas memórias aos vermes. Trata-se de um aspecto inerente à estética romântica, uma vez que nela encontra-se subjacente a ideia de morte. II. No texto 2, o narrador descreve o comportamento da coletividade que forma o Cortiço. Note-se que nele há o privilégio do coletivo sobre o individual, elemento peculiar ao Romantismo, o que não surpreende o leitor, dado que o autor abraçou tanto a estética romântica quanto a realista. III. Os dois textos, embora escritos por autores diferentes, apresentam as mesmas tendências estéticas. Ambos são realistas e criticam o comportamento da burguesia que vivia na ociosidade explorando os menos favorecidos. IV. O texto 1 tem por narrador a personagem principal que conta a sua própria história e o faz com a “tinta da galhofa e a pena da melancolia”, utilizando-se de um gracejo de tom cômico, próximo do humor negro de origem inglesa. V. No texto 2, o relato é de um narrador observador que apresenta os acontecimentos de um ponto de vista neutro, porque não se envolve nem faz parte da história narrada. Seu discurso volta-se para a análise dos elementos deterministas e das patologias sociais, o que faz de O Cortiço um texto naturalista. Está CORRETO apenas o que se afirma em a) I e II. d) II e III. b) IV e V. e) I, II e IV. c) I, II e III. 9. O mulato Ana Rosa cresceu; aprendera de cor a gramática do Sotero dos Reis; lera alguma coisa; sabia rudimentos de francês e tocava modinhas sentimentais ao violão e ao piano. Não era estúpida; tinha a intuição perfeita da virtude, um modo bonito, e por vezes lamentara não ser mais instruída. Conhecia muitos trabalhos de agulha; bordava como poucas, e dispunha de uma gargantazinha de contralto que fazia gosto de ouvir. Uma só palavra boiava à superfície dos seus pensamentos: “Mulato”. E crescia, crescia, transformando-se em tenebrosa nuvem, que escondia todo o seu passado. Ideia parasita, que estrangulava todas as outras ideias. – Mulato! Esta só palavra explicava-lhe agora todos os mesquinhos escrúpulos, que a sociedade do Maranhão usara para com ele. Explicava tudo: a frieza de certas famílias a quem visitara; as reticências dos que lhe falavam de seus antepassados; a reserva e a cautela dos que, em sua presença, discutiam questões de raça e de sangue. AZEVEDO, A. O Mulato. São Paulo: Ática, 1996 (fragmento). O texto de Aluísio Azevedo é representativo do Naturalismo, vigente no final do século XIX. Nesse fragmento, o narrador expressa fidelidade ao discurso naturalista, pois a) relaciona a posição social a padrões de comportamento e à condição de raça. b) apresenta os homens e as mulheres melhores do que eram no século XIX. c) mostra a pouca cultura feminina e a distribuição de saberes entre homens e mulheres. d) ilustra os diferentes modos que um indivíduo tinha de ascender socialmente. e) critica a educação oferecida às mulheres e os maus-tratos dispensados aos negros.
141VOLUME 3 LINGUAGENS, CÓDIGOS e suas tecnologias 10. Examine as frases abaixo: I. Os representantes do Naturalismo fazem aparecer na sua obra dimensões metafísicas do homem, passando a encará-lo como um complexo social examinando à luz da psicologia. II. No Naturalismo, as tentativas de submeter o Homem a leis determinadas são consequências das ciências, na segunda metade do século XIX. III. Na seleção de “casos” a serem enfocados, os naturalistas demonstram especial aversão pelo anormal e pelo patológico. Pode-se dizer corretamente que: a) só a I está certa. b) só a II está certa. c) só a III está certa. d) existem duas certas. e) nenhuma está certa. E.O. Fixação 1. (UFPE) A estética antirromântica iniciou-se na segunda metade do século XIX, com o Realismo e aprofundou-se com o Naturalismo. Sobre esses movimentos, analise as proposições a seguir. ( ) As transformações econômicas, científicas e ideológicas possibilitaram a revolução industrial, na qual os valores burgueses e capitalistas suplantaram os valores românticos: a fantasia e o mito da natureza entram, assim, em crise. ( ) Surge, na literatura, o Realismo, movimento em que o artista é, ao mesmo tempo, um participante e um observador do mundo. Esse aspecto conduz à representatividade histórico-social e à análise psicológica dos personagens, examinados à luz do racionalismo e da contemporaneidade. ( ) Entre as características do Realismo brasileiro, estão a objetividade, a impessoalidade e o uso da linguagem regional. ( ) O Naturalismo é um prolongamento do Realismo, pois acrescenta uma visão cientificista da existência, a qual inclui o determinismo do meio ambiente, do instinto e da hereditariedade. ( ) O Realismo teve sua primeira manifestação importante com a publicação de “Memórias Póstumas de Brás Cubas”, de Machado de Assis, e o Naturalismo, com “Dom Casmurro”, do mesmo autor, ambos em 1881. 2. (UFG) Leia o trecho a seguir. E assim ia correndo o domingo no cortiço até às três da tarde, horas em que chegou mestre Firmo, acompanhado pelo seu amigo Porfiro […]. [Firmo] Era oficial de torneiro, oficial perito e vadio; ganhava uma semana para gastar num dia; às vezes, porém, os dados ou a roleta multiplicavam-lhe o dinheiro, e então ele fazia como naqueles últimos três meses: afogava-se numa boa pândega com a Rita Baiana. A Rita ou outra. “O que não faltava por aí eram saias para ajudar um homem a cuspir o cobre na boca do diabo!” AZEVEDO, Aluísio. O cortiço. 20. ed. São Paulo: Ática, 1997. p. 62. As aspas são um recurso gráfico que dão destaque a determinada parte de um texto. No trecho transcrito de O cortiço, elas realçam a) um pensamento do narrador, que exemplifica a reputação de desregrado atribuída a Firmo. b) uma fala de Firmo, que comprova seu relacionamento pândego com Rita Baiana. c) um pensamento dos moradores do cortiço sobre Firmo, que concorda com sua imagem de mulato vadio. d) uma fala de Rita Baiana, que reafirma a ideia do narrador a respeito da fama de mulherengo de Firmo. e) uma fala de Porfiro, que valida a perspectiva determinista de ociosidade do elemento mestiço. 3. (PUC-PR) Assinale a alternativa que contém a afirmação correta sobre o Naturalismo no Brasil. a) O Naturalismo usou elementos da natureza selvagem do Brasil do século XIX para defender teses sobre os defeitos da cultura primitiva. b) A valorização da natureza rude verificada nos poetas árcades se prolonga na visão naturalista do século XIX, que toma a natureza decadente dos cortiços para provar os malefícios da mestiçagem. c) O Naturalismo no Brasil esteve sempre ligado à beleza das paisagens das cidades e do interior do Brasil. d) O Naturalismo, por seus princípios científicos, considerava as narrativas literárias exemplos de demonstração de teses e ideias sobre a sociedade e o homem. e) O Naturalismo do século XIX no Brasil difundiu na literatura uma linguagem científica e hermética, fazendo com que os textos literários fossem lidos apenas por intelectuais. TEXTO PARA A PRÓXIMA QUESTÃO TEXTO I (...) No lampejo de seus grandes olhos pardos brilhavam irradiações da inteligência. (...) O princípio vital da mulher abandonava seu foco natural, o coração, para concentrar-se no cérebro, onde residem as faculdades especulativas do homem. (...) Era realmente para causar pasmo aos estranhos e susto a um tutor, a perspicácia com que essa moça de dezoito anos apreciava as questões mais complicadas; o perfeito conhecimento que mostrava dos negócios, a facilidade com que fazia, muitas vezes de memória, qualquer operação aritmética por muito difícil e intrincada que fosse. Não havia porém em Aurélia nem sombra do ridículo pedantismo de certas moças, que tendo colhido em leituras superficiais algumas noções vagas, se metem a tagarelar de tudo. (ALENCAR, José de. Senhora. SP: Editora Ática, 1980.) TEXTO II Aquela pobre flor de cortiço, escapando à estupidez do meio em que desabotoou, tinha de ser fatalmente vítima da própria inteligência. À míngua de educação, seu espírito trabalhou à revelia, e atraiçoou-a, obrigando-a a tirar da substância caprichosa da sua fantasia de moça ignorante e viva a explicação de tudo que lhe não ensinaram a ver e sentir.
142VOLUME 3 LINGUAGENS, CÓDIGOS e suas tecnologias (...) Pombinha, só com três meses de cama franca, fizera-se tão perita no ofício como a outra; a sua infeliz inteligência nascida e criada no modesto lodo da estalagem, medrou admiravelmente na lama forte dos vícios de largo fôlego; fez maravilhas na arte; parecia adivinhar todos os segredos daquela vida; seus lábios não tocavam em ninguém sem tirar sangue; sabia beber, gota a gota, pela boca do homem mais avarento, todo dinheiro que a vítima pudesse dar de si. (AZEVEDO, Aluísio. O cortiço. SP: Editora Ática, 1997.) 4. (Insper) Considerando as descrições presentes nos fragmentos transcritos, é correto afirmar que a) o texto I filia-se ao Romantismo, uma vez que nele a heroína é reflexo, em grande medida, das circunstâncias do ambiente em que se criou. b) o texto I filia-se ao Romantismo, já que nele a figura feminina é descrita sob o prisma da idealização. c) o texto I filia-se ao Naturalismo, pois as habilidades da personagem são naturais no meio em que vive. d) o texto II filia-se ao Realismo, já que a figura feminina é descrita de forma fiel à realidade do período histórico em que está inserida. e) o texto II filia-se ao Naturalismo, pois nele a personagem constitui uma representação inequívoca do perfil feminino típico. 5. (IFSP) Considere os textos. Tinham uma perspectiva biológica do mundo reduzindo, muitas vezes, o homem à condição animal, colocando o instinto sobre a razão. Os aspectos desagradáveis e repulsivos da condição humana são valorizados, como uma forma de reação ao idealismo romântico. (OLIVEIRA, Clenir Bellezi de. Arte literária: Portugal / Brasil. São Paulo: Moderna, 1999.) A sociedade é um grande laboratório onde o ser humano é observado agindo por instinto e, portanto desprovido de livre-arbítrio. Assinale a alternativa que informa o período literário a que o texto se refere, um autor do mesmo período e sua respectiva obra. a) Realismo, Machado de Assis, Dom Casmurro. b) Naturalismo, Aluísio Azevedo, O Cortiço. c) Simbolismo, Cruz e Souza, Missal e Broquéis. d) Modernismo, Jorge Amado, Capitães da Areia. e) Pós-modernismo, Guimarães Rosa, Grande Sertão: Veredas. 6. (UFPE) O Realismo e o Naturalismo são movimentos surgidos na segunda metade do século XIX, marcado por transformações econômicas, científicas e ideológicas. Sobre esses dois movimentos, assinale a alternativa incorreta. a) Para o escritor realista, a neutralidade diante do tema é imprescindível. Para isso, usa a narrativa em terceira pessoa. O naturalista observa também esse princípio, acrescentando uma aproximação das ciências experimentais e da filosofia positivista. b) O realismo brasileiro teve poucos seguidores e uma de suas figuras marcantes foi Machado de Assis. Euclides da Cunha, com “Os Sertões”, foi outra figura de destaque no movimento. c) O Naturalismo é considerado um prolongamento do Realismo, pois assume todos os princípios e as características deste, acrescentando-lhe, no entanto, uma visão cientificista da existência. No Brasil, o Naturalismo foi iniciado por Aluísio de Azevedo, que publicou “O Mulato”, “Casa de Pensão” e “O Cortiço”. d) Ambos, Machado de Assis e Aluísio de Azevedo, iniciaram-se na estética romântica. Posteriormente, o primeiro seguiu a estética realista, e o segundo, a estética naturalista. e) A fase realista de Machado de Assis pode ser observada nos seus contos e romances. Entre eles, se destacam “Memórias Póstumas de Brás Cubas”, “Quincas Borba” e “Dom Casmurro”, obras em que abordou temas como o adultério, o parasitismo social, a loucura e a hipocrisia. 7. (FGV) Publicados quase simultaneamente, “Memórias Póstumas de Brás Cubas” e “O Mulato”, ambos os romances praticamente inauguram dois movimentos literários no Brasil. Num deles predomina a profundidade da análise psicológica e, no outro, a preocupação com as leis da hereditariedade e a influência do ambiente sobre o homem. Esses movimentos foram: a) O Modernismo e o Pós-modernismo. b) O Futurismo e o Surrealismo. c) O Barroco e o Trovadorismo. d) O Romantismo e o Ultra-romantismo. e) O Realismo e o Naturalismo. 8. (ESPM) Observe o texto: (...) Aristarco todo era um anúncio. (...) o olhar fulgurante sob a crispação áspera dos supercílios de monstro japonês, penetrando de luz as almas circunstantes - era a educação da inteligência; o queixo severamente escanhoado, de orelha a orelha, lembrava a lisura das consciências limpas - era a educacão moral. A própria estatura, na imobilidade do gesto, na mudez do vulto, a simples estatura dizia dele: aqui está um grande homem... não veem os côvados de Golias?!... Raul Pompéia. “O Ateneu” O fragmento pertence à obra publicada em 1888, época em que se desenvolviam no Brasil o Realismo e o Naturalismo, na prosa. Considerando os períodos literários e o excerto em questão, assinale o que não está de acordo: a) A linguagem acadêmica é utilizada por vários autores da época como Raul Pompéia, incluindo-se aí Machado de Assis. b) As impressões subjetivas sobre a personagem condizem com o princípio de registrar as personagens e o ambiente a partir do que é percebido pelos sentidos. c) A caricaturização (ou deformação) da personagem evidenciada pelos traços exagerados faz do autor um vanguardista do Expressionismo.
143VOLUME 3 LINGUAGENS, CÓDIGOS e suas tecnologias d) As comparações feitas à personagem são traços da tendência irônica que se opõe à idealização romântica. e) O foco narrativo de 1a pessoa, abjurado pelo Realismo/Naturalismo, não está evidente no trecho. 9. (Mackenzie) ... cara extensa, olhos rasos, mortos, de um pardo transparente, lábios úmidos, porejando baba, meiguice viscosa de crápula antigo. Raul Pompéia Quanto ao estilo, esse fragmento descritivo destaca: a) a tendência do Naturalismo em revelar, através do aspecto físico, traços do caráter. b) a tendência dos escritores realistas de criticar a hipocrisia do comportamento aristocrático. c) a oposição entre “físico grotesco” e “moral sublime”, o que comprova sua característica romântica. d) a concisão típica do Modernismo, comprovada pelo uso comedido da adjetivação. e) o egocentrismo exacerbado, a irreverência e a visão mórbida do mundo que caracterizam o “byronismo” do século XIX. 10. (UEL) A propósito de “O cortiço”, de Aluísio Azevedo, é correto afirmar: a) Trata-se de um importante exemplar do naturalismo brasileiro. Nele, as personagens são animalizadas e dominadas pelos instintos. A obra marca a história de trabalhadores pobres, alguns miseráveis, amontoados numa habitação coletiva. b) A narrativa é um retrato da sociedade burguesa do século XIX e pode ser considerada uma das obras-primas da ficção romântica brasileira porque focaliza a heroína Rita Baiana em sua multiplicidade psicológica. c) Todo o livro é marcado pela desilusão e pelo abandono dos ideais realistas. Defendendo os valores de pureza e retorno à vida pacata do campo, há nele fortes indícios do Romantismo que se anunciava no Brasil. d) Narrado em primeira pessoa, “O cortiço” é uma análise da psicologia e da situação dos imigrantes no Brasil. Os perfis psicológicos e as análises de comportamento conduzem a história à idealização da mestiçagem brasileira, representada pela ascensão social dos portugueses Jerônimo e João Romão. e) O tema da mulher idealizada é constante nessa obra. A figura da virgem sonhada é simbolizada pela lavadeira Rita Baiana e constitui uma forma de denúncia dos problemas sociais, tão frequentes nos livros filiados à estética naturalista. E.O. Complementar 1. (PUC-RS) Para responder à questão, leia o fragmento do romance “O cortiço”, de Aluísio Azevedo e as afirmativas que seguem. E maldizia soluçando a hora em que saíra da sua terra; essa boa terra 1 cansada, velha como que 2 enferma; essa boa terra tranquila, sem sobressaltos nem desvarios de juventude. Sim, lá os campos eram 3 frios e melancólicos, de um verde alourado e quieto, e não ardentes e esmeraldinos e afogados em tanto sol e em tanto perfume como o deste inferno, onde em cada folha que se pisa há debaixo um réptil venenoso, como em cada flor que desabotoa e em cada moscardo que adeja há um vírus de lascívia. Lá, nos saudosos campos da sua terra, não se ouvia em noites de lua clara roncar a onça e o maracajá, nem pela manhã ao romper do dia, rilhava o bando truculento das queixadas, lá não varava pelas florestas a anta feia e terrível, quebrando árvores; lá a sucuruju não chocalhava a sua campainha fúnebre, anunciando a morte, nem a coral esperava traidora o viajante descuidado para lhe dar o bote certeiro e decisivo; 4 lá o seu homem não seria anavalhado pelo ciúme de um capoeira; 5 lá Jerônimo seria ainda o mesmo esposo casto, silencioso e meigo; seria o mesmo lavrador triste e contemplativo como o gado que à tarde levanta para o céu de opala o seu olhar humilde, compungido e bíblico. I. A diferença entre a velha e a nova terra é marcada pela força da natureza que transforma a vida e o comportamento do homem. II. Expressões como “cansada”, “enferma”, “frios e melancólicos”, nas referências 1, 2 e 3 respectivamente, assumem uma conotação positiva para a mulher de Jerônimo, ao definirem o espaço da felicidade perdida na velha terra. III. As ações dos animais, pintadas com os tons fortes do Naturalismo, narram os perigos que Jerônimo e sua mulher vivem na selva. IV. A expressão “lá”, nas referências 4 e 5, indica o espaço das virtudes do marido, da paz doméstica e de uma vida simples e tranquila. Pela análise das afirmativas, conclui-se que estão corretas apenas: a) I e III. b) II e III. c) III e IV. d) I, II e IV. e) II, III e IV. TEXTO PARA AS PRÓXIMAS 2 QUESTÕES […] No confuso rumor que se formava, destacavam-se risos, sons de vozes que altercavam, sem se saber onde, grasnar de marrecos, cantar de galos, cacarejar de galinhas. De alguns quartos saíam mulheres que vinham pendurar cá fora, na parede, a gaiola do papagaio, e os louros, à semelhança dos donos, cumprimentavam-se ruidosamente, espanejando-se à luz nova do dia. Daí a pouco, em volta das bicas era um zunzum crescente; uma aglomeração tumultuosa de machos e fêmeas. Uns, após outros, lavavam a cara, incomodamente, debaixo do fio de água que escorria da altura de uns cinco palmos. O chão inundava-se. As mulheres precisavam já prender as saias entre as coxas para não as molhar; via-se-lhes a tostada nudez dos braços e do pescoço, que elas despiam, suspendendo o cabelo todo para o alto do casco; os homens, esses não se preocupavam em não molhar o pelo, ao contrário, metiam a cabeça bem debaixo da água e esfregavam com força as ventas e as barbas, fossando e fungando contra as palmas da mão. As portas das latrinas não descansavam, eram um abrir e fechar de cada instante, um entrar e sair sem tréguas. Não se demoravam lá dentro e vinham ainda amarrando as calças ou as saias; as crianças não se davam ao trabalho de lá ir, despachavam-se ali mesmo, no capinzal dos fundos, por detrás da estalagem ou no recanto das hortas. AZEVEDO, Aluísio. O cortiço. Rio de Janeiro: Otto Pierre, 1979. p. 44-45.
144VOLUME 3 LINGUAGENS, CÓDIGOS e suas tecnologias 2. (UFG) Considerados os papéis sociais das personagens do romance, a frase “era um zunzum crescente” resume um aspecto contextual relevante para a configuração da cena retratada, pois: a) demonstra a plasticidade sonora de um ambiente em que vozes dispersas, sem ressonância, deixam de ser distintas e são condensadas em rumor. b) descreve uma cena típica de um grupo social que reconhece seu discurso como arma de resistência contra a elite dominante da época. c) envolve o leitor em uma atmosfera conflituosa, em que homens e mulheres representam opiniões divergentes diante da realidade imposta. d) convida o leitor para um passeio panorâmico a uma sociedade envolta em sons bucólicos, de referência árcade, que dão um tom singelo ao ambiente. e) revela traços fundamentais na caracterização de uma comunidade centrada em uma atmosfera que inspira suspense e fantasia. 3. (UFG) No trecho, as escolhas lexicais caracterizam as personagens como a) transgressoras, conforme relata o trecho “as crianças não se davam ao trabalho de ir lá, despachavam- -se ali mesmo, no capinzal dos fundos”. b) seres inquietos, conforme indicam os sentidos produzidos pelos pares de valor semântico opositivo “abrir e fechar” e “entrar e sair”. c) contempladoras da natureza, conforme sugere a menção às aves em “grasnar de marrecos” e “cantar de galos”. d) animais, conforme demonstra a descrição das ações em “suspendendo o cabelo para o alto do casco” e “esfregam com força as ventas”. e) indiferentes, conforme mostra a avaliação de seu comportamento em “uns, após outros, lavavam a cara, incomodamente, debaixo do fio de água”. 4. (Unifesp 2018) Nesta obra, eu quis estudar temperamentos e não caracteres. Escolhi personagens soberanamente dominadas pelos nervos e pelo sangue, desprovidas de livre-arbítrio, arrastadas a cada ato de suas vidas pelas fatalidades da própria carne. Começa-se a compreender que o meu objetivo foi acima de tudo um objetivo científico. (Émile Zola Apud Alfredo Bosi. História Concisa Da Literatura Brasileira, 1994. Adaptado.) Depreendem-se dessas considerações do escritor francês Émile Zola, a respeito de uma de suas obras, preceitos que orientam a corrente literária a) romântica. b) árcade. c) naturalista. d) simbolista. e) barroca. d) simbolista. TEXTO PARA A PRÓXIMA QUESTÃO Entretanto, a chuva cessou completamente, o sol reapareceu, como para despedir-se; andorinhas esgaivotaram no ar; e o cortiço palpitou inteiro na trêfega alegria do domingo. Nas salas do barão a festa engrossava, cada vez mais estrepitosa; de vez em quando vinha de lá uma taça quebrar-se no pátio da estalagem, levantando protestos e surriadas. A noite chegou muito bonita, com um belo luar de lua cheia, que começou ainda com o crepúsculo; e o samba rompeu mais forte e mais cedo que de costume, incitado pela grande animação que havia em casa do Miranda. Foi um forrobodó valente. A Rita Baiana essa noite estava de veia para a coisa; estava inspirada! divina! Nunca dançara com tanta graça e tamanha lubricidade! Também cantou. E cada verso que vinha da sua boca de mulata era um arrulhar choroso de pomba no cio. E o Firmo, bêbedo de volúpia, enroscava-se todo ao violão; e o violão e ele gemiam com o mesmo gosto, grunhindo, ganindo, miando, com todas as vozes de bichos sensuais, num desespero de luxúria que penetrava até ao tutano como línguas finíssimas de cobra. Jerônimo não pôde conter-se: no momento em que a baiana, ofegante de cansaço, caiu exausta, assentando-se ao lado dele, o português segredou-lhe com a voz estrangulada de paixão: - Meu bem! se você quiser estar comigo, dou uma perna ao demo! Aluísio Azevedo. O CORTIÇO. São Paulo: Abril Cultural, 1981. 5. (UnB) Entre as produções literárias mais expressivas da literatura brasileira, encontra-se O CORTIÇO, de Aluísio Azevedo, uma obra essencial para o entendimento da sociedade brasileira no final do século passado. A partir do texto, julgue os itens a seguir como verdadeiro(s) ou falso(s). ( ) O romance O CORTIÇO tem esse nome porque sua trama desenvolve-se durante um final de semana em uma favela de Salvador. ( ) Na passagem transcrita, o autor trata, de forma valorativa, da música popular brasileira ao longo dos anos. ( ) O efeito erótico associado à música é um dos pontos enfatizados nesse trecho de O CORTIÇO. E.O. Dissertativo TEXTO PARA A PRÓXIMA QUESTÃO Eram cinco horas da manhã e o cortiço acordava, abrindo, não os olhos, mas a sua infinidade de portas e janelas alinhadas. [...] Daí a pouco, em volta das bicas era um zunzum crescente; uma aglomeração tumultuosa de machos e fêmeas. Uns, após outros, lavavam a cara, incomodamente, debaixo do fio de água que escorria da altura de uns cinco palmos. O chão inundava-se. As mulheres precisavam já prender as saias entre as coxas para não as molhar; via-se-lhes a tostada nudez dos braços e do pescoço, que elas despiam, suspendendo o cabelo todo para o alto do casco; os homens, esses não se preocupavam em não molhar o pelo, ao contrário metiam a cabeça bem debaixo da água e esfregavam com força as ventas e as barbas, fossando e fungando contra as palmas da mão. (Aluísio Azevedo. O cortiço.) 1. (UFSCar) Aluísio de Azevedo pertence ao Naturalismo. a) Cite duas características desse estilo de época. b) Exemplifique, no texto, essas duas características.
145VOLUME 3 LINGUAGENS, CÓDIGOS e suas tecnologias 2. (FGV) Observe este quadro, para responder ao que se pede. Caipira picando fumo, Almeida Júnior. http://www.pinacoteca.org.br a) Em O cortiço, do escritor naturalista Aluísio Azevedo, livro publicado apenas três anos antes da realização do “Caipira picando fumo”, de Almeida Júnior, o sol aparece como elemento definidor do meio brasileiro, estendendo a tudo e a todos sua influência determinante. Essa mesma preeminência do sol se manifesta na composição do quadro de Almeida Júnior, também ele, em sua medida, tributário das teorias naturalistas? Justifique sua resposta, exemplificando com o tratamento dado à cor e à luz, no referido quadro. b) Um crítico de arte que analisou o quadro em questão, estudando inclusive suas relações com o Naturalismo, escreveu que, em “Caipira picando fumo”, “ a ênfase negativa no determinismo do meio”, própria do naturalismo de Aluísio, é contrabalançada pela “apreciação positiva desse mesmo ambiente e de seus personagens”. Indique, na caracterização da personagem, um aspecto em que se manifesta essa “apreciação positiva” de que fala o crítico. Explique. 3. (UFV) Considere as seguintes afirmativas: a) “Esforço-me por entrar no espartilho e seguir uma linha reta geométrica: nenhum lirismo, nada de reflexões, ausente a personalidade do autor.” Gustav Flaubert (Cf. BOSI, Alfredo. “História concisa da literatura brasileira.” São Paulo: Cultrix, 1994. p.169) b) “Em “Thérese Raquin”, eu quis estudar temperamentos e não caracteres. Aí está o livro todo. Escolhi personagens soberanamente dominadas pelos nervos e pelo sangue, desprovidas de livre-arbítrio, arrastadas a cada ato de sua vida pelas fatalidades da própria carne [...].” Émile Zola (Cf. BOSI, Alfredo. “História concisa da literatura brasileira.” São Paulo: Cultrix, 1994. p.169) Os princípios estéticos introduzidos por Flaubert e Zola, respectivamente, os mentores do Realismo e do Naturalismo, servem como parâmetro para que se possam estabelecer as diferenças básicas entre essas duas escolas literárias. Reflita sobre as afirmações dos referidos escritores franceses e destaque os pontos convergentes e divergentes entre as manifestações da prosa de ficção realista-naturalista no Brasil. E.O. UERJ Exame Discursivo TEXTO PARA AS PRÓXIMAS 3 QUESTÕES Daí à pedreira restavam apenas uns cinquenta passos e o chão era já todo coberto por uma farinha de pedra moída que sujava como a cal. Aqui, ali, por toda a parte, encontravam-se trabalhadores, uns ao sol, outros debaixo de pequenas barracas feitas de lona ou de folhas de palmeira. De um lado cunhavam pedra cantando; de outro a quebravam a picareta; de outro afeiçoavam lajedos1 a ponta de picão2 ; mais adiante faziam paralelepípedos a escopro2 e macete2 . E todo aquele retintim de ferramentas, e o martelar da forja, e o coro dos que lá em cima brocavam a rocha para lançar-lhe fogo, e a surda zoada ao longe, que vinha do cortiço, como de uma aldeia alarmada; tudo dava a ideia de uma atividade feroz, de uma luta de vingança e de ódio. Aqueles homens gotejantes de suor, bêbedos de calor, desvairados de insolação, a quebrarem, a espicaçarem, a torturarem a pedra, pareciam um punhado de demônios revoltados na sua impotência contra o impassível gigante que os contemplava com desprezo, imperturbável a todos os golpes e a todos os tiros que lhe desfechavam no dorso, deixando sem um gemido que lhe abrissem as entranhas de granito. O membrudo cavouqueiro3 havia chegado à fralda4 do orgulhoso monstro de pedra; tinha-o cara a cara, mediu-o de alto a baixo, arrogante, num desafio surdo. A pedreira mostrava nesse ponto de vista o seu lado mais imponente. Descomposta, com o escalavrado5 flanco exposto ao sol, erguia-se altaneira e desassombrada, afrontando o céu, muito íngreme, lisa, escaldante e cheia de cordas que mesquinhamente lhe escorriam pela ciclópica6 nudez com um efeito de teias de aranha. Em certos lugares, muito alto do chão, lhe haviam espetado alfinetes de ferro, amparando, sobre um precipício, miseráveis tábuas que, vistas cá de baixo, pareciam palitos, mas em cima das quais uns atrevidos pigmeus de forma humana equilibravam-se, desfechando golpes de picareta contra o gigante. O cavouqueiro meneou a cabeça com ar de lástima. O seu gesto desaprovava todo aquele serviço. – Veja lá! disse ele, apontando para certo ponto da rocha. Olhe para aquilo! Sua gente tem ido às cegas no trabalho desta pedreira. Deviam atacá-la justamente por aquele outro lado, para não contrariar os veios da pedra. Esta parte aqui é toda granito, é a melhor! Pois olhe só o que eles têm tirado de lá – umas lascas, uns calhaus7 que não servem para nada! É uma dor de coração ver estragar assim uma peça tão boa! Agora o que hão de fazer dessa cascalhada que aí está senão macacos8 ? E brada aos céus, creia! ter pedra desta ordem para empregá-la em macacos! O vendeiro escutava-o em silêncio, apertando os beiços, aborrecido com a ideia da quele prejuízo. Aluísio Azevedo O cortiço. São Paulo: Ática, 2009. Vocabulário: 1 lajedos – pedras 2 picão, escopro, macete – instrumentos de trabalho 3 cavouqueiro – aquele que trabalha em minas e pedreiras 4 fralda – parte inferior
146VOLUME 3 LINGUAGENS, CÓDIGOS e suas tecnologias 5 escalavrado – golpeado, esfolado 6 ciclópica – colossal, gigantesca 7 calhaus – pedras soltas 8 macacos – paralelepípedos 1. (Uerj) O texto de Aluísio Azevedo, que faz parte da estética naturalista, utiliza recursos expressivos de sonoridade, como a onomatopeia. Considere o seguinte fragmento: E todo aquele retintim de ferramentas, e o martelar da forja, e o coro dos que lá em cima brocavam a rocha para lançar-lhe fogo, e a surda zoada ao longe, que vinha do cortiço, (2º parágrafo) Indique dois exemplos do emprego da onomatopeia e justifique a sua presença no texto naturalista. 2. (Uerj) “pareciam um punhado de demônios revoltados na sua impotência contra o impassível gigante que os contemplava com desprezo, imperturbável a todos os golpes e a todos os tiros que lhe desfechavam no dorso”, (2º parágrafo) Para caracterizar a pedreira, o narrador utiliza várias vezes uma determinada figura de linguagem, como no trecho acima. Identifique essa figura de linguagem e um de seus efeitos estilísticos. Transcreva, em seguida, uma passagem do texto em que a pedreira é descrita sob uma perspectiva diferente. 3. (Uerj) Aqueles homens gotejantes de suor, bêbedos de calor, desvairados de insolação, (2º parágrafo) O enunciado acima apresenta uma sequência de sensações. Aponte o valor semântico dessa sequência e identifique no texto outro exemplo em que a disposição das palavras produza efeito similar. E.O. Objetivas (Unesp, Fuvest, Unicamp e Unifesp) TEXTO PARA AS PRÓXIMAS 2 QUESTÕES E Jerônimo via e escutava, sentindo ir-se-lhe toda a alma pelos olhos enamorados. Naquela mulata estava o grande mistério, a síntese das impressões que ele recebeu chegando aqui: ela era a luz ardente do meio-dia; ela era o calor vermelho das sestas da fazenda; era o aroma quente dos trevos e das baunilhas, que o atordoara nas matas brasileiras; era a palmeira virginal e esquiva que se não torce a nenhuma outra planta; era o veneno e era o açúcar gostoso; era o sapoti mais doce que o mel e era a castanha do caju, que abre feridas com o seu azeite de fogo; ela era a cobra verde e traiçoeira, a lagarta viscosa, a muriçoca doida, que esvoaçava havia muito tempo em torno do corpo dele, assanhando-lhe os desejos, acordando-lhe as fibras embambecidas pela saudade da terra, picando-lhe as artérias, para lhe cuspir dentro do sangue uma centelha daquele amor setentrional, uma nota daquela música feita de gemidos de prazer, uma larva daquela nuvem de cantáridas que zumbiam em torno da Rita Baiana e espalhavam-se pelo ar numa fosforescência afrodisíaca. Aluísio Azevedo, O cortiço. 1. (Fuvest) O efeito expressivo do texto – bem como seu pertencimento ao Naturalismo em literatura – baseia-se amplamente no procedimento de explorar de modo intensivo aspectos biológicos da natureza. Entre esses procedimentos empregados no texto, só NÃO se encontra a: a) representação do homem como ser vivo em interação constante com o ambiente. b) exploração exaustiva dos receptores sensoriais humanos (audição, visão, olfação, gustação), bem como dos receptores mecânicos. c) figuração variada tanto de plantas quanto de animais, inclusive observados em sua interação. d) ênfase em processos naturais ligados à reprodução humana e à metamorfose em animais. e) focalização dos processos de seleção natural como principal força direcionadora do processo evolutivo. 2. (Fuvest) Em que pese a oposição programática do Naturalismo ao Romantismo, verifica-se no excerto – e na obra a que pertence – a presença de uma linha de continuidade entre o movimento romântico e a corrente naturalista brasileira, a saber, a: a) exaltação patriótica da mistura de raças. b) necessidade de autodefinição nacional. c) aversão ao cientificismo. d) recusa dos modelos literários estrangeiros. e) idealização das relações amorosas. TEXTO PARA AS PRÓXIMAS 4 QUESTÕES Passaram-se semanas. Jerônimo tomava agora, todas as manhãs, uma xícara de café bem grosso, à moda da Ritinha, e tragava dois dedos de parati “pra cortar a friagem”. Uma transformação, lenta e profunda, operava-se nele, dia a dia, hora a hora, reviscerando-lhe o corpo e alando-lhe os sentidos, num trabalho misterioso e surdo de crisálida. A sua energia afrouxava lentamente: fazia-se contemplativo e amoroso. A vida americana e a natureza do Brasil patenteavam-lhe agora aspectos imprevistos e sedutores que o comoviam; esquecia-se dos seus primitivos sonhos de ambição, para idealizar felicidades novas, picantes e violentas; tornava-se liberal, imprevidente e franco, mais amigo de gastar que de guardar; adquiria desejos, tomava gosto aos prazeres, e volvia- -se preguiçoso, resignando-se, vencido, às imposições do sol e do calor, muralha de fogo com que o espírito eternamente revoltado do último tamoio entrincheirou a pátria contra os conquistadores aventureiros. E assim, pouco a pouco, se foram reformando todos os seus hábitos singelos de aldeão português: e Jerônimo abrasileirou-se. (...) E o curioso é que, quanto mais ia ele caindo nos usos e costumes brasileiros, tanto mais os seus sentidos se apuravam, posto que em detrimento das suas forças físicas. Tinha agora o ouvido menos grosseiro para
147VOLUME 3 LINGUAGENS, CÓDIGOS e suas tecnologias a música, compreendia até as intenções poéticas dos sertanejos, quando cantam à viola os seus amores infelizes; seus olhos, dantes só voltados para a esperança de tornar à terra, agora, como os olhos de um marujo, que se habituaram aos largos horizontes de céu e mar, já se não revoltavam com a turbulenta luz, selvagem e alegre, do Brasil, e abriam-se amplamente defronte dos maravilhosos despenhadeiros ilimitados e das cordilheiras sem fim, donde, de espaço a espaço, surge um monarca gigante, que o sol veste de ouro e ricas pedrarias refulgentes e as nuvens toucam de alvos turbantes de cambraia, num luxo oriental de arábicos príncipes voluptuosos. Aluísio Azevedo, O cortiço. 3. (Fuvest) Considere as seguintes afirmações, relacionadas ao excerto de O cortiço: I. O sol, que, no texto, se associa fortemente ao Brasil e à “pátria”, é um símbolo que percorre o livro como manifestação da natureza tropical e, em certas passagens, representa o princípio masculino da fertilidade. II. A visão do Brasil expressa no texto manifesta a ambiguidade do intelectual brasileiro da época em que a obra foi escrita, o qual acatava e rejeitava a sua terra, dela se orgulhava e envergonhava, nela confiava e dela desesperava. III. O narrador aceita a visão exótico-romântica de uma natureza (brasileira) poderosa e transformadora, reinterpretando-a em chave naturalista. Aplica-se ao texto o que se afirma em: a) I, somente. b) II, somente. c) II e III, somente. d) I e III, somente. e) I, II e III. 4. (Fuvest) Um traço cultural que decorre da presença da escravidão no Brasil e que está implícito nas considerações do narrador do excerto é a: a) desvalorização da mestiçagem brasileira. b) promoção da música a emblema da nação. c) desconsideração do valor do trabalho. d) crença na existência de um caráter nacional brasileiro. e) tendência ao antilusitanismo. 5. (Fuvest) O papel desempenhado pela personagem Ritinha (Rita Baiana), no processo sintetizado no excerto, assemelha-se ao da personagem: a) Iracema, do romance homônimo, na medida em que ambas simbolizam o poder de sedução da terra brasileira sobre o português que aqui chegava. b) Vidinha, de Memórias de um sargento de milícias, tendo em vista que uma e outra constituem fatores decisivos para o desencaminhamento de personagens masculinas anteriormente bem orientadas. c) Capitu, de Dom Casmurro, a qual, como a baiana, também lança mão de seus encantos femininos para obter ascensão social. d) Joaninha, de A cidade e as serras, pois ambas representam a simplicidade natural das mulheres do campo, em oposição à beleza artificiosa das mulheres das cidades. e) Dora, de Capitães da areia, na medida em que ambas são responsáveis diretas pela regeneração física e moral de seus respectivos pares amorosos. 6. (Fuvest) Os costumes a que adere Jerônimo em sua transformação, relatada no excerto, têm como referência, na época em que se passa a história, o modo de vida a) dos degredados portugueses enviados ao Brasil sem a companhia da família. b) dos escravos domésticos, na região urbana da Corte, durante o Segundo Reinado. c) das elites produtoras de café, nas fazendas opulentas do Vale do Paraíba fluminense. d) dos homens livres pobres, particularmente em região urbana. e) dos negros quilombolas, homiziados em refúgios isolados e anárquicos. TEXTO PARA AS PRÓXIMAS 3 QUESTÕES As provocações no recreio eram frequentes, oriundas do enfado; irritadiços todos como feridas; os inspetores a cada passo precisavam intervir em conflitos; as importunações andavam em busca das suscetibilidades; as suscetibilidades a procurar a sarna das importunações. Viam de joelhos o Franco, puxavam-lhe os cabelos. Viam Rômulo passar, lançavam-lhe o apelido: mestre-cuca! Esta provocação era, além de tudo, inverdade. Cozinheiro, Rômulo! Só porque lembrava culinária, com a carnosidade bamba, fofada dos pastelões, ou porque era gordo das enxúndias enganadoras dos fregistas, dissolução mórbida de sardinha e azeite, sob os aspectos de mais volumosa saúde? (...) Rômulo era antipatizado. Para que o não manifestassem excessivamente, fazia-se temer pela brutalidade. Ao mais insignificante gracejo de um pequeno, atirava contra o infeliz toda a corpulência das infiltrações de gordura solta, desmoronava-se em socos. Dos mais fortes vingava-se, resmungando intrepidamente. Para desesperá-lo, aproveitavam-se os menores do escuro. Rômulo, no meio, ficava tonto, esbravejando juras de morte, mostrando o punho. Em geral procurava reconhecer algum dos impertinentes e o marcava para a vindita. Vindita inexorável. No decorrer enfadonho das últimas semanas, foi Rômulo escolhido, principalmente, para expiatório do desfastio. Mestrecuca! Via- -se apregoado por vozes fantásticas, saídas da terra; mestre-cuca! Por vozes do espaço rouquenhas ou esganiçadas. Sentava-se acabrunhado, vendo se se lembrava de haver tratado panelas algum dia na vida; a unanimidade impressionava. Mais frequentemente, entregava-se a acessos de raiva. Arremetia bufando, espumando, olhos fechados, punhos para trás, contra os grupos. Os rapazes corriam a rir, abrindo caminho, deixando rolar adiante aquela ambulância danada de elefantíase. (Raul Pompeia. O Ateneu.) 7. (Unifesp) Indique a alternativa em que os fragmentos selecionados exemplificam, respectivamente, a manifestação clara do ponto de vista do narrador e a opinião do grupo, a propósito de Rômulo.
148VOLUME 3 LINGUAGENS, CÓDIGOS e suas tecnologias a) Cozinheiro, Rômulo! – Vindita inexorável. b) Vindita inexorável. – Cozinheiro, Rômulo! c) Mestre-cuca! – Vindita inexorável. d) Cozinheiro, Rômulo! – Mestre-cuca! e) Mestre-cuca! – Cozinheiro, Rômulo! 8. (Unifesp) Considere as seguintes afirmações. I. A alcunha de mestre-cuca, recebida por Rômulo, advinha do fato de ter praticado, anteriormente, a arte culinária. II. As agressões e humilhações sofridas por Rômulo eram essencialmente motivadas por sua antipatia. III. As reações de Rômulo às provocações dos colegas variavam conforme as circunstâncias. De acordo com o texto, está correto o que se afirma apenas em: a) I. b) II. c) III. d) I e II. e) II e III. 9. (Unifesp) Sobre o texto, é correto afirmar: a) A atmosfera tensa presente no cotidiano do colégio era produto, sobretudo, da marcação cerrada dos inspetores, que intervinham nos muitos conflitos. b) Rômulo, devido às provocações que sofre, perde as certezas sobre si mesmo e assume um comportamento que oscila entre a angústia e ataques de fúria. c) Alguns alunos, por serem muito suscetíveis, importunavam outros colegas, puxando-lhes o cabelo ou colocando-lhes apelidos. d) A brutalidade física de Rômulo era a única solução que encontrava para enfrentar a chacota dos alunos mais fortes. e) A unanimidade dos alunos em chamar Rômulo de cozinheiro fazia com que preponderasse sua atitude de entregar-se ao acabrunhamento. 10. (Unifesp) Considere o trecho de O Cortiço, de Aluísio Azevedo. Uma aluvião de cenas, que ela [Pombinha] jamais tentara explicar e que até ali jaziam esquecidas nos meandros do seu passado, apresentavam-se agora nítidas e transparentes. Compreendeu como era que certos velhos respeitáveis, cuja fotografia Léonie lhe mostrou no dia que passaram juntas, deixavam-se vilmente cavalgar pela loureira, cativos e submissos, pagando a escravidão com a honra, os bens, e até com a própria vida, se a prostituta, depois de os ter esgotado, fechava-lhes o corpo. E continuou a sorrir, desvanecida na sua superioridade sobre esse outro sexo, vaidoso e fanfarrão, que se julgava senhor e que, no entanto, fora posto no mundo simplesmente para servir ao feminino; escravo ridículo que, para gozar um pouco, precisava tirar da sua mesma ilusão a substância do seu gozo; ao passo que a mulher, a senhora, a dona dele, ia tranquilamente desfrutando o seu império, endeusada e querida, prodigalizando martírios, que os miseráveis aceitavam contritos, a beijar os pés que os deprimiam e as implacáveis mãos que os estrangulavam. — Ah! homens! homens! ... sussurrou ela de envolta com um suspiro. No texto, os pensamentos da personagem a) recuperam o princípio da prosa naturalista, que condena os assuntos repulsivos e bestiais, sem amparo nas teorias científicas, ligados ao homem que põe em primeiro plano seus instintos animalescos. b) elucidam o princípio do determinismo presente na prosa naturalista, revelando os homens e as mulheres conscientes dos seus instintos em função do meio em que vivem e, sobretudo, capazes de controlá-los. c) trazem uma crítica aos aspectos animalescos próprios do homem, mas, por outro lado, revelam uma forma de Pombinha submeter a muitos deles para obter vantagens: eis aí um princípio do Realismo rechaçado no Naturalismo. d) constroem uma visão de mundo e do homem idealizada, o que, em certa medida, afronta o referencial em que se baseia a prosa naturalista, que define o homem como fruto do meio, marcado pelo apelo dos seus sentidos. e) consubstanciam a concepção naturalista de que o homem é um animal, preso aos instintos e, no que dizem respeito à sexualidade, vê-se que Pombinha considera a mulher superior ao homem, e esse conhecimento é uma forma de se obterem vantagens. E.O. Dissertativas (Unesp, Fuvest, Unicamp e Unifesp) 1. (Unicamp) Pensando nos pares amorosos, já se afirmou que “há n’O cortiço um pouco de Iracema coada pelo Naturalismo.” (Antonio Candido, “De cortiço em cortiço”, em O discurso e a cidade. São Paulo: Duas Cidades, 1993, p.142.) Partindo desse comentário, leia o trecho abaixo e responda às questões. O chorado arrastava-os a todos, despoticamente, desesperando aos que não sabiam dançar. Mas, ninguém como a Rita; só ela, só aquele demônio, tinha o mágico segredo daqueles movimentos de cobra amaldiçoada; aqueles requebros que não podiam ser sem o cheiro que a mulata soltava de si e sem aquela voz doce, quebrada, harmoniosa, arrogante, meiga e suplicante. (...) Naquela mulata estava o grande mistério, a síntese das impressões que ele recebeu chegando aqui: ela era a luz ardente do meio-dia; ela era o calor vermelho das sestas da fazenda; era o aroma quente dos trevos e das baunilhas, que o atordoara nas matas brasileiras; era a palmeira virginal e esquiva que se não torce a nenhuma outra planta; era o veneno e era o açúcar gostoso; era o sapoti mais doce que o mel e era a castanha do caju, que abre feridas com o seu azeite de fogo; ela era a cobra verde e traiçoeira, a lagarta viscosa, a muriçoca doida, que esvoaçava havia muito tempo em torno do corpo dele, assanhando-lhe os desejos, acordando-lhe as fibras embambecidas pela saudade da terra, picando-lhe as artérias, para lhe cuspir dentro do sangue uma centelha daquele amor setentrional, uma nota daquela música feita de gemidos de prazer, uma larva daquela nuvem de cantáridas que zumbiam em torno da Rita Baiana e espalhavam-se pelo ar numa fosforescência afrodisíaca. Isto era o que Jerônimo sentia, mas o que o tonto não podia conceber. De todas as impressões daquele resto de domingo só lhe ficou no espírito o entorpecimento de uma desconhecida embriaguez, não de vinho, mas de mel chuchurreado no cálice de flores americanas, dessas muito alvas, cheirosas e úmidas, que ele na fazenda via debruçadas confidencialmente sobre os limosos pântanos sombrios, onde as oiticicas trescalam um aroma que entristece de saudade. (...) E ela só foi ter com ele, levando-lhe a chávena fumegante da perfumosa bebida que tinha sido a mensageira dos seus amores;
149VOLUME 3 LINGUAGENS, CÓDIGOS e suas tecnologias assentou-se ao rebordo da cama e, segurando com uma das mãos o pires, e com a outra a xícara, ajudava-o a beber, gole por gole, enquanto seus olhos o acarinhavam, cintilantes de impaciência no antegozo daquele primeiro enlace. Depois, atirou fora a saia e, só de camisa, lançou-se contra o seu amado, num frenesi de desejo doido. (Aluísio Azevedo, O Cortiço. Ficção Completa. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 2005, p. 498 e 581.) a) Na descrição acima, identifique dois aspectos que permitem aproximar Rita Baiana de Iracema, mostrando os limites dessa semelhança. b) Identifique uma semelhança e uma diferença entre Jerônimo e Martim. 2. (Fuvest) Responda ao que se pede. De que maneira, em O cortiço, de Aluísio Azevedo, são encaradas as correntes de pensamento filosófico e científico de grande prestígio na época em que o romance foi escrito? Explique sucintamente. 3. (Fuvest) Considere o seguinte excerto de O cortiço, de Aluísio Azevedo, e responda ao que se pede. (...) desde que Jerônimo propendeu para ela, fascinando-a com a sua tranquila seriedade de animal bom e forte, o sangue da mestiça reclamou os seus direitos de apuração, e Rita preferiu no europeu o macho de raça superior. O cavouqueiro, pelo seu lado, cedendo às imposições mesológicas, enfarava a esposa, sua congênere, e queria a mulata, porque a mulata era o prazer, a volúpia, era o fruto dourado e acre destes sertões americanos, onde a alma de Jerônimo aprendeu lascívias de macaco e onde seu corpo porejou o cheiro sensual dos bodes. Tendo em vista as orientações doutrinárias que predominam na composição de O cortiço, identifique e explique aquela que se manifesta no trecho a e a que se manifesta no trecho b, a seguir: a) “o sangue da mestiça reclamou os seus direitos de apuração”. b) “cedendo às imposições mesológicas”. 4. (Unicamp) Leia o seguinte comentário a respeito de O Cortiço, de Aluísio Azevedo: Com efeito, o que há n’ O Cortiço são formas primitivas de amealhamento, a partir de muito pouco ou quase nada, exigindo uma espécie de rigoroso ascetismo inicial e a aceitação de modalidades diretas e brutais de exploração, incluindo o furto (...) como forma de ganho e a transformação da mulher escrava em companheira máquina. (...) Aluísio foi, salvo erro meu, o primeiro dos nossos romancistas a descrever minuciosamente o mecanismo de formação da riqueza individual. (...) N’ O Cortiço [o dinheiro] se torna implicitamente objeto central da narrativa, cujo ritmo acaba se ajustando ao ritmo da sua acumulação, tomada pela primeira vez no Brasil como eixo da composição ficcional. (Antonio Candido, De cortiço a cortiço. In: O discurso e a cidade. São Paulo: Duas Cidades, 1993, p. 129-3.) *amealhar: acumular (riqueza), juntar (dinheiro) aos poucos a) Explique a que se referem o rigoroso ascetismo inicial da personagem em questão e as modalidades diretas e brutais de exploração que ela emprega. b) Identifique a “mulher escrava” e o modo como se dá sua transformação “em companheira máquina”. TEXTO PARA AS PRÓXIMAS 3 QUESTÕES Fragmento do romance O Ateneu, de Raul Pompeia (1863-1895), em que o narrador comenta suas reações ao ensino que recebia no colégio: O ATENEU A doutrina cristã, anotada pela proficiência do explicador, foi ocasião de dobrado ensino que muito me interessou. Era o céu aberto, rodeado de altares, para todas as criações consagradas da fé. Curioso encarar a grandeza do Altíssimo; mas havia janelas para o purgatório a que o Sanches se debruçava comigo, cuja vista muito mais seduzia. E o preceptor tinha um tempero de unção na voz e no modo, uma sobranceria de diretor espiritual, que fala do pecado sem macular a boca. Expunha quase compungido, fincando o olhar no teto, fazendo estalar os dedos, num enlevo de abstração religiosa; expunha, demorando os incidentes, as mais cabeludas manifestações de Satanás no mundo. Nem ao menos dourava os chifres, que me não fizessem medo; pelo contrário, havia como que o capricho de surpreender com as fantasias do Mal e da Tentação, e, segundo o lineamento do Sanches, a cauda do demônio tinha talvez dois metros mais que na realidade. Insinuou-me, é certo, uma vez, que não é tão feio o dito, como o pintam. O catecismo começou a infundir-me o temor apavorado dos oráculos obscuros. Eu não acreditava inteiramente. Bem pensando, achava que metade daquilo era invenção malvada do Sanches. E quando ele punha-se a contar histórias de castidade, sem atenção à parvidade da matéria do preceito teológico, mulher do próximo, Conceição da Virgem, terceiro-luxúria, brados ao céu pela sensualidade contra a natureza, vantagens morais do matrimônio, e porque a carne, a inocente carne, que eu só conhecia condenada pela quaresma e pelos monopolistas do bacalhau, a pobre carne do beef, era inimiga da alma; quando retificava o meu engano, que era outra a carne e guisada de modo especial e muito especialmente trinchada, eu mordia um pedacinho de indignação contra as calúnias à santa cartilha do meu devoto credo. Mas a coisa interessava e eu ia colhendo as informações para julgar por mim oportunamente. Na tabuada e no desenho linear, eu prescindia do colega mais velho; no desenho, porque achava graça em percorrer os caprichosos traços, divertindo-me a geometria miúda como um brinquedo; na tabuada e no sistema métrico, porque perdera as esperanças de passar de medíocre como ginasta de cálculos, e resolvera deixar a Maurílio ou a quem quer que fosse o primado das cifras.
150VOLUME 3 LINGUAGENS, CÓDIGOS e suas tecnologias Em dois meses tínhamos vencido por alto a matéria toda do curso; e, com este preparo, sorria-me o agouro de magnífico futuro, quando veio a fatalidade desandar a roda. (Raul Pompeia. O Ateneu. Rio de Janeiro: Biblioteca Universal Popular, 1963.) 5. (Unesp) No primeiro parágrafo, a personagem Sanches, aluno mais velho que atuava como espécie de preceptor para os estudos de Sérgio, o mais novo, se refere a duas entidades da religião cristã, contextualizando valores opostos a cada uma delas. Identifique as duas entidades e os valores a que estão respectivamente associadas. 6. (Unesp) Nesta passagem de O Ateneu, romance que a crítica literária ainda hesita em classificar dentro de um único estilo literário, a personagem narradora se refere ao ensino de religião cristã, desenho e matemática, mostrando atitudes diferentes com relação aos conteúdos de cada disciplina. Releia o texto e, a seguir, explique a razão de a personagem narradora declarar, no penúltimo parágrafo, que prescindia do colega mais velho no aprendizado de desenho. 7. (Unesp) Embora no uso popular a palavra agouro apresente muitas vezes a acepção de “previsão ruim”, seu significado original não tem essa marca pejorativa, mas, simplesmente, o de prognóstico, previsão, predição, augúrio. Leia atentamente o último parágrafo do fragmento de O Ateneu e, a seguir, explique, comprovando com base em elementos do contexto, em que sentido o narrador empregou a palavra agouro. 8. (Fuvest 2017) Considere o excerto em que Araripe Júnior, crítico associado ao Naturalismo, refere-se ao “estilo” praticado “nesta terra”, isto é, no Brasil. O estilo, nesta terra, é como o sumo da pinha, que, quando viça, lasca, deforma-se, e, pelas fendas irregulares, poreja o mel dulcíssimo, que as aves vêm beijar; ou como o ácido do ananás do Amazonas, que desespera de sabor, deixando a língua a verter sangue, picada e dolorida. a) O modo pelo qual o crítico explica a feição que o “estilo” assume “nesta terra” indica que ele compartilha com o Naturalismo um postulado fundamental. Qual é esse postulado? Explique resumidamente. b) As características de estilo sugeridas pelo crítico, no excerto, aplicam-se ao romance O cortiço, de Aluísio Azevedo? Justifique sucintamente sua resposta. TEXTO PARA A PRÓXIMA QUESTÃO Desde que a febre de possuir se apoderou dele totalmente, todos os seus atos, todos, fosse o mais simples, visavam um interesse pecuniário. Só tinha uma preocupação: aumentar os bens. Das suas hortas recolhia para si e para a companheira os piores legumes, aqueles que, por maus, ninguém compraria; as suas galinhas produziam muito e ele não comia um ovo, do que no entanto gostava imenso; vendia-os todos e contentava-se com os restos da comida dos trabalhadores. Aquilo já não era ambição, era uma moléstia nervosa, uma loucura, um desespero de acumular; de reduzir tudo a moeda. E seu tipo baixote, socado, de cabelos à escovinha, a barba sempre por fazer, ia e vinha da pedreira para a venda, da venda às hortas e ao capinzal, sempre em mangas de camisa, de tamancos, sem meias, olhando para todos os lados, com o seu eterno ar de cobiça, apoderando-se, com os olhos, de tudo aquilo de que ele não podia apoderar-se logo com as unhas. (Aluísio Azevedo. O Cortiço.) 9. (Unesp) No fragmento de O CORTIÇO, de Aluísio Azevedo (1857-1913), há um trecho em que se observa uma das posturas cientificistas do Naturalismo, o psicofisiologismo. Tal postura consiste em fazer com que os traços físicos de um personagem estejam em estreita relação com sua identidade psicológica, sua maneira de ser, no ambiente narrativo. Levando em consideração este comentário: a) Indique um traço físico de João Romão que está de acordo com a personalidade que lhe confere o narrador. b) Interprete esse traço físico, à luz do caráter naturalista da obra. TEXTO PARA A PRÓXIMA QUESTÃO “Não é possível idear nada mais puro e harmonioso do que o perfil dessa estátua de moça. Era alta e esbelta. Tinha um desses talhes flexíveis e lançados, que são hastes de lírio para o rosto gentil; porém na mesma delicadeza do porte esculpiam-se os contornos mais graciosos com firme nitidez das linhas e uma deliciosa suavidade nos relevos. Não era alva, também não era morena. Tinha sua tez a cor das pétalas da magnólia, quando vão desfalecendo ao beijo do sol. Mimosa cor de mulher, se a aveluda a pubescência juvenil, e a luz coa pelo fino tecido, e um sangue puro a escumilha de róseo matiz. A dela era assim. Uma altivez de rainha cingia-lhe a fronte, como diadema cintilando na cabeça de um anjo. Havia em toda a sua pessoa um quer que fosse de sublime e excelso que a abstraía da terra. Contemplando-a naquele instante de enlevo, dir-se-ia que ela se preparava para sua celeste ascensão.” (José de Alencar, DIVA. São Paulo: Saraiva, 1959. p. 17) “Era muito bem feita de quadris e de ombros. Espartilhada, como estava naquele momento, a volta enérgica da cintura e a suave protuberância dos seios, produziam nos sentidos de quem a contemplava de perto uma deliciosa impressão artística. Sentia-se-lhe dentro das mangas do vestido a trêmula carnadura dos braços; e os pulsos apareciam nus, muito brancos, chamalotados de veiazinhas sutis, que se prolongavam serpeando. Tinha as mãos finas e bem tratadas, os dedos longos e roliços, a palma cor-de-rosa e as unhas curvas como o bico de um papagaio. Sem ser verdadeiramente bonita de rosto, era muito simpática e graciosa. Tez macia, de uma palidez fresca de camélia; olhos escuros, um pouco preguiçosos, bem guarnecidos e penetrantes; nariz curto, um nadinha arrebitado, beiços polpudos e viçosos, à maneira de uma fruta que provoca o apetite e dá vontade de morder. Usava o cabelo cofiado em franjas sobre a testa, e, quando queria ver ao longe, tinha de costume apertar as pálpebras e abrir ligeiramente a boca.” (Aluísio Azevedo, CASA DE PENSÃO. 20ª ed. São Paulo: Martins, s.d. p.87)