alfredo o. G. Gallas
Fernanda disperati gallas
1ª EDIÇÃO
SÃO PAULO
EDIÇÃO DO AUTOR
2017
Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP)
(Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil)
Astra 60 anos [livro eletrônico] / coordenação
Alfredo O. G. Gallas, Fernanda Disperati Gallas.
-- 1. ed. -- São Paulo : Alfredo Osvaldo Gustavo
Gallas, 2017.
88,1 Mb ; PDF
ISBN: 978-85-908663-8-1
1. Astra (Indústria) - História 2. Astra - Indústria e comércio - Jundiaí (SP) -
História 3. Desenvolvimento econômico 4. Fotografias 5. Plásticos - Indústria
e comércio - Jundiaí (SP) I. Gallas, Alfredo O. G. II. Gallas, Fernanda Disperati.
17-04593 CDD-338.4560981
Índices para catálogo sistemático:
1. Astra : Indústria e comércio : História 338.4560981
APRESENTAÇÃO FAMÍLIA OLIVA
P aulista de Casa Branca, nascido em 1926, engenheiro civil de entre os dois, fato atestado por estarem sempre juntos e de mãos dadas. Os
formação, Francisco de Assis Cechelli Oliva foi um empresário dois apreciavam a cultura e investiram para ampliar o seu acesso na cida-
inquieto e discreto. Seu nome antecede e vai além da história das de de Jundiaí. Trabalharam por toda a vida, Oliva à frente dos negócios e
empresas que fundou em Jundiaí, tornando-se referência na indústria, no D. Anna o apoiando incondicionalmente, para a geração de riqueza para
mercado imobiliário e na área financeira. a sociedade, preocupados com a melhoria do bem-estar social por meio
da iniciativa privada. "O Oliva, com toda a sua fortuna, nunca foi notável
O início da trajetória do doutor Oliva, como era conhecido, foi em pelo dinheiro que teve; sempre foi notável por suas ações", lembra o amigo
sua pequena empresa de engenharia civil, a Oliva & Mattar, e em con- e arquiteto Araken Martinho. O jornalista Sandro Vaia definia o amigo
sultorias que prestava a várias companhias nos campos de organização, Oliva como um "incentivador do talento alheio", alguém que não tinha
racionalização do trabalho, custos e análises econômicas. Além disso, le- pressa para fazer as coisas, mas era persistente na arte de fazer dar certo.
cionava na Escola Politécnica da USP, sendo um dos fundadores do curso
de Engenharia de Produção. Oliva foi um homem à frente do seu tempo. Investiu em negócios
diversificados e trabalhou por toda a vida no comando de suas empresas,
Casou-se em 1953 com Anna Maria Mattar, com quem construiu entre elas Astra, F A Oliva, Finamax e Japi, que hoje estão sob a responsa-
sua família - três filhas, cinco netos e três bisnetos - e permaneceu ao bilidade de seus netos Paulo e Ana Oliva.
seu lado por 61 anos, em uma cumplicidade que só chegou ao fim com o
falecimento de Oliva, em 2014.
Extremamente racional, Oliva não era dado a declarações românti-
cas, o que jamais tirou a certeza de D. Anna do profundo amor que existiu
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APRESENTAÇÃO FAMÍLIA PAES
N ascido em 1926, o jundiaiense José Augusto Pinto Paes era com o genro, Nestor Gregori, fundou a Paes & Gregori, incorporadora à
descendente de Fernão Dias Paes, um dos mais afamados ban- frente da obra do Hotel Ibis Jundiaí, inaugurado recentemente.
deirantes paulistas. Formado em engenharia civil pela Escola
Politécnica da USP, trabalhou na Prefeitura de Jundiaí e foi professor Paes era casado com a professora Iris Cassatella Paes desde 1953. Da
de cálculo e da área industrial, vocação herdada de sua mãe, Ana Pinto união, nasceram a filha Ana Lúcia Cassatella Paes, dois netos e um bisne-
Duarte Paes, que dá nome a uma escola estadual no bairro Ponte São João. to. O casal se orgulhava do que realizou nos mais de 64 anos de casados e
afirmaram que o motor que os levou a este resultado foi a satisfação em dar
Em 1957, Paes juntou-se a um grupo de amigos, entre eles Francisco à sociedade um retorno em troca do sucesso de seus empreendimentos.
Oliva e Alberto Traldi, para assumir a administração da marcenaria do
seu irmão João Carlos Duarte Paes. Dessa união nasceu a Astra, que tam- Dr. José Paes faleceu aos 90 anos, em março de 2017, às vésperas da
bém contou em sua sociedade com outro irmão de José Paes, Geraldo impressão deste livro.
Pinto Duarte Paes, que trabalhava com seguros na época.
Além de estar envolvido na administração da Astra, José Paes sempre
manteve uma construtora, responsável entre outras obras pela construção
do tradicional Mercadão do Vianelo, do prédio da Câmara Municipal e
dos escritórios da Vulcabrás, todos em Jundiaí. Em 1994, em sociedade
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APRESENTAÇÃO FAMÍLIA TRALDI
A lberto Traldi era filho de Hermes Traldi, italiano que chegou ao momentos extremamente difíceis. Traldi foi um empresário discreto e ca-
Brasil em 1910 aos 18 anos, e foi fundador de uma das maio- rismático. Valorizava todos os que trabalhavam com ele, cuidando tam-
res vinícolas do país na época. Habilidoso para negócios e filho bém da amizade que mantinha com os seus sócios, do que se orgulhava.
mais velho de uma família italiana, Alberto assumiu naturalmente a su-
perintendência da vinícola, tendo se formado em Agronomia pela ESAL- Em 1970, com apenas uma semana de diferença, Alberto Traldi per-
Q-USP. Em 1942 casou-se com Maria Augusta Carvalho de Mendonça deu a mãe e a esposa, enfrentando a época mais difícil de sua vida. Ca-
Traldi, dona de uma simpatia cativante e talento para arte, com quem sou-se uma segunda vez em 1972, com Lícia Medeiros de Muzio, mulher
teve três filhos: César, Suzana e Nelson. com grande capacidade organizativa que lhe deu a tranquilidade para
que continuasse no exercício de suas atividades.
Alberto Traldi foi um dos primeiros delegados em Jundiaí do Cen-
tro das Indústrias do Estado de São Paulo - CIESP - e representante bra- O Conselho Administrativo da Astra foi criado em 1996, mas Al-
sileiro dos produtores de vinho no exterior. Destacou-se também por ser berto Traldi faleceu antes que pudesse ocupar o seu posto. Em seu lugar
um dos fundadores e diretor da Cia Telefônica de Jundiaí. assumiu o seu filho mais velho, César, que é casado com Maria Luiza
Abreu de Araújo Traldi, tem duas filhas e cinco netos.
No final de 1956 Alberto foi convidado pelos amigos Oliva, Paes e
Sarpi a participar da concepção da futura empresa Astra. Juntos, viveram
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1apresentação diretoria astra
D irigir uma empresa complexa e com características tão particu- a cultura, os valores e o Código de Ética, sempre respeitando o jeito As-
lares como a Astra é uma missão desafiadora. São 60 anos de tra de ser e fazer.
tradição e de um jeito muito próprio de administrar que requer
um profundo entendimento da cultura organizacional e dos conceitos Mais do que trabalhar pelo pleno funcionamento da empresa e
implantados por seus fundadores desde o princípio. prosperidade dos negócios, cabe à diretoria buscar constantemente pelo
desenvolvimento sustentável da organização, ajudando na formação de
Tais valores têm sido carregados ao longo dos anos pelos adminis- profissionais que irão contribuir com a gestão dos negócios e executan-
tradores e líderes que estiveram à frente da empresa. A tarefa de levar a do suas funções de acordo com as expectativas do Conselho Adminis-
essência dos negócios adiante é hoje cumprida pelos diretores Manoel trativo da Astra.
Fernandes Flores (superintendente), Glauber Eduardo Toldo (industrial)
e Joaquim Lucas Sartori Coelho (comercial), engenheiros de formação,
contratados como trainees a partir dos processos seletivos iniciados na
década de 1980. Os três foram formados dentro da Astra e treinados por
Francisco de Assis Cechelli Oliva, responsável pela capacitação dos jo-
vens talentos e pela profissionalização da empresa como um todo.
O tripé de sustentação da Astra - grande quantidade de produtos,
grande quantidade de clientes e capacidade para administrar a comple-
xidade dos negócios – demanda que a tríade de diretores trabalhe em
conjunto e em fina sintonia. Juntos e pautados pela missão e visão, eles
têm a função de assegurar que a organização opere em consonância com
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sumário
1. JUNDIAÍ: BERÇO DA ASTRA........................................................................8
2. PEQUENO INÍCIO DE UMA GRANDE EMPRESA...................20
3. CONSTRUÇÃO DA PRIMEIRA FÁBRICA.......................................32
4. NOVO MUNDO DOS PLÁSTICOS........................................................34
5. UMA EMPRESA MULTIESPECIALIZADA......................................46
6. CRIATIVIDADE E OUSADIA NO
DESENVOLVIMENTO DE PRODUTOS.............................................64
7. PRESENÇA NO BRASIL E NO MUNDO..........................................74
8. A CONSTANTE BUSCA PELA PREFERÊNCIA........................92
9. O JEITO ASTRA DE ADMINISTRAR............................................... 104
10. UMA CULTURA A SER PRESERVADA..................................... 108
11. ASTRA RUMO AOS 100 ANOS......................................................... 118
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8 Para atender ao grande número de cargas, notadamente de café, a SPR inaugurou em 1901 o
segundo plano inclinado, paralelo ao primeiro. A imagem mostra vista do túnel nº 1 ao nº 2
desta funicular, de onde se veem algumas casas dos trabalhadores ingleses.
CAPÍTULO 1 ram a abastecer também os bandeirantes e tropeiros que se dirigiam aos
“sertões”. Em 1655 o povoado foi elevado à vila, condição que se manteria
JUNDIAÍ: por cerca de duzentos anos, com Jundiaí servindo de limite norte da Ca-
pitania de São Vicente e já existindo a Rua Direita, atual Barão de Jundiaí;
BERÇO DA a Rua do Meio, atual Rua do Rosário; a Rua Nova, atual Senador Fonseca;
ASTRA e a Rua da Boa Vista, atual Zacarias de Góes.
E m 2017 a Astra completa 60 anos e sua trajetória não pode ser dis- Em meados do século XVIII, com as plantações de café seguindo a
sociada da história do próprio desenvolvimento de Jundiaí, onde Rota dos Bandeirantes e em franca marcha para o oeste, os colonos foram
nasceu e que continua a ser a sede de suas unidades. Por isso, é trocando a mão de obra indígena por escravos negros, até a sua total subs-
importante apresentar um breve relato da história desta cidade até mea- tituição, fazendo com que crescesse a produtividade das lavouras, com
dos do século XX, para dar a você, leitor, um panorama das conjunturas consequente desenvolvimento da vila, elevada a município em 1865.
em que a Astra foi criada, no ano de 1957.
O aumento da produção cafeeira levou ao desenvolvimento de no-
Jundiaí nasceu em 1615, com a expansão natural da população de vos meios de transporte, não sendo mais viável transportar o café ao Por-
São Paulo para o oeste, nas conhecidas Bandeiras, responsáveis pela am- to de Santos apenas no lombo de mulas. Foi assim que Irineu Evangelista
pliação do território brasileiro. Os primeiros moradores assentaram-se de Souza, o barão de Mauá – empreendedor e um dos homens mais visio-
na região, logo batizada como Freguesia de Nossa Senhora do Desterro de nários do Segundo Império -, convenceu D. Pedro II de que era possível
Jundiahy, vivendo a princípio de lavouras de subsistência que logo passa- instalar uma estrada de ferro ligando o Porto de Santos a São Paulo e Jun-
diaí, mesmo levando-se em conta as dificuldades de vencer os oitocentos
metros de desnível da Serra do Mar.
Mauá contratou o britânico James Brunlees, engenheiro especia-
lista em projetos ferroviários, o qual concluiu seus estudos atestando a
À esquerda, logotipo em latão da São Paulo Railway - SPR, em estilo Art Nouveau e, à direita, 9
suposta imagem da inauguração da Estação Ferroviária de Jundiaí, em 1867.
Estação Ferroviária de Jundiaí no início do século xx, com carroças para Claro, inaugurada com pompa e circunstância em 1884, na presença do
transporte de mercadorias e parte do piso da praça ainda em terra. Imperador. No ano seguinte, 1885, os trilhos atingiram Araraquara e, em
1889, a empresa foi vendida para a Companhia Paulista de Estradas de
viabilidade técnica e econômica do projeto, e convidou o também enge- Ferro, unindo, desta forma, Jundiaí ao Porto de Santos e a todo o interior
nheiro Daniel Makinson para a execução e orçamento da obra. Após as do estado de São Paulo.
aprovações foi criada a The São Paulo Railway Company Ltd., também
conhecida por SPR, com a concessão de explorar a linha por 80 anos. As A abrangência desta rede ferroviária foi se ampliando na medida em
obras foram iniciadas em 1860 e a estrada, que ficaria conhecida como "a que foram sendo integradas, entre outras pequenas ferrovias regionais, a
Inglesa”, foi inaugurada em 1867, com festividades na Estação de Jundiaí. Estrada de Ferro Perus-Pirapora, na Estação Perus; a Companhia Ytuana
Em 1946, a Companhia seria estatizada, nomeada Estrada de Ferro San- de Estradas de Ferro, na Estação Jundiaí; e a Estrada de Ferro Bragantina,
tos - Jundiaí, tendo sido, em 1957, integrada à Rede Ferroviária Federal. na Estação Campo Limpo, fazendo de Jundiaí, já naquela época, o grande
centro logístico da região, ampliado pela abertura da estrada de rodagem
Em 1864, um grupo de fazendeiros do interior da província de São São Paulo-Jundiaí no governo de Washington Luís, presidente cujo lema
Paulo tentou, em vão, convencer os ingleses – detentores da concessão -, era “governar é abrir estradas”. Em 1940, esta via seria pavimentada pelo
a prolongar os trilhos da SPR até Rio Claro. Ao receberem um não defi- interventor Adhemar de Barros com o nome de Via Anhanguera.
nitivo como resposta, motivado pelos prejuízos decorrentes da Guerra
do Paraguai, decidiram fundar em 1868 a Companhia Paulista de Estra- Outro fator que contribuiu fortemente para o desenvolvimento de
das de Ferro, com o primeiro trecho inaugurado em 1872, entre Jundiaí Jundiaí foi o crescimento de sua população ter sido realizado com base
e Campinas. Dando continuidade a este traçado, Carlos de Arruda Bote- em valores que priorizaram o reconhecimento do trabalho e do núcleo
lho, o conde do Pinhal, apresentou a D. Pedro II a conveniência de pro- familiar, conforme a tradição trazida pelos imigrantes italianos, e cujos
longar os trilhos - que chegavam apenas até Rio Claro -, até São Carlos e descendentes constituem hoje mais de 75% de sua população, contrastan-
Araraquara, obtendo a sua aprovação. Com subscrições de sua família e do com a cultura do caboclo, o pequeno posseiro nativo que vivia acomo-
de acionistas da área a ser beneficiada constituiu a Estrada de Ferro Rio dado em regime de subsistência.
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Vista interna da Estação Ferroviária de Jundiaí no início do século xx, na qual 11
se vê os bancos para público e a bela estrutura de ferro fundido importada da
Inglaterra, em estilo Art Nouveau.
No Brasil, um dos grandes problemas do Segundo Império era a Parnaíba, criou os núcleos coloniais de Ribeirão Pires, Cananeia, Ribei-
escravidão, mão de obra nas fazendas mesmo nas menores economias. A rão Preto e, na área onde hoje se situa o bairro da Colônia, em Jundiaí, foi
promulgação da Lei Eusébio de Queirós em 1850, determinando a extin- criado em 1886 o Núcleo Colonial Barão de Jundiaí.
ção do tráfico de escravos, deu início a um processo que ganharia força
em 1871, com a assinatura da Lei do Ventre Livre e a Lei dos Sexagená- A imigração italiana em Jundiaí iniciou-se em 1887 com a chegada
rios, decretada em 1885, culminando com a Lei Áurea, de 1888, quando de vinte e dois imigrantes que vieram junto aos alemães, originários da
foram libertados todos os escravos brasileiros. Para substituir esta po- colônia de São Caetano, em São Paulo, e que foram recebidos no Núcleo
pulação foram criados programas de incentivo de imigração europeia Colonial Barão de Jundiaí. Para este núcleo se dirigiram, além destes re-
para o país, prática que já havia sido iniciada, ainda que timidamente, cém-chegados, os italianos que já haviam trabalhado em outras fazen-
por D. João VI, com a vinda das primeiras famílias de alemães e suíços das de café, adquirindo lotes na Colônia ou em áreas próximas, como
para Caravelas, na Bahia, e Nova Friburgo, no Rio de Janeiro. Em 1820, no bairro do Caxambu, investindo ali as suas economias duramente al-
haviam se instalado alemães em Santo Amaro, hoje bairro paulistano, e cançadas. Em poucos meses os italianos já chegavam a cem pessoas, os
em Rio Negro, no Paraná. quais logo passaram a se dedicar ao cultivo do milho, feijão, arroz, batata
e frutas, entre as quais ganhou destaque a uva.
Ainda no Segundo Império, com o crescimento do movimento abo-
licionista, D. Pedro II ordenou ao ministro da Agricultura, o conselheiro Segundo o relatório do inspetor de Terras, Colonização e Imigra-
Antônio Prado, a instalação na província de São Paulo de uma comissão ção, em 1892 os oitenta e três lotes urbanos e os oitenta e três lotes rurais
para reestruturar os núcleos coloniais já existentes, e a criação de novos do núcleo já estavam edificados e ocupados por setecentos e sessenta e
para abrigar maior número possível de imigrantes. Seguindo esta deter- oito imigrantes, além de já existirem no local oito olarias, uma padaria,
minação o presidente da província, Antônio de Queiroz Telles, conde de uma carpintaria, um sapateiro, um ferreiro e cinco lojas comerciais, dan-
do condições para a sua emancipação, ocorrida em 1893.
12 Rua Barão de Jundiaí, final do século xix, com estacionamento de
carroças defronte ao casario barroco, construído no alinhamento da
rua. Praça ainda em terra batida, sem ajardinamento.
Rua Barão de Jundiaí, década de 1920, com automóvel Ford 13
modelo T, estacionado no fundo da praça. O casario barroco já
apresenta intervenções neoclássicas e ecléticas nas fachadas.
Vila Arens, em 1912. À direita, a Cia. Fiação de Tecidos São Bento S.A.; à esquerda, na parte de Vitis vinifera, de bagos menores, casca mais densa e grossa, mas que re-
cima, aparece um detalhe da torre da igreja de Santa Cruz, na atual Praça Quintino Bocaiúva. querem condições de clima e solo especiais para produzirem. Entre as
diversas castas desta espécie vale destacar as mais conhecidas: Cabernet
Outro núcleo, composto por imigrantes que juntaram as economias Sauvignon, Merlot e Chardonnay. Outras espécies como a Vitis labrus-
de dez anos de trabalho na Fazenda Sete Quedas, de Campinas, criou ca, Vitis rupestris e Vitis riparia, com bagos maiores e casca mais fina,
o bairro de Traviú, onde as famílias Carbonari, Tomasetto, Lorenzon e chamadas de uvas americanas, ou de mesa, são mais adequadas para o
Steck foram as primeiras a adquirir terras, substituindo o cafezal e mi- consumo natural, na forma de suco ou uvas passas. Foi nestas condições
lharal existentes pelo plantio de uvas viníferas, cultivo que se imporia na que surgiram as indústrias vinícolas de Jundiaí, desenvolvidas por imi-
região definitivamente por volta de 1910. grantes e voltadas para a produção de vinhos populares, como a Passarin,
Borin, Alberto Belesso, Traldi e Cereser – fundada em 1926.
Após ter sido implantada em Jundiaí a variedade de uva de mesa
Niágara branca, originária da América do Norte, e do desenvolvimento Em 1889 Jundiaí, ligada por ferrovia à capital do Estado e ao Porto
da variedade de cor rosada, cultivada por Benedito Marengo e seu filho de Santos, já tinha um razoável núcleo de mão de obra e foi instalado
Francisco na propriedade de Antônio Carbonari, por volta de 1933, as um dos primeiros sistemas de distribuição de água do país. Pouco de-
culturas passaram a priorizar as uvas de mesa. pois, em 1903, inaugurou-se o seu sistema de iluminação elétrica, por
iniciativa de Eloy Chaves, Edgard Egydio de Souza e Adalberto de Quei-
A “uva do Marengo”, como era anunciada pelos vendedores ambu- roz Telles e, em 1916, foi ligado o sistema telefônico, completando os
lantes e mercados de São Paulo, era uma ótima uva de mesa e teve grande pré-requisitos básicos para o início de sua industrialização, condições
sucesso comercial, mas não serviu para a produção de vinhos de qualidade. que ficavam ainda mais atraentes aos investidores ao somarem-se a es-
Assim, a então incipiente indústria vinícola local tratou de plantar a uva tes progressos técnicos as qualidades naturais da região, notadamente a
Isabella, e outras espécies viníferas em outras regiões, principalmente no existência de grandes áreas de terras planas e a abundância de manan-
Rio Grande do Sul, mantendo o engarrafamento de seus vinhos em Jundiaí. ciais de água doce.
As videiras pertencem ao gênero Vitis, que abrange dezenas de es-
pécies, entre as quais são adequadas para a produção de vinhos finos a
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As primeiras indústrias de Jundiaí foram a Tecelagem Jundiahya- American Shoe Co. com a família Smith Vasconcellos - ascendentes da
na de Tecidos e Cultura S.A., criada em 1874 por Antônio de Queiroz senadora Marta Suplicy -, em 1958.
Telles, produzindo inicialmente sacaria para café e, a partir de 1886,
com o nome Companhia São Bento, têxteis em geral; a Argos Industrial Em 1954, a Duratex, que havia adquirido as instalações de um gru-
S.A., de J.J. Abdalla, criada em 1904 e que na década de 1930 se tornou po sueco fabricante de chapas de fibra de madeira em Jundiaí, abriu a
a maior empregadora de Jundiaí; a Fábrica de Tecelagem Japi, em 1913, sua primeira fábrica na cidade, sob o comando de Olavo Setubal, direção
do senador Antônio de Lacerda Franco, nascido em Itatiba, fundador do comercial de Laerte Setubal e industrial de Jairo Cupertino, todos enge-
Banco União de São Paulo e avô de Tide Setubal, esposa de Olavo Setu- nheiros. Em 1972 a Deca, fundada por Olavo Setubal e Renato Refinetti, e
bal; a Fundição e Mecânica Brasil, em 1918; a Indústria Francisco Pozza- que já havia comprado, entre outras, a Companhia Cerâmica Jundiaiense,
ni S.A., fabricante de porcelana, em 1934; a fábrica de fósforos de Luiz foi incorporada e se tornou uma divisão da Duratex.
Latorre, mais tarde Andrade Latorre e Cia., em 1935; a Filobel Indústria
Têxtil do Brasil, em 1940; a CICA - Companhia Industrial de Conservas Foi neste contexto que foi assinado em 6 de janeiro de 1957 o con-
Alimentícias, de Alberto Bonfiglioli e Salvador Messina, a maior mul- trato de constituição da Indústria de Artefatos de Madeira Astra Ltda.,
tiprodutora agrícola do Brasil, famosa pela massa de tomate Elefante, cuja trajetória será apresentada neste livro.
criada em 1941; a Vulcabras-Azaleia, de 1952; a Produtos Alimentícios
Fleischmann Royal, em 1954; a Sifco - fusão da Sifco Industries U.S. e Vista da Vila Arens na década de 1940. À esquerda, ao fundo, a
igreja Nossa Senhora da Conceição, construída em 1928.
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16 "Córrego do Mato", ao fundo o Hipermercado Pão de Açúcar
Jumbo, e a igreja Nossa Senhora do Rosário.
Obras da construção da Av. 9 de Julho, inicialmente denominada Av. Córrego 17
do Mato, realizada na década de 1970, na gestão do prefeito Ibis Cruz. À direita,
Hipermercado Pão de Açúcar Jumbo.
18 Bairro Vianelo, meados da década de 1940. No centro da imagem as instalações
da Companhia Industrial de Conservas Alimentícias - CICA, fundada em 1941,
na frente da qual a ASTRA iniciou suas atividades.
Festa da Uva de 1953, ano da inauguração do Parque 19
Comendador Antonio Carbonari, onde seriam realizadas
as festas a partir de então.
20 Confraternização em 23 de dezembro de 1967. Da esquerda
para a direita, sentados, em primeiro plano: Traldi, José Paes,
Mastellaro, Sarpi e Oliva. Atrás, em pé: Antenor e José Carlos.
CAPÍTULO 2
PEQUENO INÍCIO DE
UMA GRANDE
EMPRESA
A Astra foi criada há 60 anos, e seu início remonta ao ano 1956, JOÃO CARLOS DUARTE PAES
motivado pelas relações de amizade de um grupo na casa dos
trinta anos: Francisco de Assis Cechelli Oliva e seu cunhado Era o dono de uma indústria de artefatos de madeira que foi o embrião
Miguel Antonio Mattar Neto, da empresa Oliva & Mattar, tinham es- da Astra, fundada por nove amigos: João Carlos e seus irmãos José e Ge-
critório no mesmo prédio de José Augusto Pinto Paes e Ernani Ribeiro raldo; Alberto Traldi; Oliva e seu sócio e cunhado Miguel Mattar; Ernani
Gonçalves, da Construtora Paes Gonçalves, e eram todos engenheiros. O Gonçalves – sócio de José Paes; José Sarpi Filho e seu sócio na Cerâmica
irmão de José Augusto Paes, João Carlos Duarte Paes, era dono do Depó- Colônia, Fausto Zonaro. João Carlos e seu irmão mais novo, Geraldo, dei-
sito Continental, de materiais para construção, e havia aberto uma pe- xaram a Astra em 1960.
quena serraria para ampliar o seu negócio, passando a desdobrar madeira
bruta para fazer batentes, caibros e sarrafos.
Em 1949, a Sears, Roebuck & Co. havia aberto a sua primeira loja de
departamento no Brasil, e o sucesso da empreitada a levou a inaugurar na
sequência outras duas lojas em São Paulo, entre as quais estava a da Água
Branca, aberta em 1955, com mais itens à venda, inclusive uma grande
área dedicada a móveis de cozinha. A Sears havia sido criada em Chicago
em 1886, a princípio para vender apenas relógios e joias por catálogos.
Dez anos depois já vendiam também calçados, utensílios domésticos, ar-
mas e móveis e, em 1925, construíram a sua primeira loja de departamen-
to, ainda na cidade de Chicago, período em que passaram a ficar conhe-
cidos pelo slogan satisfaction guaranteed or your money back – satisfação
garantida ou seu dinheiro de volta. A Sears encerraria suas operações no
Brasil em 1992, e hoje, associada à rede Kmart desde 2005, voltou a ser
uma das maiores empresas do mercado americano, com lojas também no
Canadá e no México.
João Carlos Duarte Paes aproveitou a oportunidade e passou a pro-
duzir móveis de cozinha com chapas de duratex, fabricadas em Jundiaí,
para atender a gigante Sears, um grande estímulo para ampliar as suas
atividades. Ele contratou José Mastellaro, que tinha acabado de vender
uma pequena marcenaria, e alugou um galpão industrial defronte à
CICA, na época a maior indústria da cidade. Para se capitalizar, vendeu
o Depósito Continental para o irmão José, seu sócio Ernani e para Oliva
e Miguel Mattar, que o assumiram com a nova razão social Paes, Oliva e
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Cia. Ltda. João Carlos investiu em sua Indústria de Artefatos de Madeira ALBERTO TRALDI
João Carlos Duarte Paes, a qual já contava na época com cerca de vinte
funcionários, fabricando móveis de madeira e duratex. Engenheiro agrônomo por formação, Alberto Traldi era diretor da Viní-
cola Traldi e representante em Jundiaí da CIESP – Centro das Indústrias
Acreditando que “o negócio era bom, mas faltava capital”, João Car- do Estado de São Paulo. Foram Traldi e Sarpi os sócios que garantiram
los e Mastellaro convenceram os amigos da Paes, Oliva e Cia. Ltda. a se com seu capital pessoal os primeiros empréstimos da Astra, ainda no co-
associarem a eles para constituírem uma empresa de porte maior, para a meço da década de 1960, ano em que Sarpi assumiu sua posição na dire-
qual colaboraram também outros conhecidos. Foi assim que nove amigos ção da empresa, trazendo sua larga experiência comercial e implantando
empreendedores se reuniram em 6 de janeiro de 1957 para formalizar as vendas pulverizadas na Astra.
e assinar o contrato de constituição de sociedade de quotas de respon-
sabilidade da firma Indústria de Artefatos de Madeira Astra Ltda., no
escritório de contabilidade de Marino Mazzei, o homem que sugeriu o
nome da nova empresa: Astra, plural de astrum, estrela em latim. A data
foi escolhida ao acaso, um domingo, porque todos os sócios tinham ou-
tras atividades, e talvez não tenham percebido que era dia de Reis, quiçá
um prenúncio do sucesso futuro. Tempos depois, Oliva, usando sua fina
ironia, lembraria o ditado latino per aspera ad astra – por ásperos cami-
nhos até os astros...
As 1.050 quotas da nova empresa foram divididas da seguinte for-
ma entre os nove sócios: Alberto Traldi, João Carlos Duarte Paes e José
Sarpi Filho ficaram com 200 quotas cada; Francisco de Assis Cechelli
Oliva e Miguel Antonio Mattar Neto, com 100 quotas cada; José Augus-
to Pinto Paes e Ernani Ribeiro Gonçalves com 70 quotas cada; Geraldo
Pinto Duarte Paes, irmão mais novo de João Carlos e José Augusto, deti-
nha 60 quotas; Fausto Zonaro completou a sociedade com 50 quotas. O
montante investido totalizava Cr$ 1.050.000,00 (um milhão e cinquenta
mil cruzeiros), equivalentes atualmente a cerca de R$ 490.000,00 (quatro-
centos e noventa mil reais).
A empresa seguiu no galpão alugado em frente à CICA, no terreno
onde atualmente está instalado o Café Caiçara, fabricando móveis para
a Sears, com João Carlos no comando das operações – visto que os de-
mais associados continuavam tocando as suas atividades principais: Sar-
pi era um dos donos da Cerâmica Colônia - mais tarde comprada pela
Ideal Standard -, da qual Zonaro também era sócio; os cunhados Oliva
e Mattar estavam cuidando do loteamento do Jardim Ana Maria, uma
gleba de mais de 100.000 m² que pertencia à família; Ernani e José Paes
tinham sua construtora; Geraldo Paes trabalhava com seguros, e Traldi
era o diretor da Vinícola Traldi.
Sem estrutura funcional e trabalhando para atender aos pedidos
da Sears, a Astra contava apenas com um setor de vendas rudimentar e
enfrentava a concorrência de pequenas marcenarias locais, que muitas
vezes vendiam sem nota fiscal. Esse cenário fez com que a empresa logo
passasse a atuar no vermelho, acumulando prejuízos seguidos, a ponto de
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alguns sócios ensaiarem retirar-se da sociedade, então recém-formada, o MIGUEL ANTONIO MATTAR NETTO
que era inviável devido ao alto custo desta decisão.
Engenheiro civil como Oliva, José Paes e Ernani, Miguel Mattar era
A solução encontrada foi os sócios passarem a se envolver mais na cunhado e sócio de Oliva em um escritório de engenharia, onde desen-
operação da nova empresa, acumulando mais trabalho. Um exemplo foi volveram um importante empreendimento imobiliário: o Jardim Ana
Oliva, que além do escritório de engenharia em Jundiaí, lecionava no cur- Maria. Estas atividades foram o início para a constituição da F. A. Oliva
so de Engenharia de Produção da Escola Politécnica da USP, e também & Cia, empresa que completou 60 anos em 2015. Miguel Mattar deixou a
prestava consultoria para algumas empresas nas áreas de suas especiali- Astra em 1966, mesmo ano em que o amigo Ernani Ribeiro.
dades: organização, racionalização e economia. Com seu perfil de con-
troller, ele era o homem certo para identificar por que as operações se-
guiam deficitárias, apesar de terem muitos pedidos. Era a oportunidade
de autoprovar a eficácia dos remédios que receitava.
Embora os volumes de venda e produção dos móveis fossem, de
fato, crescentes, o resultado permanecia negativo pelo custo de produção
dos armários de cozinha ser maior que os valores auferidos com as ven-
das, uma realidade desanimadora que, se não fosse corrigida rapidamen-
te, levaria a empresa à insolvência. A situação era tão grave que faltava
dinheiro não só para honrar a folha de pagamento, mas também para
saldar as contas básicas, como a de luz, que chegou a ser cortada mais de
uma vez, fazendo com que fosse preciso apelar para o aporte de valores
praticamente mensais dos sócios.
Como é comum aos pequenos negócios, para conseguirem fechar
os pedidos acabavam se vendo obrigados pelos clientes a dar descontos
para obterem os recursos necessários para o andamento de sua produção,
o que tirava o sono dos sócios da Astra.
Era preciso vencer rapidamente as enormes dificuldades financeiras
e agir imediatamente no sentido de reorganizar toda a produção, criando
sistemas de controles de custo, políticas de preços e, é claro, aumentando
as vendas, identificando e corrigindo os produtos mais gravosos e crian-
do novos itens capazes de gerar maior margem de resultado. A primeira
medida tomada por Oliva neste sentido foi encontrar soluções desde a
concepção do projeto, simplificando a execução de cada artigo para che-
gar a uma melhor produtividade, complementada com a obsessão em di-
minuir as perdas e combater o desperdício por meio da racionalização de
todos os processos.
Nesta nova gestão chegaram à conclusão que a fabricação de armá-
rios de cozinha deveria ser cancelada, concentrando a produção nos itens
de banheiro: assentos sanitários, armários e bastões de porta-toalhas. Da
linha originalmente desenvolvida para a Sears restaram apenas os rou-
peiros fabricados com duratex esmaltado, já consolidados no mercado
como “roupeiros da Astra”.
A ideia da linha para banheiros foi sugestão do José Sarpi Filho, um
homem de vendas que havia sido um bem sucedido representante comer-
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Embora os donos da Pugliese não tivessem certeza se uma máquina de um ano para que tudo estivesse calibrado. Além da aprendizagem em
de sopro seria capaz de produzir assentos sanitários, indicaram um fer-
ramenteiro em Santo Amaro, capaz de desenvolver moldes para sopro, si e da perda de material nos diversos testes e calibragens, foi preciso fazer
para ajudar na decisão. Oliva, com sua capacidade criadora e obstinação,
convenceu Mastellaro, responsável pela marcenaria desde a fundação da ajustes na sopradora e nos moldes, a fim de corrigir todos os problemas.
empresa, e desenvolveram um molde do assento planejado em madeira, Apenas no início de 1966 a Astra pode lançar seu novo produto, o assento
entregue ao ferramenteiro, que fez a peça para que o pessoal da Pugliese TPP – um sucesso imediato de vendas; a criação do Oliva era leve, resis-
pudesse produzir o protótipo. Deu certo! E a Astra encomendou a mon-
tagem da sopradora, entregue em fevereiro de 1965, a S-1. tente e confortável.
Recebido o equipamento seria preciso ainda um tempo considerá- O assento TPP despertou imediatamente a cobiça dos concorrentes,
vel para a equipe da Astra aprender a trabalhar com o material; eles até
então não entendiam nada de plástico e foi um processo custoso de mais nem sempre leais, e se transformou em uma verdadeira commodity no se-
tor de materiais de construção, passando para a história como o “assento
Astra". A empresa de Paes, Sarpi, Traldi e Oliva estava novamente à frente
dos concorrentes.
Os primeiros produtos da Astra: armário, assento 29
sanitário, roupeiro e banqueta fabricados em madeira.
PEÇAS PUBLICITÁRIAS DA ASTRA
30 Em 1978 o Dr. Oliva trouxe para a Astra um impressor, a máquina impressora e a seção de fotolito de um
extinto semanário jundiaiense, do qual fazia parte. A partir de então, com a colaboração do publicitário
Décio Denardi, os impressos promocionais da empresa passaram a ser feitos pela Astra.
Se nos primeiros vinte anos da Astra as vendas dependiam quase que exclusivamente da ação de 31
seus representantes comerciais, nos anos 1980 os produtos da empresa passaram a levar consigo
folhetos promocionais colocados dentro de suas embalagens, ação que perdurou até 1995.
32 Primeiro prédio próprio da Astra: construção com a
cobertura em forma de paraboloides invertidos
CAPÍTULO 3 em 1964 o Laboratório de Estruturas Leves da Universidade de Stuttgart,
voltado para o uso mínimo de matéria para construção e que elaborou,
CONSTRUÇÃO DA em 1972, o projeto do Estádio Olímpico de Munique.
PRIMEIRA A construção do pavilhão da fábrica da Astra foi projetada por Paes
FÁBRICA com técnica arrojada, com a cobertura da estrutura em casca de con-
creto, na forma de paraboloides hiperbólicos invertidos, sustentados por
A pós a obtenção dos primeiros resultados positivos, embora coluna central, possivelmente inéditos no Brasil, mas que já haviam sido
ainda modestos, e com novo aporte de capital realizado pelos testados no México pelo arquiteto Felix Candela em 1958, na concepção
sócios, a Astra alcançou o seu equilíbrio financeiro em 1959, do restaurante Los Manantiales, e que seria utilizado também, posterior-
como descrito anteriormente. Esta condição encorajou José Paes, então mente, pelo arquiteto Oswaldo Bratke, em 1961, na Estação Ferroviária
administrador à frente da empresa, a tomar uma decisão para consolidar de Ribeirão Preto.
o empreendimento iniciado em 1957: dar os primeiros passos para insta-
lar a empresa em sede própria. O projeto inicial previa duas séries de paraboloides hiperbólicos,
com quatro módulos de 10 x 15 m cada, sustentados por colunas centrali-
A cidade de Jundiaí iniciava a sua expansão urbana para além do zadas em cujo interior foi previsto um tubo de esgotamento da água plu-
velho centro histórico e a Rua do Retiro era ainda uma estradinha ru- vial. Cada série foi implantada em nível diferente, permitindo a ventila-
ral sem pavimentação, junto à qual o português Armando Coelho havia ção e iluminação superior pelo desnível das coberturas. Estas estruturas
aprovado na prefeitura um loteamento, denominado Jardim Primavera, formam hoje os pavilhões 2 e 3 da unidade 1, tendo sido acrescido, anos
então um local afastado da área urbanizada da cidade. Foi ali que José depois, um quinto módulo ao pavilhão 2.
Paes escolheu uma área de 5.000 m² para construir a futura fábrica e es-
critórios da Astra. Durante as obras, verificou-se a necessidade de ampliação de mais
um pavilhão, o de número 1, o qual foi edificado, com os mesmos quatro
Em mais um dos muitos exemplos de como o maior objetivo dos módulos. Desta forma, a fábrica contava na época com três pavilhões de
sócios da Astra sempre foi a criatividade na procura do melhor desempe- 600 m² cada, implantados em desnível, acompanhando o perfil do terre-
nho técnico para alcançar o melhor resultado econômico, sem prejuízo no – outro ganho de custo do projeto. O pavilhão 1, mais alto e perto da
da qualidade de produto, a fábrica foi projetada de acordo com estes pre- rua serviria para abrigar a área administrativa e a expedição; o pavilhão
ceitos. Paes, em paralelo com a administração da Astra, tocava a cons- 2, intermediário, abrigava a marcenaria; o pavilhão 3, o mais baixo, com
trutora Paes Gonçalves, em parceria com seu sócio Ernani, que deixaria piso de terra e sem fechamento, foi destinado ao depósito de madeira.
o quadro da Astra em 1966. Apesar de viver fora dos grandes centros, Posteriormente, para atender às novas necessidades, o pavilhão 2 seria
o engenheiro José Paes conhecia as técnicas mais modernas da arte de demolido dando lugar à atual estrutura de dois pavimentos, hoje ocupada
construir vigentes na época, entre as quais destaca-se a do italiano Pier na parte superior pelo estoque de embalagens.
Luigi Nervi com suas cascas esculturais de concreto, e os conceitos do
arquiteto americano Richard Buckminster Fuller, defensor do conceito No final de 1960, a obra ainda não havia sido totalmente concluída,
“quanto mais leve, mais barato”. Fuller ilustrava sua teoria com a imagem mas a Astra pode se mudar do galpão alugado para sua sede própria, na
de um guarda-chuva, a cobertura mais barata do mundo, do qual evoluiu Rua Colégio Florence, 59 – motivo de grande orgulho para todos e estí-
para o domo geodésico, a estrutura arquitetônica mais leve e resistente, mulo para seguirem em frente.
e com a melhor relação custo-benefício até hoje concebida. É importante
lembrar ainda da contribuição do arquiteto alemão Frei Otto, que fundou Em janeiro de 1961, Oliva retornou a Jundiaí, depois de ter vivi-
do por um ano em São Paulo, dando sequência aos seus negócios imo-
biliários e às consultorias que prestava. Reassumiu também o seu lugar
na administração da Astra, aplicando os seus conhecimentos teóricos,
acumulados como professor da POLI – USP, e práticos, resultado de sua
longa carreira de consultor de racionalização.
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34 Folheto da injetora encomendada da Semeraro pelo Dr. Oliva, com suas anotações.
Esta foi a primeira máquina da Astra, a I-1, apelidada de "mula manca".
CAPÍTULO 4 35
PLÁSTICO:
A BASE PARA O
CRESCIMENTO
A entrada da Astra no novo mundo dos plásticos data de 1961,
quando a empresa ousou ao substituir as fixações e dobradiças
de metal de seus assentos sanitários por acessórios fabricados
inicialmente em nylon e, logo a seguir, em outros plásticos de alta dura-
bilidade. Em 1962, a Astra já havia adquirido a I-1, uma máquina injetora
simples, apelidada com o nome de “mula manca”, com a qual implemen-
tou a sua produção, sempre seguida de perto pela concorrência.
A grande alavanca do crescimento da Astra foi o sucesso do assento
TPP, fabricado pelo processo de sopro. Para assegurar esta sua criação,
Oliva deu entrada, em 1964, com processo para registrar a patente do
TPP no Departamento Nacional de Propriedade Industrial – DNPI, loca-
lizado no Rio de Janeiro, o que não evitou que outras empresas tentassem
copiar o produto.
No início de 1968, os sócios da Astra tomaram ciência de que havia
outra empresa solicitando patente idêntica ao do assento TPP, motivando
Oliva a viajar imediatamente para a capital fluminense para apurar no
DNPI o que estava de fato acontecendo. Ele surpreendeu-se com um pe-
dido de patente de 1963 em nome da Supre – Sociedade União de Produtos
Resinas para Embalagens Ltda. –, intitulado “Nova estrutura em assento
e tampa de plástico inquebrável para bacia sanitária”. Para sua total in-
dignação, o desenho do tal assento era justamente o do TPP da Astra e,
para piorar ainda mais, o processo já estava na fase final de aprovação.
Pouco antes do final do prazo de contestação a Astra entrou com
recurso contra o deferimento daquela patente, paralisando o processo e
ganhando tempo para entender o ocorrido: o pedido da Supre havia sido
feito sem qualquer detalhamento técnico ou desenho esquemático, fazen-
do com que os funcionários do DNPI pedissem mais informações para
dar andamento à análise do processo. O desenho apresentado, idêntico
ao assento TPP da Astra, havia sido juntado ao processo apenas em 1967,
portanto um ano após o seu lançamento no mercado.
Exemplos de dobradiças nos assentos sanitários
da Astra: metálica, de nylon e em plástico.
Em 1975 a pendência judicial com a Cipla chegou a Brasília, no Tri-
bunal Federal de Recursos. Nas muitas tratativas entre as duas empresas
o pessoal de Joinville defendia uma divisão do território nacional para
comercialização dos assentos, mas os sócios da Astra conseguiram con-
vencê-los de que, sendo o assento TPP um produto original da empresa
jundiaiense, poderiam apenas negociar uma licença para que exploras-
sem legalmente o produto. Ambas assinaram o acordo de licenciamento
de exploração da patente, pelo qual a Cipla pagou os valores do royalty
contratado à Astra por dez anos - “per aspera ad astra”...
O gigantesco sucesso do assento TPP no país fez com que os sócios
da Astra optassem por patentear a sua criação também fora do Brasil, ob-
tendo o registro legal na Colômbia, Venezuela, México, França, Inglater-
ra e Espanha. No entanto, a longa disputa judicial pelo direito à patente,
as despesas para custear todos os processos e mesmo a guerra dos preços
com a concorrência resultaram na falta de recursos e disposição para o
desenvolvimento de produção no mercado externo.
De qualquer forma, o assento TPP foi largamente exportado, so-
bretudo para os países vizinhos e, como já havia acontecido no Brasil, foi
copiado e comercializado por empresas na Argentina e Chile.
Oliva procurou a Supre, que produzia frascos e embalagens plásti- ASTRA - LÍDER DE MERCADO
cas e não tinha interesse em ampliar seu ramo de atuação, negociando Com o lançamento do assento TPP a Astra se firmou definitivamente
com eles a compra da patente, em 1969. Depois, foi retirado o recurso que como líder do mercado de assentos sanitários no país, posição que vem
paralisava o processo no DNPI e a Astra recebeu o registro do assento defendendo desde então, por meio de constantes lançamentos, que fazem
TPP, em 1970. com que seja a empresa que oferece ao consumidor o maior número de
produtos no segmento.
A demora na definição dos direitos sobre a patente deu aos con-
correntes da Astra tempo e oportunidade para que ocupassem indevi- Além de trabalhar para fazer assentos econômicos, cada vez mais le-
damente uma fatia do mercado, produzindo e comercializando assentos ves e resistentes, a Astra preocupou-se com a segurança infantil, lançando
com características e design idênticos aos do assento TPP, notadamente em 1978 uma peça solta, que encaixava sobre o assento existente do cliente.
a Italplast – Embalagens Plásticas S/A, de São Paulo; a Hidromol – Enca-
namentos Hidráulicos Ltda, de Santo Amaro; e a Cipla – Cia. Indústria de Entre dezenas de assentos lançados ao longo desses 60 anos, acompa-
Plásticos, pertencente à família Hansen, de Joinville, dona, entre outras nhando as novas tecnologias e com uso de diferentes matérias-primas, pode-
empresas, da Tigre. se destacar a importância do modelo TPK, lançado em 1987, e que se tornou
imenso sucesso de vendas. Com 30 anos o TPK é atualmente comercializado
Embora a Astra tenha agido com determinação para tentar impedir com proteção contra fungos e bactérias e em trinta e uma cores diferentes.
que estas empresas vendessem suas versões piratas do assento TPP, o pro-
blema não foi facilmente resolvido, obrigando os seus sócios a travarem A Astra tem orgulho de ter se mantido fiel ao propósito de ser sem-
uma longa disputa judicial e mercadológica para assegurar algo que por pre ética e pautada em princípios como seriedade e transparência, optan-
direito lhes pertencia. do por desenvolver seus novos produtos. O TPK, como aconteceu outras
tantas vezes na existência da empresa, derivou do desenvolvimento de ou-
tro produto, neste caso um assento para a Monark. Ao serem contratados
para criar um assento almofadado para as bicicletas, resolveram usar a
mesma tecnologia para a criação de uma peça sanitária mais sofisticada,
usando espuma de poliuretano para preencher o arco soprado do assento,
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VARIEDADE DE PRODUTOS 45
Atualmente, a Astra fabrica diversas linhas de produtos que têm o plástico como matéria-prima principal.
Entre elas estão as utilidades domésticas, tanques e lavatórios, gabinetes, tomadas e interruptores, duchas elétricas e itens hidráulicos.
46 Área de produção da linha de assentos
sanitários na década de 1970.