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UM PLANO DE ADAPTAÇÃO ÀS VARIAÇÕES CLIMÁTICAS NA GESTÃO DE RECURSOS HÍDRICOS PARA O ABASTECIMENTO DA REGIÃO METROPOLITANA DE SÃO PAULO

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Published by sabespdesafios, 2020-10-21 13:51:24

Sabesp - Estratégias Resilientes

UM PLANO DE ADAPTAÇÃO ÀS VARIAÇÕES CLIMÁTICAS NA GESTÃO DE RECURSOS HÍDRICOS PARA O ABASTECIMENTO DA REGIÃO METROPOLITANA DE SÃO PAULO

ESTRATÉGIAS
RESILIENTES

UM PLANO DE ADAPTAÇÃO ÀS VARIAÇÕES CLIMÁTICAS NA
GESTÃO DE RECURSOS HÍDRICOS PARA O ABASTECIMENTO

DA REGIÃO METROPOLITANA DE SÃO PAULO



ESTRATÉGIAS
RESILIENTES

SUMÁRIO 1.

O planeta faz
um alerta

pág. 10

2.

Registros vitais
nas nascentes

pág. 22

3.

Água
para todos

pág. 38

4.

Por uma
convergência
de interesses

pág. 50

5.

Foco em
resiliência

hídrica

pág. 66

6.

Um plano
elaborado a
muitas mãos

pág. 108

ADAPTAÇÃO, RESILIÊNCIA
E SUSTENTABILIDADE

DOS RECURSOS HÍDRICOS

As variações e eventuais mudanças climáticas Essas e outras experiências direcionadas ao forta-
têm trazido desafios cada vez mais complexos aos lecimento da resiliência de uma estrutura hídrica de
gestores de recursos hídricos em geral e gerentes de dimensões gigantescas como o Sistema Integrado de
serviços de abastecimento de água e saneamento. Abastecimento Metropolitano estão reunidas nestas
Isso porque a variabilidade do clima tem ocasio- páginas. Aqui você vai ver como a Sabesp vem, ao longo
nado fenômenos extremos com maior frequência, de sua história, transformando e inovando sua forma
afetando a segurança hídrica para o atendimento de planejar e monitorar os recursos hídricos a fim de
de populações em todo o mundo. antecipar cenários e agilizar as tomadas de decisão.
Iniciativas quevão além daágua, aexemplo do programa
Encontrar alternativas que aumentem a resiliência de preservação e recuperação ambiental do entorno de
dos sistemas de abastecimento é uma necessidade mananciais, também ganham merecido destaque na
ainda mais urgente em áreas como a Região Metro- temática das soluções baseadas na natureza.
politana de São Paulo, com cerca de 21,5 milhões de
pessoas. Independentemente das causas, o fato é que Em linguagem acessível, o livro traz ainda ca-
temos que nos adaptar a essas maiores variações ou sos de sucesso fora do nosso estado e a opinião de
eventuais mudanças agora. porta-vozes de entidades internacionais, empresas
parceiras e órgãos reguladores, além de análises de
Não bastando um cenário naturalmente desafiador especialistas em climatologia e hidráulica, sobre o
de baixa disponibilidade hídrica decorrente da elevada processo adaptati-
densidade populacional e localização (na cabeceira vo necessário fren-
da bacia do Alto Tietê), essa região vivenciou, entre os te às variações do
anos 2014-2015, uma das secas mais severas de que clima. Em síntese,
se tem notícia na história recente. a seleção de temas
urgentes e iniciati-
A queda drástica dos índices de pluviometria e da vas bem-sucedidas
vazão afluente aos mananciais trouxe novos parâme- faz deste livro um
tros de avaliação de riscos hidrológicos e demandou precioso documen-
medidas urgentes para incremento de infraestrutura de to de estudo para o
redundância, flexibilização entre sistemas e contenção aprimoramento da
da demanda, com grande participação da população. segurança hídrica
Embora dramático, foi um período de muito aprendi- em áreas conurba-
zado e grande oportunidade para a implementação da das. Boa leitura!
inovação e o aperfeiçoamento dos instrumentos para
uma gestão eficiente e mais segura do abastecimento. Benedito Braga

Diretor-presidente da Sabesp

CONTRIBUIÇÕES
ESSENCIAIS

Para a produção deste livro, Paulo (USP). Damesmainstituição pecialista em Parcerias Públi-
além da consulta extensa a do- conversamos com o hidroclima- co-Privada (PPP) detalhou sua
cumentos técnicos e acadêmicos, experiência na Holanda e em
entrevistamos um grupo de espe- tologista Humberto Rocha, outras nações. Atualmente dedi-
cialistas altamente experientes. ca-se a projetos que indicam ca-
Escutamos histórias, vivências também professor minhos financeiramente viáveis
únicas e reflexões que sinalizam titular do Departa- para a conquista da segurança
o alto nível de complexidade mento de Ciências hídrica em países em desenvol-
associado à gestão de recursos Atmosféricas. vimento. Tem interesse especial
hídricos para abastecer a RMSP. em promover a integração de
Suzana Kahn soluções baseadas na natureza
Atransmissão de conhecimen- Ribeiro é uma das como medidas complementares
to é uma das melhores formas de fundadoras do Painel Brasileiro às soluções de infraestrutura
encontrar soluções mais próxi- de Mudanças Climáticas e preside tradicionais.
mas das ideais para cada cenário. o comitê científico da instituição.
Aqui um agradecimento especial Ela também é uma das represen- E falando em soluções ba-
a esses profissionais, muitos deles tantes da Coppe-UFRJ, instituto seadas na natureza, o biólogo
com visibilidade internacional e de pós-graduação e pesquisa
trabalhos desenvolvidos em par- em engenharia da Universidade Samuel Barrêto, gerente de
cerias com entidades estrangeiras Federal do Rio de
e os principais ór- Janeiro. Um de seus água da The Nature
gãos mundiais sobre colegas da Coppe é Conservancy, or-
o tema. ganização inter-
Jerson Kelman, nacional líder na
Entre as fontes conservação da
consultadas estão ph.D. em hidrologia biodiversidade e do
e Recursos Hídricos. meio ambiente, enriqueceu o le-
os cientistas Tercio Jerson Kelman possui um cur- vantamento de informações so-
Ambrizzi e Suzana Kahn rículo de peso, com centenas bre ações que acontecem na Re-
Ribeiro, ambos atuam junto ao de artigos publicados aqui e no gião Metropolitana
exterior. Presidiu a Sabesp entre e em outras áreas
Painel Intergover- 2015 e 2018 – em sua entrevista próximas. Para falar
namental sobre Mu- relembrou o início do manda- de clima e previsões
danças Climáticas to, que exigiu posicionamentos do tempo, contamos
(IPCC, em inglês). cruciais para com- com o meteorologis-
Tercio Ambrizzi é bater a crise hídrica
um dos professores na RMSP. ta Kleber Rocha Filho, com
titulares do Instituto de Astrono-
mia, Geofísicae CiênciasAtmosfé- Na conversa mestrado em hidrometeorologia.
ricas (IAG) da Universidade de São com a engenhei- Ele trabalha na Fundação Centro
ra nicaraguense Tecnológico Hidráulica (FCTH) da
6
Mónica Altamirano, a es-

Universidade de São Paulo (USP), Helio Castro é do engenheiro con-
entidade que colaborou com esta
publicação. mestre em recur- sultor Guilher-
sos hídricos pela me Todt, mestre
O levantamento de informa- USP e acumulou
ções foi enriquecido por profissio- conhecimento em em recursos hídri-
nais de alguns órgãos reguladores suas passagens por cos pela USP, e de
e de fiscalização dos companhias como
recursos hídricos. O a Sabesp na RMSP Francisco de
superintendente de e a concessionária Assis de Souza Filho, pes-
operações e eventos de saneamento de
críticos da Agência Cuiabá, no Mato quisador especializado em riscos
Nacional de Águas e Grosso. E o enge- climáticos para a sus-
tentabilidade hídrica
Saneamento Básico (ANA), Joa- nheiro Francisco Gusso, da na Universidade Fe-
quim Gondim, que atual- deral do Ceará (UFC).
equipe da Diretoria de Procedi- Guilherme Todt nor-
mente também ocupa o cargo mentos de Outorga e Fiscaliza- teou também todo o
de diretor substitu- ção do Departamento de Águas e conteúdo desta publicação.
to de hidrologia da Energia Elétrica do Estado de São
entidade, detalhou Paulo (DAEE), revela a dinâmica e Agradecemos aindatodo o time
conceitos ligados à as transformações que acompa- da Sabesp que dedicou parte de seu
segurança hídrica e nha há décadas, principalmente a tempo paratransmitiras informa-
gestão de riscos. respeito do Sistema ções necessárias. Em
Cantareira, naRMSP. especial o conheci-
Helio Suleiman, dire- mento e as experiên-
Especialista em cias compartilha-
tor- -presidente gestão de recursos das pelos gerentes
da Agência da Ba- hídricos, a enge-
cia do Alto Tietê, e André Góis, do
nheira Monica
Sergio Razera, Porto divide seu tempo entre Departamento de Tratamento

diretor-presiden- o ambiente acadêmico, como de Água, Emer-
te da Agência das professora na USP, e o corporati- son Moreira, da
Bacias PCJ, agregaram opiniões vo, também como colaboradora
complementares, destacando a da Sabesp. No período em que era Divisão de Gestão
complexidade para encontrar um secretária adjunta de Saneamen- e Desenvolvimen-
equilíbrio nas decisões sobre o to e Recursos Hídricos do Estado to Operacional de
uso da água. Com décadas de ex- de São Paulo, conviveu com a Recursos Hídricos
periência no setor, Sérgio Razera maior crise hídrica que a RMSP Metropolitanos, e
frequentemente apresenta em já havia passado. Isso só ampliou
congressos e fóruns internacio- seu repertório sobre o tema. Silvana Franco,
nais temas como o valor da água
e impactos na gestão de recursos O webinar para consolidar o do Departamento de
hídricos. plano de adaptação às variações Gestão e Operação.
climáticas, organizado pela Sa- Enfim, aprendemos
À frente da Agência Regula- besp em julho de 2020, contou que realmente um
dora de Saneamento e Energia ainda com as ricas experiências plano de adaptação é construído
do Estado de São Paulo (Arsesp), amuitas mãos, preferencialmente
com olhares distintos, que enri-
quecem o resultado. Confira nas
próximas páginas.

7

A ENGENHARIA
CONECTADA
À NATUREZA

Como empresa de saneamento básico, a Sabesp concentra suas energias em ações que melhoram
o abastecimento de água, a coleta e o tratamento de esgoto – tripé essencial da atividade primeira da
companhia. Nesta publicação, destacam-se o estado da arte sobre conceitos de gerenciamento e os
olhares dos tomadores de decisão sobre os recursos hídricos. É a partir dela que o restante da cadeia
de saneamento se desenvolve. Entre as muitas entrevistas realizadas para este livro, as vozes de Paulo
Massato, Marco Antonio Lopez Barros e Mara Ramos se complementam, reverberam a essência da
produção de água e provocam uma reflexão bem contemporânea: garantir água tratada é dever de
todos. Cada pessoa tem sua parcela
de responsabilidade e esses pro-
fissionais, junto com seus pares e
equipes, entendem que o trabalho
é tão dinâmico e complexo quanto
a região que atendem – uma das
maiores megametrópoles do mundo.

Paulo Massato, Marco Antonio Lopez Mara Ramos, gerente
diretor metropolitano Barros, superintendente do Departamento de
da Unidade de Produção
da Sabesp Recursos Hídricos
de Água da Diretoria Metropolitanos da
Metropolitana Unidade de Produção
de Água da Diretoria
SOBRE SEGURANÇA HÍDRICA
E QUALIDADE DE MANANCIAIS Metropolitana

PAULO A melhor premissa MARCO ANTONIO MARA Agimos

é ter mananciais preservados Fomentamos ações fora das intensamente no combate
e controlar não apenas áreas da Sabesp e sugerimos à deterioração do recurso
a qualidade da água como a supervisão dos Comitês natural em mananciais
também a ocupação do solo de Bacias locais. Em mananciais vulneráveis. O ideal seria não
no entorno desses reservatórios. como o Guarapiranga e o Rio haver ocupações irregulares
A Sabesp tem mais de 44 mil Grande – que inclui a Represa no entorno, mas isso é
hectares onde faz vigilância Billings – atuamos quando impossível. Monitoramos
constante, ações de recuperação há enfoque em compensação e contemos a proliferação
florestal e cuidado com a ambiental. Mas, independente- de algas. São procedimentos
biodiversidade. O problema mente desses investimentos, rigorosos que demandam
está nos arredores dos é uma luta constante reduzir equipes especializadas
mananciais em áreas que o nível de poluentes na água e análises frequentes
não pertencem à companhia. a ser tratada. em nossos laboratórios.

8

SOBRE MONITORAMENTO DE
MANANCIAIS E MUDANÇAS CLIMÁTICAS

PAULO Além do Sistema MARCO ANTONIO MARA Quanto às

Integrado Metropolitano, que Não existem mananciais de variabilidades climáticas,
inclui sistemas produtores e reserva para atender a RMSP, temos parcerias com
transporte da água, a Sabesp portanto devemos cuidar dos que entidades e especialistas em
investe pesadamente em temos. A questão da qualidade meteorologia para o
tecnologia para monitorar deles impacta diretamente na monitoramento. No dia a dia,
os mananciais e as redes quantidade de água disponível. utilizamos mais o conceito de
adutoras e de distribuição. Ainda Nesse sentido buscamos incertezas climáticas do que
usamos imagens de satélites aprimorar a tecnologia nas de mudanças climáticas. Essa
e vamos ampliar as inspeções estações de tratamento. E sempre última tem um viés estratégico
com drones. Isso facilita estamos de olho na ocupação que é abordado nas projeções
identificar com mais eficiência do solo, que infelizmente de operação. Nelas, simulamos
problemas como incêndios acontece a passos mais velozes cenários dos piores possíveis
e outros crimes ambientais. do que os que conseguimos dar. aos mais otimistas.

SOBRE A RELAÇÃO COM OS
USUÁRIOS E AS CIDADES

PAULO Como atendemos MARCO ANTONIO MARA As pessoas não se

mais de 21 milhões de pessoas, O crescimento populacional na instalam onde necessariamente
nosso papel também é RMSP tem diminuído nas últimas há mais água. A disponibilidade
conscientizar a população sobre décadas, mas o movimento hídrica da RMSP é menor do que
o uso da água. Assim um conjunto de ocupação das áreas se a de muitos estados do Nordeste,
de ações pontuais positivas transforma rapidamente. temos uma condição crítica.
melhora o abastecimento para Precisamos correr para atender Num olhar mais amplo, se
todos. A Sabesp já investe há mais quem se instala nas bordas, pensarmos que a quantidade
de 20 anos em programas na periferia. Essa migração de água no planeta não se altera
específicos, como o Programa é decorrente da pressão e a população mundial cresce, o
de Uso Racional da Água (PURA). imobiliária, do custo de vida, problema tende a se agravar. Isso
Essa mudança de comportamento entre outros fatores, só que a já justifica esforços conjuntos
ajuda a tornar a região mais água precisa chegar até onde para preservar mananciais e
inteligente e mais resiliente. essas pessoas passam a morar. consumir água com consciência.

9

10

1.

O
planeta faz
um alerta

PELA PRIMEIRA VEZ, A QUESTÃO AMBIENTAL APARECEU
NOS CINCO PONTOS DE ATENÇÃO DESTACADOS NO

RELATÓRIO DO FÓRUM ECONÔMICO MUNDIAL 2020 PARA
GOVERNOS E MERCADOS. ENTENDA ESSES RISCOS
GLOBAIS ASSOCIADOS À ÁGUA, OS ELEMENTOS QUE

COMPÕEM A SEGURANÇA HÍDRICA E A IMPORTÂNCIA DE UM
PLANO DE ADAPTAÇÃO ÀS MUDANÇAS CLIMÁTICAS PARA
O ABASTECIMENTO DE GRANDES CENTROS URBANOS.

11

1.

D ados não faltam. A série histórica da
média de temperatura anual global,
que começou em 1850, revela um
aumento de 1 oC nos últimos 170

anos – e, desde 1980, cada década

tem sido sistematicamente mais

quente do que a anterior. O ano recordista,

2016, cravou um incremento de 1,1 oC, seguido

de perto por 2019, de acordo com dados da

Organização Meteorológica Mundial (WMO). AS MUDANÇAS
CLIMÁTICAS E A ECONOMIA
“Vale lembrar que a média, muitas vezes, não
bUiSlh$õ1e6s5foi o prejuízo
expõe as maiores anomalias. Na Ásia, por exem-
material e econômico gerado
plo, a diferença é da ordem de 6 oC. Em São no mundo inteiro pelos eventos
climáticos extremos em 2018
Paulo, a temperatura cresceu 3 oC nos últimos
Ondas de calor podem
100 anos”, lembra Tercio Ambrizzi, cientista e implicar perdas de
produtividade equivalentes a
professor do Instituto de Astronomia, Geofísica
80 milhões
e Ciências Atmosféricas da Universidade de
de empregos em 2030
São Paulo (IAG-USP).
10% do PIB
“Se, até o final dos anos 1960, a cortina de
é a proporção que os danos
fumaça gerada pela Guerra Fria direcionava a econômicos devido a questões
climáticas podem alcançar nos
discussão sobre mudanças climáticas para um Estados Unidos até o fim deste século

hipotético cenário pós-conflito nuclear, em FONTE: RELATÓRIO DE RISCOS GLOBAIS 2020/
FÓRUM ECONÔMICO MUNDIAL
que a detonação de bombas atômicas causaria
20 ANOS DE ESTRAGOS:
o chamado inverno global, a partir dos anos DE 1999 A 2018

1970 os pesquisadores passaram a se debru- 12 mil eventos climáticos

çar de fato sobre as razões do aquecimento”, extremos causaram 495 mil mortes

prossegue Ambrizzi. E confirmou-se a tese e US$ 3,54

do sueco Svante Arrhenius, que, já em 1896, trilhões em prejuízos

havia constatado a relação direta entre a maior FONTE: INDEX GLOBAL DE RISCO CLIMÁTICO
2020/GERMANWATCH
concentração de CO2 na atmosfera e o calor.
Mais precisamente, ele calculou que dobrar a

quantidade de CO2 atmosférico resultaria em
um acréscimo de 5 oC na temperatura terrestre,

ao passo que reduzi-la pela metade causaria

um resfriamento em igual medida.

Agora, lembremos que, desde o início da

Revolução Industrial, em meados do século

19, até hoje, a concentração de CO2 já subiu FOTO: ADOBESTOCK / ELROCE
30%, e o “apenas” 1 oC a mais em nossa tem-

peratura responde pela maior frequência e

intensidade de eventos climáticos extremos

– incêndios, inundações, secas, tempestades,

ciclones, tornados. Estampando ou não as pri-

meiras páginas dos jornais, em 2019 situações

12

FOTO: ADOBESTOCK / IHORNesta foto, vista aérea do
FOTO: ADOBESTOCK / MIROSincêndio de grandes proporções

que destruiu a cidade de
Paradise, na Califórnia (EUA),

em 2018. À dir., devastação
causada por ciclones tropicais
em Moçambique e no Zimbábue,

em 2019. Abaixo, acqua alta
em Veneza, fenômeno que, em
2019, causou a maior enchente

já registrada na história da
cidade italiana.

13

1.

Nevasca no município de
Vandalia, em Ohio (EUA), estado

duramente castigado pelo frio
severo em janeiro de 2019.

desse tipo aconteceram uma vez por semana e o noroeste dos Estados Unidos, e, na outra
no mundo, segundo levantamento da ONU ponta, a inédita onda de calor na Europa, cujos
citado no Relatório de Riscos Globais 2020, termômetros chegaram a marcar 46 oC. No fim
divulgado pelo Fórum Econômico Mundial. do ano, os incêndios de grandes proporções
À calamidade ambiental e social inerente a na Austrália comoveram o mundo.
esses desastres, junta-se o fator econômico:
em 2018, ainda de acordo com o relatório, as Talvez essa série de acontecimentos ajude a
perdas derivadas desses episódios somaram explicar por que, em janeiro de 2020, questões
US$ 165 bilhões. O prognóstico, caso os países ambientais dominaram, pela primeiravez, o topo
falhem em cortar pela metade as emissões da lista da tradicional pesquisa de percepção
de carbono até 2030, é nada menos do que de riscos a longo prazo do Relatório de Ris-
uma crise econômica mundial com efeitos cos Globais, publicado anualmente pelo Fórum
comparáveis à de 2008. Econômico Mundial. O levantamento, feito com
base nas respostas de 800 membros ligados às
A hora é agora várias comunidades do Fórum (representantes
de governos, da sociedade civil, da comunidade
Estima-se que mais de 40% da população científica e do empresariado), coloca também a
mundial já tenha sofrido impactos pela mu- crise hídrica como ponto de atenção nas duas
dança do clima. Para mencionar apenas fatos frentes investigadas: probabilidade e impacto.
recentes, 2019 registrou episódios como o frio Citando dados da ONU, o documento lembra que
severo, de até -50 oC, que assolou o meio-oeste a água desencadeou conflitos em 45 países em

14

FOTO: ADOBESTOCK / WIRESTOCK 2017 – e que essas disputas tendem a se agravar RISCOS A LONGO PRAZO:
à medida que a escassez piora. Hoje, o problema PROBABILIDADE
já concerne a 25% da população mundial.
1. Eventos climáticos extremos
Por outro lado, na pesquisa realizada exclusi- 2. Fracasso na ação climática
vamente entre 13 mil empresários europeus sobre 3. Desastres naturais
os maiores riscos regionais para fazer negócios, 4. Perda de biodiversidade
as questões ambientais não aparecem. “Muitas 5. Desastres ambientais
companhias não estão se planejando para os
riscos físicos e financeiros que as mudanças provocados pelo homem
climáticas poderão infligir em suas atividades 6. Roubo de dados
e cadeias produtivas”, alerta o documento, que 7. Ciberataques
sublinha: “Os próximos dez anos vão moldar os 8. Crise hídrica
riscos climáticos para o resto do século”. 9. Fracasso de governança global
10. Bolha econômica
Não há tempo a perder, portanto. A enge-
nheira Suzana Kahn Ribeiro, presidente do co- RISCOS A LONGO PRAZO:
mitê científico do Painel Brasileiro de Mudanças IMPACTO
Climáticas (PBMC) e cientista atuante no Painel
Intergovernamental de Mudanças Climáticas 1. Fracasso na ação climática
(IPCC), ligado à ONU, reforça a urgência: “As mu- 2. Armas de destruição em massa
danças climáticas podem ser lentas, mas nossas 3. Perda de biodiversidade
ações também são. E todo longo prazo começa 4. Eventos climáticos extremos
no curto prazo. É preciso agir agora”, avisa. 5. Crise hídrica
6. Colapso da infraestrutura de informação
7. Desastres naturais
8. Ciberataques
9. Desastres ambientais provocados

pelo homem
10. Doenças contagiosas

Em destaque: fatores relacionados
a questões ambientais

FONTE: RELATÓRIO DE RISCOS GLOBAIS 2020/FÓRUM ECONÔMICO MUNDIAL

As mudanças climáticas podem
ser lentas, mas nossas ações
também são. E todo longo
prazo começa no curto prazo.
É preciso agir agora

Suzana Kahn Ribeiro, presidente do comitê científico do Painel Brasileiro de Mudanças Climáticas
(PBMC) e cientista atuante no Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas (IPCC)

15

1.

As mudanças varia também a ocorrência de chuvas entre as
climáticas e a água regiões. “Se estivermos bem preparados para
enfrentar as crises decorrentes da variabilidade
O ciclo da água está diretamente relacionado natural do clima, teoricamente conseguiremos
ao clima. Por isso, ao afetar potencialmente o enfrentar melhor as consequências das mudan-
regime de chuvas, as mudanças climáticas em ças climáticas”, analisa Joaquim Gondim, diretor
franca aceleração influem na disponibilidade substituto da ANA. Aqui, cabe lembrar o que os
hídrica. Basicamente, a maior frequência de cientistas entendem por variabilidade natural
eventos extremos, como secas, altera a oferta do clima: “Na temperatura, é a pulsação de mais
de água, colocando o atendimento à população ou menos 1 oC na mínima e 2 oC na máxima.
em xeque. Uma seca prolongada, por exemplo, Quando falamos de chuvas, é a oscilação de 30%
diminui a vazão dos rios, reduzindo o volume para baixo ou para cima em relação à média”,
para captação. “Isso é o que chamamos de falha esclarece Humberto Rocha, hidroclimatologista
na disponibilidade hídrica, que é a quantidade e professor do IAG-USP.
de água disponível, em média, durante 95% do
tempo. Esse dado é estabelecido a partir de uma O engenheiro Jerson Kelman, ph.D. em hi-
série histórica de observações”, explica Monica drologia e presidente da Sabesp entre 2015 e
Porto, engenheira especialista em gestão de re-
cursos hídricos. “Os sistemas de abastecimento FOTO: ADOBESTOCK / MURILO
costumam trabalhar com probabilidades de falha
da ordem de 5%”, afirma. Com falhas mais corri-
queiras, os gestores passam a avaliar, sobretudo,
o risco. “Esse cálculo leva em conta o impacto. Se
a falha atinge uma comunidade de 500 pessoas
e o problema se resolve com caminhões-pipa, o
risco é baixo. Agora, se falamos de 22 milhões de
habitantes, o risco é muito maior. E aumentam
os conflitos. Vamos priorizar a irrigação ou o
abastecimento?”, pontua Monica.

No caso brasileiro, algumas peculiaridades
geográficas multiplicam os desafios em um
contexto com falhas mais frequentes. Embora
possua uma das maiores reservas de água po-
tável do mundo e seja considerado um país rico
em disponibilidade hídrica, com potencial entre
10 mil e 100 mil m3/habitante/ano, o Brasil apre-
senta grandes discrepâncias regionais no que
diz respeito à distribuição natural dessa água.
Segundo dados do relatório Conjuntura 2019
da Agência Nacional de Águas e Saneamento
Básico (ANA), 80% do volume encontra-se na
Amazônia – onde tanto a população quanto a
demanda são menores em relação ao restante
do território. Além disso, em um país continental,

16

Disponibilidade hídrica é a
quantidade de água disponível,
em média, durante 95% do
tempo Monica Porto, engenheira especialista em gestão de recursos hídricos

2018, acrescenta: “Embora a hipótese da esta- Coimbra de Pós-Graduação e Pesquisa de Enge-
cionariedade, um conceito básico dos estudos nharia da Universidade Federal do Rio de Janeiro
de hidrologia, assuma que um período de 100 (Coppe-UFRJ). Para ilustrar seu argumento, ele
anos de estatísticas seja confiável para nortear cita dois exemplos: nos últimos 50 anos, vem
a tomada de decisões, ela vem sendo ameaça- caindo a vazão que chega ao reservatório de
da pelas mudanças climáticas e também por Sobradinho (BA), enquanto em Itaipu (PR) o
mudanças no uso do solo. A meu ver, no Brasil, movimento é contrário. “No primeiro caso, o
o segundo fator pesa mais”, ressalta ele, que solo passou a ser irrigado. No segundo, florestas
também é professor do Instituto Alberto Luiz deram lugar a pastagens”, afirma.

O uso do solo é um fator que
também influencia as mudanças
climáticas: plantações irrigadas

e florestas convertidas em
pastagens diminuem o volume de

água que corre para os rios.

FOTO: ADOBESTOCK / ZOROASTO FELIX

17

1. SEGURANÇA HÍDRICA ATIVIDADES
ECONÔMICAS E
Diante desses fatores, como pre- Capacidade de uma DESENVOLVIMENTO:
parar-se para cenários tão incertos e população de, em um
em constante mutação? Um concei- ambiente de paz e suprimento adequado de água
to relativamente recente na área de estabilidade política, disponível para a produção de
recursos hídricos tenta dar conta da salvaguardar o acesso alimentos e energia, a indústria,
complexidade dessas questões. “A sustentável a quantidades o transporte e o turismo
segurança hídrica é tão importante de água adequada para:
que ganhou uma definição formula- • m anter a subsistência,
da pela ONU. Ela incorpora uma di-
mensão socioambiental, econômica o bem-estar humano
e de estabilidade política”, observa e o desenvolvimento
Gondim. “O principal projeto em socioeconômico
elaboração atualmente pela ANA • garantir a proteção
é o Plano Nacional de Segurança contra poluição e
Hídrica, para dar suporte ao cresci- desastres ambientais
mento sustentável das cidades e das • preservar os
regiões do país”, completa. Veja, na ecossistemas
ilustração ao lado, todos os fatores
envolvidos na segurança hídrica.

Consumo de
água no Brasil,
por setor

2,5% 0,9% Condição 1
GOVERNANÇA:
Abastecimento Mineração
regimes legais,
rural 0,3% instituições,

9,1% Termoelétricas infraestrutura
e capacidade
Abastecimento
adequados
urbano

9,5% 66,1% Condição 2
COOPERAÇÃO ALÉM
Indústria Irrigação
DAS FRONTEIRAS:
11,6% países soberanos discutem e
coordenam suas ações a fim
Abastecimento de conciliar seus interesses,
animal muitas vezes conflitantes, em

FONTE: RELATÓRIO CONJUNTURA 2019 DA AGÊNCIA prol do benefício mútuo
NACIONAL DE ÁGUAS E SANEAMENTO (ANA)

18

ÁGUA POTÁVEL E ECOSSISTEMAS:
BEM-ESTAR HUMANO:
sua preservação
comunidades têm acesso a água suficiente, assegura as funções
acessível e segura para suprir necessidades ecossistêmicas da
básicas de consumo, saneamento e higiene; natureza, que, por
garantir saúde e bem-estar; e atender aos sua vez, resultam em
direitos humanos básicos benefícios às pessoas,
como o provisionamento
SEOGUQRUAENÉÇA de água pura.
HÍDRICA

Elaborada a partir de uma referência formulada
em 2013 pela organização UN-Water, ligada à ONU,
esta ilustração esclarece o conceito que hoje embasa

todo o planejamento dos sistemas de
abastecimento de água

ILUSTRAÇÃO: BRUNO ALGARVE

RISCOS AMBIENTAIS Condição 3 Condição 4
E MUDANÇAS RECURSOS: PAZ E ESTABILIDADE POLÍTICA:
CLIMÁTICAS:
fontes inovadoras evitam os efeitos negativos
populações adquirem complementam de conflitos, como a redução
resiliência contra riscos o aporte público, da qualidade e/ou quantidade
associados à água, incluindo
enchentes, secas e poluição incluindo investimentos de água, e os danos à
do setor privado infraestrutura hídrica, às
e soluções de pessoas, à governança e ao
sistema político e social
microfinanciamento
19

1.

Adaptar-se é preciso Elaborado pelo governo federal em colabo-
ração com a sociedade civil, o setor privado e os
Dois anos após a ONU formular o conceito governos estaduais, o instrumento brasileiro foi
de segurança hídrica, 195 países assinaram o instituído em 2016 com o objetivo de, por meio
Acordo de Paris durante a 21ª Conferência das de uma gestão de risco, promover a redução
Partes (COP21), realizada na capital francesa. da vulnerabilidade nacional frente à mudança
O evento, que acontece periodicamente desde do clima. O plano abrange 11 setores, entre os
1992, reúne as nações-membro da Convenção- quais consta o de Recursos Hídricos. O texto
-Quadro das Nações Unidas sobre a Mudança referente a esse item avalia as ameaças e esta-
do Clima, conhecida por sua sigla em inglês, belece diretrizes de ação para o abastecimento
UNFCCC. Tido como um grande avanço nas urbano, a irrigação, a geração de energia, o uso
diretrizes mundiais para controlar aqueci- industrial, a garantia da qualidade da água e
mento global (e, assim, conter as mudanças os sistemas e processos de governança.
climáticas, conforme vimos no começo deste
capítulo), o documento resultante do encontro
em 2015 sugere uma ferramenta governamen-
tal para que cada país alcance suas metas: o
Plano Nacional de Adaptação à Mudança do
Clima (PNA).

Colheita de soja no estado do
Mato Grosso: a agricultura é a

atividade que mais consome
água no Brasil, segundo a

Agência Nacional de Águas e
Saneamento Básico (ANA).

SETORES DO PLANO NACIONAL DE FOTO: ADOBESTOCK / ALF RIBEIRO
ADAPTAÇÃO À MUDANÇA DO CLIMA

O Agricultura
O Recursos Hídricos
O Segurança Alimentar e Nutricional
O Biodiversidade
O Cidades
O Gestão de Risco de Desastres
O Indústria e Mineração
O Infraestrutura
O Povos e Populações Vulneráveis
O Saúde
O Zonas Costeiras

FONTE: MINISTÉRIO DO MEIO AMBIENTE

20

Atuação em níveis envolver as comunidades e o setor privado, bem
como estudos sobre o melhor modo de usar o
Se o PNA estabelece uma direção geral a dinheiro disponível. “Os riscos são palpáveis,
partir do ponto de vista federal, algumas cidades mas, a meu ver, a urgência tem papel positivo.
e até mesmo empresas estão trabalhando em Vivemos um bom momento para pensar em
planos de adaptação próprios (no segundo caso, novos modelos de negócio.”
focados em sua área de atuação). De toda forma,
dentro da chave de recursos hídricos, um ponto Presente em mais de 370 cidades, a Sabesp
de atenção reside nos chamados serviços ecos- está atenta a todos esses movimentos. Para o
sistêmicos. “Os ecossistemas precisam passar engenheiro sanitarista e ambiental Guilherme
a ser vistos como uma infraestrutura crucial, Todt, a companhia já realiza, de forma estrutu-
pois funcionam como um colchão de ar que rada, ações consistentes e alinhadas com uma
ajuda a lidar com os eventos climáticos extre- metodologia internacional em prol da resi-
mos”, defende Mónica Altamirano, engenheira liência para o setor da água, tais como: avaliar
de sistemas do Deltares, instituto holandês de ameaças, riscos e oportunidades; analisar esse
pesquisas aplicadas sobre uso da água. “Como conjunto de fatores dentro de um ambiente
uma camada extra de proteção, a infraestrutura colaborativo e traçar estratégias de atuação
verde garante margem de tempo, no caso de frente a esse cenário. Os próximos capítulos
secas ou inundações, para evitar desastres. vão detalhar como a empresa tem atuado
Incluí-la torna os planos de adaptação mais dentro desses parâmetros no abastecimento
resilientes”, explica. De acordo com a especia- da Região Metropolitana de São Paulo.
lista, tampouco podem faltar estratégias para

Os riscos são palpáveis, mas,
a meu ver, a urgência tem
papel positivo. Vivemos um
bom momento para pensar
em novos modelos de negócio

Mónica Altamirano, engenheira de sistemas do Deltares,
instituto holandês de pesquisas aplicadas sobre uso da água

21

22

2.

Registros
vitais nas
nascentes

A QUALIDADE E A QUANTIDADE DE ÁGUA NOS MANANCIAIS
USADOS PARA O ABASTECIMENTO DA RMSP DEPENDEM

DE DIVERSOS FATORES, ENTRE ELES AS CARACTERÍSTICAS
CLIMÁTICAS DA REGIÃO. ALIADO ÀS PREVISÕES

DO TEMPO, O ESTUDO DAS VARIÁVEIS HIDROLÓGICAS
É ESSENCIAL PARA AS ANÁLISES SOBRE O VOLUME

DISPONÍVEL EM DIFERENTES CENÁRIOS PROJETADOS.
CONFIRA QUAIS SÃO E COMO SE RELACIONAM.

23

2.

Q uem vive na Região Metropolitana de São Paulo (RMSP) certamente
já experimentou, em um único dia, todas as estações do ano. Ou, no
mínimo, viradas bruscas de temperatura. A turma mais precavida não
é pega de surpresa pois costuma consultar aplicativos ou previsões do

tempo na véspera. Para abordarmos as variabilidades e as mudanças

climáticas nessa área, incluindo os mananciais que a abastecem, vale

primeiro esclarecer a diferença entre tempo e clima.

O tempo é o estado atmosférico em determinado momento, uma fotografia

clicada de um lugar em um instante. O clima é o conjunto de tempos registra-

dos em uma área específica, um álbum de fotografias tiradas naquele lugar, em

diferentes épocas do ano. Como está o tempo por aí? A resposta provavelmente

terá descrições a exemplo de “hoje amanheceu mais frio”, “está chovendo desde

ontem”, “o ar anda muito seco”... Como é o clima na sua cidade? “O verão é muito

quente e úmido”, “no inverno as temperaturas não caem tanto, é bem ameno”...

As respostas descrevem características de longos períodos como meses ou anos.

O clima é um fenômeno cíclico, influenciado por elementos e fatores climá-

ticos. “Ele também é uma grande pulsação. Assim como a vegetação, a umida-

de do solo, os regimes hídricos e de vazão que pulsam em escala sazonal em

determinada região”, explica Humberto Rocha, hidroclimatologista e professor

do IAG-USP. Sua especialização já indica que a questão da água é dominante e

está intrinsicamente associada ao clima.

Um dos postos de medição FOTO: DIVULGAÇÃO SABESP
às margens do reservatório
Biritiba, que faz parte
do Sistema Alto Tietê.

24

Medir chuva é uma atividade
extremamente complexa,
um desafio que implica
incertezas nas previsões. Para
minimizar o problema, usamos
uma combinação de instrumentos

Kleber Rocha Filho, meteorologista da Fundação Centro Tecnológico de Hidráulica (FCTH)

A água que cai do céu profissionais ligados ao abastecimento da
água, às análises meteorológicas (previsão do
Padrões de chuva, de temperatura, de radia- tempo) e climáticas. Os estudos costumam ser
ção solar e de umidade interferem no volume de regionais porque a combinação desses fato-
água disponível. E esse pacote de fatores sofre res dificilmente se repete em vários lugares.
variações locais, regionais e globais.As mudanças As medições podem acontecer a cada cinco
climáticas se enquadram como um fenômeno minutos e o agrupamento de dados depende
global e a chuva é a principal variável da menor do grau de detalhamento desejado. O que se
escala analisada. “Medir chuva é uma atividade chama de previsão do tempo é resultado de
extremamente complexa, um desafio e tanto pois avaliações numéricas e aplicações de mode-
a variabilidade pode ser enorme de um ponto lagem para um intervalo de um a dois dias.
para outro, mesmo dentro de uma pequena Para um período de 30 dias, especialistas
área, o que implica incertezas nas previsões. consideram uma escala de curto prazo. Le-
Para minimizar esse problema, utilizamos uma vantamentos para três a seis meses são de
combinação de instrumentos, como pluviôme- longo prazo, também identificados como
tros automáticos, radar de dupla polarização e previsão climática sazonal.
disdrômetros [equipamento a laser que mede
as características físicas das gotas da chuva]”, Na página seguinte são apresentados dois
detalha Kleber Rocha Filho, meteorologista da mapas de precipitação média anual na RMSP
Fundação Centro Tecnológico de Hidráulica e regiões próximas. Um deles indica valo-
(FCTH). Ele monitora de perto toda a Região res medidos e interpolados para a década de
Metropolitana e alguns locais fora dela, onde 2010 a 2019. O outro destaca apenas o biênio
estão os sistemas produtores de água da Sabesp. 2014-2015, período crítico em que o sistema
de abastecimento dos municípios enfrentou
Daí a importância de um trabalho de aná- uma grave crise hídrica.
lise constante interdisciplinar, que envolva
25

2. contornos
em branco
PRECIPITAÇÃO MÉDIA
ANUAL (MM) DE 2014 A 2015, sistemas
ANOS DA CRISE HÍDRICA, produtores
NA RMSP E ENTORNO da Sabesp

FONTE: FCTH-USP

500 1000 1500 2000 2500

MAIS PONTOS DE CONTROLE, 1 7 13 32 33 34
MAIOR PRECISÃO
2004 2005 2006 2007 2008 2009
Evolução da rede telemétrica da
Sabesp na RMSP, de 2004 a 2019

FONTE: SABESP

26

PRECIPITAÇÃO contornos
MÉDIA ANUAL (MM) em branco
DE 2010 A 2019,
NA RMSP E ENTORNO sistemas
produtores
FONTE: FCTH-USP da Sabesp

MAPAS: BRUNO ALGARVE

500 1000 1500 2000 2500

34 43 44 47 53 58 58 59 66 68

2010 2011 2012 2013 2014 2015 2016 2017 2018 2019
27

2.

O fenômeno El Niño pode causar secas FOTO: ADOBESTOCK / THECHATAT
severas e chuvas em excesso, dependendo
Conexões
mundiais de dados da região. Aqui, rebanho circula em leito
de rio com pouquíssima água.
Sobre os fenômenos globais e suas influências
locais, é preciso que exista uma comunicação formação, portanto quem vai prever o tempo
eficiente entre os diversos centros de pesqui- precisa saber o estado inicial em todos os lugares
sas meteorológicas e climáticas espalhados pelo do globo, inclusive em oceanos”, afirma Hum-
planeta. A Organização Meteorológica Mundial berto Rocha. No caso dos oceanos, as estações
(WMO), vinculada à Organização das Nações meteorológicas são instaladas em boias presas
Unidas (ONU), é aagênciaresponsável porgarantir ao fundo do mar. Os satélites permitem estimar
a colaboração mútua entre os países-membros. temperaturas em áreas extensas e isso também
A troca de dados e de investigações realizadas alimenta os modelos de análise.
a níveis locais, regionais e mundiais possibilita
prever e, se possível, antecipar eventos extremos, Na RMSP, segundo Kleber Rocha Filho, não
como furacões, chuvas torrenciais e demais efeitos há modelagem numérica de previsão do tempo,
atmosféricos. No Brasil, o Instituto Nacional de o que se faz é o monitoramento de precipi-
Meteorologiaé o órgão diretamente ligado àWMO. tação. Os dados de previsão são fornecidos
por fontes externas; a maioria delas é aberta,
A modelagem e a forma de medir podem como a modelagem usada pela NOAA, divisão
variar de um núcleo científico para outro, mas de meteorologia da NASA.
essa rica rede de informações é atualizada hora
a hora e as simulações da atmosfera acontecem A influência no microclima
no mundo inteiro. “A atmosfera é um fluido dos mananciais
em movimento, transporta ar frio, ar quente,
umidade, ar seco... Ela está em constante trans- De acordo com o meteorologistaKleberRocha
Filho, os efeitos de eventos como El Niño e La
28 Niña – fenômenos resultantes do aquecimento
e esfriamento anormal das águas do Oceano
Pacífico – entram nas previsões locais de forma

Nem lá nem cá

Ironicamente, além da dificuldade de medição das precipitações, o Sudeste –
onde a Região Metropolitana de São Paulo está inserida – ocupa uma área de transição
climática, o que dificulta a precisão nos resultados disponibilizados pelos modelos.

A região Sudeste está sob a ação de
fatores tropicais, típicos da Amazônia, como
as pancadas de chuva em fins de tarde,
mas também sofre forte influência de fatores
extratropicais, como as frentes frias que
caracterizam o sul do país. Isso atrapalha
o desempenho de qualquer modelagem”

Humberto Rocha, hidroclimatologista e professor do IAG-USP

qualitativa. “Na literatura científica encontramos Dada a grande área de abrangência dos siste-
registros de que, em anos de El Niño, os verões mas produtores daSabesp, o climasofrevariações
na região Sudeste tendem a ser mais chuvosos ao compararmos os regimes de precipitação
e o contrário para anos de La Niña. Mas temos média mensal de um com o outro. O Sistema
que ter em mente que esses índices não se al- Cantareira é bastante influenciado por circu-
teram de um dia para outro. Levam meses para lações locais, principalmente vale, montanha e
passar de um sinal positivo para um negativo. brisa marítima. Dentro do estado de São Paulo é
Acompanhamos essa movimentação mês a mês.” classificado como clima subtropical sem estação
seca; em Minas Gerais é subtropical com inverno
Nesse ritmo de inércia elevada, o nível de seco. Os sistemas do setor leste (Rio Grande,
precisão e acerto nas avaliações é grande. Ribeirão da Estiva e Alto Tietê) se enquadram
Dependendo de como a circulação atmosférica como subtropicais e a precipitação depende
local se altera e a circulação planetária se po- dos meses de verão. O Sistema Rio Claro é a
siciona em cima do continente, as chances de exceção, pois sofre influência direta da Serra
chuva caem, já que ocorre um tipo de bloqueio do Mar. Classifica-se em tropical úmido, com a
atmosférico, impedindo até o avanço de fren- convergência dos ventos do Atlântico Sul. Nos
tes frias nessa região. Logo, eventos globais já sistemas do setor sudoeste (Guarapiranga, Alto
conhecidos e periódicos influem na previsão e Baixo Cotia e São Lourenço) prevalece o clima
local e aparecem nas recomendações como subtropical com precipitação elevada no verão.
tendências probabilísticas. O efeito do El Niño Porém observa-se que parte do São Lourenço e
na RMSP permite saber que a chance de haver do Guarapiranga é influenciada pela Serra do Mar
mais chuva é maior, mas é impossível afirmar e, consequentemente, notam-se características
que haverá um aumento de 100 ou 200 mm do clima tropical sem estação seca o ano todo.
num certo período de tempo, por exemplo.
29

2.

A água que cai vai para... É essencial
conhecer o
Completar a frase acima exige um pouco balanço hídrico
mais de conhecimento sobre as possibilidades de cada sistema
de caminho que a chuva faz. Ela não se trans- produtor.
forma apenas em água armazenada nos ma- A quantidade
nanciais para ser tratada e depois distribuída. de chuva que se
“Entender como nossos sistemas produtores transforma em
funcionarão e serão recarregados depende do vazão varia de
entendimento de como os sistemas de solo, um manancial
vegetação e clima funcionam interativamente para outro
no local”, afirma o hidroclimatologista Hum-
berto Rocha. Mara Ramos, gerente do Departamento de Recursos
Hídricos Metropolitanos da Unidade de Produção
Aqui entra mais um conceito importante: de Água da Diretoria Metropolitana da Sabesp
balanço hídrico. Ele é o resultado da quantida-
de de água que entra e sai em uma área, num chove também interfere na absorção de mais
intervalo de tempo. A entrada é a precipitação ou menos água. Isso é quase instintivo. Depois
e a saída é composta por várias partes, entre de dias de estiagem, a chuva rapidamente se
elas a infiltração no solo, a evaporação em infiltra no solo e, após um período de preci-
decorrência da incidência solar – tanto no pitações frequentes, o volume de escoamento
terreno como na vegetação – e o escoamento superficial no mesmo terreno será bem maior.
superficial. Este último vai para as represas. “É Menos cobertura vegetal também facilita o
essencial conhecer o balanço hídrico de cada destino da chuva em direção ao reservatório,
sistema produtor. Se, por exemplo, chove 100 apesar de a água arrastar sedimentos para
mm numa determinada bacia e isso se reverte dentro das represas.
em 10% no volume de água no reservatório,
essa mesma precipitação em outra bacia pode Parte da ciência de quem gerencia os manan-
representar um aumento de apenas 5% no re- ciais é imaginar ações e mapear detalhadamente
servatório. Ou seja, a quantidade de chuva que as condições do entorno de cada uma das ba-
se transforma em vazão varia de um manancial cias, a fim de cruzar essas informações com os
para outro”, resume Mara Ramos, gerente do dados meteorológicos e construir cenários com
Departamento de Recursos Hídricos Metro-
politanos da Unidade de Produção de Água da
Diretoria Metropolitana da Sabesp.

Além das características do terreno, mais
ou menos rochosos, arenosos, compactados
etc., a umidade do solo no momento em que

30

indicadores confiáveis para garantir os níveis Moreira, gerente da Divisão de Gestão e Desen-
desejados de segurança hídrica. “Se optamos volvimento Operacional de Recursos Hídricos
por uma ação como rebaixar o nível de um Metropolitanos da Unidade de Produção de Água
reservatório contando com uma previsão de da Diretoria Metropolitana da Sabesp. “Nossas
chuva e não chove, dependendo do manancial projeções consideram as mudanças climáticas
essa decisão pode se tornar um problema sério. nas simulações com um viés mais estratégico.
Entendemos a complexidade das medições e Adotamos as incertezas climáticas na construção
de todas as variáveis envolvidas, mas precisa- de cenários com modelagem hidrológica para
mos nos desdobrar para sempre trabalhar na áreas específicas da rede de sistemas produtores”,
zona de menor risco possível”, avalia Emerson completa Mara Ramos.

MONTAGEM SOBRE IMAGENS ADOBESTOCK OS CAMINHOS POSSÍVEIS PRECIPITAÇÃO
DA ÁGUA DA CHUVA
EVAPORAÇÃO
TRANSPIRAÇÃO ESCOAMENTO
SUPERFICIAL
INFILTRAÇÃO
DRENAGEM
FREÁTICO PROFUNDA

31

FOTOS: DIVULGAÇÃO SABESP2.

Entendemos a complexidade
das medições e de todas
as variáveis envolvidas, mas
precisamos nos desdobrar
para sempre trabalhar na
zona de menor risco possível

Emerson Moreira, gerente da Divisão de Gestão e Desenvolvimento
Operacional de Recursos Hídricos Metropolitanos da Unidade
de Produção de Água da Diretoria Metropolitana da Sabesp

32

Nesta página, uma das
represas do Sistema
Cantareira durante a crise
hídrica de 2014 e 2015 na
RMSP. Ao lado, um registro
aéreo do período de cheias
na Represa Jundiaí, do
Sistema Alto Tietê, em 2019.

A relação direta entre Somadas a isso, a expansão e a verticalização
ocupação do solo dos centros urbanos reforçaram o surgimento
e temperatura das ilhas de calor, onde a circulação do ar é
prejudicada, e a poluição atmosférica, elevada.
Nos estudos e levantamentos associados à Ou seja, acontece uma transformação radical
precipitação e à temperatura, a ocupação do no microclima da região. São áreas com tem-
solo é um forte fator de influência. Em bacias peraturas médias superiores às das áreas rurais
localizadas em áreas urbanas, praticamente o em seu entorno e consequente diminuição da
volume de chuva se converte em vazão de água, umidade relativa do ar. A saúde da população
pois circula com mais facilidade pela super- que vive nessas ilhas, assim como a da natureza,
fície. O processo de urbanização ao longo do sente as consequências. Não é raro constatar
século 20 ignorou a preservação da cobertura o aumento de problemas respiratórios e de
vegetal existente, substituindo-a por superfícies eventos climáticos extremos nos arredores,
impermeabilizadas com drenagem artificial como inundações e estiagens.
que permitia o escoamento rápido da chuva.
33

2. cidades, pois eles têm efeito direto nos mais vul-
neráveis. Estão muito conectados às diferenças
O lado positivo é que no século 21 mais sociais, a exemplo dos moradores de periferia,
profissionais com diferentes formações aca- que sofrem mais com inundações e períodos
dêmicas têm se debruçado sobre estudos de seca”, reflete Tercio Ambrizzi, cientista e
que revelam essas discrepâncias e propõem professor do IAG-USP. Este documento – City-
novas formas de interagir e ocupar o espaço. -to-city partnerships anda South-south and
Arquitetos, meteorologistas, cientistas, físicos, triangular cooperation on sustainable urban
engenheiros e até médicos reúnem esforços development – foi consolidado no segundo
para não apenas conter como também rever- semestre de 2019 e traz um raio X de cidades
ter ações que interferem drasticamente no de todos os continentes. São Paulo é uma delas.
tempo e no microclima da região modificada.
Entidades internacionais dão espaço para a Um exemplo acadêmico
apresentação de trabalhos que relacionam as
questões climáticas com problemas socioeco- Em sua tese de doutorado em Saúde Glo-
nômicos; tudo está interligado. Vale lembrar bal e Sustentabilidade, para a faculdade de
que a formação de ilhas de calor também Saúde Pública da USP (2019), a bióloga Ma-
prejudica consideravelmente as análises para ria Fernanda Wadt mostra “a necessidade
o abastecimento de água e dificulta ainda mais da megacidade de São Paulo, marcada pelo
as tomadas de decisão. adensamento de edificações e ocupação do
solo com grande limitação de áreas verdes, em
“Essas discussões são extremamente atuais. conservar e ampliar sua infraestrutura verde
Recentemente, participei de um trabalho com para amenizar as adversidades do clima urba-
esse foco publicado pelo Inter-American Insti- no e propiciar benefícios ambientais, sociais
tute for Global Change Research (IAI), a pedido e econômicos, com efeitos positivos para a
da ONU. Temos que refletir sobre os impactos
dos eventos extremos climáticos nas grandes

Essas discussões são
extremamente atuais. Temos que
refletir sobre os impactos dos
eventos extremos climáticos nas
grandes cidades, pois eles têm
efeito direto nos mais vulneráveis

Tercio Ambrizzi, cientista e professor do IAG-USP

34

qualidade devida e bem-estar dos indivíduos”. (Pefi) – na minimização dos efeitos climáti-
A partir de uma perspectiva interdisciplinar, cos locais (alterações no microclima) e das
a pesquisadora analisa questões globais so- sensações térmicas dos seus visitantes. Que
bre o tema e, a nível local, exibe resultados mais estudiosos de diversas formações se
de um estudo empírico sobre os benefícios dediquem a compreender esses impactos. A
do terceiro maior fragmento florestal de São gestão de recursos hídricos também colhe os
Paulo – o Parque Estadual Fontes do Ipiranga frutos desses conhecimentos.

T E M P E R AT U R A33˚C
FOTO: ADOBESTOCK / WILL RODRIGUES32˚C
31˚C
30˚C

Área Rural Periferia Área Área Área Área Periferia Área Rural

comercial Central Residencial Verde

A capital paulista é um clássico exemplo
de ilha de calor, com temperaturas mais
elevadas na região central e mais baixas
em áreas bem arborizadas e afastadas,
como as próximas à Serra da Cantareira.

35

2. volume se traduz em inundações,
enchentes, contaminação de áreas
Ex-terra da garoa decorrentes de transbordamento de
córregos poluídos etc.
A capital paulista está bem próxima do ocea-
no; alguns municípios da Região Metropolitana Quanto às estiagens, essa é uma
mais ainda. Há uma brisa marítima diária – ora grande preocupação para o abaste-
suave, ora intensa – que leva umidade e diminui cimento de grandes centros.As secas
as temperaturas. Até por isso o tempo em São normalmente são agrupadas em:
Paulo pode começar frio, esquentar ao longo • s ecas meteorológicas – resultam
do dia, terminar com queda no termômetro e
ter uma noite gélida, por exemplo. da falta direta de chuva
• s ecas hidrológicas – resultam da
Contudo, desde que se tornou uma ilha de
calor, São Paulo também perdeu o título de ter- redução dos volumes de forneci-
ra da garoa. Aquela chuva fininha que, em ou- mento de água; cai a vazão natu-
tras décadas, caía no fim da tarde praticamente ral, cai o nível dos reservatórios,
desapareceu. “A maneira como urbanizamos inclusive das águas subterrâneas
a região causou isso. Desde que começaram • secas agrícolas – resultam da
as medidas ligadas ao aquecimento global, baixa umidade do solo, em de-
constatou-se que a temperatura no mundo corrência da evaporação no ter-
já subiu 1 oC. Porém nos últimos 100 anos a reno e transpiração das plantas;
temperatura média em São Paulo já subiu isso compromete o crescimento
3 oC”, destaca o cientista Tercio Ambrizzi. Essa vegetal esperado.
bolha de calor interfere na entrada dos ventos
e na circulação dentro da área urbana. Conse- Em todas elas, os prejuízos são
quentemente cidades com essa característica gigantescos, na ordem em média de
sofrem mais com as variabilidades climáticas US$ 6 a 8 bilhões por ano. Estudio-
e são uma porta escancarada para que eventos sos afirmam que a seca é o desastre
extremos, como inundações e secas rigorosas, natural mais custoso no mundo, afetando cole-
aconteçam com mais frequência. tivamente a população mundial.

Fenômenos extremos Diante desse cenário, o monitoramento mi-
nucioso dos recursos hídricos gera medições e
As chuvas têm ocorrido em períodos mais composição de indicadores fundamentais para
concentrados ao longo de um mês. Para áreas de traçar as estratégias de contingência. Os sistemas
mananciais, a consequência disso não é tão grave desenvolvidos pela Sabesp, assim como o olhar
quanto para zonas urbanas, onde facilmente esse da companhia sobre essas estratégias, são apre-
sentados no capítulo Foco em resiliênciahídrica.
cerca de 98% Mas, a título ilustrativo, seguem as faixas de ava-
liação usadas para um dos principais indicadores,
do abastecimento da RMSP é com água de o Índice de Precipitação Padronizada – SPI (do
superfície. Isso justifica a forte dependência inglês Standardized Precipitation Index). O nú-
mero gerado corresponde aos desvios-padrão
dos mananciais disponíveis! que a precipitação observada se afasta da média.

36

Chuvas fortes, num curto FOTO: JOSEMORAES
período de tempo, causavam
transbordamentos do Rio Tietê e
também alagamentos das pistas
locais, como mostra o registro
feito em fevereiro de 2020.

FAIXAS DE AVALIAÇÃO DO ÍNDICE DE PRECIPITAÇÃO SPI NO SISTEMA
PADRONIZADA (SPI, EM INGLÊS) CANTAREIRA

FAIXAS CONDIÇÕES DE UMIDADE PROB. -3,07 em out/2014
-1,49 em jul/2020
SPI ≤ -2.33 Seca Excepcional 1,0%
-2.33 < SPI ≤ -1.65 Seca Extrema 4,0% FONTE: SSD SABESP, MÉDIA MÓVEL DE 12 MESES
-1.65 < SPI ≤ -1.28 Seca Severa 5,0%
-1.28 < SPI ≤ -0.94 Seca Moderada 7,5% 37
-0.94 < SPI ≤ -0.52 Seca Branda 12,5%
-0.52 < SPI < +0.52 Aproximadamente Normal 40,0%
+0.52 ≤ SPI < +0.94 Levemente Úmido 12,5%
+0.94 ≤ SPI < +1.28 Moderadamente Úmido 7,5%
+1.28 ≤ SPI < +1.65 Consideravelmente Úmido 5,0%
+1.65 ≤ SPI < +2.33 Extremamente Úmido 4,0%
SPI ≥ +2.33 Excepcionalmente Úmido 1,0%

FONTE: SSD SABESP

38

3.

Água
para todos

GARANTIR O ABASTECIMENTO DE TODA A RMSP É UM
DESAFIO E TANTO. ESSE PROCESSO PARTE DE UMA

PREMISSA BÁSICA: DISPONIBILIDADE HÍDRICA. DEVE HAVER
ÁGUA SUFICIENTE NAS BACIAS HIDROGRÁFICAS PARA
SER CAPTADA, TRATADA NOS RESERVATÓRIOS,

ARMAZENADA E CONDUZIDA ATÉ OS PONTOS DE CONSUMO.
VEJA COMO E POR QUE, AO LONGO DAS DÉCADAS,
OS VOLUMES VARIAM NOS SISTEMAS PRODUTORES.

39

3.

O fato de a Região Metropolitana de São Paulo (RMSP)
ser uma das mais populosas do mundo já sinaliza o
tamanho da responsabilidade para abastecer seus
quase 22 milhões de habitantes. Antes de chegar às

casas, a água passa por um longo processo que co- 98%

meça nos sistemas produtores – termo associado aos é a garantia atual
de abastecimento
conjuntos de represas (ou mananciais). Essas áreas representam de água para a RMSP.
No passado, adotava-se
a disponibilidade de recursos hídricos para a população.
o nível de 95%.
A localização geográfica dos 39 municípios da RMSP – a maioria

nabaciadoAltoTietê – revelacondições naturais desfavoráveis, como

estar em área de cabeceira de rios, agravadas por uma ocupação

urbana intensa e desordenada. “É uma região com disponibilidade

hídrica crítica, que pode ser comparada a dados do Nordeste bra-

sileiro. Temos a visão de aridez, de escassez de água por lá, com

um olhar muitas vezes voltado para a questão climática. Mas essa

variável tem uma interface elevada com a quantidade de pessoas,

os usos que são feitos da água, entre outros fatores. É exatamente

aí que se encontra a criticidade da região de São Paulo e que pode

ser equiparada à dos estados nordestinos”, diz Guilherme Todt,

engenheiro consultor que escolheu a RMSP como caso de estudo

em sua dissertação de mestrado Avaliação de Sistemas de Recur-

sos Hídricos Complexos por meio de Indicadores de Desempenho,

defendida na Escola Politécnica da USP em 2020.

Atendimento máximo, falha mínima FOTO: DIVULGAÇÃO SABESP

Há práticas internacionais de avaliação sobre a quantidade
de água para atender uma região. Tradicionalmente observa-se
a série histórica do volume disponível nos mananciais para que
ele seja suficiente 95% do tempo. O que isso significa? “Ao pro-
jetar um sistema, admite-se uma probabilidade de falha de 5%;
não existe infraestrutura imune a falhas. E aqui vale distinguir
risco de falha. Risco é a probabilidade de falha multiplicada pelo
impacto da área prejudicada”, explica Monica Porto, engenheira
especialista em gestão de recursos hídricos.

No Plano Diretor de Abastecimento de Água (PDAA) da RMSP, de
2019, produzido pela Sabesp, os mananciais atualmente explorados
passaram por uma reavaliação e adotou-se a vazão com garantia
de 98%. Essa mudança de 95% para 98% reflete a preocupação
com os grandes prejuízos decorrentes de eventuais falhas no sis-
tema que podem atingir a população. As análises minuciosas se
basearam em séries mensais de vazões naturais, desde outubro de
1930 (isso mesmo, 1930!) até setembro de 2015, já considerando
o período de escassez hídrica de 2014 e 2015 na RMSP.

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Ao projetar um sistema,
admite-se uma probabilidade
de falha; não existe
infraestrutura imune a falhas

Monica Porto, engenheira especialista em gestão de recursos hídricos

Represa Atibainha,
integrante do

Sistema Cantareira,
ao norte da RMSP.

41

3.

Além da hidrologia quase que exclusivamente das chuvas. O FOTO: DIVULGAÇÃO SABESP
sistema Alto Tietê está ameaçado com a forte
Como detalhado no capítulo anterior, pressão imobiliária, principalmente em Su-
parte da chuva transforma-se em vazão em zano e Mogi das Cruzes. E o Cantareira, com
áreas de mananciais. Esse volume represado sua complexa rede interligada de represas,
compõe uma parte da garantia de água. convive com praticamente todos esses fatores
Outros fatores influenciam e ainda devem que extrapolam a hidrologia. Ainda existem
ser cruzados com as taxas de crescimento aqueles que impactam a operação do sistema
populacional da região, já que estudos das produtor e são considerados nas avaliações de
Nações Unidas sugerem que a disponibilida- outorgas, como as características físicas dos
de hídrica seja dada em valores per capita. sistemas, as restrições de jusante, as regras
Entre os demais pontos que interferem na de operação, as demandas e as prioridades
análise destacam-se: de atendimento.

O Alterações no uso e ocupação do solo “O que nos preocupa é a qualidade da água
O E xistência de grandes consumidores nos mananciais a longo prazo. Atualmente
temos uma operação confortável, mas não há
de água manancial de reserva caso algum entre em
O Alteração nos regimes de chuvas colapso por causa de poluição, por exemplo.
O Construções de obras, como barragens Focamos muito em tecnologia nas estações
de tratamento, só que há um limite. Se a
e reservatórios. qualidade baixar demais e nem tratamento
Em função dessas variáveis e também da resolver, isso compromete a quantidade a ser
qualidade das águas de mananciais, comparar entregue para a população”, analisa Marco
sistemas produtores faz pouco sentido para Antonio Lopez Barros, superintendente da
a RMSP, pois cada um deles está inserido Unidade de Produção de Água da Diretoria
numa realidade distinta e exclusiva. Enquanto Metropolitana da Sabesp.
o Guarapiranga sofre as consequências de
ocupações irregulares às suas margens, a
variabilidade do sistema Rio Claro depende

NÍVEIS DE DISPONIBILIDADE HÍDRICA,
CONFORME DEFINIÇÃO DA ORGANIZAÇÃO
DAS NAÇÕES UNIDAS (ONU)

DISPONIBILIDADE HÍDRICA SITUAÇÃO Disponibilidade hídrica
(m³/hab./ano)
Escassez na RMSP: 201*
< 500 Estresse
500 – 1.000 Regular m3/hab./ano, enquanto no panorama
1.000 – 2.000 Suficiente global o potencial do Brasil está entre
2.000 – 10.000 10.000 e 100.000 m3/hab./ano
10.000 – 100.000 Rico
> 100.000 Muito Rico * FONTE: PORTO, M. RECURSOS HÍDRICOS E SANEAMENTO NA REGIÃO
METROPOLITANA DE SÃO PAULO: UM DESAFIO DO TAMANHO DA CIDADE.
FONTE: MARGAT, 1998 APUD REBOUÇAS ET AL, 2002 IN: SÉRIE ÁGUA BRASIL. BANCO MUNDIAL, 2003.

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O que nos preocupa é a qualidade
da água nos mananciais a longo

prazo. Atualmente temos uma operação
confortável, mas não há reserva caso
algum entre em colapso”

Marco Antonio Lopez Barros, superintendente da Unidade de Produção de Água
da Diretoria Metropolitana da Sabesp

Vista aérea evidencia o adensamento irregular às margens da Represa Billings, na zona sul de São Paulo.

Samuel Barrêto, gerente de água da The a complexidade do tema”.
Nature Conservancy Brasil, entidade parceira Com essa lista multifatorial, as avaliações
da Sabesp na recuperação de áreas verdes
no entorno dos mananciais, reforça a com- são constantes e bem detalhadas a fim de
plexidade da situação ao usar o município subsidiar as estratégias de gestão da água
de Embu como exemplo: “Praticamente com maior rigor na RMSP. A busca constante
70% da população está dentro de área de por alternativas viáveis transforma-se num
manancial. Depois da ocupação desorde- processo que envolve diferentes esferas,
nada e consolidação dessas famílias e da incluindo equipes técnicas da companhia,
criação de loteamentos, que são ações que entidades científicas, órgãos gestores e
extrapolam a competência da companhia de reguladores, além de representantes da
abastecimento de água, a gestão de recursos sociedade. A dinâmica entre essas partes
hídricos fica mais difícil, o que só confirma é detalhada no capítulo Por uma conver-
gência de interesses.

43

3.

Um gigante único Contribuição do FOTO: DIVULGAÇÃO SABESP
e integrado volume útil de cada
sistema produtor
Numa reflexão sobre referências de água da RMSP
mundiais, já se sabe que as característi-
cas da RMSP a tornam única, tanto pelas 0,9% 0,7%
condições geográficas e populacionais Alto Cotia Rio Claro
como culturais e econômicas. “Ao se fa- 0%
lar em estações de tratamento de água, 6% São Lourenço
junto aos mananciais, temos poucas
unidades de grandes dimensões – 10 Rio Grande
ETAs e 10 sistemas produtores. Europa
e Estados Unidos possuem sistemas 9,2%
menores, mais descentralizados, até
porque não têm uma metrópole como Guarapiranga
a que atendemos, com todas as suas
particularidades. Comparar sistemas 30,2% PRÉ-CRISE 52,9%
produtores é impossível”, afirma Marco Alto Tietê HÍDRICA Cantareira
Antonio Lopez Barros. (DEZ/2012)

O superintendente da Sabesp ain- bacias hidrográficas vizinhas, exigindo
da relembra que a concepção desses a operação de uma complexa infraes-
sistemas na RMSP começou no fim trutura para a garantia da oferta de
do século 19. A maneira como foi sen- água. Vale pontuar que a flexibilidade
do ampliado ao longo das décadas, nos sistemas de água bruta é limitada,
paralelamente ao desenvolvimento pois eles são periféricos da Região
da região, tornou inviável mudanças Metropolitana. A interligação é difí-
radicais. “Quanto mais engessado for cil porque passa por questões físicas
seu sistema, mais risco você corre. Vi-
vemos um pouco disso na crise hídrica
de 2014/2015. Não temos outro sistema
do porte do Cantareira, buscamos al-
ternativas em outros países, mas nada
se encaixa no nosso cenário, então
devemos criar soluções internas, não
importar o que se fez lá fora.”

Nessa linha, o sistema integrado
metropolitano é vital para o abaste-
cimento dos municípios. Quando as
condições naturais não se demons-
tram favoráveis, a disponibilidade
hídrica local precisa ser reforçada
muitas vezes por obras de reservação
e por transferências de vazões entre

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4,6% 0,8% Trecho da É culpa das
Alto Cotia rodovia Anchieta mudanças
São Lourenço que corta a climáticas?
Represa Billings,
5,8% do Sistema Todos os estudos e planos relacio-
Rio Grande Rio Grande. nados ao abastecimento de água na
RMSP permeiam inevitavelmente a
0,7% variabilidade climática, assim como
Rio Claro as alterações globais que o planeta
sinaliza e entidades internacionais
8,8% 50,5% ressaltam com frequência. Afinal, as
Cantareira mudanças climáticas devem ser con-
Guarapiranga sideradas como um dos fatores que
interferem fortemente na disponibi-
PÓS-CRISE lidade hídrica? Sim. Mas a divergência
HÍDRICA nos times que estão na linha de frente
para garantir água a todos está mais
(JUL/2020) atrelada às ocorrências extremas,
como secas severas e inundações em
28,8% consequência de muita chuva.
Alto Tietê
Quem vive na RMSP certamente
que praticamente impossibilitam a lembra da crise hídrica de 2014 e 2015.
conexão – há distâncias de até 30 A estiagem prolongada no período
ou 40 km entre eles ou áreas bem atingiu o principal sistema produtor,
adensadas no meio do caminho. Mais o Cantareira. Por meses, as equipes
detalhes sobre o equilíbrio dessas da Diretoria Metropolitana da Sabesp
estratégias que envolvem também enfrentaram por 24 horas, sete dias
demanda e contingências estão no da semana, a ameaça de um colap-
capítulo Foco em resiliência hídrica. so no abastecimento da região. Esse
fato transformou o jeito de pensar e
atuar da empresa e melhorou muito
as condições de oferta de água. Ironi-
camente, cinco anos antes, o verão de
2009 foi mais chuvoso que o normal
e o volume excessivo de água causou
vertimento (abertura de comportas
para liberar água de reservatórios)
em represas do Cantareira. 2010 co-
meçou com notícias de alagamento
nos municípios próximos ao sistema,
como Franco da Rocha e Cajamar. Em
2011 a história se repetiu também lá e
em barragens do Rio Tietê.

45

3.

FOTO: DIVULGAÇÃO SABESPSituações como essas pedem uma reflexão: desafio. Portanto a tendência é termos obras
FOTO: ADOBESTOCK / TACIO PHILIPhá conexão entre episódios dessa natureza emais parrudas, mais resilientes e que promovam
as mudanças climáticas globais? Sabe-se que maior reservação”, afirma Benedito Braga, atual
elas alteram a temperatura e os regimes de diretor-presidente da Sabesp.
precipitação e vazão de bacias e sub-bacias.
Mas saber quando e com que intensidade tam- Quando se fala em padrão de observação,
bém faz parte da questão. Aqui entra o trabalho a especialista Monica Porto pontua: “As mu-
essencial de modelagem de cenários futuros, danças climáticas vão provocar uma alteração
com resultados extremamente relevantes para nos padrões de cheia, de seca, principalmente
o planejamento e a gestão dos recursos hídricos para nós, que estamos no Sudeste, uma região
disponíveis. de transição climática. A magnitude da seca
de 2014 só se aproximou da de 1953/1954.
“É muito difícil fazer uma ligação com 100% Demorou 60 anos para acontecer de novo e
de confiança entre fenômenos extremos na isso não quer dizer que seja reflexo de mu-
RMSP e mudanças climáticas. Estamos experi- dança climática. Consultamos muitos profis-
mentando nos últimos dez anos eventos bastante sionais à época e ninguém bateu o martelo
fora do padrão do que vínhamos observando no sobre aquela anomalia de chuva estar ligada
passado. Um bom exemplo são os dois últimos à mudança climática”. Ainda sob a ótica da
anos. Eles foram muito secos e, se não fossem especialista, quando se consideram questões
as obras de transposição realizadas no Sistema como redução de risco, redundância, gestão
Cantareira logo após a crise de 2014, teríamos de demanda, ou seja, as variabilidades conhe-
entrado no volume morto já no ano passado. Isso cidas, o padrão de alteração provocado pelas
mostra que atuamos para dar mais resiliência mudanças climáticas também estará dentro
ao sistema. Vivemos, sim, um período de maior dessa variabilidade.

Vegetação no entorno dos
mananciais do Sistema Cantareira
sofreu com a estiagem de 2014.
Ao lado, detalhe do vertedouro
da Represa Jaguari. A estrutura,
feita para liberar água em época
de cheias, evita inundações e
até rompimento de barragens.

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É muito difícil fazer uma ligação
com 100% de confiança entre mudanças
climáticas e os fenômenos extremos na RMSP.
Estamos experimentando nos últimos
dez anos eventos bastante fora do padrão”

Benedito Braga, atual diretor-presidente da Sabesp

47

3.

Sistema Integrado
Metropolitano (SIM)
e suas respectivas
vazões outorgadas

ESTAÇÃO DE
TRATAMENTO DE ÁGUA (ETA) =

BAIXO COTIA GUARAPIRANGA

Vazão outorgada Vazão outorgada (m3/s): 14
(m3/s): 1,05 ETA Rodolfo José da
ETA Baixo Cotia Costa e Silva (RJCS)

ALTO COTIA RIO GRANDE

Vazão outorgada Vazão outorgada
(m3/s): 1,25 (m3/s): 5,5
ETA Morro Grande ETA Rio Grande

SÃO LOURENÇO EMBU GUAÇU /
CAPIVARI
Vazão outorgada (m3/s): 6,4
ETA Vargem Grande Vazão outorgada
(m3/s): 0,15
ETA Embu Guaçu

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CANTAREIRA Total de
vazão
Vazão outorgada (m3/s): 33
ETA Guaraú outorgada:

ALTO TIETÊ 80,45 m3/s

Vazão outorgada Total de
(m3/s): 15 vazão de
transferência
ETA Taiaçupeba
entre
mananciais:

26,8 m3/s

RIO CLARO MAPA: BRUNO ALGARVE

Vazão outorgada (m3/s): 4
ETA Casa Grande

RIBEIRÃO DA ESTIVA

Vazão outorgada (m3/s): 0,10
ETA Ribeirão da Estiva

FONTE: SABESP, JUL/2020

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