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Published by ㅤㅤㅤ ㅤㅤ, 2018-04-08 18:15:00

ㅤㅤㅤ ㅤㅤ

r/s/1**3*9*

ROLLINGSTONE.COM.BR

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CAPA RS BRASIL INDICA

PERFIS E PÁGINAS QUE VOCÊ DEVE
ACOMPANHAR NAS REDES SOCIAIS

Macaulay Culkin
@IncredibleCulk

“O Artista do Desastre foi o
pior filme do Harry Potter
este ano. #Oscars”

FEBRE Mariana Aydar
ESPANHOLA /marianaaydar

La Casa “[‘Floresta’] é o começo
de Papel: de um mergulho na
fenômeno minha floresta selvagem
inesperado de compositora. É um
lugar diferente, lindo e
Fora do Eixo emaranhado que eu visito,
Listamos boas produções que não são nem brasileiras nem norte-americanas e que podem que me dá uns presentes
ser assistidas por aqui para você fugir do óbvio e ampliar seus horizontes televisivos. Tem The como essa música.”
Crown, Dark, Merlí, Sherlock e a muito falada La Casa de Papel.
http://bit.ly/2Ha3v0D

New Rockstars
O canal traz programas inteligentes sobre
o universo do cinema, destrinchando
trailers, filmes e premiações.

ENTREVISTA Boogie Man COBERTURA Damon Albarn SÉRIE Heroína de Volta MARK ALLAN/INVISION/AP (GORILLAZ); DIVULGAÇÃO; REPRODUÇÃO
Principal MC dos Racionais, Mano enfim traz os
Brown reflete sobre o momento integrantes Demorou, mas enfim Jessica Jones,
funk e soul da carreira e como virtuais do produção da Marvel, retornou à Netflix
foi cair na estrada com o disco com novos episódios. Falamos com
dele Boogie Naipe. Ele Gorillaz ao Brasil Krysten Ritter para saber como foram
também comenta os bastidores da segunda temporada.
brigas na internet Março Barulhento
– o polêmico Krysten transformou Jessica Jones
“meme do Além do Lollapalooza, o mês de março em uma personagem querida não
gatinho” – e o teve uma série de outras apresentações apenas pelos fãs das HQs
desejo de lançar internacionais. Estivemos no Nublu Jazz
apenas singles Festival e nos shows de Gorillaz, Katy Perry,
soltos daqui Spoon, Depeche Mode, Steve Hackett, The
em diante. National, Eddie Vedder e muitos outros.
Brown cai no
groove com uma
numerosa banda
nos shows da
carreira solo

4 | Rol l i ng S t on e Br a s i l | rollingstone.com.br Março, 2018

CARTAS MENSAGENS DE Nº 139
AMOR E ÓDIO
ROLLING STONE BRASIL

CONSELHO EDITORIAL:
José Roberto Maluf e Luis Maluf

mo ele, o mundo seria ainda Conteúdo PUBLISHER: José Roberto Maluf
mais chato. Viva o U2! Apropriado EDITORA: Stella Rodrigues
EDITOR ASSISTENTE: Paulo Cavalcanti
Dácio Azevedo Não curto o trabalho de Pa- REVISÃO: Marcelo Paradizo
No site da RS Brasil bllo Vittar [“No Vício da Bati-
da”, RS 137], mas o que acon- DIRETOR DE ARTE: Daniel S.B. Mangione
Mestre das Letras tece é que ela virou fenômeno,
a Rolling Stone tem que entrar WWW.ROLLINGSTONE.COM.BR
Bono demonstra mais uma na pegada e falar sobre isso. EDITORA: Stella Rodrigues
vez sua enorme habilidade REPÓRTER: Lucas Brêda
com as palavras, não deixan- Thais ML ESTAGIÁRIO: Igor Brunaldi
do o entrevistador sem res- No Facebook da RS Brasil
postas aparentemente con- DIRETOR COMERCIAL: Márcio Maffei
clusivas. Podemos discordar Novo Rock EXECUTIVOS DE CONTAS: Milene Rizzardi e
dele em alguns pontos, mas Francisco Netto
seu entusiasmo e sinceridade Pabllo Vittar é o novo rock:
são extremamente cativantes! controverso, fora do padrão, PARA ANUNCIAR: [email protected]
A propósito, o disco Songs of que vai contra as definições
Experience tem tudo para se de “socialmente permitido”. DIRETOR DE MARKETING E PROJETOS
tornar um clássico, uma refe- Parabéns, @rollingstone- ESPECIAIS: Leo Beling
rência de nossa época. -brasil, por reconhecer ESTAGIÁRIA: Gabriela Brandão
que o pop é o novo rock, e
Luís Eduardo Martins @pabllovittar, por carregar GERENTE DE CIRCULAÇÃO: Danieli Lopes
No site da RS Brasil esse título tão importante. ESTAGIÁRIA: Julia Araújo

Sem Coroa, Só @sevenfortunato GERENTE FINANCEIRO: Edison Arduino
Princesa No Instagram da RS Brasil
REPRODUÇÃO Tudo e Mais um ROLLING STONE BRASIL
Pouco A Camila Cabello [“Ascenção Obra Maior Uma publicação da Spring Publicações Ltda.
Conturbada”, RS 138] mere- Que a Vida REDAÇÃO: R. Bandeira Paulista, 726, 22º andar,
O Bono [“Entrevista RS – cia capa mais que o Bono. Va- Itaim Bibi, São Paulo, SP, CEP 04532-002,
Bono”, RS 138] é realmente, mos investir nos novos, gente, Eric Clapton [“P&R”, RS 137] Tel.: 55 11 3165-2566
e no melhor sentido da o tempo do Bono já foi, só ele é uma lenda, o maior guitarris- PAUTAS: [email protected]
palavra, uma personalidade. não sabe disso. Guardem as ta da história. Um cara desses
Ele consegue ser político, minhas palavras: a princesa nunca morrerá, a obra dele se- ASSINATURAS E EDIÇÕES ANTERIORES
artista, músico e compositor de Havana ainda estampará rá imortal! ASSINATURAS: www.assinerollingstone.com.br
e, não menos importante, a capa dessa publicação. [email protected]
um defensor das verdadeiras Leco Freitas Tels.: 11 3165-2961 / 11 3165-2944
causas sociais. Pietra Carvalho Rodrigues No Facebook da RS Brasil (de segunda a sexta-feira, das 9h às 18h,
Por e-mail exceto feriados)
Maurício Maria Seven De Tudo um Pouco EDIÇÕES ANTERIORES: poderão ser
No Facebook da RS Brasil O Crime Não adquiridas com o seu jornaleiro ou pelo e-mail
Compensa Por isso sou fã da RS, a re- [email protected], havendo
Sem Naftalina vista não segue um padrão. estoque disponível, pelo preço da última
Que puta história boa essa Diferentes personalidades edição em banca
Preferiria se fosse uma capa do Randy Lanier [“Risco Du- de diferentes crenças, etnias,
nova da Pabllo Vittar ou po- plo”, RS 138]. Eu, que curto posturas políticas e gênero já IMPRESSÃO: Maistype
deria ser a Jojo Maronttinni corrida (mais Fórmula 1, na estiveram na capa. Adoro. DISTRIBUIÇÃO: Dinap Ltda. – Distribuidora
ou a MC Loma e as Gêmeas verdade), não conhecia e ado- Nacional de Publicações, Rua Dr. Kenkiti
Lacração. Elas são a novida- rei conhecer. Não sei por que Fernando Souza Shimomoto, nº 1678, CEP 06045-390 –
de e o sucesso. Quem é U2? ele acabou sendo solto. Aliás, No Facebook da RS Brasil Osasco – SP
Uma banda que fazia suces- pelo visto, nem ele sabe, mas
so nos anos 1980 e que nin- espero que tenha se arre- Errata ROLLING STONE USA
guém mais ouve hoje em dia. pendido do que fez e consiga
retomar a vida. E que outros As fotos de Maria EDITOR & PUBLISHER: Jann S. Wenner
Rick Henrique aprendam a lição. Casadevall [“Mulher Real”, MANAGING EDITOR: Jason Fine
No Facebook da RS Brasil RS 138] são de autoria de DEPUTY MANAGING EDITOR: Sean Woods
Alan Lopes Yuri Sardenberg e Ana ASSISTANT MANAGING EDITORS: Christian
Boca no Por e-mail Monteiro. Hoard, Alison Weinflash
Trombone SENIOR WRITERS: David Fricke, Andy Greene,
Brian Hiatt, Peter Travers
Ter uma opinião política faz SENIOR EDITORS: Patrick Doyle, Rob Fischer,
parte da natureza humana Thomas Walsh
e o Bono apenas expressa as DESIGN DIRECTOR: Joseph Hutchinson
opiniões dele, sem medo de CREATIVE DIRECTOR: Jodi Peckman
desagradar a quem quer que VICE PRESIDENT: Timothy Walsh
seja. Sem dúvida alguma, é CHIEF REVENUE OFFICER: Michael Provus
um grande músico, artista HEAD OF SALES: Jay Gallagher
e ativista. Sem pessoas co- HEAD OF DIGITAL: Gus Wenner
LICENSING & BUSINESS AFFAIRS: Maureen A.
Lamberti (Executive Director), Aimee S. Jeffries
(Director), Sandford Griffin (Manager)

ROLLING STONE INTERNATIONAL

CHIEF EXECUTIVE OFFICER: Meng Ru Kuok
CHIEF OPERATIONS OFFICER: Ivan Chen
CHIEF FINANCIAL OFFICER: Tom Callahan

FILIADA AO IVC

Copyright © 2018 por Rolling Stone LLC. Todos os direitos
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revista ou de qualquer uma de suas partes é proibida. O nome
Rolling Stone e o logotipo são marcas registradas por Rolling Stone
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Março, 2018 rollingstone.com.br | Rol l i ng S t on e Br a s i l | 5



SHOW DEPECHE MODE PÁG. 9 | MÚSICA O NOVO MOMENTO DE RASHID PÁG. 13

MÚSICA AINDA COM
GÁS TOTAL
DuPomeuTcoudo Marina Lima
polemiza no
Marina Lima chega novo disco
ao 21º álbum da
carreira com mistura A admiração de ma-
de ritmos e visão rina Lima por São
politizada Paulo continua ali-
mentando a ânsia criativa
da artista, cerca de oito anos
após ela ter trocado o Rio de
Janeiro pela megalópole pau-
lista. Depois de ter rendido a
canção “#SPfeelings” no dis-
co de estúdio anterior (Clí-
max, de 2011), a capital serve
de inspiração para “Juntas”,
uma das nove canções do
atual tra- [Cont. na pág. 8]

ROGERIO CAVALCANTI/ DIVULGAÇÃO

Março, 2018 rollingstone.com.br | Rol l i ng S t on e Br a si l | 7

ROCK&ROLL

[Cont. da pág. 7] balho de Marina, e Dustan Gallas (Cidadão Instigado), os dois conseguiram convencer a ar-
Novas Famílias. “São Paulo me rea-
proximou do Brasil como um todo e me com coprodução de Arthur Kunz (do tista a estrelar o longa, previsto para o
trouxe a chance de entrar em contato
com as pessoas mais variadas”, ela expli- duo eletrônico paraense Strobo) e os segundo semestre (a primeira e única
ca. “Fui encontrando uma musicalidade
forte em coisas que eram muito novas diversos convidados ajudaram a criar experiência dela como atriz ocorreu em
para mim. E isso me instiga.”
esse mosaico de sons. 1984, no filme Garota Dourada). “Eles
“Juntas”, ao lado do primeiro single
do disco, o funk “Só os Coxinhas”, co- Gallas, por exemplo, foi uma indi- são muito meus amigos, e eu disse logo:
produzido por João Bra-
sil, marca o retorno da cação de Marcelo Jeneci, que toca pia- ‘Olha, vocês não estão entendendo, vo-
bem-sucedida colabora-
ção de Marina com o ir- no no tema-título. “O Jeneci é de uma cês vão foder com o filme [me escalando
mão Antonio Cicero (Clí-
max foi o primeiro álbum delicadeza, um homem tão atual, tão para o elenco]’”, ri. Marina diz que tem
dela sem nenhuma músi-
ca assinada pelos dois). acima de tantos dogmas. Ele tem uma “zero curiosidade” de se assistir na te-
“Só os Coxinhas” chega
com uma carga dupla la grande. “Penso em viajar
de ironia: é uma provo-
cação à extrema direita na estreia”, afirma, com um
política e, curiosamente,
uma faixa de gênero po- tom que indica iguais partes
pular com assinatura de
Cicero, recém-escolhido de brincadeira e seriedade.
para integrar a pomposa
Academia Brasileira de “Dei o melhor que eu podia,
Letras. “Ele ficou louco
de cara com essa música. mas acho que não vou que-
Tem um lado da nossa
parceria que é bastante rer me ver, não. Ficarei mor-
divertido. Como nos co-
nhecemos demais, temos rendo de vergonha.”
muita intimidade e mui-
to humor”, conta Marina. Ela pode até planejar uma
O hit atemporal “Fullgás”
é apenas um dos exem- fuga dos cinemas, mas não
plos do trabalho conjun-
to dos irmãos. se esquiva do debate sobre

“Só os Coxinhas” é a política nem no disco nem
canção que melhor exem-
plifica a vontade da artista de retratar em entrevistas. Vê como
um panorama político. “O mundo todo
está ficando muito reacionário. E o Bra- uma possibilidade para a
sil está nessa. Então, quis, mais do que
nunca, me posicionar.” Na mesma linha corrida presidencial uma
politizada, está “Mãe Gentil”, parceria
com Letrux. Há também típicas canções chapa com Ciro Gomes e
de desamor/desprendimento de Mari-
na, a exemplo de “Árvores Alheias”, e de Fernando Haddad, critica a
amor/apelo sexual, como o tecnobrega
“É Sexy, É Gostoso”. inexistência de um Estado

Novas Famílias é, do ponto de vista laico no Brasil (“A evangeli-
sonoro, um dos discos mais diversifica-
dos da compositora. Além do funk, do zação das pessoas tomou o
tecnobrega e das programações eletrô-
nicas, sempre manipuladas com clas- lugar da educação. Falta di-
se pela carioca, há espaço para samba
(“Climática”) e samba-funk (“Juntas”). nheiro para tudo, mas tem
A parceria de produção entre Marina
a religião. O povo vira gado,

totalmente manipulado”) e

faz uma análise sobre o de-

bate esquerda versus direi-

ta: “A direita é sempre muito

TIME A POSTOS organizada. A esquerda não
Marina (ao centro) com é. As pessoas que não pen-
os músicos Dustan Gallas sam só em dinheiro, que se
(sentado), Arthur Kunz (à preocupam com o próximo

esq.) e Leo Chermont e que têm uma consciência

mais social querem na realidade ten-

“O mundo todo está ficando tar compartilhar, e querem se divertir
muito reacionário. E o Brasil está também. Querem viver. Ninguém fica
nessa. Então, mais do que nunca, preocupado em fazer artimanhas e
criar armadilhas. A gente não é assim.
quis me posicionar”
Isso tem um lado ruim, que é o fato de

coisa muito diferente”, derrete-se Ma- não sermos organizados; então, quem

rina. Outra participação é a de Silva, está preocupado em dominar, quem

com quem ela a princípio comporia quer dinheiro e poder fica o tempo to-

uma canção para Wanderléa. A parce- do confabulando”. Marina aproveita

ria acabou, no entanto, dando origem para contar que, se a sociedade cair ROGERIO CAVALCANTI/ DIVULGAÇÃO

a “Do Mercosul”, que fecha Novas Fa- em desgraça com uma possível eleição

mílias antes da faixa bônus “Pra Come- de Jair Bolsonaro, cogita deixar o país.

çar” (lançada originalmente no disco “Pensaria [em me mudar]. Como ele é

Todas ao Vivo, de 1986). quase um ditador, eu poderia ser pre-

“Do Mercosul” também servirá de sa. Vai saber o que ele vai fazer. Eu não

trilha para o filme Baleia, com direção vou, a essa altura, ser tolhida dos meus

de Esmir Filho e roteiro de Ismael Ca- direitos individuais”, afirma.

neppele. Depois de muita insistência, BRUNA VELOSO

8 | Rol l i ng S t on e Br a si l | rollingstone.com.br Março, 2018

SHOW

Heróis do Synthpop

Depeche Mode continua a empreitar sua maior turnê, com faixas do novo disco e sucessos da carreira

FORÇA AO VIVO
Dave Gahan (ao
centro) comanda o
Depeche Mode em uma
apresentação recente

A pós mais de duas décadas, o em heroína e Gore parecia perdido com culdade de não nos repetirmos.” Poucas
Depeche Mode volta ao Brasil uma banda em crescente ascensão. músicas do novo disco entram nos shows
para uma única apresentação. da Global Spirit Tour. “Tocamos só qua-
As preocupações nunca acabaram,

O atual trio encerra a etapa latino- mas hoje são outras. Algumas delas, tro ou cinco e fazemos um apanhado da

-americana da Global Spirit Tour com expressas em Spirit (2017), 14º do gru- carreira”, Gore revela. Tem ainda uma

um show no Allianz Parque, em São po. “Eu realmente não entendo o que homenagem a David Bowie com uma

Paulo, no dia 27 deste mês. Ela é a mais se passa com o mundo”, Gore comenta. cover de “Heroes”, música importante

longa turnê da banda, com 129 datas “Existe uma polarização maciça acon- na formação do Depeche Mode. Quan-

na agenda. A primeira passagem pe- tecendo, decisões ridiculamente absur- do David Gahan a cantou numa jam

lo Brasil foi mágica para uma geração das estão sendo tomadas e todo mun- session, Vince Clarke o convidou para

fã de synthpop, ainda que o Depeche do parece aceitar sem dar a mínima.” entrar em seu grupo e o Depeche Mo-

Mode, então um quarteto, estivesse em O inglês mora nos Estados Unidos há de nasceu. O tecladista Peter Gordeno,

sua fase mais rock. Para os integrantes, 17 anos e a mais recente eleição presi- que trabalhou com Gore em sua carrei-

no entanto, os shows em 4 e 5 de abril dencial do país foi motivo de inspiração ra solo, e o baterista Christian Eigner

de 1994, no Olympia, em continuam como parte da

São Paulo, parecem ter “Não entendo. Decisões ridiculamente absurdas estão sendo banda ao vivo, junto a Go-
virado um borrão. “Lem- tomadas e todo mundo parece aceitar”, diz Gore sobre re, Gahan e Fletcher.
bro-me do mar intermi-
nável de prédios visto do suas preocupações atuais, que chegam à música da banda Eles dois são coautores
de “Cover Me”, um clássico

avião quando estávamos synthpop instantâneo, pre-

chegando”, diz Martin L. Gore. Já Dave para “Going Backwards”, faixa que abre sente no atual setlist, e que ganhou um

Gahan é mais lacônico: “Apenas coisas o novo disco. Gore também se desapon- vídeo dirigido por Anton Corbjin. “Eu

boas”, recorda diplomaticamente. Pro- ta com o estado de sua terra natal. “O me visto de astronauta, fico perambu-

MARKUS NASS FUER TELEKOM/DIVULGAÇÃO vavelmente, ele não se lembra de nada. Brexit vai afetar pelo menos três gera- lando pelas ruas da cidade onde moro e

Era uma época conturbada para o gru- ções”, calcula. de repente estou no espaço”, diz Gahan.

po. Em 1993, o Depeche Mode havia Algumas músicas de Spirit remetem “Traz uma ideia de isolamento, mudan-

completado a Devotional Tour, a maior ao Depeche Mode dos anos 1980, embo- ça interna e proteção”, algo importante

até então, e resolveu estendê-la no ano ra sejam mais agressivas. “Em estúdio, para um sujeito que já venceu a morte

seguinte com a Exotic Tour, em países quando alguém fala que a gente precisa na forma de overdose, suicídio e câncer.

onde ainda não havia tocado. Andrew de uma música com a cara da banda, é o “É bom conseguir me expressar por can-

Fletcher não aguentou e pediu licença momento em que eu me preocupo. Daí, ções e assim me proteger. E o Depeche

da banda pouco antes dos shows no tento mudar um pouco minha voz e fa- Mode é minha maior proteção.”

Brasil, Gahan vivia seus dias de vício zer algo diferente. Sempre opto pela difi- JOSÉ JULIO DO ESPIRITO SANTO

Março, 2018 rollingstone.com.br | Rol l i ng S t on e Br a s i l | 9

ROCK&ROLL
MÚSICA
Sempre para a Frente
Alex Kapranos, vocalista do Franz Ferdinand, fala sobre o retorno da banda e de mudanças recentes

A té este momento, o mais re-
cente álbum do Franz Ferdi-
nand havia sido Right Though-
ts, Right Words, Right Action, em 2013.

Depois de lançarem em 2017 um proje-

to com a dupla Sparks, chamado FFS,

a banda escocesa agora volta de verda-

de com Always Ascending (2018). No

meio do caminho, os músicos tiveram

que lidar com a saída, em 2016, do gui-

tarrista e tecladista, Nick McCarthy.

Mas segundo o líder e vocalista, Alex CARA ROBBINS/ DIVULGAÇÃO (FRANZ FERDINAND); CORTESIA DE WARNER BROS. PICTURE (ALICIA VIKANDER); TODD WILLIAMSON/INVISION FOR W HOTEL WORLDWIDE/AP IMAGES (JUNKIE XL)

Kapranos, isso não foi tão complica-

do assim. “Até que foi fácil assimilar a

saída dele”, fala o cantor. “Nick queria

ficar mais tempo com a fa-

mília dele e também tinha AGORA CINCO astro na Escócia. Toca igual ao Cassius, também mudou, e para a melhor.
outros projetos paralelos. O Franz
Respeitamos muito as es- Ferdinand hoje:
colhas dele e desejamos boa Dino Bardot,
sorte.” Para suprir a falta de Julian Corrie,
McCarthy, a banda passou a Alex Kapranos,
usar o guitarrista Dino Bar- Paul Thomson e
dot e o multi-instrumentis- Bob Hardy (da
esq. para a dir.)

ta Julian Corrie. Kapranos Prince – isso era algo que sem- O Franz Ferdinand já passou dos 15 anos

conta que as contribuições dele torna- pre queríamos”, fala. de existência e Kapranos reflete sobre o

ram-se imprescindíveis. “Dino está com Sobre o disco, revela que o título, papel do grupo no universo do rock. “Não

a gente desde o ano passado e foi muito Always Ascending (algo como “sempre sou crítico musical ou jornalista. Mas, na

importante na elaboração das canções evoluindo”), tem a ver com a filosofia que minha opinião, o Franz é a banda mais

do novo disco. Nós sempre quisemos ser sempre seguiram: “Nós não somos nada importante desta geração”, ele brinca.

uma banda dançante e ele nos ajudou nostálgicos. Cada dia é diferente e nunca “Nós excursionamos com o Albert Ham-

com os timbres e com o ritmo.” Segundo ficamos na mesma”. Ele acrescenta que o mond Jr. (guitarrista do Strokes), e ele me

o cantor, a presença de Corrie também estilo da produção, que agora ficou a car- falou: ‘Bem, pelo menos essa nossa turma

se tornou fundamental. “Ele já era um go de Philippe Zdar, da dupla francesa fez algum barulho’.’’ PAULO CAVALCANTI

TRILHA Novos Desafios Sonoros

O escore de Tomb Raider – A Origem mudará para acompanhar Lara Croft

CARA NOVA A personagem Lara Croft, Holkenborg, mais conhecido evolução.” Junkie conta
Alicia como Lara Croft. surgida originalmente no nome pelo artístico Junkie que o filme é o retrato do
(No destaque) Junkie XL, videogame Tomb Raider, XL. O produtor e compositor crescimento da icônica
criador da trilha reaparecerá este mês nos holandês confessa que a personagem. “Assim como
princípio sentiu o peso da a nova Lara que vai surgir
cinemas do mundo todo. responsabilidade: “Esta na tela, a música é mais
Só que agora, no lugar é uma franquia muito moderna, com diferentes
de Angelina Jolie, grande. Assim, é sempre matizes”, fala. Também
ela é encarnada meio assustador criar algo acrescenta que trabalhou
pela sueca diferente”, diz. Mas aceitou intimamente com o diretor
Alicia Vikander. o desafio. “Os tempos são Roar Uthaug. “Ele tocou em
O escore do outros. O novo filme não uma banda de metal. Sugeriu
aguardado tem nada a ver com aqueles muitas coisas interessantes
Tomb Raider que foram feitos antes. A e também me deu total
– A Origem é música que criei segue essa liberdade criativa”, conclui. P.C.
assinado por Tom

10 | R o l l i n g S t o n e B r a s i l | rollingstone.com.br Março, 2018



ROCK&ROLL QUADRINHOS

Entre Palcos e Prisões
HQ jornalística conta história real de músico preso por dar o “golpe do cartão de crédito”

mentos de seu protagonista, seja então

em um passado distante, atuando como

jornalista na cobertura de shows daquele

que viria a ser seu personagem. No início

do quadrinho, por exemplo, dentro de

um quarto de hotel na Avenida Paulista,

em São Paulo, o autor ouve da fonte, fo-

ragida da Justiça na

época, como Raul

é o nome dado aos

responsáveis por

crimes envolvendo

cartões de crédito.

As obras de De

Maio são algumas

das principais repre-

sentantes no Brasil

do jornalismo em

quadrinhos, que tem

o maltês-americano

Joe Sacco como figu-

ra-chave. Com tra-

A carreira musical de sucesso balhos assinados em
do protagonista da HQ Raul é
deixada de lado quando os ga- parceria com o escri-
nhos crescentes do artista com shows,
discos e clipes mostram-se abaixo do tor Ferréz e coautor
retorno obtido por ele dando o “golpe do
cartão de crédito”. A trama do primeiro de obras premiadas
álbum solo do quadrinista e jornalista
Alexandre De Maio soa como ficção, de jornalismo investi-
mas é baseada em uma história real.
Sem nunca revelar o nome verdadeiro QUADRINHOS VERÍDICOS gativo em formato de
de seu protagonista, o autor cria uma (Acima) Algumas páginas da HQ Raul, de HQ, De Maio está ha-
reportagem de 180 páginas em formato Alexandre De Maio; (ao lado) a capa do bituado a narrar his-
de quadrinhos sobre a vida de um jo- álbum, que conta uma história real tórias reais por meio
vem criado na Baixada do Glicério, no
centro de São Paulo, com talentos equi- dessa linguagem.
paráveis tanto para a música quanto
para os crimes bancários. fazer o livro enquanto via fotos dele no Segundo o quadrinista, assim como

O preto e branco e as formas carica- Instagram em Cancún, logo depois de em suas obras prévias, em Raul ele fez
tas da arte de De Maio fazem um con-
traponto ao conteúdo factual da HQ. ter conversado com ele, pelo Facebook, uso das mesmas técnicas esperadas de
São mostradas as várias passagens do
personagem principal por prisões du- enquanto ainda estava preso em uma qualquer matéria jornalística: entrevis-
rante diversos momentos de sua vida,
as múltiplas técnicas possíveis para cadeia em Brasília”, conta o autor. tas, apurações, checagens, transcrições
um golpe envolvendo o uso de cartões
dentro de uma agência bancária, o des- De acordo com o quadrinista, ele e, só depois, a construção do roteiro e
pertar da carreira musical do rapper e
seu posterior retorno ao crime. “Resolvi das ilustrações.

Sem relevar o nome verdadeiro O autor diz que sua maior dificuldade
de seu protagonista, o autor nessa estreia solo foi administrar a ob-
cria uma reportagem com
todo o cuidado jornalístico, jetividade jornalística de seu trabalho
mas em linguagem de HQ com a proximidade que desenvolveu
com a fonte que viria a ser o protagonis-

ta. “Quanto mais próximo você é de uma

acompanha a vida de seu protagonista há fonte, mais difícil é manter a objetivida-

mais de dez anos e passou todo esse perío- de, porém quanto mais próximo você é

do construindo uma relação de confiança de uma fonte, mais informações exclu-

que permitisse a apresentação da história sivas você consegue. É uma linha tênue DIVULGAÇÃO

que chega às livrarias. Ao longo da obra, em que você tem que andar para chegar

o próprio De Maio aparece mais de uma próximo de um fato novo. Jornalismo é

vez, seja no presente, colhendo os depoi- lidar com isso diariamente.” RAMON VITRAL

12 | R ol l i n g S t o n e Br a s i l | rollingstone.com.br Março, 2018

MÚSICA

O dPoauRlainpho

PÓS-GOOD
VIBES

O Rashid de
2018 é um

homem mudado

Rashid tenta superar a imagem de “bonzinho” enquanto se adapta ao atual mercado musical

F alar que ninguém mais ouve ra Diss”, por exemplo, ele se colocou como gostei de trabalhar temas específicos.
álbuns inteiros hoje em dia é gastar alvo das próprias críticas. “Uma coisa é o
uma máxima repetida à exaustão. Nas e o Jay-Z brigando para ver quem é Agora, fui mais eu. Nunca fui tanto eu.
Quando começou a pensar no sucessor o melhor MC, mas, quando isso vira um
de A Coragem da Luz (2016), Rashid, no mercado, foge totalmente da essência da Me coloquei de verdade, dei a cara a tapa.”
entanto, levou a reflexão a sério: lançou competição do rap”, reflete, endereçando
as faixas separadamente, como singles, o excesso de conflitos recentes no hip- Apesar de ter descoberto uma maneira
acompanhadas de clipe, durante todo o -hop nacional. A canção foi inspirada em
ano passado. Só no começo de 2018 ele comentários negativos no YouTube. “Pen- sólida de se relacionar com o mercado,
soltou Crise, o LP cujo show de lança- sei: quando ouvirem isso da minha boca,
mento acontece em 30 de março, em São Rashid não quer cair no erro de trans-
Paulo, e que reúne as canções de 2017, so- “Fui construindo a parada quietinho
madas a mais duas inéditas. “Vou falar a e cheguei ao lugar aonde os caras formar a novidade em fórmula gasta. Por
verdade: de números, foi o melhor projeto que estão sempre sob os holofotes
que já fiz”, assume o rapper paulistano. também chegaram”, diz Rashid isso, tem uma única certeza para 2018:
“O que é muito foda, porque completei 10
anos de carreira em 2017.” Rashid fez al- vão ver o tamanho dos absurdos que estão “Não vou fazer isso”. Depois de um ano
guns cálculos. “No ACL, algumas músicas falando.” Na onda da autocrítica, Rashid
despontaram na frente e outras ficaram surgiu mais agressivo. “De certa forma, atarefado, ele deve, sim, focar na agenda
ali na média. Já no Crise, como fomos sol- o ACL tinha muito do ‘rapper bonzinho’,
tando single a single, todas elas andaram e acho que foi uma figura que eu ajudei de shows e gozar de um novo status no
muito bem. Quando o disco saiu, já tinha a construir. E agora não é mais o Rashid
mais de 25 milhões de views. Valeu muito ‘good vibes’”, confessa. Crise, de fato, é re- hip-hop nacional. Como na faixa “Pés na
a pena, os números subiram muito.” cheado de “timbres mais modernos, bati-
das mais pesadas e cheias de grave” (“Mu- Areia”, ele rima: “Me compararam com
Rashid foi criativo na hora de entender sashi” e “Estereótipo” são exemplos). “Eu
o mercado, só que também esteve mais ficava flutuando em uma filosofia, sempre Paulinho, gostei vagabundo/ Cheguei
afiado com a caneta na mão. Em “Primei-
quietinho e hoje tô com os melhores do

mundo”, citando o jogador do Barcelona

que é subestimado por estar cercado de

nomes mais “badalados”, como Neymar

e Philippe Coutinho, na seleção brasilei-

ra. “Fui construindo a parada quietinho e

TIAGO ROCHA/ DIVULGAÇÃO cheguei ao lugar aonde os caras que estão

sempre sob os holofotes também chega-

ram. É sobre ter construído a imagem do

cara bonzinho, comendo quieto e, de re-

pente, quando você olha bem, tem a mes-

ma capacidade, o mesmo talento. Precisa-

va demonstrar isso.” LUCAS BRÊDA

Março, 2018 rollingstone.com.br | R ol l i ng S t on e Br a s i l | 13

ROCK&ROLL
GAMES
Domínio Mundial
Dois jogos com DNA brasileiro chegam ao Nintendo Switch, que não é vendido no país

Odesenvolvimento de bons
games por estúdios indepen-
dentes já é realidade faz tempo,
mas recentemente eles têm conquista-

do cada vez mais território no cenário

mundial. Dois jogos feitos por brasi-

leiros, Dandara e Celeste, chegam este

mês para Switch – ainda que o console

da Nintendo nem seja vendido oficial-

mente no país.

Dandara foi 100% feito no Brasil,

mais especificamente pelos mineiros

da empresa Long Hat House, e isso é

bem aparente. Há referências a Tarsila

do Amaral, grafites de Belo Horizonte,

diversos elementos visuais da realidade

brasileira e a trama consiste em lutar

contra um regime opressor e ditatorial ONTEM E HOJE A mudança de ati-
que quer acabar com os artistas. Além (Acima) O jogo brasileiro Dandara traz tude da Nintendo
um universo cheio de opressão que a
disso, a protagonista é uma referên- heroína precisa salvar; (ao lado) Badeline, ganhou até nome:
cia à esposa de Zumbi dos Palmares, uma das personagens de Celeste (abaixo) Nindies, que é
Dandara dos Palmares, como a empresa

figura também impor- promove os títulos na

tante na história da luta loja virtual do Switch.

contra a escravidão, mas Mas essa aproximação

que é pouco conhecida. deixa ainda mais percep-

Já Celeste é um jogo tível o fato de que a empre-

bem menos brasileiro. sa está em falta com o merca-

A equipe que o criou é do brasileiro. “Pegamos os

liderada pelo canadense dev kits [versões do console

Matt Thorson e a histó- usadas para desenvolver jo-

ria é ambientada na gé- gos] em São Francisco quan-

lida e fictícia montanha do fomos à GDC [Game De-

que dá nome ao jogo e velopers Conference, em São

que seria localizada no Francisco, na Califórnia] e

Canadá. Porém, toda a trouxemos na mala”, conta

arte dele foi assinada pe- “Quando era pequeno, jogava Super Nintendo e dizia que João Brant, um dos dois ga-
lo estúdio nacional Mi- queria fazer jogos. Agora eu fiz um para o tataraneto do me designers fundadores da
niBoss. Os cofundadores Super Nintendo”, comemora um dos desenvolvedores Long Hat House, explicando
Pedro Santo e Amora Be- como teve a oportunidade de

ttany não só fizeram as desenvolver para o console.

ilustrações e todos os elementos visuais levaram os jogos com DNA brasileiro Ambos os títulos têm recebido boas

de Celeste como influenciaram muito justamente ao Switch, o console da críticas no mundo todo, além de reco-

em seu conteúdo, que aborda assuntos Nintendo que é um estrondoso suces- nhecimento por parte dos conterrâ-

como saúde mental, depressão e ansie- so no mundo todo, mas não tem dis- neos: o Brasil é o país que mais compra

dade. “Eu conversei muito com o Matt tribuição oficial no país. Isso torna-se Dandara. Para Pedro, isso se dá porque

sobre isso durante o desenvolvimento, mais curioso ainda se lembrarmos que o nome Nintendo tem um peso muito DIVULGAÇÃO; REPRODUÇÃO

sobre minhas experiências com isso”, o espaço para jogos independentes grande para quem cresceu jogando nos

lembra Amora. nas plataformas da Nintendo sempre anos 1980 e 1990. “Quando eu era pe-

A participação mais ativa de de- foi pequeno. “Eu não sei o que aconte- queno, jogava Super Nintendo e dizia

senvolvedores brasileiros no mercado ceu lá dentro [da Nintendo], mas eles que queria fazer jogos. Agora, fiz um

internacional vem crescendo na úl- mudaram completamente o jeito que para o tataraneto do Super Nintendo.”

tima década, mas Dandara e Celeste olham pros indies”, enfatizou Amora. GUS LANZETTA

14 | R o l l i n g S t o n e B r a s i l | rollingstone.com.br Março, 2018



ROCK&ROLL FÃS MÃO
MÚSICA NA MASSA

Resgate Oportuno Clube Big Beatles faz covers do
Fab Four sem cair na mesmice
O legado do trio Os Tincoãs é celebrado em livro retrospectivo
Os Beatles influenciaram (e continuam
A conexão en- PRECIOSIDADES influenciando) uma legião de artistas ULISSES DUMAS/ DIVULGAÇÃO (MATEUS ALELUIA); STUART HOMER/ DIVULGAÇÃO (CLUBE BIG BEATLES); REPRODUÇÃO
tre os sons da Mateus Aleluia, dos mais diversos campos culturais e em
Bahia e a batida em foto recente, qualquer parte do planeta. Isso é um fato
primal da África che- orgulhoso do incontestável. Mas existem níveis e níveis
gou ao público graças legado dos de influência e há quem vá muito além
ao trabalho dos músicos Tincoãs. O livro do simples “se inspirar” no Fab Four e se
do trio Os Tincoãs. A Nós, Os Tincoãs dedique de corpo e alma à reprodução
história deles é interes- resgata os e releitura das composições do grupo
sante. Os artistas come- principais álbuns britânico. É o caso da banda brasileira Clube
çaram no fim dos anos da banda Big Beatles. Formada em 1990, na cidade
1950 cantando bolero. de Vitória, no Espírito Santo, ela se destaca
Mas no final da década dos Tincoãs: “Unimos o que veio do uni- dos muitos outros covers de Beatles pelo
seguinte, quando en- verso africano e juntamos às coisas da alcance que teve: já se apresentou várias
trou em cena o cantor e Bahia, como o candomblé e os cantos vezes na Inglaterra, inclusive no icônico
compositor Mateus Ale- ancestrais. Também demos um toque Cavern Club, onde os ídolos começaram,
luia, tudo mudou. Sob barroco a todo esse som”. Badu, que en- durante o renomado festival Beatleweek,
inspiração dele, a partir trou no Tincoãs em 1975, há muito tem- além de já ter garantido um lugar no Hall of
dos anos 1970, aprimo- po vive nas Ilhas Canárias. Ele esteve Fame de Liverpool, em 2008.
raram a mistura Brasil/ no Brasil especialmente para participar
África. Os álbuns que do lançamento do material e conta que Guto Ferrari, Junior Curcio, Marcio Yguer, Mark
lançaram décadas atrás a emoção é tremenda. “Depois de 30 Fernandez e Edu Henning: Clube Big Beatles
seguem redescobertos anos longe, me deparar com isto é algo Mais do que o reconhecimento
e cultuados. Agora, a que me deixa sem palavras”, diz. “Nossa internacional, o Clube acredita que sai na
Natura Musical home- música, naquela época, ainda não era frente pelo fato de não querer “se parecer”
nageia o trio com um livro de me- compreendida”, comenta. “Eu mesmo com John Lennon, Paul McCartney, Ringo
mórias. Na obra estão encartados tive que me aplicar muito para poder to- Starr e George Harrison (até porque o CBB
os discos fundamentais que lan- car aqueles sons complexos e diferentes. é formado por cinco integrantes). De acordo
çaram: Os Tincoãs (1973), O Afri- Agora, vejo que o que fazíamos era algo com Eduardo Henning, fundador do grupo,
canto dos Tincoãs (1975) e Os Tin- espetacular e fantástico. E o melhor é “tocamos Beatles da nossa maneira, com as
coãs (1977). A obra tem fotos raras, que ficou para o futuro”, completa. nossas influências, com estilo próprio e com
análises, reportagens de arquivo, muita interferência da música brasileira”.
biografia dos seus integrantes e PAULO CAVALCANTI A criatividade dos integrantes não para
depoimentos de personalidades, como o nas reinterpretações das canções: há dez
radialista Adelzon Alves, que produziu anos eles apresentam o projeto Sócio
o grupo. Artistas que foram influencia- de Carteirinha do Clube Big Beatles, que
dos pelo Tincoãs, como Martinho da consiste de apresentações em que a
Vila, Criolo, Emicida e o grupo instru- banda convida artistas de vários gêneros
mental Bixiga 70, também dão o seu pa- musicais para compartilhar a performance.
recer. Toda a celebração começou com O curioso é que quem escolhe o setlist é
um show comemorativo ocorrido no dia o próprio convidado, fator que, segundo
6 de dezembro de 2017, no Teatro Cas- Henning, permite que cada parceiro traga
tro Alves, em Salvador, que juntou os “sua memória afetiva e suas influências”
integrantes sobreviventes do trio com para as faixas, moldando cada cover ao
vários convidados, como Saulo e Mar- estilo dele. Na extensa e diversa lista de
gareth Menezes. Mateus Aleluia, hoje artistas que já dividiram o palco com o
com 73 anos, sempre foi considerado o CBB estão Supla, Ivan Lins, Ana Carolina,
cérebro da trupe e explica o motivo de Lucas Silveira (Fresno), Edgard Scandurra,
Os Tincoãs ainda seguirem com enorme Badauí e Japinha (CPM 22) e Negra Li.
apelo. “O ser humano surgiu na África, Para a temporada de 2018, estão
as células primárias de tudo o que acon- confirmadas as participações de Andreas
teceu no planeta vieram daquele conti- Kisser (Sepultura), Fernanda Takai (Pato Fu),
nente.” Ele fala dos elementos musicais Moska e Emmerson Nogueira. IGOR BRUNALDI

16 | R o l l i n g S t o n e B r a s i l | rollingstone.com.br Março, 2018



PR AGENDA CHEIA plesmente não tem mais na-
Byrne tem disco da novo a dizer, e eu penso:
O músico, que este mês novo que chega “Ok, voltar é só uma espécie
vem ao Brasil, conta de exercício de nostalgia”.
o motivo de recusar à estrada com Não estou interessado nisso.
uma reunião do Talking show elaborado
Heads Por Brian Hiatt Você foi um dos primei-
David Byrne ros alvos de debates so-
‘‘Meu agente de bre apropriação cultu-
turnês disse: ‘Acho “Voltar [com o Talking Heads] é só uma espécie de ral, especialmente com
que você está ten- exercício de nostalgia. Não estou interessado nisso” My Life in the Bush of
do um momento Leonard Ghosts (1981), que tinha
Cohen’”, conta David Byrne Para muitos artistas sim- quer. Se não discordam dele, samples de cantores li- JODY ROGAC
– antes de esclarecer, rindo, plesmente digo: “Você tem são tão racistas quanto. Não baneses e egípcios. Como
que a referência era relativa à que escrever sobre alguma podemos nos esquecer disso. vê tudo isso agora?
renovação da relevância e po- coisa que não seja sobre seu Como artista, pensei: “É uma
pularidade, não à morte que namorado ou sua namorada! Você disse uma vez que coisa rock and roll”, mas não
espreita. Neste mês, ele lan- O mundo é grande. Você não evitava uma reunião do vou sair e fingir que sou ne-
ça um poderoso novo álbum, tem mais 18 anos – consegue Talking Heads porque is- gro – você sabe de pessoas em
American Utopia (composto fazer isso!” [risos] so obscureceria as outras quem a apropriação parece
sobre bases sonoras criadas coisas que faz. É real- um pouco próxima demais,
por Brian Eno, seu colabo- Você acabou de fazer um mente tão simples assim? mais como uma imitação. O
rador de longa data), antes projeto multimídia, Re- Há muita coisa nisso. Vejo desafio seria eu conseguir pe-
de partir para a turnê mais asons to Be Cheerful, o que acontece com as ou- gar as ideias flutuando e colo-
elaborada desde os shows do em que encontrou moti- tras pessoas quando elas cá-las em uma atitude e um
Talking Heads eternizados vos para ficar otimista se reúnem – e como isso se corpo de um branco estranho.
no filme Stop Making Sense quanto ao mundo. O que transforma em uma segunda Só que ...the Bush of Ghosts é
(1984), com um setlist que co- deixa você pessimista? reunião e uma terceira reu- particularmente espinhoso.
bre sua carreira. “Temos seis O fato de o Partido Republi- nião. Com uma banda como Não é nem alguém apren-
bateristas e percussionistas”, cano não discordar de Do- o Pixies, é diferente – eles dendo o estilo de guitarra de
diz Byrne, de 65 anos, que nald Trump. Ele é um maldi- têm um público agora que outra cultura ou algo assim,
imagina um palco cheio de to racista e ninguém diz nada mereciam ter há anos. Mas a o que, na minha opinião, é
músicos fazendo movimentos e ele leva o partido para onde maioria desses artistas sim- totalmente legítimo. Neste
constantes e coreografados. álbum, você realmente ouve
“Os seres humanos se tornam as vozes de pessoas de outras
o cenário.” Byrne passará por culturas. Quando é a voz de
São Paulo, dentro da progra- alguém, uma parte de uma al-
mação do festival Lollapaloo- ma foi apropriada. Não estou
za, no dia 24. Antes, no dia 22, falando mal do meu próprio
ele se apresentará no Pepsi on disco, mas entendo por que
Stage (Porto Alegre). No dia pode dar essa impressão.
26, seguirá para Curitiba (Te- Você é fã de “Bad Liar”,
atro Positivo) e aí para o Rio de Selena Gomez, que
de Janeiro (Km de Vantagens tem um sample de “Psy-
Hall, em 28/3), antes de encer- cho Killer”. Fica chatea-
rar o giro pelo Brasil no dia 29 do de ouvir sua música
no Km de Vantagens Hall de tão descontextualizada?
Belo Horizonte. Não, nem um pouco. Ficaria
se alguém pegasse, digamos,
American Utopia é bem “This Must Be the Place”,
coeso e pop. Essa direção que é uma canção de amor
foi deliberada? muito pessoal – se alguém a
Fico à vontade com isso por- remodelasse e transformas-
que as letras estão muito se em uma coisa horrível e
distantes do que você escuta violenta, eu provavelmente
em uma canção pop normal. diria: “Não, você não tem
permissão para fazer isso”.
Não sendo esse o caso, tudo
bem, remodele. Não há pro-
blema. E, sabe, recebo por is-
so também. Então, obrigado,
Selena Gomez! [risos]

18 | R o l l i n g S t o n e B r a s i l | rollingstone.com.br Março, 2018



12

3 4

Sem Tiros CHRIS PIZZELLO/INVISION/AP (1 E 3); JORDAN STRAUSS/INVISION/AP (2 E 4); KGC-375/STAR MAX/IPX (ELIZABETH II E ANNA WINTOUR); DIVULGAÇÃO; REPRODUÇÃO
na Água

A Forma da Água dominou o Oscar e rendeu a Guillermo del Toro
(2) a primeira estatueta dele (Melhor Diretor), mas quem saiu
pronto para dar um passeio aquático foi o figurinista de Trama
Fantasma. Mark Bridges (1) recebeu de Helen Mirren o jet ski que
faturou por ter feito o discurso mais curto da noite. A Melhor Atriz,
Frances McDormand, comprovou que é a queridinha da temporada
e roubou a cena ao colocar o Oscar no chão e as mulheres indicadas
de pé para serem aplaudidas: foi a cara desta edição. Não deu para
o brasileiro Carlos Saldanha (4, com a esposa, Isabella Scarpa),
que concorria com a animação O Touro Ferdinando.

RAINHAS DO MAR
Regina Casé e

Camila Pitanga
celebraram o

Dia de Iemanjá
em Salvador

VIAJANTE OI, DOLLY REALEZA
Jaloo foi até Adele homenageou Dolly Parton A rainha da Inglaterra, Elizabeth II, e a rainha da
a Índia para não com uma cover, mas sim moda, a editora-chefe da Vogue, Anna Wintour,
gravar o novo com uma imagem no Instagram viram juntas o desfile do estilista britânico
clipe, “Say em que ela se veste como a Richard Quinn, em Londres.
Goodbye” cantora na era de “Jolene”:
“Queria ter 1% da sua habilidade” Março, 2018

20 | R ol l i n g S t on e Br a s i l | rollingstone.com.br

INSTAMANIA

O MÊS DAS CELEBRIDADES NO INSTAGRAM

Karol
Conka

E. RODRIGUEZ/GETTY IMAGES FOR DISNEY/ DIVULGAÇÃO (EMICIDA E MARINA SANTA HELENA); MATEUS SANTOS/ DIVULGAÇÃO (CLAUDIA RAIA); NICOLAS SALAZAR/ DIVULGAÇÃO (JORGE BEN JOR); DIVULGAÇÃO; REPRODUÇÃO BATUTINHAS @karolconka
O filme mais falado da atualidade é
Pantera Negra e vale tudo para conseguir “REC ‘Uuuhh’ #Ambulante (gravação
vê-lo. (Ao lado) Emicida e a esposa, definitiva do meu álbum).”
Marina Santa Helena, foram convidados
pela Disney para a pré-estreia e foram até
Los Angeles, mas estes garotos (acima)
ganharam o troféu de dedicação: usaram o
truque mais antigo do mundo para tentar
pagar apenas um ingresso na Califórnia.

Nyjah
Huston

TODOS ATENTOS SÓ SORRISOS @nyjah
Os comediantes Chris Rock, A atriz Claudia Raia deu
Amy Schumer e Tracy Morgan as caras no desfile da “Gravei uma ceninha com @therock para
estão vidrados, mas não é temporada outono/inverno Ballers hoje. Cara muito bacana! Da próxima
uma sessão de Pantera Negra, 2018 da Renner, em São Paulo vez temos que ensiná-lo a mandar um ollie.”
e sim um jogo de basquete do
Knicks, em Nova York Alexandre
Nero

CARNAHIPPIE @alexandrenero
O headliner Jorge Ben
Jor animou o festival “Com este Instagram repleto de charme,
de rock Psicodália, que beleza, alegria, simpatia e boas energias,
acontece anualmente no resolvi aparecer pra dar uma equilibrada.”
Carnaval, em uma fazenda
de Rio Negrinho (SC) rollingstone.com.br | R o l l i n g S t o n e B r a s i l | 21
Março, 2018





NUNCA NO
CONFORTO

Ícone do cinema e peça-chave do culto à década
de 1980, Steven Spielberg encara o desafio de ao
mesmo tempo voltar a um passado aconchegante e

encarar um futuro sombrio em Jogador Nº 1

POR STELLA RODRIGUES

24 | Rol l i ng S t on e Br a si l | rollingstone.com.br

DOIS MUNDOS
Wade Watts (Tye

Sheridan) sofre quando
tem que encarar o mundo

real, mas se dá bem
quando se torna Parzival,

dentro do OASIS

rollingstone.com.br | R ol l i n g S t on e Br a s i l | 25

JOGADOR NO 1
1

2

ara qualquer fã de en-

Ptretenimento, ter a opor- NA DUPLA ANTERIOR: JAAP BUITENDIJK/ CORTESIA DE WARNER BROS. NESTA PÁGINA: CORTESIA DE WARNER BROS. (1); JAAP BUITENDIJK/ CORTESIA DE WARNER BROS. (2)
tunidade de debater a
cultura pop dos anos
1980 com Steven Spiel-
berg é mais ou menos como um católico

poder conversar com Deus sobre a cria-

ção da Terra. Spielberg está impreg-

nado de forma irremediável no tecido

– colorido, possivelmente preenchido

por ombreiras – desta que atualmente é

a década mais celebrada em termos de

produção artística. Seja como

diretor – Os Caçadores da Ar-

ca Perdida (1981), E.T. – O Ex- VALE TUDO

traterrestre (1982) –, roteirista Os competidores (1) precisam neasta. Cline é excentricidade de Willy Wonka (A Fan-
– Os Goonies (1985) –, seja pro- encontrar os tesouros uma dessas pes- tástica Fábrica de Chocolate), ele deixa
dutor – De Volta Para o Futuro escondidos no jogo antes sua fortuna para o primeiro que achar
(1985) –, ele deixou uma marca do vilão, Nolan Sorrento os tesouros que escondeu no OASIS. É
indelével naquela era. Apesar (2, no centro), interpretado dada a largada para uma corrida malu-
por Ben Mendelsohn ca através da qual conhecemos melhor
o jovem herói Wade Watts/Parzival (Tye
de essa palavra andar bastan- soas. Na trama, Sheridan) e seus quatro coprotagonis-
tas, Samantha/Art3mis (Olivia Cook),
te surrada, neste caso não é exagero estamos em 2044, em um mundo em Aech (Lena Waithe), Daito (Win Mo-
risaki) e Shoto (Philip Zhao). Além de
algum cravar que se trata de um gênio. frangalhos, sem as necessidades bási- enfrentarem uns aos outros, eles terão
que superar o vilão, Nolan Sorrento
Corta para fevereiro de 2018 e para o cas. As pessoas vivem uma vida sofrida, (Ben Mendelsohn), que quer o controle
do OASIS para si, ou melhor, para a em-
senhor gentil, humilde e brincalhão que da qual só conseguem escapar com a presa que representa, a multinacional
Innovative Online Industries (IOI).
está sentado diante de jornalistas em ajuda do OASIS, um universo de rea-
Antes mesmo de o livro estar termi-
uma sala de reuniões dos estúdios da lidade virtual complexo criado por Ja- nado, os direitos para transformá-lo
em um filme já tinham sido comprados
Warner Bros., em Burbank, na Califór- mes Halliday (Mark Rylance). Dentro e Spielberg – cuja obra é referenciada e
reverenciada intensamente em toda a
nia. Não são nem 9h e ele, com 71 anos do OASIS, eles viram jogadores e vivem história – estava escalado para dirigir.
“Enquanto estava lendo destacando par-
e provavelmente o nome mais conheci- uma existência totalmente diferente. O

do do cinema mundial, já estava ali há sujeito pode ser um coitado na vida real,

algumas horas gravando material pro- mas um herói dentro do jogo, no qual

mocional para Jogador Nº 1, que chega enfrenta desafios do tipo reviver os obs-

aos cinemas em 29 de março e é ao mes- táculos encarados pelos protagonistas

mo tempo sua mais nova empreitada e de Curtindo a Vida Adoidado (1986) ou

uma das mais dedicadas homenagens a Blade Runner – O Caçador de Androides

Spielberg de que se tem notícia. O filme, (1982), por exemplo. Quando Halliday

baseado no livro de mesmo nome escrito morre, em uma sacada que aperfeiçoa a

por Ernest Cline, é uma carta de amor à www.rollingstone.com.br
infância de todo mundo que cresceu jo- Leia as entrevistas com o elenco e o
gando em arcades e se deliciando com papo completo com Spielberg.
a ternura dos filmes assinados pelo ci-

26 | R ol l i n g S t o n e Br a s i l | rollingstone.com.br Março, 2018

tes do texto, dizia constantemente DE OLHO sas sequências do livro foram eli-
‘Eu não posso fazer isso, isso tam- EM TUDO minadas na adaptação e, mais do
bém não, não posso fazer aquelas Steven que isso, ele precisava selecionar
quatro coisas da página 130, nem Spielberg no a música oitentista que melhor
da página 325’”, ri Spielberg, lem- set de Jogador contaria a história. Para isso,
brando como tramou a adaptação Nº 1 adotou uma estratégia interes-
da obra e o cuidado que teve para sante. “Deixei a cargo da minha
não ser muito autorreferente. “Em equipe de edição, mais especifica-
um certo momento, pensei: ‘Tal- mente Michael Kahn, que é meu
vez outra pessoa devesse fazer esse editor de longa data e tem feito
filme, porque aí vai ter muito mais tudo desde Contatos Imediatos
a minha presença nele do que se eu do Terceiro Grau (1977), e Sarah
dirigi-lo”, brinca. Broshar, que tem trabalhado co-
nosco desde As Aventuras de Tin-
A verdade é que não teria nin- tim (2011) – eles que escolheram,
guém mais perfeito para fazer es- mas com a colaboração do Ernie
se longa. Não só pela intimidade Cline. Ernie ficava mandando
com o tópico mas também devido sugestões de faixas por meio de
aos desafios técnicos que ele im- Zak Penn, que escreveu o roteiro.
pôs. Algumas tecnologias de CGI Eles separavam as músicas e me
chegaram a ser integralmente mostravam, dando opiniões so-
inventadas nos bastidores só pa- bre cada uma. Estava muito inte-
ra conseguir traduzir fielmente ressado em saber a opinião deles,
a visão que o diretor tinha para porque a Sarah é bem jovem, tem
certas cenas. O cineasta afirma 30 e poucos anos. Mike tem 85 e
que esse foi um dos três trabalhos eu fiz 71. A Sarah fazia escolhas
mais complicados que fez na vi- baseadas em músicas de que ela
da (“Nem eu sei explicar direito o gostava, mas ela não estava fami-
motivo, já tentei e sempre me en-

“Quando li o livro, pensei que essa e uma
realidade alternativa que nao esta tao

distante. Voce quase se sente mais confortavel
no outro mundo, e ate se decepciona um pouco
quando volta para o seu lugar”,
diz Spielberg

JAAP BUITENDIJK/ CORTESIA DE WARNER BROS. rolo. Não consigo colocar em palavras, diferente, ou gênero, ou personagem. liarizada com nada. Eu e Mike conhe-
mas foi muito difícil”). “Me comprometi Dá para viver 20 horas por dia, durante cíamos todas as músicas, mas a Sarah
a fazer Jogador Nº 1 há três anos. Fazia os sete dias da semana, em outra vida, ia só no que soava melhor.”
muito, muito tempo que eu não demo- em um universo paralelo de nossa pró-
rava três anos para concluir um filme. pria criação. Quando li o livro do Ernest Nessa mistura fantástica entre passa-
Muito desse tempo inicial foi gasto pa- pela primeira vez, pensei que essa é uma do idílico e futuro distópico, não há co-
ra conseguirmos fazer certo. Um mês realidade alternativa que não está tão mo não refletir sobre a natureza invaria-
atrás, ainda estávamos negociando al- distante do que estamos vivendo com a velmente doce das memórias que temos
guns “easter eggs” que inserimos no ce- realidade virtual”, explica. “Você quase de três décadas atrás e a perspectiva
nário. Conseguimos a cooperação de por se sente mais confortável no outro mun- cinza que o cinema dos últimos tempos
volta de 80% dos detentores dos direitos, do, e até se decepciona um pouco quan- apresentou em relação à realidade que
só não tivemos sucesso com a Walt Dis- do volta para o seu lugar. E, no mais, eu viveremos, neste caso, para daqui a me-
ney Company. Não conseguimos colocar acho que essa é uma enorme história de nos de três décadas. “Eu sou otimista
nada do Star Wars”, lamenta. aventura, mas também um alerta sobre em relação à nossa realidade e ao nosso
quanto tempo nós realmente devemos futuro”, afirma Spielberg, contrariando
“O que me cativou foi a história de passar longe daqueles que amamos e de o que ele desenhou nas cenas do longa.
dois mundos”, argumenta Spielberg pa- nossas responsabilidades.” “Este filme não necessariamente repre-
ra justificar por que, no fim das contas, senta aquilo em que acredito, o que acho
não poderia abrir mão do projeto. “O fa- Dada a amplitude do playground que que o futuro será. Como era para ser um
to de você poder criar ‘outro você’ e viver tinha onde brincar, Spielberg teve que faz de conta, eu fiz de conta junto a todo
na pele de uma espécie completamente fazer escolhas, muitas escolhas. Diver- mundo.”

Março, 2018 rollingstone.com.br | R o l l i n g S t o n e B r a s i l | 27

28 | R ol l i n g S t o n e Br a s i l | rollingstone.com.br Março, 2018

CLOSE-UP

De Volta à Batida

KL Jay, do Racionais MC’s, retorna ao
estúdio para lançar o segundo disco solo

Um dos maiores djs do brasil de to- do Racionais, Sobrevivendo no Inferno
dos os tempos, KL Jay começou a to- (1997) e Nada como Um Dia Após o Outro
car marcando os vinis com durex, nos Dia (2002). “Eu ainda não tinha me desco-

anos 1980, quando a cultura hip-hop ainda berto 100% como DJ, era mais novo. Ego,

não era vastamente conhecida nem mesmo né, mano? Queria mostrar que também

nos Estados Unidos. Na década seguinte, já era produtor.”

como comandante das picapes do maior gru- O Vol. 2, com a alcunha No Quarto Sozi-

po de rap brasileiro, o Racionais MC’s, foi um nho, vem em tempos mais tranquilos, com

dos primeiros a produzir mixtapes caseiras. o Racionais em hiato e as faixas sendo de-

“Eu e o outro DJ, o Fresh, gravávamos as fi- senvolvidas há mais de cinco anos. Como

tas em casa para vender no baile”, recorda. de costume, o álbum traz diversos MCs e

“Era meia hora cada um, eu fazia a parte de produtores convidados – Kamau, Rincon

R&B e ele a de rap. A capa era Sapiência, Edi Rock e MC
à mão.” Kleber Simões, con- Dezessete anos mais Guimê são alguns –, e a
tudo, nunca foi muito fã do maduro, KL Jay lança um sonoridade, em geral, é uma
estúdio. “Vou pra lá e durmo. trabalho que considera espécie de atualização do
Demora pra caralho. Fico no “mais mente aberta” estilo de fazer rap nos anos

celular, querendo ir embora. 1990: samples finamente re-

Não tenho essa veia”, confessa. “Fazer músi- mixados, de Gil Scott-Heron, Donald Byrd

ca é assim: quando você vê, já passou quatro ou Curtis Mayfield, por exemplo, com bati-

horas! Não tenho paciência. Agora, quando das e vozes inspiradas em sons como os de

você vê o resultado pronto, é: ‘Caralho!’” Anti (2016), de Rihanna, do qual ele é fã,

KL Jay lança neste mês de março o se- e até com um surpreendente house. “Acho

gundo disco da carreira solo, Na Batida que [agora] tem mais do KL Jay”, comenta.

Vol. 2, que chega 17 anos depois do ante- “O Vol. 3 é um bom disco, mas é mais fecha-

cessor, chamado Vol. 3 (2001). “Fumei um do, egoísta, com a mesma batida, os mes-

monte de maconha, fiz umas músicas lou- mos timbres. Este não, é totalmente dife-

co [naquela época]. É um disco bom, que rente. Tem mais alma, mas continua sendo

marcou e toca até hoje”, recorda do traba- agressivo, com pegada. Só que agora é mais

lho, lançado entre os dois maiores álbuns livre, mais mente aberta.” LUCAS BRÊDA

LAIZ AMARANTE/ DIVULGAÇÃO

Março, 2018 rollingstone.com.br | R o l l i n g S t o n e B r a s i l | 29

MULHERES SUPER

30 | R ol l i n g S t on e Br a s i l | rollingstone.com.br

PRESTES A ESTREAR SUA QUARTA
TEMPORADA, A SÉRIE O NEGÓCIO,

P O D E R O S A S DAHBO,FOIUMADASPIONEIRAS
EM EXPLORAR AS NUANCES DO
POR ROBERTO LARROUDE EMPODERAMENTO FEMININO
rollingstone.com.br | R o l l i n g S t o n e B r a s i l | 31

ESPECIAL O NEGÓCIO
SÉRIES
NACIONAIS

prostituição pode ser considerada a profissão mais antiga do mundo, mas isso
não significa que ela precise ser a mais antiquada. Esse é o ponto de partida da série O
Negócio, cuja quarta e última temporada estreia no dia 18 de março na HBO. A história
começou, em 2013, com três garotas de programa de São Paulo que passam a aplicar con-
ceitos teóricos de marketing para modernizar a própria área de atuação profissional – e

são muito bem-sucedidas. Elas se destacam no mercado e, já a partir da segunda tempo-
rada, a Oceano Azul, empresa fundada pela protagonista Karin (interpretada por Rafaela
Mandelli) cresce de forma descomunal, a ponto de licenciar produtos e serviços e abrir
capital na Bolsa de Valores de São Paulo. Um legítimo “case de sucesso”, como se diz nesse
mundo. Mas quanto maior o tamanho do negócio maiores os riscos e os questionamen-

tos pessoais de cada uma das moças (três, inicialmente, mas quatro, a partir do terceiro
ano) sobre o que querem da vida. Na temporada passada, a decidida Karin, a sonhadora
Luna (Juliana Schalch), a divertida Magali (Michelle Batista) e a novata Mia (Aline
Jones) colocaram as engrenagens para girar em um plano para construir um prédio
dedicado ao sexo. Para onde esse business poderá crescer além disso?

O sucesso do negócio iniciado por Ka- que tem uma irmã gêmea chamada Gi- a minha feminilidade. Acho isso uma

rin corre em paralelo com o sucesso de O selle: “Ela sempre me liga contando que grande qualidade e um dos principais

Negócio. Sucesso, esse, que fez com que a agradeceu vários elogios na rua. Diz que motivos do sucesso”, teoriza a intérprete

atração chegasse e florescesse no merca- quando dá tempo ela explica; quando não de Luna, cuja voz aveludada é responsá-

do internacional, a ponto de a quarta leva dá, só agradece [risos]”. vel pela narração em off nos episódios,

de episódios da produção da HBO, criada Juliana Schalch acredita que o suces- recurso que ela adora: “Você está falando

por Luca Paiva Mello e Rodrigo Castilho so também tem a ver com a construção diretamente com o espectador e, de uma

com direção geral de Michel Tikhomiroff das personagens. “Elas têm trajetória certa maneira, mostra o ponto de vista do

e dirigida por Julia Jordão, estreasse si- pessoal muito forte e não seguem regras, seu personagem. Em alguns momentos é

multaneamente em 50 países. “Fizemos não são submissas e não querem viver apenas uma narração, em outros a emo-

o lançamento das temporadas anteriores sob uma hierarquia ditada por algum ção da Luna está mais envolvida. Como

no México, na Argentina, em vários lu- homem”, diz. “As questões abordadas me atriz, foi uma escola”.

gares. E a receptividade era imensa, eles envolveram como mulher e mudaram Com o empoderamento feminino em

amam a série! Nunca imaginei que meu até a maneira como lido com sexo, com voga, lançar uma série com protagonistas

trabalho chegaria a tantos mulheres (extremamente

lugares”, conta Rafaela. O Que Vem por Aí seguras de si e sem cons-
Aline lembra que recebeu trangimentos em relação à
mensagens pelas redes so- própria sexualidade) esta-

ciais de pessoas querendo O QUE: quarta temporada de O Negócio ria em sintonia com o atual
imitar o “business plan” momento da sociedade.

da Oceano Azul: “Os fãs QUANDO: domingos, às 21h, na HBO Mas O Negócio já falava dis-
são muito calorosos, mui- so “cinco anos atrás”, lembra

to passionais. Cheguei a Karin vai lançar um livro se casar, mas um amigo golpista Michelle, “quando o assunto
receber uma mensagem revelando sua surpreendente dele (interpretado por Rodrigo não estava no auge. E tem
história de sucesso. Mas antes que Pandolfo) reaparece com uma
em espanhol falando so- isso aconteça as quatro precisam proposta que pode atrapalhar tudo a ver com as mulheres NA DUPLA ANTERIOR: JOSÉ LUIS BENEYTO/DIVULGAÇÃO
bre fazer um prédio como contar para seus respectivos os planos. Enquanto isso, um que são independentes, que
o da série e não entendi se pais, dotados de diferentes velho amor de Luna volta à cena. fazem o que querem e têm o
precisam de dicas de enge- graus de conservadorismo e Já Magali, que desde a terceira direito e o orgulho de esco-

nharia civil ou indicação hipocrisia, a verdade sobre temporada está com o coração lher o que fazer com seu cor-
com o que trabalham. Fora confuso, continua a relação com
de construtora”, ri. “Por do âmbito familiar, também Sabrina (Gabriela Cerqueira), mas po”, brada. “Quando grava-
mais que acreditássemos não está fácil divulgar o livro e ainda sente falta do Zanini (Kauê mos a primeira temporada,
no projeto e torcêssemos, a todas as informações chocantes Telloli). Mia mantém contato com em meados de 2012, acho
gente nunca imaginou que contidas nele. Em meio a críticas o bilionário Giancarlo (Raffaele que já existia uma fagulha
negativas, Karin acaba em um Casuccio), mas ele gosta de viver
iria tão longe e viraria um programa de entrevistas com em um limite que ela não quer disso, e uma série com três
produto de exportação que o personagem de Eduardo ultrapassar. Por fim, Ariel tenta garotas de programa de lu-
leva o nome do Brasil para Moscovis, um homem por quem ajudar seu “filho” Eric (João xo como protagonistas era
tantos países”, complemen- ela não imaginaria se interessar. Côrtez), que está com depressão, uma aposta para a TV a ca-

ta Michelle. Ela também Luna e o namorado de longa mas utilizando seus métodos bo. Acho que foi uma gran-
data, Oscar (Gabriel Godoy), vão duvidosos de sempre.
recebe feedback dos fãs de R.L. de cartada”, elogia Juliana.

uma maneira diferente, já Rafaela destaca que, ape-

32 | R o l l i n g S t o n e B r a s i l | rollingstone.com.br Março, 2018

TUDO OU NADA uma série ‘para homens’. É de-
licada a maneira como tudo é
(No sentido horário) Luna, abordado, o jeito como são fil-
Magali, Mia e Karin: os custos madas as cenas de sexo e como
e os benefícios do negócio retratam esse mundo delas.
que elas criaram nunca Talvez por isso tenha atraído
foram tão altos quanto nesta tantas mulheres. O sexo é ab-
quarta temporada solutamente natural na vida
do ser humano e a série mos-
sar de o forte e óbvio apelo que há para o é a prostituição nos remete imediata- tra isso com naturalidade. Era
um assunto tratado com tanto
público masculino, com mulheres lindas mente aos clichês já vistos em tantas ou- pudor que virou um tabu”.

em cenas picantes em todos os capítulos, tras produções – é uma linha muito tê- Embora o elenco feminino
seja responsável por carregar
a série é convidativa para as mulheres, nue para cair na mesmice, e há todo um a maior parte da série, ela con-
ta com diversos personagens
“exatamente por causa da força, indepen- cuidado para fugir disso. “A questão é a masculinos que são imprescin-
díveis para o desenvolvimento
dência e poder de decisão dessas persona- dose, a medida. Elas não podem deixar da história, e nesta quarta tem-
porada há alguns novos que
gens”, justifica. “Elas fazem o que querem, de ser mulheres bonitas e sensuais, mas terão a função de esquentar a
discussão. Um deles é Eduar-
quando querem. São donas da própria vi- não podem cair na vulgaridade. É a me- do Moscovis, que dá vida a um
conservador âncora de TV cha-
da. As mulheres, inclusive, nos abordam dida daquilo que é elegante. Essas são mado Álvaro Sintra. O outro
é Dalton Vigh, que encarna o
muito mais que os homens.” A atriz que mulheres colocadas num lugar de exclu- vaidoso promotor que defende
“a moral e os bons costumes”
dá vida à Mia é mais uma das que passa- sividade. A série explora a sensualidade, Rodolfo Sherman. Mas é um veterano
quem rouba a cena desde o começo de
ram a refletir a respeito da própria vida a tem muitas cenas de sexo, então ter esse O Negócio. Brilhantemente interpretado
pelo ator Guilherme Weber, o “booker”
partir da série. “Vim de lado elegante dá um (vulgo cafetão) Ariel é um vilão que se
transforma em anti-herói ao longo das
uma região bem conser- AS QUESTÕES conforto”, afirma Mi- temporadas. “Quem a Karin pensa que é?
vadora do Sul do Brasil, chelle. “Existe todo o O Steve Jobs da prostituição? O Zucker-
onde existem algumas outro lado, mais co- berg da putaria?”, foi a reação dele ao sa-
ber que sua “funcionária” trabalharia por
ideias ultrapassadas, mum, que é completa- conta própria e trataria o próprio corpo
mente diferente desse. como uma empresa. “Ele é uma peça-
A B O R D A D AS M Ecomo não poder tran- -chave da estrutura, a série não existiria
sar no primeiro encon- Mas a prostituição de sem o Gui Weber. “Sexo é sexo, também
tro, sabe? E depois de ENVOLVERAM COMO alto luxo é aquela que não tem o que inventar”, diz Ariel em al-
O Negócio pensei: ‘Faço a gente não vê, que gum dos 39 episódios já exibidos. Mas,
o que quiser com meu como a série já bem provou, tem, sim. E,
você encontra na aca- se existe um futuro para esse universo
M U L H E R E M U D A R A Mcorpo, eu transo na hora demia ou que pode ser pós-O Negócio, certamente uma boa op-
ção seria um spin-off focado nele.
que quiser e isso não vai a [profissão] da sua Especulações à parte, a realidade com
vizinha, aquela que a qual as atrizes têm que lidar, no mo-
AT É A M A N E I RA CO M Odizer nada sobre o meu mento, é a de que o longo período que
caráter, sobre a minha é bonita, inteligente, passaram dividindo cena e dando vida
conduta como mulher’. LIDO COM SEXO, COM A bem-sucedida, mas a essas jovens garotas de programa está
A série manda o recado você não tem ideia do chegando ao fim. “Desde o dia em que li
de que podemos fazer o roteiro me apaixonei pela Karin. Ela é
DIVULGAÇÃO que ela faz da vida”, obsessivamente ‘workaholic’ a ponto de
M I N H A F E M I N I L I DA D Eo que quisermos com o complementa. Juliana impedir que a vida pessoal dela tenha a
mesma importância que o trabalho. Ela
nosso corpo”, diz. JULIANA SCHALCH afirma que o principal me trouxe muita coragem, determinação
Falar sobre uma série é que “tiveram a preo- e objetividade. Vai ser bem difícil me des-
pedir dela”, encerra Rafaela.
cuja temática principal cupação de não fazer

Março, 2018 rollingstone.com.br | Rol l i ng S t on e Br a s i l | 33

ESPECIAL O MECANISMO
SÉRIES
NACIONAIS

ENGRENAGEM AZEITADA

Selton Mello estrela nova série nacional da Netflix, que aborda o tema mais quente do país, a corrupção

Àmesa de jantar, a máxima de
que não se deve discutir política e
religião ainda impera muitas vezes.
Mas no que diz respeito à televisão
as produções cada vez mais ousadas,
nacionais e internacionais, encontra-
ram nesses assuntos, especialmente
no primeiro, uma fonte inesgotável de
material que pode render de dramalhões
genéricos a obras premiadas. Dada a situ-

O QUÊ: primeira temporada de O Mecanismo
QUANDO: a partir de 23 de março, na Netflix

ação política nacional nos últimos GRANDE ENCONTRO
anos, não é de estranhar que a Selton Mello trabalha pela
segunda incursão da Netflix no
mercado de séries nacionais, que primeira vez com José
cresce exponencialmente, gire Padilha (no detalhe)
em torno da corrupção e de tudo
que diz respeito a isso. Com o no- que vem gritado nas questão ideológica, mostrando que ela es-
me forte de José Padilha assinando
a criação, ao lado de Elena Soarez (de entrelinhas de tudo tá dos dois lados.”
Filhos do Carnaval), e Selton Mello co-
mo protagonista, O Mecanismo é a aposta que é dito e mostrado. Veterano do cinema e da TV no Brasil PEDRO SAAD/NETFLIX/DIVULGAÇÃO (SELTON MELLO); CLEMENS NIEHAUS/GEISLER-FOTOPRESS/PICTURE-ALLIANCE/DPA/AP IMAGES (JOSÉ PADILHA)
do ano da empresa no Brasil. Mesmo que
isso signifique mexer em um vespeiro do É impossível não se pe- e com uma recém-anunciada carreira
qual a maioria das empresas preferiria fi-
car longe. “Acho corajosa esta tentativa de gar em um jogo de identifi- internacional, Selton Mello está encaran-
falar de algo no calor dos acontecimentos”,
elogia Mello. “Fazer uma obra sobre algo car os fatos, personagens e tramoias com do a personificação de Ruffo muito mais
que aconteceu no passado é mais fácil,
contar algo que se passa agora me pareceu o que vemos há tanto tempo no noticiário, como um papel que acrescenta a ele co-
algo bem forte e completamente diferente
de tudo que já fiz.” especialmente a partir do que é esclare- mo ator do que como algo que acrescen-

“Entendo que a polarização seja uma cido por meio da narração em off – uma ta lenha na fogueira do debate político.
realidade, mas não participo desse ra-
ciocínio partidário”, argumenta o ator marca registrada de Padilha. Ruffo, por “Nunca me interessei por política, achei
sobre o “fla x flu” político que toma con-
ta das redes sociais – e deve se estender exemplo, que conduz a história, é inspi- que me debruçar sobre o assunto era uma
à série. “Eu sempre procuro pautar mi-
nhas escolhas em um tripé que inclui: rado no policial paranaense Gerson Ma- forma de crescimento pessoal também”,
um grande personagem, um roteiro
bem construído e um grande diretor. chado, cujo trabalho é tido como o “marco afirma Mello. “Não apoio nenhum par-
Todo este tripé estava a postos nesta
série. Entendo que existe radicalismo zero” da operação Lava-Jato. A partir da tido ou candidato, essa foi minha forma-
nesse tema, mas isso não pode colabo-
rar na medida das minhas escolhas.” história dele, Padilha e ção, esse é meu limite.

Mello interpreta o problemático Marco a equipe construíram QUANTO AO Estamos falando de
Ruffo, um delegado aposentado da polícia uma série que esbarra corrupção e do meca-
federal que é mentor da dedicada agente em várias questões po- nismo que as socieda-
Verena (Carol Abras, de Avenida Brasil).
Logo no piloto, o clichê do “qualquer se- BRASIL, ACREDITOlêmicas. Padilha encara des encontram para
melhança não é mera coincidência” é algo instalá-la, e como isso
a natureza sensível do
tema de forma bastante afeta tudo ao redor. A
corajosa. “A imprensa já VERDADEIRAMENTE corrupção não tem lado
mexeu nesse assunto de nem bandeira, ela sim-
NO NOSSO PAÍS. ESTOUuma maneira muito in-
plesmente existe.” E,
tensa”, reflete Padilha. para ele, pode sim dei-

CONFIANTE DE QUE TUDO“São muitas denúncias, xar de existir: “Quanto
ao Brasil, acredito ver-
abundância de provas.
ISSO NOS CONDUZIRÁ AA nossa série não vai dadeiramente no nosso
país e, apesar de estar-
chocar pelas revela- mos passando por um
ções porque o brasilei-
UM LUGAR MELHORro já está anestesiado.
momento muito difícil,
A nossa contribuição estou confiante de que

talvez seja com uma ex- SELTON MELLO isso nos conduzirá a um
plicação dessa ideia de lugar melhor”.

que a corrupção é uma STELLA RODRIGUES

34 | Rol l i ng S t on e Br a si l | rollingstone.com.br Março, 2018

ESPECIAL RUA AUGUSTA
SÉRIES
NACIONAIS

MERGULHO NO LADO MALDITO

Protagonizada por Fiorella Mattheis, série analisa a vida noturna da icônica Rua Augusta, em São Paulo

E m uma casa de striptease em são DESAFIO a se desdobrar a partir de um ataque so-
Paulo, Mika dança em volta de uma Fiorella faz estreia ousada frido por Mika. A garota é ferida por um
barra e usa uma peruca preta de corte como protagonista desconhecido (Rafael Dib) em uma boate,
chanel, como uma espécie de domi- o que afeta a rede de personagens ao redor
natrix gótica. A cena dá o tom de Rua O QUÊ: primeira temporada de Rua Augusta dela. Alex (Lourinelson Vladimir), dono
Augusta, a primeira série brasileira QUANDO: quintas, às 22h30, na TNT do estabelecimento, permite que os se-
original da TNT, produzida com a O2. guranças Raul (Milhem Cortaz) e Dimas
Vivida por Fiorella Mattheis, a perso- “Essa rua é fascinante, porque ela (Rui Ricardo Diaz) espanquem o rapaz.
nagem principal é uma garota de 25 anos junta todo tipo de gente”, conta Pedro Enquanto isso, a stripper Yasmin (Pathy
cuja origem é um mistério. “O passado Morelli, diretor de seis dos 12 episódios. de Jesus), amiga de Mika, seduz o jorna-
dela é muito pesado e ela tenta esconder “Ao mesmo tempo que tem o cara saindo lista Emílio (Rodrigo Pandolfo). O capítu-
isso”, diz a atriz sobre a primeira protago- da balada, tem o outro indo trabalhar, lo se encerra com uma virada vertiginosa.
nista da carreira dela. “Conforme a série tem o advogado de terno, a prostituta.
se desenvolve, a Mika mostra suas dores, A série tem muitas cenas noturnas, com Adaptada da israelense Allenby St., a
seus segredos, vai se revelando.” uma galera que acorda ao meio-dia e fica série aborda a icônica via paulistana pelo
no trabalho até as 5h. Ela tem um fuso recorte do maldito – o que, ironicamente,
Fiorella mergulhou em um processo de horário próprio.” é o oposto do que seu nome significa. En-
preparação tão complexo quanto a per- tretanto, isso não impede que os persona-
sonagem. “As cenas de strip são só 10% No episódio piloto, o enredo começa gens se unam pela paixão. “É um contraste
do que realmente acontece. A história da com a vida noturna. São várias as formas
Mika vai muito além disso”, contou. Nas- de paixão, todas meio tortas, dentro desse
cida em Petrópolis, Rio de Janeiro, a atriz contexto barra-pesada. A série não é ro-
estudou o sotaque paulistano e começou a mântica nem a pau”, diz o diretor.
praticar pole dance. Ensaiou por semanas
com o elenco e diretores e ainda visitou Em meio ao caos da rua, sempre há
casas noturnas da Augusta para conver- espaço para todos. “Quem gosta de viver
sar com as strippers. livre e um pouco perigosamente vai se
identificar”, garante Fiorella. CAIO DELCOLLI

ESPECIAL
SÉRIES

B O R G E S I M P O R TA D O R ANACIONAIS

UNIÃO DOS MUNDOS

Porta dos Fundos investe em programa de TV sobre vídeos para a internet

ARIELA BUENO/ DIVULGAÇÃO (FIORELLA); DIVULGAÇÃO Nem só de YouTube vive o Porta dos Fundos. desesperados para pagar as contas deixadas JUNTO E
Conhecida pelo canal e pelos vídeos satíricos pelo chefe e impedir que a importadora vá MISTURADO
que publica na plataforma digital, a produtora, à falência. De forma escrachada e inusitada, Tabet: a TV na
fundada em 2012, também já criou conteúdo eles acabam percebendo que a salvação seria internet na TV
para o canal Fox Brasil, como a minissérie O produzir vídeos para a internet.
Grande Gonzalez, que estreou em 2015, e Refém, Tabet, que é um dos fundadores do grupo, “É um tom acima do humor que a gente faz
inicialmente lançada como websérie, mas no Porta”, o que, segundo ele, só foi possível
posteriormente também transmitida pela Fox. O QUÊ: primeira temporada de Borges Importadora graças à liberdade criativa que o canal ofereceu.
Em 2018, porém, o coletivo encabeçado pelo QUANDO: terças, às 21h30, no Comedy Central Diante da inescapável ironia de ele, justo ele,
diretor Ian SBF buscou uma nova porta pela investir em uma produção para a TV que fala
qual pudesse transmitir seu humor, e acabou conta que a comédia “de ambiente de trabalho” sobre a criação de vídeos para a internet, Tabet
por encontrar abrigo no Comedy Central. A é “uma mistura de Seinfeld com The Office”. diz que “é engraçado como isso chama atenção,
parceria abriu espaço para a produção da “Todos os episódios [tirando o primeiro e o mas na verdade não deveria”. “Tudo isso
série Borges Importadora. O programa conta a último] podem ser vistos independentemente converge. Todas essas plataformas dividem a
história de uma empresa cheia de dívidas e que dos demais, mas quem assistir na sequência, mesma matéria e disputam pela mesma moeda,
é repentinamente abandonada pelo dono, o evidentemente, terá uma experiência melhor, que é a atenção”, argumenta. “A parceria com
próprio Borges. Os quatro últimos funcionários porque vai conseguir se familiarizar com os a emissora permitiu reunir o melhor dos dois
– interpretados por Antônio Tabet, Karina personagens.” Quanto ao roteiro, o ator avisa: mundos.”
Ramil, Thati Lopes e Rafael Portugal – se veem IGOR BRUNALDI

Março, 2018 rollingstone.com.br | R ol l i ng S t on e Br a s i l | 35

RESISTENTES
A banda hoje: Ian
Gillan, Steve Morse,
Roger Glover, Ian
Paice e Don Airey
(da esq. para a dir.)

CELEBRAÇÃO
DE PESO
Para essa ocasião, o quinteto veio com JIM RAKETE/ DIVULGAÇÃO
Com suas próprias palavras, os integrantes a formação clássica, excetuando o can-
do Deep Purple recordam grandes tor Ian Gillan, que na época estava em
momentos dos 50 anos da banda carreira solo. No lugar dele estava Joe
Lynn Turner. Nessa primeira vez em
Em janeiro de 1985, quando ocorreu a primeira edição nossa terra, o guitarrista Ritchie Bla-
do Rock in Rio, as bandas clássicas de heavy metal e de hard ckmore se fez presente – por sinal, essa
rock finalmente invadiam o Brasil. O festival contou com a foi a única vez que ele tocou no Brasil.
presença de nomes como Iron Maiden, AC/DC, Scorpions, Jon Lord (teclado), Roger Glover (baixo)
Ozzy Osbourne, Queen e outros. Dois anos antes disso, havia sido a vez e Ian Paice (bateria), outros integrantes
de o Kiss tocar por aqui. Mas faltava o Deep Purple nesse ilustre rol do da formação clássica, também estive-
rock pesado. O quinteto inglês só veio pisar em nosso país em agosto ram aqui naquela ocasião histórica.
de 1991, apresentando-se no Ginásio do Ibirapuera, em São Paulo, e no
Ginásio do Maracanãzinho, no Rio de Janeiro. A partir daí, o Deep Purple nunca mais
abandonou o Brasil. O grupo esteve aqui
POR PAULO CAVALCANTI inúmeras vezes, sendo que a mais recente
aconteceu em setembro de 2017, quando
foi a principal atração do festival Solid
Rock, que passou por diversas partes do
Brasil. Os músicos vieram para divulgar
o álbum Infinite, que haviam acabado
de lançar. Ao longo destas décadas, tive
a oportunidade de encontrar e conversar
com vários membros da banda, tanto ao
vivo quanto por telefone.

A banda está celebrando os 50 anos de
existência. Em março de 1968, os inte-
grantes pegaram as cinzas de uma ban-

36 | R ol l i n g S t o n e Br a s i l | rollingstone.com.br Março, 2018

DEEP PURPLE

da chamada Roundabout e montaram o tarra dele na frente, complementada pelo havia se transformado em um inferno.

Deep Purple. A inspiração para o nome órgão Hammond de Jon Lord. “Com Deep Quando saiu, Glover lembra que viu a

veio da clássica canção de Bing Crosby, Purple in Rock (1970), tudo finalmente se fumaça no lago Geneva. “Era uma visão

que havia sido um megahit em 1963 para encaixou”, disse Glover. indescritível. Fui para o hotel e pensei na

Nino Tempo e April Stevens. Nestes 50 Lançado em 1972, Machine Head é pa- frase: “‘Fumaça na água, fogo no céu”’.

anos, a formação mudou várias vezes e ra muitos o ponto alto da carreira do Deep Glover disse que, depois de conversar com

agora está estabelecida com Gillan, Glo- Purple. Glover lembrou então as circuns- Ritchie Blackmore, o guitarrista veio com

ver, Paice, Steve Morse (guitarra) e Don tâncias da gravação desse álbum clássico. o icônico riff, e a história estava feita.

Airey (teclado). “Queríamos fazer um disco que tivesse a Em 2000, o Deep Purple veio ao Bra-

Em 2009, em uma conversa com o sensação de ter sido gravado ao vivo, mas sil para realizar uma série de shows re-

falecido tecladista Jon Lord, ferentes ao disco In Concert

por ocasião da apresentação with the London Symphony

dele na Virada Cultural em Orchestra. Nessa ocasião,

São Paulo, ele relembrou o trouxe como convidado espe-

começo: “O Roundabout era o cial ninguém menos do que

projeto de um cara chamado Ronnie James Dio, que entoou

Chris Curtis, que havia feito algumas canções ao lado do

parte de uma banda muito po- Purple. Em São Paulo, a apre-

pular de Liverpool chamada sentação aconteceu na extinta

The Searchers. Ele iria cantar Via Funchal, e para emular a

e tocar bateria. Chris havia ERAS DISTINTAS sonoridade do trabalho que
chamado o Ritchie Black- O Dee Purple em 1971: (da esq. vieram divulgar os ingleses fo-
para a dir.) Paice, Blackmore,
more, que na época estava Gillan, Glover e Lord. (Abaixo) ram acompanhados pela Or-
morando na Alemanha, para A banda em 1968: (na fileira de questra Jazz Sinfônica.
participar. Pois bem. O Cris trás) Simper, Lord e Blackmore.
começou a tomar muito LSD (Na frente) Evans e Paice Mas antes do show teve a
obrigatória entrevista coleti-

e sumiu. Ficamos nós mais o va, realizada em um hotel do

baterista Ian Paice. Haviam “Enquanto a maioria centro de São Paulo. Conse-
investidores e mais gente en- gui trocar algumas palavras

volvida, que cobravam que de nós conseguir se com o baterista Ian Paice.
nós, abandonados pelo Chris Depois de ele educadamen-

Curtis, seguíssemos em frente sustentar na estrada, te assinar alguns LPs que eu
com aquele projeto. E deu no havia levado, posou para fo-

Deep Purple”. estaremos por aí” tos comigo. Também muito
O baixista Roger Glover, polidamente, me falou que

que é hoje de certa forma o tinha que ir. Em seguida, eu

líder do Deep Purple e seu Ian Gillan fui atrás do cantor Ian Gillan
principal memorialista, pega e surpreendi o vocalista com
o fio da meada nesta narra- uma compilação de singles do

tiva. Em 2003, quando os músicos to- Episode Six, obscura banda que ele teve

caram em São Paulo, no Estádio do Pa- com o Roger Glover antes de eles entra-

caembu, com abertura do Hellacopters rem no Purple, em 1969. Ele arregalou

e do Sepultura, falei longamente com ele os olhos e falou: “Rapaz, eu não achava

por telefone. Glover me detalhou uma sé- que alguém conhecesse isso! Na verda-

rie de particularidades sobre a trajetória de, eu preferia que ninguém lembrasse

dele e dos companheiros. Perguntei sobre disso”, riu.

esse início do Purple, quando o grupo ti- Quando o Deep Purple se apresentou

AP PHOTO/EDWIN REICHERT (DEEP PURPLE EM 1971); REPRODUÇÃO nha na formação o cantor Rod Evans e no Brasil, no ano passado, conversei com

o baixista Nick Simper. “Nos primeiros Gillan novamente, com mais calma, des-

discos, tínhamos a influência do Vanilla ta vez por telefone. Tanto tempo depois,

Fudge. Era uma banda norte-americana a perspectiva era outra. Essa era uma

que fazia um psicodelismo meio exagera- sem plateia”, disse. “Então, fomos para turnê de despedida e assim fiz a obri-

do. Tivemos a sorte de ter um hit como Montreaux, Suíça, para registrarmos gatória pergunta: “Por quanto tempo a

‘Hush’ e tudo foi para a frente.” tudo em uma unidade móvel.” Glover re- banda ainda permaneceria na estrada?”

Mas Glover disse que sentia que as cordou o incidente que inspirou “Smoke Gillan foi ponderado e escolheu bem as

mudanças estavam no caminho. “Evans on the Water”, a canção mais icônica do palavras. “Ainda não estamos parando,

e Simper eram caras legais e talentosos, trabalho: “Fomos convidados pela orga- não. Não somos mais jovens, é claro,

mas não estavam na sintonia do que real- nização para assistir a uma apresentação mas enquanto a maioria de nós con-

mente queríamos fazer”, contou. Glover do Frank Zappa em um cassino. Lá pelas seguir se sustentar na vida na estrada,

falou que Ritchie Blackmore estava im- tantas, o Zappa foi ao microfone e falou: com a saúde e a sanidade relativamente

primindo cada vez mais as ideias dele, que ‘Olha, gente, não se alarme, mas... fogo!’ intactas, estaremos por aí. Garanto que

queria um rock mais pesado, com a gui- Depois do berro dele, vimos que o local chegaremos aos 50 anos de carreira.”

Março, 2018 rollingstone.com.br | R o l l i n g S t o n e B r a s i l | 37

BONO

A

Como Chadwick Boseman e Ryan Coogler criaram o

REVOLUÇÃO

filme de super-heróis mais radical de todos os tempos

DE PANTERA

POR JOSH EELLS | FOTO: NORMAN JEAN ROY

NEGRA

38



BONO

á dois anos, chadwick boseman “É um momento re- sequência sem precedentes de íco- NA DUPLA ANTERIOR: COROA POR CECILIO DESIGNS AT THE RESIDENCY. BRACELETE POR PALACE COSTUME
esteve em um filme chamado Deu- volucionário”, afirma nes negros: Jackie Robinson (42:
ses do Egito. Não era uma produção Boseman. “Lembro a A História de uma Lenda), James
muito boa, mas foi bastante comen- empolgação que as pes- Brown (Get On Up: A História de
tada à época por fazer “white wa- soas sentiam ao verem James Brown), Thurgood Marshall
shing” – escalando, para os papéis Malcolm X (filme de (Marshall). De certa forma, Pante-
de divindades africanas antigas um 1992 dirigido por Spi- ra Negra é o passo seguinte lógico
branco escocês, um branco dina- ke Lee). E isto é maior – o juiz Thurgood Marshall com
marquês e pelo menos sete pesso- ainda. Todos vêm ver o garras de vibranium e um avião
as brancas da Austrália. Boseman, filme da Marvel.” secreto. Durante anos, Boseman
o único ator principal negro, fez quis fazer o personagem, manten-
Tot, o deus egípcio da sabedoria e Ele não está exage- do um diário com anotações desde
inventor da matemática. Antes do rando. O filme quebrou 2012. “É uma escalação perfeita”,
lançamento do filme, um jornalista um recorde de pré- afirma o diretor, Ryan Coogler. “O
o questionou sobre as críticas e ele -venda de ingressos para porte físico dele, sua personalidade
respondeu que não apenas concor- filmes de super-heróis e reservada, o fato de que parece ser
dava com elas mas também que ha- arrecadou US$ 520 mi- mais novo do que é, muito sábio
via aceitado o papel por isso – para lhões no fim de semana para a idade que tem.”
que o público visse pelo menos um de estreia – melhor do
deus de ascendência africana. “Só que qualquer filme Mar- “Chad tem uma performance in-
que”, acrescentou secamente, “nin- vel. A produção segue crível”, diz Michael B. Jordan, coas-
guém faz filmes de US$ 140 mi- quebrando recordes: tro do filme como seu inimigo, Erik
lhões estrelados por negros”. também foi a maior bilheteria do Killmonger. “Não consegui imagi-
universo da Marvel na primeira se- nar outra pessoa no papel.”
Quanta diferença em dois anos: mana e no segundo fim de semana.
agora, temos Pantera Negra – um Uma introdução rápida: Bose- Algumas semanas antes da es-
longa de não apenas US$ 140 mi- man faz o papel de T’Challa, rei da treia do filme, Boseman está ten-
lhões, mas sim de US$ 200 mi- fictícia nação africana de Wakanda tando não ser notado, tomando
lhões, e estrelado por negros. Já – a civilização mais rica e tecnolo- chá de hortelã no café hipster de
não era sem tempo. Stan Lee e Jack gicamente avançada do mundo. Ele Los Angeles onde costumava vir
Kirby criaram o Pantera, o pri- também faz jornada como o Pante- escrever quando era um aspiran-
meiro super-herói negro, em 1966, te a roteirista recém-chegado de
mas ele só apareceu na tela grande “É UM MOMENTO Nova York. É alto e magro, com
50 anos depois, quando Boseman dedos longos e elegantes e nós de
roubou a cena em Capitão Améri- D E M U DA N ÇA”, D I Z boxeador nos dedos (Coogler conta
ca: Guerra Civil. Agora, depois de que, às vezes, eles lutavam no set
uma década de filmes do universo BOSEMAN. “É O para ganhar energia). Um de seus
Marvel estrelando um número de- pontos fortes como ator é uma ca-
mograficamente desproporcional RENASCIMENTO DO pacidade de observação silenciosa
de homens brancos chamados Ch- e intensa e ele é igual na vida real,
ris, o mundo finalmente tem seu CINEMA NEGRO, MAS vendo o mundo com os olhos meio
primeiro super-herói africano. apertados e céticos (“Enxergo tu-
NÃO É O SUFICIENTE” do”, diz Boseman). Quando fala, é
invariavelmente cuidadoso e deta-
ra Negra, um guerreiro afrofuturis- lhista. “Você está dizendo que falo
ta com poderes super-humanos que demais!”, diz, rindo.
deve proteger seu povo. Segundo
o presidente dos Estúdios Marvel, De algumas formas, ele é uma
Kevin Feige, Boseman era sua úni- opção engraçada para um astro de
ca opção para o papel. E quando a ação de grande bilheteria. É “90%
ligação veio ele estava pronto. “Dis- vegano, casualmente menciona no-
se ‘sim’ pelo telefone”, lembra Feige. mes de intelectuais negros, como
“Não percebi muita hesitação nele.” Yosef Ben-Jochannan e Frantz Fa-
non, e diz que fica ansioso no palco
Até agora, Boseman, de 41 anos, ou diante de plateias (“Ir a um talk
era mais famoso por ser ator de bio- show? Ai, meu Deus. Não”), mas
grafias no cinema, no papel de uma também sabe que é um veículo pa-
ra algo maior: “Realmente acredito
40 | rollingstone.com.br que exista uma verdade que precisa
entrar no mundo em um momento
em particular. E é por isso que as
pessoas estão empolgadas com o
Pantera. O momento é agora”.

É um divisor de águas para ne-
gros e para Hollywood. O elenco

Março, 2018

conta com uma lista incrível de ta- Companhia do africano... é uma produção enor- “Há muita coisa boa acontecen-
lentos – além de Boseman e Jordan, Real me”, afirma Boseman, “mas isso do”, Boseman admite. “Se você
há Angela Bassett, Forest Whitaker não é Star Wars – é um filme de su- pensar em Barry [Jenkins], Ava
e vários atores de ascendência dire- Boseman ladeado per-herói negro!” Por um lado, ele [DuVernay], Ryan – é o renas-
ta africana, como Lupita Nyong’o, por Lupita ainda não consegue acreditar que cimento do cinema negro, mas
de Star Wars (que cresceu no Quê- Nyong’o (à esq.) e isso esteja acontecendo. Por outro ainda não é o suficiente. É uma
nia), Danai Gurira, de The Wal- Danai Gurira – por que não deveria acontecer? coisa de números. Se você tem 15
king Dead (criada no Zimbábue) e Além disso, diz, “o que significaria cenas, tenho três. Se você tem no-
© MARVEL STUDIOS 2018 Daniel Kaluuya, de Corra! (cujos se não acontecesse? Você estaria ve chances de errar, tenho uma.
pais imigraram de Uganda para a dizendo que há uma segunda classe Cada um de nós sabe que, se você
Inglaterra). Não é apenas o primei- de filmes Marvel. Uma cidadania errar, sua carreira acabou. Vejo a
ro filme de super-heróis com um de segunda classe”. intensidade. Vejo como Ryan é.
elenco predominantemente negro Se você tiver um problema, nunca
– é o primeiro com diretor negro, Para Boseman, a negritude do mais trabalhará nesta cidade.”
roteiristas negros, figurinistas e filme é inseparável de sua atração.
designers de produção negros e um “Alguns atores [negros] dizem: Ele ri. “Pode me corrigir se eu
produtor executivo negro. Grupos ‘Não quero fazer um personagem estiver errado!”
comunitários estão alugando ci- só porque é negro’”, conta. “Tudo
nemas inteiros para exibir o filme; bem com isso, não estou dizendo S aímos do café e bose-
pessoas estão fazendo campanhas que estão errados, mas estão per- man senta no banco de
de crowdfunding para comprar dendo toda a riqueza que tem sido trás de um veículo Es-
ingressos para crianças negras que embranquecida.” calade, a caminho do
talvez não conseguissem vê-lo de programa Larry King Now. “Vou
outra forma. Ele fala com empolgação sobre ligar rapidinho para minha mãe
a luta dos atores negros por bom para não me encrencar”, avisa.
“Estávamos fazendo um longa material (“Muito frequentemente,
sobre o que significa ser africano”, a humanidade para personagens “Oi”, diz quando ela atende.
diz Coogler. “Era um espírito que negros não está ali”) e os dois pe- “Estou bem, só ligando para saber
todos trouxemos à produção, in- sos e as duas medidas de Holly- de você. Já sabe o que vai usar na
dependentemente da herança. O wood quando se trata de identifi- estreia? A saia africana. Aquela
codinome para o projeto era Terra- car jovens talentos negros (“Todo que eu trouxe de Gana? Ok. Peça
-Mãe, e era isso mesmo. Todos fo- ano, agentes voam até a Austrália para me mandarem uma foto.”
mos aprender sobre a África.” para encontrar o próximo grande
ator branco, mas quando pegam Eles passam alguns minutos
“O dinheiro e a mão de obra ne- voos de 14 horas para encontrar o falando sobre uma sessão de Pan-
cessários para criar todo esse mun- próximo negro?”). tera que Boseman está tentando
organizar para cerca de 150 crian-

Março, 2018 rollingstone.com.br | 41

CHADWICK BOSEMAN

ças em sua cidade natal. “Tudo tipo ‘vá se foder, crioulo’ – claro”, lidar. Percebeu que gostava de con-
bem”, ele diz. “Tenho que dar uma conta. “Via picapes com bandei- tar histórias. “Tive a sensação de
entrevista para a TV”. Começa a ras confederadas no caminho que havia algo me chamando”, diz.
desligar, mas a mãe o interrompe. para a escola. Não estou dizendo “De repente, jogar basquete não era
“Também te amo”, diz. “Tchau.” que era uma ocorrência diária, tão importante.”
mas se alguém tivesse vontade de
Boseman cresceu na Carolina do ser tradicional naquele dia...” Ele se matriculou para estudar
Sul, em uma cidade pequena cha- direção na Howard, universidade
mada Anderson. A mãe, Carolyn, Em meados de 2015, duas se- historicamente negra em Wa-
era enfermeira; o pai, Leroy, tra- manas depois de um suprema- shington carinhosamente conhe-
balhava em uma fábrica de têxteis cista branco matar nove fiéis em cida como “Meca”. Em seu livro
e mantinha um negócio de estofa- uma igreja metodista episcopal Between the World and Me, o es-
dos. Os dois ainda moram lá. africana, em Charleston, na Ca- critor Ta-Nehisi Coates – contem-
rolina do Sul, Boseman, que esta- porâneo de Boseman em Howard
Chad, como era chamado va em Atlanta filmando Capitão e, coincidentemente, roteirista da
(“Realmente não sei por que mi- HQ do Pantera Negra – chama a
escola de “encruzilhada da diás-
EM BUSCA DAS RAÍZES Coogler e Boseman no ano passado, em pora negra”. Boseman devorou o
locação. “O filme também é sobre ser africano”, diz o diretor ambiente. Conseguiu um empre-
go em uma livraria africana e fez
“O CODINOME PARA O PROJETO uma viagem para Gana. Também
E R A T E R R A - M Ã E ”, C O N TA C O O G L E R . aprendeu sobre um certo super-
“ F O M O S A P R E N D E R S O B R E A Á F R I CA” -herói africano.

nha mãe escolheu Chadwick – é América: Guerra Civil, foi para “Em uma faculdade historica- MATT KENNEDY/© MARVEL STUDIOS 2018
um nome esquisito para um ne- casa ver a família. “Meus primos mente negra, sua atenção é cha-
gro”), era o caçula de três filhos. falaram: ‘Não pegue esse cami- mada para todas essas coisas – o
O irmão do meio, Kevin, é um nho porque estão fazendo um en- panteão de nossa cultura”, diz. “É
bailarino e cantor que já fez turnê contro da Ku Klux Klan no esta- John Coltrane, é James Baldwin. E
com uma produção de O Rei Leão cionamento’”, conta. “Então, não é o Pantera Negra.”
e dançou com a companhia de é uma coisa do passado.”
Alvin Ailey. O irmão mais velho, Boseman fez aulas extras de
Derrick, é pregador no Tennes- Ele era um menino tranquilo que atuação para melhorar sua dire-
see. “Acho que é batista”, Boseman amava desenhar e queria ser arqui- ção. Uma de suas professoras era
conta, desconfortável. “Acabei de teto. Também amava basquete e era Phylicia Rashad, mais conhecida
dar dinheiro a eles, mas não lem- bom o suficiente para ser recrutado como Clair Huxtable, da série The
bro quanto escrevi no cheque.” para jogar na universidade, mas, Cosby Show, que se tornou sua
quando estava no 1º ano do ensino mentora. “Ela fazia uma peça fora
Racismo era um fato da vida. médio, um garoto de seu time foi da cidade, você ia ver e ela te leva-
Seu distrito escolar ainda era se- morto a tiros. Boseman reagiu à va para casa e conversava com vo-
gregado poucos anos antes de ele tragédia escrevendo uma peça, que cê”, ele conta. “Phylicia tem boas
nascer. “Já fui chamado de ‘criou- chamou de Encruzilhada e ence- lembranças de Boseman. “Chad
lo’, expulso da rua por um caipira, nou na escola como uma forma de era esse jovem magro de olhos
enormes e sorriso encantador e
uma personalidade muito gentil”,
diz. “O que vi nele foi que o céu
era o limite. Nunca me pediu pa-
ra apresentá-lo a ninguém – não
é o jeito dele. Chegaria lá por mé-
rito próprio.”

Enquanto assistia às aulas de
Phylicia, ele e alguns colegas se
inscreveram para um prestigioso
programa de verão em Oxford pa-
ra estudar teatro. Foram aceitos,
mas não tinham dinheiro para ir.
“Ela lutou por nós”, Boseman con-
ta. “Essencialmente, conseguiu que
alguns amigos famosos pagassem
por nossa ida” (“Não quero dizer
quem pagou por mim”, acrescenta,
“mas não, não foi o Bill Cosby”).

Quando estava em Oxford, es-
tudou o cânone ocidental: Sha-
kespeare, Beckett, Pinter. “Só que

42 | rollingstone.com.br Março, 2018

A PARTIR DO TOPO: CORTESIA DE MARVEL ENTERPRISES, 3; CORTESIA DE BRIAN STELFREEZE/MARVEL ENTERPRISES sempre senti que escritores negros O Primeiro Herói disso, fez duas viagens à África do
eram igualmente clássicos”, diz. “É Negro da Marvel Sul para pesquisar. Em uma de-
igualmente difícil encenar August las, um músico de rua da Cidade
Wilson e as histórias que ele conta Desde a estreia do Pantera Negra, em 1966, o do Cabo lhe deu um nome xhosa:
são igualmente épicas.” universo dos quadrinhos nunca mais foi o mesmo Mxolisi, ou “Pacificador”.

Depois da formatura, Bose- Entra o Para ele, o mais importante foi
man se mudou para Bed-Stuy, Pantera o sotaque. No filme, o povo de Wa-
no Brooklyn, onde mergulhou na kanda fala essencialmente xhosa,
cena de teatro e hip-hop de Nova Criado por uma das línguas oficiais da África
York, escrevendo e dirigindo pe- Stan Lee e Jack do Sul, e, quando fala inglês, é com
ças em que os astros faziam rap e Kirby, T’Challa sotaque xhosa. “Senti que de ma-
corais gregos faziam beatbox. “O apareceu pela neira nenhuma conseguiria fazer
que Hamilton está fazendo ago- primeira vez o filme sem sotaque, mas precisei
ra”, afirma com orgulho, “fazíamos como convidado convencer [o estúdio] de que era
há 15 anos”. Para pagar as contas, em Quarteto algo do qual não poderíamos ter
também ensinava atuação para Fantástico, medo. Meu argumento foi treinar-
crianças no Schomburg Center, combatendo mos os ouvidos do público nos pri-
uma biblioteca de pesquisa negra um exército de meiros cinco minutos – colocando
no Harlem. Um dia, começou a mercenários que legendas, dando o que precisassem
conseguir papéis nos seriados de queria explorar – e acredito que se acostumarão
sempre – Law & Order, CSI: NY, os recursos de do mesmo jeito que se acostumam
Cold Case – antes de ter sua grande sua terra natal com um sotaque irlandês ou britâ-
chance ao representar Robinson na África. nico. Vemos o tempo todo filmes
em 42. No entanto, sempre procu- em que isso acontece”, acrescenta.
rou projetos que tivessem o mesmo Série Solo “Por que, de repente, é ‘não conse-
peso emocional que ele sentiu aos guimos acompanhar’ quando se
17 anos e a perda do amigo inspirou Kirby levou sua trata de sotaque africano?”
sua primeira peça. criação icônica para
uma viagem de ficção Claro, também houve Barack
“Para mim, fazer isto tem de ser científica ao estilo dos Obama. Quando a ideia para um
significativo”, diz Boseman. “Por- anos 1970. filme do Pantera Negra começou a
que foi como começou.” surgir, um negro era presidente dos
Reformulação nos Estados Unidos. “A presença dele
Q uando boseman con- Anos 1990 abriu as portas para isso, de certa
seguiu o papel do Pan- forma”, argumenta Boseman. Ele
tera Negra, uma das pri- Christopher Priest foi o pegou de Obama o conceito de “um
meiras coisas que fez foi primeiro roteirista negro do líder que não reage a críticas – o ti-
pedir ao pai que fizesse um exame Pantera. Seu trabalho ajudou po de pessoa que consegue segurar
de DNA. Queria saber mais sobre a formar a base do filme. a língua e se manter firme”. Além
suas raízes. “AfricanAncestry.com”, disso, diz que ele e Coogler conver-
diz. “Esse site é bem específico Salto saram sobre o vibranium – o metal
quanto ao grupo étnico de onde Literário ultravalioso que dá a Wakanda sua
você vem, não apenas de qual país” riqueza e proeza tecnológica – co-
(para constar: iorubá da Nigéria, Em 2016, Ta-Nehisi mo uma espécie de arma nuclear.
limba e mende de Serra Leoa e jo- Coates começou “Então, é algo semelhante”, alega.
la de Guiné-Bissau). Ele conta que a escrever uma “De quem você quer receber uma
também rastreou sua linhagem versão aclamada ligação às 3h manhã? Eu preferiria
americana o máximo que pôde. da HQ. “O que [ele] que fosse alguém como [Obama]
“Para ir mais longe”, afirma com fez com o Pantera ou T’Challa a... outra pessoa.”
um sorriso irônico, “eu teria de bus- é simplesmente
car registros de propriedade”. incrível”, Coogler O que nos leva ao ocupante atual
disse na época. da presidência dos EUA. O que ele
Ele se inspirou em várias in- “É meu escritor acha que T’Challa – o monarca tri-
fluências da vida real para fazer preferido.” lionário gênio do reino mais sofis-
T’Challa: o chefe tribal Shaka ticado da África – pensaria sobre
Zulu e o líder político Patrice Donald Trump se referir a algumas
Lumumba, discursos de Nelson nações deste continente como “paí-
Mandela e músicas de Fela Kuti. ses de merda”?
Leu sobre guerreiros massais e
conversou com um babalaô io- Boseman – que, no ano passado,
rubá. Para suas cenas de luta, afirmou que Trump estava “dando
treinou artes marciais africanas voz à supremacia branca” – hoje
– boxe dambe, luta com bastões apenas sorri. “Adoraria responder
zulus e capoeira angolana. Além essa”, diz, “mas não quero dar o
tempo do Pantera a ele”.
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CHADWICK BOSEMAN

A lguns dias depois, ser o primeiro diretor negro de diretor que, cinco anos antes, es-
Pantera Negra fez um filme da Marvel, mas com- tava rodando uma produção in-
sua estreia mundial parativamente pouco se falou dependente de US$ 900 mil com,
em um cinema de Los sobre a idade dele. Tem apenas como diz, “um pouco de fita crepe
Angeles. Parece que metade da 31 anos – espantosamente jovem e uma câmera”.
Hollywood negra está ali: Don para conduzir uma produção tão
Cheadle comendo pipoca no ca- gigante. “É o cineasta mais novo “De vez em quando, estávamos
marote, Laurence Fishburne cum- que já contratamos”, afirma Fei- preparando a tomada seguinte”,
primentando pessoas na escada, ge, da Marvel. “Ele tem um tre- conta Jordan, “e ficávamos só nós
Donald Glover resplandecente em mendo dom.” dois, dizendo: ‘Cara, que loucura!’”
um terno cor de tangerina, Jamie
Foxx vestindo uma camiseta com Os dois filmes anteriores do O Pantera Negra de Coogler
a frase “Wakanda Forever”. Quan- garoto-prodígio – Fruitvale Sta- é sobre muitas coisas: família,
do o filme é exibido, há gritos, lá- tion: A Última Parada, queri- responsabilidade, pais e filhos.
dinho do festival Sundance em O poder de mulheres corajosas.
Imigração, fronteiras, refugia-
COM O CRIADOR Stan Lee e Chadwick Boseman durante a estreia de Pantera dos. O que significa ser negro. O
Negra no Dolby Theatre, em Los Angeles, no dia 28 de janeiro que significa ser cidadão do mun-
do. Só que também é um filme so-
O PANTERA NEGRA DE COOGLER É bre os Estados Unidos – o país da
SOBRE MUITAS COISAS: FAMÍLIA, pena mínima obrigatória e do co-
RESPONSABILIDADE, PAIS E FILHOS mércio de escravos. É sobre como,
nas palavras de um personagem,
grimas, risos e muitos aplausos de 2013, sobre o assassinato de Os- “líderes foram assassinados, co- STHANLEE B. MIRADOR/SIPA USA)(SIPA VIA AP IMAGES
pé. Vira uma celebração. car Grant, um negro desarmado munidades foram inundadas por
que levou um tiro da polícia nas drogas”. E é sobre – nas assom-
Naquela semana, costas enquanto estava deitado brosas últimas palavras de outro
Coogler está sentado em uma plataforma do metrô de personagem – “meus ancestrais,
na sacada de um hotel Oakland; e Creed: Nascido pa- que saltaram de navios porque
em Beverly Hills, ten- ra Lutar, a versão de Rocky de sabiam que a morte era melhor
tando processar tudo. “Estreias 2015 sobre um jovem boxeador do que a escravidão”.
são emocionalmente sufocantes, que cresce na prisão juvenil e
cara”, diz. Estava mais focado nos aprende a canalizar sua raiva no Quando Coogler era criança
cerca de 50 parentes que vieram ringue – foram sucessos de crítica em Oakland, seu pai trabalha-
da Bay Area para ver o filme, al- e bilheteria, o que deixou poucas va em um centro juvenil, em São
guns deles, como sua avó, idosos dúvidas sobre Coogler estar à al- Francisco. “Chama YGC – Centro
e em cadeira de rodas. “Só estava tura do desafio. Mas Michael B. de Orientação para a Juventude”,
tentando garantir que eles esti- Jordan, que estrelou em ambos, conta. “É onde menores são en-
vessem bem”, conta. “Fiquei pen- diz que, mesmo assim, foi “sur- carcerados. E é uma merda.” Al-
sando em rampas.” real” estar no set de um filme de gumas das questões que Coogler
US$ 200 milhões com o mesmo começou a perceber no YGC se
Muito se falou sobre Coogler tornariam temas de seus dois pri-
meiros filmes: famílias desestru-
44 | rollingstone.com.br turadas, excesso de policiamento e
encarceramento, falta de oportu-
nidades para jovens negros. Elas
também aparecem em Pantera
Negra, principalmente através do
personagem de Jordan, Killmon-
ger, um membro abandonado da
família real de Wakanda que cres-
ceu órfão em Oakland, se tornou
um integrante dos Navy SEALs e
virou assassino em operações se-
cretas. Ele volta a seu país ances-
tral para depor T’Challa do trono
e usar as riquezas e as armas de
Wakanda para realizar um levan-
te racial internacional. “De onde
venho, quando negros começaram
revoluções, nunca tinham o poder
de fogo ou os recursos para lutar
contra seus opressores”, diz a cer-
ta altura. O personagem planeja
armar negros no mundo inteiro,

Março, 2018

“para que possam se erguer e ma- Sons para um Rei prestes a começar a trabalhar em
tar quem está no poder”. um roteiro para teatro sobre um
Kendrick Lamar rouba a cena ministro e ativista antigangues de
Jordan, como Boseman, inspi- como curador da trilha do filme Boston, que pretende interpretar.
rou-se em figuras da vida real pa- Além disso, estão ajustando um
MARTIN ANSEN (ILUSTRAÇÃO); DIVULGAÇÃO ra criar Killmonger: Malcolm X, Pantera Negra: Trilha the Stars”; em “I Am”, roteiro que escreveram chamado
Marcus Garvey, Huey P. Newton, Sonora Original (Top a cantora inglesa Jorja Expatriate, sobre o sequestro de
Fred Hampton, Tupac Shakur. Dawg/Aftermath/ Smith envolve uma um avião nos anos 1970, que Bar-
“Este jovem negro de Oakland, Interscope, ++++) foi balada dolorida com sua ry Jenkins, diretor do vencedor
crescendo em opressão sistemáti- aguardado quase tão voz rouca. Há muito rap do Oscar Moonlight: Sob a Luz do
ca, sem ter pai nem mãe por per- ansiosamente quanto o excelente em Pantera Luar, já se comprometeu a dirigir.
to, indo para um lar temporário, filme que deu origem a Negra, mas as frases
fazendo parte deste sistema”, diz ele, e não sem motivo: é mais impressionantes Boseman quer fazer muitas
Jordan. “[Killmonger] sendo afro- capitaneado por mais um pertencem a Yugen coisas. “Há uma infinidade de
-americano como eu, entendi essa agregador improvável Blakrok, uma MC de histórias em nossa cultura que
raiva e como ele pôde chegar a pon- de categorias culturais, Joanesburgo, que aparece não foram contadas, porque
to de ter de fazer o que tinha de fa- Kendrick Lamar. Ele foi ao lado de Vince Staples Hollywood não acreditava que
zer, por qualquer meio necessário.” coprodutor executivo do em “Opps” e dá um banho fossem viáveis”, afirma. “Seria
álbum, tem créditos de no artista principal, o que legal ver pedaços da história que
Para Boseman, Killmonger e composição em cada uma não é nada desprezível. você não viu com figuras africa-
T’Challa são dois lados da mes- das 14 faixas e aparece Talvez a faixa mais nas. Como os africanos na Euro-
ma moeda. Não exatamente por todo o disco. Seu comovente do álbum pa – os mouros na Espanha. Ou,
Malcolm e Luther King – porque trabalho, no entanto, é também seja a mais se você for a Portugal, eles têm
T’Challa também está disposto a algo do século 21: curador estranha, “Pray for Me,” estátuas de negros por toda par-
lutar –, mas algo semelhante. Ra- musical. Ele reúne velhos que encerra tudo e na qual te. Então, não apenas estivemos
dical versus diplomata, revolucio- amigos de Los Angeles Lamar despeja ansiedade aqui”, conta, “mas também afeta-
nário versus pacificador. “Essas (Schoolboy Q, Ab-Soul), e lugares-comuns entre mos diretamente tudo o que você
ideias, esse conflito – venho ten- criadores de sucessos refrãos baratos cantados acha ser europeu”.
do esta conversa quase a minha do rap do sul (Future, por The Weeknd. “Luto
vida inteira”, afirma, “mas ela Travis Scott), pioneiros do contra o mundo, luto A garçonete traz mais doses e
nunca realmente aconteceu em novo soul (The Weeknd, contra você, luto contra Boseman propõe outro brinde.
um ambiente no qual você pode Anderson .Paak) e mim mesmo/Luto contra “A ver o filme”, diz, “e saber que
ouvi-la. Então, o fato de poder- músicos da África. Deus, só me diga quantos é bom!”
mos ter esta conversa e você con- Alguns dos melhores fardos sobraram.” Nesses
seguir ouvi-la – e ter de lidar com momentos da trilha momentos, Lamar é Antes de irmos embora, ele
ela? É isso o que torna este filme jogam os holofotes algo mais grandioso do muda de ideia. Está falando sobre
muito diferente.” Em outras pala- sobre as mulheres. que um super-herói: é a viagem a Oxford – a celebridade
vras, aproveite o entretenimento Lamar faz parceria com heroicamente humano. que deu dinheiro a Phylicia Ra-
oferecido por este super-herói ne- SZA na lamentosa “All shad. “Depois de voltarmos, re-
gro, mas se prepare para também JODY ROSEN cebemos uma carta do benfeitor”,
confrontar mais de 500 anos de conta. “Denzel pagou para mim.”
opressão sistemática.
Sim, aquele Denzel mesmo.
Depois de um longo dia promo- “Tenho certeza de que ele não faz
vendo o filme, ele está relaxando a menor ideia”, diz. “Foi aleatório”.
no Dime, um bar de coquetéis e Ele escreveu uma carta ao ator
hip-hop perto de West Hollywood. quando descobriu – “Mal podia
Está com Logan Coles, seu par- esperar para escrever minha carta
ceiro de escrita e amigo desde a de agradecimento!” –, mas, a não
época da universidade, e Addi- ser que Washington seja um acu-
son Henderson, amigo e treina- mulador ou tenha memória foto-
dor. Estão aqui para comemorar: gráfica, não há motivo para achar
além do filme, a mulher de Coles que se lembre de um universitário
está grávida do primeiro filho do desconhecido de 20 anos atrás.
casal. Enquanto o DJ toca Tupac e “Estou esperando para encontrar
Nas, eles se juntam em uma mesa com ele e poder contar isso.”
e tramam o que virá depois. Com
certeza veremos mais do Pante- Há um motivo para ele não
ra Negra em abril, quando ele se querer ter me dito antes. “Você
unirá ao Capitão América para nunca quer fazer alguém sentir
defender o mundo de uma inva- que te deve alguma coisa”, afir-
são alienígena em Vingadores: ma. “Essa pessoa já te deu o que
Guerra Infinita, mas Boseman deveria ter te dado, mas percebi
parece mais empolgado em vol- nesta manhã que cheguei a um
tar a escrever. Ele e Coles estão ponto em que ninguém pensaria
isso.” Boseman sorri. “Não preci-
Março, 2018 so mais de ajuda.”

rollingstone.com.br | 45

DISCOGRAFIA

Ray Charles

JANELA PARA A ALMA

Ray Charles criou a soul music e expandiu o vocabulário da black music Por Paulo Cavalcanti

‘‘Só existe um gênio GÊNIO Woman”, ele juntou o pique do
neste ramo. Ele se TRABALHANDO rhythm and blues com a inten-
chama Ray Charles.” sidade do gospel, formatando a
Quem falou isso foi Ray Charles ao soul music. Anos depois, revo-
vivo em 1964

ninguém menos do que Frank lucionou novamente a indús-

Sinatra. Ray Charles Robin- tria ao unir soul com country

son, nascido no dia 23 de se- music em Modern Sounds in

tembro de 1930, em Albany, Country and Western Music.

Geórgia, cresceu em meio à Charles também transitou com

extrema pobreza. Quando ti- maestria pelo blues e pelo jazz.

nha cerca de 7 anos, ficou cego A voz dele, crua e expressiva,

devido a complicações de um injetava emoção a qualquer es-

glaucoma. A vida foi dura pa- tilo musical, sendo que além de

ra o jovem Ray, mas por meio tudo ainda era um pianista e

de muita força de vontade ele bandleader de primeira. Quan-

expôs ao mundo seu imenso do morreu, no dia 10 de junho

talento e foi galgando os pata- de 2004, aos 73 anos, Brother

mares do mundo artístico. Ray deixou um profundo lega-

Em 1954, ao lançar “I Got a do, que revisitamos agora.

ESSENCIAIS

Ray Charles What’d I Say RThaey GCheanriulessof MiWnoeCdsoteuernrnntSrMyouuasnniddcs iMWVnooeCldusotemuernrnentTSrMwyouuoasnniddcs AP PHOTO
+++++ +++++ +++++ +++++ +++++

Atlantic 1957 Atlantic 1959 Atlantic 1959 ABC-Paramount 1962 ABC-Paramount 1962

O álbum de estreia de Ray A faixa-título marcou No lado A do álbum, A junção de soul e R&B A sequência do álbum que
Charles compilou material a explosão de Charles Charles envereda pelo com a country music juntou várias vertentes
que ele havia lançado dentro do cenário da jazz, acompanhado por abriu as portas para todo de black music e country
antes em singles e algumas música pop mundial. A membros das orquestras um universo dentro da é tão fundamental
faixas que tinha acabado partir daí, o artista deixava de Count Basie e Duke música popular. No álbum, quanto o trabalho que
de gravar. O LP até parece o nicho da black music e Ellington. No outro lado Ray Charles reinventou deu origem a ele. Nele,
uma coletânea, já que ganhava o mainstream. do LP, ele foi apoiado canções de Don Gibson Charles investiu em hits
abriga inúmeros clássicos Adolescentes e um enorme por uma orquestra. (o megahit “I Can’t Stop de Jimmie Davies (“You
do catálogo dele, como público branco também Destacando os hits “Let Loving You”), The Everly Are My Sunshine”), Hank
“I Got a Woman”, “Mary passaram a consumir a the Good Times Roll” e Brothers (“Bye Bye Love”), Williams (“Your Cheating
Ann”, “Drown in My Own música dele. O apoio do “Don’t Let the Sun Catch Eddy Arnold (“You Don’t Heart”), etc.
Tears”, “This Little Girl of grupo vocal feminino The You Cryin”, o trabalho Know Me”) e outros.
Mine”, “Hallelujah I Love Raelettes deu um toque ampliou o público dele.
Her So” e “Mess Around”. especial às gravações.

46 | R ol l i n g S t on e Br a s i l | rollingstone.com.br Março, 2018

SUBESTIMADOS

RPearysCohna+rl+es+i+n HThites GtheeniRuosad DYoeudi+ca+te+d+to BRaeyttCyhCaarrlteesrand GJaeznziu+s+++S+oul =
++++ ++++
Atlantic 1960 ABC-Paramount 1960 Impulse! 1961
ABC-Paramount 1960 ABC-Paramount 1961
Neste impecável álbum ao Um dos mais populares Esta é outra incursão
vivo gravado na cidade de O conceito aqui é juntar disco de Charles, O álbum que Charles de Charles pelo jazz,
Atlanta, Charles revisitou canções que colocam sob o Dedicated to You reuniu gravou ao lado da cantora colaborando novamente
alguns de seus hits holofote diferentes pontos canções com nomes de jazz Betty Carter é com Count Basie e Quincy
(“What’d I Say”, “Drown geográficos dos Estados femininos. A versão dele uma delícia, com a dupla Jones. Ele preparou
in My Own Terars”) e Unidos. O hit “Georgia on para “Stella by Starlight” em forma reinventando versões incandescentes
até mesmo passeia pela My Mind” tornou-se marca foi um grande hit, inúmeros clássicos da para “Strike Up the Band” e
música latina (“Frenesi”). registrada de Charles. inclusive no Brasil. música popular. “The Birth of the Blues”.

SEMPRE INTENSO
Charles em 1996,
tocando em Pasadena,
na Califórnia

RInegcriepdeiefonrtsSoinual AthMe ePsesoapglee from
++++ ++++

ABC-Paramount 1963 ABC-Paramount 1971

O hit do disco foi a Este é o álbum mais
sarcástica canção pessoal gravado por
country “Busted”. Mas Ray Charles, tratando
Charles também investiu de racismo, igualdade
na emoção através de e turbulência social.
suas interpretações dos “Heaven Help Us” e
standards “That Lucky Old “Abraham, Martin and
Sun” e “Ol’ Man River”. John” deram esse recado.

VALE OUVIR

AP PHOTO/JOHN HAYES RaSTnwhedecinoCDgroodTmwinimnpglseBeteeat Crying Time Love Country GCoemnipusanLyoves FGreienniudss&+++½
+++½ +++½ Style +++½ +++½
Rhino 2005
Night Train ABC-Paramount 1965 ABC/Tangerine 1970 Concord 2004
International 2012 Lançado um ano após a
O grande hit “Crying Nesta outra incursão Em sua despedida morte de Charles, Genius
Este CD duplo compilou a Time’ é uma balada pelo universo da música fonográfica, Charles deu & Friends compilou
fase pré-fama dele, quando country escrita por Buck country, Charles emplacou uma cara nova a alguns duetos inéditos que o
Charles gravava em selos Owens. O resto do álbum a evocativa “Sweet de seus duradouros hits soulman fez com vários
como o Swing Time e o seguiu a linha da soul Memories” (de Mickey e, para tanto, recebeu astros, no período de
Downbeat, de 1949 a 1952. music que era feita na Newbury), dueto com a grandes nomes, como 1997 a 2004. Alicia Keys,
década de 1960, com cantora Mary Ann Fisher. Elton John, Diana Krall, George Michael, Diana
“Let’s Go Get Stoned” No trabalho, ele também Willie Nelson, Norah Ross e John Legend são
e “Drifting Blues” gravou “Ring of Fire”, Jones, B.B. King e outros. alguns dos que aparecem.
ganhando destaque. sucesso de Johnny Cash.

Março, 2018 rollingstone.com.br | R ol l i n g S t on e Br a s i l | 47

PORTFÓLIO

Redenção
pela

Música

Há 50 anos, Johnny Cash
se apresentava na prisão de
Folsom, na Califórnia, enquanto

o fotógrafo Jim Marshall
clicava tudo o que acontecia

Por Paulo Cavalcanti

48 | R ol l i n g S t o n e Br a s i l | rollingstone.com.br

O Dedo do Meio

Em uma das imagens mais reproduzidas
e imitadas da história da música,

Cash, instigado por Marshall, mostra a
opinião dele sobre o regime prisional

norte-americano. A clássica foto foi
feita em 1969, em San Quentin

rollingstone.com.br | R ol l i n g S t o n e Br a s i l | 49

Johnny Cash

1

As imagens de Jim Marshall capturam com precisão
a música visceral e urgente de Johnny Cash

P oucos artistas são tão 2 CORTESIA DE JIM MARSHALL E REEL ART PRESS
identificados com o lado
marginal da vida e da socie- Guerreiros da Estrada
dade quanto Johnny Cash.
O astro country, que morreu em 12 de 1. Johnny Cash chegando de ônibus a Folsom para a histórica performance na
setembro de 2003, aos 71 anos, man- prisão; 2. June Carter, esposa do cantor, observa os arredores do local.
teve uma relação muito particular com
o mundo dos presidiários. Em 1955,
ele gravou o hit “Folsom Prison Blues”,
contando uma saga sobre a infame pri-
são de segurança máxima localizada na
Califórnia. A canção, com a memorável
frase “Eu atirei em um homem em Reno
só para vê-lo morrer”, já definia a per-
sona inquieta de Cash. A partir daí, ele
começou a se apresentar em prisões por
todos os Estados Unidos. Os detentos se
identificavam com as histórias de vida
dura e de injustiça que Cash contava em
suas faixas clássicas.

No fim dos anos 1960, o chamado
The Man in Black (“O Homem de Pre-
to”), apelidado assim devido aos trajes
de matizes escuras que usava, era um
mega-astro da música country. Devido

50 | R o l l i n g S t o n e B r a s i l | rollingstone.com.br Março, 2018


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