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A identidade desta cidade é não ter uma feição só que a identifique. Cuiabá definitivamente abriu mão do elemento único, do caráter homogêneo do povo, das <br>cores, dos jeitos. O emaranhado desta terra é a sua maior qualidade, sem cair no lugar comum, na obviedade que caracteriza as histórias mais pobres.

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Published by Revista Fuzuê, 2023-09-11 21:45:49

Fuzuê | Edição 03

A identidade desta cidade é não ter uma feição só que a identifique. Cuiabá definitivamente abriu mão do elemento único, do caráter homogêneo do povo, das <br>cores, dos jeitos. O emaranhado desta terra é a sua maior qualidade, sem cair no lugar comum, na obviedade que caracteriza as histórias mais pobres.

A revista Fuzuê, criada em maio de 2014, é produto das aulas-laboratório da disciplina Jornalismo de Revista, ministrada para os estudantes do 6º semestre de Comunicação Social/ Jornalismo da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT/Cuiabá). Professor da Disciplina: Thiago C. Luiz Coordenador do Curso: Tinho Costa Marques Chefe de Departamento: Javier E. Solla Lopez Editor Responsável: Thiago C. Luiz Redação, Projeto Grafico e Diagramação: Amanda Simeone, Ana Paula dos Santos, Bruna Uliana, Fernando Praddo, Isabela Meyer, Jhenifer Heinrich, Karina Cabral, Luiza Gonçalves, Thayana Bruno, Vinicius Barros. Fotos: Estudantes do 4º semestre de Comunicação Social/Jornalismo. Professora Responsável (Disciplina Fotojornalismo): Janaína S. Pedrotti Capa e Publicidade: Tony Damaceno Imagem de capa: Isabela Meyer E-mail: [email protected] Universidade Federal de Mato Grosso/Campus Cuiabá Instituto de Linguagens Departamento de Comunicação Social Av. Fernando Correa da Costa, nº 2367 Bairro Boa Esperança, Cuiabá - MT CEP: 78060-900 editorial Cuiabá tem a capacidade de resumir o Brasil. A cada olhar, as disparidades nos saltam. Gente rica e uma multidão de pobres. Negros, índios, brancos e a mistura de um e de outro fazem dessa receita social uma rica explicação antropológica de uma cidade quase tricentenária. Pessoas do país todo, de lugares além das fronteiras tupiniquins, encontraram aqui a vida boa. Pros que viram em Cuiabá o seu porto seguro, sair da capital mato-grossense parece um desfecho indigesto. Faz sentido alicerçar a vida aqui. Entendendo que a cultura é a manifestação humana da simbologia de um território, compreendemos que se a população daqui é multifacetada, os costumes da arte e do dia a dia também apresentam traços desiguais, no melhor sentido que isso pode ter. A pintura e a literatura cuiabanas reservam espaço privilegiado para os artistas da terra. Na música, o sertanejo universitário e o rock têm público garantido, mas as velhas gerações, motivando as novas, não deixam o rasqueado e o lambadão morrerem. Não faltam também produção cinematográfica, teatral e, claro, a culinária local que só a cultura popular é capaz de prover. No esporte, embora a cidade conte com um aparelho moderno, como é a Arena Pantanal, o futebol não é o forte pelas bandas de cá. Mas os parques e as áreas de atividades físicas ao ar livre recebem muita gente de manhã, à tarde e à noite, de domingo a sábado. Nesses lugares, o cuiabano de chapa e cruz ou o pau rodado busca fugir do calor ou sofrer ainda mais com ele. Dentro de academias, numa outra maneira de cultivar o esporte, os fissurados por músculos querem corpo perfeito e vida saudável. A identidade desta cidade é não ter uma feição só que a identifique. Cuiabá definitivamente abriu mão do elemento único, do caráter homogêneo do povo, das cores, dos jeitos. O emaranhado desta terra é a sua maior qualidade, sem cair no lugar comum, na obviedade que caracteriza as histórias mais pobres. a CIDADE que tem um BRASIL dentro de si 4 RevistaFuzuê Edição3 Desembro/2015


sumário RevistaFuzuê Edição3 Desembro/2015 5 esporte sesc arsenal perfil imigração jovens artistas perfil trans são gonçalo beira-rio dona eulália página 06 página 26 página 50 página 58 página 22 página 42 página 48 página 36 Fisiculturismo ocorre em apresentações coletivas ou individuais de comparações do corpo. “Bulixo” significa pequeno comércio de venda direta ao cliente, onde se encontram produtos dos mais variados. Os livros abriram um novo caminho para a vida do técnicoadministrativo da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT), Clóvis Matos, de 60 anos. O amor pelas palavras e a vontade de ajudar o próximo fizeram com que ele dedicasse grande parte da sua vida ao projeto “Inclusão Literária”. Com uma mala, pouco dinheiro, muita vontade de trabalhar e “com sonhos na bagagem”, milhares de haitianos vêm para o Brasil, e Cuiabá é a terceira cidade do país que mais recebe imigrantes em busca de uma condição de vida melhor. Quando nós mudamos para Cuiabá, eu resolvi ajudar nas despesas da casa, e pedi ao meu marido que fizesse um forno para vender o bolo de arroz. No começo não dava muito certo, fui tentando até acertar. Desbravadores de terras brasileiras, os bandeirantes buscavam riquezas e escravos. Paulistas, eles abriam trilhas no meio da mata, sendo guiados pelo curso de rios. Foi assim que os bandeirantes Pires de Campos e Pascoal Moreira Cabral chegaram a São Gonçalo Velho, à margem esquerda do Rio Cuiabá, em 1673. Encontramos a casa de esquina ao seguir os meninos de violino na mão acelerando as bicicletas. Não teve erro: chegamos à Associação Arte Cidadã. A porta está aberta, e as coisas parecem ser sempre assim. Um professor anuncia o início da apresentação de uma aluna. Ela toma posse do microfone e se pronuncia: “Me desculpe, professor. Eu gostaria de ser tratado no gênero masculino. De agora em diante, meu nome é Valentim!”. entrevista página 16 entrevista página 32 crônica página 57 Kenneth Joshen, de 30 anos, é americano do Estado de Tennessee. Artista e jornalista, Eduardo Ferreira é um opositor dos direitos autorais. Em cada ponto em que para- va, o rebanho crescia em pro- gressão geomé- trica.


Juliana Kobayashi


O FISICULTURISMO emmato grosso 21 anos de história de um esporte em ascensão, que finalmente está alcançando seu auge KARINA CABRAL Pouco reconhecido, o fisiculturismo é um esporte que ocorre em apresentações coletivas ou individuais de comparações do corpo que analisam critérios como volume, simetria, proporção e definição muscular. O atleta praticante desse esporte é conhecido como fisiculturista. Em Mato Grosso, a primeira competição foi em 1994, promovida pelo então presidente da Federação, Joas Dias. Joas não era fisiculturista, mas era amante do esporte. Hoje, é professor de faculdade renomado. Começou a fazer eventos de fisiculturismo em Mato Grosso, em 1994, unido aos antigos filhos da Apollo, academia da época que era conhecida por ter os melhores. “Lá era a casa dos gladiadores, a casa dos grandes. Só os monstros treinavam lá”, diz Kinssiger Alencastro, atual presidente da International Federation of Bodybuilding & Fitness de Mato Grosso (IFBB/MT). Mas só em 2002, Joas, em parceria com Bento Filho e o professor universitário Gildo, entrou com o pedido da criação da federação, a IFBB/MT, filial da única federação do esporte que respeita o Código Mundial Anti-Doping, a IFBB. No início, cada categoria tinha dois ou três atletas, e o público contava com média de dez pessoas. Na época, as opções de categorias também eram bem mais limitadas e os atletas eram avisados sobre o evento com, no máximo, 40 dias de antecedência, o que impedia uma preparação mais eficiente. Joas começou na época do Unicuia, um evento da UFMT que tinha como uma das modalidades o fisiculturismo. Tudo era feito com muita dificuldade, tanto que nem era cobrada a entrada. corpo desenhado


Outro detalhe eram os locais: os eventos costumavam acontecer na UFMT, no Sesc e, certa vez, até dentro de um shopping de Cuiabá, todos sempre na capital mato-grossense. “Os locais até eram adequados para fazer os campeonatos, mas não tinha aquela preocupação com a logística que se tem hoje. Não tinha palco, estrutura de iluminação, árbitros treinados. Era ‘eu acho que esse aqui está legal, acho que esse aqui não’. Não tinha um arbitro com curso, nem certificado”, diz Josevan Clemente, atleta. Se hoje o fisiculturismo ainda sofre preconceito, nos anos 90 não era diferente. Dessa forma, conseguir apoio para os eventos era algo muito difícil. As premiações eram simbólicas: um troféu, uma medalha e um suplemento simples, como um pacote de aveia ou um pacote de maltodextrina (o suplemento comum da época). Se o atleta ganhasse uma caixa de proteínato de cálcio, era o melhor prêmio. “Em 2002, 2003, as premiações dos campeonatos chegavam a ser chá mate, porque não tínhamos outra coisa, fazíamos no auditório da UFMT. De jurados, éramos eu e mais alguns que se propuseram a ir. E de seis a dez pessoas assistindo”, lembra Cristovão Pinheiro, atleta. Em 2006, Cristovão e Kinssiger Alencastro começam a planejar a possibilidade de assumir a federação e dar um novo rumo para o fisiculturismo no Estado. Por intermédio de Cristovão, eles reuniram os principais interessados e colocaram em pauta a necessidade de uma nova presidência. “De início, lógico, era uma situação muito confortável, ninguém quis tomar nunca a presidência. Mas com algumas discussões, conversas e reuniões, eu acabei assumindo a federação. E, a partir daí, comecei um trabalho”, relata Kinssiger. Em 2007, Kin, como ficou conhecido, tornou-se presidente da IFBB/MT, reativou-a no cartório, abriu a empresa na receita federal, criou o CNPJ e organizou toda a documentação. A partir de sua posse, as coisas começaram a ser completamente diferentes. Kin se dispôs a ir a São Paulo e participar dos eventos, tudo isso com seu próprio dinheiro. A federação, até então, nunca havia tido apoio, mas Kin conheceu o presidente da federação brasileira (IFBB Brasil), na época o Alexandre Pagnani, buscou conhecer o que era feito em nível nacional e internacional e trouxe tudo isso para dentro de Mato Grosso. Depois que assumiu a federação, Kinssiger começou a fazer os eventos investindo o seu próprio dinheiro. “Fazia o evento, pagava do meu bolso, sobrava, e eu voltava o dinheiro pra mim”, ele conta. De início, com a divulgação e o novo estilo de evento, o público subiu para 100 pessoas, mas os atletas ainda eram poucos, cerca de 15 federados. “Essa parte nós conseguimos que o Joas passasse todo o processo de como funciona uma federação de fisiculturismo para o Kinssiger, e isso foi primordial porque pegou uma cabeça jovem, que queria realmente mudar a história do culturismo, e conseguiu. Os eventos que acontecem hoje são por conta dele. Foi passada uma missão para ele, e, na medida do possível, ele conseguiu até superar a expectativa”, afirma o atleta Cristovão Pinheiro. corpo desenhado Juliana Kobayashi 8 RevistaFuzuê Edição3 Desembro/2015 Juliana Kobayashi José Pagot é um dos nomes fortes do fisiculturismo mato-grossense


Com a morte de Pagnani em 2010, Maurício Arruda assumiu a presidência da IFBB Brasil. Por ser o braço direito de Rafael Santoja, presidente da IFBB Internacional, isso fez com que o fisiculturismo crescesse no Brasil inteiro. Hoje a IFBB/ MT tem 90 atletas federados, e o público dos eventos é, em média, de duas mil pessoas. É um crescimento enorme que veio de fora do Estado para cá. Em 2015, como reconhecimento do trabalho de Kinssiger, Mato Grosso recebeu seu primeiro evento nacional, a 1ª fase do Campeonato Brasileiro de Fisiculturismo. “Ele é um cara batalhador, que pensa muito no crescimento do esporte no Estado. Ele está fazendo um trabalho sensacional. Nesse ponto, é a pessoa certa”, elogia Josevan Clemente. Hoje o esporte está se expandindo por todo o Estado, não mais se restringindo a ocorrências na capital. Os eventos contam com patrocínio de grandes empresas nacionais, os atletas recebem total apoio da Federação, a premiação oferece suplementos de grande qualidade e os eventos são anunciados meses antes da data prevista. Hoje, a federação de Mato Grosso conta com sete pessoas: presidente, vice, secretário, diretor financeiro e conselhos fiscais 1, 2 e 3. “A partir de 2016, provavelmente os atletas vão ter bolsa atleta nacional e internacional. A nossa confederação já conseguiu isso no Ministério do Esporte”, afirma Kinssiger. O presidente sonha com um esporte cada vez maior e mais respeitado. o de uma grande história ÁPICE Cristovão Pinheiro, vida dedicada ao esporte, exemplo para a velha e nova gerações Em 1994, Cristovão Pinheiro, 38, entrava em uma academia de musculação, visando adquirir força para ajudá-lo dentro do judô. O jovem estava na academia só de passagem, já que sua intenção era realmente permanecer em seu esporte. Com o tempo, viu que conseguia desenvolver os músculos com certa facilidade, foi gostando e ficando cada vez mais dentro da academia. Dessa forma, acabou abandonando o judô e conhecendo um novo esporte, o fisiculturismo. Cristovão sabia que em Cuiabá havia uma academia que se destacava, pois seus frequentadores eram pessoas com músculos mais desenvolvidos. Nessa época, as coisas eram bem mais complicadas: ser um pouco mais volumoso já era motivo de críticas. “Quando minha mãe ficou sabendo que eu estava treinando, ela não queria deixar, porque inventaram uma história de que no bebedouro da academia tinha anabólico. Treinei durante corpo desenhado RevistaFuzuê Edição3 Desembro/2015 9 Ana Frávia Albuquerue Cristovão deixou o judô para praticar fisiculturismo


três meses, e foi nessa época que conheci o Joas Dias, lembra Cristovão. Nos dois primeiros anos, Cristovão apenas assistiu aos campeonatos. Um ano após iniciar os treinos em academia, começou a sua primeira preparação para subir aos palcos, fazendo a estreia em 1996 e se consagrando campeão mato-grossense na categoria juvenil unificada, que contava com cinco atletas. Nesse mesmo ano, participou do campeonato brasileiro e ficou em 6º lugar na categoria juvenil até 90 kg. Em 1997, a vida de Cristovão sofre reviravolta e começa uma fase que poucos conhecem. Ele vai para a Bolívia estudar Medicina, curso em que permaneceu até o 5º ano e não pôde mais continuar, pois contava com a ajuda do pai, que não tinha mais condições de mantê-lo. No mesmo ano, competiu pela faculdade em que ganhou bolsa e foi campeão departamental na categoria juvenil, em Cochabamba, que é o mesmo que campeão estadual, ganhando também o campeonato nacional, em Santa Cruz. Em 1998, repetiu o feito no estadual, e foi vice-campeão boliviano na categoria sênior pesada, pois já estava com mais de 90 kg. Em 1999, ganhou seu primeiro prêmio em dinheiro, 100 dólares, por ter participado de um campeonato aberto. “Mas eu até confesso que foi uma coisa meio que arranjada, não que me deram o valor, mas eles sabiam que se eu participasse iria ganhar, e eu precisava desses cem dólares para terminar minha preparação para o mundial”. Acabou não dando continuidade na preparação por causa da faculdade e, após esse campeonato, deu uma pausa na carreira. Desistiu da Medicina e voltou para Cuiabá em 2001, onde grandes nomes já tomavam conta do fisiculturismo mato-grossense, como Gerson da Jacarezinho, Jovesan Clemente e Luciano Karim. Até 2003, relata que as condições dos campeonatos eram precárias, premiações apenas simbólicas, poucos 10 RevistaFuzuê Edição3 Desembro/2015 Cristovão cursou Medicina até o 5º ano. Por questões financeiras, acabou abandonando, e voltou a praticar fisiculturismo Ana Frávia Albuquerue O atleta disputou a sua primeira competição em 1996


atletas e público de seis a dez pessoas. Nesses anos foi um dos jurados que se propôs a ir aos campeonatos. Em 2004, resolveu participar do campeonato matogrossense de última hora, e foi campeão geral. “Me arrependo até hoje porque acho que não mereci pelo físico que eu apresentei. Simplesmente fiz dieta de 40 dias e entrei para competir. Foi uma coisa impensada, me arrependo até hoje, por isso nem conto esse título”, lamenta Cristovão. Em 2005, parou mais uma vez de competir e foi intermediário de uma grande mudança dentro do esporte: a transição da presidência de Joas Dias para Kinssiger. “Fiz uma reunião na academia do Val, na Barão de Melgaço, juntei todo mundo que gostava do esporte e abri o verbo: ‘O Kinssiger é um cara interessado e precisamos de todos os documentos possíveis da federação para dar continuidade’”. A partir daí, a história do fisiculturismo tomou um novo rumo. Em 2006, começou a ver grandes nomes se destacando, como Daniel Bossat (Danielzinho), atleta renomado já falecido, e voltou a se interessar pelo esporte. Depois de uma grande preparação, em agosto de 2007 fez sua reestreia. Ganhou o campeonato estadual, tirou o campeonato brasileiro de Marcelo Caldas, que iria ser tri, tornando-se campeão na categoria até 90 kg. Daí para frente foi tudo um pouco mais fácil. Em 2008, foi direto para o campeonato sul-americano e se consagrou campeão. Foi para o mundial, mas nesse ano não teve êxito, pois já começava a sofrer para se manter na categoria. Em 2009, ficou em 2º lugar no sul-americano pelo mesmo problema. Pensou em desistir mais uma vez, pois o presidente da federação brasileira, Alexandre Pagnani, era quem determinava quem ia em cada categoria, e não queria permitir que ele subisse para a categoria até 100 kg. Com a ameaça de dar término à carreira, Pagnani não se opôs que Cristovão fosse para a categoria que desejava, ficando na 9ª colocação no mundial de 2009. Em 2010, participou da Copa Elite, criada por Pagnani só para os melhores atletas, para ser decidido quem iria para o mundial e para o sul-americano. Foi a segunda vez que ganhou um prêmio em dinheiro (R$ 1,5 mil). Nesse mesmo ano ganhou como campeão overall brasileiro, ou seja, foi o campeão dos campeões de todas as categorias. Mas optou por não ir para o mundial, nem para o sul-americano por medo dos testes de doping. “Isso é muito simples de ser explicado. Não só no fisiculturismo, como em qualquer outro esporte, o uso de substâncias que melhoram o desempenho e a performance é necessário. Então, é uma questão de orientação, é normal a junção do esporte com a medicina. Hoje, a maioria dos atletas já tem médicos que estão por trás não exatamente indicando, mas ao menos impondo os limites de cada um”, afirma o Body Building. Em 2011, foi campeão overall brasileiro e sul-americano, e, mais uma vez, acabou não indo para o mundial, agora por falta de dinheiro, embora estivesse muito bem fisicamente. Em 2012, foi Juliana Kobayashi RevistaFuzuê Edição3 Desembro/2015 11 “Não só no fisiculturismo, como em qualquer outro esporte, o uso de substâncias que melhoram o desempenho e a performance é necessário. Então, é uma questão de orientação, é normal hoje em dia a junção do esporte com a medicina” Ana Frávia Albuquerue Cristovão ignora um dos títulos que ganhou porque precisou apenas fazer dieta


campeão brasileiro e garantiu sua vaga no Arnold Classic Madrid, um dos principais campeonatos do meio, no qual se sagrou campeão. Passou mais um ano sem competir por conta de cirurgia para retirada de uma hérnia umbilical, que acreditava estar atrapalhando seu físico, voltando em 2014, visando o Arnold Classic. De última hora, foi informado que não poderia ir se não participasse do brasileiro, pois não havia competido em 2013. Sem tempo, acabou ficando em 2º lugar e conquistando sua vaga no Arnold Madrid. Duas semanas antes foi informado que não poderia competir, pois não havia passado pelo sul-americano, nem pelo mundial, e a nova regra era essa porque os atletas estavam evitando esses campeonatos por causa do dopping. Desesperado, Cristovão perdeu todo o seu dinheiro, pois havia direcionado sua preparação para o Arnold Madrid. Deu continuidade para o campeonato mundial e, por pouco, não foi campeão, ficando em 2º lugar na categoria até 100 kg, feito único para um mato-grossense até hoje. Duas semanas depois, foi campeão sul-americano mais uma vez e se tornou o primeiro atleta brasileiro a ganhar um carro como premiação. Sobre a sua carreira, Cristovão diz que “é uma junção de tudo: disciplina, criação das pessoas que passaram na minha vida e das oportunidades que tive de aprendizado”. Exemplo para 10 entre 10 fisiculturistas mato-grossenses, Cristovão é um dos maiores responsáveis pelos atletas do Estado serem respeitados em âmbito nacional e até internacional. Uma pessoa humilde, que, com força de vontade e disciplina, conquistou seu espaço e hoje é impossível contar a história do fisiculturismo no Estado sem mencionar esse grande atleta. corpo desenhado KELLY KARINA – 24 anos – 6º lugar mato-grossense na categoria Welness – Educadora Física. A categoria Welness tem milhares de mulheres maravilhosas. Cada dia descobri uma atleta nova e fui me inspirando. Hoje minha inspiração sou eu mesma. LUAN GOLIN – 21 anos – 2º lugar mato-grossense na categoria Body Building Clássico 70kg – Educador Físico. Críticas sempre vão existir, mas se você gosta, se você quer isso para a sua vida, pouco importa a opinião dos outros. Na verdade, é muito mais fácil para as pessoas criticar do que tentar entender e fazer igual. JOSÉ PAGOT – 26 anos – Categoria Senior 80kg – Educador Físico Ninguém vê você acordar cedo, as refeições que você faz igual todos os dias, deixando de conviver com seus familiares por não comer como eles, perdendo a vida social. Você não tendo vontade de caminhar e tendo que caminhar. Sem forças, e tendo que treinar. Isso aí que é o difícil de fazer. Eu vivo por esse esporte 24 horas, e não posso errar. Eu tenho que ficar 24 horas concentrado no que devo fazer no dia e realizar perfeitamente. FABÍOLA SALLES, 34 anos, Administradora de Empresas. Campeã mato-grossense na categoria Bikini Fitness. O fisiculturismo é um esporte que vem crescendo cada vez mais, e se antes era visto como um esporte para homens fortões, hoje as mulheres fisiculturistas estão mudando essa imagem e trazendo mais leveza e graciosidade, como é o caso das categorias Bikini Fitness e Welness. com a PALAVRA... Juliana Kobayashi Juliana Kobayashi Juliana Kobayashi Juliana Kobayashi


Aos 13 anos, Mário saía da sala do endócrino pesando 115kg e diagnosticado com obesidade III, que é considerada a mais perigosa. “Ele falou que eu tinha que começar a atividade física urgente, porque eu estava até correndo risco de vida”, lembra Mário, hoje com 24 anos. Saindo do consultório, o menino comprou uma bicicleta e começou a ir para a academia. Quando percebeu, estava fazendo três horas de atividade física por dia, e isso o agradava muito. Com o passar do tempo, Mário tomou gosto pela vida saudável e começou a pesquisar e entender cada vez mais como cuidar do seu corpo. O grande “boon” foi quando aprendeu a aliar os exercícios à alimentação saudável. Em seis meses, Mário perdeu mais de 40% do seu peso. “Depois de perder 50 kg, eu quis desenhar o meu corpo, e foi aí que comecei a gostar do fisiculturismo”, diz Mário. Ainda jovem, formou-se em Gastronomia, mas o ramo que havia escolhido dentro da área não o fazia feliz. Um dia um amigo falou que queria fazer uma dieta mais exata e perguntou se Mário poderia cozinhar para ele, visto que o chefe já tinha experiência em fazer refeições saudáveis. Depois do primeiro, vários amigos o procuraram e, quando viu, já estava cozinhando para cerca de dez pessoas. Foi assim que criou a primeira empresa de alimentação saudável em Cuiabá. O negócio foi expandindo, e hoje o chefe de cozinha cuida das refeições de clientes de 7 a 70 anos. A experiência que teve com o emagrecimento, aprendendo como funciona o corpo e a escolher o alimento pelo valor nutricional, fez com que Mário conseguisse ajudar outras pessoas. “Acho que foi isso que me motivou Daobesidadeaos palcos Como o esporte transformou a vida de Mário Espósito corpo desenhado Juliana Kobayashi Aos 13 anos de idade, Mário pesava 115 kg


a competir, a levar essa idéia de fazer uma alimentação saudável e que você pode construir o corpo que quiser”. Através do seu trabalho, Mário conheceu sua noiva, Michelly Matos, 30. “Eu o conheci pela internet, buscando sobre a alimentação que ele estava vendendo”, diz com admiração a bicampeã mato-grossense na categoria Body Fitness. Michelly treina desde os 16 anos e sempre fez tudo certo: se alimentava corretamente e gostava muito desse mundo do fisiculturismo, mas foi através do incentivo do namorado que resolveu competir. “Ele ficava falando que eu estava pronta, que poderia competir e que era para competirmos juntos”, diz Michelly. Hoje, com três anos de relacionamento, estão noivos e dividem um perfil fitness no Instagram, e são seguidos por quase quatro mil pessoas, além dos mais de 12 mil admiradores de Michelly em seu Instagram pessoal. Inspirado por vários nomes internacionais e por seu primeiro personal, o saudoso Danielzinho, atleta renomado e reconhecido por todos os fisiculturistas mato-grossenses, Mário entrou para o mundo das competições em 2014. No primeiro ano, foi campeão matrogrossense na categoria Fisiculturismo Clássico até 85 kg. E, já em 2015, subiu para a categoria até 90 kg e também levou um troféu, dessa vez de 3º lugar. O chefe de cozinha campeão dentro e fora do esporte é claramente um exemplo de força de vontade e superação, e diz: “O primeiro passo é acreditar, acreditar em você mesmo. Não importa onde você está, o importante é você saber aonde quer chegar. Com planejamento e dedicação, se você falar: ‘vou acreditar e vou atrás’, você consegue”. 13 RevistaFuzuê Edição3 Desembro/2015 Ana Frávia Albuquerue Ana Frávia Albuquerue Michelly, noiva de Mário, também pratica fisiculturismo Quando está fora da rotina do esporte, Mário administra um restaurante japonês Michelly pratica fisiculturismo desde os 16 anos, mas foi com o incentivo do noivo que começou a competir


CATEGORIAS DO fisiculturismo EM MATO GROSSO FISICULTURISMO (Masculino) Nesta modalidade, os atletas treinam para desenvolver todas as partes de seu corpo e músculos a fim de obter o tamanho máximo, mas de forma equilibrada e com harmonia. Não deve haver “pontos fracos”, nem músculos subdesenvolvidos. Aqueles que conseguirem demonstrar maior riqueza de detalhes musculares receberão as maiores pontuações nas competições. E a outra questão fundamental a ser avaliada é a linha, ou seja, a visão geral do físico, que deve ser construído de forma proporcional e simétrica. MEN’S PHYSIQUE (Masculino) Lançada oficialmente em 2012. Essa categoria é destinada a homens que realizam o treinamento com pesos a fim de manter a forma, mas que preferem desenvolver um físico menos musculoso, com aspecto atlético e esteticamente agradável. Os concorrentes procuram mostrar forma e simetria adequada, combinada com alguma musculosidade e principalmente um bom estado geral. Os atletas devem ter presença de palco e postura a fim de demonstrar sua personalidade, e a capacidade de apresentarse no palco com confiança deve ser visível a todos. Em todos os ângulos precisa ser notado um shape em Y. BODYFITNESS (Feminino) Nessa categoria, os árbitros devem avaliar a aparência atlética geral do físico, tendo em conta a figura, o tônus muscular desenvolvido simetricamente, forma feminina e uma baixa quantidade de gordura corporal, assim como o cabelo, a beleza facial e o estilo individual de apresentação fazem toda a diferença, incluindo confiança pessoal, equilíbrio e graça. WELNESS FITNESS (Feminino) A categoria Wellness foi criada pela IFBB Brasil em 2005 com o objetivo de agregar e levar aos palcos uma boa parcela das mulheres brasileiras frequentadoras das academias e salas de ginástica, que tinham o desejo de competir, porém não se enquadravam em nenhuma das outras categorias existentes na IFBB. Possuem uma certa desproporção de volume dos membros inferiores (coxas e glúteos) em relação a membros superiores (tronco e braços), e isso ocorre principalmente devido ao fato de boa parte delas treinarem seguindo o próprio padrão de beleza que é naturalmente encontrado e admirado no Brasil inteiro. BIQUINI FITNESS (Feminino) As atletas dessa categoria mais se parecem uma modelo Fitness: magras, belas e demonstrando um leve aspecto de treinamento com pesos. Além da cintura fina, as atletas devem possuir os braços e ombros levemente destacados. Os glúteos devem ser redondos e firmes, e o percentual de gordura deve ser baixo, mas sem aspectos de desidratação. O julgamento das atletas não ocorre somente pelo físico, mas também pela beleza facial, cabelos, e até mesmo a harmonia da maquiagem em relação ao conjunto corporal, cabelos e cor do biquíni. Além disso, as atletas devem possuir carisma, desenvoltura, e “luz própria” em cima do palco. RevistaFuzuê Edição3 Desembro/2015 15


Elisana Sartori


Fuzuê – Como foi sua infância? Kenneth Joshen - Na minha infância éramos eu, minha mãe e meu irmão. Meus pais se separaram quando eu tinha 10 anos, mas meu pai sempre esteve presente na minha vida. Minha infância foi voltada para o esporte. Eu acredito que o esporte pode ajudar as pessoas a se tornarem do bem. Eu sempre fui muito aplicado na escola, tirava só nota 10 nas provas e continuo, até hoje, na graduação em Direito que faço, tirando 9 e 10. Eu sempre quis cuidar e dar uma vida boa para minha mãe. Fuzuê – Por que você veio para o Brasil? KJ - Meu treinador, Orlando Ferreira, me trouxe para jogar futebol americano no campeonato brasileiro, em 2012. Depois resolvi ficar em Cuiabá. Gosto do lugar, das pessoas, da movimentos e ritmos seja FITNESS e tenha qualidade de VIDA Kenneth Joshen, de 30 anos, é americano do Estado de Tennessee, nos Estados Unidos. É formado em Recreação Esportiva e tem pósgraduação em Crossfit pela Universidade de Cambridge, instituição de ensino superior do Reino Unido. Kenneth é jogador e treinador de futebol americano. Diz ele: “Eu jogo futebol americano desde os seis anos de idade, o esporte sempre fez parte da minha vida”. Fuzuê entrevista jogador e professor de Educação Física, um norte-americano em terras brasileiras LUIZA GONÇALVES


comida. Quero ficar aqui. Fuzuê – Como surgiu a ideia de oferecer atividade física gratuita? KJ - Na verdade, eu entrei com uma parceria com o Shopping Popular. Eles queriam fazer algo nesta área do complexo esportivo Manoel Soares de Campos (Bairro Dom Aquino) para beneficiar os moradores do entorno e moradores de Cuiabá. Fuzuê – Quem fez o projeto? KJ - Eu criei o projeto, e ofereci para a diretoria do Shopping Popular. Fechamos um acordo, e eles financiaram o projeto. Fuzuê – Desde quando começou o projeto? KJ - Na verdade, começou em novembro de 2014. Sentamos e fizemos uma reunião com o presidente do Shopping, o senhor Mizael. Fuzuê – Quem está financiando o projeto? KJ - O presidente do Shopping dos Camelôs e toda administração. E disponibilizando o som, colchonetes, cordas e camisetas. Fuzuê – Qualquer pessoa pode participar das atividades físicas? KJ - Sim. Eu tenho crianças a partir de seis Elisana Sartori anos participando e tem uma senhora com 78 anos. A gente faz exercícios variados, podendo participar pessoas de qualquer idade. Fuzuê – A maioria das pessoas que participam das atividades físicas são só moradores da região do Porto? KJ - Sim. Tem muita gente do Porto, muitas pessoas que trabalham no Shopping Popular. Têm moradores de Várzea Grande, do Bairro CPA. Eles acreditam no nosso projeto, vêm treinar e veem resultados. Têm muitas pessoas perdendo quilos, outras ganhando massa, isso é bom para saúde. Fuzuê - Você sabe quantas pessoas participam das suas aulas? KJ - Em torno de 100 a 120 pessoas à noite. Já no período da manhã, em torno de 20. Não têm crianças pela manhã, então posso realizar exercícios diferentes e mais puxados. No período da manhã, como têm menos pessoas, dá para realizar mais exercícios. Fuzuê – O que você pensa sobre o projeto? KJ - Eu acho bom poder ajudar as pessoas. Este projeto é a minha vida. Através da atividade física posso proporcionar às pessoas Projeto idealizado por Kenneth é financiado pelo Shopping Popular movimentos e ritmos 18 RevistaFuzuê Edição3 Desembro/2015


saúde e bem-estar. Fuzuê – Em quais dias da semana acontecem as atividades físicas? KJ - Todos os dias da semana, no período da manhã e à noite, sendo que segunda, quarta, sexta são realizados exercícios de alongamento, corrida, abdominais, e na quinta-feira são realizadas dança e aeróbica. Fuzuê – Quais são os horários das atividades físicas? é muito bom: as pessoas vêm e não pagam nada. Elas fazem o mesmo treinamento que é realizado em uma academia e obtêm um grande resultado. Fuzuê – Você se sente realizado em ter feito este projeto e ter dado certo? KJ - Eu me sinto muito realizado. Este projeto começou devagar, agora explodiu. Tem gente de vários lugares de Cuiabá, têm pessoas que chegaram aqui e não conseguiam KJ - No período da manhã, a partir das 6 horas. No período da noite, das 19 às 20h. Fuzuê – Quais os benefícios que um projeto como este pode trazer para comunidade? KJ - O benefício é notar as pessoas com bem -estar, melhor saúde. Dá para aproveitar este espaço do complexo Dom Aquino, que tem quadras, pista para caminhada, um ambiente seguro, arejado, onde as pessoas podem vir e usufruir de tudo isso. Fuzuê – Você já participou antes de um projeto como este? KJ - Eu já realizei, e tenho vários projetos nos Estados Unidos, onde eu morava, mas não tão grande como este. O projeto aqui fazer flexão, agachamento. Hoje realizam até dez exercícios de cada. As pessoas estão conseguindo atingir suas metas. Fuzuê – Tem algum projeto que você pretende realizar com o apoio do Shopping Popular? KJ - Sim, quero fazer um projeto com as crianças, para ensiná-las a jogar futebol americano. Acredito muito nas crianças. Quero trabalhar com os pequeninos. Fuzuê – Além de ser professor de Educação Física, você é jogador de futebol americano? KJ - Eu faço as duas coisas, pois não sou tão velho, tenho apenas 30 anos. Sou jogador americano profissional há 20 anos. Tenho muita coisa para ensinar para as crianças. Elisana Sartori É na Acrimat que acontecem, de segunda à sexta, exercícios físicos e aeróbica movimentos e ritmos RevistaFuzuê Edição3 Desembro/2015 19


Fuzuê – Qual importância da Educação Física para a criança? KJ - Muito relevante, porque estamos vivendo uma época em que as crianças não querem fazer nada, ficam em casa, diante da televisão, assistindo e comendo sentadas no sofá. Por isso é importante a Educação Física, visto que poderão, no futuro, tornar-se obesos e desenvolverem alguns problemas de saúde. Eu acredito que uma criança precisa praticar exercícios físicos, ao menos durante 60 minutos, para que possa ter uma vida saudável. Fuzuê – Você teve alguma influência quando decidiu jogar futebol Americano? KJ - Sim. Quem me influenciou foi o meu tio. Ele era lutador de boxe. Desde quando eu tinha 4 anos, começou a me dar forças, incentivando. Tenho meu tio no coração. Fuzuê – Como você escolheu ser professor de Educação física ou jogador de Futebol americano? KJ - Não consegui escolher, porque gosto de ser professor e jogador. Sempre realizei as duas coisas. Decidir entre os dois não é tarefa fácil, pois desde os quatro anos prático futebol americano. Fuzuê - Você estuda no momento? KJ - Sim, estou fazendo uma graduação em Direito (on-line). Pretendo ser Bacharel em Direito e me tomar um grande empresário e agenciador de jogadores. Quero levar pessoas daqui para os Estados Unidos para se tornarem jogadores de futebol americano. Fuzuê - Qual seus planos para futuro? KJ - Pretendo abrir uma academia grande em Cuiabá, a maior que Mato Grosso já teve. E se um dia voltar para os Estados Unidos, quero deixar um responsável para continuar tocando a minha academia. Elisana Sartori Nascido nos Estados Unidos, Kenneth está em Cuiabá desde 2012 movimentos e ritmos 20 RevistaFuzuê Edição3 Desembro/2015


Elisana Sartori


Você sabe o que é Bulixo? É um termo do linguajar cuiabano, também escrito Bolixo. Significa pequeno comércio de venda direta ao cliente, onde se encontram produtos dos mais variados. Este pequeno comércio é montado às quintas-feiras, das 18 às 22h, no casarão centenário, situado na Rua 13 de junho, onde funciona o Sesc Arsenal. Dentro do Sesc, o público também pode participar de outros eventos, como música ao vivo, salão de dança, cinema etc. O Bulixo se tornou um feirão de ideias, produtos, manifestações artísticas, um espaço no qual “transpira cultura”, sabor e muita criatividade. O local é principalmente visitado por moradores do Porto, Várzea Grande, pessoas que chegam a Cuiabá, turistas e moradores da Baixada Cuiabana. “Sempre que venho, convido alguém. É comum a gente dizer ‘vamos ao Bulixo hoje’. Quando vêm amigos de outra cidade, faço questão de trazer aqui”, conta Juliana Capilé. O Bulixo se mantém importante e possibilita o resgate da história. “O nome Bolixo remete a tempos passados, traz a lembrança desse tipo de comércio. O Bulixo era o local onde se vendia de tudo: farinha, fumo de corda, carne, tecido, produtos a granel e importados”, explica Miguelina Fernandes, analista de programas sociais do Sesc. É DIA DE bulixo! HOJE gastronomia e artesanato Um espaço com várias culturas reunidas em um só lugar LUIZA GONÇALVES


O Bulixo se tornou referência para a valorização da cultura regional. E, não por acaso, ele funciona num prédio histórico, que nasceu com o propósito de consertar e fabricar armas, uma das construções mais antigas de Cuiabá. O prédio do século XIX teve sua memória resgatada, e hoje é um arsenal munido de cultura. Desde 2001, o arsenal de guerra abre suas portas para os artesãos e para a população, como centro de atividades Sesc Arsenal. Culturalmente, fábrica de arte. “É interessante como a modernidade trouxe as possibilidades de um encontro tão bom em um lugar que outrora provocou tantas tristezas. Você vê esse jardim maravilhoso, como se tivesse sido colocada uma pedra em cima do passado triste, obscuro”, afirma a coordenadora Miguelina Fernandes. O projeto foi crescendo ao longo dos anos e hoje é ponto de referência de lazer e cultura de Cuiabá. Passam pelo Bulixo, por mês, mais de quatro mil visitantes. “É um local muito bom, com muito artesanato. Não há um espaço como o Bulixo no meu país. Penso que o Bulixo é um espaço único, tem só aqui”, diz o visitante Frank Oliveira, que mora na Holanda. Assim é o projeto Bulixo, organizado há dez anos pelo Sesc Arsenal e que se transformou numa tradição cuiabana. “Trabalho há cinco anos no Bulixo vendendo frango desossado recheado. Gosto de trabalhar aqui, conhecer pessoas diferentes. É daqui que vem minha fonte de renda”, conta o barraqueiro Etevaldo Alves Guirá. Quem procura novidade, presente para alguém querido, certamente vai encontrar um entre os produtos feitos pelos artesãos que reciclam, pintam e colorem o espaço com uma variedade de artesanatos. “A minha esposa já fazia bonecas de pano. Eu comecei a acompanhá-la e a ajudá-la na fabricação. Hoje nós vivemos só das vendas do artesanato”, confirma Geraldo Silvana. No Bulixo, de um lado estão as barracas de comida e do outro, as barracas de artesanatos. “Há seis meses, eu comecei a trabalhar aqui. Como meu tempo era ocioso, comecei a trabalhar e inventar, fazendo caixas de madeira, luminárias de PVC, e foi assim que o artesanato começou a fazer parte da miElisana Sartori gastronomia e artesanato Casal produz artesanato com madeira e pintura 24 RevistaFuzuê Edição3 Desembro/2015


nha vida”, comenta Nelson Oliveira. As barracas de artesanato também têm panos de prato bordados à mão, enfeites feitos de biscuit, sabonetes trabalhados, bonecas de pano, colares feitos com sementes de açaí, de côco, tapetes de retalho etc. Comecei como brincadeira, vendendo ímãs de geladeira de porta em porta, era como um hobby para mim. Hoje sou uma profissional: vendo o biscuit e faço bichos, pássaros, lembrancinhas para casamento, caricatura, faço de tudo um pouco. Eu vivo da minha arte. Meu sonho é fazer uma colcha só do material de sombrinhas que o pessoal joga fora. “Já comecei a fazer minha colcha”, conta Sideneia Xavier Gomes. Antes, quando não tinha o Bulixo, quase ninguém frequentava o prédio do Sesc Arsenal. Hoje, famílias se reúnem, assim como amigos, para saborear as comidas típicas, para conversar e interagir. “Este espaço aqui aconchegante que o Sesc Arsenal oferece é um lugar delicioso para as pessoas, que, muitas vezes, vêm do trabalho direto para cá com suas famílias, trazem seus filhos. Toda a sociedade se reúne aqui. Eles consomem tudo isso, mais as atividades paralelas, como cinema, música, teatro, biblioteca, além de curtir este jardim maravilhoso que o Sesc tem. As pessoas saem daqui alimentadas física e emocionalmente. O ambiente é muito bom”, comenta Miguelina Fernandes, coordenadora do Bulixo. Agora que você sabe o que é o Bulixo, que tal participar? É sempre às quintas-feiras, das 18 às 22 horas, e a entrada é gratuita. Beatriz dos Santos Os visitantes também podem comprar roupas de fabricação dos próprios vendedores


Ana Frávia Albuquerue


Os livros abriram um novo caminho para a vida do técnico-administrativo da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT), Clóvis Matos, de 60 anos. O amor pelas palavras e a vontade de ajudar o próximo fizeram com que ele dedicasse grande parte da sua vida ao projeto “Inclusão Literária”. A bordo de sua caminhonete Rural Willys verde, intitulada “Furiosa”, que chama atenção pelas ruas de Cuiabá, ele carrega parte daquilo que acha mais importante para o ser humano: o conhecimento. Na carroceria, são transportados mundos de sabedoria através de livros de literatura. A paixão de Clóvis pelos livros surgiu na infância, quando morava no município de Iporá, em Goiás. Apesar do lugar ser distante, o criador do “Inclusão Literária” conta que conheceu os primeiros livros da vida a partir de hóspedes que passavam temporadas no hotel de sua família. O primeiro grande livro ao qual teve acesso foi “Cem Anos de Solidão”, de Gabriel Garcia Marquez. “Na minha cidade não tinha livraria, nem asfalto. Os turistas levavam livros, gibis e revistas. Foi a partir daí que comecei a me interessar pela leitura”, lembra. clóvis matos o amor aos livros e o incentivo à cultura inclusão literária VINICIUS BARROS


Formado em História, no ano de 1992, Matos teve a ideia de criar o “Inclusão Literária” após trabalhar como diretor de marketing em uma livraria da capital mato-grossense. Ele conta que criou um espaço de leitura na loja, para que o público pudesse ler trechos das obras. Porém, notou que os leitores iam diversas vezes ao local para terminarem de ler os livros, sem comprá-los. “Eu percebi que as pessoas terminavam de ler na própria livraria, sem comprar os livros, porque eles eram caros. A partir de então, tive a ideia de facilitar a leitura para quem não tinha condições financeiras”, explicou. Criado em 2005, o “Inclusão Literária” marcou uma nova fase na vida de seu criador. O primeiro passo foi a compra da “Furiosa”, que desde o princípio foi utilizada para servir de biblioteca itinerante. Clóvis Matos sempre teve o objetivo de levar os livros para as zonas rurais, como Pantanal, Manso e Poconé. Além do projeto “Inclusão Literária”, Matos também costuma ensinar audiovisual aos jovens presentes nas regiões onde faz distribuição de livros. Ele ensina a produzir obras que incluem som e imagem a partir da leitura dos jovens. Sem grandes apoios governamentais, o projeto teve pouco auxílio do governo. Clóvis relata que o “Inclusão Literária” possuiu somente uma ajuda custeada pelo Governo do Estado. O início da ação social foi avaliado em R$ 94 mil. O valor foi encaminhado para o programa de Lei de Incentivo Estadual, que concedeu apenas R$ 30 mil para ajudar na empreitada. “Houve uma outra vez em que o projeto foi aprovado pela Lei de Incentivo Federal à Cultura, e eu deveria captar verba. Mas fiquei dois anos e meio tentando, e acabei não conseguindo nada”, lamenta. Os gastos com gasolina, estadia e alimentação são pagos pelo próprio Clóvis, que não conseguiu nenhum tipo de ajuda financeira. Para auxiliá-lo na distribuição dos livros e na condução dos eventos, ele conta com voluntários. Alguns estudantes da UFMT costumam viajar com ele para outros municípios. Papai Noel Há 10 anos, durante o final de ano, aproveitando-se da aparência de bom velhinho, Clóvis Matos trabalha como Papai Noel em um shopping center de Cuiabá. O dinheiro arrecadado durante a ação é revertido para os seus projeJuliana Kobayashi Paixão pela literatura surgiu na infância, quando Clóvis morava no interior de Goiás 28 RevistaFuzuê Edição3 Desembro/2015 Para auxiliá-lo na distribuição dos livros e na condução dos eventos, ele conta com alguns estudantes voluntários


tos sociais. “Eu aceitei esse trabalho para conseguir mais dinheiro e tocar os meus projetos culturais. Gosto muito de ser papai Noel, porque isso me traz uma parte social”, explicou. No dia 25 de dezembro, quando encerra o trabalho no shopping, o homem vai a hospitais de regiões carentes do interior do Estado e distribui presentes para as crianças. “A gerente do shopping center me chamou para trabalhar como Papai Noel porque estava difícil encontrar alguém para o cargo. Então, aproveitei para ajudar nos meus projetos sociais, que estavam no início”, contou. Doações As doações de livros, de acordo com Clóvis, são feitas geralmente por adultos. Poucas obras infantis são doadas ao projeto. Para doar livros ou gibis para o projeto “Inclusão Literária”, basta entrar em contato com fundador do projeto. O telefone é (65) 8135-1176 ou através do e-mail [email protected] Beneficiados As pessoas que recebem o projeto de leitura de Clóvis mostram-se bastante gratas ao auxílio cultural que o homem leva às unidades escolares. Escolas do interior, que muitas vezes nem possuem uma biblioteca, são alvos das ações culturais. Professora de Língua Portuguesa em uma escola rural, no distrito mato-grossense de Aguaçu, Jucinei Neves é uma das entusiastas do projeto “Inclusão Literária”. A entidade escolar do campo não possui biblioteca. Através dos livros doados por Clóvis, ela conta que montou uma mala de leitura para trabalhar com alunos do 6º ao 9º ano do ensino fundamental. “O projeto é muito interessante. Levar cultura e conhecimento às terras longínquas é uma grandeza. O dispor dele deveria servir de exemplo até mesmo para as Secretarias de Educação", contou Jucineide Neves. Coordenadora pedagógica em um Centro de Educação de Jovens e Adultos (Ceja), Maria Aparecida Duarte classifica Clóvis como "um grande parceiro da cultura". Ela Ana Frávia Albuquerue Juliana Kobayashi Caminhonete “Furiosa” é uma das marcas registradas do projeto literário Trabalho como Papai Noel é uma das fontes de renda do servidor para conseguir manter o “Inclusão Literária” RevistaFuzuê Edição3 Desembro/2015 29


explica que o projeto "Inclusão Literária" auxiliou os alunos a aprenderem mais sobre as palavras. "Tiramos um dia para refletir sobre que educação temos e que educação queremos. Montamos uma sala temática, na qual nossos alunos tiveram acesso à leitura, oficina de leitura e doações de livros", relembrou. Maria Aparecida afirmou ser bastante grata ao incentivo que Clóvis traz às escolas do Estado. “Ele ajudou pessoas carentes financeiramente e que deixaram de estudar há muitos anos, por motivos diversos”, disse. Voluntários Uma das dificuldades encontradas por Clóvis para manter o projeto social é conseguir encontrar voluntários que o auxiliem em suas aventuras pelo interior de Mato Grosso. Um dos voluntários que já viajaram com o “Inclusão Literária” é o jornalista Daniel Morita. Morita conta que ajuda o projeto desde 2013, quando conheceu Clóvis através de um projeto de extensão da Universidade. A princípio, ele auxiliou o servidor na parte de audiovisual. “O ‘Inclusão’ funciona em parceria com o cinema circulante. Então meu papel principal era ministrar oficinas de audiovisual e fazer a comunidade rural transformar uma história e produzir para a tela”, comenta. O amor que desenvolveu pelo projeto fez com que o jornalista auxiliasse em todas as vertentes, incluindo carregar equipamentos e livros. “Só quando você faz parte de um trabalho desses, passa a ter a dimensão de sua importância. Em nossos trabalhos com crianças, jovens, adultos e velhos, eu vi a leitura transformar vidas”, revela. Apoio governamental Em meio a tantas paixões que o projeto desenvolve por onde passa, o fundador possui como objetivo transformar o “Inclusão Literária” em algo maior, com o apoio do Governo do Estado. Ele afirma que a falta de incentivo financeiro a projetos culturais ocorre pelo fato de Cuiabá não ser um grande centro. “Somos periferia. Se fosse Rio de Janeiro ou São Paulo, conseguiria recursos mais facilmente. Aqui é muito difícil”, disse. Por enquanto, apenas os Ana Frávia Albuquerue Confiança de que o conhecimento pode mudar o mundo é uma das motivações do Papai Noel inclusão literária Para Clóvis, a falta de incentivo financeiro ocorre porque Cuiabá não é considerada um grande centro


municípios próximos a Cuiabá foram contemplados com incursões do projeto, que ocorrem em quase todos os finais de semana. As regiões periféricas são os alvos. As zonas rurais do Pantanal, Manso, Barão de Melgaço, Chapada dos Guimarães, Acorizal e Poconé foram algumas das áreas que receberam a proposta. Em uma década do “Inclusão Literária” foram distribuídos 25 mil livros. As obras são doadas às pessoas que participam dos eventos, pois Clóvis é contrário ao empréstimo literário. Ele compartilha do pensamento de que os livros devem circular e, por isso, acredita que as doações contribuem para que mais pessoas tenham acesso à cultura. “Os livros contribuem muito para ajudar intelectualmente as pessoas. Por isso, não quero que elas devolvam, mas que passem para frente. A intenção é fazer as obras circularem”, explicou. Recentemente, Clóvis recebeu auxilio da Secretaria de Educação do Estado (Seduc-MT) para expandir seus horizontes. Porém, nada de grande impacto e melhorias no projeto. Apesar disso, o servidor da UFMT ainda sonha com o dia em que o projeto ganhe mais apoio e possa levar cultura para mais pessoas. Em 2016, Clóvis deve se aposentar. Ele espera que na nova fase da vida possa se dedicar mais aos projetos de incursões literárias. Juliana Kobayashi Clóvis espera que projeto receba apoio governamental e grandes incentivos para atingir maior público


Thayana Bruno


direito autoral Fuzuê - Os direitos autorais, servem pra quem? Eduardo Ferreira - Servem pra indústria, não protegem o autor. Normalmente, as editoras é que se beneficiam disso, porque se faz um contrato do autor com uma editora, você fica preso; você não tem mais os direitos sobre a sua obra, sobre a circulação da sua obra. Nem você mesmo, como autor. Fuzuê - A discussão foi ampliada, justamente pela classe musical, para que ocorresse essa distribuição, mas nunca ocorreu. É isso? EF - O Ecad (Escritório Central de Arrecadação e Distribuição), por exemplo, é muito falho, privilegia quem toca mais. Então quem toca mais na rádio, nos veículos de comunicação, acaba ganhando em cima de quem toca menos também. O tipo de amostragem é muito equivocado, muito elitista. Mas o cara que toca pouco em uma rádio não recebe quase nada, recebe centavos no final do apuro, e quem toca muito ganha em cima desse que toca menos também. É um absurdo isso, uma distorção da realidade. Eu fui relator do direito autoral na Conferência Nacional de Cultura, inclusive confrontei o Ecad com o pessoal da indústria. Mesmo os independentes dos anos 80 e 90, hoje são os reacionários, os caras que estão brigando contra. Mas eu tentei conversar com os músicos em Recife também... Falei "olha, nós nunca ganhamos nada e não vamos perder nada! Se você não ganha nada, você não vai perder nada, cara!"... "Ah, mas sou mais compositor do que intérprete"... Mas nossas músicas circulam muito pouco. THAYANA BRUNO Artista multifacetado, escritor, músico, jornalista, artista plástico e, principalmente, inquieto por natureza. Nessa edição de Fuzuê, o pensamento anárquico de Eduardo Ferreira vai de encontro aos direitos autorais praticados no Brasil. DIREITOS AUTORAIS entre a propriedade intelectual e a democratização da arte


Fuzuê – Você ia falando do caso do Gilberto Gil, que não tem os direitos... EF - O Gil foi fazer Creative Commons Brasil. Ele foi um entusiasta, de cara, da cultura hippie mesmo, do "hippar", porque a cultura é livre. Essa invenção é uma coisa da Modernidade, essa coisa da mercadoria, da indústria, pós-imprensa, pós-reprodução midiática, é que o direito autoral é novo, é do século XIX ou XX, é de 1830, se não me engano, a primeira discussão que teve no Brasil sobre direitos autorais. Mas lá na Grécia já tinha uma ideia disso, mas não tinha a produção em escala industrial das obras de arte. Quando o Gil foi liberar uma música dele para o Creative Commons lançar, descobriu que não tinha nenhuma música dele mais, todas as músicas dele estavam nas mãos de outros; tinham direito total sobre a obra dele. Ele achou apenas uma música. Mas achou uma no meio de centenas de músicas, todas presas nas mãos dos editores da indústria. Quer dizer, que direito é esse? Fuzuê - No caso da literatura ou das artes plásticas, a situação não é parecida também? Ou é pior? EF - Veja a explosão da arte de rua, por exemplo. Hoje a arte está saindo do museu e indo pra rua, ganhando as ruas. Eu acho isso muito saudável, muito interessante. Fuzuê - Aqui tem tido muitas iniciativas de coletivos de produção, Tecendo Caminhos, Rota... O que você tem visto disso? EF - Eu acho esse movimento fantástico, porque é realmente a ocupação da cidade; ocupar com cultura, com arte, uma forma de minimizar até os problemas sociais no centro da cidade. No Centro Histórico de Cuiabá, por exemplo, nós começamos o Sarau Free, na Praça da Mandioca, e o pessoal tinha medo de ir lá no início. Isso, três anos e meio, quatro anos atrás. Então, nos primeiros saraus foi pouquíssima gente. E fomos insistindo, insistindo e voltamos a dar vida ali pra Praça. Hoje, está consagrado e virou um point, um dos grandes points do centro da cidade. E também era um movimento de ocupação da cidade. Fuzuê - Você tocou no assunto dessa industrialização, dessa mercantilização desse produto artístico também... Essa questão de patentes, royalties, propriedade intelectual, é compreendida com muita complacência, de maneira geral, pela sociedade. Você acha que Thayana Bruno A arte pode transformar a cidade, defende Eduardo Ferreira


a arte tem um outro propósito? EF - Acho que a arte é o lugar onde você deve avançar nas propostas, nas ideias, onde a sociedade é a vanguarda - política, comportamental... Acho que a arte é o lugar da resistência, do avanço estético, da vanguarda política até. A arte é um ponto de ebulição do ser humano, em que as ideias mais avançam. Só que hoje a gente vê tanta intolerância, que até tolhe a capacidade... Tanta intolerância do lado fascista da história, que me deixa assustado. Fuzuê - Uma pegada moralista... EF - Moralismo exacerbado, fascismo mesmo. Todas as conquistas, os avanços que a gente conseguiu na Constituição de 88 no Brasil, os caras estão tirando tudo. A sociedade tem que se revoltar com isso, lutar contra isso. E a arte e a cultura sempre foram os pontos onde mais se avançou, e continuam sendo. Só que a gente sente uma regressão muito grande nesse sentido, do diálogo com a sociedade. Fuzuê - O Brasil é o sétimo pior país no acesso aos bens culturais, até mesmo para fins educacionais. Quais são as alternativas? EF - O Creative Commons é o caminho do meio. Eu sou fascinado pelo Copyleft, porque já é radical mesmo. No Copyleft você libera até para cópia e venda, até pra comercializar... e o Hakim Bey, com isso, circulou mais de 10 milhões de livros no mundo inteiro, na época. E isso é fantástico. Fuzuê - Pelo que você comenta, parece muito mais limitadora essa visão do direito autoral de receber aquela porcentagem pequena, aquela grana, e acabar cerceando o acesso ao material. EF - Limita o acesso e não ganha quase nada. Agora o que eu acho é o seguinte: a questão da mercadoria, da obra de arte e, principalmente, das coisas que são reproduzidas, da arte serial, vamos dizer assim, o livro, o CD, o cinema, que é uma grande indústria. Eles vêm com esse grande fetiche que virou a sociedade hoje de mercado... Tudo é consumo. Então ele também entra nesse fetiche consumista do artigo de luxo; mercadoria para quem tem condições de consumo. Enquanto eu tenho uma visão da cultura livre, de que ela não pode ter barreiras, sejam mercadológicas, sejam de fronteiras nacionais etc. A cultura é livre por si, por definição. Você respirando ou tossindo, já está produzindo cultura, a roupa que você veste, a comida que você come, todo o seu fazer diário, são fazeres que produzem uma cultura, uma ideia de cultura. Quando você a torna mercadoria, restringe-se o acesso... E, além do totalitarismo do mercado, tem o totalitarismo do Estado. Hoje, por exemplo, sob a égide dos editais de cultura... É um perigo, uma faca de 10 mil gumes, porque o Estado dá, mas te cerceia também. Primeiro, só dá para aquele que está de acordo. Fuzuê - É uma decisão política... EF - É extremamente político, a gente não escapa da política em nada, em nenhuma circunstância. Então, há o perigo do totalitarismo do Estado aí, do controle da produção cultural e o direcionamento dela. Fuzuê - E a via pra uma produção autossustentável? EF - Esse é o grande enigma, a grande dificuldade que a gente encontra... Assim, têm estruturas coletivas hoje que se abrigam, que trocam, que vão se mantendo... Mas a maioria sonha com o sucesso de mercado, que seria a extrema independência e autonomia. Mas qual é o custo disso? O custo social disso? E também é uma janela para pouquíssimos... É igual jogar futebol: a maioria dos jogadores no Brasil ganha 500, 200, 300 reais... Tem meia dúzia ganhando milhões. É como na arte também. Toda estrutura de espetáculo da sociedade tem regras terríveis, dificuldades maiores ainda e um controle brutal até, perverso. Então, quem quer ganhar dinheiro, devia fazer outra coisa! (risos) Fuzuê - Você acha que esses caminhos têm potencial pra modificar essa lógica ou isso é utópico? EF - A utopia serve para nos mover. Por exemplo, a internet hoje propicia uma facilidade muito maior de você se tornar conhecido e circular com sua obra, porque você não vai vender CD e livro como antes. Pela internet você tem a possibilidade de se tornar autossustentável, muito mais do que antes. Isso é fantástico, tem uma perspectiva legal. E têm outros exemplos de trabalhos que estão dando certo via rede. Com o crowdfunding, por exemplo, tem muita gente fazendo filme, livro... Quer dizer, essas são alternativas bacanas, que não têm essa limitação que a indústria sempre impôs. Tudo que tiver uma perspectiva libertária tem lá o meu apoio. RevistaFuzuê Edição3 Desembro/2015 35 Thayana Bruno O direito autoral impede a circulação da arte, afirma Eduardo Ferreira


Jhenifer Heinrich


imigração haiti e cuiabá uma só realidade “Eu ando pelas ruas com o bom Deus no meu bolso. Eu ando na cidade grande, eu sinto frio, mas esta terra é minha amiga. E quando eu durmo, sinto falta do meu país, que é tão pequeno. Adeus, meu pequeno país. Adeus, minha família. Adeus, minha ilha Haiti. Oh, adeus, minha pequena terra...”. Da mesma forma que Adieu Haiti (Adeus Haiti), de Raphael Aroche, começa, assim começa também a história de Fabri Aldy no Brasil. Com uma mala nas mãos, pouco dinheiro, muita vontade de trabalhar, e seria clichê se não representasse a verdade: “e com muitos sonhos na bagagem”, assim milhares de haitianos migram para o Brasil, e Cuiabá é a terceira cidade do país que tem mais imigrantes em busca de uma condição de vida melhor, vindos do Haiti e África do Sul. No Brasil, há casos de migração dentro do próprio território. Além do êxodo rural, que teve início por volta de 1960, um dos maiores exemplos, e dos nordestinos que migraram e continuam se mudando para a capital paulista atrás de trabalho e melhor perspectiva de vida, temos a construção de Brasília, em 1957, momento em que mineiros, gaúchos, nordestinos e pessoas oriundas de toda a parte da federação foram até o planalto central para fazer acontecer uma nova cidade, uma nova vida. JHENIFER HEINRICH


Cuiabá é assim também. Em meados de 1970, desbravadores colonizaram Cuiabá atrás de ouro, e assim se deu o “cuiabano”, formado por tantos lugares e mistura de culturas. Em busca dessa então nova vida, em 2014 a capital mato-grossense sofreu outra grande migração: os haitianos. Estes vieram em busca de trabalho e o sonho de ajudar suas famílias deixadas na ilha, devastada por um grande terremoto em 2010, que até hoje apresenta seus efeitos. E a cultura? E o cuiabano? Este, formado e fidelizado há mais de 300 anos, hoje se molda com as pessoas que aqui chegam, buscando sanar as mesmas necessidades de 1700: viver melhor. O haitiano, o senegalês, o boliviano, o migrante dali e acolá já faz parte da cultura cuiabana. É só andar no centro da capital para percebê-los em meio a olhares desatentos e apressados do dia-a-dia. Fabri Aldy é um deles. Haitiano, deixou seu país há dois anos, a Copa do Mundo que fora sediada no Brasil o trouxe para o país. Após 15 dias de viagem entre Equador, Peru e Bolívia, Fabri e mais 24 pessoas, entre mulheres e crianças, chegam à cidade de Brasiléia no Acre. O grande passo era conseguir os documentos que o permitiriam ficar no Brasil, inclusive o CPF, para que pudesse tirar a carteira de trabalho. Todos sozinhos, mas se fazendo companhia na praça central da cidade. ali eles dormiam, comiam e faziam planos. Planos que os trouxeram para Cuiabá. 2015. Fabry Aldi. 26 anos. Negro. Fala crioulo, inglês, francês, espanhol e português. Formado em História. Desempregado. Além de Fabry, converso com um, dois, três, sete imigrantes que estão no centro de Cuiabá, entre os Correios e a Praça Ipiranga. Alguns deles senegaleses, outros haitianos como Fabry, todos com um propósito: trabalhar. Três deles vendem óculos e relógios que compram mensalmente em São Paulo. Com o dinheiro que conseguem, compram suas passagens para a capital paulista, pagam seu aluguel em Cuiabá, comem e ainda mandam dinheiro para a família que ficou no Haiti. É. O que eles ganham a conta-gotas no centro da capital mato-grossense sustenta suas necessidades e ainda ajuda quem ficou na pequena ilha. Os outros imigrantes ficam ali, dançam com os amigos e ajudam a vender. Esperam uma oportunidade melhor. Fabry conta que não pretende trazer sua família para o Brasil. “Aqui é muito difícil dinheiro. Vida muito difícil. Haiti é pior, lá não tem dinheiro nem pra comida. Mas Brasil, pra minha família, não tem jeito. Só se morar na rua, e não quero isso pra eles. Quero ganhar meu dinheiro, ajudar eles (sic) e voltar para meu país”, imigração 38 RevistaFuzuê Edição3 Desembro/2015 Fabry Aldi tem 26 anos, é graduado em História e fala cinco idiomas. Ele é um dos hiatianos que vieram tentar a sorte em Cuiabá


e eletricistas experientes, até pós-graduandos poliglotas –, o importante para esses novos imigrantes é recomeçar a vida. Saindo do Haiti A saída de cada Haitiano de sua terra natal demanda um tremendo esforço financeiro da família. Para as despesas da viagem que custam até cinco mil dólares, cerca de 20 mil reais, é comum a prática de tomar empréstimos de agiotas. O trajeto até o Brasil dura cerca de 15 dias, podendo levar até um mês. A chegada a Cuiabá O ingresso em território nacional ocorre por duas cidades: Brasiléia (fronteira com a Bolívia) e Assis Brasil (fronteira com Peru). Seja qual for, os migrantes vão até Epitaciolândia, no Acre, para solicitar junto à Polícia Federal uma solicitação formal de refúgio. Para os que não conseguiram o visto humanitário em Porto Príncipe (capital do Haiti), é uma forma de permanecerem no Brasil. A partir de então, os migrantes se dividem: São Paulo, Curitiba, Cuiabá... A Pastoral para Imigrantes de Cuiabá é uma casa de apoio para quem chega em Cuiabá vindo de outros países. Em 2012, passaram pela Pastoral 47 haitianos. Em 2013, o número de imigrantes passou para 197 pessoas por dia, totalizando 1635 imigrantes. Destes, 1409 eram haitianos. Já em 2014 foram 730 haitianos. Conforme o Centro de Pastoral para Migrantes, são 2,5 mil haitianos morando na capital. Do total, apenas 751 estão devidamente registrados na Polícia Federal, em Cuiabá. O Estatuto dos Refugiados (Lei 9.474/1997) estabelece que, uma vez pedido o visto humanitário à Polícia Federal, que se trata de uma maneira formal de ter refúgio e proteção do Estado, ele fica autorizado a fixar residência, até a decisão final do processo, a cargo do Comitê Nacional para Refugiados (Conare), órgão vinculado ao Ministério da Justiça. Em Cuiabá, pelo menos 90% desses imigrantes são homens. Alguns deles têm curso superior, mas não têm autorização para trabalhar no Brasil. O processo de regularização diz Fabry. Quando o cuiabano avistou um grupo de 24 imigrantes haitianos chegando à capital em meados de 2012, não podia prever o início de um fluxo migratório sem precedentes na história recente da cidade. O que parecia episódio se revelou um processo crescente de entrada de estrangeiros. Passados quase quatro anos, o número de haitianos no país ultrapassa 23,5 mil, cerca de 2,5 mil em Cuiabá. Metade deles com nível superior em sua bagagem. Entre roupas coloridas e uma variedade de qualificações – há desde marceneiros Pamela Castro Imigrantes vendendo acessórios no centro da cidade imigração RevistaFuzuê Edição3 Desembro/2015 39 Dos 2,5 mil haitianos residentes em Cuiabá, apenas 751 estão devidamente registrados na Polícia Federal


pode demorar até três anos. Desse modo, têm que atuar em outros serviços em que não se exige curso superior, como na construção civil, por exemplo. Trabalho em Cuiabá Impulsionados pela esperança de uma vida nova, os haitianos anseiam primeiramente por trabalho. Devido ao desemprego generalizado no país caribenho, a mão de obra haitiana se tornou uma das mais baratas do mundo, ficando abaixo da chinesa. Para se ter uma ideia, o salário mínimo no Haiti hoje é 225 goudes por dia, que equivale a R$ 410 por mês. Na China, o valor mensal é de R$ 767 e no Brasil, R$ 788. Em 2014, na época da Copa, Fabry conseguiu emprego na construção civil depois de uma semana, que é a média de tempo de espera por trabalho, recebendo entre R$ 700 e R$ 900 mensais. Eliane, secretária da Casa do Imigrante, diz que eles saem dali só quando tiverem arrumado emprego e casa para morar, seja fornecida pela empresa que irão trabalhar, seja alugada por eles. A faixa etária desses haitianos é de 21 a 40 anos. No ano passado, foi criada a Organização de Suporte das Atividade dos Haitianos no Brasil (Osabh), para compartilhar as dificuldades que enfrentam, como a legalização da permanência no Brasil e emprego na capital. A esperança de uma vida melhor por conta do Mundial não foi correspondida: com o fim das obras para o mundial, muitos haitianos foram demitidos. Por isso, vários Pamela Castro Fabry, um dos haitianos que trabalham como ambulantes, comercializa óculos, relógios e pulseiras


imigrantes estão entrando para o mercado informal, trabalhando como ambulantes ou outras atividades relacionadas. Apesar da tentativa de novos empregos, a dificuldade para permanecer em Cuiabá é grande. “Nós precisamos de ajuda dos empresários”, diz Fabry, que trabalha há um ano e quatro meses como vendedor ambulante no centro da capital. Em uma panificadora de Cuiabá, trabalham dez haitianos. O gerente, Mário, afirma que os haitianos são mais dispostos ao trabalho e se interessam em fazer horas extras. Dessa forma, além de ajudar a resolver um problema social, o empresário afirma que ganha uma mão-de-obra sem vícios, proativa e mais disposta que a brasileira. Relação entre Brasil e Haiti O Haiti está localizado na América Central e divide seu território com a República Dominicana. Ele é considerado o pior país de todo o continente para se viver. A relação do Brasil com o país teve início com um pedido de ajuda da Organização das Nações Unidas (ONU), em 2004. Na época, o então presidente do Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva, se ofereceu para liderar uma missão internacional de paz para o Haiti. A Missão das Nações Unidas para a Estabilização no Haiti (MINUSTAH) foi criada em 2004. Uma década se passou e a situação no Haiti continua degradante. Em 2010, um terremoto abalou mais ainda a estrutura do país, matando milhares de pessoas e desabrigando outros milhões. Em dezembro do ano passado, o Ministério Público Federal (MPF) instaurou um inquérito civil público para fiscalizar a assistência prestada aos haitianos que residem em Cuiabá. Conforme o procurador da República, Ronaldo Pinheiro de Queiroz, cabe à instituição assegurar o efetivo respeito dos poderes e proteger os princípios de cidadania e dignidade humana. Duas culturas, uma só expressão O fluxo migratório de haitianos ao Mato Grosso representa uma grande oportunidade de desenvolvimento econômico e cultural para o Estado. Eles já se revelaram pessoas trabalhadoras, alegres e cordiais, características típicas do mato-grossense. O grande desejo do haitiano é conquistar seu espaço e estar inserido na sociedade. "Eles procuram terra para dar pão. Ou seja, trabalhar para conseguir se manter", afirma o padre Jean Jacky Genesté, que ministra missas para os haitianos. A dificuldade com o idioma é um dos entraves dos imigrantes provindos do Haiti, país que utiliza as línguas francês e crioulo. “A comunicação é uma das coisas mais difíceis para os haitianos”, pontuou Fabry, que fala português avançado. A Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT) possui um programa para ensinar português aos haitianos. O cuiabano tenta ajudar como pode. Compra uns óculos aqui, um relógio ali, auxilia no curso de línguas numa universidade, ou oferece emprego fixo e salário garantido todo mês. E entre um sorriso branquinho e grande, um som tocando música haitiana (muito parecida com o axé da Bahia), passos largos e olhares desatentos, o haitiano se faz cuiabano, compartilhando do calor, da alegria e da luta diária pela vida e bem -estar da família. Isso é Haiti. Isso é Cuiabá. Pamela Castro Depois do término das obras da Copa, imigrantes ganham a vida como ambulantes imigração RevistaFuzuê Edição3 Desembro/2015 41


Thayana Bruno


a arte CIDADÃ jovens artistas Saindo da capital, o curso do Rio Cuiabá conduz para a entrada do Pantanal matogrossense. 27 km abaixo, encontramos Santo Antônio de Leverger. Berço de saberes tradicionais, de gente espontânea, de cururu, siriri, boi-a-serra, que já foi movida a açúcar e hoje é movida a peixe e turismo. Cruzada a placa que anuncia a chegada à terra de Rondon (o Marechal), a travessia até o centro da cidade dura três minutos, quatro bares e cinco carros com o som no volume máximo. Encontramos uma casa de esquina ao seguir os meninos de violino na mão, acelerando as bicicletas. Não teve erro, chegamos à associação Arte Cidadã. A porta está aberta, e as coisas parecem ser sempre assim. Na sala maior, com auxílio de um colega mais experiente, os iniciantes ensaiam as cordas; a sala de piso vermelho acolhe as confidências das amigas que passam o último trecho da peça que irão tocar na clarineta; à esquerda, mais um ambiente repleto de cadeiras e estantes para partituras. O quarto é o único cômodo privativo da casa; na mesa da cozinha, mais partituras. Todos estão um pouco apreensivos e eufóricos: é dia de apresentação! Sábado, o almoço é coletivo na associação. No quintal, Jeferson Ribeiro pilota a churrasqueira improvisada, mas muito bem engenhada, enquanto conta as coisas da arte e da vida. São 23 anos de trabalho dedicados ao ensino de música na comunidade, música erudita em uma cidade que não conhecia nada sobre ensino formal da matéria. A associação Arte Cidadã é fruto de um projeto iniciado em 1992, na igreja da cidade. Os corais nasceram lá e transbordaram as expectativas do jovem que havia se dedicado à Pedagogia e à Filosofia até então. THAYANA BRUNO


Ele conta que a música foi tomando um espaço imenso e que precisou buscar qualificação para continuar o trabalho. “Depois que a música entrou, a Pedagogia ficou de canto”. Ele cursou bacharelado em Música na Universidade Federal de Mato Grosso e, com a companheira de música e de caminhada, Maguidalena Silva Ribeiro, doa espaço, tempo, conhecimento e amor ao projeto que gera mais de 150 atendimentos a crianças e adolescentes por semana. Companheiros Magda (para os mais chegados) preside a Associação e conta que o projeto é sustentado com doações de colaboradores. Para outros investimentos, como a compra de instrumentos ou a realização de uma viagem para apresentação, por exemplo, é necessário angariar fundos com eventos. No repertório constam feijoadas e festivais de pastéis – muito elogiados, por sinal. Formalizados com CNPJ e tudo o mais, como manda a cartilha, possuem apenas dois anos. Por isso, alguns entraves ainda persistem para a inscrição em editais de cultura nacionais, com os estaduais, conta Magda, jamais foram contemplados. Mas entre tantas dificuldades, no ano passado as energias se renovaram, a equipe se fortaleceu. O projeto que tinha os corais infantil e juvenil e curso de violino passou O projeto é sustentado com doaçoes de colaboradores. Para a compra de instrumentos ou a realização de viagens, as feijoadas e os festivais de pasteis arrecadam capital É comum a música ficar marginalizada no ensino escolar


a oferecer também curso de clarineta e viola. Ao conhecerem o trabalho social desenvolvido pela associação e o bom resultado estético alcançado com as crianças e adolescentes, os professores doutores Vinícius Fraga (clarineta) e Oliver Yatsugafu (violino) do curso de Música da UFMT propuseram as aulas na associação como cursos de extensão da Universidade. Desse contato, se aproxima também a professora Keroll Weidner (viola). O porquê da música É recorrente no nosso país ser necessário justificar o ensino do que não é exato, pragmático ou que não caia no vestibular como algo que poderá ter um efeito secundário na vida dos alunos. Costuma ser o caso do ensino das artes de maneira geral, observa Jeferson. O ensino da música para ser acolhido por uma escola, por uma comunidade e até pelo poder público, além de precisar provar sua utilidade no desenvolvimento cognitivo para aplicação em outras esferas do conhecimento, ou ainda, em afastar os jovens do ócio, das drogas, da violência e infinitas outras potencialidades. Sim, ela também serve para tudo isso, mas ele enfatiza: “Na verdade, a música é importante por ela mesma! Ela é uma área do conhecimento. É importante para a formação humana das pessoas”. Ele afirma ser jovens artistas Thayana Bruno “Na verdade, a música é importante por ela mesma! Ela é uma área do conhecimento. É importante para a formação humana”


imprescindível esse trabalho de formação de público, esse trabalho didático, e analisa que daqui a um tempo a demanda será muito mais natural e intensa. O professor de clarineta, Vinícius Fraga, faz coro, indicando outra questão delicada. “A música ficou um tempo fora das escolas, ela nunca teve o valor que deveria ter no ensino. O segundo regime militar tirou a filosofia e a música também do currículo escolar. E isso culminou no fato de que as pessoas não sabem pra que serve. O ensino da música ficou de fora da vida das pessoas. Estudar, conhecer, faz com que a pessoa se torne um cidadão que aproveita melhor a vida. Conhece o mundo por outras perspectivas, que não só a dele. O ensino da música é uma dessas facetas que tornam a vida diversa, que tornam a vida da pessoa colorida”. Jeferson destaca a história dos professores Oliver e Vinícius, que tiveram a formação musical inicial em projetos sociais semelhantes. Tiveram a oportunidade e são profissionais experimentados, com experiências internacionais e que escolheram estar em projetos sociais justamente por saberem a importância que eles possuem. A ideia, explica Jeferson, é que tudo se renove. “Eu e a Magda estamos envelhecendo, eles serão os próximos a tomar as rédeas do trabalho. Dar continuidade ao que se faz aqui ou ir para outros lugares, e seguir”. Thayana Bruno A ditadura militar (1964-85) tirou a música do currículo escolar


Às 8 horas da manhã de um dia comum, em março de 1984, embarcavam no Trem do Pantanal em Corumbá, Mato Grosso do Sul, o senhor Moisés Vieira de Almeida, sua esposa Benedita Nunes de Almeida e seus cinco filhos, com destino a Campo Grande, capital daquele Estado. Às 19 horas do mesmo dia, chegaram à lotada estação de Campo Grande. A mãe cuidava dos menores, enquanto o irmão mais velho fazia o transporte das malas. Dali mesmo partiram para a rodoviária, onde pegariam um ônibus que percorreria 700 quilômetros com destino a Cuiabá. Com a consciência e compreensão dos desafios que viver em uma nova cidade representavam, os pais carregavam no coração a esperança de um futuro melhor para seus filhos. Essa expectativa se confirmou ao longo dos últimos 30 anos, período em que enfrentaram adversidades, todas pacientemente superadas e suplantadas pela certeza de que a decisão tomada três décadas antes foi acertada. A história da família Almeida não é única e se repete com outras famílias como os Guedes, os Oliveira, os Fagundes, que aqui chegaram, de carro, avião ou ônibus. São médicos, professores, dentistas, entre tantos outros profissionais que para cá vieram, nas mais diversas épocas, em busca de oportunidades que a cidade oferecia e ainda oferece. É o ‘oxe’ do nordestino, É o ‘tchê’ do gaúcho, e diversos sotaques que se fundem ao ‘Ê, ahh!’ cuiabano. Os que vêm de fora logo são identificados como Xômanos e Xômanas, expressões cuiabanas comumente usadas para chamar alguém de amigo. Além disso, tornam-se testemunhas das transformações locais, que convivem em harmonia com a preservação de alguns traços do passado. Os monumentos como a estátua de Maria Taquara e o chafariz do Mundéu, além dos prédios antigos da capital, remetem o povo à sua história, rememorando muitas conquistas para que a cidade se tornasse o que é hoje. Cuiabá se desenvolveu bastante em quase três séculos de fundação, e muito dessa transformação pode ser atribuída ao trabalho dos cidadãos comuns, anônimos, que para cá vieram. São histórias que encantam pela singeleza e impressionam pela força de vontade, inerente àqueles que enfrentam os desafios em busca de uma vida digna e próspera. É muito difícil encontrar alguém que tenha vindo para cá e não diga que valeu a pena, por isso é que quem nasce em Cuiabá, é cuiabano. E quem vem de fora, também. Essa cidade não é quente somente por causa do clima que muitas vezes pode passar dos 40°C, mas também pelo calor do povo acolhedor. A capital de Mato Grosso recebe pessoas de diversos outros Estados, que escolheram escrever aqui a sua história e dizer de coração aberto, como no trecho da música acima de Zé Bolo Flor, personagem folclórico da região, “eu sou de Cuiabá”. “Eu vim, eu vim, eu vim, Eu vim de lá pra cá Eu sou, eu sou, eu sou, Eu sou de Cuiabá” ISABELA MEYER pau rodado “Quem nasce em Cuiabá, é cuiabano. E quem vem de fora, também” RevistaFuzuê Edição3 Desembro/2015 47


Jhenifer Heinrich


Primeiro semestre de 2015, Auditório do Instituto de Educação da Universidade Federal de Mato Grosso – Campus Cuiabá, acontecia a tradicional “Semana dos Calouros” de Comunicação Social. Neste evento, a instituição é apresentada aos novos alunos, e trabalhos e projetos são expostos pelos veteranos. Um professor anuncia o início da apresentação de uma aluna. Ela toma posse do microfone e se pronuncia: “Me desculpe, professor. Eu gostaria de ser tratado no gênero masculino. De agora em diante, meu nome é Valentim!”. Mesmo em silêncio, pôde-se observar os olhares, os cutucões, a surpresa no rosto dos presentes. Valentim da Costa Félix estufou o peito como se sentisse orgulho e alívio ao mesmo tempo, e deu continuidade à sua apresentação. O jovem, hoje com 25 anos, nasceu em Cuiabá, Mato Grosso. “Nasci no dia quatro de junho de 1990. Sou do signo de gêmeos, com ascendente em escorpião, Lua em escorpião e Vênus em Touro”. Defendendo sua crença astrológica, é necessário dizer que o seu signo ascendente é regido pela palavra ‘transformação’. Não só o signo, como sua vida inteira. Desde criança reconhecia não se encaixar nos “padrões sociais”, mas nunca soube, até então, o que acontecera consigo. Na infância nunca julgou suas ações como de “menino” ou de “menina”: brincou de boneca, mas também de carrinho, e nunca viu problema algum nisso. Era uma criança extremamente obediente, porém com uma curiosidade e imaginação fora do comum. Era capaz de brincar sozinho durante horas. Na adolescência é que as coisas começaram a ficar diferentes. A pressão dos familiares “e os namoradinhos?” começou a ficar mais forte. Nessa época, Valentim se identificava como uma mulher lésbica, ainda que nunca tivesse se relacionado com outra mulher, e, por pertencer a uma família extremamente religiosa, teve medo de não aceitarem bem a notícia. Como fuga, entrou para o convento a fim de não cometer tal “pecado”, e foi aí que lutou contra si mesmo para combater suas vontades. Visto que não tinha vocação para a carreira religiosa, as freiras propuseram que ingressasse na faculdade de Pedagogia. Assim fez Valentim, que ainda não respondia por esse nome. Não se identificou com a faculdade, decidiu fazer Jornalismo. Após idas e vindas ao curso em uma instituição particular, passou na UFMT. “Na UF, eu encontrei a minha casa. Lá todos tinham a vida que eu queria ter, todos se aceitavam”. E o aceitaram tanto inicialmente como mulher lésbica, quanto hoje como homem trans bissexual. Durante sua descoberta e aceitação, Valentim contou com o apoio de uma pessoa muito importante neste processo. Ariana Petsch, sua exnamorada, foi quem percebeu seus primeiros traços de transexualidade. “Ela tinha um extinto muito protetor. Sei que isso não é meio de diferenciar gêneros, mas era como o pai dela, por exemplo. Ela dizia que sempre quis ser como ele, e agia como tal.” É claro que o preconceito acontece em todos os lugares, mas Valentim é rodeado de amigos que o apoiam em suas decisões. Bruna, sua melhor amiga, esteve ao seu lado durante todo o processo de aceitação e transformação. “O Valentim tinha medo de me contar sobre sua transição, porque muitos ‘amigos’ mudaram com ele quando ele contou, mas eu não tinha motivos para não aceitá-lo, para não tê-lo como amigo. Minha amizade com o Tim é uma via de mão dupla. Nossa irmandade é tão forte, que se passou um ano e ele faz parte da minha família, assim como faço parte da família dele”. O garoto, hoje, não curte tanto balada, prefere assistir a seriados e fazer programas mais tranquilos, de preferência bares e reuniões com os amigos. Valentim passou toda a sua vida tentando se identificar e se aceitar, e só o conseguiu aos 24 anos, quando então decidiu iniciar a hormonização. Hoje, coordenando a Ibrat-MT, afirma que as questões de gênero devem ser discutidas para que as pessoas tenham maior conhecimento para ajudar umas às outras. “O que dificulta muito o diálogo e a conquista pelos nossos direitos é a bancada evangélica. Nós temos projetos de leis incríveis e que são barrados no Congresso... Infelizmente, não vivemos em um Estado laico”. O mais incrível de tudo é que em meio a tantos desafios e descobertas, ele sabe que ainda tem um mundo inteiro pela frente, e que, embora ainda haja muitos obstáculos a transpor, ele está feliz em superar cada um deles como a pessoa que sempre sonhou ser. meu nome é VALENTIM! ANA PAULA DOS SANTOS perfil trans RevistaFuzuê Edição3 Desembro/2015 49


Isabela Meyer


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