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A identidade desta cidade é não ter uma feição só que a identifique. Cuiabá definitivamente abriu mão do elemento único, do caráter homogêneo do povo, das <br>cores, dos jeitos. O emaranhado desta terra é a sua maior qualidade, sem cair no lugar comum, na obviedade que caracteriza as histórias mais pobres.

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Published by Revista Fuzuê, 2023-09-11 21:45:49

Fuzuê | Edição 03

A identidade desta cidade é não ter uma feição só que a identifique. Cuiabá definitivamente abriu mão do elemento único, do caráter homogêneo do povo, das <br>cores, dos jeitos. O emaranhado desta terra é a sua maior qualidade, sem cair no lugar comum, na obviedade que caracteriza as histórias mais pobres.

Desbravadores de terras brasileiras entre os séculos XVI e XVIII, os bandeirantes buscavam, entre outras coisas, riquezas e escravos. Paulistas originários principalmente de São Paulo e São Vicente, os bandeirantes abriam trilhas no meio da mata, sendo guiados pelo curso de rios. Foi assim que os bandeirantes Pires de Campos e Pascoal Moreira Cabral chegaram a São Gonçalo Velho, à margem esquerda do Rio Cuiabá, em 1673. Há relatos de que os primeiros ocupantes daquela região encontraram uma pequena imagem de São Gonçalo dentro do rio e, por isso, batizaram a comunidade com o seu nome. Localizada a 11 quilômetros do centro da capital, ela abrange outras áreas urbanas de Cuiabá, como o Coxipó, Parque Geórgia, Coophema, Parque Atalaia e Vista Alegre, de acordo com dados do Instituto de Pesquisa e Desenvolvimento Urbano (IPDU). Hoje, a população de São Gonçalo Beira Rio está estimada em cerca 100 famílias e 450 moradores, como Dalmi Lucio de Almeida, 74, que começou a trabalhar na presidência da associação de moradores em 1989. Vivendo na mesma casa há 53 anos, deixou o munícipio de Moema, em Minas Gerais, e veio para Mato Grosso com a família em 1962. “Nesse tempo não existia estrada, água, luz. Não tinha nada. A nossa água era a água do rio e, para ir à cidade, ou era pelo Parque Cuiabá, ou atravessava de canoa”, relata. Entre 1914 e 1930, havia a Usina de São Gonçalo, na margem direita do Rio Cuiabá. O açúcar e o álcool produzidos ali eram destinados ao consumo nos engenhos. Com a queda da produção açucareira e a grande quantidade de argila acumulada nas margens do rio e nas várzeas, uma nova oportunidade de sobrevivência para os habitantes da comunidade surgiu com a cerâmica. SÃO GONÇALO BEIRA-RIO uma história pra se contar ribeirinhos ISABELA MEYER FERNANDO PRADDO


Artesanato ceramista O barro extraído da margem do rio era colocado em uma canoa e levado para São Gonçalo a remo. Potes, moringas, entre outros artigos, quando prontos, eram novamente colocados na canoa e levados ao porto para a venda. Os maiores consumidores desse material eram as pessoas que transitavam na região com lanchas, na época em que o rio ainda era navegável, e compravam para levar a Corumbá. A partir de 1960, os ceramistas acrescentaram à sua produção de cerâmicas utilitárias peças mais artísticas e ornamentais, como figuras de animais e santos. Hoje, cerca de dez pessoas trabalham como artesãos em São Gonçalo, inclusive na loja da comunidade, onde as peças são 52 RevistaFuzuê Edição3 Desembro/2015 Isabela Meyer Isabela Meyer Os restaurantes ficam localizados à margem dos rio Coxipó Além da comida, os frequentadores podem adquirir artesanato produzido pelos moradores da comunidade


expostas para serem comercializadas. Dalmi Lucio de Almeida, o presidente do bairro, afirma que do processo de coleta do barro até o produto final são necessárias nove etapas. Primeiro, “é preciso quebrar, colocar de molho, amassar, fazer, rapar, alisar, pintar e queimar”. Atualmente, os artesanatos são feitos pelas pessoas idosas da comunidade. Esse fator tem gerado uma preocupação quanto à herança cultural, que não tem sido passada de uma geração para outra. “O artesanato é uma coisa que você faz para viver. Você vai tirar o seu tempo para aquilo ali, e se aquilo não der renda, você não vai poder continuar”, conclui. Ainda conforme Dalmi, é possível que daqui a algum um tempo, seja necessário contratar uma Isabela Meyer RevistaFuzuê Edição3 Desembro/2015 53 Atualmente, os artesanatos são feitos pelas pessoas idosas da comunidade, o que tem gerado preocupação quanto à herança cultural Isabela Meyer A religiosidade é traço presente na comunidade


pessoa para produzir peças em grande escala, mesmo que ainda hoje cada família disponha de um forno para a queima das peças em casa. O rio está pra peixe... No início de 2003, surgia a primeira peixaria em São Gonçalo Beira Rio. A Arte Bar juntava, em um espaço só, duas das maiores referências que a comunidade representa hoje para os cuiabanos: a arte e a culinária. O peixe, elemento principal dos restaurantes de São Gonçalo, é preparado de todas as formas: assado, frito, moqueca, no molho ou pirão. Hoje, com 24 peixarias e cerca de 200 pessoas trabalhando por final de semana, em contato direto com o público, são vendidos até quatro mil quilos de peixe na comunidade em dias de movimento intenso. “Hoje, o povo do São Gonçalo vive daqui, ninguém sai para trabalhar fora mais”, conta Dalmi Lucio de Almeida, dono da antiga Arte Bar. No entanto, antes de haver todas essas peixarias, as pessoas viviam do trabalho da roça e da pescaria, sendo esta uma profissão quase extinta na comunidade. Atualmente, só é extraído do Rio Cuiabá o peixe de couro para consumir na comunidade. Do canavial que existia naquela área, produziam-se rapaduras. As mangas eram recolhidas no seu devido tempo para serem vendidas no porto, o que não acontece mais, por causa da fácil acessibilidade em se encontrar a fruta na capital mato-grossense. Muitos cuiabanos costumam ir ao menos uma vez a cada dois meses em São Gonçalo Beira Rio, seja com a família ou com visitantes de fora que se encantam com o local, que na opinião da funcionária pública Gislayne de RECEITA DO CHEFE Além de estarem presentes nos rodízios que as peixarias em São Gonçalo Beira Rio oferecem, com custo entre R$ 24,90 e R$ 50, as ventrechas de pacu são um dos pratos mais populares nos pedidos a la carte. A receita abaixo serve até seis pessoas. Ventrecha de Pacu a moda São Gonçalo Ingredientes: 12 ventrechas de pacu sem espinha 3 limões Sal e vinagre a gosto 3 xícaras de farinha de trigo 8 dentes de alho Óleo quanto baste para fritar ribeirinhos 54 RevistaFuzuê Edição3 Desembro/2015 Isabela Meyer


Souza Arruda Reis, 33, “parece que é o único cantinho que ainda é Cuiabá”. Festas tradicionais Os moradores do São Gonçalo Beira Rio realizam quatro festas por ano, que já fazem parte do calendário cultural da capital matogrossense. A primeira é dedicada ao padroeiro da comunidade (São Gonçalo), em janeiro. A segunda e mais popular é a Rota do Peixe, que teve a sua 9ª edição em 2015, e acontece como parte das comemorações do aniversário de Cuiabá, em abril. A terceira é a festa do pescador, que acontece no mês de junho. A última é a dos ceramistas, que completou a sua 4ª edição em novembro deste ano. Um dos maiores objetivos dessas festas é induzir as pessoas a conhecerem São Gonçalo Beira rio e o que a comunidade tem a oferecer. As feiras de artesanato, o concurso de quem come mais mojica e as apresentações de bandas regionais são alguns dos atrativos dessas festas que têm, a cada ano, conquistado mais pessoas. Já houve festa que conseguiu arrecadar de R$ 3 mil a R$ 20 mil de lucro. Todo o dinheiro é revertido para o crescimento de São Gonçalo Beira Rio, e a construção da igreja da comunidade é um exemplo disso. “Tinha uma mulher que pediu para mim que não deixasse ela morrer, sem pelo menos pôr o pé em um tijolo do alicerce da igreja”, relata Dalmi. A igreja completará dez anos em janeiro de 2016. Foram gastos R$ 41 mil reais na construção da capela que demorou um ano para ficar pronta. O sino, que a comunidade ganhou em uma doação há 32 anos, pôde então finalmente badalar. Modo de Preparo: 1 – Limpar as ventrechas do peixe 2 – Deixá-lo de molho na água com limão para tirar o cheiro 4 – Lavar e secar as ventrechas 5 – Temperar com alho, sal e vinagre a gosto 6 – Passar a farinha de trigo em cada ventrecha 7 – Colocar o óleo para aquecer 9 – Quando o óleo estiver aquecido, pôr para fritar uma por uma, dourar dos dois lados e pôr para escorrer em papel toalha. Servir quente com limão e qualquer outro complemento. Com apenas R$ 45, o cliente pode saborear uma porção dessas com cinco ventrechas de pacu e diversos acompanhamentos, como a tradicional farofa de banana, salada de tomate e couve, mandioca, pirão e arroz. Além, é claro, de um ambiente agradável com música ao vivo e o atendimento que só São Gonçalo Beira Rio tem a oferecer. Isabela Meyer ribeirinhos RevistaFuzuê Edição3 Desembro/2015 55 Arroz, farofa de banana, mandioca, vinagrete, pirão e, claro, a famosa ventrecha


São Gonçalo Beira Rio também dispõe de um cemitério muito antigo, localizado na estrada de Santo Antônio, dentro do cemitério de indigentes. Dalmi conta que, ao chegar ao local, só tinha um pequeno espaço de terra disponível que, mediante a autorização dos órgãos responsáveis, foi cercado e se tornou o cemitério da comunidade. A limpeza da área é feita de quatro a cinco vezes ao ano e só é permitido ocorrer o sepultamento de uma pessoa lá dentro com uma autorização carimbada do presidente da associação. Dança A dança é um traço muito forte na comunidade. O grupo de Siriri, chamado Flor Ribeirinha, tem 22 anos de história, apresentou-se na França em 2014 e já representou Mato Grosso em um festival de dança internacional, na Itália, em 2015. O grupo foi fundado pela artesã nascida e criada na comunidade, Domingas Leonor, que sentia a necessidade de não deixar a cultura ser esquecida pelo povo. O Siriri é uma dança tipicamente matogrossense, que faz a junção de elementos africanos, portugueses e espanhóis. A viola de cocho, o ganzá e o mocho entonam as canções que são dançadas por homens, mulheres e até mesmo crianças, ora em roda, ora em fileira, batendo palmas e cantando. A palavra comunidade é originaria do latim communitas e tem por uma de suas definições se referir ao que é comum a todos. São Gonçalo Beira Rio só conquistou o que tem hoje, como o asfalto, a igreja, as festas e a perpetuação da cultura, graças à união do povo. É lá que as famílias foram formadas, cresceram e todos sobrevivem de seu trabalho. “A gente pretende não sair daqui. São Gonçalo hoje é tudo para gente”, diz Dalmi Lucio de Almeida. Os moradores de Cuiabá e região não são apenas unânimes quanto à qualidade do peixe de São Gonçalo, mas também ao fato de que a prefeitura deveria fazer mais investimentos na divulgação do que a comunidade tem a oferecer, não só pela culinária típica, mas pelos artesanatos e danças que abrigam em cada detalhe um pouco de quem somos. Isabela Meyer


Vi-me ao pé da televisão, pela milésima vez, quase que me autoconvencendo de que o Titanic não iria afundar e todos iriam, depois de cem anos de salvos, dançar a “Valsa do Oscar” no “plim-plim”. Assim como um barquinho de papel, o navio acaba por mergulhar sobre as águas refrescantes do polar. No filme, milhares de figurinistas fingem que são artistas, querendo, com a emoção dos gritos de socorro, tirar o papel do “heroinista” (herói+protagonista) que salva a mocinha da morte para anosluz desfolhar em longa-metragem a sua aventura “amoresca” (amor+aventuresca) em alto-mar. Por falar em figurinistas em alto-mar, na sexta-feira, 13, de algum mês e ano, deparei-me em uma situação quase que mais decadente do que aqueles que imploravam ajuda em alto mar. Era meio-dia, o sol de Cuiabá estava tipicamente cuiabano, daqueles que o suor cai no chão e vira fumaça. Tentava ao máximo me proteger em um ponto de ônibus ideal para as cidades europeias. Tinha uma mulher com uma criança ao meu lado que tentava se proteger dos raios de sol fora do abrigo do ponto de ônibus. Não é à toa que centenas de passageiros do transporte coletivo de Cuiabá reclamam diariamente da falta de qualidade e do sistema precário de muitos pontos e terminais de embarque. O ônibus demorou seus exatos e comprovados quinze minutos, para enfim pegar a boiada e sair como se estivesse em uma comitiva de peões, às pressas. Dentro do veículo, já em alta velocidade, deparo-me com os bancos todos ocupados, e, para não deixar de esfregar em minha lisa cara, só estavam desocupados os reservados que logo estariam ocupados pelos inclusos da lista preferencial ou pelos que fingem cegueira, ainda que não constatada por oftalmologistas. A verdade é dura e o cansaço deixa o humano, um ser mole. Lá ia o bicho-preguiça, observando de pé e grudado aos galhos do ônibus conduzido por solavancos e paradas bruscas feitas pelo “peãodutor” (peão+condutor). A cobradora estava pálida, com suas olheiras profundas, lábios secos do ar eivado do ônibus, com seu olhar de quem nunca viveu um amor a la Titanic e não se esquecendo de sua figura magra e emburrada, encarando a todos, como se estivesse pronta a marcar a boiada com seu laser ocular macabro. Em cada ponto que o motorista parava, o rebanho crescia em progressão geométrica. Para minha infeliz sorte, o sol de quarenta e poucos graus virara justamente para o meu lado durante a viagem. Cheguei até a comparar-me a um animal indo para o abate. Delírio. Os suores foram aumentando. Meus braços e pernas, cansados, já não aguentavam mais. Meus olhos ardiam, como se tivessem assoprado areia, ou melhor, poeira. Olhei em meu relógio e já era quase uma hora da tarde. Faltavam ainda 30 minutos para chegar ao meu ponto. Foi quando levei um esbarrão de uma mulher grávida de seus “doze meses”, que estava também passando mal naquele sufoco de vida. TAM-TUMTAM-TAM-TAM... Os esbarrões só aumentavam e incomodavam-me. Com sorte, a mulher foi para o fundo do ônibus, porque, se continuasse naquele mexer de placenta, não me assustaria se a criança voasse do útero da gestante aos meus braços. Es-ta-va sem ar. De repente o mundo parou e lá de longe ouvi um ranger de dentes: - Senhor! Senhor! Acorda, senhor! Já chegamos ao ponto final. – alertou a cobradora. Assustei-me imediatamente. Abri meus olhos para o mundo e logo me deparei com a cobradora de meu sonho, ou pior, de meu pesadelo. Pesadelo este que começaria amanhã de manhã e terminaria às duas da tarde que é quando chego à minha residência. Hoje, pelo visto, meu pesadelo duraria mais quinze minutos, pois literalmente dormi no ponto e ponto final. sonho no busão ponto final FERNANDO PRADDO Ilustrações: Isabela Guerrero RevistaFuzuê Edição3 Desembro/2015 57


Amanda Simeone


culinária local Na tradicional Rua professor João Felix, 470, no bairro da Lixeira, mora Eulália da Silva Soares, de 81 anos. A casa de muro laranja tem um corredor na lateral esquerda que dá acesso ao salão de delícias. Ao caminhar pelo estreito corredor já da pra sentir o cheiro de bolo saindo do forno, que traz aquela sensação única: o carinho do bolo de vó. Dona Eulália mora em Cuiabá desde 1956 e, há quase 60 anos, cozinha o tão popular e conhecido bolo de arroz. Na capital e adjacências, a senhora de cabelos brancos é ícone da cultura cuiabana. Fuzuê - Onde a senhora nasceu e se criou? Como foi a trajetória com a sua família? E quando começou a fazer o bolo? Dona Eulália - Eu nasci, me criei, casei e tive duas filhas em Aricazinho, distrito de Cuiabá. Em 1956, resolvemos mudar para a capital. Meu marido era pedreiro no sítio onde morávamos, e uma tia minha fazia esse bolo. Eu estava sempre perto, mas nunca tinha feito. Quando nós mudamos para Cuiabá, eu resolvi ajudar nas despesas da casa, e pedi ao meu marido que fizesse um forno para vender o bolo de arroz. No começo não dava muito certo, fui tentando até acertar. entreACORDADOS Dona Eulália fala sobre os quitutes mais famosos do bairro da Lixeira AMANDA SIMEONE eAMANHECIDOS


Fuzuê - E como foi o início das vendas de bolo de arroz? DE - No começo eu pagava 5 ou 6 guris, que vendiam em cestas nas escolas, nos bares, nas casas, e o pessoal acabou conhecendo e caiu no gosto. Desse jeito passei a fazer para festinha de aniversário, casamentos, batizados, qualquer evento que o pessoal pedisse. Depois, eu fazia de pouquinho todos os domingos. O pessoal vinha, comprava e levava pra casa. Eu abria e o pessoal vinha comprar. Fuzuê - E como eram as vendas na Festa de São Benedito? DE - Bom, naquele tempo a Festa de São Benedito, que tem até hoje, era na casa da dona Bebem, e era tudo grátis. Almoço, chá, bolo de arroz, de queijo, tudo de graça. E como tinha muita gente, acabou cortando, porque já não dava mais pra atender todo mundo. Acabava a missa e não tinha mais nada. Teve um rei, lá do Coxipó, seu Benedito Dorileo (falecido), que me disse para experimentar fazer o bolo para vender depois da missa. E deu muito certo. Eu fazia e vendia pra eles, e eles revendiam depois da missa. E assim fizemos por 13 anos. Fuzuê - E como era a rotina da Festa de São Benedito? DE - Bom, são quatro dias de festa: quinta, sexta, sábado e domingo. No primeiro dia, a gente fazia dois mil bolinhos; na sexta, já aumentava para três mil; no sábado e domingo, terminava o dia com cinco a seis mil bolinhos. Era serviço demais, principalmente porque até hoje o meu bolo é socado no pilão. Imagina socar massa pra seis mil bolinhos no pilão? Trabalhava noite e dia. O que ajudava era que minhas filhas culinária local Amanda Simeone Dona Eulália já vendeu seus produtos em bares, escolas, casamentos, aniversários, batizados


já estavam mocinhas. A gente pagava outras pessoas pra ajudar, porque era muito trabalho. Fuzuê - E foi com a Festa de São Benedito que a senhora ficou famosa? DE - Bom, eu recebi a visita daquele moço do Fantástico, o Mauricio Kubrusly, e o pessoal passou a vir muito depois disso. Eu precisei parar de vender pra festa porque toda semana o povo saía da missa e passava aqui. Então não dava mais para fazer na festa, e acabei continuando só aqui em casa. Eu tive que continuar a fazer os bolos, os filhos foram aumentando, eles tinham que estudar, que vestir, e eu, com pouco estudo, não tinha outro jeito de ajudar dentro de casa, se não fosse fazendo bolinhos. Fuzuê - A que a senhora atribui a continuação da venda dos bolinhos? DE - Com certeza, à minha família. Porque eu, na idade que estou hoje, não dou mais conta de fazer muita coisa. Agradeço todos os dias o interesse deles, porque só assim para ter continuado. Os meus filhos foram muito insistentes, até falaram da senhora do Porto que vendia, que faleceu. E acabou que a outra senhora do Coxipó também faleceu, e não existe mais o bolo. Hoje em dia, meus filhos trouxeram meus netos, que trouxeram meus bisnetos. A casa é sempre cheia porque todo mundo ajuda. Se não fosse pelo interesse deles, nada disso existira hoje. Fuzuê - Por que a senhora acha que aqui está sempre cheio? DE - Olha, eu não sei dizer... Acho que é por Deus. Aqui em Cuiabá existem não sei quantos lugares que também fazem bolo de arroz, que são mais chiques e arrumados, e as pessoas deixam de ir a esses lugares para vir aqui no meu, que é simplesinho. Eu só tenho a agradecer todos os dias. Porque quando vou me deitar, por volta das 5h, ainda não tem ninguém, e quando acordo lá pelas 7h30, já esta bem cheio. Só pode ser Deus, porque as pessoas deixam de ir a lugares bacanas, arrumados, para comer aqui na minha casa, sem conforto nenhum. Eu fico muito agradecida. Fuzuê - A senhora é católica. E qual o seu santo de devoção? DE - São José. Na verdade, todos os santos. Amanda Simeone As boas vendas na Festa de São Benedito e o apoio da família foram importantes para Dona Eulália seguir produzindo e comercializando


Mas o que eu tenho a devoção, tenho a imagem aqui no meu salão, é São José. E eu não sei explicar como e por que direito. Só passei a fazer terço pra ele dia 19 de março. Eu reunia toda a minha família para rezar para São José. Eu ganhei a primeira imagem de um dos meus genros e depois acabei ganhando outra da minha família, que é essa que fica aqui no salão. Depois que foi feita a reforma aqui, eu pedi pro padre da igreja do bairro rezar uma missa no salão novo, mas ele me disse que o Bispo precisava autorizar. Quando fui ao Bispo, ele disse que faria sem problemas, até porque o lugar era de muita importância para Cuiabá. Então, faz cinco anos que, no dia de São José, fazemos a missa em devoção a ele e oferecemos um jantar para algumas pessoas, porque o espaço é pequeno. Fuzuê - E hoje, eu gostaria de saber, quantos filhos, netos e bisnetos a senhora tem? DE - 8 filhos. 21 netos (eram 22 e, infelizmente, um faleceu). 20 bisnetos e estão chegando mais 2. Fuzuê - E qual o ingrediente secreto do bolo de arroz? DE - O amor (risos). Eu sempre digo isso porque o pessoal não acredita em mim. Eu sempre passei a receita para quem me pedia, e quando o bolo não ficava bom diziam que eu estava escondendo alguma coisa. Por isso hoje eu não passo mais, mas eu sei que está na internet, né? Na verdade, eu não escondia nada na receita, mas como faço ha muito tempo, eu tenho apreço e, por isso, faço com amor. Entre risadas e rosto acanhado, Dona Eulália agradece todas as pessoas que param seu tempo para conhecer um pouco mais de sua vida e culinária. A senhora de 81 anos se despede e brinca, dizendo que só Deus para fazer com que ela agrade os amanhecidos e acordados que estão todo final de semana prestigiando o seu trabalho. 62 RevistaFuzuê Edição3 Desembro/2015 Amanda Simeone Aos 81 anos, Dona Eulália encontra disposição para servir os seus quitutes nos fundos de casa


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