Especial Summit 2025 Let’s Go Bahia | 51@daamretratos
52 | Let’s Go Bahia Especial Summit 2025Turismo de experiênciaAssim como o paladar, há sensações cujas meras descrições gramaticais não fazem jus à realidade. Entre elas, estão as que sentimos ao viajar pela Bahia. Algo, no entanto, é concreto: aquele antigo modelo de aproveitar essa peculiaridade, baseado em grandes e ostentativas operações, cedeu lugar a uma estratégia de “luxo silencioso”, no qual o valor está na profundidade da vivência e na exclusividade do detalhe.Essa mudança reposiciona o destino como um território de descobertas sofisticadas, capaz de seduzir um viajante que não busca apenas o carimbo no passaporte ou a foto no feed, mas também uma conexão real com a alma do lugar. Essa leitura foi o fio condutor de um dos momentos do Summit Made in Bahia, que reuniu nomes de peso do setor. Sob a ótica de Antonio Barreto Junior, diretor de Destino Baixio, do Grupo Prima, a competitividade baiana hoje mora na capacidade de transformar identidade em algo memorável. “A Bahia está deixando de ser apenas um destino turístico para se consolidar como um território de experiências autênticas e memoráveis”, afirma. Em Salvador, essa efervescência ganha vida na icônica e requalificada Rua Chile. Caminhar por ali é respirar a história que se funde ao conforto contemporâneo. A vibe do Hotel Fasano, por exemplo, é uma ode à elegância atemporal. Entre o mármore e a madeira, o hóspede é envolvido por uma atmosfera Em 2025, a Bahia recebeu 211,5 mil turistas internacionais, alta de 47,3% em relação ao ano anterior.de acolhimento que dialoga com a grandiosidade da Baía de Todos--os-Santos, logo ali em frente. Um luxo que respeita a arquitetura histórica da antiga sede do Jornal A Tarde, integrando-se organicamente ao Fera Palace e ao Palacete Tira Chapéu. “O viajante contemporâneo deseja mais do que visitar um destino. Ele quer compreender o território, interagir com sua cultura e estabelecer conexões reais através de uma curadoria de excelência”, observa o diretor do Grupo Prima.Uma coisa leva à outraNesse cenário de ascensão, a infraestrutura de negócios atua como a engrenagem que permite a otimização do lazer de alto padrão. Milena Palumbo, CEO da GL events para a América Latina, traz uma visão complementar sobre essa nova demanda. Para a executiva, Salvador vive uma transformação relevante na oferta turística nos últimos seis anos, impulsionada pela robustez de um calendário que combina o corporativo com o aspiracional. “A experiência exclusiva propõe uma imersão que vai além da visitação. O visitante deixa de apenas percorrer pontos turísticos e passa a vivenciar a cidade de forma profunda e conectada à sua identidade”, destaca Milena.Um dos catalisadores dessa mudança é o Centro de Convenções da capital baiana. Sob a gestão da GL events, o equipamento voltou a posicionar a cidade no eixo dos eventos mais relevantes do país. O viajante quer compreender o território, interagir com sua cultura e estabelecer conexões reais ANTÓNIO BARRETO JÚNIOR, DIRETOR DO DESTINO BAIXIO, DO GRUPO PRIMAAntônio Barreto Júnior, diretor do destino Baixio, do Grupo Prima @daamretratos
Especial Summit 2025 Let’s Go Bahia | 53atrativo turístico do Nordeste. E a tal busca por autenticidade atravessa as fronteiras da capital. No Litoral Norte, o distrito de Baixio se revela como um santuário de bem-estar, onde a exclusividade desenha dias de descanso entre lagoas cristalinas. Já ao sul, em Itacaré, o conceito de “eco-luxo” atinge o seu ápice no Txai ou no Barracuda, com uma gastronomia autoral que valoriza o cacau. A sofisticação baiana também alcança as altitudes da Chapada Diamantina, em Mucugê, onde a vinícola UVVA redefine o paladar regional.Para Milena Palumbo, a integração entre o ambiente de negócios e o lifestyle é o diferencial competitivo da Bahia, um indutor que impulsiona toda a cadeia, da hotelaria cinco estrelas à alta gastronomia. Ela defende que o setor avance em ações de capacitação técnica, focando a Para se ter uma ideia, apenas neste ano, o espaço vai sediar 26 congressos médicos, atraindo um perfil de visitante que amplia a sua permanência ao incluir momentos de lazer com a família no pós-evento. “O destino precisa se aprimorar para atender a esse público mais exigente, o que influencia diretamente na melhoria da infraestrutura e no reposicionamento do destino no segmento premium”, diz a CEO.Os números dão lastroa essa perspectivaEm 2025, o estado recebeu 211,5 mil turistas internacionais, alta de 47,3% em relação ao ano anterior, concentrando cerca de 43,7% de toda a entrada estrangeira do Nordeste, segundo a Embratur. No mesmo período, o volume das atividades turísticas cresceu 7,4%, acima da média nacional (5,3%), enquanto a arrecadação ligada ao setor alcançou R$ 1,5 bilhão em um único trimestre, com um avanço de 22,9%, de acordo com a Superintendência de Estudos Econômicos e Sociais da Bahia. Em Salvador, a taxa média de ocupação hoteleira chegou a 65,2%, e, apenas em novembro de 2025, a capital recebeu 918,5 mil visitantes, gerando mais de R$ 2 bilhões em receita turística.Para dar e venderO ritmo segue em alta em 2026, com o crescimento de 15,2% nas chegadas internacionais já em janeiro, reforçando a consolidação do estado como principal geração de valor por visitante em vez do volume massificado.“Salvador reitera a sua capacidade de entrega através de uma atuação integrada, em que o evento é o ponto de partida para uma jornada de consumo de alto valor, cultura e lifestylebaiano”, observa a gestora.Do mergulho entre as baleias jubarte em Abrolhos à pesca internacional do Marlin Azul em Canavieiras, o novo turismo baiano se consolida em nichos de prestígio. Seja na hospitalidade do Hotel Vila Pugliesi, em Lençóis, ou na imersão científica da Reserva Ecológica Michelin, o estado prova que a sua maior riqueza é a verdade de seus cenários. “O futuro do turismo baiano está na combinação entre autenticidade, sustentabilidade e experiências de alto valor agregado”, arremata Antonio Barreto Junior. Milena Palumbo, CEO da GL EventsO visitante deixa de apenas percorrer pontos turísticos e passa a vivenciar a cidade de forma profunda MILENA PALUMBO, CEO DA GL EVENTS@daamretratos
IA Let’s Go BahiaTurismoBAHIA?O ANO INTEIRO!Por Isac ElissonSob a supervisão do coordenador Matheus PastoriAs estratégias para promover destinos e experiências para além da alta estação54 | Let’s Go Bahia Especial Summit 2025
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56 | Let’s Go Bahia Especial Summit 2025TurismoO turismo na Bahia ainda está diretamente associado ao verão. Não é novidade que sol, praia e grandes festas consolidaram o estado como um dos principais destinos do país. Por outro lado, isso também acabou por concentrar o fluxo turístico em períodos específicos, o que, consequentemente, esvazia o interesse por experiências desassociadas desse mainstream. Esse modelo, no entanto, começou a ser reposicionado. Seja através do aroma do cacau que perpassa pelas belezas de Ilhéus, no enoturismo de Juazeiro, na imensidão do Vale do São Francisco ou nas delícias da fruticultura do norte do estado.Ali por perto, também é fácil de ouvir falar sobre os encantos das cachoeiras e da natureza preservada no Vale do Capão, no coração da Chapada Diamantina. Fato é que a Bahia vai muito além das fitinhas do Bonfim e do frenesi carnavalesco da capital.Uma economia pulsante transcende o calendário da alta estaçãoEm Salvador, esse movimento já está em curso. Durante o Summit Made in Bahia, o presidente da Empresa Salvador Turismo (Saltur), Isaac Edington, apresentou esse direcionamento durante um painel dedicado às forças e particularidades que posicionam a Bahia como destaque no turismo nacional.“Salvador deixou de ser um destino de estação para se consolidar como uma plataforma contínua de turismo e entretenimento”, disse Isaac. E a base dessa transformação está na organização estratégica de calendário. Segundo Edington, a cidade vai estruturar, ao longo dos 12 meses, uma agenda contínua que articula eventos, manifestações culturais, atividades esportivas e experiências urbanas, funcionando como instrumento de organização da demanda turística. “Evento não é só entretenimento, é política de desenvolvimento. Quando você estrutura um calendário consistente, você organiza a demanda e movimenta toda a cadeia econômica”, afirma o executivo. Dentro dessa lógica, os eventos deixam de ser pontuais e passam a integrar uma engrenagem prolongada. A atuação da gestão municipal se concentra em planejar, organizar e viabilizar esse calendário, criando previsibilidade e permitindo que diferentes setores do turismo operem de forma coordenada ao longo do ano.“Construímos um ambiente de segurança jurídica e previsibilidade, que dá confiança para o investidor entrar. Isso é decisivo. Hoje, Salvador é vista como uma cidade que entrega, e isso atrai parceiros”, diz o gestor.Evento não é só entretenimento, é política de desenvolvimento ISAAC EDINGTON,PRESIDENTE DA SALTURIsaac Edington, presidente da SALTURO turista não vem mais só ver Salvador. Ele vem viver Salvador. ISAAC EDINGTON, @daamretratosPRESIDENTE DA SALTUR
Especial Summit 2025 Let’s Go Bahia | 57Mercado Modelo, entre outros. Essas atrações passam a funcionar como ambientes permanentes de experiência da cidade.“O turista não vem mais só ver Salvador. Ele vem viver Salvador”, pontua Isaac Edington. Apesar dos avanços, a construção de um calendário anual plenamente equilibrado ainda passa por desafios operacionais e de mercado, especialmente na ampliação do fluxo em períodos tradicionalmente menos demandados, a chamada baixa estação.Para além da capitalAo olharmos para o estado como um todo, o secretário de Turismo da Bahia, Maurício Bacelar, afirma que o governo Esse alinhamento entre poder público e setor privado também se reflete na construção de um ambiente de negócios mais favorável ao desenvolvimento do turismo. A estratégia não se limita à atração de visitantes, mas à criação de condições para que empresas cresçam, invistam e ampliem suas operações, gerando emprego e renda de forma consistente. Dados recentes do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged) indicam que a Bahia iniciou 2026 com a maior geração de empregos do Nordeste, com 6.890 novos postos, o equivalente a 59,25% do saldo regional, um resultado que dialoga justamente com a ativação econômica promovida por setores de peso como o turismo.Outro eixo é a requalificação e ativação dos espaços urbanos, transformando a cidade em um palco permanente de experiências. A proposta integra tradição e tecnologia em equipamentos culturais e espaços públicos, ampliando a capacidade de atração e a permanência do visitante.A capital baiana vem consolidando uma rede de circuitos culturais conectados à experiência turística, como a Casa do Carnaval, a Cidade da Música da Bahia, a Casa das Histórias de Salvador, o Espaço Pierre Verger, o tradicional Maurício Bacelar, secretário de Turismo da BahiaDo turismo comunitário aos grandes festivais, a Bahia desenha um calendário de experiências reais que mantém nossa economia pulsando em todas as estações MAURÍCIO BACELAR, SECRETÁRIO DE TURISMO DA BAHIACom ocupação recorde na capital e 40 iniciativas de turismo comunitário premiadas, a Bahia se firma como um destino de desejo global e contínuo MAURÍCIO BACELAR, SECRETÁRIO DE TURISMO DA BAHIAexpandiu o horizonte do setor para as 13 zonas turísticas que desenham o mapa do estado. O secretário ressalta que, @daamretratos
58 | Let’s Go Bahia Especial Summit 2025Turismoembora Salvador tenha registrado um fôlego histórico em 2025, com média de 66,5% de ocupação hoteleira, o olhar agora também se volta para uma Bahia que se revela em múltiplas camadas. Destinos como Maraú, Boa Nova, Paulo Afonso, Rio de Contas e Barra do Choça surgem como novos protagonistas, oferecendo experiências imersivas que transformam a viagem em um mergulho na alma de cada região.Esse atrativo que vai além do óbvio ganha força através da parceria com a Rede Batuc, organização premiada internacionalmente e que valoriza mais de 40 iniciativas de turismo comunitário. São rotas que convidam o visitante a viver o cotidiano local, sendo fundamentais para manter o movimento aquecido durante os 12 meses do ano. No interior, a economia vibra com eventos de alcance global, como o Bahia Beer Festival, em Alagoinhas. Em sua última edição, o festival reuniu 200 cervejarias de 43 países e atraiu 30 mil pessoas.Em um cenário de encontros, a fé e o costume popular funcionam como motores da economia real. “Na Semana Santa deste ano, o espetáculo da Paixão de Cristo em Esplanada atraiu um público recorde de oito mil pessoas. Em Serrinha, a Procissão do Fogaréu contou com cerca de 25 mil fiéis, entre moradores e visitantes. Ainda no feriado, a Feira de Caxixis movimentou Nazaré, que recebeu mais de 100 mil pessoas em quatro dias de programação”, detalha Bacelar.É essa mesma energia que transborda também no São João. Ainda de acordo com dados do Governo da Bahia, somente em 2025 o período junino trouxe 1,8 milhão de turistas para o estado, injetando R$ 2,3 bilhões na vida de quem produz e trabalha em solo baiano. Para que a engrenagem funcione, a estratégia é levar o estado até quem decide o destino da viagem. Através de roadshows, famtours e presstrips, operadores, agentes e jornalistas são convidados a conhecer de perto as potencialidades de cada zona. “Promovemos o destino Bahia nas principais feiras regionais, nacionais e internacionais do setor ao longo do ano, onde também prospectamos a atração de investimentos para o estado. Está em execução o programa QualiTurismo Bahia, o maior do gênero no Brasil, que oferece 15 mil vagas em cursos de capacitação, alcançando municípios das 13 zonas turísticas baianas, em um investimento de mais de R$ 22 milhões”, afirma Maurício Bacelar. “O que se desenha é uma Bahia que se planeja para crescer de ponta a ponta. Ao integrar a riqueza inesgotável das cidades do interior, o estado atua como um porto seguro para o investimento e um convite irrecusável para o viajante que busca sentido em cada parada”, completa o secretário estadual do Turismo.Com a união entre a capital e os mais diversos destinos ao longo do estado, o turismo permanece como uma política contínua, que exige consistência, planejamento e visão de longo prazo. A Bahia, pelo que se vê, promete passar a operar com cada vez mais maturidade, garantindo a sua posição como um dos mais desejados destinos brasileiros - não apenas nos dias de sol. @daamretratos
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IA Let’s Go BahiaInfraestruturaPRODUZIRJÁ NÃO BASTAPor Isac ElissonSob a supervisão do coordenador Matheus PastoriBahia precisa vencer entraves de distribuição e escoamento para não perder competitividade produtiva62 | Let’s Go Bahia Especial Summit 2025
Especial Summit 2025 Let’s Go Bahia | 63
64 | Let’s Go Bahia Especial Summit 2025InfraestruturaA Bahia já não cabe mais no rótulo de promessa agrícola, afinal os números colocam o estado entre os principais polos produtivos do país. O descompasso aparece na etapa seguinte. Embora entregue abundância, diversidade e valor bruto muito semelhantes ou até superiores aos de regiões mais estruturadas, a competitividade baiana ainda é pressionada por um entrave conhecido: a logística, que encarece, alonga prazos e limita a expansão. No ambiente atual, em que custo e eficiência definem quem ganha mercado, a diferença não está em quem distribui melhor sua produção — e é aí que a Bahia ainda perde terreno. Diretor-presidente da Companhia de Desenvolvimento dos Vales do São Francisco e do Parnaíba (Codevasf), Lucas Felipe de Oliveira não fez rodeios ao palestrar no Summit Made In Bahia: “Sem infraestrutura não existe competitividade”. Já em entrevista a esta edição especial da Let’s Go, Oliveira colocou o tema como um eixo essencial do desenvolvimento estadual, aquele que conecta diretamente a potência do campo baiano, ainda subaproveitada, aos mercados globais. “A Bahia já demonstrou que tem capacidade de produzir com escala, qualidade e competitividade. Quando você conecta a produção à infraestrutura de forma inteligente, você não apenas melhora os indicadores econômicos, você transforma realidades regionais, amplia oportunidades e cria um ciclo de desenvolvimento mais sustentável e contínuo”, afirmou.O executivo reforçou que o sucesso do agronegócio baiano hoje depende da agilidade fora das fazendas. “O diferencial está em conseguir escoar com eficiência e competir em igualdade no mercado global”, avalia. A pujança desse sistema é traduzida em números que impressionam. No interior do estado, onde a Codevasf atua de forma decisiva, algumas áreas já ultrapassam 51 mil hectares cultivados. Essa engrenagem produz anualmente mais de 2,4 milhões de toneladas de alimentos, gerando uma receita bruta que encosta na impressionante marca dos R$ 2 bilhões. Para se ter uma ideia, essa operação é responsável pela geração de 147 mil empregos, dinamizando a economia de cidades como Juazeiro e Bom Jesus da Lapa, cidades cujas populações são diretamente dependentes da produção agrícola.De acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o crescimento baiano nos últimos anos chegou ao ponto de rivalizar com os centros tradicionais do Sul e Sudeste. Em 2024, o valor Em 2024, o valor da produção agrícola baiana bateu o recorde de R$ 47,3 bilhões, alcançando a sétima posição nacional.da produção agrícola baiana bateu o recorde de R$ 47,3 bilhões, alcançando a sétima posição nacional em valor total. A fruticultura é um dos pilares desse avanço: em 2023, a Bahia produziu sozinha mais de R$ 5,7 bilhões em frutas, o que a colocou como o terceiro maior produtor do país, atrás apenas de São Paulo e Pará. Esse dinamismo baiano fica ainda mais claro no contexto do Nordeste. Nos projetos públicos de irrigação, por exemplo, a região conta hoje com cerca de 125 mil hectares cultivados, dos quais a Bahia concentra algo próximo da metade, e há planos para expandir essa área a 250 mil ha. Os dados são da própria Codevasf. Estima-se ainda que a ampliação poderia gerar até 335 mil ao longo dos estados nordestinos. Para sustentar essa engrenagem, a agenda de infraestrutura agora foca a Ferrovia de Integração Oeste-Leste. Ela surge como um corredor vital, reduzindo custos operacionais e trazendo a previsibilidade necessária para setores como a indústria e o agronegócio. “Quando a logística se Lucas Felipe de Oliveira, Diretor-Presidente da Codevasf@daamretratos
IA Let’s Go BahiaEspecial Summit 2025 Let’s Go Bahia | 65torna mais eficiente, os investimentos feitos no território passam a gerar ainda mais resultados”, destacou o gestor da Companhia de Desenvolvimento.Essa modernização ganha fôlego com o fortalecimento dos portos de Salvador e Aratu, que colocam a Bahia como ponto logístico relevante para o comércio nacional e internacional. O plano é complementado pela qualificação das rodovias, que deixam de ser a única opção para se tornarem conexões essenciais entre os polos produtivos e os grandes eixos de exportação.Ao unir investimentos em infraestrutura hídrica e apoio às cadeias locais, a estratégia busca equilibrar o desenvolvimento e reduzir as desigualdades regionais. “Infraestrutura não é apenas transporte. É o que transforma potencial em oportunidade, produção em renda e crescimento em desenvolvimento efetivo”, resume Lucas Felipe.O desafio que se impõe agora é de execução. Sem resolver o custo logístico e a previsibilidade do escoamento, a Bahia corre o risco de assistir parte do seu avanço ser capturado por estados mais eficientes na entrega ao mercado. Se conseguir alinhar produção e infraestrutura no mesmo ritmo, o estado muda de patamar e deixa de disputar relevância para exercer liderança. Caso contrário, continuará a produzir como potência, mas performando no mercado abaixo da capacidade que seus próprios números já indicam. Infraestrutura é o que transforma crescimento em desenvolvimento efetivo LUCAS FELIPE DE OLIVEIRA, DIRETOR-PRESIDENTE DA CODEVASF.
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68 | Let’s Go Bahia Especial Summit 2025PerfilENTRE A POLÍTICAE A ENERGIA:a trajetória de Luiz GavazaDa RedaçãoDa militância sindical ao comando da Bahiagás, economista aposta na articulação e visão técnica para a expansão da estatal
Especial Summit 2025 Let’s Go Bahia | 69Hoje, a capacidade de aliar crescimento econômico à sustentabilidade talvez seja o que mais se espera de gestores públicos. É nesse cenário em que encontramos Luiz Gavazza, uma das lideranças do setor energético baiano. Economista com pós--graduação em Gestão Pública Municipal, ele construiu uma carreira que passa pela sala de aula, pela articulação política e pelo comando corporativo. Atual diretor-presidente da Companhia de Gás da Bahia (Bahiagás) e membro do Conselho de Administração da Associação Brasileira das Empresas Distribuidoras de Gás Canalizado (Abegás), Gavazza ajuda a conduzir a Bahia rumo a uma economia de baixo carbono.Nascido em Salvador, ele foi professor secundário e universitário. Nas décadas de 1980 e 1990, exerceu forte liderança sindical na Associação dos Professores Licenciados da Bahia (APLB) e na Central Única dos Trabalhadores (CUT) do estado. No setor público, atuou como assessor parlamentar e secretário municipal de Governo em São Sebastião do Passé, no Recôncavo. Em 2010, ingressou na Bahiagás como assistente da presidência. Quatro anos depois, assumiu o comando da companhia, cargo que ocupa há mais de uma década. Esse trânsito entre diferentes esferas lhe confere uma leitura que combina sensibilidade social e pragmatismo técnico. Ele aponta essa bagagem como o diferencial de sua gestão. “Essas experiências me mostraram a importância de liderar com base no planejamento de longo prazo, valorizando as equipes e tomando decisões com responsabilidade”, avalia.Sua passagem pela presidência da Bahiagás vem sendo marcada por uma mudança na atuação da empresa. Dados da própria companhia apontam que, sob a liderança de Luiz Gavazza, a empresa saltou de 12 mil para 100 mil usuários. A malha de distribuição, antes com 53 quilômetros, expandiu-se para mais de 1.200 km, alcançando 68 municípios baianos. “Nesses 12 anos, a Bahiagás trilhou um caminho de interiorização e massificação do gás natural, sempre atenta à inovação”, destaca o gestor. Hoje, a empresa atende desigualdades regionais. “Ao levar essa infraestrutura para o interior, criamos condições para descentralizar o crescimento econômico. Novas regiões se tornam polos produtivos, o que amplia oportunidades e fortalece as economias locais”, analisa.O economista vê no gás natural o pilar da transição energética baiana. Gavazza explica que, por ser o combustível fóssil menos poluente, ele funcionaria como uma ponte para a substituição de fontes mais nocivas ao meio ambiente – o que garantiria a segurança no abastecimento enquanto o estado avança para uma matriz mais limpa. “O gás natural é um insumo estratégico. Ele contribui para a competitividade da indústria, fomenta investimentos e amplia a geração de emprego e renda”, afirma.Sua visão sobre o futuro da companhia converge para a inovação e a integração de fontes renováveis. A Bahiagás desenvolve seu Plano Diretor de Expansão, que prevê investimentos na ordem de R$ 3 bilhões nos próximos anos. O objetivo é consolidar a presença da empresa nos principais centros econômicos do estado. A evolução desse modelo passa pela incorporação do biometano, o gás natural renovável. Em 2024, a companhia lançou sua segunda chamada pública para a aquisição desse energético, fomentando projetos como o corredor sustentável entre as cidades de Juazeiro e Feira de Santana. “O futuro energético da Bahia passa pela integração. O gás natural garante segurança, as fontes renováveis ampliam a sustentabilidade e o biometano aponta o caminho de uma economia mais limpa e eficiente”, resume o diretor-presidente da estatal, cuja própria trajetória materializa esse ponto de interseção. A interiorização do gás natural pode reduzir desigualdades regionais, descentralizar o crescimento econômico e transformar novas regiões em polos produtivos, gerando oportunidades, fortalecendo as economias locais e consolidando uma transição energética mais sustentável para a Bahia indústrias, comércios, residências, veículos e termelétricas.A expansão da infraestrutura de gás canalizado tem impacto direto na atração de empreendimentos e na dinamização de cadeias produtivas. Ainda segundo informações da estatal, o programa Gás Sudoeste, por exemplo, é o maior duto de distribuição em construção no país. Ao olhar para o interior da Bahia, Gavazza identifica uma oportunidade de reduzir
Divulgação CNI70 | Let’s Go Bahia Especial Summit 2025PerfilO industrial da transiçãoPor Matheus Pastori de AraujoBaiano, Ricardo Alban alcançou o comando de um dos mais importantes espaços de articulação da economia nacional
Especial Summit 2025 Let’s Go Bahia | 71O caminho que Ricardo Alban percorreu não é comum. Engenheiro mecânico pela Universidade Federal da Bahia (UFBA) e administrador pela Escola de Administração de Empresas da Bahia, ele construiu sua base nos anos 1980, dividindo o tempo entre o dinamismo do Citibank e a operação de uma empresa familiar, a Biscoitos Tupy. Na presidência da Confederação Nacional da Indústria (CNI) desde 2023, a mudança de escala exigiu também uma mudança de papel: de empresário para articulador de uma gama de interesses vindos de todos os cantos do país.Somente sete décadas atrás outro baiano conseguiu ser alçado à entidade máxima da indústria nacional. Naquela época, o deputado federal Augusto Viana foi eleito presidente da CNI, com mandato entre 1954 e 1956.Para Alban, a transição não foi abrupta. “A ficha de que eu poderia atuar como um articulador, e não apenas como empresário, caiu de forma gradual, conforme me envolvia com a vida institucional”, reflete em entrevista exclusiva a esta edição especial da Let’s Go Bahia. Antes de chegar a Brasília, Ricardo Alban passou 14 anos à frente da Federação das Indústrias do Estado da Bahia (FIEB). Ali, sua gestão ficou marcada por um movimento de expansão da atuação da federação para além da capital e por uma tentativa de aproximar a indústria de uma agenda mais conectada à inovação e à sustentabilidade. “A indústria só cresce se o ambiente ao redor dela permitir”, pontua.Um dos principais vetores dessa transformação foi o SENAI Cimatec. Sob sua gestão, o complexo ampliou alcance e passou a ocupar um espaço mais relevante na interlocução entre indústria e pesquisa aplicada. O Cimatec Park, em Camaçari, na Região Metropolitana de Salvador, materializa essa aposta. Trata-se de uma área de cerca de quatro milhões de metros quadrados pensada para concentrar centros de desenvolvimento, testes industriais e projetos de inovação em larga escala.Produzir, por si só, já não sustenta competitividade – é assim que o presidente da CNI enxerga o mercado. Para o executivo, a pressão por tecnologia e a necessidade de reduzir emissões mudaram o eixo da discussão. “Hoje, tenho a convicção de que a indústria tem que ser o motor central do desenvolvimento do Brasil. Não existe soberania nacional sem uma base industrial sólida”, afirma. Ao assumir a CNI, Alban passou a defender uma indústria mais integrada a cadeias globais, com maior capacidade de inovação e alinhada às novas exigências ambientais.A leitura sobre o Brasil parte de problemas conhecidos. Dados da FIEB indicam que o ambiente de negócios ainda carrega entraves históricos. Desde a complexidade – iniciativa que busca fortalecer o equilíbrio fiscal e fomentar áreas onde o país tem potencial, como a economia circular e combustíveis sustentáveis. “Quando o setor produtivo, o governo e o mercado financeiro sentam-se à mesma mesa, paramos de apagar incêndios isolados e passamos a construir soluções de interesse comum”, afirma.A Bahia aparece nesse cenário como uma espécie de laboratório. O estado reúne condições favoráveis na área de energia, com o avanço de projetos eólicos e solares e com potencial para a produção de hidrogênio verde. “Temos um exemplo de ouro no Nordeste, que é o powershoring. Usar nossa abundância em energia renovável para atrair indústrias de baixo carbono”, destaca. No entanto, Alban adverte que o potencial sozinho é apenas uma promessa. “Ele só vira competitividade real quando se traduz em vantagem no custo de produção, como uma tarifa de energia que seja, de fato, competitiva para a nossa indústria”, alerta.Ricardo Alban é o exemplo de um baiano que se projetou do plano regional para uma agenda mais ampla. Iniciativas como a Sustainable Business COP, lançada pela CNI, refletem essa visão, promovendo o Brasil como destino mundial para investimentos sustentáveis e destacando que a indústria nacional é responsável por apenas 9% das emissões de gases poluentes do país.O presidente da CNI segue com uma agenda intensa. Articulando, conciliando e almejando fazer com que a indústria brasileira acompanhe as mudanças no mesmo ritmo em que elas acontecem — ao mesmo tempo que transforma essa adaptação em ganho de produtividade e presença global. “Precisamos remover os gargalos que nos travam há décadas e criar condições reais para o país competir no cenário global de forma sustentável”, reforça o baiano que se tornou uma das mais importantes vozes da economia nacional. Não existe soberania nacional sem uma base industrial sólida tributária, apontada como um problema por cerca de 45% dos industriais, ao custo do capital. O cenário recente mostra um crescimento industrial moderado, de, aproximadamente, 1,8% em 2025, impactado especialmente pelos juros elevados, de acordo com o Portal da Indústria.Ainda assim, o peso do setor é inegável. Um levantamento da própria CNI estima que a indústria responde por impressionantes 23,4% do PIB nacional, gerando R$ 2,56 trilhões em riqueza e mantendo mais de 11 milhões de trabalhadores formais. Além disso, representa cerca de 66% das exportações brasileiras. “Estamos trabalhando para construir um compromisso de longo prazo entre o Estado e quem produz”, explica Ricardo Alban, que cita o Projeto para o Brasil 2050
IA Let’s Go BahiaIndústriaA nova energia que move a indústriaPor David SilvaBahia aposta na vantagem energética para reposicionar seu parque de produção em um cenário global mais competitivo72 | Let’s Go Bahia Especial Summit 2025
Especial Summit 2025 Let’s Go Bahia | 73
Divulgação CNI74 | Let’s Go Bahia Especial Summit 2025IndústriaEm um cenário global pressionado por instabilidades geopolíticas, que vão dos conflitos no Oriente Médio à disputa por cadeias estratégicas de energia, a reorganização industrial passou a definir quem permanece competitivo no setor. É nesse ambiente mais volátil que a Bahia enfrenta um ponto decisivo: transformar seu potencial produtivo em capacidade real de resposta diante de uma economia cada vez mais orientada por eficiência energética, previsibilidade e segurança operacional. Foi sob essa perspectiva que Ricardo Alban, presidente da Confederação Nacional da Indústria (CNI), abriu o painel que conduziu no Summit Made in Bahia. Ele defende uma agenda baseada em convergência e coordenação de esforços. “O Brasil perdeu muito tempo, socialmente e economicamente, e a melhor forma de recuperá-lo é convergindo, somando. A Bahia ainda tem uma estrada longa, mas está no caminho certo para estimular seus potenciais adormecidos”, disse. A discussão contou também com a participação de Carlos Passos, atual presidente da FIEB.O Polo Petroquímico de Camaçari está entre essas peças que, por algum tempo, permaneceram dormentes. Em 2021, a decisão da Ford de encerrar suas atividades na Bahia, após mais de duas décadas, repercutiu para muito além daquela planta industrial. Toda uma cadeia produtiva, direta e indireta, foi repentinamente extinta. E, até hoje, os efeitos podem ser sentidos. A justificativa dada pela montadora à época foi uma soma de fatores: a alta carga tributária, o avanço da Covid-19 e a baixa lucratividade das filiais no país desde a crise nas vendas automobilísticas, que começou em 2013. Anos depois, em 2023, o governo da Bahia conseguiu readquirir a estrutura ociosa e acelerar as negociações com a gigante chinesa BYD para a implementação de uma nova fábrica, dessa vez, de veículos elétricos. E é justamente no setor de energia limpa que a Bahia começa a despontar.Em entrevista a esta edição especial, o vice-presidente sênior da BYD no Brasil, Alexandre Baldy, afirmou que o investimento no estado foi uma decisão considerada essencial. “A opção por investir no Nordeste resulta de uma combinação de fatores estratégicos, como incentivos industriais competitivos, oferta de mão de obra qualificada, logística favorecida por portos e infraestrutura em desenvolvimento, além do compromisso dos governos locais com a sustentabilidade”, afirma o executivo.Para além da montadora chinesa, que utiliza energia 100% renovável para a produção dos carros na sua planta, Camaçari também abriga um expoente na produção de energia limpa: a Siemens - em 2019, ela foi a primeira fabricante do setor eólico com capacidade para produzir 100% dos seus conversores no Brasil.A Bahia ainda tem uma estrada longa, mas está no caminho certo para estimular seus potenciais adormecidos RICARDO ALBAN,PRESIDENTE DA CNIRicardo Alban, presidente da CNI
Divulgação BYDEspecial Summit 2025 Let’s Go Bahia | 75O futuro é limpo e sustentávelRicardo Alban argumenta que a Bahia deve aproveitar a oportunidade do protagonismo e converter o destaque de ter os menores custos de produção de energia do país em combustível para a construção de um mercado mais forte. “É necessário avançar em políticas públicas que incentivem o uso eficiente da infraestrutura e o aproveitamento pleno dos recursos energéticos locais. Quando essa equação funciona, a energia deixa de ser apenas um potencial e passa a ser um fator real de competitividade. Isso ajuda a reduzir o ‘Custo Brasil’ e torna o estado mais atrativo para novos investimentos”, afirmou o presidente da CNI.Alban defende a ideia de integração entre os setores. “Trabalhar de forma integrada produz mais resultado do que atuar de maneira isolada. Dois fazem melhor do que um, e três fazem melhor do que dois”, disse. Outras empresas do polo conseguem seguir essa estratégia, mesmo que de forma externa, como é o caso da Braskem e da Continental. A fabricante de pneus destina mais de 90% da sua produção de resíduos para a reciclagem, fortalece o comércio e auxilia na sobrevivência de cooperativas no interior do estado. Já a Braskem contribui para o modelo de economia circular com uma abordagem de fora para dentro. Bom exemplo é a “Plastitroque”, ação na qual a população pode doar resíduos plásticos em troca de insumos básicos, funcionando como uma conscientização socioambiental para parte dos habitantes de Camaçari. O material arrecadado acaba virando matéria-prima e voltando para as prateleiras.Seguindo o mesmo caminho, a BYD projeta sua atuação para além dos muros da fábrica. “Esse compromisso se traduz, por exemplo, no avanço da nacionalização de componentes, com a empresa é justamente o que Alban havia comentado sobre escalabilidade. Em uma pesquisa divulgada pela Federação das Indústrias do Estado do Paraná (FIEP), 87% dos consumidores brasileiros dão prioridade a produtos de empresas sustentáveis e, destes, 70% não se importam se a contrapartida for pagar um pouco mais caro. O movimento em curso em Camaçari indica que a Bahia começa a substituir ciclos interrompidos por novas engrenagens mais alinhadas às demandas globais. Se essa transição se consolidar, o estado recupera fôlego industrial e redefine a qualidade do seu crescimento, com impactos diretos sobre cadeias, empregos e competitividade a nível mundial. Alexandre Baldy, vice-presidente sênior da BYD BrasilA decisão de investir no Nordeste resulta de uma combinação de fatores estratégicos, como incentivos industriais competitivos ALEXANDRE BALDY,VICE-PRESIDENTESÊNIOR DA BYD BRASILbuscando fornecedores próximos e incentivando a instalação ou expansão de parceiros industriais na região”, diz Alexandre Baldy.Essa mistura entre mão de obra local qualificada e inovação
IA Let’s Go BahiaMão de obra qualificadaVAGAS ABERTAS,TALENTOS ESCASSOS:o desalinhamento que freia a BahiaPor David SilvaEstado amplia a geração de empregos, mas enfrenta a falta de mão de obra qualificada 76 | Let’s Go Bahia Especial Summit 2025
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78 | Let’s Go Bahia Especial Summit 2025Mão de obra qualificadaEnquanto cresce o discurso – e a demanda – sobre qualificação e empregabilidade, empresas baianas seguem com dificuldade para preencher vagas com profissionais preparados. O mercado avança com exigências cada vez mais técnicas e experiência aplicada, enquanto grande parte da mão de obra permanece concentrada na teoria. A engrenagem não encaixa, a conta não fecha e acaba limitando o ritmo de desenvolvimento do estado.A Bahia encerrou o ano de 2025 com uma taxa de desocupação de 8,7%, número que indica uma melhora diante do período anterior. Contudo, ao analisar o dado com o rigor necessário, percebe-se que ainda figuramos entre os maiores índices de desemprego. O gap deixa claro que o problema vai além da falta de vagas e envolve a perda de profissionais qualificados para outros mercados, inclusive para a informalidade. Em entrevista a esta edição especial da Let’s Go Bahia, o presidente da Confederação Nacional da Indústria (CNI), Ricardo Alban, afirma que a preservação de talentos exige, antes de tudo, um ambiente favorável ao desenvolvimento das empresas locais. “Isso passa por políticas públicas que garantam segurança e apoio ao crescimento dos negócios. Hoje, muitos jovens qualificados buscam oportunidades fora do estado justamente por falta desse ambiente”, alerta.Para Alban, é fundamental inverter essa lógica e oferecer condições para que o profissional enxergue boas perspectivas no mercado regional. Ele cita a cooperação e a formação de lideranças como diferenciais competitivos e defende que a Bahia fortaleça o empreendedorismo local. “É preciso promover mais integração entre os setores produtivos. É assim que se constrói um futuro mais sólido para a indústria”, avalia o executivo.A conta que não bateFato é que o mercado de trabalho na Bahia enfrenta um desafio comum a muitos estados do país. Há pessoas querendo trabalhar e empresas precisando contratar, mas falta alinhar a equação entre formação qualificada e demanda mais exigente. A informalidade, que ainda atinge mais de 50% dos ocupados no estado, reforça essa percepção.Esse desalinhamento se evidencia na dinâmica recente do mercado formal e na qualidade das vagas geradas. Em 2025, a Bahia criou pouco mais de 94 mil empregos com carteira assinada, alcançando o terceiro maior saldo do país, segundo dados do Ministério do Trabalho e Emprego (MTE). Apesar do resultado positivo, a rotatividade ainda permanece elevada, com taxa próxima de 32,8% em 12 meses, indicando que o descompasso permanece mesmo após a efetivação. É preciso promover mais integração entre os setores produtivos. É assim que se constrói um futuro mais sólido RICARDO ALBAN, PRESIDENTE DA CONFEDERAÇÃO NACIONAL DA INDÚSTRIARicardo Alban, presidente da Confederação Nacional da Indústria
Especial Summit 2025 Let’s Go Bahia | 79Ainda de acordo com o MTE, a Bahia concentra cerca de 720 mil pessoas desocupadas e 746 mil subocupadas. Outro dado que chama a atenção é a concentração setorial. Mais de 57% das novas vagas formais em 2025 vieram do setor de serviços, especialmente em atividades administrativas e técnicas, ou seja, vagas com necessidade de qualificação específica para atender a demandas cada vez mais especializadas.É perceptível o papel das instituições de ensino nesse tabuleiro. É delas que se espera a conexão entre formandos e egressos às oportunidades reais no mercado de trabalho. Para entender melhor como superar esse desencontro, conversamos com o professor Kléber Fernandez, reitor da UniFTC. Segundo ele, a universidade tem assumido, cada vez mais, o papel de ser a ponte efetiva entre ensino e mercado. “Entendemos que a universidade não pode ser apenas uma transmissora de teoria, mas, sim, uma ponte ativa. O gap acontece quando o ensino é estático e o mercado é dinâmico”, observa o reitor.Fernandez conta que a instituição que lidera tenta aplicar a mentalidade já na formação dos futuros profissionais. “Assumimos a responsabilidade de ser os ‘curadores’ dessa transição. Implementamos recentemente o nosso Setor de Empregabilidade, que atua como uma antena: captamos as competências que as empresas mais demandam hoje e as traduzimos em orientações para nossos alunos”, explica. Para o professor, a adaptação curricular é uma das maiores chaves no processo de identificação de caminhos concretos de integração entre universidades, empresas e governo. “Usamos os dados colhidos pelo nosso Setor de Empregabilidade, juntamente com o time de Kléber Fernandez, reitor da UniFTCO gap estrutural acontece quando o ensino é estático e o mercado é dinâmico KLÉBER FERNANDEZ, REITOR DA UNIFTCMãos na massaUm dos mais conhecidos atores do cenário profissionalizante do país, o SENAI tem ampliado a oferta de formação técnica gratuita e, apenas em 2026, disponibiliza mais de cinco mil vagas em cursos distribuídos por cerca de 15 municípios baianos, alinhados às necessidades da indústria local. Segundo o Observatório Nacional da Indústria, a Bahia deve demandar mais de 300 mil trabalhadores qualificados até 2027, com destaque para áreas como logística, que enfrenta um déficit estimado de 129 mil profissionais no estado, e setores em expansão, como energias renováveis, impulsionados por investimentos em energia eólica e solar. Gestão Acadêmica, para atualizar conteúdos de forma imediata, sem precisar esperar o ciclo de renovação do curso. Se o mercado sinaliza uma nova competência, nós a inserimos através de workshops, certificações intermediárias e desafios reais dentro das disciplinas”, completa o gestor da UniFTC.
80 | Let’s Go Bahia Especial Summit 2025Mão de obra qualificadaUniversidades públicas também entram na jogada com iniciativas voltadas para essa realidade. A Universidade Federal da Bahia (UFBA) lançou, em 2025, o programa “UFBA Acolhe e Emprega”, que reserva vagas em empresas terceirizadas para pessoas em vulnerabilidade social, em parceria com secretarias estaduais e municipais. Já a Universidade Federal do Recôncavo Baiano (UFRB) fechou um acordo com empresas juniores para que elas implementem projetos práticos em seus campi, induzindo os estudantes a já terem contato com conhecimentos práticos desde cedo - o que já é meio caminho andado.O caminho passa pela criação de pontes que acabem transformando qualificação em produtividade. Neste mesmo raciocínio, a Federação das Indústrias do Estado da Bahia (FIEB) anunciou ainda para 2026 a expansão do Programa de Integração Escola--Indústria, que prevê parcerias com 120 empresas para a oferta de residências técnicas e estágios supervisionados em áreas como química e automação. Em paralelo, o Observatório Nacional da Indústria projeta que, mantido o ritmo atual de formação técnica e superior, a Bahia poderá reduzir em até 30% o déficit de mão de obra qualificada até 2028.Informar melhor e conectar pessoas são passos que podem transformar o cenário atual em oportunidades concretas para baianos em busca de emprego estável e futuro promissor. São medidas que, pensadas em conjunto, nos ajudam a vislumbrar um futuro em que a evasão de nossos talentos será amortizada, e a Bahia deixará de assistir aos seus prodígios alçarem voo longe de suas origens. @daamretratos
IA Let’s Go BahiaInteligência ArtificialO TRABALHODEPOIS DAMÁQUINAPor David SilvaAvanço da Inteligência Artificial redefine funções, acelera produtividade e impõe um novo padrão de entrada no mercado82 | Let’s Go Bahia Especial Summit 2025
Especial Summit 2025 Let’s Go Bahia | 83A Inteligência Artificial virou critério de sobrevivência profissional. Quem não a entende, fica para trás. Quem não a usa, também. A transformação não está no horizonte. Ela está acontecendo, agora, dentro das empresas, nas decisões e na forma como o trabalho é entregue.Lá em 2019, se alguém te perguntasse “O que é Inteligência Artificial?”, a resposta provavelmente viria carregada de abstrações: “O cérebro da máquina”, “A capacidade de executar tarefas” ou até referências ao cinema, como o filme “O Exterminador do Futuro”.Esse imaginário mudou – e rápido. Com a expansão da OpenAI, criadora do ChatGPT, e o avanço de grandes playerscomo o Google, o tema deixou de ser especulativo e passou a Summit teve painel especial sobre Inteligência ArtificialAndrea Loiro, especialista em Transformação Digital @daamretratos @daamretratos
84 | Let’s Go Bahia Especial Summit 2025Inteligência Artificialele não está apenas automatizando uma tarefa, ele está alterando o padrão de produtividade esperado.E é exatamente aí que começa a mudança mais profunda.Mercado de trabalho e empregabilidadeFoi justamente nesse contexto que o Summit de Negócios Made in Bahia trouxe para o debate nomes como o professor Bruno Antunes, reitor da Universidade Salvador (UNIFACS), e Andrea Loiro, um dos principais especialistas em transformação digital do país. Com mais de 200 palestras por ano, Andrea acompanha de perto como a Inteligência Artificial vem sendo incorporada às rotinas profissionais. “Um estudo da consultoria McKinsey mostra que cerca de 30% das tarefas de um vendedor podem ser automatizadas. Isso não elimina o profissional, mas lhe devolve tempo para atividades de maior valor”, explicou durante o evento. O ponto central, portanto, é o reposicionamento. Se antes grande parte do tempo era consumida por tarefas operacionais, agora, espera-se que esse mesmo profissional atue de forma mais estratégica, consultiva e relacional. Na prática, isso eleva o nível de exigência desde o início da carreira. Tradicionalmente, o mercado é dividido em três níveis: júnior, pleno e sênior. O profissional júnior inicia sua trajetória executando tarefas mais operacionais como a leitura de documentos, a organização de informações e análises iniciais – se pesarmos bem, são justamente essas funções que estão sendo absorvidas pela Inteligência Artificial. E isso levanta uma questão: se a base operacional diminui, como se forma a próxima geração de profissionais experientes? Para Bruno Antunes, a resposta passa por uma reconfiguração do próprio conceito de entrada no mercado. “As ferramentas de IA automatizam tarefas básicas, mas criam uma nova demanda: profissionais que saibam utilizá-las de forma integrada a habilidades socioemocionais. Isso eleva o nível de qualificação desde o início e abre novas oportunidades para quem se adapta”, afirma. Andrea Loiro reforça que o movimento já é mensurável. “Dados recentes apontam uma queda de 26% na abertura de vagas de entrada nos Estados Cerca de 30%das tarefasde um vendedor podem ser automatizadas ANDREA LOIRIOBruno Antunes, reitor da Unifacsocupar um espaço central no debate sobre empregabilidade, produtividade e competitividade.Mais do que entender o que é a Inteligência Artificial, o ponto hoje é compreender o que ela muda e com que velocidade isso acontece.O que convencionalmente chamamos de IA são, em grande parte, os chamados Grandes Modelos de Linguagem (ou LLMs, na sigla em inglês), sistemas treinados com volumes massivos de dados que operam por predição matemática para gerar textos, imagens, áudios e respostas cada vez mais sofisticadas.Mas, para o mercado, o ponto central não está na tecnologia em si. Está na sua aplicação. Quando um profissional utiliza a IA para estruturar um contrato, analisar dados ou sintetizar informações,
Especial Summit 2025 Let’s Go Bahia | 85mas a decisão final, a leitura do contexto e a relação com o paciente continuam sendo essencialmente humanas. Antunes reforça essa perspectiva. “Os agentes de IA não Unidos. Isso não significa menos trabalho, mas um novo desenho dessas posições”, destaca.A era da augmentação Dentro desse novo cenário, um dos conceitos mais curiosos discutidos no Summit foi o de augmentação. Ele trata da ideia de que a Inteligência Artificial amplia as capacidades humanas, combinando velocidade computacional com julgamento, contexto e sensibilidade. É a transição de um modelo de execução para um modelo de amplificação. Isso significa que profissionais passam a atuar como orquestradores de tecnologia, utilizando ferramentas para potencializar entregas e não apenas executar tarefas. Um médico, por exemplo, pode utilizar IA para cruzar dados e apoiar diagnósticos, de saúde”, explica. Formações como Enfermagem, Fisioterapia, Odontologia e Medicina seguem dependentes de empatia, julgamento contextual e habilidades práticas. Isso não reduz o papel da tecnologia, apenas redefine onde está o valor humano.O impacto nos setorese na economia Quando olhamos para setores estratégicos, a Inteligência Artificial deixa de ser tendência e passa a ser vantagem competitiva. Na Bahia, onde o turismo exerce forte influência econômica, a tecnologia surge como aliada direta na personalização de experiências e na eficiência da gestão pública e privada. Segundo dados do Ministério do Turismo e do Observatório do Turismo da Bahia, o estado registrou um crescimento de 20,4% em março de 2025, na comparação com o mesmo período do ano anterior. Com o apoio da Inteligência Artificial, esse avanço tende a ser ainda mais qualificado. Sistemas inteligentes permitem criar roteiros personalizados com base no comportamento dos turistas, além de análises preditivas que ajudam governos e empresas a se anteciparem à demanda. Durante o Summit, o prefeito de Salvador, Bruno Reis, destacou o momento da cidade: “Salvador está cada vez mais bonita, mais desejada por brasileiros e visitantes internacionais. Isso é resultado de planejamento, parcerias e de um esforço coletivo para transformar a cidade em um ambiente de negócios moderno, sustentável e cheio de oportunidades”, afirmou. A Inteligência Artificial já redefine as regras do jogo. Ela não elimina o trabalho humano. Ela elimina o trabalho mediano. Neste novo cenário, não vence quem sabe mais, vence quem sabe usá-la melhor. Andrea Loiro, especialista em Transformação DigitalOs agentes de IA não substituem o olhar humano, mas podem enriquecer o trabalho BRUNO ANTUNES,REITOR DA UNIFACSsubstituem o olhar humano, mas podem enriquecer o trabalho. As profissões menos impactadas são aquelas que exigem presença física, interação humana e capacidade de lidar com situações imprevisíveis, como nas áreas @daamretratos
FreepikNegócios inovadoresUm estado queprecisa correrPor Isac ElissonSob a supervisão do coordenador Matheus PastoriCom mais de 1,2 milhão de pequenos negócios e avanço tecnológico ainda desigual, a Bahia corre atrás de inovação para sustentar o crescimento86 | Let’s Go Bahia Especial Summit 2025
Especial Summit 2025 Let’s Go Bahia | 87
88 | Let’s Go Bahia Especial Summit 2025Negócios inovadoresCom trajetória consagrada entre o planejamento público e a formulação de políticas de desenvolvimento, Waldeck Ornelas é uma das vozes mais experimentadas na leitura dos ciclos econômicos da Bahia. Engenheiro civil de formação, Ornelas construiu carreira em posições-chave da gestão pública baiana. Foi secretário de Planejamento, Ciência e Tecnologia da Bahia, deputado federal constituinte, senador e ministro da Previdência Social. Ao longo das últimas décadas, tornou-se referência nacional em planejamento urbano-regional, e hoje contribui com suas análises no Instituto Desenvolve Bahia, onde acompanha as transformações do ambiente produtivo e os desafios de competitividade do estado. Foi essa bagagem que o especialista trouxe ao Summit Made in Bahia.Para Ornelas, o estado vive um momento de redefinição no empresariado: a migração de modelos tradicionais para aqueles que buscam inovação, digitalização e diversificação de receitas. Esse movimento já desenha clustersvitoriosos de desenvolvimento no Oeste, na Chapada Diamantina e no Extremo Sul, provando que o talento local tem fôlego para escalar.Os indicadores reforçam que essa transição já está em curso, ainda que de forma desigual. Segundo o Sebrae, a Bahia ultrapassou a marca de 1,2 milhão de pequenos negócios ativos em 2025, sendo mais de 700 mil microempreendedores individuais (MEIs).No campo da inovação, um levantamento do Observatório Nacional da Indústria aponta que cerca de 34% das indústrias baianas implementaram algum tipo de inovação em processos ou produtos nos últimos anos, ainda abaixo dos polos mais avançados do país, mas em trajetória de crescimento. Salvador, em especial, figura entre as principais capitais nordestinas em número de startups, com mais de 400 empresas mapeadas.Ornelas avalia que o diferencial competitivo de quem deseja prosperar no novo ambiente global está na inovação tecnológica. Para o especialista, a Bahia possui um diferencial que ele classifica como o “MIT brasileiro”: o Sistema Senai Cimatec, capaz de fornecer a inteligência necessária para que as empresas locais saltem de patamar. “A ocupação desse espaço tecnológico, aliada ao nosso volume populacional e à diversidade de biomas, consolida um novo rumo para o mercado nacional”, analisa.Embora aponte desafios históricos no isolamento logístico e na infraestrutura ferroviária, Ornelas enxerga na modernização recente dos portos da Baía de Todos-os--Santos uma válvula de escape vital para o crescimento. A chegada de gigantes como a BYD desloca a curva de demanda e sinaliza que a Bahia está no radar de investimentos globais. “A Bahia tem pressa. Precisamos de providências imediatas para superar o isolamento logístico que compromete a nossa expansão nacional”, alerta.Uma das teses de Ornelas é a ocupação das capitais regionais. Para ele, cidades médias como Feira de Santana, Vitória da Conquista, Barreiras e Juazeiro são mercados expressivos que devem ser o foco inicial das empresas baianas que buscam escala. “A ocupação estratégica do nosso próprio mercado é o que permitirá às nossas indústrias de bens finais e serviços se lançarem com robustez ao mercado nacional”, destaca.Já o papel do crédito e das novas políticas de incentivo será o combustível para negócios inovadores. Ornelas ressalta que iniciativas como o Grupo Business Bahia e o selo Made in Bahia são fundamentais para ampliar as relações interempresariais.A visão de Waldeck Ornelas é um convite à ação. Para o especialista, um maior alinhamento entre poder público e iniciativa privada cria um ambiente favorável para que a multiplicidade de novos modelos vença fragilidades. “Somente a multiplicidade de iniciativas empresariais permitirá elevar o nível de renda e gerar empregos de qualidade para a nossa população”, diz o técnico, apontando que o futuro da Bahia está em converter potencial em competitividade absoluta.O novo cenário fiscalPara que isso se materialize, Ornelas provoca uma reflexão sobre as políticas de fomento diante da nova ordem tributária. Com o fim gradual dos incentivos baseados no ICMS, o especialista alerta que a Bahia precisa adotar, com urgência, mecanismos de incentivo ao comércio exterior já testados com sucesso por estados vizinhos. “É preciso adotá-los sem perda de tempo para permitir que as empresas baianas se beneficiem das oportunidades que temos”, reforça.A sobrevivência em nichos locais não é mais suficiente em um mercado no qual empresas de outros estados nordestinos e do Centro--Sul disputam agressivamente o território baiano. A transição exige que o capital local esteja à frente de setores onde a Bahia já possui liderança natural, como a geração de energia limpa, eólica e solar - que ainda carecem de uma estratégia para o consumo e a industrialização interna.Essa nova arquitetura de negócios é o que permitirá à Bahia superar ciclos econômicos e tornar as empresas capazes de sustentar o crescimento em longo prazo. O convite de Ornelas é para uma Bahia que planeja o futuro sem ignorar as urgências do agora. A Bahia ultrapassou a marca de 1,2 milhão de pequenos negócios ativos em 2025, sendo mais de 700 mil MEIs.
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IA Let’s Go BahiaCrescimento fora do RJ/SPFORÇADOSA MIGRARDa redaçãoConcentração de capital, encargos logísticos e acesso desigual a investimentos ainda deslocam para fora a geração de valor dos negócios baianos90 | Let’s Go Bahia Especial Summit 2025
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92 | Let’s Go Bahia Especial Summit 2025Crescimento fora do RJ/SPA possibilidade de empreender sem precisar sair do lugar de origem ainda é um privilégio para poucos no Brasil, especialmente no Nordeste. A busca por oportunidades levou milhões de nordestinos a migrarem para estados como São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais, em um fluxo que marcou décadas e ainda persiste, ainda que em menor intensidade.Dados recentes do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) apontam que o Sudeste concentra mais de nove milhões de pessoas nascidas em outras regiões do país, sendo a principal área de destino da migração interna brasileira, com forte predominância histórica de nordestinos. Esse volume ajuda a explicar por que a região segue como principal polo de atração de oportunidades econômicas, concentrando mais de 50% do PIB nacional.Permitir que empreendedores construam negócios sólidos perto de suas famílias, nos territórios onde nasceram, representa uma mudança relevante na lógica nordestina em geral. O Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae) indica que apenas a Bahia abriga hoje mais de 1,2 milhão de empresas ativas. Desse total, cerca de 90% são micro e pequenos negócios; um perfil que reflete um ambiente empreendedor pulverizado, ainda marcado por limitações como o acesso restrito a capital e menor visibilidade competitiva.Mas esse cenário começa a mudarNos últimos anos, o avanço do consumo nas regiões Norte e Nordeste, impulsionado por programas de transferência de renda, expansão do crédito e crescimento populacional, abriu novas frentes para empresas locais. Ainda segundo o IBGE, o Nordeste concentra cerca de 27% da população brasileira, o que representa um mercado interno relevante e, muitas vezes, subexplorado por grandes playersnacionais.Na Bahia, esse movimento se traduz na expansão de setores como varejo, alimentação, saúde, educação e serviços especializados. Empresas que antes operavam de forma regional começam a ganhar o país, ampliando a sua presença em outros estados e, em alguns casos, disputando mercado no próprio Sudeste.Há, claro, um fator cultural por trás desse avanço. Para o presidente do LIDE Bahia, Mario Dantas, o principal ponto está no perfil do empreendedor. “O principal fator em comum entre as empresas que alcançaram sucesso em escala é a ambição de seus fundadores e sócios de crescer e expandir para fora da Bahia”, afirma.Segundo ele, muitas vezes, essa expansão também é impulsionada por uma necessidade prática. “A dificuldade no mercado local faz com que as empresas busquem oportunidades fora”, completa.A logística segue como um dos principais entraves. O Brasil ainda depende majoritariamente do transporte rodoviário, que responde por cerca de 65% da movimentação de cargas, segundo a Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT). Para empresas baianas que precisam distribuir produtos nacionalmente, isso significa custo elevado e menor previsibilidade.Mas, na avaliação de Dantas, é mesmo a desigualdade no acesso ao capital que pesa como fator limitante para quem deseja expandir fora do eixo da ponte aérea. “O maior dificultador para as empresas baianas é a necessidade de estarem capitalizadas. A expansão exige capital. Você tem que estar forte no seu mercado atual para poder dar esse passo para novos mercados”, explica.Embora haja um crescimento na presença de fundos e investidores na região, o volume ainda é pequeno quando comparado ao Sudeste. Dados da Associação Brasileira de Private Equitye Venture Capital (ABVCAP) mostram que a maior parte dos investimentos brasileiros segue concentrada no estado de São Paulo, que retém algo entre 70% e 80% do total.Na práticaOs casos de sucesso que conseguem romper essa barreira já apresentam padrões identificáveis. São empresas que investem cedo em governança, estruturam processos, profissionalizam a gestão e constroem redes fora do estado. Desde cedo, aprendem a operar em novos mercados — um dos fatores cruciais destacados por Mario Dantas.“O principal desafio é se tornar uma empresa local nos novos mercados e estabelecer relacionamentos sólidos. Quanto mais rápida essa integração, maiores as chances de sucesso”, diz o presidente da seção baiana do grupo de líderes empresariais.“A Bahia tem bons exemplos de empresas que conquistaram o território nacional. Posso citar o Grupo Odebrecht como um dos maiores, por ter se tornado a maior construtora e multinacional Empresas continuam nascendona Bahia, mas parte significativado valor que geramacaba sendo capturada fora dela.
Especial Summit 2025 Let’s Go Bahia | 93Mario Dantas, presidente do Lide BahiaO O principal fator em comum entreas empresas que alcançaram sucessoem escala está na ambição permanentede seus fundadores e sóciosde crescer, expandir e ganhar mercado MARIO DANTAS, PRESIDENTE DO LIDE BAHIAbrasileira em seu setor. Outros casos são Lemos Passos, líder em fornecimento de alimentação, e o Grupo LM, parceiro da Volkswagen em carros por assinatura. O grupo nordestino à frente da Ferreira Costa, de Pernambuco, iniciou expansão pela Bahia e avança no varejo, um setor extremamente difícil”, lembra o empresário.Se o crescimento das empresas depende, em grande parte, da expansão para outros estados, há um efeito colateral relevante: o deslocamento do centro de decisão e, consequentemente, da geração de valor. Em outras palavras, empresas com potencial continuam nascendo na Bahia, mas parte significativa do valor que geram acaba sendo capturada fora do estado.A expansão nacional já deixou de ser exceção e começa a se consolidar como caminho natural, mas o próximo passo exige maturidade cultural e econômica para que esse crescimento não signifique, na prática, uma desconexão com a origem. À medida que novos ciclos se abrem, o que está em jogo é a própria capacidade baiana de transformar essa ambição empresarial em um vetor palpável de desenvolvimento dentro de casa.
FreepikMercado de CapitaisQuem paga a conta do crescimento baiano?Da RedaçãoDependência de crédito público, sistema de garantias e acesso limitado ao mercado de capitais ainda travam o avanço de pequenas e médias empresas94 | Let’s Go Bahia Especial Summit 2025
Especial Summit 2025 Let’s Go Bahia | 95
96 | Let’s Go Bahia Especial Summit 2025Mercado de CapitaisO crescimento da economia baiana começa por um ponto básico: dinheiro para girar a engrenagem das empresas. Parece simples, mas não é. O acesso a capital ainda é desigual; e quem mais sente são micro, pequenas e médias empresas, que dependem diretamente de financiamento para crescer.A Bahia tem mais de um milhão de empresas em atividade; cerca de 90% são pequenos negócios. A maior parte dessas empresas cresce condicionada ao crédito disponível, muitas vezes em condições pouco favoráveis.Não é um problema baiano. É o modelo brasileiro funcionando como sempre funcionou. As operações mais robustas de investimento – especialmente em private equity e venture capital – seguem concentradas no Sudeste, com São Paulo no centro desse fluxo. Fora desse eixo, captar recursos exige mais esforço e menos previsibilidade.É nesse espaço que entram os bancos de desenvolvimento e os instrumentos regionais. E é daí que surge a pergunta: quem, grande parte desse avanço. “O crescimento ainda é majoritariamente financiado por crédito público e bancos tradicionais, especialmente o Banco do Nordeste. Outras instituições como BNDES e Desenbahia também contribuem. Eles têm um papel central, especialmente em infraestrutura, agroindústria e indústria. O Banco do Brasil é importante no agronegócio, e a Caixa nos financiamentos imobiliários”, comenta.De acordo com Pedro Neto, superintendente estadual do Banco do Nordeste, o papel da instituição está diretamente ligado à tentativa de redução dessa assimetria. “O Banco do Nordeste atua para reduzir a desigualdade no acesso ao crédito, especialmente para PMEs e para os agricultores familiares”, afirma.“O que existe, em alguns casos, são gargalos pontuais, principalmente na questão das garantias para micro e pequenas empresas. Foi justamente aí que avançamos: retomamos a parceria com o SEBRAE por meio do Fundo de Aval às Micro e Pequenas Empresas (FAMPE), que cobre, em média, até 80% das operações, podendo chegar a 100% quando se trata de negócios liderados por mulheres”, destaca Pedro.Uma pedra no caminhoO principal instrumento dessa política é o Fundo Constitucional de Financiamento do Nordeste (FNE). Por regra, 68% dos recursos são direcionados a empresas e produtores com faturamento anual de até R$ 16 milhões. É uma inversão da lógica tradicional: quanto menor a empresa, melhores tendem a ser as condições de crédito.Os números ajudam a dimensionar esse alcance. Em 2025, programas como Crediamigo e Agroamigo reuniam cerca de 600 mil clientes ativos na Bahia, com, aproximadamente, R$ 4 O crescimento ainda é amplamente financiado por crédito público e bancos tradicionais CARLOS FALCÃO, FUNDADOR DO GRUPO BUSINESS BAHIACarlos Falcãode fato, financia o crescimento da Bahia?Para o empresário Carlos Falcão, fundador do Grupo Business Bahia e da Winners Engenharia Financeira, o financiamento público ainda sustenta
Especial Summit 2025 Let’s Go Bahia | 97sistema criou atalhos. Os fundos garantidores são os principais deles: entram para cobrir parte relevante das operações e ampliar o acesso.“As empresas médias ficam numa espécie de zona bilhões aplicados. No mesmo período, o volume de crédito contratado pelo Banco do Nordeste no estado saltou de R$ 9 bilhões, em 2022, para mais de R$ 15 bilhões.O crédito existe. Mas não chega igual para todo mundo. Pedro Neto aponta que o principal entrave continua sendo a estrutura de garantias. Em outras palavras: o recurso está disponível, mas muitas empresas não conseguem atender às exigências necessárias para acessá-lo.“Esse é um dos principais gargalos que dificulta o crescimento do estado. Os motivos incluem alto risco percebido pelos agentes financeiros, garantias insuficientes, custo elevado do crédito, baixa educação financeira, estrutura contábil frágil e governança insuficiente”, comenta Carlos Falcão.Para reduzir essa distância, o Pedro Neto, superintendente estadual do Banco do Nordesterisco percebido, mas também de estrutura”, explica o superintendente do Banco do Nordeste.Para poucosMesmo com avanços, há muitas barreiras a serem desbravadas. O mercado de capitais ainda não é uma alternativa para a maior parte das empresas baianas. Operações mais estruturadas seguem concentradas no Sudeste, com presença nordestina incipiente.Para Falcão, essa distância tem explicações práticas. “Esse mercado ainda é restrito e distante para a maioria. Os altos spreads e a taxa de juros elevada dificultam a popularização. As operações estruturadas oferecem alternativas interessantes para o crédito. Alguns instrumentos como FIDCS, debêntures e fundos estruturados são algumas dessas opções, mas isso exige governança, escala e transparência”, pontua.Empresas que conseguem crescer acabam, muitas vezes, buscando financiamento fora do estado. Em alguns casos, não é somente o capital que sai da Bahia, talentos e centros de decisão também o acompanham.O cenário começa a se mover, ainda que devagar. A expansão do microcrédito, a presença mais ativa dos bancos de desenvolvimento e o uso de instrumentos de garantia abrem caminhos, sobretudo fora dos grandes centros. Parte relevante dos recursos do FNE já chega ao interior, alterando essa dinâmica.Mas o problema de fundo permanece. Ampliar o financiamento não é apenas aumentar o volume de crédito, passa também por preparar melhor as empresas, qualificar a gestão e criar condições para que o capital circule com menos entraves.O desafio da Bahia, portanto, não é crescer. É financiar esse crescimento e garantir que o valor gerado permaneça no próprio estado. Nós atuamos justamente para reduzir a desigualdade no acesso ao crédito PEDRO NETO, SUPERINTENDENTE REGIONAL DO BANCO DO NORDESTEintermediária: não são grandes o suficiente para ter uma estrutura financeira mais organizada, mas também não são pequenas o suficiente para se enquadrar nos modelos mais simplificados. Então, não é só uma questão de
IA Let’s Go BahiaFake NewsSua empresa está preparada para uma mentira?Por David SilvaNa era das deepfakes, uma informação falsa pode custar bilhões e expor falhas graves de governança98 | Let’s Go Bahia Especial Summit 2025
Especial Summit 2025 Let’s Go Bahia | 99
100 | Let’s Go Bahia Especial Summit 2025Fake NewsNo século XVII, o padre Antônio Vieira afirmou que a mentira, muitas vezes, supera a verdade quando se trata de poder. Hoje, em um cenário de informações instantâneas, essa máxima representa um risco estratégico real: a desinformação virou uma arma capaz de destruir reputações e valores de mercado em questão de minutos.A ciência define esse fenômeno como “Efeito da Influência Contínua da Desinformação”. Estudos indicam que mesmo após o desmentido de uma notícia falsa, o impacto inicial não desaparece totalmente. A percepção equivocada persiste no espaço cognitivo, influenciando o julgamento de quem foi exposto ao fato original. Uma lacuna que permanece viva na mente do interlocutor.Um caso emblemático ocorreu em novembro de 2022 com a farmacêutica Eli Lilly. Durante uma invasão hacker em seu perfil no X (antigo Twitter), foi publicado que a empresa distribuiria insulina gratuitamente. O anúncio falso, feito em meio ao debate sobre custos de saúde nos EUA, causou uma queda imediata de 4% no valor de mercado da companhia devido ao receio dos acionistas. Mesmo com o esclarecimento rápido sobre o ataque, as ações não recuperaram o valor original nos dias seguintes, provando que a correção nem sempre é suficiente Amorim (Rede Novabrasil), Luiz Lasserre (Grupo A Tarde) e Paulo Itabaiana (Record). Para Lasserre, o debate é fundamental para conscientizar o empresariado sobre a dimensão dos danos causados pela desinformação. “É muito relevante porque mostra que a classe empresarial está atenta à importância do cuidado com a informação e ao direito da sociedade de ter notícias confiáveis”, afirmou.Em entrevista à Let’s Go, Lasserre reforçou que a imprensa tem um compromisso ético e inegociável com a checagem de fatos. “O papel fundamental da imprensa é informar de forma ética e responsável. Se ficar comprovado que um conteúdo é inverídico, a imprensa tem o dever de corrigir a informação”, pontuou.Quando perguntado sobre a balança entre velocidade e veracidade, Lasserre faz um alerta. “Nenhuma pressão para sair na frente dos concorrentes deve comprometer o rigor na apuração dos fatos pelos veículos de comunicação. Para isso existem fluxos e técnicas de produção jornalística que visam equilibrar a rapidez para a veiculação com um patamar mínimo de checagem e apuração que garantam a produção de conteúdos confiáveis”, afirma o editor de A Tarde.Governança e gestão de riscoPara o alto escalão das grandes empresas, já está claro que não basta divulgar boas ações. É preciso monitorar o ecossistema digital para evitar surpresas. Se o desafio é simultaneamente cognitivo e econômico, a blindagem deve passar por parcerias sólidas e um relacionamento estreito com veículos de comunicação de credibilidade.Uma instituição que não domina o controle sobre sua narrativa no ambiente digital é lida pelo mercado como um negócio de alto risco. Sem protocolos claros para lidar com crises de desinformação, Nenhuma pressão para sair na frente dos concorrentes deve comprometer o rigor na apuração LUIZ LASSERRE,EDITOR DO JORNAL A TARDELuiz Lasserre, editor do jornal A Tardepara anular o prejuízo financeiro e reputacional.Este cenário de vulnerabilidade corporativa foi o ponto central de um painel de alto nível no Summit de Negócios. O debate contou com a participação de Ana Raquel Copetti (então Rede Bahia), Diego @daamretratos