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Fruto da disciplina de Laboratório de Jornalismo 2, do curso de jornalismo, da Universidade Federal do Ceará (UFC), nesta primeira edição da Visage, você vai fazer uma viagem pelo passado, presente e futuro da moda, sob o olhar dos jovens fortalezenses. Na revista você vai encontrar a identidade LGBTQIA+ pelo olhar das ballrooms e os destaques da participação jovem no Dragão Fashion Brasil - DFB Festival. Descubra, também, sobre a importância das roupas para recuperação da identidade de egressos do sistema prisional, e sobre a necessidade do upcycling para nosso futuro. Além disso, você pode passear pelo passado, por meio do revival dos anos 2000 na moda contemporânea, ao mesmo tempo que entende sobre política, metaverso e muito mais. Boa viagem!

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Published by vibesmateus, 2022-07-25 20:44:28

Revista Visage

Fruto da disciplina de Laboratório de Jornalismo 2, do curso de jornalismo, da Universidade Federal do Ceará (UFC), nesta primeira edição da Visage, você vai fazer uma viagem pelo passado, presente e futuro da moda, sob o olhar dos jovens fortalezenses. Na revista você vai encontrar a identidade LGBTQIA+ pelo olhar das ballrooms e os destaques da participação jovem no Dragão Fashion Brasil - DFB Festival. Descubra, também, sobre a importância das roupas para recuperação da identidade de egressos do sistema prisional, e sobre a necessidade do upcycling para nosso futuro. Além disso, você pode passear pelo passado, por meio do revival dos anos 2000 na moda contemporânea, ao mesmo tempo que entende sobre política, metaverso e muito mais. Boa viagem!

Keywords: moda,fashion,jornalismo,journalism,ballroom

VISAGE

RBOAOLLM

2

editorial

Passado, presente e futuro

Visage do francês, pode ser traduzido como face, semblante. No Ceará, denota
aparição, fantasma. Misturando os dois, a elegância francesa e a descontra-
ção cearense, temos uma mistura de passado e futuro. A face aponta para o
futuro, é a representação de uma visão à frente, um caminho a percorrer, enquanto
o fantasma do passado continua a existir. Essa união resulta no presente, um pre-
sente repleto de moda, identidade e idealização.

A melhor forma de unir cada um desses pontos do presente é adentrando no uni-
verso jovem. Isso porque a juventude é o período da construção da identidade in-
dividual. Enquanto na infância e pré-adolescência nossos gostos são ditados pela
família, a partir da adolescência tem início o momento de liberdade, de auto ex-
pressão. E qual melhor forma de se expressar do que pela moda? Por isso mesmo,
as tribos, subculturas, grupos identitários e, atualmente, aesthetics, ou estéticas,
são representadas pela forma de se vestir.

Mesmo que moda e quaisquer comportamentos orientados por ela sejam vistos
como traços de futilidade, superficialidade ou simplesmente fetiches, é inegável a
força social que ela representa. É o primeiro detalhe que vemos sobre alguém, está
às vistas de todos.

Como afirma o filósofo francês Gilles Lipovetsky, "a moda consumada não significa
desaparecimento dos conteúdos sociais e políticos. Significa uma nova relação com
os ideais, um novo investimento nos valores democráticos e, ao mesmo tempo, ace-
leração das transformações históricas, maior abertura coletiva à prova do futuro,
ainda que nas delícias do presente”.

Moda é o futuro, ao mesmo tempo que é o passado revisitado, construindo um
presente que inspira o futuro. É juventude e nostalgia, tudo junto, em uma retroali-
mentação. Por isso, a Visage traz nesta edição um novo olhar sobre os jovens forta-
lezenses. Como uma revista cearense, feita por quatro estudantes da Universidade
Federal do Ceará, na disciplina Laboratório de Jornalismo II, dentro do especial "Jo-
vens", nos propomos a jogar luz sobre a nossa própria realidade.

Como se estivesse passeando por uma noite na cidade, nesta Visage você encontra
a identidade LGBTQIA+ pelo olhar das ballrooms e os destaques da participação
jovem no Dragão Fashion Brasil - DFB Festival. Descubra, também, sobre a impor-
tância das roupas para recuperação da identidade de egressos do sistema prisional,
e sobre a necessidade do upcycling para nosso futuro. Além disso, você pode pas-
sear pelo passado, por meio do revival dos anos 2000 na moda contemporânea, ao
mesmo tempo que entende sobre política, metaverso e muito mais. Boa viagem!

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opinião

O vestir é político

novidade

súmario Glitter, câmera, ação

capa

#Y2K: a aesthetic do momento

cotidiano

Arte para Inclusão: Do sistema para fora

4

O metaverso é o futuro da moda?

opinião

Juventude: O futuro da moda

mídias

The category is...Ballroom

mídias

Upcycling: uma nova possibilidade fashion

cotidiano

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expediente e créditos Créditos imagens do Expediente:
sumário: Diagramação:

Imagem 1 - Reprodução - Mateus Macedo
Raissa Oliveira
League of Legends Design:
Danielle Gadelha
Imagem 2 -Reprodução Ins- Mateus Macedo
tagram @dior
Raissa Oliveira
Imagem 3 - Roberta Braga e
Claudio Pedroso Redação:

Imagem 4 - Reprodução/ Danielle Gadelha
Euphoria Letícia Maia
Mateus Macedo
Imagem 5 - Mano Alves (@ Raissa Oliveira
alveswin) Social Media:
Danielle Gadelha
Imagem 6 - Reprodução/ Letícia Maia
Lizzie Mcguire
Revisão:
Imagem 7 - Anna Tarazevich
Naiana Rodrigues
Imagem 8 - Roberta Braga e
Claudio Pedroso Orientação:
Naiana Rodrigues
Capa:
Rosane Nunes
Mano Alves (@alveswin)

Página 02 e 07:

Reprodução: Cotton Bro |
Pexels

A Visage é uma revista de entretenimento, fruto
do trabalho final da cadeira Laboratório II, do
curso de Jornalismo, da Universidade Federal do
Ceará. É probida reprodução total ou parcial do
seu conteúdo. Os artigos publicados são de inteira

responsabilidade de seus autores.
Fortaleza - Ceará - Brasil

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Créditos imagens: Reprodução/ League of Legends O metaverso é o futuro
da moda?

Por Mateus Macêdo

Nos últimos anos, o chamado
metaverso começou a tomar uma
certa notoriedade. Inspirado no
livro ‘Snow Crash’, de Neal Stephenson,
em que humanos interagem entre si por
meio de avatares em um espaço virtual,
o metaverso é um ambiente digital onde
podemos, trabalhar, socializar, namorar,
jogar e conhecer novas pessoas, tudo isso
sem sair de casa.

O metaverso se tornou o tema do
momento quando se fala em tecnologia.
O termo tomou notoriedade quando o
Facebook anunciou em 2021 a meta de
se tornar uma “empresa de metaverso”
em até cinco anos. Com isso, fomos
bombardeados por novos termos e
conceitos, que antes poderiam parecer
invenções e cenas de filmes futuristas de
ficção científica. Mas hoje, sabemos que o
mundo virtual e o real vem se interligando
faz um bom tempo.

Dentro desse ambiente, outro elemento
que vem ganhando destaque são os
NFTs (sigla para non-fungible token), ou
tokens não-fungíveis. De maneira geral,
eles funcionam como um certificado
de autenticidade digital, de forma que
qualquer outra pessoa pode criar um
elemento (seja uma obra de arte, uma
foto, um vídeo ou um design) que será
vendido exclusivamente neste espaço
digital, garantindo assim a originalidade e
a autenticidade deste material digital.

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Guiadas pela inovação, as marcas 56 bilhões até o mesmo ano. Isso significa Opinião
internacionais começaram a explorar esse que o investimento em médio prazo da
espaço. A Balenciaga já fez uma ação com moda no ambiente digital será altamente
o game ‘Fortnite’, a Louis Vuitton criou notável e lucrativo. Isso se dá porque,
uma coleção para o game ‘League of além de serem colecionáveis e exclusivos,
Legends’, a Gucci já tem um tênis digital e os jogos e NFTs permitem que as marcas
a Balmain lançou um vestido virtual NFT. monetizem sua vasta propriedade
Além disso, a Meta, empresa que comanda intelectual. Os contratos inteligentes
as plataformas e redes sociais Facebook, desse ambiente também permitem que
Instagram e Whatsapp, anunciou o o criador do token não-fungível fique com
lançamento de uma loja de moda online uma porcentagem cada vez que o produto
para vender looks para seus avatares é vendido, ou seja, o cripto mercado se
virtuais. As primeiras marcas disponíveis mostra extremamente atraente.
no e-commerce são Balenciaga, Prada
e Thom Browne, mas, de acordo com No metaverso, as possibilidades são
comunicado do grupo, outros nomes diversas, e a moda tem tudo para abusar
devem ser introduzidos em breve. da criatividade nesse universo futurístico
e tecnológico. Para as marcas de luxo e
Esse novo espaço tem influenciado para as pessoas que têm um grande poder
também as semanas de moda tradicionais, aquisitivo, esse ambiente hoje representa
que estão adicionando elementos um investimento, e é o luxo de uma forma
imersivos ou de rea­lidade aumentada muito mais exclusiva.
à experiência da passarela. Na London
Fashion Week deste ano, a Auroboros, No entanto, vale a pena salientar que ele
marca fundada por Alexander McQueen ainda é um espaço muito exclusivista, visto
que tem o propósito de fundir ciência e que segundo dados do Instituto Brasileiro
tecnologia com alta costura física, estreou de Geografia e Estatística (IBGE), quase
uma linha de prêt-à-porter puramente 40 milhões de brasileiros não têm acesso
digital. Além da realização da primeira à internet, cerca de 20% da população
edição da Metaverse Fashion Week, do país. Isso significa que o acesso ainda
que aconteceu em março, reunindo é fora da realidade de grande parte da
virtualmente cerca de 108 mil pessoas população. O metaverso, hoje, funciona
que participaram do evento por meio da apenas em prol do lucro e do gozo
Decentraland, plataforma pioneira entre estético de uma minoria, reproduzindo
os usuários do metaverso com interação desigualdades que são históricas quando
em blockchain (ferramenta essencial para pensamos no mercado de moda e na
garantir a autenticidade no meio digital). sociedade, quando é um conhecimento
que poderia ser revertido em melhorias e
Segundo um relatório feito pela Morgan bens acessíveis a uma maioria.
Stanley, empresa global de serviços
financeiros, a demanda por marcas de
luxo no metaverso chegará a valer 50
milhões de dólares até 2030, e o valor de
mercado das NFTs de luxo devem chegar a

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O vestir é político

Por Mateus Macêdo

No terceiro dia da São Paulo Fashion utilizado no chapeú dos russos. Relação
Week, durante o desfile da Meninos que se aprofunda ainda mais com a
Rei, marca dos irmãos Júnior e Céu participação de grandes figuras da moda
Rocha, um modelo usando uma mochila em tais grupos militares. Como Hugo
de entrega, como a dos motoboys, Boss, fundador da grife Hugo Boss, que
levantou um cartaz com os dizeres: fez o design dos uniformes do exército
“Chega! Fora, Bolsonaro”. nazista e, Coco Chanel, fundadora da grife
Chanel, que agiu como agente nazista
Há alguns anos temos visto com frequência identificada pelo número F-7124, servindo
desfiles em que as roupas dão lugar às como mediadora entre os alemães e as
lutas sociais, fazem denúncias e críticas, suas importantes conexões que incluíam
seja a um comportamento ou governo. o então homem mais rico da Europa e
É nesse contexto que muitas marcas e ex-amante dela, duque de Westminster,
estilistas revelam os seus valores, junto e o primeiro-ministro da Grã-Bretanha,
aos holofotes das passarelas e estreitam Winston Churchill.
cada vez mais as relações entre moda e
política. Para além da questão partidária, a moda
entra também no campo dos movimentos
Com isso, vemos a moda como ferramenta sociais e exalta as lutas das minorias
de expressão e política, termos que, para através das roupas.
muitos, parecem ser completamente
opostos, mas que se interligam Em 2016, a grife francesa Christian Dior
constantemente no nosso dia a dia. Afinal, anunciou a estilista italiana Maria Grazia
entende-se que política é um termo Chiuri como sua nova diretora criativa, a
referente à sociedade e ao ato de viver primeira mulher a ocupar o posto nos 70
em conjunto. O termo “política” vem do anos de existência da marca. Desde a
grego “politikos”, que fazia referência aos sua estreia na Semana de Moda de Paris,
cidadãos que viviam na “polis” que, por em setembro de 2016, Maria Grazia inclui
sua vez, referia-se à cidade e à sociedade camisetas e suéteres com slogans que
organizada. promovem os direitos das mulheres, a
liberdade e a independência na maioria
A vestimenta como identificação de das suas coleções prêt-à-porter.
orientação ou partido político não é algo
novo. Como é o caso do uniforme do No mesmo ano, a estilista italiana
exército nazista, facilmente identificável estampou a frase “We should all
pelas cores e as suásticas nos braços, e be feminists” ("devemos ser todos
do Exército Vermelho da União Soviética, feministas",), da escritora nigeriana
com suas budiónovkas, distintivo que era Chimamanda Ngozi Adichie e, em 2019,

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estampou o slogan “Sisterhood Global”, Opinião
em português, “Sororidade é global” ,
inspirado no livro da poeta Robin Morgan, Créditos imagens: Reprodução/ Instagram/@dior
durante o desfile da Dior, na semana de
moda de Paris.
A partir desses movimentos nos desfiles e
na própria produção das roupas, é possível
visualizar como o campo da moda passa
cada vez mais a se engajar em questões
e debates políticos em diferentes frentes.
Compondo, assim, lutas mais amplas na
sociedade, como a por representação e
visibilidade de minorias e grupos políticos.
O vestir é e sempre foi político. Moda não
é só tendência e consumo, é também
o reflexo comportamental de um certo
período. Assim, as roupas dizem muito
sobre uma sociedade e o seu momento
cultural em diversos âmbitos, seja no
consumo, na produção, na representação
ou uso econômico e político, por isso,
a indústria da moda consciente e
inconscientemente se liga aos nossos
ideais.

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Créditos imagens: Roberta Braga e Cláudio Pedroso

Por Mateus Macedo

JOuvefuturond

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ntudeda Moda Novidade

Ao som da música “Rito de ações formativas da América Latina,
Passá” da MC Tha, cantora realizado anualmente em Fortaleza.
paulistana que faz funk Além da federal, a Universidade
para falar de umbanda e busca por de Fortaleza (Unifor) e o Centro
identidade, a equipe da Universidade Universitário Farias Brito (FBUni)
Federal do Ceará apresentou a também desfilaram suas coleções.
coleção Elos, no Dragão Fashion
Brasil, que homenageia os tempos O desafio delas foi conceber uma
de ouro do algodão no Ceará, coleção-cápsula em 100% algodão,
através da mescla da opulência, do com total liberdade para redescobrir
glamour, da ascensão econômica e processos, desconstruir e reconstruir
das contradições sociais produzidas etapas, padrões e possibilidades a
pelo progresso do algodão nos partir dessa matéria-prima usada
anos 1880 no Estado, trazendo há milhares de anos e tão ligada à
também referências às culturas afro- própria trajetória da moda no Ceará
brasileiras. e no Brasil. Afinal, somos um dos
cinco maiores produtores da fibra no
A Universidade Federal do Ceará planeta, ao lado da China, Índia, EUA e
(UFC) foi uma das 3 instituições Paquistão, de acordo com Associação
de ensino cearenses que foram Brasileira dos Produtores de Algodão
selecionadas para apresentar uma (Abrapa). Além de ser também uma
coleção na 11ª edição do Concurso dos escolha mais sustentável do que
Novos, a mais tradicional competição materiais sintéticos, que agridem
de moda entre cursos superior mais o meio-ambiente ao serem
e técnico do Brasil que acontece produzidos e são mais difíceis de
durante o Dragão Fashion Brasil, passar por reciclagem.
um dos mais relevantes eventos
multidisciplinares que entra em
diálogo com a moda autoral, cultura e

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Créditos imagens: Reprodução/ICA

NOVOS UFC
Com o desafio de desenvolver tinha sido escolhido para ansiosos e muito inseguros
uma coleção composta por desfilar, pois dois integrantes também. E como a gente ia
8 looks, adaptando o tema desistiram antes mesmo sair desse espaço quando
e seus desdobramentos às do grupo ser selecionado. estávamos sendo atraves-
demandas da contempora- sados por todos esses sinto-
neidade, como design, mod- Levi Pluma, estudante de mas?”, comenta Levi Pluma
elagem e conceito, além da design-moda e integrante
produção de um vídeo-con- da equipe, conta que entre A partir disso, a equipe
ceito para a coleção, a equipe janeiro e fevereiro a equipe começou a pensar no surre-
dos Novos UFC, compos- se dedicou à pesquisa e à alismo e na magia da moda,
ta por Levi Pluma, Pedro criação de modelos experi- porém com um olhar tam-
Costa, Raphael Guilherme mentais. “O processo de che- bém voltado para o clássico.
e Ricardo Danderson, teve gar ao conceito foi muito “Quando a gente pensa na
sua formação final compos- autêntico, a gente buscou moda, geralmente, tanto na
ta apenas após a primeira não trabalhar com muita teoria quanto na história, a
etapa do concurso, três dias pressão, porque a gente gente vê muito como um
depois de ser divulgada veio de um período de pan- glamour, como a cultura
a notícia de que o grupo demia que nos deixou muito da corte, principalmente

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na França. A moda nasce No que se refere à moda, o Créditos imagens: Letícia Maia
ali e a gente pegou muita historiador cita que a socie-
referência do clássico, do dade fortalezense procurava
renascimento, chegando até acompanhar o que surgia
no século 19. Depois a gente de novo e moderno naque-
realmente pensou onde la época. Por conta disso,
estava o clássico no Ceará e multiplicaram-se lojas que
em Fortaleza. Então, pensam- vendiam roupas, sapatos e
os na Belle Époque para fazer acessórios, anúncios pub-
uma metáfora aos anos de licitários que divulgavam as
ouro do algodão”, afirma Levi. tendências, alfaiates e cos-
tureiras que materializavam
O historiador e autor do livro as roupas que os anúncios
“Fortaleza Belle Époque”, divulgavam e, também, o
Sebastião Ponte, explica surgimento de revistas como
que a Belle Époque foi um a Ba-ta-clan e a Jandaia -
período em que se tinha a voltadas exclusivamente
ideia de remodelar a cidade para retratar o que estava
e civilizar a sociedade. na moda e quem e como
estavam usando essas modas
"No que toca na cidade.“A época, portanto,
à Fortaleza, foi bela apenas para as elites
o processo e parcelas das camadas soci-
remodelador que sig- ais médias; para as camadas
nificou sua inserção populares urbanas ela foi
no contexto da belle tenebrosa, pois foi sinônimo
époque teve como de higienização autoritária,
base econômica as vigilância policial, controle
grandes exportações de hábitos e confinamento
de algodão através de corpos”, afirma Sebastião.
de seu porto nas
décadas de 1860 e Com o intuito de trazer essas
70. Daí em diante, a referências à época de ouro
capital expandiu-se do Ceará, a equipe apostou
em todos os sentidos nos volumes e nas padrona-
– comercial, popula- gens como o jacquard, que é
cional, espacial, cul- um tecido muito nobre, para
tural – e tornou-se, dar a sensação de ostentação
ainda no final do e de glamour do algodão.
século 19, o princi- Além disso, o grupo utilizou
pal centro urbano do a técnica do macramê, uma
Ceará e um dos oito tecelagem artesanal muito
primeiros do Brasil.” antiga em que os fios são
trançados e atados por nós e,
para isso, não é utilizada nen-
huma ferramenta ou máqui-
na, apenas as mãos, para

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fazer o elo entre o region- dar a quantia que eles pre-
al, o clássico e a tecnologia. cisavam para a produção da
A produção da coleção foi coleção, conseguindo, assim,
envolta em desafios. Para Levi, arcar com todos os custos.
ser de um curso integral, mod-
elo em que o aluno tem aulas Durante o desfile, a passarela
durante todo o dia e às vezes emanava o luxo e a elegância
à noite, e viver paralelamente presentes na Belle Époque,
esse projeto demandou muito deixando o público em êxtase
tempo e esforço. Além disso, e ao mesmo tempo emocio-
outra questão problemática nado e encantado com suas
foi a falta de recursos finan- referências à ancestralidade
ceiros.“A gente não tem um marcadas por músicas e
auxílio da universidade e isso acessórios que remetiam à
enquanto criador de moda potência dos orixás. A equipe
e pesquisador eu acredito da UFC transportou quem
que é uma problemática estava assistindo ao passado,
porque deve ter um apoio mas sem esquecer das con-
financeiro da universidade. tradições sociais que existiam
Há novos artistas, estilistas e na época de ouro do Ceará,
modelistas. A gente tentou mostrando que nem tudo
o máximo com várias empre- era belo. Por trás do glam-
sas fornecedoras de tecido our que víamos nos looks
para nos apoiar, patrocinar e também era possível visu-
a gente percebe que não há alizar o racismo e a opressão
esse interesse da indústria de de classe que marcaram
patrocinar novos.” , explica. esse momento da história
de Fortaleza e do Brasil.
A falta de auxílio da univer-
sidade vem em um mesmo
contexto em que as institu-
ições de ensino superior e
os institutos federais estão
sofrendo sucessivos cortes
e bloqueios orçamentários.
A Universidade Federal do
Ceará (UFC) enfrenta cortes
orçamentários e a perda de
bolsas de pesquisa e extensão
desde 2019. Para este ano, o
Sindicato dos Docentes das
Universidades Federais do
Estado do Ceará (ADUFC)
estima que a UFC terá cerca
de 30 milhões bloqueados.
Para superar essas dificul-
dades, a equipe teve de fazer
rifas, bazares e criou a cam-
panha “Apoie Novos Talentos”,
como uma tentativa de arreca-

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17

Créditos imagens: Roberta Braga e Cláudio Pedroso

NOVOS UNIFOR Créditos imagens: Ares Soares

Resistência é a palavra que resistência das mulheres da Prefeitura de Fortaleza e é
a equipe da Unifor escolheu cearenses, trazendo também considerada símbolo contra a
para representar sua coleção. uma problemática que violência doméstica, além de
“A palavra foi resistência, ainda é muito forte na nossa ter batizado a Lei de Violência
porque o algodão é muito sociedade: a violência contra Doméstica e Familiar contra
resistente e ele resiste à a mulher. A coleção “Reexistir a Mulher, sancionada
peste do bicudo hoje em da Despedida” é inspirada pelo presidente Lula, no
dia. Tem também a questão em Maria da Penha, uma dia 7 de agosto de 2006.
dos agrotóxicos, então, a farmacêutica nascida em
gente conseguiu tirar essa Fortaleza, no Ceará, que teve O processo de formação da
característica do algodão sua história completamente equipe foi muito natural,
e relacionar com a história mudada no ano de 1983, os participantes já tinham
da Maria da Penha.”, explica quando foi vítima de dupla um convívio e uma amizade
Sarah Frazão, estudante de tentativa de feminicídio por por conta do curso. “Desde
moda e integrante da equipe. parte de Marco Antonio o primeiro semestre, os
Heredia Viveros, seu então professores e toda a academia
A equipe composta por marido. A partir disso, Maria sempre falam muito sobre
Sara Frazão, Caroline Moura, da Penha teve sua história o DFB, sempre falam muito
Iara Paulino, Enzo Emanuel, marcada pela luta contra seu sobre o novos, o quanto que
Yury Duarte e Élida Queiroz, agressor e contra a violência é uma experiência única, o
estudantes do 4º semestre de gênero.. Hoje ela atua quanto que é bom a gente
do curso de Design-moda junto à Coordenação de participar desses projetos e
da Unifor, homenageia a Políticas para as Mulheres desde o começo do curso nós

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todos da equipe sonháva Créditos imagens: Roberta Braga e Cláudio Pedroso
em participar, então o que
juntou a equipe foi esse
sonho de fazer esse projeto
acontecer”, comenta Élida
Queiroz, estudante de design-
moda e integrante da equipe.

O processo criativo da equipe
foi um pouco longo, porque
eles não queriam tratar o
convencional quando se
tratava de algodão. Por isso,
decidiram encontrar uma
palavra-chave que pudesse
guiá-los ao longo dessa fase
criativa. A palavra escolhida foi
resistência e a partir disso eles
conseguiram criar um vínculo
com Maria da Penha. “Lembro
que achei um artigo falando
das mulheres sertanejas e
começamos a focar nas
mulheres, pegamos várias
personalidades femininas
aqui do aqui do Ceará e do
Nordeste e cada um fez
um painel de inspiração,
pesquisamos um pouco
sobre a história até que
nós chegamos na Maria da
Penha.”, comenta Iara Paulino,
estudante de design-moda
e integrante da equipe.

Por se tratar de uma história
real e impactante, durante
os meses de produção, o
grupo se dedicou a estudar e
pesquisar para que pudessem
tratar o assunto com muita
cautela e conseguir levar
para passarela looks que
realmente falassem sobre
a história e a trajetória de
vida da Maria da Penha.

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“Nós vimos que teve um um índice
crescente de feminicídio e violên-
cia doméstica durante a pandemia,
então a gente vê o quanto é cada vez mais
importante a aplicação da lei Maria da Penha,
é um assunto importante de debater. Então,
a gente precisa bater muito nessa tecla e lu-
tar por justiça e por uma representatividade
melhor para que a gente consiga diminuir
esses índices de alguma forma.”, afirma Sarah.

Para traduzir o tema deles nas como trilha sonora as músicas
roupas, a equipe teve que se uti- “A Mulher do Fim do Mundo'' e
lizar de algumas técnicas como “Maria da Vila Matilde” da Elza
o macramê, que está presente Soares, a equipe do Novos Unifor
em alguns coletes que recriam realizou um desfile impactante
o formato da medula espinhal, e emocionante que emanava
fazendo uma alusão direta ao o poder e a resistência femini-
local onde Maria da Penha levou na, mas que, ao mesmo tempo,
o tiro. Além disso, foram utili- sufocava e levava angústia a
zadas gola alta, para remeter à quem estava assistindo.
ideia de sufocamento, e tecidos
permeados por buracos, para Resultado
representar os hematomas.
Nesta edição do Concurso
Além da responsabilidade e do dos Novos, a vencedora foi a
tempo de estudo, a equipe co- Faculdade Santa Marcelina
menta que também tiveram (SP), seguida da Senac Sergi-
dificuldades no quesito finan- pe e FBUni (CE). Além da Uni-
ceiro. Para Iara Paulino, mesmo for (CE) e UFC (CE) também
com a ajuda da universidade participou da disputa a Uni-
e tendo alguns patrocínios foi versidade Potiguar (RN).
difícil conseguir arcar com tudo
financeiramente. Todas as equipes aposta-
ram muito em renda, baba-
Na passarela, os looks exprimiam dos, transparências e recor-
a violência ao mesmo tempo tes vazados. Além da grande
que passavam uma sensação quantidade de detalhes arte-
de luta e superação, as maquia- sanais, com macramê, borda-
gens, que faziam referência a dos e fuxico. Na passarela, era
violência, ajudaram a construir possível ver as diversas faces
essa atmosfera. A inclusão de do algodão e pelo olhar des-
modelos cadeirantes emocionou ses jovens estilistas diver-
o público, que ficou maravilha- sas possibilidades do que a
do com a representatividade moda pode vir a se tornar
que estava sendo trazida. Tendo no futuro.

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21

Créditos imagens: Roberta Braga e Cláudio Pedroso

Por Mateus Macedo eGlitter,
Raissa OliveiraCâmera,
Ação...

22

Mídias

Durante a pandemia, pensado e elaborado para A BELEZA DE EUPHORIA
enquanto os dramas complementar a narrativa
da vida real se desen- de cada personagem a par- Euphoria, série da HBO, cria-
rolavam ao nosso redor, a tir da visão da equipe da da pelo diretor Sam Levinson
ficção oferecia algum nível direção de arte e figurino. que se tornou uma das pro-
de alívio. Grandes histórias duções mais bem avaliadas
eram contadas e novas real- Para a professora do do ano de 2022, é a prova
idades eram retratadas, nos Instituto de Cultura e Arte de como o rosto pode ser
permitindo escapar para da Universidade Federal do uma mídia. Desde a estreia
outros tempos e lugares. Ceará e coordenadora do da primeira temporada, em
As histórias de sucesso de Laboratório de Estudos de 2019, o seriado vem batendo
plataformas como a Netflix e Imagem e Estética, Gabriela grandes recordes de audi-
a HBO entraram na vida das Reinaldo, “as tecnologias ência, com 6,6 milhões de
pessoas como passatempo, de comunicação de que espectadores na primeira
associadas à força que as dispomos atualmente se temporada. O drama ado-
redes sociais adquiriram, desenvolveram na prevalên- lescente cativa o público,
acabando, assim, por moldar cia da imagem. Dentre não apenas por sua abor-
comportamentos ao nível as imagens produzidas e dagem ligada a problemas
de hábitos de consumo. difundidas, o rosto, mais do típicos da juventude, mas
que qualquer outra parte também por sua estética e
Dentro disso, os figuri- do corpo humano, é a mais looks marcantes, principal-
nos e as maquiagens tor- onipresente nos meios de mente, nas maquiagens.
naram-se elemento ainda comunicação de massa.
mais importante para nos Para onde nos viramos há A influência dos visuais na
fazer adentrar nesses novos rostos. A produção e veic- série foi tão poderosa que
universos. Agora, quase no ulação desenfreada de ros- a fez ganhar o Emmy de
‘pós-pandemia’, a moda tos – diga-se de passagem 2020 de Melhor Maquiagem
sentiu o efeito do estilo sempre muito parecidos, o Contemporânea, além da
das personagens e, na rua, que acentua o caráter racista atriz Zendaya, que interpreta
isso faz-se notar, principal- e xenófobo dessa produção a personagem principal, ter
mente, quando falamos – nos distrai do fato de que levado o prêmio de Melhor
de estilo entre os jovens. o rosto não apenas está na Atriz em Série Dramática,
mídia, mas o próprio rosto na mesma premiação.
Cada vez mais a maquiagem é uma mídia, um meio, um
vem tomando um grande veículo de comunicação.” Assinada pela maquiadora
espaço nas produções Doniella Davy, a maquiagem
audiovisuais, principal- da obra consegue marcar
mente nas séries, onde ela a personalidade de cada
vem sendo utilizada como um dos personagens, ao
forma de narrativa visual. ao mesmo tempo que
Cada cor, cada sombra, desenvolve uma narrativa
cada elemento colocado na própria. As técnicas de make
maquiagem de um filme é na série guiam os aconteci
extensamente pesquisado,

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mentos da trama e o desen- É por isso que na série, cada humor do seu namoro
volvimento da história. O uma das personagens prin- com o instável Nate Jacobs
crescimento das person- cipais possuem um estilo (Jacob Elordi), ficando mais
agens é apresentado para único. Rue, interpretada branda de acordo com
além do roteiro, sendo inten- pela atriz Zendaya, é a os desejos do parceiro.
sificado a partir dos visuais . figura central que enfren-
ta um vício em substâncias Cassie é a típica garota que
Segundo Gabriela Reinaldo, ilícitas, além de distúrbios quer agradar a todos, então
a modifcação do rosto, seja mentais. Para retratar nunca ousa em seus looks,
com maquiagem, máscaras, sua perturbação, ela usa sempre com maquiagem
filtros ou cirurgia, atende mais pouca maquiagem nos natural, tons claros e femi-
diversas finalidades, entre sub- momentos mais baixos ou ninos, tanto na boca, como
trair ou encarnar uma perso- olhos escuros, com glitter nos olhos e bochechas.
na. Sendo assim, a face serve espalhados pelo rosto, por Kat, por outro lado, passa
a um propósito narrativo, “o vezes como lágrimas espal- por uma transformação ao
rosto é sempre máscara, as hadas pelo rosto, para retra- longo da série e adota visuais
é sempre produto da cul- tar momentos de excitação. cada vez mais ousados. Sua
tura” afirma a professora. maquiagem acompanha
Já seu interesse romântico sua recém adquirida con-
Jules, retratada por Hunter fiança, usando lábios ver- Créditos imagens: Euphoria (HBO) | Instagram Alexa Demie | W Magazine
Schafer, é a adolescente mis- melhos, olhos com sombras
teriosa que chegou recente- fortes e bem marcadas.
mente na cidade. Como uma
garota trans, Jules exala fem- Além delas, os cuidados
inilidade, transitando pela com os visuais se estendem
desconstrução de gênero ao para todo o elenco, entre
longo da série. Ela é a mais secundário e figurantes, o
criativa, com muitos tons que resulta em uma obra
pastéis, delineados gráficos com muito potencial cria-
e experimentações com tivo. Essa adoção da estéti-
ca na série colocou a make
texturas nos olhos e pele. como um elemento central,
desmistificando sua função
As amigas Maddy (Alexa apenas como algo auxil-
Demie), Kat (Barbie iar, para destacar beleza.
Ferreira) e Cassie (Sydney
Sweeney) possuem cada Mesmo que a maquiagem
uma um estilo próprio. sempre esteja presente nas
artes, desde as Óperas de
Como líder de de tor- Pequim, no século XVIII ou
cida e a mais confiante no Teatro Japonês Kabuki,
do grupo, Maddy possui datada do final do século
visuais decididos, com lábi- XVI, dentro do cinema, ela
os marcados, olhos escu- costumava ganhar destaque
em grandes premiações ape-
ros, delineados longos e nas como efeitos especiais
uso de pedrarias. ou, em algumas exceções,
Sua make nas maquiagens de tra-
acom-
panha o

24

mas de outras épocas. PREVISÕES fios e, claro, reproduções das
maquiagens mais marcantes.
O que Euphoria fez foi Após quase três anos de Desde 2019, algumas outras
quebrar essa barreira e espera, a segunda temporada produções vem seguindo
aproximar o público que da série foi lançada no início a receita da série de valo-
realmente a consome no de 2022, alcançando uma rizar os visuais dentro da
dia a dia, sem perder a audiência de 13,1 milhões de narrativa, confira na lista
veia artística. Doni Davy pessoas somente no primeiro de indicações a seguir.
conseguiu transformar episódio, segundo a revista
algo visto como frívolo e norte-americana Variety.
puramente feminino em
algo transformador, para Acompanhando o lançamen-
além dos padrões do que to da temporada, a busca
está presente na mídia. por itens semelhantes aos
usados na série cresceram.
Tanto é que para Milena De acordo com a plataforma
Coelho, 22 anos e estudante uMode, a procura pelo ves-
de Psicologia, usar certos tido azul usado por Cassie
elementos na maquiagem na festa de Ano Novo do pri-
como glitter, pedraria e meiro episódio cresceu 143%,
cores extravagantes tor- já uma das sandálias de ama-
nou-se parte do cotidia- rração usadas pela Maddy
no somente a partir do cresceu nas buscas em 125%.
sucesso de Euphoria.
“Se tornou socialmente O sucesso comercial foi
aceitável você sair com tanto que, ainda em 2020,
alguns itens que não a atriz Alexa Demie fez uma
eram tão comuns antes." parceria com a marca de
maquiagens M.A.C para
"Essa validação lançar uma coleção. E a
me deu uma beauty artist Doni Davy não
segurança maior podia ficar de fora. Em maio,
para expressar coisas ela anunciou o lançamen-
que eu gostava, mas to de sua própria linha de
não sabia se ia me make, a Half Magic Beauty.
sentir tão segura
para usar." Na rede social Tik Tok, o
impacto foi imenso.
Na plataforma,
a hashtag
‘Euphoria’
possui 47,4
bilhões
de visu-
alizações,
reunindo
edições da
séries, desa-

25

5 Corrida das Rupaul's Drag Race
séries Blogueiras (Netflix)
para (Youtube)
quem Reality show
ama O reality show “Corrida estadunidense, do gênero
make das Blogueiras”, estreado competição, em que
em 2018, é apresentado RuPaul, a drag queen
por Fih e Edu, donos do mais famosa do mundo,
canal Diva Depressão. O busca uma rainha com
reality dá oportunidade carisma, originalidade,
para pequenos e médios coragem e talento para ser
influenciadores digitais a próxima drag superstar
que desejam ter seu dos Estados Unidos. No ar
trabalho reconhecido. desde 2009, já possui 14
Além dos meninos do temporadas oficiais, mais
Diva, o reality conta 7 temporadas especiais
com a participação de só com as vencedoras,
juradas fixas (Lorelay além das versões do
Fox, Karen Bachini, Reino Unido, Tailândia,
Nátaly Neri) e jurados Espanha, Canadá, Holanda
convidados durante os e Países Baixos, Austrália,
episódios. O reality já França, entre outros países.
tem três temporadas e a
quarta estreia ainda no
ano de 2022.

Créditos imagens: Instagram
Karen Bachini Divulgação VH1 |
E4 | HBO | BBC Three

26

Skins Genera+ion Glow Up
(Netflix) (HBO Max) (Netflix)

Sucesso britânico, Skins foi Com apenas uma temporada, Reality show britânico, em
lançada em 2007, trazendo um o seriado segue um grupo que maquiadores novatos
olhar revolucionário sobre a de alunos do ensino médio enfrentam uma série de
adolescência e seus excessos. que vive em Orange County, desafios de maquiagem,
Com sete temporadas, cada na Califórnia, e explora o passando por maquiagens
episódio acompanha um amor, a família, a amizade utilizadas no dia a dia
personagem, alternando o e questões de sexualidade até efeitos especiais,
elenco principal, ou ‘gerações’, no mundo moderno, dentro pela oportunidade de
a cada duas temporadas. O de uma comunidade seguir carreira no ramo.
estilo grunge da produção conservadora. A série foi O difencial do reality
serviu de grande inspiração cancelada depois de má é a diversidade, com
para os usuários do Tumblr e repercussão na crítica por seu pessoas de todos os tipos
da juventude nos anos de 2010. olhar na juventude LGBT+. e origens se enfrentando
no mundo da maquiagem.
Com 3 temporadas, a
4º está em produção.

27

The Cate

Ballr

Como moda, dança e ident
ballroom

Ao entrar no salão, luzes estão
dispersas para todos os lados, ao
redor de uma passarela central,
com cadeiras ao redor para o público.
Pode parecer a estrutura de um desfile
de moda, mas ali acontecerá algo muito
mais inesperado, é dia de baile. Enquanto
várias pessoas se preparam, se alongando,
ajustando as roupas e se maquiando, existe
um ar de ansiedade.

No camarim, aberto para quem quiser entrar,
várias participantes se arrumam juntas,
entoando os hinos de cada house ‒ como
'queima quengaral', homenagem a House
of Kengaral. Entre glitter, roupas e saltos, as
pessoas vão se aprontando para a ballroom.

Uma das houses está presente em peso. A
Kiki House of Louboutin é representada por

28

egory is… Capa

room
por Raissa Oliveira

tidades constituem a cultura
m cearense

Aryan Silveira, performer, travesti, e Sol
Duarte, modelo, trans. Sol é apontada
pelas amigas como uma das pioneiras no
movimento, junto de Dandara e de Miranda
‘Yagaga’, a mother da House of Kengaral e a
pioneer do estado, que organizou a primeira
ball na cidade.

Sobre a house da qual faz parte e sua relação
como modelo, Sol afirma, “A moda é com
certeza a mais presente na vida de todos
da nossa casa, e também é onde a gente
consegue realmente nos representar. Por
sermos pessoas múltiplas e diversas, a
partir dos nossos estilos diferentes, a gente
consegue muito contextualizar, o que a gente
quer passar, deixar sentimento, a expressão
artística. Então, eu acredito que ela sempre
está presente desde o início. Tudo se iniciou
por isso, pela moda. E a moda que inspirou a
ball, pelo vogue".

29

Já para Aryan, a ball é um to com o meio, a ballroom é homens, até então cisgênero,
espaço de vivência, onde ela se um movimento identitário que que encontravam nesse espaço
reconheceu como travesti e onde celebra diferentes corpos por um local para experimentação,
entendeu suas possibilidades meio da dança, moda, música com a dissidência de gênero e
como artista, “a ballroom em e arte. O ponto central são os sexualidade.
si é para celebrar as corpas, os bailes ou balls, constituídos
corpos diferentes, celebrar a de diferentes categorias. Suas Nesses bailes, as pessoas
diferença, porque é um local de origens são da segunda metade tinham contato com a moda,
acolhimento”. Ela fala também do século XIX, apesar das festas experimentando vestidos e
sobre como a ballroom cearense estourarem mundialmente saias femininas e uma opulência
se diferencia, “acredito que somente na década de 1980 ‒ que não se tinha fora daquele
nosso acolhimento, a forma a partir do impulsionamento contexto. Pulando para o século
como semeamos essa prática da diva pop Madonna, com o XX, a movimentação que
positiva de se reconhecermos sucesso da música Vogue. resultou no formato da ballroom
quanto família, enquanto cena como é conhecida atualmente,
e fazendo isso acontecer todos Ainda relativamente nova no começou em 1920, ainda nos
juntes. Nós amamos a ball por Brasil, as ‘balls’ inicialmente EUA, no bairro Harlem, em Nova
essa nossa vivência, acredito eram organizadas no período York.
que não só eu, mas todas nós pós-abolição da escravatura
nos sentimos vivas ao estar nos Estados Unidos, feitas pelas Em meio ao Renascimento do
caminhando, performando e população negra, em especial Harlem ‒ movimento cultural
fomentando”.

“A ballroom em si é
para celebrar as
corpas, os cor-
pos diferentes, celebrar a
diferença, porque é um
local de acolhimento”.

A ball que está para acontecer é
um ‘Baile de Fraldas’, para apoiar
Haru 007 e Lilith Kengaral, duas
pessoas da cena que estão
em processo de gestação.
Todos da cena ball se juntam
para concorrer nas categorias,
demonstrarem suas habilidades
na passarela e no vogue, além,
claro, para arrecadar dinheiro
para as colegas.

BALLROOM

Para quem ainda não assistiu a
séries como Pose (disponível na
Star+) e Legendary (disponível
na HBO Max), ou não teve conta-

30

da década de 1920, conhecida voltou à sua ancestralidade, por ração da ballroom, é que a gente
como o ‘Novo Movimento conta de Crystal LaBeija, uma
Negro’, que impulsinou mulher trans, negra e latino- vai ter as houses, as casas. Muito
a expressão criativa afro- americana que se propôs a
americana na região ‒ as reinventar a ball culture. associadas a questões raciais,
ballrooms ressurgiram em
formato de ‘drag balls’, bailes Ela relançou a ballroom, como House of Ebany, House of
de drags. Com esse novo em um formato voltado
modelo se desenvolveram exclusivamente para drags Africa e também outras muitas
diferentes concursos de moda, negras e latina-americanas.
maquiagem e performance De acordo com Fênix Zion, outras associadas às marcas de
entre a comunidade negra, não-binárie, alagoense e
envolvendo homens e pesquisadore de dança e alta costura, então tinha House
mulheres, tanto cis, como de moda, foi a partir desse
transgêneros. momento que a ball culture of Chanel e enfim”, afirma Fênix.
se consolidou como é
conhecida hoje e como pode As houses criaram um espaço
ser encontrada no Brasil, um
evento que mistura identidade, de acolhimento dentro da
moda e dança.
comunidade LGBTQIA+.
“A partir dessa nova configu-
Apesar de ser um espaço de

competição, com os grandes

prêmios em cada categoria,

a ball consegue ser também

Entretanto, com a de aproximação, onde corpos

popularização dos eventos, dissidentes da norma branca,

eles acabaram passando hétero e cis podem se encontrar

por um processo de e serem celebrados.

embranquecimento, se

distanciando de suas origens. BRASIL

Somente em 1960, o evento

Mesmo sendo um movimento
com raízes estadunidenses,
a ballroom chegou no Brasil e
foi abraçada pela comunidade
LGBTQIA+ local. O uso de termos
em inglês, tais qual ball, house,
runway e etc, se manteve
como parte da identidade do
movimento, mas sempre com
adaptações para cada região
brasileira. As houses também
se adaptaram no país, entre o
cenário Kiki e o Legendary.

Legendary são as houses criadas
e consolidadas fora do país, já as
Kiki são da cena local, feitas por
e para jovens na comunidade.
As três primeiras casas no país
foram House of Hands Up, of
Cazul e of Kínisi, a primeira do
Distrito Federal e as duas últimas
do Rio de Janeiro. Agora estima-
se que já existam 100 houses no
país, pelo menos 30 estão no
Norte e Nordeste.

31

Fênix Zion destaca que, no serem anunciadas, assim como na ativa já há quatro anos e
Brasil, os primeiros registros o júri da noite, sempre ao som responsável pelo pontapé dos
de ball culture começaram de gritos da plateia. bailes no estado. Dandara Lima,
nos anos 90, em Goiânia, por estudante de Design de Moda,
um grupo de dançarinos Quando começam as categorias travesti, e uma das criadoras do
hétero e cis. Inspirados pelo a animação do público é coletivo, explicou que não existe
sucesso de Madonna, eles palpável. uma periodicidade certa para
adaptaram aspectos do estilo a ball acontecer, depende das
de dança vogue. A partir daí, Quem assiste, se choca a possibilidades da organização.
o gênero chegou ocupando cada dip e pirueta executada
academias particulares de no vogue. Quando chega a Assim como ocorre em boa
dança, preenchendo um espaço categoria de teams é que a parte de eventos culturais
da elite, onde não acessava as loucura começa. A animação no país, em Fortaleza a ball é
mesmas identidades que o é de final de copa do mundo, feita com certo improviso. São
criaram. com cada um torcendo para sua usados espaços públicos, como
participante favorita ganhar. o Centro Cultural Porto Dragão
Em 2015, o BH Vogue Fever foi e a Rede Cuca ‒ espaço cultural
a primeira ballroom no país, Existe uma magia em ver de da prefeitura fortalezense que
reunindo artistas legendarys de perto algo que se conhece já ofereceu formações ligadas a
Nova Iorque e Paris, para iniciar apenas por filmes e séries. Assistir ball culture, como vogue e drag
a cultura local. As mesmas pessoalmente performances ‒ e o financiamento para as
organizadoras dos primeiros dignas de RuPaul's Drag premiações é feita com doações,
eventos levaram as sementes Race (disponível na Netflix) é que às vezes são arrecadadas
do movimento para diferentes fascinante. Ainda mais quando durante a própria ball.
partes do país. A primeira isso acontece em um ambiente
vivência no Nordeste foi em repleto de diversidade, marcado “A c o m u n i d a d e
Recife, Pernambuco, chegando especialmente por pessoas potencializou a
pouco depois na capital trans – uma das siglas mais minha existência
cearense. invisibilizadas da comunidade. e ainda me deu a noção
Em média, acontecem de 30 a de morrer e renascer, não
FORTALEZA 50 balls em todo o país, só no é à toa que meu nome é
Norte e Nordeste são cerca de Fênix”.
A noite começa para valer com 10 a cada mês. Em Fortaleza
as apresentações de Yagaga, a mensalmente acontece pelo Isso não diminui a magnitude
hostess da noite. Uma a uma, menos um, organizado pelo dos eventos. Existe toda uma
cada house sobe ao palco ao Coletivo Becha Cearense, estrutura, com palco, iluminação
e som. Cada ball ainda varia
de tema, pode ser em alusão a
alguma celebração do mês, de
algum tema escolhido, ou apenas
para enaltecer a comunidade.

No Ceará, o destaque é o vogue.
Existe uma raiz que entrelaça a
comunidade com a dança tão
característica do movimento, o
que começou justamente por
Miranda Yagaga, dançarina do

32

gênero. Dentro dos eventos, Um passo que abre muitas por- e ter a primeira referência de
grande parte das competidoras tas para a juventude da comu- moda e de passarela na ball-
são dançarinas profissionais, nidade nb. room, é importante para uma
oferecendo cursos e residências travesti, uma mulher trans, um
sobre o estilo. A ball lhe surgiu como local homem trans, uma pessoa não
de acolhimento, “a comunidade binária, negra, gorda, sabe? Ver
Cada evento traz categorias potencializou a minha existên- alguém desfilando na ball e você
e premiações variadas. A cia e ainda me deu a noção de pensa, nossa será que eu posso
configuração é constituída pelas morrer e renascer, não é à toa caminhar? Aí você fica naquela
categorias que são disputadas que meu nome é Fênix”, afirma. dúvida, de repente você está
pelas integrantes de uma house caminhando e de repente você
ou as 007 ‒ que não estão ligadas O abraço da comunidade nesse vira uma estrela para comuni-
a nenhuma em particular ‒, espaço se torna um verdadeiro dade, vira uma referência”.
uma DJ que coordena a música, impulsionador para o futuro de
junto com a chanter que anima inúmeras pessoas LGBTQIA+
o público criando músicas na dentro da ball culture. Como
hora de cada performance, Fênix aponta, “a gente observar
além da hostess, que apresenta
e coordena o evento e do júri,
que dá as notas e escolhe as
vencedoras.

As categorias são distribuídas
entre a dança vogue, runway, que
é o desfile, e face, que envolve
puramente beleza natural.
Cada competição é dividida
para participantes específicos,
existem as categorias para baby
(iniciantes), team (de duas ou
mais) e trans (exclusiva para a
comunidade), as quais devem
ser respeitadas para conseguir
vencer o prêmio em dinheiro.

FUTURO

Fênix Zion, como uma pessoa
não binária (nb) e portadora
de HIV, associa ao acolhimento
da ballroom sua atual
potencialidade como pessoa e
artista da dança e do design de
moda. A potência foi tamanha
que em 2021, se tornou a primeira
pessoa não binária de Alagoas a
conseguir a retificação de nome
e gênero nos documentos.

33

minha vivência é com moda.
Sou modelo, trabalho com isso
há 4 anos. Eu acho que a minha
representatividade, na questão
da house, é mais estética.
Trabalho muito com estética,
com desfiles, maquiagem,
enfim. Então, a minha cena,
meu capítulo começou nesse
segmento, acredito que a minha
importância na cena é essa”,
constata.

Essa mesma visão de potência Além das portas que são abertas Créditos imagens: Yuri Juatama | Mano Alves | Sávio França
foi sentida por Aryan Silveira. pela cena ball, as premiações
Com a notoriedade adquirida também ajudam muitas
dentro da ballroom, ela consegue pessoas que estão começando
trabalhar com o meio artístico, no meio. Fênix conclui falando
tendo, inclusive participado da sobre como a ballroom ajuda
campanha de divulgação do em seu sustento e de espaço
Dragão Fashion Brasil - DFB para suas produções, “eu devo
deste ano, importante evento muito a comunidade, as minhas
de moda nacional. “Dou aulas, ancestrais da comunidade.
workshops, faço performances Porque além de potencializar a
em casas locais e acredito minha negritude, foi um lugar
demais que isso possa estar onde eu consegui falar sobre
acontecendo futuramente, pois HIV e AIDS ‒ o primeiro lugar
pretendo continuar fluindo nisso que eu falei abertamente e fui
até quando possível, e também acolhida.”
semeando meus projetos. De
certa forma, dando esse ‘retorno’ “Foi o primeiro lugar, também,
para a Ballroom, por tudo que onde vi várias pessoas
ela me enche, internamente e experimentando a mesma
artisticamente”, afirma. fluidez de gênero. Até chegar
um momento e pensar, ‘mas
Já Sol Duarte associa seu legado será que eu sou uma pessoa não
na ball diretamente com a moda, binárie?’ Ou seja, se o baile não é
a qual é também seu trabalho positivo e transformador na vida
atual, tendo, inclusive, sido de uma pessoa, então eu não sei
modelo de diferentes coleções o que é transformação e não sei
durante o DFB de 2022. “A minha o que é potência. Porque eu sou
vivência tem muito a ver, porque a própria personificação de que
o baile é potente, transformador
e que ele consegue fazer da
nossa vida, uma vida melhor”,
encerra.

34

GLOSSÁRIOEntenda a seguir título dado às casas interna-
alguns dos cionais;
prinipais usados
no universo Não Binário: pessoa
ballroom:
que não necessariamente se
Ball Culture: cultura identifica com nenhum gênero
do espectro binário (masculi-
formada ao redor dos bailes, no/ feminino);
envolvendo as casas e a comu-
nidade LGBTQIA+; Pioneer: quem foi pio-

Cisgênero: pessoa neiro no movimento, iniciou
a cultura em algum lugar ou
que se identifica com o gênero agiu para impulsionar a comu-
designado de nascença; nidade; mother - como a mãe
de uma casa, quem fundou
Dip: passo de vogue em que e cuida da house, vista como
acolhedora e experiente;
a dançarina se joga no chão
após um giro. Runway: categoria de

Face: categoria que valori- desfile, pode ter temas ou não;
é necessário servir moda;
za o rosto, com destaque para
a beleza natural associada ao Vogue: estilo de dança
vogue.
moderna caracterizado por
Houses: casas que sur- movimentos semelhante a
poses de modelos, com passos
giram como espaço de acol- ousados e diferentes catego-
himento para a comunidade rias;
LGBTQIA+. Inicialmente surgi-
ram como um espaço físico 007: quem concorre nas
para acolher quem passava por
situação de vulnerabilidade balls, mas não é associado a
social (existe, em Fortaleza, nenhuma casa do cenário;
a Casa Transformar que atua
nesse mesmo sentido), hoje
em dia, no Brasil, atuam como
grupos onde artistas se reú-
nem para performar nas balls;

Legendary: algo ou

alguém consolidado na comu-

nidade ball pelo tempo de atu-

ação ou importância do que

conseguiu; normalmente é um

35

#Y2Kmaoameesnthtoetic do

por Letícia Maia

Créditos imagens: Reprodução/ Lizzie Mcguire Toda a ousadia e a carte- ra, Jennifer Lopez e Usher ma época, foi o aplicativo
la de cores diversificada na televisão. Não podemos mais baixado do mundo em
com muito brilho, bem esquecer dos celulares icô- 2020, segundo dados da ras-
características do come- nicos flip flops, que abriam treadora de mercado App
ço do segundo milênio, e fechavam. A melhor parte Annie. Já em 2022, com 62%
estão de volta! Relembre era que, com ele, você po- dos usuários sendo pessoas
a moda dessa época e deria imitar a Mia Colucci, menores de 30 anos con-
entenda como funciona da novela Rebeldes (SBT), forme dados da Comscore,
o ciclo de tendências. e usar chaveiros no seu V3 a hashtag “y2k” ultrapassa
rosa. Porém as únicas redes a marca de 7 bilhões de vi-
Camisetas baby look, sociais populares do momen- sualizações no TikTok, sem
bolsas estilo baguete, to eram o MSN e o Orkut. contar as outras relacionadas.
saltos grossos, mini- Em comparação, a mesma
-saias, óculos com lentes Alguns anos depois, mais hashtag no Instagram possui
coloridas, borboletas, glitter precisamente durante o 3,4 milhões de publicações.
e mais glitter! Todos esses tempo de isolamento de-
looks desfilavam nos corpos vido à pandemia do Co- Marjorie Romano, de 14
das it girls Britney Spears, vid-19, a máquina do tempo anos, além de posts para o
Paris Hilton, Avril Lavigne da moda decidiu trazer de Instagram, também divulga
e Christina Aguilera. Quem volta essas tendências dos vídeos com a estética Y2K
dominava as telonas eram anos 2000. A estética “Y2K”, em seu canal do Youtube.
as atrizes Lindsay Lohan como ficou conhecida, caiu A estudante A estudante
(Meninas Malvadas), Hilary no gosto dos jovens. Conteú- teve o primeiro contato
Duff (Lizzie McGuire), Anne dos com looks, penteados com esse estilo por meio
Hathaway (O Diário da Prin- de filmes, listas de compras, da plataforma Pinterest,
cesa) e Reese Witherspoon customização de peças... e ainda no início da pande-
(Legalmente Loira). Eram os por aí vai, se tornaram virais mia. “No começo, eu tinha
tempos de assistir os clipes nas plataformas digitais. A dificuldade em achar rou-
de Destiny 's Child, Shaki- rede social TikTok também pas nesse estilo em lojas de
se popularizou nessa mes- departamentos. Um dia, eu

36

MMídídiaias s 00

Créditos imagens: Reprodução/ Pinterest passei em frente a um brechó coleção de 1999 da Versa-
aqui na cidade onde moro ce. No mesmo ano, a atriz
e achei muitas roupas y2k. Zendaya também se ins-
Foi então que comecei a pirou em uma peça antiga
comprar roupas nesse esti- e apareceu no Bet Awards
lo. Como disse, em brechós com uma imitação da rou-
acho muitas peças de décadas pa vestida pela cantora
passadas como anos 80, 90 e Beyoncé na mesma pre-
os anos 2000 e por um preço miação em 2003, home-
acessível”, afirma Romano. nageando assim a grande
diva negra do pop.
Das redes sociais, esse es-
tilo super colorido e Amoda é cíclica e
ousado logo domi- o revival dos anos
nou também os red 2000 tenta resgatar
carpet e as coleções toda a diversão da épo-
de moda. O desfile ca. Logo em tempos de
de verão 2022 da gri- pandemia e isolamento,
fe italiana Blumarine, encontrar um refúgio
durante a semana de nas roupas e acessórios
moda de Milão, não super coloridos e brilho-
dispensou referências sos parecia a solução,
aos anos 2000. A co- mas quem determina a
leção resgatou peças volta de tendências de
icônicas como: o ves- moda de um período?
tido jeans da Britney
Spears, o top de bor-
boleta da Mariah Ca-
rey e o top de faixas da
Paris Hilton. Além das
calças jeans de cin-
tura baixa, cintos en-

feitados, bandanas e uma
chuva de peças decoradas
com borboletas. Quem res-
gatou também o excesso
de brilho e estampas de
borboletas característi-
cos da época foi a cantora
britânica Dua Lipa, com
o look exclusivo da Ver-
sace, no Grammy Awards
2021. Logo depois, a artis-
ta usou outra composição
vintage muito parecida e
repleta de borboletas em
uma after party, parte da

38

Créditos imagens: Reprodução/ Instagram @dojacat Só indumentárias sim, roupas e mais roupas ras na indústria de moda.
foram sendo produzidas e
Antes de existir uma in- transformadas para aten- Primeiro existe o fenômeno
dústria de moda como co- der as demandas das clas- de gotejamento, que ocor-
nhecemos hoje, os trajes ses, até surgir um ponto de re quando as tendências e
e quem podia vestir o quê virada importante para a as propostas estéticas são
eram determinados pelas indústria: o prêt à porter. lançadas de cima para bai-
classes de uma sociedade. xo, levando em considera-
O que existia até meados Chegada do prêt à ção uma pirâmide de estra-
do Renascimento eram in- porter tificação social composta
dumentárias, roupas que por aqueles que detém o
diferenciavam aristocracia O “prêt à porter” ou “pron- poder no topo e as massas
e plebe. “O ponto de mu- to para vestir” possibilitou mais populares na base.
dança para que a indumen- produção de trajes em lar- Essa pirâmide que antes
tária se transformasse no ga escala e em menor tem- era composta pelos reis, no-
fenômeno social de moda po. Foi a partir desse pon- bres e a plebe, atualmente
que nós conhecemos hoje to que, segundo a linha pode ser renomeada pelas
foi a ascensão da burgue- do tempo do filósofo Gil- celebridades, artistas, in-
sia, entre meados do século les Lipovetsky, a moda co- fluencers e a massa, como
quinze e dezesseis", afirma meçou a resgatar padrões explica Castro. Assim, o
Marta Castro, professora do estéticos e esgotá-los ra- gotejamento permane-
curso de Design de Moda pidamente criando assim ce estruturado pelos que
da UFC. Devido ao novo um ciclo infinito. O revival têm maior visibilidade so-
poder de compra adquiri- de padrões na moda ocor- cial em cima influenciando
do, os burgueses passaram re aproximadamente entre aqueles que são os segui-
a imitar as vestimentas da um período de 20 ou 25 dores e estão
nobreza. No entanto, a no- cinco anos, afirma a profes- na base.
breza não gostou nada da sora Castro. Então vemos
imitação e de se nivelar peças dos anos 60 nas lo-
esteticamente com uma jas, um recorte de blusas
classe até então considera- típicas dos anos 80 ali ou
da inferior, assim começou calças super populares dos
a trocar de roupa mais ra- anos 90 aqui, porém sem-
pidamente. E foi justamen- pre com adaptações das
te a velocidade de mudan- novas tecnologias da atua-
ças e imitações desses dois lidade.
grupos sociais que acabou
gerando o que conhece- Alto e Baixo
mos como moda. Como ex-
plica Castro, a moda é “um Já sobre o que influencia
fenômeno de ordem social esse ciclo, Doris Treptow,
e é um fenômeno que se mestre em Design de Moda
justifica pelo comporta- e autora do livro “Inven-
mento social de anseio a tando Moda'', afirma
pertencer a determinados que sempre existiram
grupos e um esforço para duas forças propulso-
manutenção de status”. As-

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O segundo meio de impulsionar tendências Créditos imagens: Reprodução/ Pinterest
na moda defendido por Treptow é o efeito
de ebulição, que ocorre de baixo para cima,
padrões estéticos que nascem das massas.
Nesse caso, existem dois movimentos muito
importantes que marcaram época: hippie e
punk. “O movimento hippie contestou mui-
tos valores sociais e acabou gerando uma ex-
pressão simbólica, gerou um protesto em prol
da paz e do amor. Acabou influenciando essa
estética de desbotados, de desgastes, vislum-
brando um simbolismo de despojamento. E
o movimento punk acabou influenciando o
mundo também com a sua estética por se
tratar de um movimento de protesto em re-
lação à própria moda. O movimento punk vai
se originar em Londres, que estava em crise
nos anos de 1970, e os jovens que estavam
sem emprego naquela região responderam
esteticamente à crise. Eles afirmavam que já
que essa moda não tem espaço pra mim, na
minha vida também não há espaço pra essa
moda. Então juntaram um visual de protes-
to anti-moda agressivo, que reunia o couro,
as correntes, os cabelos coloridos e espeta-
dos, tatuagens e piercings”, explica Castro.

Desse modo, o fenômeno de
gotejamento é caracterizado
pelo planejamento das paletas
de cores, formas, baseados em
pesquisas de comportamento e
de consumo realizadas e pauta-
das em reuniões entre grandes
grupos que possuem influência
na indústria da moda.

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Depois que as tendências são estabelecidas,
são passadas para os agentes de influência da
sociedade, é o caso das celebridades e produ-
tores de conteúdo. Assim, essas tendências
vão sendo cada vez mais propagadas para
criar familiaridade e se consolidar, gerando
um caminho até o fundo da pirâmide.

Em oposição também existe o
fenômeno de ebulição, quan-
do um grupo social gera influên-
cia e movimentos espontâneos,
surgindo uma estética genuína
que consegue se elevar na es-
trutura do triângulo e nas cama-
das da sociedade, traçando im-
petuosamente um caminho até
as passarelas de moda do mun-
do todo, como ocorreu com a es-
tética hippie e punk.

E os anos 2000?

Mas o que motivou o retorno das tendências
Y2K? A resposta pode estar justamente no
saudosismo de uma época menos compli-
cada. Marta Castro reflete que “o período de
isolamento fomentou socialmente o desejo
de vivências alegres, aglomerações, festejos e
vida social que eram efervescentes neste pe-
ríodo de uma moda muito ousada e sensual,
entrando em contraste com o período de iso-
lamento e morte”. A ebulição e o gotejamen-
to fazem esse ciclo do mundo da moda girar,
e se tem uma coisa que já podemos identifi-
car como prevista é as gotinhas de influência
do indie sleaze junto com outras vestimentas
características dos anos de 2010 já presentes
nas passarelas das semanas de moda. É bom
você ir logo separando a calça skinny preta, as
peças xadrez e uma bota.

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UpcyclingUma nova possibilidade fashion

Por Mateus Macedo. Danielle Gadelha,
Letícia Maia e Raissa Oliveira

Créditos imagens: Anna Tarazevich Ocearense Marcelo nhando para remediar seu
Belisário é designer, impacto no meio ambiente.
consultor de negó- Em 2020, durante o perío-
cios de moda e idealizador do da pandemia, a Miu Miu,
do projeto ‘Do Lixo ao Luxo’, marca de moda ligada à ita-
o qual leva as técnicas de liana Prada, anunciou seu
upcycling para escolas cea- novo projeto: Upcycled by
renses desde 2019. São três Miu Miu. Uma coleção de 80
colégios públicos envolvidos, peças, remodeladas a partir
onde os participantes podem de itens de roupas produzi-
ter contato com o proces- das entre a década de 1930 e
so da moda e manipulação 1970. A marca brasileira Farm
de materiais, descobrindo segue pelo mesmo caminho.
também como ressignificar Desde 2017, ao se unir com
resíduos têxteis que seriam a Re-Roupa, um laboratório
previamente descartados. de produção de roupas de
material reaproveitado, ela
“O projeto veio com a pro- vem apostando em criar pe-
posta do uso da técnica do ças reinventadas a partir de
upcycling para despertar o retalhos e peças defeituosas.
reúso e reaproveitamento.
Com a finalidade de educar, Essas ações demonstram um
ensinar práticas das profis- novo olhar das grandes mar-
sões de moda, agregar va- cas para a questão da sus-
lores de sustentabilidade e tentabilidade. Problemática
aproveitar recursos culturais relevante já que, somente a
para a inclusão do público Indústria da Moda brasileira
mais carente, ao despertar gera 175 milhões de tonela-
valores e consciência am- das de resíduos têxteis por
biental”, declara Marcelo ano, de acordo com dados
sobre o ‘Do Lixo ao Luxo’. da Associação Brasileira de
O projeto vem em um mes- Indústria Têxtil (ABIT).
mo contexto em que a In-
dústria da Moda vai cami-

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Avaliado em US$ 2,4 trilhões, Cotidiano
o mercado fashion é um dos
mais lucrativos do mundo,
mas também um dos que
mais gera poluição. São pelo
menos US$ 500 bilhões ao
ano em descarte de roupas
que vão para aterros e lixões,
segundo dados da Organi-
zação das Nações Unidas
(ONU) Meio Ambiente.

A ONU concluiu também
que, com o avanço das lojas
fast fashion de roupas, como
Shein, Renner, C&A, etc, as
pessoas têm consumido, em
média, 60% mais peças do

que há 15 anos atrás e cada
item é mantido no armário
por metade do tempo de
antes.

O upcycling avança em meio
ao agravamento da crise
global do meio ambiente,
servindo para remediar os
efeitos nocivos do ciclo da
moda. De acordo com a con-
sultora de moda sustentável,
Lorena Delfino, “o sistema
capitalista que estamos in-
seridos faz com que a pro-
dução seja cada vez mais
veloz, para que as pessoas
consumam de forma acele-
rada e, consequentemente,
descartem velozmente para
adquirir um novo modelo
ou nova peça do momento.
Porém, o planeta já pede
socorro e a natureza já dá
seus sinais”.

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O Upcycling

Como um contraponto à ló- Sonza, Jade Picon e Cardi B to da customização, pois a
gica descartável da moda, foram algumas famosas que peça de roupa continua no
o upcycling é uma tendên- ajudaram na popularização mesmo formato e universo”.
cia que surgiu na década dessa micro tendência que
de 90, nada mais é do que possui uma ideia sustentável Ele acredita que é preciso que
uma técnica de reaproveita- realmente bacana por trás. a sociedade tome consciência
mento de materiais já exis- da quantidade de materiais
tentes, transformando peças Marcelo Belisário, destaca têxteis que são desperdiçados
que seriam descartadas em que a customização difere pela indústria da moda e por
aterros sanitários e dando um do upcycling. Este último outras empresas e como es-
novo sentido para elas. Em seria “a ressignificação da ses materiais, que na maioria
outras palavras, usar as sobras roupa através do processo das vezes vão para o lixão,
para criar algo novo, quase de desconstruir uma peça do poderiam servir de insumos
sempre de forma manual. universo feminino, masculi- para as cooperativas de artis-
no ou infantil e transformar tas, artesãos e grupos sociais
No início de 2022, o upcycling em um produto novo, ou seja, mais carentes, como forma de
tomou muita notoriedade não pode estar no mesmo despertar a sustentabilidade
com o boom dos corsets feitos universo após sua manipu- mesmo empreendedorismo.
com tênis. As artistas Luísa lação criativa. Difere e mui

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Créditos imagens: Roberta Braga e Cláudio Pedroso

O designer salienta, também, Aindústria têxtil no Brasil, como a
que o upcycling é uma téc- maior cadeia completa da área
nica que qualquer um pode no Ocidente, produz por ano
fazer em casa, não precisa de 9,04 bilhões de peças (vestuário + meias
maquinário específico. “O im- e acessórios + cama, mesa e banho).
portante é ter muita paciência Ao mesmo tempo em que gera 175 mil
para separar e organizar todo o toneladas de resíduos têxteis por ano,
material que irá trabalhar para de acordo com dados da Associação
que se possa definir que tipos Brasileira de Indústria Têxtil (ABIT).
de peças serão produzidas,
lembrando que nada pode ser
descartado, tudo que se tira de
uma peça é preciso aproveitar
em outra que será criada, a
partir daí é só soltar a criativi-
dade e começar a cortar, cos-
turar, alinhavar, pintar, bordar”.

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Mercado local

No Ceará, a indústria já a existência de brechós e ba-
tem mais de 130 anos zares. É positivo, porque se
de história, sendo o estado reduz a quantidade de têxteis
que mais agrupa municípios nos lixões, por outro lado, a
envolvidos com a atividade. mídia que está no nosso dia
Movido em especial pelas a dia 24h por meio das te-
condições favoráveis para a las, incentiva o consumo. E
produção de algodão e a im- para o consumo consciente
portância do Polo de moda da precisamos de ações mais
José Avelino, criado no início enérgicas, de envolvimen-
dos anos 1990 – o qual gera to maior da sociedade e
renda para uma média de 100 dos empresários”, declara.
mil pessoas, fazendo girar
cerca de R$ 70 milhões/mês, Contudo, é importante lem-
segundo o Febratex Group. brar que mesmo apesar da
importância do upcycling e
Fortaleza também é palco outras ações sustentáveis no
de um dos maiores eventos mundo da moda, a mudança
de moda do Brasil, o Dragão real está na mão das grandes
Fashion Brasil - DFB Festival. indústrias. De acordo com o
O evento ocorre desde 1999 relatório Fios da Moda, Vicu-
e reúne os maiores estilis- nha Têxtil, o consumo médio
tas brasileiros e especialis- de água por calça jeans no
tas da área para um festival Brasil é de 5.196 litros, entre
de moda autoral, forma- o plantio do fio, tecelagem,
ção, shows e gastronomia. confecção e lavanderia ca-
seira. Somente o plantio con-
Analisando as novas formas some mais de 4 mil litros.
de consumo que estão sur-
gindo mais recentemente, Enquanto as práticas de
Araguacy Paixão, professora produção têxtil não forem
do curso de Design-Moda da sustentáveis, a realidade pou-
Universidade Federal do Ceará co vai mudar. O upcycling é
(UFC), considera que essa for- apenas o início de uma mu-
ma de consumo está pensan- dança muito maior, da qual
do mais no futuro das peças. nossos futuros dependem.
“Existe um movimento que
tem se apresentado crescente
da reutilização de roupas, de
prolongamento da sua vida
útil, principalmente com

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Créditos imagens: Anna Tarazevich

Por Danielle Gadelha Arte para

Um dos pilares da cultura e tra- O macramé, um tipo de artesanato
dição cearense é o artesanato; feito à mão sem o auxílio de agulhas,
peças únicas feitas à mão com ganha forma, movimento e vida pe-
os mais variados materiais. Renda de las mãos do designer de moda Vitor
bilro, bordados, macramê, filé, labirinto, Cunha. A coleção “alomorfia”, tam-
renascença, tenerife e vários outros bém apresentada no DFB, expressa
tipos que demonstram a habilidade e uma viagem para outra dimensão pelo
o cuidado dos artesãos e artesãs cea- conceito da libélula, predadora que
renses. A prática passada de geração auxilia no controle biológico de pragas
em geração vem ganhando destaque e tem grande beleza e fragilidade e
nacional e, até mesmo, internacional. O cuja origem neste planeta é ante-
artesanato cearense marcou presença rior ao surgimento do ser humano.
nas passarelas do Dragão Fashion Bra-
sil 2022 (DFB), maior evento de moda A marca autoral, que leva o nome do
autoral da América Latina que acon- próprio designer, existe há 4 anos e
teceu em Fortaleza no mês de maio. utiliza o handmade, , em toda sua
produção. Vitor aprendeu a fazer o
A marca cearense Catarina Mina esteve macramé na internet e aponta a im-
no evento com bolsas e acessórios de portância que o artesanato cearense
crochê, uma técnica de tricô manual está ganhando nacionalmente. “Eu
que utiliza o auxílio de uma agulha. A acho que já tava mais do que na hora
empresa abraça artesãs de Fortaleza, do público nacional entender que o
Itaitinga e do distrito de Aracatiaçu nosso feito à mão é preciso, ele tem
para um projeto que, desde 2015, pro- técnica, tem qualidade, tem design
duz peças exclusivas sob a perspectiva e muita criatividade dentro dele. Ele
de fazer arte transparente. Por meio parte de uma geração para outra ge-
da Catarina Mina, o crochê já este- ração sempre com uma atualização, a
ve em feiras em Berlim, Paris e NY. gente sabe que a moda é um reflexo

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Inclusão

Do sistema para fora

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Créditos imagens: Roberta Braga e Cláudio Pedroso

Cotidiano

do que tá acontecendo na Imelda em 2014, quando ain-
sociedade. Vai gerar em- da tinha 19 anos, e saiu em
prego, vai impulsionar jo- 2021. Começou a participar
vens a valorizar novamente da iniciativa em 2019, en-
suas raízes de uma forma quanto estava recluso. Desde
chique, atualizada, moderna então, tornou-se professor
tirando aquela imagem que ainda no sistema peniten-
o handmade é da vovó. Me ciário e hoje, fora do sistema,
sinto muito lisonjeado de trabalha na administração e
fazer parte desse grupo de nas vendas das produções.
designers que está levando
a arte manual, o handmade Dos sete anos que Marli-
cearense, pra fora.”, explica. son passou na unidade, os
primeiros quatros foram
Para além disso, o artesa- de solidão e envolvimento
nato tem possibilitado uma com drogas. “Lá dentro do
nova perspectiva por meio sistema, eu tomava vários
da moda para internos e in- comprimidos para dormir e
ternas do sistema presidiá- quando comecei a trabalhar
rio cearense. Como já diria o no tenerife, que eu amo, eu
escritor colombiano Vargas comecei a perceber que os
Vila, “toda obra de arte é uma remédios que eu tomava, es-
personalidade. O artista vive tavam me prejudicando; eu
nela, depois dela ter vivido precisava estar totalmente
um longo tempo dentro dele.” em si para fazer aquilo em
Segundo dados da Secretaria perfeição. Então, o tenerife
de Administração Peniten- também me ajudou a ven-
ciária do Ceará (SAP) 400 cer essa droga. Hoje em dia
pessoas em sete unidades eu não tomo mais nenhum
do estado estão traçando desses remédios”, explica.
um novo começo por meio
do projeto “Arte Em Cadeia”.

OA iniciativa “Arte em Cadeia” tenerife ou renda
sol, em alusão à
tem como objetivo contri-
buir para o processo de res- trama na forma radial,

socialização dos internos é um artesanato feito
por meio da produção dos
artesanatos cearenses; além com agulha de saco,

de aprenderem técnicas de linha de algodão e tear

costura, eles aprendem o te- de tábua. É uma renda

nerife, o macramé e o crochê. que surgiu na Espanha,

Marlisson da Silva tem 27 no século XVI e, em se-
anos e entrou na unidade guida, veio para o Brasil.

penitenciária masculina Irmã

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