70 CAPÍTULO 7 • 88
ECONOMIA CAPÍTULO 10 •
Da agricultura ao comércio ARTES
pelos mares, conheça a
dinâmica da economia nas As peculiaridades da
cidades-estado gregas
música, da pintura, do
74 CAPÍTULO 8 • teatro e da arquitetura
PERÍODO desenvolvidas pelo
HELENÍSTICO povo grego
Saiba mais sobre o momento
marcado pelas tentativas de
restabelecimento do poder
alcançado em séculos anteriores
80 CAPÍTULO 9 •
CULTURA
Explore as características da junção de duas
culturas que se destacaram na história antiga
grega, as particularidades e as tradições das
várias cidades-estado
94 CAPÍTULO 11 •
A GRÉCIA HOJE
A formação do país, a União Europeia e
a crise econômica: saiba como a Grécia
chegou aos dias atuais
CIP-BRASIL. CATALOGAÇÃO NA PUBLICAÇÃO
SINDICATO NACIONAL DOS EDITORES DE LIVROS, RJ
G971
Guia conheça a história : Grécia. -- 2. ed. - São Paulo : On Line,
2016.
il.
ISBN 978-85-432-1356-9
1. História - Grécia. 2. Manuais, guias, etc.
16-33313 CDD: 938
CDU: 94(38)
24/05/2016 25/05/2016
5
CAPÍTULO 1 • ORIGENS Shutterstock
Ferramenta
pré-histórica
da Idade da
Pedra Lascada
A FORMAÇÃO
DO POVO GREGO
A TRAJETÓRIA DAS CIVILIZAÇÕES QUE FORAM A BASE
PARA A COMPOSIÇÃO ÉTNICA DA GRÉCIA ANTIGA
6
CONHEÇA A HISTÓRIA • GRÉCIA
Shutterstock
A ntes de conhecer a rica trajetória e o apo- Túmulo pré-histórico localizado em uma floresta da Rússia:
geu da Grécia Antiga, das grandes constru- exemplo do uso da pedra nos períodos Paleolítico e Mesolítico
ções, dos líderes políticos e filosóficos, é fun-
damental compreender a origem e formação Shutterstock
do povo que ocupou o atual território grego
antes que Homero, Sócrates, Platão, Aristóte- Representação da produção de farinha com instrumentos de
les, Temístocles e Péricles, entre vários outros, pedra, uma forma tradicional de trabalhar os ingredientes
pudessem marcar os nomes eternamente na durante o Período Neolítico
história.
CIVILIZAÇÕES GREGAS 7
Dessa forma, pode-se afirmar que, na Grécia e nos DA PRÉ-HISTÓRIA
arredores (no sudeste da Europa, conhecido como Pe-
nínsula Balcânica), existem evidências de mais de 50 A oferta de alimento possibilitou o aumento do tempo de
assentamentos humanos desde o Paleolítico – também lazer na Grécia continental. Ressalta-se, ainda, que a ne-
chamado de “Idade da Pedra Lascada”, período pré-his- cessidade de armazenar o produto da agricultura e as se-
tórico que compreende aproximadamente 2,5 milhões mentes para cultivo leva à criação de peças de cerâmica,
a.C. e 10 mil a.C. Segundo historiadores, as civilizações que passariam a ser vistas como objetos decorativos. Com
da época tinham a economia baseada na caça, coleta, a ampliação dos contatos culturais e das redes comerciais,
pesca e mineração, além da produção de equipamen- diversos produtos neolíticos passaram a se espalhar pelo
tos domésticos (tigelas e vasos), a partir de madeira e interior da Europa.
argila. Espátulas, facas, martelos e outras ferramentas
eram produzidos com chifres e ossos. Há indícios de Dentro do Neolítico, no período denominado “Acerâmi-
que os povos da região praticavam a navegação, por co” (6.800 a.C. – 6.500 a.C.), uma pequena quantidade de
causa da comunicação intensa entre ilhas da Península sítios abrigava aglomerações com até 100 pessoas, que ha-
da Magnésia, no Mar Egeu. bitavam cabanas ovais subterrâneas, escavadas parcialmente
na terra, com pavimentos de argila. Os aspectos econômicos
Já no Período Mesolítico, que marcou a transição baseavam-se na agricultura (aveia, trigo, cevada, lentilhas e
entre o Paleolítico e o Neolítico, surgiram os primeiros
registros de habitações feitas de pedra, além de ce-
mitérios, mas as populações do local ainda preferiam
se proteger em cavernas. O uso de embarcações passa
a ser mais frequente para a busca de mercadorias e
verifica-se o processo de cultivo de plantas, bem como
a domesticação de animais – com destaque para a cria-
ção de porcos. A caça, a coleta e a pesca continuaram
como a base das sociedades gregas. Vale lembrar que
anzóis, amuletos, colheres e lâminas foram desenvol-
vidos nessa época. A partir do momento em que os
homens e mulheres passaram a se dedicar à agricultura
e pecuária, observa-se o crescimento populacional em
algumas regiões da Península Balcânica, pavimentando
o caminho para a próxima fase da evolução dos gregos.
O Período Neolítico (ou “Idade da Pedra Polida”,
entre 10 mil a.C. e 3 mil a.C.) registrou as primeiras
aldeias instaladas em áreas costeiras e no interior, em
planícies ou serras perto de rios e lagos. A finalidade
era aproveitar a terra fértil, além da água para o abas-
tecimento humano e animal. Uma característica inte-
ressante, naquela época, foi o começo da divisão do
trabalho entre homens e mulheres: eles cuidavam da
segurança, caça e pesca, enquanto elas plantavam, co-
lhiam e educavam as crianças.
CAPÍTULO 1 • ORIGENS
Shutterstock
O trigo foi um ervilhas), na pecuária (bovinos, ovinos, Vista da cidade Shutterstock
dos principais caprinos, suínos e cães), na coleta (nozes, de Volos, na Shutterstock
azeitonas e pistache), na caça e na pesca.
produtos Grécia, região Panorama
cultivados pelas A evolução dos povos do Neolíti- de influência da da cidade de
co levou à formação da cultura Sesklo, cultura Sesklo – Kalambaka,
civilizações uma das principais da pré-história grega, o município está na região
antigas que com destaque para a região de mesmo da Tessália,
ocupavam o nome, próximo à cidade de Volos, na localizado a que presenciou
território grego porção central do país. No local, as caba- 326 quilômetros a expansão
nas de madeira foram substituídas pelas da influência
8 de pedra, compostas por tijolos fixados de Atenas da cultura
com tronco entrelaçados na horizontal e Dimini
na vertical. Existiam valas para a conten- importância do contato com o mar e das
ção da água, poços para a retirada do trocas comerciais. Homens e mulheres
líquido e até mesmo uma rua pavimen- evoluíram na criação do gado e aldeias
tada. Sesklo apresentava-se como uma situadas em terras baixas tornaram-se
aldeia murada, coberta por edifícios qua- grandes centros econômicos durante o
drados e retangulares. período.
Outra civilização que expandiu a in- Nas ilhas do território grego, o
fluência na pré-história grega foi a Dimi- destaque ficou para Creta, a maior
ni, que prosperou na região da Tessália e mais populosa. As evidências mais
(centro-norte do país). Os assentamen- antigas da presença de seres huma-
tos caracterizavam-se por grandes edi- nos no local são cerâmicas do neolí-
fícios retangulares e construções feitas tico de restos de comunidades agrí-
com pedra (Dimini) ou madeira, assim colas datadas de cerca de 7.000 a.C.
como valas e áreas para atividades es- Os primeiros habitantes viviam em
pecializadas. Nas residências, em ge- grutas. Aos poucos, eles começaram
ral, havia lareiras e porões. Fabricação a formar aldeias pequenas, além de
de joias, manuseio de metais (prata e
cobre), produção de estatuetas de már-
more, comércio, policultura e produção
de cerâmica representavam as principais
atividades econômicas do povoamento.
A cultura Rachmani foi a última po-
pulação neolítica da parte continental
grega, com registros entre 4.500 a.C.
e 3.200 a.C. Os integrantes preferiam as-
sentamentos em zonas costeiras, espe-
cialmente nas cavernas, evidenciando a
CONHEÇA A HISTÓRIA • GRÉCIA
Panorama de uma das ilhas que formam o
arquipélago conhecido como região das Cíclades
construções com pedra. Na costa, ha- Shutterstock
via cabanas de pescadores, enquanto
as planícies férteis eram bastante ex-
ploradas. A população de Creta plan-
tava trigo e lentilhas, criava bovinos
e caprinos e produzia armas com os-
sos, chifres, hematita e calcário.
As civilizações do Mar Egeu chegam
à Idade do Bronze com graus de evo-
lução diferentes, mas quatro delas ga-
nham destaque na região do território
grego. Um grupo ocupou a região de Cí-
clades (arquipélago ao sul da Grécia). O
nome, em grego, significa “circular” e in-
dica as mais de 200 ilhas que ficam per-
to da também ilha de Delos, que serviu,
na Antiguidade Clássica, como santuário
de Apolo, venerado na mitologia grega
como deus do Sol e da luz.
Nas Cíclades, a cultura Grota-Pelos
Ruínas do santuário
dedicado a Apolo, em Delos,
na região das Cíclades
Shutterstock Vista VOCÊ SABIA?
Shutterstockda ilha
Shutterstockde Creta,Desde 1990, a ilha de Delos
a maior é considerada Patrimônio
e mais Mundial da Humanidade,
populosa pela Organização das Nações
da Grécia Unidas para a Educação, a
Ciência e a Cultura (Unesco).
Esculturas da ilha de
Delos, importante sítio
arqueológico grego
CAPÍTULO 1 • ORIGENS MACEDÔNIA
Vila de Panormo, na ilha grega de Creta, local que contou
com a presença de representantes do grupo Kastri
ALBÂNIA
Monte
Olimpo
GRÉ
JÔNICO Pátras ATE
MAR
Shutterstock Peloponeso
foi a primeira identificada, desenvol- A VIDA cultivavam diversas espécies de cereais MAR
vendo-se entre 3.100 a.C. e 2.650 a.C. EM CRETA e legumes, com ênfase na produção de
Os edifícios eram retangulares, com até vinho, uvas, óleo e azeitonas. A tecno-
duas salas com paredes de pedra e ar- A Idade do Bronze na ilha de Creta co- logia ligada ao uso de tração animal foi
gila. Os assentamentos foram pequenos meçou por volta de 2.700 a.C., por meio desenvolvida no período.
povoados agrícolas. da introdução do cobre para ferramentas
e armas, marcando o fim do Período Ne- Entre 3.500 a.C. e 2.500 a.C., as bases
A cultura Ceros-Siros é caracterizada olítico. A expansão do uso do bronze no foram lançadas para o desenvolvimento
pela grande quantidade de assentamen- Mar Egeu está ligada a migrações popula- da Civilização Minoica, um dos povos que
tos pequenos e de curta duração, em cionais na costa da Ásia Menor para Creta, teve maior influência na consolidação da
que cada sítio, de acordo com pesqui- Cíclades e sul da Grécia. Grécia Antiga e que se originou em Creta.
sadores, possuía um cemitério fora dos
muros das fortificações. As construções Tais localidades iniciariam uma fase POPULAÇÕES
eram erguidas com o conhecimento de de desenvolvimento marcado principal- DA GRÉCIA
alvenaria e possuíam dois andares. Em mente pelo crescimento das relações CONTINENTAL
Delos, foram encontrados edifícios me- comerciais com a Ásia Menor e o Chipre.
nores, organizados em quartos com os Com isso, observam-se, ainda, alterações O termo “Civilização Heládica” é empre-
cantos arredondados. em relação à organização social, bem gado para analisar uma série de períodos
como aperfeiçoamentos tecnológicos e que caracterizaram a cultura do continen-
O grupo denominado Kastri tam- melhor qualidade de vida dos habitantes. te grego durante a Idade do Bronze. A
bém apresentou o desenvolvimento A partir de então, a ilha viveu a transi- classificação engloba povos que viveram
nas Cíclades, entre 2.400 a.C. e 2.200 ção da economia agrícola para atividades na região entre 3.100 a.C. e 1.100 a.C.
a.C. em aldeias de Siro, Panormos, De- mais dinâmicas, resultado do comércio
los e Ceos. Os trabalhos com estanho, marítimo com outras regiões do Egeu A cultura Eutresis foi a primeira a
bronze e prata são características im- e do Mar Mediterrâneo. Creta passou a desenvolver-se no continente. Há regis-
portantes do período. ocupar um lugar de destaque na região, tros de atuação do grupo entre 3.100 a.C
principalmente em razão da frota de e 2650 a.C., que construiu aldeias na Be-
A cultura Filácopi é considerada a embarcações. Os portos evoluíam para ócia, Ática, Coríntia e Argólida.
fase final dos povos que integraram a centros de influência, inclusive com o in-
Civilização Cicládica. Aldeias grandes e tercâmbio comercial com a Ásia. Aldeias Já o povo Korakou distribuiu-se pela
bem organizadas começaram a surgir. foram ligadas por estradas e a conexão Península do Peloponeso (sul da Grécia),
Essa população trocou a preferência por entre as regiões ficou mais fácil. Ática, Eubeia, Beócia, Fócida, Lócrida e ilha
sítios à beira do mar para aglomerações de Levkas, sobretudo entre 2.650 a.C. e
fortificadas no interior das ilhas, possi- Ainda no aspecto econômico, na-
velmente por causa da ação de piratas quela época, os habitantes da ilha já
no arquipélago.
10
BULGÁRIA Shutterstock Representação
Shutterstockde uma cena
Istambul de batalha
em ornamento
no museu
de Delfos
MAR EGEU
CIA TURQUIA
Izmir
HELENO, O HERÓI DOS INVASORES
ENAS DO TERRITÓRIO GREGO
CÍCLADES HELENO, PRIMEIRO FILHO DE DEUCALIÃO E PIRRA,
NA MITOLOGIA GREGA, É O ANTEPASSADO DOS
DODECANESO GREGOS OU HELENOS. OS IRMÃOS DELES ERAM
ANFICTIÃO, QUE REINOU NA ÁTICA, APÓS CRANAU,
MAR DE CRETA Mapa que E PROTOGÊNIA, QUE TEVE COM ZEUS O FILHO ÉTLIO.
representa
CRETA algumas das O herói Heleno casou-se com a ninfa (assim são chamados os
centenas de espíritos naturais femininos, caracterizados pela personificação
MEDITERRÂNEO ilhas gregas da graça criativa e fecundadora na natureza) chamada Orseis, e
teve os filhos Doro, Xuto e Éolo. As quatro tribos descendentes
Shutterstock dos helenos são os dórios, de Doro, os eólios, de Éolo, e os
aqueus e jônios, respectivamente, de Aqueu e Ion, filhos de Xuto.
Ainda segundo a mitologia grega, Deucalião (pai de Heleno),
foi um filho de Prometeu e Climene. Ele era casado com Pirra.
Quando a fúria de Zeus foi lançada contra os pelágios, o deus
decidiu, por meio de um dilúvio, encerrar a Idade do Bronze.
Avisado por Prometeu, Deucalião e Pirra construíram um
barco de madeira e o equiparam com mantimento, para se
salvarem das chuvas intensas.
Espantado com o ódio instaurado entre a humanidade, Zeus
decidiu exterminar o ser humano, certo de que os deuses
tinham cometido o maior erro com a espécie. O conselho
dos deuses foi convocado. Todos obedeceram e tomaram
o caminho do palácio do céu. De acordo com a tradição, o
trajeto pode ser visto no céu em todas as noites claras, a
chamada “Via Láctea”.
Ao se dirigir à assembleia, Zeus expôs as condições que
reinavam na Terra e anunciou que iria destruir todos os
homens para criar uma nova raça que fosse mais digna de
viver e soubesse cultuar melhor os deuses. Ele tomou o raio
e, quando ia usá-lo, destruindo o mundo pelo fogo, percebeu
o perigo que um incêndio teria para os próprios deuses. Zeus
decidiu, então, inundar a Terra.
O titã (que está entre as entidades que enfrentaram Zeus e os
demais deuses olímpicos na tentativa de ascensão ao poder)
Prometeu, que tinha o dom de profecia, previu os planos dos
deuses e orientou o filho, Deucalião, que construísse uma arca
para sobreviver ao grande desastre.
Para exterminar a humanidade, Zeus pediu ajuda a Poseidon,
irmão dele e deus supremo do mar, que soltou os rios e os
lançou sobre a Terra. Animais, homens, casas e templos foram
tragados pelas águas.
De todas as serras, apenas o Monte do Parnaso (situado na
região central da Grécia) ultrapassava as águas. Nele, a arca
de Deucalião – o mais justo dos homens – e Pirra (a mais
virtuosa das mulheres) conseguiu se refugiar. Zeus viu que
apenas o casal sobreviveu e interrompeu a tempestade. Assim,
Poseidon retirou as águas e ambos se salvaram.
Parte da entrada do palácio de Cnossos, um dos principais 11
assentamentos da Civilização Minoica, na ilha de Creta
CAPÍTULO 1 • ORIGENS
Shutterstock A IDADE DO BRONZE 2.200 a.C. Muitos assentamentos, especialmente na Argólida, fo-
Shutterstock ram destruídos e incendiados antes de serem abandonados ou re-
A IDADE DO BRONZE É UM PERÍODO tomados pelos representantes de outras culturas, principalmente
DA CIVILIZAÇÃO EM QUE OCORREU O da tradição micênica, outra população que exerceu forte influência
DESENVOLVIMENTO DA LIGA METÁLICA, QUE sobre os gregos.
RESULTA DA MISTURA DO ESTANHO COM
O COBRE. INICIOU-SE NO ORIENTE MÉDIO As civilizações Lefkandi e Tirinto também apresentaram de-
EM TORNO DE 3.300 A.C., SUBSTITUINDO O senvolvimento de destaque em regiões da porção continental
NEOLÍTICO (POPULARMENTE CONHECIDO da Grécia. De acordo com especialistas, a cultura Tirinto pode
COMO IDADE DA PEDRA) EM GRANDE PARTE ser o resultado de um processo de integração cultural entre os
DOS TERRITÓRIOS. Korakou e os Lefkandi, uma “fusão” que ocorreu com diversas
populações durante o período pré-histórico.
A época foi marcada pela adoção plena do bronze
em muitas regiões, embora a tecnologia tenha se Representação da arte minoica em um
desenvolvido em momentos diferentes. O emprego palácio de Cnossos, na ilha de Creta
do estanho e do bronze feito pelas populações exigia
um conjunto de técnicas de produção. A Idade do O DESENVOLVIMENTO
Bronze caracterizou-se pelo uso intenso de metais DA CIVILIZAÇÃO MINOICA
e de redes de desenvolvimento do comércio.
No Antigo Oriente Próximo (que engloba os países O grupo composto pela Civilização Minoica floresceu em Creta,
do Sudoeste Asiático, entre o Mar Mediterrâneo sobretudo após a introdução do cobre, por volta de 2.700 a.C.
e o Irã), o período começou com a ascensão da O termo “minoico” foi elaborado pelo arqueólogo inglês Arthur
Suméria no quarto milênio antes de Cristo. A Evans, que realizou escavações em Cnossos, o maior sítio ar-
região é considerada por alguns historiadores queológico da ilha. O nome da população deriva do nome do
como o berço da civilização, em que se praticava rei mítico “Minos”, que, na mitologia grega, foi um governante
a agricultura intensiva durante todo o ano. As semilendário da região, filho de Zeus e da princesa fenícia Eu-
civilizações desenvolveram um sistema de escrita, ropa.
criaram um governo centralizado, códigos de leis e
impérios, e introduziram a estratificação social, a Na hierarquia minoica, os reis recebiam o nome de Minos,
escravidão e a guerra organizada. Sociedades que o que teria salientado, possivelmente, a origem do tal mito. No
prosperaram no trecho estabeleceram as bases poema épico “A Divina Comédia”, do escritor italiano Dante Ali-
para ciências como a astronomia e matemática. ghieri, Minos aparece como um dos juízes do inferno, ouvindo
A data de adoção do bronze variou de acordo com as confissões dos mortos.
várias culturas. Na Ásia Central, a liga metálica
chegou por volta de 2.000 a.C. Na China, o bronze Os palácios minoicos são as construções mais bem acaba-
foi adotado na Dinastia Shang (que, segundo a das já escavadas na ilha, pois serviam para finalidades admi-
tradição chinesa, começou em 1.766 a.C. e terminou
em 1.122 a.C.). No Mar Egeu, a composição de metais
estabeleceu-se uma área de intenso comércio,
principalmente em Chipre, onde existiam minas
de cobre, com o estanho originado das
ilhas britânicas. Na Europa Central,
o período iniciou a partir entre
1.800 a.C. e 1.600 a.C., seguido do
período de 1.600 a.C. a 1.200 a.C.
Já no norte da Europa, a Idade teve
início em 2.000 a.C. Naquele período,
surgiu o comércio de âmbar, além
de armas e joias. O final da Idade do
Bronze foi datado entre 1.300 a.C.
e 700 a.C., sendo seguida pela
Idade do Ferro.
Elmo grego
confeccionado
em bronze e
ferramenta
produzida
durante a Idade
do Bronze,
que sucedeu o
Período Neolítico
12
CONHEÇA A HISTÓRIA • GRÉCIA
Pierdelune/ Shutterstock.com
Shutterstock
Pintura minoica antiga que Placa minoica com a representação do vestuário
representa o perfil de três mulheres da civilização que ocupou a região de Creta
JÔNIOS VOCÊ SABIA?
OS JÔNIOS, TAMBÉM CONHECIDOS COMO Em relação ao vestuário, os tecidos eram
JÔNICOS, ERAM UM POVO INDO-EUROPEU QUE feitos de fibras de linho e lã. Existem, ainda,
SE ESTABELECEU NA ÁTICA E NO PELOPONESO. evidências do uso de seda, pois foram
DEPOIS, O GRUPO DIRIGIU-SE PARA A ÁSIA encontrados casulos de bicho-da-seda. As
MENOR, EM RAZÃO DA CHEGADA DOS DÓRIOS. mulheres vestiam amplas saias em forma
Na Ásia Menor, ocuparam Halicarnasso e Esmirna de sino, com sucessivos tecidos e faixas
entre os séculos XII a.C. e X a.C. Formaram a Liga decorativas elaboradas, sandálias bordadas,
Jônia, composta por doze cidades importantes na sapatos de salto, botinas, joias feitas com
época: Éfeso, Samos, Priene, Colofón, Clazómenas, metais preciosos e pedras coloridas, coloração
Quios, Mileto, Teos, Mionto, Lebedos, Foceia e nos olhos e na face, além de tatuagens. Os
Eritras. No século VI a.C., sofreram uma derrota homens utilizavam roupas semelhantes às de
pelos persas. A revolta como os dominadores pastores e tangas ornadas com desenhos em
deu origem às Guerras Médicas. O termo “jônico” espiral, além de calçarem botas altas.
também era empregado como sinônimo de grego.
Os jônios são os primeiros pensadores que dão nistrativas, a partir de grandes arquivos de documentos
expressão filosófica ao problema da existência desenterrados por arqueólogos. Segundo historiadores,
de uma causa suprema para todas as coisas. Os a civilização Minoica foi muito mais avançada que a
principais representantes da filosofia são Tales, contemporânea civilização Heládica, durante a Idade
Anaximandro e Anaxímenes, todos de Mileto, na do Bronze. De acordo com pesquisas, a Creta ocupada
Ásia Menor, às margens do Mar Egeu. Os filósofos pelo povo minóico permaneceu livre de invasões por
viveram entre os séculos VII a.C. e V a.C. muitos séculos e conseguiu desenvolver uma civiliza-
ção autossustentável, provavelmente a mais avançada
Anfiteatro na cidade de Mileto, no Mediterrâneo naquele período.
território ocupado pelo povo jônio,
A presença de trabalhos específicos entre os minoi-
um dos ancestrais dos gregos cos é indício de elevada especialização, grande mão de
obra e divisão bem sucedida das tarefas. Um sistema
Shutterstock burocrático e a necessidade de controlar a circulação de
mercadorias formaram as bases sólidas para a civiliza-
ção, além de uma possível economia baseada em um 13
sistema escravista. Com o passar do tempo, o poder dos
centros orientais começa a declinar, sendo substituído
pela influência de outras localidades.
O período entre os séculos XVII e XVI a.C. representa
o apogeu da Civilização Minoica, com centros adminis-
trativos que controlavam territórios vastos, fruto da me-
lhoria e desenvolvimento das comunicações terrestres e
marítimas, bem como da construção de estradas e por-
CAPÍTULO 1 • ORIGENS
EÓLIOS Shutterstock
OS EÓLIOS (OU EÓLICOS) Ruínas do
FORAM UMA DAS QUATRO palácio
TRIBOS ORIGINAIS DA GRÉCIA minoico em
ANTIGA, AO LADO DOS Cnossos,
AQUEUS, JÔNIOS E DÓRIOS. na Grécia
Ocupavam-se da agricultura e Arquitetura Shutterstock
envolveram-se na colonização minoica na
do litoral do Mar Egeu. Segundo ilha de Creta
historiadores, o nome teria se
originado pela descendência Shutterstock
de Éolo, deus grego dos ventos
(cujo pai, Hélio, era o patriarca Câmara da rainha no imponente
mitológico de todos os helenos, palácio de Cnossos
ou seja, os gregos). Para alguns
autores, a denominação do Enorme vaso
povo teria se originado de Éolo, antigo na
gerado por Heleno, que era filho
de Deucalião. ilha de Creta,
Durante o Período Clássico da possivelmente de
história grega, os eólios eram
encontrados em Lesbos, Tênedos origem minoica
e na Ásia Menor. No entanto,
a colonização ocorreu apenas
com o fim do período micênico.
As fontes da Ásia Menor pelos
eólios mencionam a origem de
diversos centros metropolitanos
em várias regiões da Tessália,
Grécia central e Peloponeso.
O possível lar original dos
eólios seria a Macedônia
Ocidental, em especial, as
áreas montanhosas a norte
do Rio Haliácmon. De lá, eles
teriam se deslocado rumo ao
sul, para a Tessália, que foi
totalmente ocupada. Por volta
do segundo milênio antes de
Cristo, seguiram-se ondas
de migrações rumo às ilhas
do noroeste do Egeu e para a
Grécia meridional.
Os eólios falavam o dialeto
eólico, pertencente a uma
variante do grupo central de
dialetos do grego antigo, que
também inclui o dialeto “arcado-
-cipriota”. Ambos preservaram
diversas características únicas,
pertencentes à variante do
idioma que os originou. O
“proto-eólico” deu origem
ao eólico, que se espalhou
inicialmente pela Tessália e,
posteriormente, passou para
as ilhas do norte do Egeu e da
costa da Ásia Menor. Com a
influência do arcádico, o eólico
transformou-se no dialeto
aqueu do Período Micênico.
14
CONHEÇA A HISTÓRIA • GRÉCIA
Shutterstock tos. A presença de navios mercantes também foi fundamen- Construção dória
tal, uma vez que eles navegavam com produções artísticas na aldeia grega
e agrícolas, posteriormente trocadas por matérias-primas. de Lindos, na
Entre 1.700 a.C. e 1.450 a.C., a monarquia de Cnossos con- ilha de Rodes
quistou a supremacia de Creta, com o sistema apoiado pela
elite mercantil, criando um império comercial marítimo, co- Shutterstock
nhecido como “Talassocracia”. A extensão do sistema político
é comprovada pela grande quantidade de cidades com nome DÓRIOS
“Minoa” encontradas nas ilhas do Egeu, na costa síria, no
continente grego e na Sicília. OS DÓRIOS – OU DÓRICOS – FORAM UMA
DAS PRINCIPAIS TRIBOS EM QUE OS ANTIGOS
A religião da civilização minoica era basicamente ma- GREGOS DIVIDIAM A SI PRÓPRIOS, AO LADO
triarcal, sustentada principalmente na grande quantidade DOS JÔNIOS E EÓLIOS.
de divindades femininas. Em muitas imagens, existe pre- O povo quase sempre é referenciado na literatura
ponderância de representações de mulheres, incluindo uma grega antiga apenas como os “dóricos”. A primeira
“Deusa Mãe” (da fertilidade) e uma “Potnia” (senhora dos citação feita a eles data da “Odisseia”, de Homero,
animais, protetora das cidades e da família). Elas são repre- em que eles são encontrados como habitantes
sentadas, por exemplo, com serpentes e pássaros. Os mi- da ilha de Creta. Os dórios faziam parte dos
noicos ergueram santuários em locais naturais ou nos palá- povos tidos como helenos, mas possuíam hábitos
cios. Além disso, a elite mercantil possivelmente sustentou diferentes, de acordo com os locais que ocupavam
a própria autoridade por meio da ideologia de parentesco – havia os habitantes do centro comercial de
com as divindades. Corinto, cidade conhecida pela arte e arquitetura,
bem como Estado voltado às funções militares da
Uma das correntes que tenta explicar o declínio do povo Lacedemônia (ou Lacônia), cuja capital era Esparta.
minoico tem ligação com a erupção vulcânica do Tera (ou Em 1150 a.C., os dórios começaram a invadir
de Santorini), ocorrida na região de Cíclades entre 1.650 o Peloponeso, Creta e outros locais no mar
a.C. e 1.450 a.C., com alto índice de destruição. O fenômeno Mediterrâneo, levando ao fim da Civilização
natural devastou o assentamento minoico em Acrotíri, que Micênica, que floresceu na Idade do Bronze. Entre
foi enterrado sobre camadas de pedra-pomes. Um grupo as cidades do Peloponeso invadidas pelos dórios
de estudiosos acredita que o acontecimento afetou grave- estavam Corinto, Olímpia, Esparta e Micenas.
mente a civilização de Creta, embora a dimensão exata do Embora a maioria dos invasores dóricos tenham
impacto seja debatida. se fixado no Peloponeso, também ocuparam
Rodes e a Ásia Menor, onde mais tarde iria nascer
As primeiras teorias propuseram que a queda de cin- a hexápole dórica (confederação de seis cidades):
zas na metade oriental da ilha de Creta sufocou a vida das Halicarnasso, Cós, Cnido, Lindos, Camiros e Jalisos.
plantas, causando a fome da população local. Há hipóteses Os seis municípios passariam, mais tarde, a ser
de que gases nocivos tenham chegado à ilha, intoxican- rivais das cidades jônicas da Ásia Menor.
do muitos seres vivos. Além disso, o território teria virado A invasão dórica foi, em parte, responsável pela
um destino para refugiados de arquipélagos do Mar Egeu. Idade Grega das Trevas. Não existem registros
Como os minoicos foram uma potência marítima e depen- escritos do ataque dório, porém a migração
diam da marinha, a erupção originou dificuldades econômi- está documentada pelo registro arqueológico: o
cas significativas. incêndio e destruição generalizado de sítios da
Idade do Bronze em Creta e no continente grego.
A INFLUÊNCIA DO
POVO MICÊNICO 15
A Civilização Micênica é considerada uma das socie-
dades mais sofisticadas da cultura grega, por causa da
grande disseminação artística e da avançada organização
política, que, de acordo com especialistas, preconizava a
igualdade entre homens e mulheres. Desenvolveu-se no
continente grego aproximadamente entre 1.600 a.C. e
1.050 a.C. O termo deriva de “Micenas”, nome de um dos
centros regionais micênicos mais importantes. Também
denominados “aqueus”, iniciaram a incursão ao território
ORIGENS
Shutterstock guerra como forma de obter recursos. Os esparta-
nos foram descendentes dessa civilização, fato que
explica, em parte, o interesse de Esparta pelas ba-
talhas na Antiguidade.
Ruínas do portão de uma construção em Micenas, Shutterstock PERÍODO
uma das principais cidades do povo micênico HOMÉRICO
Shutterstock
Vista do sítio arqueológico em uma aldeia micênica, cuja No estudo sobre a Grécia Antiga, o apogeu das ci-
arquitetura se destacou na região da Península Balcânica vilizações minoica, micênica, cicládica e heládica
também é conhecido como Período pré-Homérico
grego por volta de 2.000 a.C., chegando a conquistar os (entre 2.000 a.C. e 1.100 a.C.). Trata-se da época
habitantes chamados pelágios, nativos do território grego. da proeminência de povos importantes na forma-
ção da cultura da região.
A população micênica caracterizava-se pelo comércio
ativo. O grupo conquistou a ilha de Creta por volta de 1.450 A população grega tem origem em grupos ét-
a.C. Eles exerceram notável influência econômica e cultural nicos que migraram para a Península Balcânica em
na região durante 200 anos. O povo era caracterizado por diversas ondas, no início do segundo milênio antes
uma aristocracia de guerreiros e falava uma forma arcaica de Cristo: aqueus, jônios, eólios e dórios. Os inva-
da língua grega, o grego micênico. Os mais antigos docu- sores são conhecidos, em geral, como “helênicos”,
mentos em grego foram registrados por essa civilização, cuja organização de aldeias baseava-se na crença
que construiu aldeias fortificadas em Micenas, Tirinto e Pi- de que as populações descendiam do herói Heleno,
los, entre outros centros importantes. filho de Deucalião e Pirra.
Várias características da cultura micênica sobreviveram A vitória dos aqueus (ou micênicos) em Creta, por
nas tradições religiosas e na literatura grega dos períodos volta de 1.450 a.C. abriu portas para a hegemonia na
Arcaico e Clássico, notadamente nas epopeias “Ilíada” e porção oriental do Mar Mediterrâneo. O domínio foi
“Odisseia”, escritas por Homero. Micenas teve o auge e foi ampliado por volta de 1.200 a.C., quando a cidade de
a cidade mais próspera da Grécia por muitos anos, influen- Troia, na Turquia, foi conquistada, oferecendo acesso
ciando diversos setores, como as artes, a engenharia e a às terras do litoral do Mar Negro.
arquitetura.
O Período Homérico (entre 1.110 a.C. e 800
Na avaliação de pesquisadores, a invasão dórica (do a.C.) é marcado pela ascensão das células de ci-
povo dório) é considerada a causa do fim da civilização dades-estados, pela literatura épica de Homero e
micênica, marcando o fim da Idade do Bronze. Os dórios
concentravam-se nas atividades militares e atuavam na Representação do
vestuário micênico
16
Shutterstock
Tesouro de Atreu (também chamado Tumba de Agamemnon)
é uma tumba construída nas proximidades de Micenas, atribuído
a Atreu, o pai do rei micênico Agamemnon
CONHEÇA A HISTÓRIA • GRÉCIA
Kostas Koutsaftikis/
Shutterstock.com
pelos primeiros registros es- A GEOGRAFIA Shutterstock Monte Olimpo,
critos a utilizarem o alfabeto DA GRÉCIA o ponto mais
grego, no século VIII a.C. De elevado da Grécia
acordo com registros arque- O TERRITÓRIO GREGO ESTÁ SITUADO
ológicos, houve um colapso NO SUDESTE DA EUROPA, NO SUL Vista de Litochoro, aldeia
da civilização que habitava o DA PENÍNSULA BALCÂNICA. O PAÍS grega sob o Monte Olimpo
mundo Mediterrâneo orien- FAZ FRONTEIRA, AO NORTE, COM oliveiras e matas esparsas), nas
tal durante esse período. Os A BULGÁRIA, A MACEDÔNIA E A regiões meridionais e centrais. No
grandes palácios e cidades ALBÂNIA. A OESTE, ENCONTRA-SE norte, prevalece o tipo de vegetação
dos micênicos foram destru- O MAR JÔNICO. AO SUL, ESTÁ O característico da Europa central,
ídos. Aldeias inteiras foram MAR MEDITERRÂNEO, COM O MAR com florestas mistas. Nas planícies,
abandonadas. Tais fatos fa- EGEU A LESTE. encontra-se vegetação arbustiva e
zem com que o espaço de herbácea. Nos planaltos do centro e
tempo também seja conheci- A Grécia conta com uma grande parte do sul, aparecem árvores de folhas
do como “Idade das Trevas”. continental, o Peloponeso, península caducas, sobretudo o carvalho e o
ligada ao continente pelo istmo (faixa castanheiro. Florestas e cerrados
Segundo historiadores, os estreita de terra) de Corinto. Ao redor, estendem-se acima de 200 metros.
gregos viviam em habitações existem cerca de 3 mil ilhas, incluindo Nas regiões centrais, sobretudo nas
menores, indicando uma épo- Creta, Rodes, Corfu, Dodecaneso e zonas de floresta, a fauna é do tipo
ca de escassez de alimentos as Cíclades. O território possui 15 mil centro-europeu, com ursos, lobos,
e de queda populacional. Aos quilômetros de litoral. A área total javalis, linces, martas, corças, camurças e
poucos, as monarquias pas- compreende quase 132 mil quilômetros vários répteis. No litoral predominam as
saram a ser substituídas pela quadrados (o equivalente a mais de espécies mediterrâneas, como o chacal,
aristocracia. Paralelamente, o 18 mil campos de futebol). a cabra selvagem e o porco-espinho.
ferro substituiu o bronze, que A Grécia tem 80% do relevo formado Entre as aves, destacam-se os pelicanos,
passou a ser usado na fabrica- por serras e vales, sendo uma das nações garças, cucos e cegonhas. Muitas
ção de ferramentas e armas. mais montanhosas da Europa. Lagos e espécies do norte da Europa migram
Os grupos familiares reuniam- pântanos são encontrados na porção para a Grécia durante o inverno.
-se em torno da chamada oeste. Os Montes Pindo situam-se no Os principais recursos naturais da
comunidade gentílica (ou ge- centro do país, com elevação média de região são o petróleo, minério de ferro,
nos). Nesse tipo de organiza- 2.650 metros. O centro e o oeste contêm bauxita, chumbo, zinco e níquel. A
ção social, a família mobiliza- picos proeminentes e escarpados, hidrografia grega é restrita, em razão da
va-se pela exploração exten- separados por muitos cânions. grande quantidade de solos calcários,
siva das atividades agrícolas. O Monte Olimpo é o ponto mais alto que determinam represamentos
Cada grupo contava com um do país, situado a cerca de 2.900 metros subterrâneos. Os rios são curtos, com
patriarca, responsável tratar de altitude. Trata-se do quarto mais volume irregular durante o ano. Os
de diversas questões, com o elevado do território europeu. O local cursos d’água não são navegáveis e
trabalho sendo exercido de fica a 100 quilômetros de Salônica apresentam possibilidades limitadas
modo coletivo. (também conhecida como Tessalônica), para a irrigação. Os principais cursos
a segunda maior cidade grega, perto do fluviais gregos são o Vardar, o Struma e
Em relação à escrita, o Mar Egeu, na região da Tessália. o Nestos, que cruzam a Macedônia e a
uso do sistema silábico dos O clima da Grécia é dividido em três Trácia para desembocar no Mar Egeu.
minóicos (escritas lineares) categorias. Um deles é chamado
caiu em desuso, sendo substi- “Mediterrânico”, que apresenta
tuído pelo sistema alfabético invernos amenos e úmidos, com verões
de escrita semítico, criado pe- secos e quentes. As temperaturas
los fenícios, mas que foi pelos raramente atingem extremos (tanto no
gregos e começou a ser em- calor quanto no frio), embora as quedas
pregado em outras línguas no de neve ocorram ocasionalmente em
Mediterrâneo ocidental. Com Atenas, Cíclades e Creta.
isso, estavam consolidadas as Já o clima denominado “Alpino”
bases para a difusão do grego é encontrado na Grécia do leste
e dos poemas épico de Ho- (Épiro, Grécia central, Tessália e oeste
mero. da Macedônia) e no Peloponeso
central (Acaia, Arcádia e Lacônia). O
“Temperado” está presente no leste da
Macedônia, na Macedônia central e na
Trácia, próximo à Bulgária e à Turquia.
Cerca de metade do território grego
é coberto por florestas. A vegetação é
tipicamente mediterrânea (pinheiros,
17
CAPÍTULO 2 • CONSOLIDAÇÃO DA CULTURA GREGA Shutterstock
Ruínas do sítio arqueológico de Esparta, na Grécia
DO CAMPO PARA
AS CIDADES-ESTADO
COMO A IDENTIDADE GREGA FOI MOLDADA A PARTIR DOS
POEMAS ÉPICOS DE HOMERO E DA ORGANIZAÇÃO NA PÓLIS
N o estudo histórico da Grécia Antiga, o Período Arcaico (entre 800 a.C. e 500 a.C.) foi
a sequência do Período Homérico, em que a população grega passou a se agrupar nas
chamadas comunidades gentílicas (os integrantes dessa organização social também eram
conhecidos como genos), caracterizadas pela autossuficiência e pela prática da agricultura.
Contudo, aos poucos, os genos deixaram de adotar o uso coletivo da terra, o principal bem
da época. Desse modo, começava a surgir um grupo de proprietários de terra. Em grande
parte das vezes, a classe aristocrática esteve estreitamente ligada ao líder patriarcal dessas
aglomerações.
18
CONHEÇA A HISTÓRIA • GRÉCIA
ShutterstockOs “eupátridas” (sinônimo de “bem-
Shutterstock-nascidos”) formaram um grupo de aris-
tocratas que passaram a trabalhar pela
manutenção das próprias posses. Com
isso, a comunidade gentílica começou a
se agrupar em “fratrias” e tribos controla-
das pela nova aristocracia. Paralelamente,
observa-se o aumento populacional, que
originou dificuldades para o acesso às ter-
ras produtivas.
Shutterstock
Ilustração de navios Estátua que Visão de ruínas da cidade
gregos antigos, representa o de Mileto, na atual Turquia
deus Apolo,
importantes para o CONQUISTA
comércio e conquista no museu DE COLÔNIAS
do Vaticano
de novos territórios As costas do Mar Negro foram conquis-
Apolo, na ilha de Delfos, que aprovava o tadas principalmente por Mileto. As co-
NAVEGAR local sugerido ou propunha outro. Desse lônias mais importantes da região foram
É PRECISO modo, Apolo era associado à colonização. Sinope (700 a.C.) e Cízico (675 a.C.). A
Muitas colônias na Ilíria, Trácia, Líbia e cidade de Bizâncio foi fundada em 667
Uma das saídas para o crescimento no Palestina receberam, em honra ao deus, a.C., após uma frota sair de Mégara. Na
número de pessoas foi apostar na co- o nome de Apolônia. Os colonizadores região ocidental do Mar Mediterrâneo,
lonização e no comércio marítimo. Os levavam da cidade mãe, a metrópole, o destacam-se as ocupações em Massália
excluídos no processo de controle das fogo sagrado e os elementos culturais e (atual Marselha) e Nice (de “Nike”, que
terras procuraram locais com condições políticos, como o alfabeto, o calendário e significa vitória), localizadas na França.
mais adequadas. A migração desses po- os cultos.
vos marcou a chamada “Segunda Diás- Uma das consequências do processo
pora Grega”, a partir de 750 a.C. Essa mi- Uma das primeiras ocupações do de colonização foi o desenvolvimento
gração expandiu os territórios do mundo período foi realizada em 775 a.C., ini- das relações comerciais. Até então, o co-
grego e criou uma rede de comércio en- ciativa de gregos das cidades de Cálcis mércio não era uma atividade econômi-
tre as aldeias da região. e Erétria que partiram para a ilha de ca própria, mas funcionava como apoio à
Ischia, no golfo de Nápoles. Também agricultura. A título de curiosidade, algu-
A colonização consistia em planos de- estão registradas, no século VIII a.C. mas cidades, os empórios, funcionavam
talhados, com a nomeação do comandan- as fundações de colônias na Sicília: quase exclusivamente para a prática do
te da expedição (o “oikistes”), que seria Naxos e Messina (por Cálcis) e Siracusa comércio, mas não possuíam nenhum
responsável pela conquista do território (por Corinto). estatuto político.
e que chefiaria a colônia (“apoika” – em
português, “residência distante”), como Ao lado do comércio, a indústria pas-
rei ou governador. Curiosamente, antes da sou a progredir com mais intensidade.
expedição, o líder consultava o Oráculo de Assim, a produção de cerâmica, sobre-
tudo os vasos de Corinto e de Atenas,
19
CAPÍTULO 2 • CONSOLIDAÇÃO DA CULTURA GREGA As oliveiras
foram
transformou-se em um dos principais in- importantes
centivadores das exportações. Segundo no comércio
historiadores, no século VII a.C., a moe- do grego com
da surgiu na região de Lídia (na porção outros povos
ocidental da Ásia Menor) e passou a ser
usada lentamente pelo território grego.
Shutterstock
Shutterstock
Shutterstock
a oliveira necessitavam de tempo até
Reprodução oferecerem resultados – dessa forma, Busto de Periandro,
de um antigo eles não teriam condições de esperar tirano que governou
vaso grego pelo lucro. Além disso, as culturas exi- a cidade estado de
giam menos mão de obra, fazendo com Corinto e morreu por
MUDANÇAS NA que alguns trabalhadores ficassem de- volta de 585 a.C.
ORGANIZAÇÃO SOCIAL socupados. Em razão disso, tem origem
no Período Arcaico a classe dos “pluto-
O poder nas mãos da aristocracia – bem como a ampliação cratas”, nascidos frequentemente em
das atividades econômicas – ofereceu as condições para a classes inferiores, que se tornaram ricos
consolidação de um espaço fundamental de representação graças ao progresso do comércio e da
na Grécia Antiga: a cidade-estado (ou “pólis”), que repre- indústria, atividades desprezadas pela
sentava um núcleo urbano marcado por decisões políticas e aristocracia.
a circulação de bens.
A classe possuía ambições políticas,
As transformações na economia e na organização so- que, no período, estavam relacionadas à
cial do povo grego produziram mudanças significativas no posse da terra. Assim, os plutocratas e
modo de vida da população. Com a chegada crescente de os nobres, que não pretendiam ser re-
produtos das colônias e por causa da importância que a legados, também entraram na corrida
exportação do vinho e do azeite adquiriu, desenvolveu-se por terras. A competição afetou sensi-
entre as classes mais elevadas a ideia de substituir o cultivo velmente os camponeses que possuíam
do trigo pelo da vinha e da oliveira. poucos recursos. As condições de vida
deles ficaram piores.
Os camponeses com poucos recursos econômicos fi-
cavam impossibilitados de realizar a troca, pois a vinha e VOCÊ SABIA?
20 Os primeiros legisladores trabalharam
nas cidades da Magna Grécia (sul da
península italiana, colonizada pelos gregos)
em meados do século VII a.C. O legislador
mais antigo, de acordo com os registros
históricos, era conhecido como Zaleuco de
Locros, que teria escrito o primeiro código
de leis, aceito por aldeias da região.
Em Atenas, os mais conhecidos foram
Drácon e Sólon. Drácon foi o responsável
pelo primeiro código de leis escritas.
Sólon aboliu a escravidão por dívida.
Shutterstock
CONHEÇA A HISTÓRIA • GRÉCIA
VOCÊ SABIA? RUMO A Vista das ruínas do santuário Oleg Znamenskiy/ Shutterstock.com
OLÍMPIA, LOCAL de Olímpia, na Grécia
No início do uso na Grécia Antiga, DE FESTIVAIS
a palavra “tirano” não possuía ATLÉTICOS sobre a ginástica, de autoria
a conotação negativa aplicada HISTÓRICOS de Filóstrato de Lemnos (com
nos dias atuais. Naquela época, o atuação nos séculos II e III d.C.).
termo significava “usurpador com OS JOGOS OLÍMPICOS As competições eram
poder supremo”. Entre os gregos, DA ANTIGUIDADE disputadas no santuário de
a palavra só adquiriu sentido REPRESENTAVAM UM FESTIVAL Zeus, em Olímpia, feito de
negativo a partir do governo RELIGIOSO E ATLÉTICO DA mármore cristalizado e situado
dos “Trinta Tiranos”, em Atenas GRÉCIA, REALIZADO NO na região ocidental da Península
(404 a.C.), conhecidos por adotar SANTUÁRIO DE OLÍMPIA, do Peloponeso (sul da Grécia), a
práticas cruéis contra a população. EM HOMENAGEM A ZEUS, cerca de 15 quilômetros do Mar
DE QUATRO EM QUATRO Jônio. O tempo faz referência ao
Em razão da instabilidade social, os con- ANOS. A DATA DE 776 A.C. Monte Olimpo (que fica no norte
flitos ficaram mais intensos na segunda me- É TRADICIONALMENTE da Grécia, na Tessália, distante
tade do século VII a.C. Por isso, as cidades- LIGADA À PRIMEIRA EDIÇÃO de Olímpia), ponto mais elevado
-estado buscavam solucionar pacificamente DAS COMPETIÇÕES. da Grécia continental e que, na
os embates. As partes em disputa concorda- mitologia grega, era a residência
ram em nomear legisladores, homens com Tratava-se dos jogos pan- das divindades.
“reputação íntegra” para estabelecer códigos -helênicos mais importantes, que
de leis e condutas em cada região. Até en- foram proibidos pelo imperador
tão, a legislação não era escrita, o que possi- romano (e cristão) Teodósio I em
bilitava interpretações arbitrárias em prol da 393 d.C., por serem considerados
aristocracia. Vale ressaltar que a demanda uma manifestação de rituais
por um código escrito partiu das classes po- do paganismo. Uma referência
pulares. clássica sobre o assunto é do
viajante grego Pausânias (século
LEGISLADORES II d.C.), autor do livro “Descrição
E TIRANOS da Grécia”, um guia baseado nas
viagens do escritor pelo território
Todavia, a produção dos legisladores não re- grego. Outra fonte bastante
solveu os conflitos sociais. Assim, entre 670 consultada é um tratado
a.C. e 510 a.C., quase todas as regiões gregas
viveram sob o domínio de tiranos. Eles con- MITOLOGIA E ESPORTE 21
quistaram o poder por meio da violência e
receberam o apoio das classes mais baixas, O bosque sagrado Áltis estava situado diante do Monte Cronos,
que passaram a ser protegidas. Os tiranos entre as confluências dos rios Alfeu e Cladeu. Segundo a mi-
assumiram o poder, primeiramente, nas cida- tologia, foi neste lugar que Zeus derrotou o próprio pai, Cronos
des comerciais. Os primeiros tiranos conhe- (deus do tempo e senhor do céu).
cidos foram Ortágoras, em Sícion, e Cípselo,
em Corinto. A população da cidade-estado de Os jogos possuíam grande importância para os gregos,
Atenas, no século VI a.C., foi governada pelos já que apresentava caráter religioso, político e esportivo. Pri-
tiranos Pisístrato, Siracusa Dionísio, o “Velho”, meiramente, era uma forma de homenagem aos deuses. Era,
e Dionísio, o “Novo”. também, um momento importante na busca pela harmonia
entre as cidades-estado. A iniciativa servia como um evento de
Em geral, os tiranos foram responsáveis valorização da saúde e do corpo.
pela partilha de terras, abolição das dívidas
e isenção de impostos. Eles também cunha- Não poderiam participar dos jogos os estrangeiros, os escra-
ram moedas e lançaram obras públicas, que vos e as mulheres. Os atletas eram, de modo geral, das classes
permitiriam ocupar a mão de obra exceden- mais elevadas e praticavam o desporto desde a infância. Eles
te. Os descendentes dos governantes não não chegavam apenas da Grécia continental, mas de vários pon-
mantiveram o apoio às classes populares e tos do mundo grego, que, na Antiguidade, incluía as colônias
quase todos desapareceram antes de 500 espalhadas pelas costas dos mares Mediterrâneo e Negro. Os
a.C., derrotados por nobres ou pela cidade- vencedores eram homenageados nos locais de origem: pode-
-estado de Esparta. Grande parte das tiranias riam receber alimentação gratuita, ter estátuas construídas e ser
foi sucedida por oligarquias ou democracias. cantados pelos poetas.
CAPÍTULO 2 • CONSOLIDAÇÃO DA CULTURA GREGAShutterstock
Representação de
Cronos, deus do
tempo, que foi
derrotado pelo filho
Zeus, homenageado
em Olímpia
VOCÊ SABIA?
O núcleo de Olímpia era o Áltis,
um bosque sagrado. No centro do
local, existia um templo em estilo
dórico dedicado a Zeus, que foi
construído entre 468 a.C. e 456
a.C. No interior, havia uma estátua
gigante do deus, da autoria de Fídias,
e que era considerada uma das Sete
Maravilhas do Mundo Antigo.
ORGANIZADORES Estátua clássica EDIÇÕES
DOS JOGOS de mármore DOS JOGOS
OLÍMPICOS
representando No início, as provas duravam um dia,
um arremessador pois só era realizada a corrida de está-
de disco durante dio. Apenas em 708 a.C., na 17ª edição
do evento, a competição passou a ter
prova olímpica dois dias, com a introdução de duas
modalidades. Nos séculos VI a.C. e
A organização do evento ficava a cargo da V a.C., os jogos já duravam cinco dias.
pólis de Élide (na Grécia ocidental). Em 668 No primeiro dia, os atletas e árbi-
tros realizavam o juramento e a tocha
a.C., Fédon de Argos – rei grego entre 675 olímpica era acesa. O fogo era sagrado
e estava associado à religião grega,
a.C. e 655 a.C. – conquistou Olímpia e en- uma vez que quase todos os tempos
possuíam uma tocha acesa. Realizados
tregou o controle do santuário à cidade de a cerimônia de abertura e o juramento,
os jogos começavam ainda pela ma-
Pisa (situada na região de Élide), que organi- nhã.
zou os jogos até 558 a.C., ano em que Élide Na noite do segundo dia, ocorriam
as primeiras celebrações aos vitorio-
retomou o controle sobre Olímpia, graças à sos, com um banquete e uma ceri-
mônia. No dia seguinte, pela manhã,
intervenção de Esparta. era realizado o tradicional sacrifício
de 100 touros diante do altar de Zeus,
No ano em que se celebravam os jogos, contando com a presença de todos.
Os animais sacrificados teriam partes
Élide enviava por toda a Grécia representan- Shutterstock destacadas como oferendas. O restan-
te seria preparado para um banquete,
tes que anunciavam a data exata em que à noite.
as competições seriam realizadas e convida- No quarto dia, as últimas provas
eram finalizadas. No quinto dia, todos
vam os atletas. Os mensageiros divulgavam os vencedores recebiam as coroas de
louro e as fitas vermelhas no templo
a trégua sagrada. Pela regra, a guerra era de Zeus. Em seguida, começavam os
festejos para celebrar os campeões e o
proibida durante o período, pois tinha o ob-
jetivo de proteger os espectadores e com-
petidores durante a viagem, a estadia e o
regresso.
As provas eram supervisionadas por ju- dência, para treinarem sob supervisão
ízes, conhecidos como helanócides (“juízes dos juízes.
dos Helenos”). Os árbitros vinham dos no- As competições olímpicas de des-
bres de Élide, sendo escolhidos dez meses taque durante o período eram as corri-
antes do início do festival. Os juízes deve- das pedestres, corridas equestres, luta,
riam garantir o bom estado dos edifícios pugilismo (também denominado pu-
do santuário, além de assegurar o policia- gliato), pancrácio (combinação de luta
mento. Eles podiam interferir nas disputas, e pugilismo) e pentatlo. Ao longo do
sorteando os competidores, arbitrando as tempo, novas modalidades passaram a
provas e proclamando os vencedores, que integrar o programa, como, por exem-
eram coroados. Os atletas e os treinadores plo, arremesso de disco, natação e salto
chegavam a Élide com um mês de antece- a distância, entre outros.
22
CONHEÇA A HISTÓRIA • GRÉCIA
VOCÊ SABIA? gião de Cíclades). Em 80 a.C., como for- VOCÊ SABIA?
ma de celebrar o sucesso das batalhas,
Os árbitros também ordenavam o comandante transferiu os jogos para De acordo com historiadores,
os castigos aos atletas e Roma. Depois da morte do general, em em 776 a.C., após deixar para
treinadores que não tinham 78 a.C., os jogos regressaram a Olímpia. trás seis adversários, o grego
cumprido as regras. Os Corobeu venceu a única prova
considerados culpados poderiam POLÊMICAS da considerada primeira
ser punidos com açoites em local EM RELAÇÃO edição dos Jogos Olímpicos.
público, algo que, entre os gregos, A HOMERO Ao contrário do que se pode
geralmente ficava reservado aos imaginar, a competição
escravos. No caso de suborno, O período de existência de Homero tam- não foi disputada em longa
previam-se multas elevadas, bém foi tema de controvérsia na Anti- distância, uma vê que a prova
com o valor revertido para pagar guidade. O historiador e geógrafo grego foi realizada no estádio de
estátuas em bronze de Zeus, Heródoto disse que Homero viveu 400 Olímpia. Assim, o cidadão
expostas no santuário. anos antes de seu próprio tempo, o que de Élis percorreu 192 metros
o colocaria em torno do ano 850 a.C. para se tornar o primeiro
encerramento dos jogos. No dia seguin- Contudo, outras fontes antigas forne- vencedor olímpico.
te, as delegações e os visitantes inicia- cem datas mais próximas da época da Local onde
vam a viagem de volta. Guerra de Troia, cuja referência remete estava situado
ao período entre 1.194 a.C. e 1.184 a.C., o estádio
O período grandioso dos Jogos em relatos de Eratóstenes (matemático olímpico, na
Olímpicos da Grécia Antiga correspon- e poeta grego do século II a.C.), que tra- cidade grega
deu ao século V a.C. As tensões refe- balhou para estabelecer uma cronologia de Olímpia
rentes à Guerra do Peloponeso impac- científica dos eventos.
taram negativamente nos jogos, pois a
cidade-estado de Élide (que, até então, Shutterstock
mantinha uma atitude politicamente Shutterstock
neutra), aliou-se a Atenas e baniu os
espartanos. Shutterstock
Coroa de louro, que era recebida
ATLETAS pelo vencedor de provas olímpicas,
PROTEGIDOS em Olímpia, berço dos Jogos
Em 424 a. C., por exemplo, sob a ameaça Ruínas do templo dedicado a Zeus, em Olímpia, na Grécia 23
de invasão de Esparta, os jogos tiveram
que ser realizados sob proteção de tro-
pas. Em 365 a.C., a Arcádia, ajudada por
Pisa (inimiga de Élide), conquistou o san-
tuário; as duas cidades organizaram os
jogos de 364 a.C. Élide tentou recuperar
o santuário recorrendo à força; o conflito
gerado levou ao assalto à pilhagem dos
templos do Áltis. Élide retomou o controle
do santuário e os jogos de 364 a.C. foram
considerados inválidos.
No ano de 336 a.C., várias cidades
gregas foram dominadas por Filipe II, da
Macedônia, e pelo filho dele, Alexandre
Magno. Com isso, os controladores do
território construíram, no Áltis, o mo-
numento chamado “Filipéion”, edifício
com estátuas de Alexandre e da família,
feitas de ouro e marfim, materiais que
tinham sido reservados às esculturas dos
deuses.
Os romanos conquistaram a Grécia
em 146 a.C. Para financiar guerras, o
general romano Sula saqueou o bosque
Áltis (além do santuário de Delfos, na re-
CAPÍTULO 2 • CONSOLIDAÇÃO DA CULTURA GREGA
HOMERO, Shutterstock Ruínas na
FORMADOR DA Shutterstock costa do
IDENTIDADE Mar Egeu,
GREGA na região
de Troia,
A REDAÇÃO DOS FAMOSOS na Turquia
POEMAS ÉPICOS “ILÍADA” E
“ODISSEIA” É ATRIBUÍDA A Além das duas grandes produções Vista panorâmica da ilha grega de Ios,
HOMERO, UM DOS PRINCIPAIS de Homero, são atribuídas a ele as publi- possível local da morte de Homero
ESCRITORES DA GRÉCIA cações “Margites” (poema cômico a res-
ANTIGA E SOBRE O QUAL peito de um herói trapalhão), “Batraco- AS BATALHAS
AINDA EXISTEM MUITAS miomaquia”, paródia de Ilíada que relata DE TROIA
DÚVIDAS, PRINCIPALMENTE uma guerra incrível entre rãs e ratos, e os
QUANTO À HISTÓRIA DE VIDA. chamados Hinos Homéricos. A batalha de Troia, situada em uma pro-
víncia da Turquia, ocorreu por volta de
Há séculos, a cidade grega de Antes do início do pensamento filo- 1.200 a.C., quando os aqueus (um dos
Quios (situada em uma ilha sófico, que chegaria ao auge na Grécia grupos formadores do povo grego) ata-
no Mar Egeu) disputa com o Antiga com Sócrates e Platão, as obras caram a cidade, tentando se vingar do
município turco de Esmirna o de destaque de Homero tendem a apro- rapto de Helena, esposa do rei de Espar-
reconhecimento de ter sido o ximar os deuses dos homens, em um ta Menelau, irmão de Agamenon.
local de nascimento de Homero, movimento de racionalização do divino,
no século VIII a. C. Detalhes segundo especialistas. Os deuses homé- Segundo a lenda, a deusa do mar,
geográficos citados em obras ricos, que viviam no Monte Olimpo, pos- a ninfa Tétis, era desejada como esposa
consideradas do poeta indicam suíam uma série de características que pelos irmãos Zeus e Poseidon. No entan-
que seria mais provável ele ter se assemelhavam aos seres humanos. to, o titã Prometeu (que tinha o dom da
nascido na região chamada, na profecia) profetizou que o filho da deu-
Antigiudade, de Jônia. O trecho REVERÊNCIA sa seria maior do que o pai. Assim, os
atualmente é parte do litoral AOS POEMAS deuses resolveram oferecer Tétis como
oeste da Turquia, onde está HOMÉRICOS esposa a Peleu, um mortal já idoso, pla-
Esmirna. A origem do escritor é nejando enfraquecer o filho, que seria
tão polêmica que oito cidades Da mesma forma que no nascimento, humano, com limitações: nasceu dessa
disputam a honra de terem sido sabe-se pouco a respeito da morte do união o guerreiro Aquiles, cuja mãe, ten-
a terra natal dele. poeta. De acordo com documentos his- tando fortalecer o filho, mergulhou-o nas
As primeiras referências tóricos do século V a.C., Homero teria águas de um rio.
indiretas ao poeta e as citações morrido na ilha grega de Ios, no Mar
iniciais dos conteúdos épicos Egeu, por volta de 898 a.C. As águas tornaram Aquiles um ser
datam de meados do século poderoso, exceto no calcanhar, por onde
VII a.C. Por isso, especula-se que Independentemente das diversas a mãe o segurou para mergulhá-lo no
ele deve ter vivido por volta dos dúvidas que envolvem a vida e a obra rio. Desse modo, Aquiles tornou-se o
séculos VIII ou IX a.C. A hipótese de Homero, a poesia construída por ele mais poderoso dos guerreiros, porém
é sustentada pela análise do foi muito reverenciada durante toda a ainda era mortal. Mais tarde, Tétis profe-
estilo das obras homéricas. Antiguidade, com versos considerados tizou que Aquiles poderia escolher entre
fonte geral de sabedoria. Quase toda a
Shutterstock literatura ocidental foi influenciada em
vários níveis e graus pelos poemas ho-
24 Escultura em homenagem ao méricos, por meio do trabalho de incon-
escritor Homero, fundamental para táveis escritores.
a consolidação da cultura grega
CONHEÇA A HISTÓRIA • GRÉCIA
Estátua em homenagem a Shutterstock A OBRA QUE LANÇOU AS BASES
Aquiles, um dos protagonistas DA LITERATURA DO OCIDENTE
das batalhas de Troia Havoc/ Shutterstock.com
A “ILÍADA” É CONSIDERADA A “OBRA FUNDADORA” DA
dois destinos: lutar em Troia e alcançar a glória LITERATURA OCIDENTAL E UMA DAS MAIS IMPORTANTESShutterstock
eterna, mas morrer jovem, ou permanecer na DA LITERATURA MUNDIAL. REPRESENTA UM POEMA ÉPICO
terra natal e ter uma longa vida, sendo esque- (QUE TRATA DE HERÓIS E ATOS HEROICOS) COMPOSTO Shutterstock
cido rapidamente. POR 15.683 VERSOS E POR UMA MISTURA DE DIALETOS.
De acordo com especialistas, o conteúdo tinha origem na
O POMO DA tradição oral do período micênico e teria sido cantado pelos
DISCÓRDIA “aedos” (artistas que interpretavam epopeias). Os versos
foram compilados em uma versão escrita apenas no
Para o casamento de Peleu e Tétis, todos os século VI a.C., em Atenas. Em seguida, o poema foi dividido
deuses foram convidados, menos Éris, deusa em 24 cantos, divisão que permanece nos dias atuais.
da discórdia, que se sentiu ofendida, compare- A narrativa de “Ilíada” relata os acontecimentos no período
ceu invisível à celebração e deixou à mesa um de 50 dias durante o décimo e último ano da Guerra de Troia
pomo (tipo de fruto) de ouro com a inscrição (em grego, “Ilion”) e trata da ira do herói Aquiles – causada
“para a mais bela”. As deusas Hera, Atena e por uma disputa entre Aquiles e Agamenon, comandante dos
Afrodite disputaram o pomo e o título de mais exércitos gregos em Troia, consumada com a morte do herói
bela. Zeus, então, ordenou que o príncipe troia- troiano Heitor (ou Héctor), terminando com o funeral dele.
no Páris (à época, sendo criado como um pas-
tor) resolvesse a disputa. Afresco na ilha grega de Corfu que representa o triunfo
de Aquiles na Guerra de Troia, retratada na obra “Ilíada”
Para ganhar o título de “mais bela”, Atena Ilustração antiga
ofereceu a Páris a chefia de uma guerra histó- de Helena e Páris,
rica. Hera (deusa do casamento) apresentou ao dois dos principais
monarca a glória de ser o rei absoluto. Já Afro- personagens de
dite (deusa do amor) permitiria a ele o amor da “Ilíada”, poema
mulher mais bela do mundo. Páris deu o pomo épico de Homero
a Afrodite, ganhando proteção, mas atraindo o
ódio das outras duas deusas contra Troia. Afro- Estátua de Afrodite, deusa
dite sabia exatamente quem era a mulher mais do amor e da beleza, na
bela do mundo: Helena. mitologia grega
Auxiliado por Afrodite, o casal fugiu para
Troia. Quando soube da traição, Menelau pediu
auxílio ao irmão, o rei Agamenon, para conven-
cer todos os grandes generais e reis da Grécia
em uma batalha contra os troianos – incluindo
o soberano da província de Ítaca, Odisseu (em
latim, Ulisses), arquiteto do plano com o Cavalo
de Troia.
CAPÍTULO 2 • CONSOLIDAÇÃO DA CULTURA GREGA
Dimitris_k/ Shutterstock.com“ODISSEIA”, A A CONQUISTA Com uma estratégia ousada, Pené-
ShutterstockSEQUÊNCIA DADA CIDADElope enganou os candidatos. Ela pro-
GUERRA DE TROIA pôs a eles que escolheria um preten-
Agamenon viu no infortúnio do irmão dente assim que terminasse de tecer
UM DOS PRINCIPAIS POEMAS a oportunidade perfeita para conquistar uma mortalha (veste que envolve o
ÉPICOS DA GRÉCIA ANTIGA, Troia, até então conhecida como impe- morto, que será sepultado). Ela borda
A NARRATIVA ATRIBUÍDA netrável. Começava, a partir desse mo- durante o dia, mas desfaz a peça à
A HOMERO É, EM PARTE, A mento, a conhecida guerra. noite. Com o passar do tempo, os can-
SEQUÊNCIA DE “ILÍADA”. TRATA-SE didatos arruínam os bens de Odisseu.
DE UM POEMA ELABORADO AO Os navios gregos desembarcaram
LONGO DE SÉCULOS DE TRADIÇÃO na praia próxima à cidade e iniciaram A VOLTA
ORAL, COM A FORMA FIXADA um cerco que duraria dez anos, cus- PARA CASA
POR ESCRITO PROVAVELMENTE tando a vida de muitos guerreiros, de
NO FIM DO SÉCULO VIII A.C. ambos os lados. Assim, seguindo uma Atena, a deusa da sabedoria, ocul-
Os eventos na sequência principal de armadilha proposta por Odisseu, os ta no corpo de um forasteiro, incentiva
“Odisseia” ocorrem na Península do gregos conseguiram invadir a cidade o filho do casal, Telêmaco, a procurar
Peloponeso e nas que são atualmente governada por Príamo e terminar a o pai. Depois de vencer várias dificul-
chamadas de ilhas jônicas. Existem guerra. dades, ele inicia a busca, enquanto
controvérsias quanto à real Odisseu vive diversas aventuras, pas-
identificação de Ítaca, terra natal AVENTURAS sando também pelo país dos mortos.
de Odisseu, que pode ou não ser DE ODISSEU O protagonista retornou para casa, com
a mesma ilha que é atualmente a ajuda de alguns deuses, mas não se
chamada pelos gregos de “Ithake”. O poema – com 24 cantos e 12 mil
versos – relata o regresso de Odisseu Representação de um
Representação de Ulisses, amarrado ao mastro (Ulisses, como era chamado no mito navio grego, meio de transporte
de seu navio para poder ouvir a canção das Sirenas, romano), herói da Guerra de Troia e
mitológicos seres parte mulher parte pássaro protagonista que dá nome à obra. De bastante usado no período
acordo com o enredo, ele levou dez retratado pela obra “Odisseia”
anos para chegar à terra natal, Ítaca,
depois das batalhas, que também se
prolongaram durante uma década.
Diversos participantes da guerra
haviam retornado para a Grécia, mas
Odisseu foi retido por uma tormenta
no mar, que desviou o rumo do coman-
dante. Enquanto isso, a esposa dele,
Penélope, era cortejada por vários pre-
tendentes. Segundo a tradição, como se
acreditava que Odisseu estava morto, a
viúva deveria escolher outro marido. A
disputa teve início.
ENREDO DOS CANTOS
CANTO I CANTO II CANTO III CANTO IV CANTO V CANTO VI
É o décimo ano Odisseu impede Páris desafia O pacto é quebrado Diomedes, ajudado Heitor retorna a
da guerra de Menelau para um Troia para pedir
Troia. Aquiles e uma revolta duelo que decidiria pelos troianos e a por Palas Atena,
Agamenon têm um e os gregos o destino da guerra guerra recomeça. realiza grandes que se tente
organizam um – Menelau vence, prodígios, ferindo apaziguar Palas
desentendimento, ataque a Troia. mas Páris sobrevive, Atena. Encontra-se
em razão da disputa salvo por Afrodite. Afrodite
26 sobre uma jovem e Ares. com esposa e
cativa, Briseides. filho e retorna à
batalha junto de
seu irmão Páris.
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Detalhe de um edifício da pelos “eupátridas”, grandes proprie- neficiaram os comerciantes ricos. O res-
da acrópole de Atenas tários de terras. Todavia, o poder desse to da população continuou excluída das
grupo era desafiado pelas camadas decisões políticas. A situação em Atenas
revelou prontamente. Para derrotar os mais baixas e pelos comerciantes, que era tensa. Além disso, a cidade foi domi-
adversários, ele se disfarçou de mendigo, exigiam maior igualdade de direitos. Os nada pelo tirano Pisístrato por mais de
seguindo os conselhos de Atena. Odisseu pequenos proprietários de terras viviam três décadas.
eliminava os inimigos porque portava um constantemente ameaçados pela escra-
arco poderoso. Com o auxílio do filho, foi vidão por dívidas. Já os comerciantes, Após o período de governos tirâni-
finalmente reconhecido pela esposa e artesãos e assalariados urbanos, conhe- cos, o responsável por uma nova reforma
pelo pai. Ítaca estava em paz novamen- cidos como “demiurgos”, estavam ex- foi Clístenes, um aristocrata preocupado
te, com a Odisseia concluída. cluídos das decisões políticas e queriam com os problemas das camadas popula-
participar delas. res. Ele ampliou o direito de decisão po-
PÓLIS ATENIENSE lítica para todos os cidadãos atenienses
O resultado dessas pressões foi uma – ou seja, todos os homens livres e nas-
A cidade de Atenas localiza-se no cen- reforma legislativa feita por Sólon, um cidos em Atenas, maiores de 18 anos. A
tro da planície Ática, às margens do Mar juiz ateniense. A partir dessas alterações, cidade foi dividida em “demos”, uma es-
Egeu. Na época clássica, apresentava a escravidão por dívidas deixou de existir pécie de distrito que elegia os represen-
uma vida urbana e aberta às novidades. e foi ampliado o direito de voto, de acor- tantes para a assembleia, que, por sua
A base da economia foi a atividade co- do com os bens que cada um possuía. vez, escolhia os integrantes do conselho,
mercial, a partir das trocas de produtos responsável pelo governo da pólis. Con-
com povos de diversos territórios. Porém, as reformas de Sólon só be- tudo, os estrangeiros, as mulheres e os
escravos continuavam excluídos.
A sociedade ateniense era domina-
Quanto à educação, os atenienses
acreditavam que a cidade-estado seria
mais forte se cada menino desenvolves-
se integralmente as melhores aptidões.
O ensino não era gratuito nem obrigató-
rio. Os garotos já iam para a escola aos 6
anos e ficavam sob a supervisão de um
pedagogo, com quem aprendiam aritmé-
tica, literatura, música, escrita e educação
física. As aulas eram interrompidas nos
dias de festas religiosas e quando os alu-
nos completavam 18 anos.
A partir de então, os rapazes eram re-
crutados pelo governo para o treinamen-
to militar, que durava aproximadamente
de dois anos. As mulheres atenienses
cumpriam funções domésticas. Os pais
tratavam de casar rapidamente as ado-
lescentes, que, após as núpcias, ficavam
sob o domínio dos maridos.
CANTO VII CANTO VIII CANTO IX CANTO X CANTO XI CANTO XII
Heitor duela Os deuses Agamenon tenta Diomedes e Páris fere Retirada grega até
com Ajax. A luta retiram-se Odisseu saem em Diomedes. Pátroclo
fica empatada, da batalha. reconciliar-se missão e atacam fica sabendo da as embarcações.
interrompida com Aquiles, que o acampamento desastrosa situação
27
pela noite. recusa a troiano. grega.
proposta.
CAPÍTULO 2 • CONSOLIDAÇÃO DA CULTURA GREGA
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FORMAÇÃO DAS Representação de
CIDADES-ESTADO um guerreiro
GREGAS
espartano em batalha
DURANTE O PERÍODO
ARCAICO, OS GENOS A CIDADE- eles se rebelassem, bem como
(TAMBÉM CONHECIDOS COMO -ESTADO DE ficavam preocupados com revol-
COMUNIDADES GENTÍLICAS) ESPARTA tas de escravos. Os governantes
COMEÇARAM A SE REUNIR EM proibiam as viagens e grande
UNIDADES POLÍTICAS CHAMADAS A pólis espartana foi fundada pelos dó- parte dos contatos comerciais.
“POLIS” OU “CIDADES-ESTADO”, rios por volta do século IX a.C. A cidade Dessa maneira, Esparta fechava-
AO AVANÇAREM DE UMA estava situada em uma região chamada -se e impunha aos moradores
SITUAÇÃO PREDOMINANTEMENTE Lacônia, na Península do Peloponeso, um modo de vida autoritário e
AGRÍCOLA. que apresentava solo montanhoso e de subordinação aos interesses
seco, o que dificultava o abastecimento. do Estado.
Nesse tipo de organização, não Tais condições levaram os espartanos
existia um governo nacional a conquistar terras férteis por meio de A agricultura, o artesanato e
centralizado, pois cada cidade- guerras. O poder era exercido por um o comércio eram praticados pelos
estado tinha as próprias leis, pequeno grupo ligado às atividades mi- chamados “periecos”, homens li-
economia e organização social. A litares. Uma minoria participava das de- vres, mas que não tinham o direi-
pólis grega era geralmente formada cisões políticas e administrativas, conhe- to de participar dos aspectos polí-
por uma “acrópole”, uma “ágora”, cidos como “esparciatas”, que se dedica- ticos. Os escravos eram chamados
uma “khora” e uma “ástey”. vam única e exclusivamente à política e de “hilotas”, pertenciam ao Estado
A acrópole correspondia à parte às batalhas. e trabalhavam para os esparciatas.
mais elevada, onde existiam Os jovens eram educados pelo
templos dedicados aos deuses. A vida em Esparta girava em torno Estado. Eles, desde os sete anos,
Ficava acima da ágora, o trecho da guerra. Os habitantes do local te- deixavam as próprias casas e pas-
mais público da comunidade, miam que os povos conquistados por savam a se dedicar ao treinamen-
composto pelo mercado e as to militar.
assembleias do povo. O local era a
praça principal na constituição da
cidade. Muitas vezes, era um espaço
livre de edificações, caracterizada
pela presença de feiras livres e
construções públicas. A “khora”
representava a parte agrícola, onde
moravam os camponeses e onde
eram cultivados alimentos que
supriam a “ástey”, a parcela urbana.
Convém ressaltar, ainda, que as
cidades gregas possuíam uma
muralha, que tinha o objetivo de
oferecer proteção aos moradores
contra ataques de outras regiões.
Os dois exemplos de agrupamento
humano mais importantes da Grécia
Antiga foram Esparta e Atenas, com
destaque também para Corinto.
ENREDO DOS CANTOS CANTO XIV CANTO XV CANTO XVI CANTO XVII CANTO XVIII
Hera adormece Zeus acorda e Pátroclo pede a Há uma disputa Aquiles fica
CANTO XIII Zeus, permitindo armadura a Aquiles sabendo da morte
Poseidon tem a reação grega. impede que e a permissão para pelo corpo e de Pátroclo, e sua
Poseidon continue armadura de mãe providencia
compaixão entrar na luta. Pátroclo. Heitor para ele uma
dos gregos e interferindo. Os Aquiles concede – nova armadura.
troianos contudo, Pátroclo é fica com a
os motiva. morto por Heitor. armadura e Ajax
retomam a fica com o corpo
28 vantagem
no combate. de Pátroclo.
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Templo dedicado a Apolo,
nas ruínas da antiga
cidade grega de Corinto, na
Península do Peloponeso
A CIDADE O GRANDE CAVALO DE TROIA
DE CORINTO
O CAVALO DE TROIA FOI UM GRANDE ARTEFATO DE MADEIRA USADO
Na Grécia Antiga, a pólis de Corinto era PELOS GREGOS DURANTE AS BATALHAS PARA A CONQUISTA DA CIDADE
um rico centro comercial e abrigava uma FORTIFICADA, EM QUE AS RUÍNAS ESTÃO EM TERRAS TURCAS. TOMADO
população cosmopolita, graças ao seu PELOS TROIANOS COMO UM SÍMBOLO DE VITÓRIA, FOI CARREGADO
porto, localizado a menos de 50 quilô- PARA DENTRO DAS MURALHAS SEM OS GUERREIROS DE TROIA SABEREM
metros de Atenas. Os moradores do local QUE OS INIMIGOS ESTAVAM NO INTERIOR DA ESTRUTURA.
realizavam um comércio lucrativo com a
Ásia, além de estabelecerem um ponto À noite, os guerreiros saíram do cavalo, dominaram os vigias e possibilitaram
de comunicação com cidades da Penín- a entrada do exército grego, o que levou a cidade à ruína. Nos poemas de
sula Itálica. Homero, o fato é registrado brevemente apenas em “Odisseia”. Nos séculos
seguintes, outros escritores ampliaram e detalharam o episódio.
O local da antiga cidade já era habi-
tado no Período Neolítico (5.000 a.C. a Em geral, considera-se o cavalo como uma criação lendária, mas é possível
3.000 a.C.) e floresceu como um centro que tenha realmente existido. Ele se revelou um fértil motivo literário e
importante no século VIII a.C., continuan- artístico, sendo, desde
do com tal característica até a destruição a Antiguidade, citado e
pelos romanos, em 146 a.C. A pólis era Dinosmichail/ Shuterstock.com
conhecida como potência naval, o que
permitiu à antiga Corinto estabelecer co- reproduzido várias vezes
lônias em Siracusa, (na ilha da Sicília) e em poemas, romances,
em Corcyra (atual Corfu, próximo à Albâ- pinturas, esculturas,
nia). As colônias serviam como entrepos- monumentos, filmes,
tos comerciais para as peças ornamentais caricaturas e brinquedos.
de bronze, produtos têxteis e cerâmica
produzidos na metrópole. Turistas passeiam na
praça central de Canakkale,
A partir de 582 a.C., Corinto passou na Turquia, para observar
a abrigar os Jogos Ístmicos, celebrados o Cavalo de Troia, doado
em honra a Poseidon, o deus do mar. O à cidade após a filmagem
templo dórico de Apolo, um dos princi- de um longa-metragem
pais marcos da cidade, foi construído em
550 a.C., no auge da riqueza da cidade.
A antiga pólis foi parcialmente destruída
pelos romanos em 146 a.C. Porém, em
44 a.C., foi reconstruída como uma cida-
de do Império Romano. A nova Corinto
prosperou e estima-se que tinha cerca de
800 mil habitantes na época do apóstolo
Paulo. Foi a capital da Grécia romana, ha-
bitada principalmente por homens livres
e judeus.
CANTO XIX CANTO XX CANTO XXI CANTO XXII CANTO XXIII CANTO XXIV
Aquiles, de Batalha Aquiles chega Aquiles duela Pátroclo é velado Príamo pede
armadura nova aos portões de com Heitor e adequadamente. o cadáver do
e reconciliado furiosa, da qual filho a Aquiles
com Agamenon, participam Troia. o mata. Em que, comovido,
participa da seguida, desonra cede. Heitor é
livremente os devidamente
guerra. deuses. o cadáver dele,
arrastando-o ao 29velado em Troia.
acampamento
grego.
CAPÍTULO 3 • AS GRANDES BATALHAS
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CONHEÇA A HISTÓRIA • GRÉCIA
OS GREGOS
E AS GUERRAS
COMO AS CIDADES-
-ESTADO DA GRÉCIA
ANTIGA ENFRENTARAM,
NAS QUESTÕES POLÍTICA
E MILITAR, AS AMEAÇAS
EXTERNAS E INTERNAS
O Período Clássico da Grécia
Antiga (entre 500 a.C. e 338
a.C.) compreende uma época relati-
vamente curta, porém marcada por
acontecimentos de grande impor-
tância e que ecoaram nos séculos
seguintes na região mediterrânica.
Especialistas avaliam, inclusive, que
tal intervalo representou o auge da
civilização grega.
Uma das principais características do Período 31
Arcaico, antecessor do Clássico, é a ascensão
das cidades-estado, a partir de um modelo
consolidado de descentralização política e
independência administrativa. Isso significava
que cada região determinava a própria traje-
tória, com governantes que poderiam assu-
mir decisões variadas. A título de exemplo,
Esparta contava com uma oligarquia voltada
principalmente às preocupações militares.
Por outro lado, os atenienses verificavam a
evolução da democracia, por meio da ação
da aristocracia local.
A força das cidades-estado continuou a
crescer, porém em meio a batalhas entre os
próprios governantes que também tiveram a
participação de outros povos. Diversos confron-
tos ocorreram em território grego, com desta-
que para duas delas: as guerras Médicas (tam-
bém conhecidas como Guerras Greco-Persas
ou Guerras Medas) e do Peloponeso.
CAPÍTULO 3 • AS GRANDES BATALHAS
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gregas da costa da Ásia Menor, impondo O general ateniense Milcíades en-
derrotas aos jônios (um dos grupos que viou um pedido de ajuda aos espartanos.
formavam a população grega). O que es- No entanto, eles responderam que só
tava em jogo era o controle do comércio poderiam enviar as tropas em uma se-
marítimo na região. Vale ressaltar que mana, tendo em vista que estavam em
a maior parte das cidades-estado do meio a celebrações religiosas. Apesar da
norte da península grega se entregou negativa, o militar conhecia as táticas de
sem resistência. Cada indivíduo dos po- batalha persas e decidiu deslocar as tro-
vos submetidos pelo Império Persa era pas para Maratona, com a finalidade de
considerado um “bandaka” (escravo do enfrentar os invasores.
monarca).
Visão noturna de uma
Atenas e Erétria apoiaram a revolta barragem perto da cidade
das cidades gregas contra o domínio grega de Maratona
dos persas, mas o auxílio foi insuficien-
te. Exemplo disso é a aldeia de Mileto,
que foi tomada e arrasada. Desse modo,
muitos jônios decidiram fugir para as
colônias ocidentais. O comportamento
Representação de um Shutterstock Ilustração que
soldado persa, em trajes representa
militares, que combatia o imperador
Dario I, da Pérsia
na época das Guerras
Médicas, conflito entre
gregos e o Império Persa
A TENSÃO de Atenas geraria uma reação persa e BATALHA DE
ENTRE PERSAS foi um dos fatores que desencadeou as MARATONA
E GREGOS Guerras Médicas, registradas entre 490
a.C. e 479 a.C. De acordo com os registros históricos, a
Se no ambiente interno o clima era ten- Batalha de Maratona ocorreu em setem-
so, em razão das diferenças entre as As batalhas tiveram início após a Áti- bro de 490 a.C. Cerca de 10 mil com-
cidades-estado gregas, o cenário exter- ca – região continental grega, que inclui batentes gregos (que contaram com a
no apresentava a ascensão do Império a cidade de Atenas – ser ocupada pelas ajuda dos moradores de uma pequena
Persa, sobretudo após Ciro II conquistar forças do imperador persa Dario I, que cidade chamada Plateia), começaram o
o reino dos medos – povo que migrou já tinham passado e destruído Erétria. O ataque contra os persas e procuravam o
da Ásia Central para o Planalto Iraniano, encontro entre atenienses e persas ocor- confronto corpo a corpo. Eles cercaram a
posteriormente conhecido como Média. reu na cidade de Maratona, a cerca de 40 tropa adversária e se projetaram contra
O monarca governou entre 559 a. C e quilômetros de Atenas. Segundo histo- os soldados de Dario I. Os persas ofere-
530 a.C., ano no qual morreu em ba- riadores, o monarca comandou em torno ceram resistência e conseguiram romper
talha. de 50 mil homens e, com uma marinha o cerco grego, que logo se reagrupou e
poderosa, desembarcou na planície para venceu o conflito. As tropas derrotadas
O centro do império era a Pérsia e se reprimir os atenienses pelo auxílio dado retornaram para a Ásia. Projeta-se que
estendia do Egito ao Paquistão. Quando durante a rebelião dos jônios. as baixas da Pérsia tenham chegado a 6
os persas invadiram a Ásia Menor (atual mil. Do lado grego, o número estimado
Turquia), o passo seguinte foi ocupar a é de cerca de 200 mortes.
Europa, para controlar a Grécia. A admi-
nistração persa continuou com uma po- Esse foi o primeiro grande confronto
lítica de expansão e ocupou as cidades entre os dois povos. Novos embates ocor-
reriam e seriam determinantes para defi-
32
CONHEÇA A HISTÓRIA • GRÉCIA
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Shutterstock nir a trajetória de ambas as populações sula do Peloponeso. Pã teria chamado o
na região do Mar Egeu, na sequência mensageiro em voz alta e ordenado a
Marca de 40 quilômetros (distância das Guerras Médicas. ele a perguntar aos atenienses o motivo
aproximada até Atenas) localizada por que não era cultuado. O atleta dis-
na cidade de Maratona, na Grécia Heródoto relata que Fidípedes era se que os habitantes de Atenas ficariam
um “hemeródromo”, nome que re- imensamente gratos se o deus os aju-
cebiam os correios oficiais que eram dasse contra os persas. Ainda de acordo
capazes de percorrer, a passo rápido, com a literatura grega, Pã ficou do lado
largas distâncias diariamente. Atle- dos atenienses na Batalha de Maratona.
ta vigoroso e o soldado, o corredor Em agradecimento, um local de culto foi
profissional exerceu atividades como criado para o deus, próximo à aldeia de
mensageiro do exército. Com a apro- Tégea.
ximação do exército persa, antes da
batalha de Maratona, os atenienses o Conta-se que, após a vitória e expul-
mandaram até Esparta para buscar aju- são dos invasores, entusiasmado com a
da, percorrendo uma distância superior proeza, o general Milcíades ordenou que
a 200 quilômetros. Fidípedes fosse correndo, mais uma vez,
até Atenas, de modo a informar aos gre-
Heródoto relata que, durante a gos que os confrontos tinham termina-
viagem para Esparta, o deus mitológi- do. Logo após ter anunciado a vitória, o
co Pã (dos rebanhos e dos pastores) mensageiro teria morrido, por causa da
apareceu a Fidípedes em um monte exaustão.
perto da cidade de Tégea, na Penín-
VOCÊ SABIA? AS GUERRAS
MÉDICAS
A origem da prova de atletismo CONTINUAM
conhecida como “Maratona” faz
referência à batalha vencida pelos Comandante das tropas gregas em Ma-
gregos contra os persas. Segundo a ratona, o general Milcíades aproveitou o
literatura grega, com referências, momento de glória para expandir o po-
inclusive, ao geógrafo e historiador der de Atenas no Mar Egeu. Assim, logo
Heródoto, um corredor lendário depois da batalha na Grécia continental,
e ateniense chamado Fidípedes o militar enviou uma parte da frota para
teria feito o trajeto entre Maratona lutar no arquipélago da região das Cícla-
para Atenas para informar aos des, que estava submetida ao poder dos
moradores de Atenas a respeito da persas.
vitória sobre as forças de Dario I,
correndo o trecho que corresponde à O primeiro movimento foi um ata-
modalidade integrante do programa que à ilha de Paros, em que os atenien-
dos Jogos Olímpicos. ses exigiram aos habitantes do local uma
soma elevada de tributos. Os moradores
Ilustração que retrata esportistas e de Paros negaram o pagamento e a re-
praticantes de atletismo da Grécia Antiga gião foi ocupada. A resistência foi grande
e a única saída dos gregos foi realizar
Deus grego Pã, saques. Após a decisão, os moradores
protetor dos pastores de Atenas começaram a ficar desiludidos
em relação a Milcíades, chegando a ver
e dos rebanhos o general como um tirano que deprecia-
Shutterstock va as leis.
Shutterstock
Os inimigos políticos do comandante
o acusaram de ter enganado o povo e o
submeteram a um processo, no qual foi
declarado culpado. Ele foi salvo da pena
33
CAPÍTULO 3 • AS GRANDES BATALHAS Shutterstock Tumba do imperador persa
Xerxes I, localizada no sítio
Vista panorâmica da ilha grega de Paros, arqueológico de Naqsh-i Rustam,
região ocupada pelas tropas de Atenas no Irã, onde vários monarcas do
durante as Guerras Médicas antigo império eram sepultados
de morte, que era um procedimento co- submissão. Muitos municípios e ilhas Shutterstock
mum, por conta dos serviços prestados à aceitaram. No entanto, Atenas e Esparta
pátria. Porém, o militar foi condenado a decidiram resistir, bem como outras re- ao império asiático, após dois dias de
pagar uma multa elevada. Pouco depois, giões gregas. Seria o início de mais uma confrontos.
o general morreu em razão de feridas investida persa, no episódio conhecido
em uma batalha. O comando político de como Segunda Guerra Médica. Contudo, os comandados por Leôni-
Atenas ficaria a cargo de Temístocles, das foram traídos pelo grego Efíaltes de
que também apresentava habilidades O exército de Xerxes I, estimado em Mális, que ajudou o rei persa a encontrar
militares de general e teve grande poder até 70 mil homens, partiu para a invasão um caminho alternativo e surpreender
de convencimento sobre os moradores ao território grego em 480 a.C. As tro- os adversários pela retaguarda. Com isso,
da cidade. pas marcharam e entraram na Península foi possível eliminar completamente o
Balcânica. Os combatentes gregos, que pequeno grupo de defensores esparta-
Em 481 a.C., os representantes de conheciam os movimentos adversários, nos. Após o confronto, a marinha grega
várias pólis gregas, liderados por Atenas decidiram detê-los no desfiladeiro co- recebeu a notícia da derrota em Termó-
e Esparta, firmaram um acordo militar nhecido como Termópilas (em grego, pilas. Depois disso, o exército decidiu se
para se protegerem de um provável ata- “portas quentes”), na porção continen- retirar para o sul do território, enquanto
que do Império Persa. Segundo o pacto, tal, a noroeste de Atenas.
em caso de invasão, corresponderia a
Esparta a incumbência de comandar o Nesse local, o rei espartano Leôni-
exército helênico, em uma trégua geral, das – que comandava as forças gregas
o que, inclusive, facilitou o retorno de – mobilizou 300 soldados de Esparta e
exilados políticos. aproximadamente mil de outras regiões,
com o intuito de conter as forças persas,
O SUCESSOR que enviaram um aviso em que exigiam
DE DARIO I a rendição da reduzida tropa helênica.
Após cinco dias de espera e ao conside-
Paralelamente, na Pérsia, após a morte rar que a superioridade numérica não in-
de Dario I, o filho dele, Xerxes I, subiu ao timidava o inimigo, os persas decidiram
poder. O monarca decidiu, nos primeiros atacaram.
anos do reinado, a reprimir revoltas no
Egito e na Babilônia, mas ainda continu- Segundo os historiadores, o desfila-
ava a se preparar para atacar os gregos. deiro era tão estreito que os militares
Antes, o imperador enviou embaixado- de Xerxes I não podiam usar a cavala-
res às cidades da Grécia para pedir terra ria. Além disso, a superioridade numé-
e água aos governantes, símbolos de rica da tropa estava bloqueada, pois a
faixa estreita de terra fazia com que os
34 persas tivessem que reduzir a quanti-
dade de combatentes. Coube o recuo
CONHEÇA A HISTÓRIA • GRÉCIA
VOCÊ SABIA? S_bukley/ Shutterstock.com os persas ampliavam as conquistas. necia fiel ao plano de atrair a
O tempo que o governante persa frota persa e forçar o comba-
A Batalha de Termópilas foi te marítimo. Conta a tradição
retratada no cinema, por meio do ficou atento somente à região de Ter- que o general se fez passar
filme “300”, lançado em 2006, mópilas possibilitou o esvaziamento to- por traidor diante do soberano
que contou com a participação tal de Atenas, que, na sequência, seria persa, induzindo-o a pensar
do brasileiro Rodrigo Santoro. Na saqueada e incendiada pelos homens de que obteria uma vitória rela-
ocasião, o ator interpretou o rei Xerxes, como represália por ser a grande tivamente tranquila na ilha de
persa Xerxes I. responsável pelo desfecho da Primeira Salamina, em setembro de
Guerra Médica. Os atenienses seguiram 480 a.C.
Fontes de O ator brasileiro para a ilha de Salamina, próximo a Ate-
enxofre famosas Rodrigo Santoro, nas. Os espartanos e coríntios
que interpretou defendiam uma aglomera-
próximo ao CONSTRUÇÃO ção militar no istmo (faixa
desfiladeiro de o imperador DA MURALHA estreita de terra que liga uma
Termópilas, na Xerxes I, da DE MADEIRA península a um continente),
Grécia, palco de mas o comandante ateniense
batalhas entre Pérsia, no De acordo com a literatura grega, ao concentrou a frota de cerca de
persas e gregos longa-metragem consultar o oráculo de Delfos (dedicado 200 embarcações na baía de
a Apolo, ao qual os gregos se dirigiam Salamina. Conforme o planeja-
durante as “300”, sobre para fazer perguntas aos deuses), Te- do por Temístocles, o monarca
Guerras Médicas a Batalha de místocles escutou o seguinte conselho: persa decidiu travar um com-
“Protejam-se com uma muralha de ma- bate naval. Xerxes I autorizou o
Shutterstock Termópilas deira”. Apesar de Atenas já estar res- uso de um número considerá-
guardada por muros, a recomendação vel de barcos. A frota asiática –
Estátua em era de que o povo helênico deveria pro- estimada em 700 navios – não
homenagem curar o combate naval e ficar atrás do tinha coordenação ao atacar,
ao general “muro de madeira”, que representava a enquanto os gregos ocupa-
espartano frota naval. riam as alas e envolveriam as
Leônidas, que embarcações adversárias e
comandou as Convém lembrar que, desde meados empurrariam umas contra as
tropas gregas da década de 480 a.C., os atenienses co- outras, de modo a limitar os
na Batalha de meçaram a se preparar para uma guerra movimento delas.
Termópilas contra a Pérsia. Em 482 a.C. uma decisão
foi tomada na cidade, sob a orientação de De acordo com relatos his-
Temístocles, de construir uma frota gigan-
te de trirremes, embarcações essenciais Silhueta de um soldado
para que a Grécia enfrentasse os persas, persa, considerado, no
mesmo com a resistência de integrantes Período Clássico da Grécia
da assembleia pública ateniense. Antiga, um dos militares
mais bem preparados
Após a vitória persa em Termópilas para confrontos
e a devastação da Ática, na Grécia conti-
nental, o rei Xerxes I entrou em Atenas, 35
destruindo também os monumentos da
Acrópole, que já abrigava algumas das
mais famosas edificações do mundo an-
tigo. O monarca marchou sobre Atenas,
mas não encontrou resistência. A visão
da cidade destruída ofereceu aos gregos
a certeza de que existiam poucas chan-
ces para manter a liberdade na Grécia e
evitar a submissão aos asiáticos.
Enquanto isso, Temístocles perma-
Shutterstock
Shutterstock
CAPÍTULO 3 • AS GRANDES BATALHAS
TRIRREME, O DIFERENCIAL Shutterstock Panorama da ilha grega de
GREGO NAS ÁGUAS Shutterstock Salamina, local em que a
esquadra persa foi derrotada
A TRIRREME ERA UMA EMBARCAÇÃO DE durante as Guerras Médicas
GUERRA UTILIZADA NA ANTIGUIDADE PELOS
GREGOS E MOVIDA A REMOS. PESQUISADORES Memorial,
DIVERGEM A RESPEITO DA ORIGEM DO na ilha de
NAVIO, QUE RECEBEU ESSE NOME PORQUE OS Salamina,
REMADORES FICAVAM EM TRÊS PAVIMENTOS, aos gregos
O QUE PERMITIA A CONCENTRAÇÃO DE que lutaram e
MAIS HOMENS EM UM ESPAÇO MENOR. O derrotaram
HISTORIADOR GREGO TUCÍDIDES, POR EXEMPLO, os persas
RELATA O USO DESDE O SÉCULO VIII A.C. na região
O uso das trirremes era fundamental na Grécia
Antiga, uma vez que a península era rodeada por
cerca de 3 mil ilhas. As embarcações formavam
a maior parte das marinhas do Mediterrâneo a
partir de 500 a.C. O navio de escravos a remo
impulsionou as cidades-estado gregas clássicas
como potências navais – Atenas, em particular,
que, durante as guerras contra a Pérsia, chegou
a administrar 200 barcos do tipo.
Representação do trirreme,
embarcação fundamental
na vitória dos gregos sobre
os persas na Batalha de
Salamina, em 480 a.C.
Shutterstock A PERSEGUIÇÃO
AOS PERSAS
tóricos, a estratégia resultou em um desentendimento entre
os membros da frota persa. Como resultado, os barcos se cho- Após a retirada dos persas da ilha de Salamina, o gene-
cavam – muitos deles naufragaram. Com a chegada da noite, ral Temístocles pretendia levar a guerra à Ásia Menor.
o combate chegou ao fim, após 12 horas de confrontos. A Por isso, ele enviou uma frota para a região e promover
tropa asiática se retirou, sob os olhares do soberano Xerxes, a insurreição das colônias jônicas contra o rei da Pérsia.
que presenciou, do alto de um morro, a Batalha de Salamina. Todavia, o governo de Esparta se opôs, pelo temor de
deixar desprotegida a Península do Peloponeso.
Na avaliação de historiadores, a resistência grega con-
tra os persas representou um episódio determinante para a Assim, a guerra continuou na Europa, já que o exér-
história do continente europeu. Essa análise está baseada no cito persa voltou a invadir a Ática em 479 a.C. O general
fato de que, no caso de uma capitulação da Grécia, provavel- Mardônio, da Pérsia, ofereceu a liberdade aos gregos
mente não haveria mais barreiras para as tropas persas, que que se não se rebelassem. O clima era tão tenso que
expandiriam o império pelo Velho Continente. Se as tropas Licidas, o único membro do conselho de Atenas que
de Xerxes I obtivessem resultado positivo, um dos cenários votou pela submissão, foi apedrejado até a morte pelos
prováveis era de que a cultura grega e o Império Romano companheiros. O conflito fez os atenienses buscarem
fossem suplantados, modificando sensivelmente a história refúgio novamente em Salamina, pois a cidade foi in-
dos povos ocidentais. cendiada pela segunda vez.
36 Ao saber que o exército espartano marchava para
Panorama de Atenas, com
destaque para a ágora, local
de debates e palco principal
do sistema democrático
ajudar Atenas, os persas se retiraram pólis voltaram à tona com OSTRACISMO, Shutterstock
até o oeste, em Plateias. Os espartanos, mais vigor após 480 a.C., UM BANIMENTO
conhecidos pelas excelentes estratégias com a retomada de alianças DECIDIDO PELA
militares, conseguiram outra vitória sobre e a tentativa de ampliação ÁGORA ATENIENSE
os persas. Segundo historiadores, prova- de influências nas aldeias.
velmente no mesmo dia da vitória em O OSTRACISMO ERA UMA
Plateia, foi registrado o triunfo grego na Em linhas gerais, a Grécia PUNIÇÃO EXISTENTE EM ATENAS,
batalha naval de Mícale, na atual Turquia, Antiga, no Período Clássico, NO SÉCULO V A.C., NA QUAL O
o que também foi um sinal para a luta apresentava Esparta e Atenas CIDADÃO QUE AMEAÇASSE O
dos jônios contra a administração persa. como principais administra- AMBIENTE DEMOCRÁTICO ERA
As tropas asiáticas, então, se retiraram ções. Assim, seria natural que ESCOLHIDO PARA SER BANIDO
da região – esse foi o fim das intenções ambas disputassem espaço OU EXILADO – PELO PERÍODO DE
de Xerxes I de conquistar a Grécia. Tais para a realização de conquis- DEZ ANOS. A CONDENAÇÃO FOI
episódios marcaram o encerramento das tas políticas, econômicas e CRIADA POR CLÍSTENES, POLÍTICO
Guerras Médicas, fundamentais para con- territoriais. Depois das Guer- CONSIDERADO UM DOS “PAIS DA
solidar a influência do povo grego no Mar ras Médicas, os moradores DEMOCRACIA” E QUE PARTICIPOU
Mediterrâneo. de Atenas presenciaram o DA REFORMA DA CONSTITUIÇÃO
período áureo da cidade, com DE ATENAS EM 508 A.C.
VOCÊ SABIA? a democracia consolidada e
a economia em excelente Uma vez por ano, a questão
Os gregos construíram as trirremes para fase. Por isso, cada vez mais, relacionada ao ostracismo era
serem velozes e de grande mobilidade, os atenienses aumentaram colocada em votação pela “eclésia”
tornando-as muito mais fáceis de o poder exercido sobre a re- (a principal assembleia democrática
manobrar do que as galés (ou galeras) do gião, passando, inclusive, a ateniense). Se os participantes
Império Persa, bastante usadas em guerras. cobrar impostos. decidissem pela necessidade da
Os navios cobriam mais de 300 quilômetros condenação de um ateniense, o
a uma velocidade constante de 13 km/h. Atenas se expandia e pleito ocorria na “ágora”, local, por
O barco padrão tinha 36 metros de controlava o comércio ma- excelência, da manifestação da
comprimento e tripulação de 150 rítimo com uma frota naval opinião pública na cidade-estado.
remadores, cuja primeira linha ficava a poderosa, desfrutando de O termo “ostracismo” deriva do
apenas 45 centímetros da linha d’água. O uma situação financeira fa- método de votar, que consistia na
projeto foi essencial em alguns confrontos, vorável, sobretudo, com a escrita do eleito em um pedaço de
por exemplo, na ilha de Salamina, na qual formação da Confederação cerâmica, o “óstraco”.
os persas foram encurralados em uma de Delos (liga militar orga- De acordo com relatos do filósofo e
batalha naval, em 480 a.C. nizada pela cidade durante historiador Plutarco, o procedimento
os conflitos contra as tro- consistia em prover cada eleitor com
A GRÉCIA SE pas persas). Por outro lado, o óstraco, de modo a escrever nele
CONCENTRA os espartanos já exerciam o nome do cidadão que quisesse
NOS CONFLITOS grande influência na Penín- remover da cidade. O fragmento, em
INTERNOS sula do Peloponeso, princi- seguida, deveria ser deixado na ágora.
palmente após a dominação Em primeiro lugar, o total de pedaços
Entre 500 a.C. e 400 a.C., o território da cidade-estado de Argos, de cerâmica era contado – caso o
grego foi palco de batalhas intensas e desde 546 a.C. Dessa ma- número de peças fosse inferior a seis
decisivas, mesmo após o fim de uma neira, Esparta, comandada mil, a votação era encerrada. Depois,
das principais ameaças: a invasão do por uma aristocracia que as peças eram separadas por nomes.
Império Persa. O clima de tensão en- não implantou a democra- Quem recebesse a maior parcela dos
tre as cidades-estado da região ficou cia ateniense, encabeçava votos era condenado ao banimento,
menor durante as Guerras Médicas, já a aliança militar denomi- porém com o direito, ainda, usufruir
que elas precisaram, por vezes, se unir nada Liga do Peloponeso. da renda das propriedades. O
contra um inimigo externo. No entanto, Em caso de necessidade, os resultado da votação era proclamado
as diferenças entre os governos de cada aliados das duas principais e o escolhido deveria deixar a
cidades-estado seriam acio- cidade em dez dias. Originalmente,
nados para as batalhas. o banido poderia se instalar em
qualquer área da Ática, na Grécia
continental. Todavia, em 480 a.C.,
passou a ser proibida a permanência
em regiões prédeterminadas.
37
CAPÍTULO 3 • AS GRANDES BATALHAS
Shutterstock
Ruínas do sítio Shutterstock O ESTRATEGISTA TEMÍSTOCLES
arqueológico de Georgios Kollidas/ Shutterstock.com
a, na Península O POLÍTICO E GENERAL ATENIENSE TEMÍSTOCLES NASCEU POR
VOLTA DE 524 A.C, SEGUNDO REGISTROS HISTÓRICOS. ERA
do Peloponeso FILHO DE NÉOCLES, UM ARISTOCRATA DE ATENAS, E DE UMA
MULHER ESTRANGEIRA (NASCIDA FORA DA CIDADE). ELE
Ilustração de OBTEVE A CIDADANIA GRAÇAS A UMA LEI, EDITADA EM 508
um soldado A.C., QUE TORNOU ATENIENSES TODOS OS HOMENS LIVRES
RESIDENTES NO LOCAL.
espartano Durante a juventude, o político frequentou um ginásio destinado a
em batalha atenienses filhos de mães estrangeiras. Temístocles foi habilidoso
ao atrair os filhos dos cidadãos atenienses para se exercitarem
AS CONDIÇÕES com ele, removendo a distinção entre os estrangeiros e os
PARA A GUERRA legítimos. O primeiro registro documentado a respeito do militar
DO PELOPONESO foi como líder do Partido Democrático Ateniense. Na ocasião, a
referência era à eleição dele como “arconte”, a autoridade jurídica
As relações entre Atenas e Esparta eram ten- e administrativa mais importante de Atenas, em 493 a.C.
sas, ainda que formalmente amigáveis duran- O principal feito de Temístocles foi estimular a criação de uma
te as Guerras Médicas, mas ficaram piores a frota naval capaz de derrotar os persas em uma nova tentativa
partir de 450 a.C., com lutas freqüentes pela de invasão e vencer, na Batalha de Salamina, a frota do rei Xerxes
disputa da hegemonia na Grécia e tréguas es- I, da Pérsia, filho de Dario I, que realizou a primeira tentativa de
porádicas. invasão à Grécia continental, no início das Guerras Médicas.
O militar foi reconhecido como responsável direto pela derrota
Segundo o historiador grego Tucídides, dos invasores asiáticos, o que rendeu a ele grande fama, sendo,
o poderio e a riqueza inigualável de Atenas inclusive, aclamado como herói nacional. Após os conflitos com
alarmavam os espartanos. A possibilidade os persas, o político passou a se concentrar na reconstrução
de Atenas e na fortificação da cidade, a qualquer custo, para
38 enfrentar a cidade-estado de Esparta, que ameaçava o poderio
militar ateniense. As atitudes de Temístocles foram combatidas
pela aristocracia, que conseguiu tirar o general do poder, por meio
do procedimento conhecido como “condenação ao ostracismo”,
sob a acusação de alta traição. Além disso, ele foi banido pelo
conselho de nobres, o “areópago”, em 471 a.C.
Temístocles passou por vários países até obter refúgio na Pérsia,
que, apesar de ser uma administração inimiga, respeitava a
trajetória do general. Segundo pesquisadores, os persas aceitavam
todos os homens experientes que pudessem ajudá-los na expansão
do império. Prova disso é que foi confiado ao político grego o
governo da Magnésia, na Anatólia (na Ásia Menor, atual território
da Turquia), onde o militar permaneceu até morrer. De acordo
com os relatos históricos, ele se envenenou em 459 a.C. para não
cooperar com o rei persa em uma nova campanha contra os gregos.
Ilustração do
general e político
ateniense Temístocles
em uma cédula de
100 dracmas (antiga
moeda grega),
provavelmente
fabricada em 1955
Shutterstock CONHEÇA A HISTÓRIA • GRÉCIA
Panorama de Atenas durante
o crepúsculo, com o porto de
Pireu ao fundo
Localização Shutterstock Shutterstock
da cidade de
Mégara, no
mapa da
Grécia, situada
perto de Corinto
Antiga fortaleza de Corinto, na
região da Península do Peloponeso
de uma guerra era tão considerada que dos em três períodos. Na primeira parte, ALÉM DO CERCO Shutterstock
Péricles, um dos principais governantes entre 431 a.C. e 421 a.C., os envolvidos ESPARTANO, A
atenienses da história, decidiu acumular realizavam tentativas de destruir as ci- DOENÇA ATINGE
reservas financeiras para suportar um dades adversárias, porém não atingiam ATENAS
conflito em larga escala. resultados satisfatórios. Uma exceção foi
o episódio que envolveu diretamente os A “PESTE DE ATENAS” (OU
A situação tensa entre os aliados líderes das ligas. Esparta e os aliados in- DO EGITO) FOI REGISTRADA
atenienses e espartanos levou a con- vadiram a Ática (região em que se situa PELA PRIMEIRA VEZ NO
frontos a partir de 431 a.C. Na ocasião, Atenas) 431 a.C. O administrador atenien- TERRITÓRIO ATENIENSE,
a aldeia de Corfu (também chamada se Péricles, ciente da superioridade do EM 430 A.C. O REGISTRO
Córcira, na porção ocidental da Grécia) exército terrestre espartano, convenceu INICIAL DA DOENÇA PODE SER
desejava firmar aliança com Atenas, pois os conterrâneos a refugiar a população ENCONTRADO NOS RELATOS
o acordo ofereceria a possibilidade de dentro das muralhas que ligavam Atenas DO HISTORIADOR TUCÍDIDES,
dominar o comércio com o Ocidente. En- ao porto de Pireu. O objetivo era evitar NA COLEÇÃO DE TEXTOS
tretanto, o local era colonizado pela cida- uma batalha em terra. DENOMINADA “HISTÓRIA DA
de-estado de Corinto, aliada de Esparta GUERRA DO PELOPONESO”.
na Liga do Peloponeso. Assim, Corinto O governante confiava na frota de
interferiu nas negociações por causa da trirremes para proteger as colônias e as O escritor descreveu a
disputa comercial, tornando a situação rotas comerciais, além de suprir a po- enfermidade que atingiu a pólis
cada vez mais favorável à eclosão de um pulação. Contudo, os moradores foram entre 430 a 429 a.C., na primeira
confronto. surpreendidos pela deflagração de uma onda, e também em 427 a.C.,
epidemia em 430 a.C., conhecida como durante o cerco conduzido pelas
De acordo com registros históricos, o “Peste do Egito” ou “Peste de Atenas”, tropas espartanas, com a morte
estopim para o início da Guerra do Pelo- que matou aproximadamente um terço de aproximadamente um terço
poneso foi a publicação do Decreto Méga- da população. Nem mesmo Péricles re- dos moradores da cidade-estado.
ro (nome oriundo da cidade de Mégara, sistiu à doença. A epidemia teve origem na
aliada de Esparta), pelo ateniense Péri- Etiópia, na África, e chegou ao
cles, uma espécie de embargo comercial. Com tal situação, começaram a surgir porto de Pireu (perto de Atenas)
Segundo o texto publicado, os comercian- revoltas contra a hegemonia de Atenas em 430 a.C. A doença espalhou-
tes de Mégara (que ficava entre Corinto na região, como, por exemplo, na ilha se rapidamente, uma vez que a
e Atenas) estariam banidos do mercado de Lesbos. Embora as condições fossem população estava confinada
ateniense e das colônias. Essa medida desfavoráveis para os atenienses, a frota atrás das muralhas, em
sufocou a economia da aldeia e desgas- naval conseguiu manter boa performan- péssimas condições de
tou a paz frágil entre as Ligas de Delos ce. Desse modo, em 423 a.C., foi estabe- saneamento. Pesquisadores
e do Peloponeso. As cidades de Mégara, lecida uma trégua de um ano. Em 422 da Universidade de Atenas
Tebas, Esparta e Corinto aliaram-se contra a.C., a guerra estava equilibrada e as analisaram, em 2006,
Atenas e os demais integrantes da Liga cidades envolvidas demonstravam sinais dentes recuperados de uma
de Delos. Em 431 a.C., as forças de Tebas, de desgaste. O primeiro período da Guer- sepultura coletiva no subsolo
na Grécia central, atacaram Plateia, antiga ra do Peloponeso foi encerrado em 421 da cidade e confirmaram
aliada de Atenas, no começo dos emba- a.C., por meio do Tratado de Nícias (mi- a presença de bactérias
tes militares entre as duas confederações. litar ateniense), que garantiria a paz du- da febre tifoide,
rante 50 anos. Nesse contexto, os aliados responsáveis por uma
Tais confrontos, em geral, são dividi- série de mortes que
debilitou sensivelmente
os habitantes e
as tropas lideradas
por Péricles.
Busto do historiador grego Tucídides, que relatou 39
a chegada da “Peste de Atenas” à cidade-estado
CAPÍTULO 3 • AS GRANDES BATALHAS
Shutterstock
de Atenas procuraram se libertar das condições impostas, o que
ameaçava o sistema democrático, baseado na cobrança de tributos.
Vista de uma das cidades da Shutterstock GUERRA DO
região italiana da Sicília, um dos PELOPONESO: 2ª FASE
palcos da Guerra do Peloponeso
Tempo antigo na cidade de Mantineia, na A trégua firmada em 421 a.C. (que deveria durar cinco décadas)
Arcádia, na Península do Peloponeso durou apenas seis anos. Assim, o segundo período da Guerra do
Peloponeso foi registrado de 415 a.C. a 413 a.C. O general e po-
lítico ateniense Alcibíades liderou um movimento de oposição a
Esparta na Península do Peloponeso, porém não contava com a
vitória espartana na cidade de Mantineia, em 418 a.C.
Naquela época, Atenas já observava o declínio do sistema que
teve como base a democracia. Uma saída para a crise seria era uma
vitória militar contundente contra a Liga do Peloponeso. Dessa for-
ma, em 415 a.C., foi preparada uma poderosa esquadra para atacar
a cidade siciliana de Siracusa (na Magna Grécia, no sul da Península
Itálica) e regiões próximas, além de colônias de origem de alimen-
tos para Esparta e os aliados.
O principal defensor da expedição à Sicília, Alcibíades, foi acu-
sado de impiedoso pelos adversários políticos atenienses. O militar,
então, fugiu para Esparta e traiu Atenas. Os espartanos, então, en-
viaram um exército potente para a Sicília, o que resultou na derrota
ateniense em Siracusa, com consequências graves para a cidade-
-estado, em 413 a.C. Na cidade de Atenas, um grupo oligárquico
partidário da paz assumiu o poder, estabelecendo uma paralisação
temporária para os embates. Mas os defensores da guerra preten-
diam o restabelecimento rápido do conflito.
A LIGA DE DELOS que o perigo persa estava distante e se Antiga cidade de Delos, sede inicial da
E A INFLUÊNCIA desligaram do projeto. Confederação liderada pelos atenienses
DE ATENAS As cidades mais poderosas da Liga de
Delos forneceram tropas e navios. Já Shutterstock
A CONFEDERAÇÃO DE DELOS FOI as aldeias pagaram uma contribuição
UMA LIGA MILITAR LIDERADA POR ao tesouro da iniciativa. Após a vitória
ATENAS DURANTE AS GUERRAS contra os persas, Atenas forçou
MÉDICAS. A INICIATIVA TINHA COMO as cidades-estado aliadas a continuar
OBJETIVO PRINCIPAL A DEFESA DAS na liga e transformou a cessão de
CIDADES GREGAS DE UM ATAQUE dinheiro em impostos.
PERSA. A SEDE ESTAVA SITUADA NA Em 450 a.C., o tesouro da liga foi
CIDADE DE DELOS, NA REGIÃO DAS transferido de Delos para Atenas. Parte
ILHAS DAS CÍCLADES. dos recursos financeiros da liga foi
A força marítima do grupo foi investido na reconstrução da cidade-
organizada em 476 a.C. pelo político -estado, que atingiu o máximo esplendor
e militar ateniense Aristides, também e se consolidou como potência marítima
chamado de “Justo”. Inicialmente, e comercial durante o governo de
Esparta e os aliados da Península do Péricles, que também foi responsável
Peloponeso integraram a Confederação. pela construção do Partenon, templo
Todavia, os membros consideraram de grandes proporções monumentais
dedicado à deusa Atena.
40
Ruínas da antiga cidade de Argos, uma das principais
da Grécia Antiga, na Península do Peloponeso
Shutterstock
O DECLÍNIO O PODERIO DE ESPARTA NO PELOPONESO
DE ATENAS
A CONFEDERAÇÃO DO PELOPONESO REPRESENTOU UM PACTO
O terceiro período da Guerra do Pelopo- DE VÁRIAS CIDADES-ESTADOS NA PENÍNSULA DO PELOPONESO,
neso começou em 412 a.C. As revoltas DURANTE OS SÉCULOS VI E V A.C. NO FIM DO SÉCULO VI A.C., ESPARTA
generalizadas entre os aliados de Atenas, TRANSFORMOU-SE NA CIDADE-ESTADO MAIS PODEROSA DA REGIÃO,
além da fortificação de Decélia pelos es- COM HEGEMONIA MILITAR E POLÍTICA SOBRE ARGOS, A SEGUNDA
partanos, na região da Ática, pressiona- LOCALIDADE MAIS PODEROSA, A PARTIR DE 546 A.C.
ram a cidade-estado, que perdeu grande
parte da frota na Sicília. Para piorar, as Esparta fechou acordo com dois aliados fortes, Corinto e Élis – ao libertar
crises políticas eram frequentes entre os Corinto da tirania e auxiliando Élis a manter o controle dos Jogos Olímpicos,
moradores de Atenas. Paralelamente, de- em Olímpia. Os espartanos continuaram com a tentativa de obter outros
pois de Alcibíades (que parou de auxiliar aliados. Para isso, eles derrotaram as forças de Tégea, em uma guerra, e fizeram
Esparta) ser nomeado “estratego” – um uma oferta pela aliança defensiva permanente.
dos dez militares eleitos anualmente para Diversas aldeias no centro e norte da Península do Peloponeso passaram a
cuidar dos assuntos de defesa – das forças integrar a Confederação. A liga estava organizada com Esparta como centro
atenienses, a cidade-estado obteve com principal. O projeto era controlado pelo conselho de aliados, composto
vitórias navais consideráveis entre 411 a.C por dois grupos. O primeiro era a Assembleia dos Espartanos. A segunda
e 406 a.C. comissão recebeu o nome de Congresso dos Aliados, em que cada cidade-
-estado possuía um voto, independentemente da força política.
Preocupados com a recuperação de Ao contrário da Confederação de Delos, nenhum tributo era pago, à exceção
Atenas, os governantes de Esparta esta- dos períodos de guerra, em que um terço dos militares de cada localidade
beleceram uma aliança com o Império poderia ser requisitado. Outra diferença era que apenas Esparta poderia
Persa, em troca do financiamento de convocar um congresso da Liga. Todas as alianças eram feitas em somente
uma frota de navios para invadir Atenas. em território espartano. Apesar de cada cidade-estado possuir um voto,
Ao mesmo tempo, o caminho ficaria livre Esparta não era obrigada a obedecer qualquer resolução que a Liga tomasse.
para que os persas conquistassem as colô- Vale ressaltar que a aliança tinha foco na proteção e segurança dos membros,
nias gregas da Jônia, na Ásia Menor. sendo relativamente estável e contando com o apoio das oligarquias, que se
opunha aos governantes tiranos. Com as Guerras Médicas, a liga transformou-
A partir de então, os espartanos con- se na Aliança Helênica.
seguiram conter o avanço ateniense, por Ao término da guerra com os persas, Esparta retirou-se do projeto e
meio das táticas do general Lisandro. Nos constituiu novamente a Liga do Peloponeso, com as alianças originais da
anos seguintes, Esparta venceu grande cidade-estado. A Liga do Peloponeso desfrutou de um grande período de
parte dos conflitos que deram continui- existência, com registros de atuação durante o século IV a.C. A Batalha
dade à Guerra do Peloponeso. Em 404 de Leuctras – na região central da Grécia –, em 371 a.C., marcou o fim da
a.C., na região de Egos-Pótamos, ocorreu hegemonia espartana e o início da cidade de Tebas como principal força
a derrota definitiva dos atenienses. Com grega. Essa mudança levou, também, à dissolução da Liga do Peloponeso.
esse revés, Atenas foi cercada totalmen-
te cercada e os espartanos obrigaram os A situação teve caráter provisório, pois consideradas dinâmicas e cheias de poder
moradores a destruírem as fortificações o sistema democrático voltou a vigorar – viveriam a ruína na economia, por causa
do local. Dali em diante, a hegemonia de em 403 a.C. dos gastos excessivos com guerras e dis-
Esparta reinaria sobre grande parte das ci- putas internas. Enquanto a Grécia tentava
dades-estado gregas, porém durante um O declínio de Atenas marcou a ascen- se recuperar, o Império da Macedônia, a
período de tempo relativamente curto. são de Esparta e desfez a única via pos- norte do território grego, buscava a con-
sível para a unificação do mundo grego, solidação de um projeto expansionista,
Logo após o fim dos embates, houve duramente atingido pela devolução aos emergindo como potência em meados do
uma reviravolta na política de Atenas, persas das cidades da Ásia Menor, em século IV a.C., sob o comando de Filipe II,
apoiado por Esparta. A oligarquia to- troca de ouro. Pesquisadores analisam que ocupou a Grécia, e do filho, Alexan-
mou o poder dos democratas, em uma que a substituição de um projeto baseado dre, o Grande – a conquista colocou um
administração conhecida como “Tirania no comércio por um sistema voltado ao ponto final no período do auge de Atenas
dos Trinta”, formada por 30 pessoas. militarismo foi a causa de desgastes no e da Grécia Antiga no Mar Mediterrâneo.
Os governantes, então, dissolveram a território helênico. Diversas aldeias – antes
Confederação de Delos e entregaram o 41
resto da frota ateniense para Esparta.
CAPÍTULO 4 • ERA DE OURO
GRÉCIA, REFERÊNCIA
NA DEMOCRACIA
A EVOLUÇÃO DO SISTEMA DEMOCRÁTICO NA CIDADE-ESTADO
SÍMBOLO DO VOTO E DO DEBATE DE IDEIAS
A influência do povo grego na cultura ocidental – em especial, a participação dos
atenienses – ultrapassou as fronteiras geográficas da Península Balcânica e, principal-
mente, sobreviveu ao tempo. O Período Clássico (500 a.C. – 338 a.C.) da Grécia Antiga re-
presentou uma revolução em diversas áreas do conhecimento humano, como arquitetura,
engenharia, literatura, teatro, escultura e filosofia, entre outros.
Tal desenvolvimento deixou marcas que ecoam em vários povos há muitos séculos. O contexto, naquele
momento, favoreceu a expansão dos ideais dos habitantes do território grego, sobretudo pelo protago-
nismo ateniense no cenário político, militar e econômico da época.
A chamada “Idade de Ouro” de Atenas foi fruto dos sucessos em batalhas, da atitude visionária de
um governante e da consolidação de uma novidade: o sistema democrático. Por isso, o surgimento e a
evolução dos pensamentos ligados à democracia devem ser detalhados, bem como os demais aspectos
que fizeram os atenienses observarem os fatos que ficariam eternizados nos livros de História, transfor-
mando a Grécia em uma das principais referências de nação.
42 CONDIÇÕES
INICIAIS PARA O
DESENVOLVIMENTO
DA DEMOCRACIA
Historiadores consideram que a formação inicial do
sistema democrático de Atenas (a primeira democracia
do mundo) tenha ocorrido por volta de 510 a.C. No en-
tanto, o processo de construção dos ideais democráticos
remonta ao desenvolvimento da cidade-estado como
criadora de leis.
Na época da fundação de Atenas pelo povo jônio,
o poder político estava sob o controle dos “eupátridas”,
donos das terras mais produtivas. O comando da reli-
gião, da guerra e da justiça ficava a cargo dos “basileus”
(soberanos). Ao longo dos anos, os basileus perderam
a supremacia e se transformaram em membros do ór-
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CAPÍTULO 4 • ERA DE OURO
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O CÓDIGO Drácon
DE DRÁCON se tornou
legislador em
O ATENIENSE DRÁCON 621 a.C. e foi
(TAMBÉM DENOMINADO responsável
DRACONTE), NASCIDO introdução do
EM 650 A.C., RECEBEU A registro por
MISSÃO DE ESTABELECER escrito das leis
UM CÓDIGO ESCRITO PARA em Atenas
A CIDADE NA TENTATIVA DE
DEBELAR O CONFLITO SOCIAL gão que recebeu o nome de “Arcontado” NOVIDADES
PROVOCADO PELA TENTATIVA (reunião de arcontes), grupo de políticos NA LEGISLAÇÃO
DE GOLPE DE ESTADO escolhido para um mandato anual e que ATENIENSE
DE OUTRO ATENIENSE, formava o “Areópago”.
CHAMADO CILÓN, QUE ERA O legislador e estadista ateniense Sólon
UM NOBRE AMBICIOSO, Do século VIII a.C. em diante, a orga- iniciou, em 594 a.C., reformas mais pro-
GENRO DO TIRANO DE nização política ateniense sofreu diversas fundas ao código proposto por Drácon.
MÉGARA, TEÁGENES. mudanças, principalmente após a expan- Ele perdoou dívidas e hipotecas de pe-
Cilón foi nomeado arconte de são territorial, ocorrida durante a Segunda quenos agricultores – o que incomodava
Atenas e pensou que também Diáspora, quando os portos e a posição sensivelmente tal parcela da população
poderia aplicar a tirania. Assim, geográfica do local favoreceram o inter- – e aboliu a escravidão por dívida. Uma
ele tentou comandar um golpe câmbio comercial com as colônias. A am- das ações foi a criação da “Bulé”, um
de estado em 632 a.C., tomando pliação das atividades econômicas – antes conselho inicialmente formado por 400
a Acrópole ateniense com a ajuda ligadas predominantemente à agricultura integrantes, responsável pelas funções
de soldados de Mégara e outros – produziu alterações no quadro social da administrativas e preparação das leis.
aristocratas. O arconte Mégacles cidade, uma vez que os comerciantes pas- Os textos precisavam ser submetidos
convocou o povo ateniense a saram a pressionar a aristocracia por uma à apreciação da “Eclésia”, ou “Assem-
pegar em armas, fato que causou participação maior no poder. Paralelamen- bleia”, formada por indivíduos livres do
grandes dificuldades aos planos te, a parcela mais pobre da população, sem sexo masculino. Além de votar as pro-
do postulante à tirania. acesso a nenhuma regalia (política nem postas de leis, o grupo deliberava sobre
O nobre e os companheiros econômica) protestava constantemente assuntos de interesse geral.
tiveram que se render. De acordo contra as desigualdades.
com pesquisadores, eles foram No contexto político, Sólon limitou
massacrados no templo de Com isso, os donos das terras férteis a atuação dos aristocratas e aumentou
Atenas, por ordem de Mégacles, foram obrigados a fazer concessões, de o número de participantes da vida pú-
que ignorou o caráter sagrado modo a conciliar os embates. Para tanto, blica de Atenas. As alterações propostas
do local. A decisão terminou no eles passaram a escolher, entre os inte- pelo legislador representaram passos
banimento de Mégacles e seus grantes da aristocracia, os legisladores, decisivos para o desenvolvimento do
familiares de Atenas. indicados especificamente para elaborar ambiente democrático, consolidado na
Assim, a partir de 621 a.C., Drácon textos com validade jurídica. Um dos prin- legislação de Clístenes. Apesar de todas
ficou responsável por elaborar cipais representantes da categoria foi Drá- as mudanças promovidas pelo estadista,
leis rígidas, baseadas nas normas con, que se tornou legislador em 621 a.C. as tensões continuaram entre a aristo-
tradicionais arbitradas pelos e respondeu pela introdução do registro cracia, os comerciantes, os artesãos e os
juízes. Em razão da legislação, por escrito das leis em Atenas – até en- pequenos proprietários de terras.
que trata principalmente dos tão, elas eram orais. A cidade passou a ser
crimes ligados ao Direito Penal, governada com base em uma legislação,
o adjetivo “draconiano” passou e não mais de acordo com os costumes.
a ter o significado de desumano
ou drástico. Esse código durou
até a época do político ateniense
Clístenes, por volta de 510 a.C.
44
CONHEÇA A HISTÓRIA • GRÉCIA
Em razão da continuidade dos conflitos, abriu-se espaço Shutterstock conhecido deles foi Pisístrato, que permaneceu no poder
para um novo tipo de líder político, capaz de articular a entre 560 a.C e 527 a.C., com intervalos.
população ateniense contra os membros da aristocracia da
cidade-estado. Quando chegaram ao poder, tais políticos, FIM DA TIRANIA
chamados de “tiranos”, governavam de forma autoritária e ATENIENSE
adotavam medidas voltadas para o apelo popular. O mais
Como pertencia a uma família tradicional de Atenas, Clís-
Vista da ágora ateniense, o principal espaço político tenes obteve o apoio necessário para destituir o tirano
para o desenvolvimento da democracia grega Hípias (que governou a cidade-estado entre 527 a.C. e
510 a.C.), filho de Pisístrato, outro tirano integrante de
uma família rival.
De acordo com relatos, Hípias teria cerca de 40 anos
quando assumiu o poder em Atenas, continuando a política
de engradecimento da pólis, iniciada pelo pai. O seu irmão
mais novo, Hiparco, com o qual teria governado, foi assas-
sinado em 514 a.C. por atenienses conhecidos como “Tira-
nicidas”. Assim, o tirano Hípias, que governava de forma
moderada, integrando aristocratas, passou a adotar várias
decisões que contrariavam o gosto popular. Um dos projetos
estipulava o aumento de impostos, necessário para financiar
o pagamento de mercenários contratados para defender o
governante das revoltas.
O fim da carreira de Hípias como tirano foi concretizado
A CRIAÇÃO se em três pilares: a as alterações no o século VI a.C., marcaram o início da
DA “ECLÉSIA” E sistema ático de pesos e medidas, a democracia na Grécia Antiga. Todavia,
O PENSAMENTO abolição da escravidão por dívidas estima-se que o termo “democracia”
DE SÓLON e a reforma censitária (que dividiu a (demo = povo, kratos = poder,
sociedade pela renda anual). O poeta domínio) deva ter surgido apenas
SÓLON FOI UM RENOMADO era membro de uma família nobre uma geração após a administração do
ESTADISTA DE ATENAS, QUE arruinada pela valorização dos bens político Clístenes, um dos principais
VIVEU ENTRE 638 A.C. E 558 A.C. em Atenas. No entanto, ele conseguiu defensores do sistema democrático,
ELE TAMBÉM EXERCEU ATIVIDADES se reconstituir economicamente, que assumiu o comando de Atenas
COMO LEGISLADOR E POETA. por meio da atividade comercial. em 507 a.C. – época em que realizou
FOI CONSIDERADO UM DOS SETE Contudo, as atitudes do estadista um vasto programa de mudanças.
SÁBIOS DA GRÉCIA ANTIGA – eram desagradáveis à aristocracia,
NAS ARTES, O POETA REDIGIU que desejava manter os privilégios Shutterstock
CONTEÚDOS LIGADOS AOS oligárquicos. A população da
ASPECTOS MORAIS E FILOSÓFICOS. cidade-estado, por outro lado, exigia
a promoção de uma reforma agrária,
Aristocrata de nascimento, Sólon ação que tornaria menos desigual a
atuava inicialmente no comércio, distribuição de terras. Sólon também
porém passou a se dedicar inteiramente modificou o código de leis de Drácon,
à política. O estadista propôs reformas que já não era mais seguido. Um
abrangentes, sem manter os privilégios exemplo foi a punição para a prática
dos grandes proprietários de terra. do roubo: antes era imputada a
A “Eclésia”, criada por ele, era uma pena de morte, e depois passou a
instituição da qual participavam ser uma multa igual ao dobro do
todos os homens livres atenienses, valor roubado. Após a entrada de
desde que fossem filhos de pai e mãe Pisístrato na cena política ateniense,
atenienses e maiores de 30 anos. o legislador tomou a decisão de seguir
Segundo historiadores, a obra voluntariamente para o exílio.
de Sólon como redator de leis baseia- Pesquisadores avaliam que as
reformas do legislador Sólon, durante
45
CAPÍTULO 4 • ERA DE OURO
quatro anos depois, em 510 a.C., quan- Shutterstock
do o rei espartano Cleómenes I atacou
Atenas. Graças à ajuda de atenienses Shutterstock A prata foi um dos principais
contrários à tirania, as tropas de Esparta recursos explorados na Grécia
cercaram Hípias e os partidários na Acró- Antiga
pole. O político de Atenas decidiu abdi- moeda durante o período áureo da
car do cargo e abandonar a cidade. Com democracia ateniense
isso, a família de Clístenes retornou do grega
exílio e o político foi capaz de ocupar o de 20 VOCÊ SABIA?
governo da cidade-estado. drachmas
De acordo com historiadores, o
No vácuo de poder em Atenas após cujos membros eram sorteados entre os início do século V a.C. presenciou
a expulsão de Hípias, ocorreu um emba- cidadãos. O governante também fortale- o aumento considerável de
te fundamental para a evolução do ideal ceu a “Eclésia”, que passou a se reunir emissões de moedas em Atenas,
democrático. Na ocasião, Clístenes buscou mensalmente para discutir as leis. aproveitando o crescimento da
o apoio da população e prometeu refor- produção de prata nas minas do
mas democráticas. A promessa dessas Os assuntos militares ficaram sob a Laurion. Além disso, o processo de
mudanças seria uma resposta para Iságo- responsabilidade dos “estrategos”. Es- fabricação de moedas foi acelerado,
ras, rival político, aristocrata e membro do pecialistas em Grécia Antiga atribuem a em vista dos preparativos para
governo que tentou bloquear projetos de Clístenes, ainda, a instituição do “ostra- enfrentar os persas, na Segunda
Clístenes. A saída para Iságoras foi cha- cismo”, que consistia na suspensão dos Guerra Médica.
mar novamente os espartanos para inva- direitos políticos e no exílio das pessoas As primeiras moedas da Grécia
dir Atenas mais uma vez, mas os habitan- avaliadas como perigosas para o gover- Antiga começaram a ser cunhadas
tes da pólis defenderam o local. O conflito no. Neste período, a perda dos direitos por volta do século VII a.C. Nas
entre atenienses e espartanos terminou de um cidadão era uma das maiores faces, eram reveladas figuras de
rapidamente, porém lançou as bases da humilhações para o homem livre de animais, plantas e objetos úteis
desconfiança entre as duas cidades-esta- Atenas. no dia a dia, com destaque para
do, o que resultaria em grandes batalhas, a coruja, a tartaruga e o Pégasus
como a Guerra do Peloponeso. No aspecto militar, o cidadão ate- (cavalo alado mitológico que
niense convivia com a possibilidade de representa a imortalidade).
O GOVERNO servir o exército todos os anos. A cada
DE CLÍSTENES 12 meses, ele também poderia se reunir Ilustração que representa um
com milhares de colegas na “Eclésia” ou modelo de moeda que circulava
Depois de assumir o controle do governo ate- ser listado na relação de 6 mil sorteados
niense, Clístenes ampliou as atribuições da como jurado para os tribunais populares. pelas ruas atenienses
“Eclésia” e permitiu a existência do que os ho- Naquela época, o território ateniense
mens do período denominavam “isonomia” abrigava milhares de imigrantes tempo- ça para se consolidar no século seguinte e
(igualdade perante a lei) e “isegoria” (direitos rários ou de outras cidades gregas. Con- representar o primeiro sistema do tipo na
iguais para discursar). Com isso, o político es- vém lembrar que eles também não eram história da humanidade. Ainda de acordo
tendeu os direitos de participação política a considerados cidadãos. com historiadores, o surgimento da demo-
todos os homens livres nascidos em Atenas, cracia na Grécia Antiga não foi fruto do pla-
denominados “cidadãos”. A democracia ateniense ganhava for- nejamento de um grupo de pensadores,
mas representou, de fato, uma surpresa,
Vale ressaltar, porém, que a participa- pois se tratou de algo inédito na trajetória
ção política era restrita a 10% dos habi- dos agrupamentos humanos.
tantes. Estavam excluídos da vida pública
os estrangeiros residentes em Atenas (os
chamados “metecos”), escravos, mu-
lheres, entre outros. Projeções indicam
que, por volta de 500 a.C., dos 400 mil
moradores da cidade-estado, apenas 90
mil eram considerados “cidadãos”. Com
as reformas de Clístenes, as funções ad-
ministrativas ficaram a cargo da “Bulé”,
46
CONHEÇA A HISTÓRIA • GRÉCIA
RELAÇÃO EN- Shutterstock jazida, em 483 a.C., a mineração passou Estátua em homenagem ao
TRE ECONOMIA Shutterstocka representar uma das principais fontes governante ateniense Péricles, um
E POLÍTICA de renda do município, ao lado do inten- dos principais responsáveis pelo
so comércio. No mesmo ano, o general período áureo da cidade-estado
O desenvolvimento do sistema demo- ateniense Temístocles – já influente e ao
crático ateniense também está direta- se aproveitar do ambiente democrático A “IDADE
mente relacionado ao contexto econô- em expansão – conseguiu convencer os DE OURO”
mico do período. Um fator fundamental conterrâneos a investir o lucro prove- DE ATENAS
para a opulência verificada em Atenas niente das minas em frota de 200 trir-
entre 480 a.C. (após o fim das Guerras remes, que serviriam para a proteção da Os fatos envolvidos na evolução do sis-
Médicas, contra os persas) e 404 a.C. cidade e seriam fundamentais para der- tema democrático foram essenciais para
(depois do encerramento da Guerra do rotar o Império Persa, três anos depois, que os habitantes de Atenas verificas-
Peloponeso, a série de conflitos contra na Batalha de Salamina. sem o esplendor da chamada “Idade de
os aliados de Esparta) foi o uso efetivo Ouro”, sob o governo de Péricles, político
das minas de prata de Laurion, que fi- Além disso, com a frota naval pode- fundamental para o desenvolvimento da
cavam 50 quilômetros ao sul da cidade. rosa, Atenas encabeçaria a Liga de Delos, cidade.
importante para colocar a cidade-estado
Na Antiguidade, a região era famosa no ponto mais alto da influência sobre os Não se sabe ao certo com quantos
pela quantidade de recursos minerais. demais gregos. Com os recursos mine- anos o governante entrou na vida po-
Após a descoberta de uma gigantesca rais, Atenas abriu caminho para ampliar lítica – é provável que, na época, ele
as reservas e estabelecer o domínio das tivesse mais de 25 anos. No início, ele
Estátua em águas do Mediterrâneo. atuou como assistente do político Efial-
homenagem ao tes, líder da ala democrática e mentor
historiador grego As minas eram exploradas por es- de Péricles, conhecida pelo pensamento
Tucídades, um cravos que pertenciam a atenienses, progressista.
dos admiradores alugados por dia. A comercialização da
de Péricles força de trabalho representava um inves- Por volta de 461 a.C., a liderança do
timento muito precioso para o município. partido democrático decidiu ter como
Vale lembrar que os mineiros tinham novo alvo o Areópago, conselho tradicio-
péssimas condições de trabalho: com nal controlado pela aristocracia ateniense
frequência, ficavam presos em galerias – o órgão estatal já chegou a ser o mais
estreitas, em condições insalubres. Por importante da pólis. Efialtes, então, pro-
conta disso, as revoltas e as fugas eram pôs uma redução dos poderes do Areó-
frequentes. Os escravos refugiavam-se, pago. A assembleia ateniense adotou a
na maioria das vezes, no tempo de Po- proposta sem grande oposição.
seidon, localizado no Cabo de Sounion,
no sul da Península Ática. Gradualmente, o partido democrático
passou a ser o partido dominante na polí-
Particularmente em relação a Ate- tica ateniense. Péricles, já influente na ci-
nas, quando Pisístrato retornou de dois dade, demonstrava disposição para segui
exílios e estabeleceu um governo mais
duradouro, nos anos 540 a.C., introduziu 47
uma cunhagem centralizada, represen-
tada pelas primeiras emissões de figuras
de corujas, que teria durado todo o pe-
ríodo da tirania e o início da democracia
de Clístenes.
Progressivamente, as cidades gregas
passaram a fabricar moedas com figuras
divinas. De instrumento de troca, as mo-
edas passaram a ser consideradas obras
de arte. Pelo requinte e aperfeiçoamen-
to da cunhagem, as produções da Grécia
Antiga adquiriram aspectos únicos e se
espalharam pelo Mar Mediterrâneo.
CAPÍTULO 4 • ERA DE OURO
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VOCÊ SABIA? A ÁGORA
ATENIENSE
A “stoa” ou “estoa”
foi um elemento A “ÁGORA” REPRESENTAVA
arquitetônico utilizado O ESPAÇO DA PRÁTICA
na Grécia Antiga, DEMOCRÁTICA EM ATENAS. O
inclusive na ágora TERMO TEM ORIGEM NO VERBO
ateniense. Consistia GREGO “AGORIEN” QUE, NO
em um corredor ou SÉCULO VIII A.C, SIGNIFICAVA
pórtico coberto, DISCUTIR E TOMAR DECISÕES.
comumente destinado AO LONGO DAS DÉCADAS, O
ao uso público. SIGNIFICADO FOI ALTERADO,
Stoa de Attalos, PASSANDO A CARACTERIZAR
ágora de O ATO DE COMPRAR.
Atenas, Grécia
A praça pública apresentava-
estratégias populistas, de modo a cativar cidadãos que serviam como jurados no -se como o local em que
os atenienses. Címon, de família rica, era supremo tribunal de Atenas. A medida circulavam propostas políticas,
o oponente político do líder do partido mais controversa foi uma lei promulga- com a deliberação de assuntos
democrático e conseguia obter o apoio da em 451 a.C. que restringia a cidadania importantes para a vida da
popular. Segundo pesquisadores, o pen- ateniense para quem tivessem ambos os sociedade ateniense, que
samento do político seguia o raciocínio pais nascidos no local. estabelecia uma distinção em
de que não existia mais espaço livre para relação aos povos que não
a evolução democrática – ao contrário Péricles desejava estabilizar o domí- contavam com uma “ágora”. Tais
das reflexões de Péricles, que, em 461 nio de Atenas sobre a Liga de Delos, em populações eram consideradas
a.C., conseguiu eliminar politicamente que a cidade-estado se transformou em bárbaras, pois, em grande parte
o oponente, por meio da instituição do um império. Isso ocorreu porque diversos das vezes, tinham como forma
ostracismo. A acusação seria de que Cí- aliados na confederação optaram por pa- de governo a monarquia, sem a
mon teria traído a cidade ao atuar como gar tributo aos atenienses, em vez de for- necessidade de deliberação ou de
amigo de Esparta. O líder do partido de- necer mão de obra para os navios da frota reuniões para discutir política.
mocrático tornou-se o inquestionável so- militar da liga. Com receio de derrotas e Em linhas gerais, a ágora pode
berano de Atenas, que permaneceu no batalhar na região do Mar Egeu, Atenas ser definida como uma grande
poder por quase quatro décadas, até a reteve o tesouro da aliança de Delos (an- praça aberta, usada para
morte, em 429 a.C., aos 66 anos. tiga sede da liga e que guardava os bens) funções públicas. No local, um
em 454 a.C. Foi do tesouro da aliança que grande número de cidadãos
Mesmo após o ostracismo do adver- Péricles extraiu os fundos necessários se encontrava para várias
sário, Péricles continuou a promover uma para financiar o plano ambicioso de cons- atividades, como assembléias,
política social populista. Ele propôs um trução na cidade, baseada principalmente festivais, eleições, competições
decreto que permitia aos pobres assistir na “Acrópole”, que incluía os Propileus, o atléticas e desfiles. Por isso,
gratuitamente às peças teatrais, com o Partenon e a estátua dourada de Atena, o local ficou conhecido como
Estado pagando o preço dos ingressos. esculpida por Fídias, amigo pessoal de o centro da pólis. Em meio a
Em outro texto, reduziu as exigências de Péricles. essa dinâmica, surgiu como
propriedade necessária para a eleição ao um espaço aberto que, aos
cargo de arconte, em 458 a.C., e con- No ano de 449 a.C., Péricles propôs poucos, se fecharia, uma vez
cedeu salários generosos para todos os um decreto que permitia o uso de uma que, com o passar do tempo, a
quantia elevada de recursos para finan- cidade se organizava – assim, a
48 praça passou a ter um tamanho
delimitado, de acordo com a
divisão em quarteirões.
CONHEÇA A HISTÓRIA • GRÉCIA
ciar o principal programa de recons- nesses locais que os cidadãos se encon- santuários pequenos e de altares – gran-
trução dos templos atenienses, o que travam para discutir filosofia, artes, ne- de parte deles era dedicado aos semideu-
possibilitou a edificação de algumas das gócios ou política. ses, conhecidos como heróis. Como os lo-
mais maravilhosas criações artísticas do cais sagrados estavam situados no centro
mundo antigo. Naquele período, Atenas As primeiras estoas eram abertas na da vida cotidiana, recebiam atenção mais
já vivia uma efervescência na política, entrada, com colunas que ladeavam o regular da população do que os grandes
economia, cultura, religião e em vários edifício e costumavam ser feitas no esti- edifícios erguidos na “Acrópole”, região
outros setores da sociedade. lo dórico. Os edifícios eram inteiramente mais alta da cidade.
abertos ao público, em que mercadores
De acordo com o historiador romano podiam vender os produtos. Artistas A história do local pode ser dividida
e biógrafo Plutarco, após assumir a lide- mostravam ali as obras, da mesma for- em três fases. Na primeira fase, por volta
rança de Atenas, Péricles não era mais o ma que a realização de cerimônias reli- de 500 a.C., foi utilizado o declive natu-
mesmo homem de antes, um tanto sub- giosas. As estoas ficavam normalmente ral da encosta. A superfície foi nivelada e
misso ao povo. O historiador grego Tu- ao redor das ágoras. uma parede foi construída no lado norte.
cídides, admirador e contemporâneo de
Péricles, afirmou que Atenas apresenta- Nos edifícios como a Stoa Real e a VOCÊ SABIA?
va um sistema democrático, mas era, de Stoa do Sul I, ficavam os responsáveis
fato, “governada pelo primeiro cidadão”. pela administração diária de Atenas. No auge da Grécia Antiga, o
O biógrafo ainda argumenta que Péricles Os legisladores atenienses faziam reu- Pnyx foi o ponto de encontro
“conduzia a multidão, ao invés de ser niões diárias no chamado “Bouleute- oficial da “Eclésia”. No início
conduzido por ela”. rion”, localizado em toda a extensão do da democracia ateniense, após
lado oeste da praça. Os arquivos cen- as reformas de Clístenes, as
A ÁGORA trais ficavam guardados no “Metroon”. reuniões ocorriam na ágora,
EM DETALHES Os fóruns estavam localizados na parte porém, durante o século V a.C.,
nordeste e sul da ágora. De acordo com passaram a ser realizadas em
A ágora era circundada por longas relatos, as atividades comerciais nessa uma colina perto da Acrópole,
“stoai” (plural de “stoa”), largos pórticos área ocorriam diariamente, nas formas denominado “Pnyx”. A colina
que protegiam os visitantes da chuva, de grandes mercados, em pequenas lo- fica na região central ateniense,
ao mesmo tempo em que traziam luz jas particulares e nas ruas. rodeada por um parque, com
e ar. Além disso, cada “stoa” preenchia uma área plana e degraus
uma função social importante, pois era A ágora também servia como um escavados na encosta. Foram
centro religioso de referência. Por isso, travados, nesse lugar, os
a praça possuía um número elevado de grandes debates políticos do
auge ateniense.
Espaço do Pnyx, local próximo à ágora em que
eram realizadas votações importantes
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CAPÍTULO 4 • ERA DE OURO
Erecteion, uma das principais
edificações da Acrópole de Atenas
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Na segunda etapa, a orientação do audi- ência para saber quem desejava delibe- VOCÊ SABIA?
tório foi invertida, mas o tamanho per- rar. Os oradores mais frequentes eram
maneceu semelhante. Na terceira fase, conhecidos como “hoi politeuomenoi” Segundo pesquisadores dos
o Pnyx foi reconstruído e ampliado para (os políticos). procedimentos ligados à
a audiência de aproximadamente 14 mil democracia ateniense, uma
pessoas. Na ocasião, uma plataforma Alguns oficiais, como os “estrategos” série de tomada de decisões
para o orador, chamada de “Bema”, foi (generais), poderiam adquirir proemi- na “Eclésia” poderia durar
esculpida na rocha. nência política ao demonstrar poder de até quatro horas.
persuasão na assembleia, com a capaci-
No século IV a.C., a “Eclésia” era dade de convencer os cidadãos. Péricles, A ACRÓPOLE
chamada, pelo menos, quatro vezes por por exemplo, obteve grande influência ATENIENSE
mês, para discutir temas relevantes indi- sobre o grupo. Depois da apresentação
cados pela “Bulé”. O primeiro encontro de pareceres pelos cidadãos, era feita A acrópole de Atenas é outro símbolo
da assembleia era chamado de “sobe- uma votação, por meio da contagem de do auge da democracia na cidade-esta-
rano”, em que eram discutidos temas mãos levantadas, caracterizando a pri- do. O termo tem origem na junção, em
vitais, como o suprimento de grãos e a meir a democracia direta de que se tem grego, de “akros” (o mais alto) e “polis”
defesa nacional. A permanência dos ofi- conhecimento. Até o começo do século (cidade). Trata-se de uma colina rochosa
ciais nos cargos também era decisão do V a.C., a “Eclésia” acumulava a função de topo plano que se ergue 150 metros
órgão. de votar as leis. Contudo, tal função foi acima do nível do mar e abriga algumas
transferida para os nomótetas (em gre- das mais famosas edificações do mundo
As decisões da “Eclésia” começava go, “elaboradores de lei”). Por fim, a antigo, como o Partenon e o Erecteion.
pela leitura de uma “agenda”, por um “Bulé”, além de dirigir as discussões na
representante da “Bulé”, com os itens assembleia, era responsável por verificar Vale lembrar que as acrópoles da
selecionados a serem discutidos – no en- o cumprimento das discussões e por su- Grécia Antiga serviam originalmente
tanto, os tópicos poderiam ser alterados pervisionar as atitudes dos oficiais.
pelos participantes. Quando o assunto
era apresentado, consultava-se a audi-
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VOCÊ SABIA? Shutterstock
A palavra “propileu” nasceu
da união do prefixo pro
(em frente de) e o plural do
grego “pylon” ou “pylaion”
(portão). Na avaliação de
historiadores, o propileu da
Acrópole em Atenas destaca-
-se pela grandiosidade do
que pela proteção oferecida
às construções.
como proteção contra os invasores de Ilustração de
cidades inimigas. Elas estavam frequen- vista áerea
temente cercadas por muralhas. Com o da Acrópole
tempo, os locais passaram a servir como
sedes administrativas civis ou religiosas. a.C. Ictino e Calícrates, dois arquitetos fa- O MODELO DE
Em relação ao início da ocupação huma- mosos, e Fídias, um dos principais escul- DEMOCRACIA
na na colina, os artefatos mais antigos tores gregos, foram os responsáveis pela DIRETA
datam de meados do período Neolítico. reconstrução. ATENIENSE
Na Idade do Bronze, existiram habita-
ções na região, além de oficinas, casas Durante o século V a.C., a acrópole A “BULÉ” (CONSELHO
e espaço de culto. ganhou a forma final. O estadista Cimon RESPONSÁVEL PELAS
e o general Temístocles ordenaram a re- FUNÇÕES ADMINISTRATIVAS
Registros históricos indicam que um construção dos lados sul e norte das mu- E PREPARAÇÃO DAS LEIS)
templo para Atena Polias (padroeira da ralhas, enquanto Péricles encomendou E O “PRITANEU” – LOCAL
cidade e de outros municípios) foi ergui- o projeto do Partenon. Em 437 a.C., o DE REUNIÃO DOS MAIS
do por volta do século VI a.C. No fim do arquiteto Mnésciles começou a elaborar ALTOS MAGISTRADOS
mesmo século, outro templo tinha sido o “Propileu”, com colunas de mármore, ATENIENSES, CONHECIDOS
construído, o Archaiios Naos (“templo parcialmente construído sobre o propileu COMO PRÍTANES – ERAM
antigo”, em grego), que pode ter sido do tirano Pisístrato – a obra foi encerrada INSTITUIÇÕES RESPONSÁVEIS
dedicado a Atena Partenos. Um novo em 432 a.C. POR ORGANIZAR O
templo em mármore, o “Antigo Parte- FUNCIONAMENTO DA
non”, foi iniciado na época da Batalha de No mesmo período, os atenienses “ECLÉSIA”, ASSEMBLEIA
Maratona, em 490 a.C. Para acomodá-lo, iniciaram a edificação do Erecteion, uma CARACTERIZADA POR
a porção sul do planalto foi liberada de das construções mais famosas de Ate- TOMAR DECISÕES NA
obstáculos e nivelada com o comple- nas, que apresenta esculturas no lugar ATENAS DEMOCRÁTICA.
mento de cerca de 8 mil blocos de pedra de colunas, para celebrações que in-
do Pireu, que chegavam a apresentar 11 cluíam homenagens, entre outros, aos Podiam participar da “Eclésia”
metros de profundidade, formando uma deuses e a Erecteu (rei da cidade-estado todos os cidadãos (homens
espécie de muro de contenção. atenisense, de acordo com a mitologia livres acima de 18 anos) que
grega). Entre o Partenon e o templo de quisessem comparecer, em
O portão da Acrópole foi substituído Atena Nice (deusa grega que personifi- que temas importantes eram
pelo chamado “Propileu Antigo”, uma cava vitória, força e velocidade, repre- postos em votação. Os cidadãos
coluna imponente na entrada da colina. sentada por uma mulher com asas), atenienses promoviam reuniões
As construções permaneceram inacaba- ficava o espaço destinado à adoração de no Pnyx – exigia-se a presença
das por um período, por causa das in- Ártemis Baurônia, a deusa representada de 6 mil pessoas para a votação
vasões persas em 480 a.C. Na ocasião, de temas importantes.
elas foram destruídas. A maior parte
das construções da Acrópole foi erguida 51
quando a cidade estava sob o coman-
do de Péricles, durante a fase conhecida
como “Era de Ouro”, entre 460 a.C. e 430