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Published by ㅤㅤㅤ ㅤㅤ, 2018-02-28 09:32:07

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FOTO: DIVULGAÇÃO/PCDF

CRIMES Condenado por quatro estupros, Walker Faraes foi processado por mais um depois que seus dados genéticos foram usados em investigação

12 de fevereiro de 2018 I ÉPOCA I 51

SEGURANÇA

FOTO: MICHEL FILHO/AGÊNCIA O GLOBO presença de cromossomos XY – e a
individualização do sujeito, o mais re-
PISTA GENÉTICA perfeita.Mais surpreendente foi um match levante para as investigações, já que é
Perito trabalha sêxtuplo, ou seja: os resíduos de DNA um robusto indício para ajudar a ino-
no laboratório da encontrados em todos os artefatos são centar um suspeito ou ligá-lo ao crime.
Polícia Federal, de um mesmo criminoso, o que indica
em Brasília. que ele esteve em todos os roubos. O fato Falta a investigações no Brasil um
Tecnologia há. O foi comemorado pelos investigadores banco genético mais completo, com um
que falta é por revelar um nexo entre as explosões. acervo de DNA de condenados por cri-
material Isso pode ajudar a desenrolar a comple- mes hediondos e com grave violência
genético para xa trama dos crimes, ainda sem solução. contra a pessoa e de suspeitos, desde que
comparação haja autorização judicial, exatamente
E ntretanto, nada se sabe ainda sobre como prevê a lei de 2012, mas que nun-
52 I ÉPOCA I 12 de fevereiro de 2018 quem é esse indivíduo. Nem nome, ca chegou a ser realmente implementado
onde vive, se já teve passagens pela nas cadeias estaduais. Na semana passa-
polícia ou se já está inclusive condena- da, a procuradora-geral da República,
do por outros delitos, sem ser respon- Raquel Dodge, encaminhou ao Supremo
sabilizado por essas seis transgressões. Tribunal Federal um parecer sobre o
O confuso conjunto de letras que tra- assunto. A controvérsia do banco gené-
duz o perfil genético é único em cada tico chegou ao Supremo em maio de
ser humano – exceto em casos de ir- 2016, por meio de um recurso extraor-
mãos gêmeos univitelinos (gêmeos e dinário, que caiu nas mãos do ministro
trigêmeos idênticos, por exemplo). Os Gilmar Mendes. Em um caso ocorrido
esclarecimentos que as análises apon- em Minas Gerais, o suspeito envolvido
tam são a comprovação de se tratar de não autorizou que sua saliva fosse cole-
uma pessoa do sexo masculino – pela tada para um exame de DNA, como
manda a lei. Seu defensor público levou
o caso ao Supremo, questionando a cons-
titucionalidade da lei. Ele argumentou
que a coleta é uma possível violação de
direitos da personalidade e da prerroga-
tiva de alguém não se autoincriminar.

Em seu parecer, Raquel Dodge reco-
menda que o Supremo não dê provi-
mento ao recurso do defensor e mante-
nha a norma vigente. No texto, a
procuradora-geral afirma que não há
“ofensa aos artigos 1o e 5o da Constitui-
ção Federal”. Para ela, “a identificação
criminal é direito do Estado voltado à
promoção da segurança pública”. Argu-
menta que há “ausência de ofensa ao
princípio da legalidade, uma vez que a
obrigação encontra-se amparada em lei,
em consonância com o princípio da pro-
porcionalidade e de outros direitos cons-
titucionais envolvidos, assim como em
orientação da Unesco sobre o tema”.

A decisão do caso é fundamental A ANÁLISE DE coletada. Seu material biológico foi en-
para manter um recurso extrema- DADOS GENÉTICOS viado ao banco de dados integrado.
mente útil em investigações no Assim que a sequência genética entrou
mundo inteiro. Crimes contra o patri- DE SUSPEITOS É no sistema das polícias, descobriu-se
mônio, como os roubos a caixas eletrô- FUNDAMENTAL PARA que o DNA daquele preso era o mesmo
nicos, nem são o foco principal. A coletado em vestígios presentes em ao
análise de dados genéticos é uma ferra- A ELUCIDAÇÃO DE menos três estupros, ocorridos entre 18
menta mesmo para a elucidação de CRIMES SEXUAIS de agosto e 29 de dezembro de 2014 e
crimes sexuais, especialmente em casos que permaneciam nas pilhas de crimes
em que há estupro com conjunção car- sem solução. Eles aconteceram em
nal, pois a perícia pode coletar vestígios Águas Claras e Taguatinga, cidades no
de sêmen e saliva no corpo da vítima, entorno de Brasília, e seguiram o mes-
esteja ela com vida ou não. Foi o caso mo ritual: o estuprador perambulava
do pastor e músico evangélico Renato de carro por lugares ermos e escolhia as
Bandeira. Em 2015, ele foi preso em vítimas aleatoriamente. Abordava as
Belo Horizonte, capital de Minas Ge- mulheres com arma de fogo ou facão,
rais, acusado de assédio. Na prisão, por obrigava-as a entrar no carro, onde as
determinação da Justiça, sua saliva foi estuprava, e em seguida as abandonava. s

FALTAM DADOS
A perita Aline
Minervino. Usar
dados de DNA
ajuda a dar
respostas a
famílias de
vítimas de
crimes

FOTO: MICHEL FILHO/AGÊNCIA O GLOBO

12 de fevereiro de 2018 I ÉPOCA I 53

SEGURANÇA

Na semana passada, a Polícia Cien- solução. Agora, Faraes deve responder e sempre mediante autorização judicial;
tífica do estado de São Paulo obteve por mais um estupro e por homicídio e para todos os condenados em crimes
autorização judicial para colher a saliva qualificado.“A mensagem que fica é que hediondos ou com grave violência con-
de um criminoso em série preso na ca- não importa em qual estado o crimino- tra a pessoa. Se a norma estivesse sendo
deia de Guarulhos, cujo nome ainda so esteja atuando, ele poderá ser encon- cumprida à risca e as amostras estives-
não foi divulgado. Ele era acusado de trado”, afirma o perito criminal Alexan- sem sendo colhidas e processadas Brasil
cometer sete estupros. Processadas suas dre Learth Soares, diretor do Núcleo de afora, o banco nacional deveria ter no
informações e compartilhadas no ban- Biologia e Bioquímica do Instituto de mínimo 70 mil pessoas com suas ca-
co de dados, pôde-se atribuir não só os Criminalística de São Paulo. deias de DNA devidamente identifica-
sete conhecidos, como ainda mais três das, de acordo com cálculos da Secre-
estupros pelos quais não era nem mes- A coleta de material biológico para taria Nacional de Segurança Pública.
mo considerado suspeito. Agora ele ser confrontado com vestígios Atualmente, a Rede Integrada de Ban-
deve responder por dez crimes sexuais. presentes em bancos de dados das cos de Perfis Genéticos, vinculada ao
polícias do país, instituída pela lei de Ministério da Justiça, tem nome e so-
Walker Fernandes Faraes já cumpria 2012, é feita hoje pelo chamado “swab brenome de apenas 2.300 perfis gené-
pena de 19 anos e 11 meses de prisão bucal”, em que o perito passa uma es- ticos – uma quantidade ínfima.
por quatro estupros em Minas Gerais. pécie de cotonete grande na mucosa
Ao fornecer saliva para cadastramento interna da bochecha do indivíduo. A lei De acordo com a perita criminal Ali-
no banco de dados, em março de 2017, prevê que a pessoa ceda a amostra em ne Minervino, coordenadora do Comi-
acabou contribuindo para a elucidação apenas dois casos: quando esteja sob tê Gestor da Rede Integrada, para que
de outro crime, um estupro seguido da investigação, sendo a análise de seus a análise de vestígios leve os investiga-
morte de uma jovem de 18 anos, em genes indispensável para as apurações, dores a descobrir o nome de um sus-
Brasília, que estava havia cinco anos sem peito é fundamental ampliar a base de

SEIS CRIMES, UM DNA

Quando e onde foram encontradas as amostras que revelaram que o perfil genético era do mesmo criminoso

maio/2015
Luva

Gravatá 2 3

PE

Ribeirão

mar./2014 GO Serro maio/2015
Boné Sangue na
Cristalina 1
jan./2016 máquina
Sangue na parede Paiçandu 6
54
PR
Conceição do
Mato Dentro

dez./2015 out./2015
Sangue na máquina Escova de dentes

54 I ÉPOCA I 12 de fevereiro de 2018

para coletar os dados de todos os cri-

minosos sexuais condenados nas ca-

deias estaduais. Por enquanto, seis es-

tados brasileiros ainda não possuem

laboratórios de análise genética – Rio

Grande do Norte, Sergipe, Piauí, Acre,

Roraima e Tocantins.

Embora o banco de dados genéticos

com perfis de condenados e investiga-

dos conte com o entusiasmo de peritos

e investigadores, a discussão sobre se a

coleta realmente fere o direito de al-

guém não se autoincriminar é uma

ameaça real. O Supremo Tribunal Fe-

deral já proferiu decisões garantindo

que um suspeito não é obrigado a for-

FOTOS: REPRODUÇÃO necer padrão gráfico para exame gra-

fotécnico, aquele de reconhecimento de

letra escrita, nem a colaborar empres-

tando sua voz para perícia vocal. Por

ATAQUE Imagens de uma das explosões de caixas eletrônicos em agência da Caixa. Peritos isso, o parecer da procuradora-geral,
encontraram DNA de um mesmo criminoso em seis furtos desse tipo, em um intervalo de dois anos
Raquel Dodge, e o exame da questão

no Supremo são fundamentais para dar

dados de DNA. “Os bancos de dados segurança a processos em andamento
mais completos trazem um ganho de
tempo e dinheiro, ao desafogar os inves- O SUPREMO JÁ TOMOU e a futuras investigações.
tigadores sobrecarregados em casos sem DECISÕES QUE
solução, além de ajudarem a dar respos- Enquanto o Supremo não decide,
tas mais eficientes a vítimas e seus fami- LIVRARAM SUSPEITOS
liares”, diz Aline. O que falta, portanto, DE FORNECER não se sabe o que fazer exatamente
é material para trabalhar, pois a tecno-
logia está disponível. O Laboratório de EVIDÊNCIAS QUE quando a pessoa se recusar a permitir
Genética Forense do Instituto Nacional PODERIAM
de Criminalística da Polícia Federal, a coleta de seu material genético. A
onde Aline atua, é referência na Améri- INCRIMINÁ-LOS
ca Latina. Como o Brasil é membro da orientação é não forçar e informar ime-
Interpol, a polícia internacional, os per-
fis genéticos catalogados podem ser diatamente a autoridade judicial res-
compartilhados com outros 192 países.
ponsável.“Como a lei não prevê sanção
A ofensiva para aumentar o número
de perfis do banco de DNA come- a quem desobedecer à lei e se recusar
çou com o presídio federal de
Catanduvas, no Paraná, onde os juízes nesse tipo de colaboração, talvez pudés-
determinaram a coleta de amostras de
todos os detidos enquadrados na lei. semos trabalhar com a ideia de o sujei-
Depois o modelo foi reproduzido nas
outras penitenciárias federais. Até o fim to reconhecer como uma vantagem
do primeiro semestre deste ano, será
realizado um projeto-piloto na Bahia colaborar”, afirma o advogado e profes-

sor da Universidade de Brasília (UnB)

João Costa Neto, representante da Or-

dem dos Advogados do Brasil (OAB)

num comitê que ampara o trabalho

com dados genéticos em investigações.

A par de tudo isso, a polícia mantém

guardado o material genético coletado

nos roubos a caixas eletrônicos, para

comparar quando prender algum sus-

peito. Quem sabe descobrirá o sujeito

por trás daquele conjunto de letras, que

esqueceu tantas coisas nas agências de

onde levou tanto dinheiro. u

12 de fevereiro de 2018 I ÉPOCA I 55

REDE DO PENSAMENTO

Ao lado dos sócios, Laura
Zelmanovits e Jaime
Spitzcovsky, Marina
Auriemo está à frente do
M.inq – Mundo Inquieto –, rede
de aproximadamente 3 mil
mulheres, com idade entre
30 e 65 anos, interessadas
em debater e entender temas
importantes da atualidade. As
palestras com especialistas
em diversos setores
costumam atrair multidões
para o shopping Cidade
Jardim, em São Paulo. “Entre
as novidades desta edição,
que começa no dia 20, estão
painéis com cientistas políticos
para debater as eleições de
2018. Outra inovação são
as aulas com o doutor em
psicologia clínica Luiz Hanns,
que abordará questões sobre
a arte de viver a dois”, conta
ela. Marina esclarece que os
homens podem se inscrever
nas palestras. “Criamos o
M.inq para nós, mulheres,
entendermos o mundo a nossa
volta. Mas não é um clube da
Luluzinha. Eles também são
bem-vindos.”
FOTO: MARVEL
Heroína fashion FOTO: DADÁ CARDOSO
Uma das guerreiras do grupo Dora Milaje caminhos e são independentes, sem que
em Pantera negra, novo filme da Marvel se desconectem dos amigos e da família.
que estreia nesta semana em todo o Brasil, Assim como a personagem, tenho um
a atriz Lupita Nyong’o só tem motivos senso de responsabilidade. Quero que
para festejar. Ativista e primeira mulher se orgulhem de mim”, diz ela. Além da
queniana-mexicana a ganhar um Oscar atitude, os looks de Lupita prometem
na categoria de Melhor Atriz Coadjuvante, virar tendência. “Amo o jeito como a
pelo filme 12 anos de escravidão, ela Nakia, minha personagem, se veste.
acredita que vai inspirar muitas mulheres Ela é uma aventureira influenciada pelas
com sua performance destemida. “Amo experiências que teve. É pragmática e
mulheres que seguem seus próprios tem os pés no chão.”

56 I ÉPOCA I 12 de fevereiro de 2018

[email protected]

A filha do Didi JÚNIOR OLIVEIRA/ VIRA COMUNICAÇÃO

Prestes a completar 19 anos, no dia 23, A volta da musa
Livian Aragão tem feito bonito como a personagem
Angélica na novela Tempo de amar. Dia desses, De volta de Milão, a modelo e atriz Quitéria Chagas
ganhou elogios rasgados da veterana Nívea Maria, também retorna ao Carnaval carioca como uma
que vive sua tia no folhetim das 6. “Nunca imaginei
que, com essa idade, estaria ali, contracenando das musas da Império Serrano. “Me afastei por três
com a Nívea e com o Tony Ramos. Além de
grandes profissionais, são pessoas incríveis anos para me dedicar a ser mãe. Não estou muito
mesmo”, derrete-se ela. Filha de Renato Aragão,
Livian diz que o eterno Trapalhão é daqueles pais preocupada com a forma física, porque consegui
corujas. “Ele assiste a todas as minhas cenas e
não é daqueles que só elogiam; critica também.” repor meu corpo depois de ter engordado 40 quilos
E como Didi se comporta diante do namoro da
filha com o DJ José Marcos, com quem a atriz na gravidez. Só estou focada na tonificação, porque,
está há pouco mais de um ano? “Ele adora o
Zé e o chama sempre para ir lá em casa.” se fico fortona, isso atrapalha

Do samba para sambar”, conta ela,
à literatura
que usará uma fantasia
A advogada e vlogger Monique
Elias, de 36 anos, fará sua estreia com 20 mil cristais, antes
no Carnaval carioca como uma das
musas da Imperatriz Leopoldinen- da comissão de frente.
se, depois de convencer o marido,
o empresário Itamar Serpa Fer- Quitéria, que também é
nandes, de 76, a deixá-la realizar o
sonho antigo. Ele é dono do império psicóloga, aproveitou a
dos cosméticos Embelleze. “Itamar
estada recente na Europa
achava que talvez não fosse bom
para a minha imagem, sabe? Não para analisar a questão
tinha a ver com ciúme”, afirma
ela, que está colocando um ponto do preconceito. “Na
final em sua autobiografia, Eu já
Itália, ainda existem
existia. Monique diz que o
livro servirá para calar partidos políticos
o preconceito contra
seu relacionamento. contra estrangeiros
“Vou contar minha
trajetória desde antes e gays, revistas e FOTO: THIAGO DE LUCENA/DIVULGAÇÃO
de conhecer o Itamar.
Eu já tinha uma vida programas de TV
antes dele: casa, filhos,
carro, ensino superior e com humor que

pós-graduações. Sempre humilha os ditos
fui muito batalhadora. Come-
cei a ler bem novinha. Adorava ‘diferentes’. Essas

enciclopédias e bulas de coisas só aumentam
remédios. Isso foi me viciando.”
FOTO: DIVULGAÇÃO e reproduzem um

ensino intolerante.

Racismo é uma Com Acyr Méra Júnior
praga social.” e Guilherme Scarpa

12 de fevereiro de 2018 I ÉPOCA I 57

BRUNO ASTUTO

E N T R E V I S TA

Leia a coluna diária de Bruno Astuto em epoca.com.br

ALEXANDRE NERO Com os pés
na moda
ATOR
Aos 30 anos, Rafael Breier está
“Acho que nasci despontando no mundo da moda
para ser lobo” internacional. Nascido na peque-
na Rolante, cidade gaúcha com
C onhecido pelos personagens enig- conheço bem essas pessoas, sabe? pouco mais de 20 mil habitantes,
máticos na TV – o Comendador, de Podiam me mandar para Viena, para o bonitão trabalhava como eletri-
Império, e Romero Rômulo, de A regra do passar um tempo com os ricos e fazer cista, antes de dar expediente nas
jogo, são alguns deles –, Alexandre Nero laboratório para o personagem. passarelas e campanhas de grifes
vai voltar às telas bem bronzeado para dar como Giorgio Armani, Dsquared2,
vida a um coronel dúbio na nova supersé- ÉPOCA – É um personagem machista. Ralph Lauren e Michael Kors. “Já
rie da Globo, Onde nascem os fortes. “É Que juízo faz dele? tomei muito choque na vida e ga-
um machão que se transforma em criança Nero – Ele é um coronel nhava cerca de R$ 1.500 por mês
quando está perto dos filhos”, define o ator. contemporâneo. Não bebe só pinga, no antigo trabalho. Entre os servi-
tem dinheiro, deve ser um cara que ços mais comuns, estavam reparos
ÉPOCA – Que Brasil a série retrata? passa Natal em Londres. Dentro do em chuveiros e troca da fiação de
Alexandre Nero – Meio faroeste, universo machista que apresentamos, tomadas”, lembra o top, que mora
um lugar onde as pessoas andam com em que o cara tem amante e é muito em Nova York com a namorada, a
arma na cintura e é preciso ser macho, poderoso, não posso dizer que seja também modelo Maria Emília. Mas
se afirmar, mostrar no grito quem é mau-caráter. Mas ele vira o principal nem tudo são flores no universo
que manda. Para as mulheres, então, suspeito de um assassinato. fashion. Certa vez, o moço foi veta-
não é nada fácil. Quanto mais se do em um desfile porque seu pé foi
afunila, vamos vendo onde estão ÉPOCA – O que você tem que considerado feio demais. “Jogo fu-
os realmente fortes. No sertão, a mexe tanto com o imaginário tebol de campo e, por isso, meu pé
grande criação é o bode, um bicho feminino? é bem ferrado. Ao chegar ao teste,
que come pedra, se vira. É como o Nero – Não sou eu, são os estava sem uma das unhas, que
povo brasileiro, um animal forte. A personagens. Mas me sinto caiu depois de um jogo. Mas tudo
gente é muito f... só por estar aqui. ótimo com isso, né? Dá ibope. bem. Graças ao futebol, ganhei a
parte do meu corpo que acho mais
ÉPOCA – Qual a maior Se o personagem pede, eu bacana: minhas panturrilhas.”
dificuldade de gravar faço. O Comendador,
no sertão? de Império, mexia
Nero – Foi a primeira com os homens
vez em que fiquei também. Eles
longe do meu filho. queriam ter aquele
Essa é a parte mais cabelo. Me sentia
difícil, porque não honrado. Se tem
pega nem celular. de seduzir, eu
Tem Wi-Fi só no seduzo. Acho
hotel. Como gravo que nasci
dez, 12 horas por para ser lobo.
dia em estúdio,
uso maquiagem INSTINTO
para deixar a pele Nero:
mais escura. E “Se tem
essa coisa de de seduzir,
eu me tornar um eu seduzo”
cara rico sempre FOTO: ESTEVAM AVELLAR/TV GLOBO
é complicada. Não FOTO: RYAN MICHAEL KELLY

58 I ÉPOCA I 12 de fevereiro de 2018

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WALCYR CARRASCO

Gente feliz me irrita

A hhh, eu sei que muitas almas generosas ficam escan- em meu apartamento. Expliquei que não. Impossível con-
dalizadas quando digo uma coisa dessas. Mas é fato. viver com a alegria carnavalesca de quem veio passar férias,

Não há nada mais irritante, e até tenebroso, do que gente tendo de trabalhar. Imaginei os dois chegando às 3, 4 da

feliz. Vá a uma churrascaria em almoço de domingo. Tem manhã, sem nem conseguir andar em linha reta. E eu, ain-

coisa pior? É contemplar o espetáculo de famílias rindo, da no computador. Resolvi fugir de tanta comemoração.

gritando entre si, crianças chorando, mães nervosas, mas Um amigo falou de um retiro, aonde pretende ir.

nem por isso menos felizes. Enquanto eu e um ou dois Lembrei-me de que no meu tempo de adolescente ia,

amigos nos refugiamos num canto, tentando conversar. Aí sim, a retiros carnavalescos. O mais inesquecível foi um em

alguém canta parabéns, o garçom vem com um bolo, a que nós, os garotos, dormimos em uma capela antiga onde

outra mesa comemora. E algum de nós se lembra do últi- havia morcegos. Silêncio. Pensei em ir também. Escreveria

mo aniversário, que caiu na véspera de um feriado pro- no silêncio da madrugada. Meu amigo explicou. O retiro

longado, e ninguém foi à festa. Algo assim. Soube que a seria próximo ao Rio de Janeiro.

taxa de suicídio no Natal e no Ano-Novo aumenta. Óbvio. – O bom é que fazem iniciação ao ayahuasca.

Alguma alma solitária está em seu apartamento, ouvindo – Ahn? Que tipo de retiro é esse?

o tilintar de copos no apartamento do lado. A troca de – Espiritual. A gente vai entrar em outros mundos,

presentes com gritinhos. Chega um momento, não resiste atingir outra dimensão.

mais. Abre a janela e se atira. Já passei por Quatro ou cinco dias com ayahuasca!

isso há muitos anos. Um Natal solitário, A bebida, no passado, fez parte de rituais

depois da morte de meus pais. Inicial- xamânicos. Hoje também faz, mas os xa-
mente estava muito bem. Até comprei IMPOSSÍVEL CONVIVER mãs são mais modernos. Eu suportaria
uma roupa que queria, de presente para passar esse tempo com todo mundo sor-
mim mesmo. Mas e à noite, com a casa COM A ALEGRIA rindo, viajando, viajando... e eu, terrá-
do lado toda iluminada, risos infantis? CARNAVALESCA. queo, atolado no mundo real? Tantos

Só não me atirei porque morava em casa RESOLVI FUGIR sorrisos me dariam pânico. Resolvi me
térrea. O máximo seria quebrar o nariz DE TANTA esconder em São Paulo. Até o fim do Car-
no cimento. Desde então, cultivei outras naval, o que se torna cada vez mais uma
COMEMORAÇÃO
relações familiares e tenho ótimos natais data desconhecida. No ano passado, logo

com minhas sobrinhas. Não se preocu- após a Quarta-Feira de Cinzas, tinha blo-

pem com meu próximo Natal. co. De despedida. No sábado o desfile das

Mas estou escrevendo uma novela, O outro lado do pa- campeãs. Aí, surgem outros blocos porque a alegria não

raíso. Um capítulo por dia. Eu estava no Rio de Janeiro. acabou. Dá-lhe Carnaval!

Pretendia passar pelo menos uma noite na Sapucaí, assis- Não tenho uma alma generosa que se derrete enquanto

tindo ao desfile. Já me irritei só de pensar nisso. É numa noivos choram no altar e saem para uma lua de mel em

data dessas que minha barriga tira a vontade de botar alguma ilha exótica. Eu queria, isso sim, ir para a tal ilha.

fantasia. Ou de sair num bloco, como um respeitável Bem acompanhado. E amigos que saem para festas às 11

advogado amigo meu fez, de sunga e gravatinha-borbo- da noite e voltam às 9 da manhã? Ou às 14, porque agora

leta. Mas ele comparece à academia diariamente. Minha tem o after e o pós-after? Tanta energia irrita. Pronto, falei.

resolução de permanecer no Rio desapareceu em um úni- Sou egoísta? Atire a primeira pedra se puder. Antes

co fim de semana. Das primeiras horas da manhã até a faça uma experiência. Vá sozinho e veja um bloco de

noite, um bloco desabrochou em frente a meu apartamen- Carnaval. Ontem vi um com todos, moças e rapazes, de

to. Ouvi samba, pagode. Sem parar. Eu escrevendo. Adoro saias verdes e asas de anjo. Assista anônimo enquanto

escrever. Mas não com uma multidão enchendo a rua, pulam, bebem, se divertem.

feliz, feliz! Gente que veio de todos os cantos do país e até Consulte seu coração. Foi a melhor experiência da sua

do mundo, sambando, arrancando a roupa, se conhecen- vida? Seja sincero. Gente feliz é irritante. u

do e partindo pras finalizações. Eu, ouvindo. E até a ma-

drugada, na praia, um outro bloco, também de gente feliz. Walcyr Carrasco é jornalista, autor de livros,
Dois amigos vêm do exterior. Sugeriu-se que ficassem peças teatrais e novelas de televisão

60 I ÉPOCA I 12 de fevereiro de 2018

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62 I ÉPOCA I 12 de fevereiro de 2018

Ruan de Sousa Gabriel como The Moth e Pop-Up Magazine podcast e um programa de rádio (The
(EUA) e Live Magazine (França). Nes- Moth radio hour), transmitidos por
N a noite de 11 de abril de 2016, Suzi ses eventos, pessoas sobem ao palco mais de 200 emissoras espalhadas pelos
Ronson subiu ao púlpito de uma para contar suas histórias sem a me- Estados Unidos. As melhores histórias
igreja protestante de Londres, a diação de um jornalista. Ronson con- foram compiladas em dois livros: The
Union Chapel, e contou para uma tou sua história num evento do Moth, Moth: 50 true stories (The Moth: 50 his-
multidão de quase 2 mil pessoas como uma organização sem fins lucrativos tórias verdadeiras) e All these wonders:
ela ajudara David Bowie (1947-2016) fundada pelo escritor George Dawes true stories about facing the unknown,
a se transformar em Ziggy Stardust, o Green em 1997, em Nova York. Green que acaba de ganhar edição brasileira
alienígena que veio salvar o planeta desejava recriar as noites de sua infân- com o título Tudo que é belo (Todavia,
Terra, mas foi salvo pelo rock and roll. cia, no sul dos Estados Unidos, quan- 384 páginas, R$ 59) e tradução de José
No começo dos anos 1970, Ronson do os vizinhos se reuniam na varanda Geraldo Couto. Tudo que é belo contém
trabalhava num salão de beleza nos para jogar cartas, tomar um trago, 45 transcrições de histórias contadas
arredores de Londres. Um dia, foi à ouvir e contar histórias. As poucas nos palcos do Moth, levemente editadas
mansão de Bowie para cortar e tingir luzes acesas atraíam mariposas para a por Catherine Burns, diretora artística
de vermelho a farta cabeleira loira que conversa – o termo inglês “moth” sig- do grupo. As histórias são ora cômicas,
ele ostentava à época. “Aquele foi nifica “mariposa”. The Moth costuma ora comoventes. Os temas variam entre
um momento decisivo para David”, lotar teatros nos Estados Unidos e em o assombro diante do desconhecido e a
disse Ronson em entrevista a ÉPOCA. outros países – o público é atraído superação de limites: uma pastora lu-
“Ziggy Stardust nasceu daquele corte pelas histórias como as mariposas pela terana tem uma crise de ansiedade
de cabelo. Foi ali que ele completou luz. Cada noite de contação de histó- numa viagem entre Belém e Jericó; uma
sua transição de um cantor folk para rias tem um tema diferente (“voltar moça perde a memória e não lembra
um roqueiro de cabelo vermelho.” (leia para casa”, “na natureza selvagem”). mais que rompeu com o namorado; um
mais a partir da página 66.) Há um punhado de apresentações por pai vai visitar o assassino de sua filha na
noite e cada uma delas costuma durar cadeia; uma astronauta faz reparos de
A história de como Ronson ajudou entre cinco e 12 minutos. Quem está última hora (e à distância) numa espa-
no parto de Ziggy Stardust decerto ren- no palco se esforça para driblar o ner- çonave a caminho de Plutão. E, é claro,
deria uma bela crônica jornalística, um vosismo e contar sua história com ali no meio está a história de como Suzi
alentado perfil num suplemento domi- naturalidade – como se estivesse numa Ronson ajudou a revolucionar o rock
nical ou numa revista, com fotos de varanda. É proibido recorrer a anota- com uma tesoura e tinta vermelha.
arquivo, aspas de pessoas próximas dela ções ou a qualquer material de apoio.
e de Bowie à época e comentários de A ntes de subir ao palco do Moth,
acadêmicos sobre o impacto cultural do Além das noites de contação de his- uma história percorre um cami-
novo penteado do roqueiro camaleôni- tórias, The Moth se desdobrou em um nho parecido com o que costu-
co. No entanto, em vez de conceder uma ma trilhar uma pauta jornalística, da
entrevista que depois se transformaria NUM PALCO, AS apuração às páginas de um jornal ou
num texto nas mãos de um repórter, PESSOAS uma revista – entrevistas, redação, edi-
Ronson preferiu contar ela própria sua ção. A equipe do Moth trabalha como
história ao público. A seu modo, o que SE TRANSFORMAM, um time de repórteres, sempre à caça
ela fez naquela igreja londrina foi um POR UM DIA, EM de boas histórias e personagens notá-
tipo de jornalismo – jornalismo ao vivo veis. “Eu costumo entrevistar a pessoa
ou “live journalism”, um gênero em ATORES E CONTAM por uma hora, ou várias horas. Às vezes,
ascensão que combina técnicas de apu- SUAS HISTÓRIAS ao longo de meses ou anos”, contou
ração jornalística, performance teatral COMO SE FOSSEM Catherine Burns em entrevista a ÉPOCA.
e storytelling (contação de histórias). REPORTAGENS “Depois, eu mando para ela um es-
boço da história. Quando um estra-
Os eventos de live journalism têm nho conta o que ouviu você narrar, s
se multiplicado pelos Estados Unidos
e pela Europa graças a iniciativas

12 de fevereiro de 2018 I ÉPOCA I 63

C U LTU R A FOTO: DENISE OFELIA MANGEN

NA VARANDA Noite de contação de histórias do The Moth. Quem se apresenta não pode usar nenhum material de apoio

64 I ÉPOCA I 12 de fevereiro de 2018

é mais fácil acrescentar informações do ATRAI MARIPOSAS história deve ser contada por meio da
que escrever um esboço você mesmo. Capa do livro
Então, eu peço para eles me contarem Tudo que é belo, plataforma mais adequada para ela”, afir-
a história toda em voz alta, em detalhes. organizado
Da primeira vez, leva uns 20 minutos. por Catherine mou Lene Bech Sillesen, colaboradora
Nós passamos as semanas seguintes Burns. Os temas
tentando diminuir esse tempo sem dei- das histórias da Columbia Journalism Review, revista
xar de cobrir os pontos principais.” Suzi variam entre
Ronson trabalhou com Meg Bowles, o desconhecido especializada em discutir os dilemas da
uma das produtoras do Moth, para dar e a superação
forma a sua história. “No começo, era de limites imprensa.“Talvez uma história seja mais
só uma história sobre quando eu cortei
o cabelo de David Bowie”, afirmou quem contou e quem assistiu às histórias bem contada por meio de uma apresen-
Ronson. “Mas Meg me disse que isso podem conversar e trocar impressões.
podia ir além. Eu escrevia rascunhos e Em 2014, a Pop-Up lançou a California tação de dança ou um ensaio fotográfico.
mandava para ela. Depois, ela me tele- Sunday Magazine, uma revista mensal
fonava e eu tentava narrar sem olhar as – e impressa – distribuída com alguns Tudo é possível para o live journalism.”
anotações. Ela foi me mostrando como jornais importantes da Costa Oeste ame-
contar uma história.” ricana, como o Los Angeles Times e o San Ao se apoiar em experiências pessoais,
Francisco Chronicle.
Uma das mais bem-sucedidas inicia- e não no texto frio de um repórter, o
tivas de live journalism é a Pop-Up Ma- M as quão jornalístico é o live jour-
gazine, uma revista americana fundada nalism? A discussão sobre que live journalism parece pecar contra um
em 2009, em San Francisco, que dispen- barreiras o jornalismo pode ul-
sou o papel. As reportagens, resenhas e trapassar e ainda manter sua pretensão dos mandamentos mais antigos e reve-
perfis são encenados ao vivo, em frente de objetividade é notícia velha. Nos anos
a plateias proibidas de fotografar ou fil- 1950, surgiu o “new journalism” (ou renciados da imprensa: a objetividade.
mar o que acontece no palco – não há “jornalismo literário”), que incorporou
qualquer registro digital desses eventos. técnicas literárias à reportagem. O live No entanto, com o declínio das publi-
A Pop-Up lota teatros pelos Estados Uni- journalism vai ainda mais longe ao
dos e os ingressos costumam esgotar em transformar a reportagem numa espécie cações impressas e a explosão das redes
menos de 30 minutos. O processo edi- de espetáculo teatral. “Jornalismo é um
torial da Pop-Up é quase igual ao de fenômeno fluido”, disse Barbie Zelizer, sociais, a própria noção de objetivida-
qualquer veículo jornalístico: apura- estudiosa da comunicação e professora
se a história, checam-se os fatos, edita- da Universidade da Pensilvânia. “Live de, entendida como um distanciamen-
se o texto. Mas o caminho final é o palco, journalism não é o que tradicionalmen-
não a gráfica. As apresentações mimeti- te chamamos de jornalismo, mas serve to desapaixonado, mudou. O público
zam a estrutura de uma revista de varie- para nos ajudar a entender o mundo ao
dades: breves resenhas e perfis curtos são nosso redor e a nos engajar nele. É im- consumidor de notícias e reportagens
seguidos de reportagens aprofundadas portante abraçar o jornalismo em todas
– tudo transportado para o palco. As as suas formas.” O flerte com o mundo pela internet não quer mais ser um lei-
histórias são contadas por jornalistas e das artes performáticas (e o vasto mun-
escritores com o auxílio de vídeos, info- do digital) permite encontrar o melhor tor passivo que compreende o mundo
gráficos e trilha sonora. Os recursos in- meio para cada mensagem – há repor-
crementam a experiência do espectador, tagens que não cabem no papel. “Uma em parágrafos curtos e sem adjetivos,
que assiste à sequência de performances
como quem folheia uma revista. As apre- mas quer se engajar nas histórias, par-
sentações terminam com uma festa onde
ticipar, reconhecer ali algo próximo de

sua própria experiência. “O live jour-

nalism oferece experiências reais nas

quais jornalistas e contadores de histó-

rias se apresentam como pessoas reais

e a plateia tem a experiência social,

sente-se parte de uma comunidade”,

disse Sillesen. “Live journalism é um

desenvolvimento válido, pois alinha o

jornalismo com a experiência real em

vez de apresentá-lo como algo distante

e excepcional”, afirmou Zelizer. Mais

do que um fenômeno, o live journalism

é uma tentativa ousada de responder a

um desafio candente do jornalismo

atual: engajar e inspirar leitores como

um roqueiro de cabelo vermelho é ca-

paz de atrair jovens que se sentem

como alienígenas. u

Nas páginas seguintes, leia capítulo de
Tudo que é belo, sobre a cabeleireira de
David Bowie.

12 de fevereiro de 2018 I ÉPOCA I 65

C U LTU R A

Quem fez a cabeça
de DavidBowie

ÉPOCA Suzi Ronson me revelando bastante boa. De modo
publica com
exclusividade N asci alguns anos depois da Segun- que ao final do curso fui transferida
da Guerra Mundial e morei com
um trecho meus pais numa bela casa num para o salão que era o carro-chefe da
de Tudo que é subúrbio a sudeste de Londres – Bromley,
belo, antologia em Kent. Meus pais se casaram depois Evelyn Paget, em Beckenham.
da guerra simplesmente porque era o
do grupo que todo mundo estava fazendo. O go- Foi lá que conheci a sra. Jones. A sra.
americano de verno dava uma generosa subvenção;
contadores de costumávamos ter leite grátis e almoços Jones era minha cliente de xampu e
histórias The muito bons na escola.
penteado das quintas-feiras às quinze
Moth Tanto meu pai quanto minha mãe tra-
balhavam: meu pai era motorista de ca- para as três. De vez em quando ela pedia
minhão que entregava carne e minha mãe
era vendedora numa loja de roupas em uma aparada nas pontas e muito espa-
Beckenham. Acho que eles não espera-
vam muita coisa de mim. Acho que pen- çadamente um tingimento cor de cho-
savam que eu iria, sabe como é, sair da
escola, virar adulta, arranjar um emprego, colate. Enquanto eu cuidava de seu
quem sabe casar e morar ali pertinho.
cabelo, ela falava sobre o filho David.
Bem, a swinging London dos anos
1960 mudou tudo isso. Era uma época Dizia: “Era uma criança tão artística”
formidável para ser adolescente em
Londres. Tínhamos a melhor música e “Canta numa banda”.
– os Beatles e os Rolling Stones –, tínha-
mos a melhor moda – a minissaia – e Tinha muito orgulho dele, sabe? Eu
tínhamos a pílula.
concordava com a cabeça, sorria e es-
A modelo do momento era a Twiggy.
Ela era alta, magricela, de peito chato e cutava, como vocês estão fazendo
cabelo liso. Foi um desafio pessoal. Que-
ro dizer que eu estava completamente agora, mas foi só quando ela mencio-
fora do padrão. Tinha este cabelo gros-
so e encrespado com o qual não conse- nou “Space Oddity” que meus ouvi-
guia fazer nada, óculos ainda mais gros-
sos, cintura e quadris. Eu não ia bem nos dos se aguçaram.
estudos, não gostava da escola, e aos 15
anos decidi: para mim chega. Perguntei: “Space Oddity?”.

Então saí da escola e me matriculei Ela respondeu: “Sim”.
na Evelyn Paget College of Hair and
Beauty, em Bromley. Não diria que ser Eu disse: “Bom, eu ouvi essa música
cabeleireira fosse o trabalho dos meus
sonhos, mas com meu nível de instru- no rádio”. Era um sucesso.
ção essa era a melhor opção, e acabei
Disse também: “Estamos falando de

David Bowie?”.

“Sim”, respondeu ela.“Sou a mãe dele.”

Puxa, eu estava surpresa com aquilo.

Havia um zum-zum-zum sobre David em

Beckenham. Ele tocava no pub local, o

Three Tuns – ainda que fosse música folk

–, mas tinha o hit “Space Oditty”. Já tinha

algum tempo, por isso eu achei que talvez

fosse um daqueles one hit wonder.
N a primeira vez que vi David Bowie,
ele estava descendo a Beckenham
High Street de vestido, e junto
com ele ia uma garota de calça preta

justinha. Acabei conhecendo a garota

– a sra. Jones a levou ao salão. Era Angie,

a esposa de David. s

66 I ÉPOCA I 12 de fevereiro de 2018

CAMALEÃO FOTO: CHRIS WALTER/WIREIMAGE/GETTY IMAGES
O roqueiro David Bowie
caracterizado como
Ziggy Stardust.
A cabeleireira da mãe
dele foi a responsável
pelo corte alienígena

12 de fevereiro de 2018 I ÉPOCA I 67

C U LTU R A FOTO: MICHAEL PUTLAND/GETTY IMAGES Bom, gostei dela na hora. Era tão
legal e segura de si, e se vestia tão bem
PARTEIRA – com certeza não comprava suas roupas
Suzi Ronson e em Beckenham. Ela conversou um pou-
seu marido, o co comigo sobre sua vida. Fazia ilumi-
guitarrista Mick nação para os shows de David, e eles
Ronson, nos passavam a noite toda nos clubes notur-
anos 1970. Ela nos de Londres e se divertiam muito.
cortou e pintou o
cabelo de Bowie Tudo aquilo parecia tão glamoroso.
Na segunda vez que a vi, ela chegou
68 I ÉPOCA I 12 de fevereiro de 2018 para fazer o cabelo. Era a semana do
Natal. Bom, todo salão que se preze está
lotado na semana do Natal.
Puxei-a para um canto e disse:
“Olhe, não posso fazer seu cabelo
aqui, mas te dou meu telefone, me
liga. Eu vou até sua casa”.

E lá fui eu para Haddon Hall. Ficava a
um quilômetro e meio da cidade, era
uma daquelas mansões enormes.
Estava dividida em apartamentos. David
e Angie tinham o andar intermediário.

Não era só pelo tamanho que o lugar
era acachapante, mas também pelo jei-
to como estava decorado: um tapete
azul-marinho, paredes azul-marinho e
um teto prateado. Não havia muita mo-
bília: um sofá; um par de cadeiras; uma
mesa de centro comprida e baixa; capas
de discos por toda parte; e uma guitar-
ra no canto.

David e Angie estavam sentados no
meio de uma janela saliente discutindo
os prós e contras de cortar curtinho o
cabelo dele – que na época tinha um
cabelo louro comprido e ondulado.
Perguntaram minha opinião.

Eu disse: “Ninguém usa cabelo cur-
to hoje em dia” – o que era verdade.
“Você pode ser o primeiro.”

Ele se levantou e veio me mostrar
uma foto numa revista. Era uma mode-
lo de Kansai Yamamoto com cabelo
curto, vermelho, espetado.

Disse para mim: “Você consegue fa-
zer isto?”.

LOIRINHO CA/REDFERNS/GETTY IMAGES eu tinha conseguido! Não sabia se ia dar
David Bowie certo até sentir aquela textura mudando
antes de se Rezei para estar certa. nas minhas mãos enquanto eu enxuga-
transformar Encontrei a cor, “Red Hot Red” da va o cabelo e ele ficava em pé.
num roqueiro de Schwarzkopf com peróxido 30 volumes
cabelo para dar uma levantadinha. Não havia Ele estava fenomenal.
vermelho. naquela época nenhum produto que Comecei a juntar minhas coisas para
Nessa época, ele me ajudasse a fazer o cabelo parar em ir embora, e Angie disse: “Ah, quanto
cantava folk pé. Então usei GARD. GARD era um lhe devemos?”.
tratamento anticaspa que eu só usava Acho que eu disse: “Duas libras, por
Enquanto respondo que sim, penso nas freguesas mais velhas do salão – dei- favor”.
comigo mesma: “Isso é meio bizarro. É xava o cabelo duro como pedra.
um penteado de mulher, e como é que No instante em que David se viu no F ui embora. Dali a mais ou menos
eu vou fazer?”. espelho com aquele cabelo curto, ver- uma semana, Angie me ligou e dis-
melho e espetado, todas as dúvidas se se: “Sabe, a banda está tocando em
Por dentro, porém, estava empolgada dissiparam. Angie e eu olhamos para Londres, por que você não vem assistir?”.
– era uma chance de ser bem criativa. ele assombradas, ele estava lindo.
Ele tinha uma magreza de rock star, pele Uma grande onda de alívio me inva- Eu disse: “Vou adorar”.
clara, pescoço comprido, lindo rosto – diu: eu tinha conseguido, vejam vocês, Era numa faculdade, então fui lá ver
se eu me saísse bem, ficaria fantástico! e não sabia muito bem o que esperar,
sabem como é. Entrei no lugar, estava
Bom, levei uma meia hora para fazer completamente lotado, e fiquei na pla-
o corte e quando terminei o cabelo dele teia. As luzes se apagaram, começou a
não ficava em pé. Meio que desabava. tocar uma música e foi um verdadeiro
momento de “oh, meu Deus” para mim.
Olhei para David, ele estava em pâ- Quando a banda entrou no palco,
nico, e eu não estava lá muito animada David estava totalmente maquiado – seu
e acabei dizendo: “Olhe, David, o pró- cabelo vermelho flamejava sob as luzes.
ximo passo é tingir seu cabelo, a cor vai Ele se convertera em Ziggy Stardust. A
mudar a textura e ele vai parar em pé”. banda estava toda vestida com roupas
que pareciam de tecido de cortina: velu-
do liso em tom pastel enfiado em botas
de amarrar. Estavam incríveis. E quando
tocaram, o lugar balançou, foi muito
bom – inacreditavelmente bom.
Fui para casa pensando comigo mes-
ma: “Oh, meu Deus, aquilo não era
música folk!”. Eu não sabia o que estava
esperando, mas não era aquilo.
Bom, Angie me ligou no dia seguin-
te e disse: “Gostou do show? Quer vir a
Haddon Hall de novo?”. E lá fui eu.
Conheci Freddie Burretti. Ele era ami-
go de David e o ajudava a desenhar as
roupas. Era fabuloso. Andava de modo
afetado, tinha a língua presa e era sim-
plesmente magnífico. Fiquei fascinada
pelo Freddie. Nunca tinha conhecido
um gay antes. Em algum momento s

12 de fevereiro de 2018 I ÉPOCA I 69

C U LTU R A

daquela noite, David se inclinou e beijou presário de David, Tony Defries, e no rista – ele não queria ficar com um
Freddie bem na boca. Eu não sabia para final da tarde o emprego era meu. visual parecido com o de David.
que lado olhar, sabem como é?
S ó quando já estava dirigindo meu Comecei a fazer shows com eles.
Olhei para Angie e ela estava rindo, carro de volta para casa que me Fizemos Top of the Pops – David cantou
e de repente me senti completamen- dei conta: “Minha vida vai mudar “Starman” e quando ele envolvia Mick
te sem chão. Eu não era como aque- de verdade. Vou para a estrada com Ronson com seus braços durante o
las pessoas. Eu não sabia quem era uma banda de rock and roll!”. Eu esta- refrão, acho que aquilo sacudia a Grã-
Nietzsche. Nunca ouvira falar de Lou va muito empolgada. Bretanha até a medula. Ninguém fazia
Reed e do Velvet Underground, nem coisas assim naquela época, simples-
de Andy Warhol. Eu com certeza nun- No dia seguinte fui à Evelyn Paget dar mente não fazia. (Meus pais, obvia-
ca tinha visto dois caras se beijarem. a notícia ao meu chefe, e ele olhou para mente, ficaram chocados.)
Eu era de Beckenham! mim e disse: “Sabe, Suzanne, você devia
pensar duas vezes antes de largar um David estava sempre pensando no
Mais tarde naquela noite, Angie me emprego seguro e bem remunerado”. que faria em seguida, era sempre mui-
puxou para um canto e disse: “Sabe de to ambicioso, e queria criar o teatro do
uma coisa? David e eu andamos con- Eu disse: “Sim, eu devia”. rock and roll. De modo que alugamos
versando e gostaríamos que você vies- Claro que depois disso minha auto- um teatro em Londres, em Finsbury
se trabalhar com a gente em tempo confiança não tinha limites. Peguei o Park, e ele construiu um cenário – com
integral. Entre nessa viagem. Vá ao baterista e o transformei num Ziggy sistema de andaimes e gelo seco e luzes
escritório da MainMan, combine seu louro, desbastei o cabelo de Trevor e o – e era fantástico.
salário e venha trabalhar com a gente”. deixei espetado no alto da cabeça e
com costeletas prateadas. O único que Estávamos todos trabalhando de-
Lá fui eu ao escritório da MainMan, não aderiu foi Mick Ronson, o guitar- zoito horas por dia para montar aque-
com o coração na mão. Conheci o em- le show, e ele dizia: “Não contem para

70 I ÉPOCA I 12 de fevereiro de 2018

AO VIVO FOTO: ASTRID STAWIARZ/WIREIMAGE/GETTY IMAGES modo que David vinha para a coxia, e O último show que David fez como
Suzi Ronson eu estava lá com uma taça de vinho, um Ziggy Stardust foi no Hamersmith Odeon
conta sua cigarro Gitane e, enquanto Mick fazia em julho de 1973, e ele simplesmente pa-
história no a guitarra gemer a dez passos de mim, rou na frente do palco e disse: “Este é o
The Moth. eu trocava as roupas de David. Acaba- último show que vamos fazer na vida”.
O encontro com mos ficando bons naquilo. Então cantou “Rock’n’Roll Suicide”.
David Bowie
mudou seu Fomos para os Estados Unidos e fi- Foi triste dizer adeus a Ziggy, acho
destino camos no Plaza em Nova York. Era que todos estávamos tristes com essa
um hotel incrível. despedida, mas não voltei para casa. Fui
ninguém, nada de gravar, nada de Tínhamos uma equipe de batedores para a Itália, me apaixonei por um gui-
câmeras”. formidável. Cherry Vanilla, que era tarrista e me mudei para Londres com ele.
uma groupie famosa, e Leee Black
Claro que, quanto mais você capricha Childers, um ator da turma de Andy Sou muito grata a minha sorte. Sou
nesse tipo de coisa, mais interessante ela Warhol. Eles iam até a cidade seguinte grata por ter conhecido a sra. Jones e
fica, e abrimos para a imprensa fazer es- da turnê, visitavam clubes noturnos Angie, grata por ter dado o número do
tardalhaço. Todas as celebridades vieram. gays e criavam uma efervescência. Era meu telefone a Angie – caso contrário,
uma ideia realmente muito boa, por- outra pessoa poderia ter vivido a minha
A garotada veio com seus cortes de que levava a garotada aos shows. vida. Emocionada por ter conhecido e
cabelo à la Ziggy, e foi um grande show. me casado com o falecido e formidável
Acho que a única pessoa que não gostou Conheci Iggy Pop na Califórnia. Fi- Mick Ronson e por ter tido com ele
foi o Elton John. Ele saiu no meio, di- camos no Beverly Hills Hotel. Iggy quis uma filha linda.
zendo: “Isso não é rock and roll”. que eu tingisse seu cabelo de azul, e foi
o que fiz. E, claro, sou grata a David. Ele fez
Mas era rock and roll, porque saímos uma aposta em mim, mudou minha
rodando de ônibus pela Inglaterra, no- Eu disse a ele: “Sabe, talvez seja bom vida completamente.
vos shows eram acrescentados, os tea- você enxaguar isso algumas vezes antes
tros ficavam cada vez maiores e os in- de voltar para a piscina”. Meu corte de cabelo está no dinhei-
gressos se esgotavam. E eu estava com ro britânico agora – na cédula de dez
David e os rapazes o tempo todo na- Claro que ele não me deu ouvidos, e libras de Brixton.
quele período, fazendo o cabelo de todo no final da tarde havia um rastro azul
mundo, cuidando das roupas, fazendo de uma ponta a outra da piscina do Agora me digam, quem poderia ima-
lavagem a seco, providenciando para Beverly Hills Hotel. (Acho que pediram ginar que eu era capaz de fazer isso?
que tudo estivesse em ordem. para ele se retirar depois dessa.)
Suzi Ronson ajudou muitos bacanas em
Havia muitas trocas de roupas, de Fomos ao Japão, onde conheci Kan- muita coisa, no papel de administradora
sai Yamamoto e pincei mais algumas doméstica, produtora musical e consultora
roupas maravilhosas para o David. Era em Nova York, nos Hamptons, Flórida, e
empolgante. De repente eu era desco- em Tortola, nas Ilhas Virgens Britânicas.
lada: a garota de cabelo grosso e óculos É cantora e compositora que só se apresen-
ainda mais grossos estava num mundo ta para amigos. Também adora cavalos e
em que todos queriam estar. viajou pelo circuito de cavalgadas nos Es-
tados Unidos com uma garota que estava
Voltei para Beckenham, andei de competindo. Suzi vive no West Village, em
uma ponta a outra da High Street, olhei Nova York, enquanto sua filha e o restante
pelas vidraças da Evelyn Paget – meu da família moram em Londres. Ela jura
Deus, parecia tão pequena, fiquei mui- que um dia vai voltar.
to feliz de não estar mais ali.
Esta história foi contada em 11 de
Nada tinha mudado em Beckenham,
nada tinha mudado em casa, mas eu abril de 2016 na Union Chapel, em Lon-
estava tão transformada, eu estava a um
milhão de quilômetros dali. dres. O tema da noite era Voltar para

Casa. Diretora: Meg Bowles. u

12 de fevereiro de 2018 I ÉPOCA I 71

EQUADOR

FOTO: RODRIGO BUENDIA / AFP

Será o fim dos LIMITE
caudilhos? O presidente
Lenín Moreno
Um referendo no Equador impediu que
repudia a reeleição seu mentor
presidencial ilimitada. voltasse ao
Outros países estão se poder pela
mexendo para garantir a quarta vez
alternância de poder
Em um referendo realizado no dia
Ariel Palacios 4 de fevereiro pelo governo do pre-
sidente Lenín Moreno, 64% dos
72 I ÉPOCA I 12 de fevereiro de 2018 eleitores equatorianos decidiram aca-
bar com o sistema de reeleições ilimi-
tadas no país. A regra para a reeleição
havia sido aprovada em 2015 pelo en-
tão presidente, Rafael Correa (2005-
2016). O bloqueio à recandidatura
pode acabar com as ambições de Cor-
rea, que se preparava para concorrer
outra vez. E deve libertar o Equador da
praga dos presidentes que chegam ao
posto por vias democráticas conven-
cionais e, a partir daí, apoiados em es-
tratégias populistas, começam a torcer
as regras para se perpetuar no poder.

Correa, que já teve três mandatos
presidenciais consecutivos antes de
Moreno, não poderá voltar ao Palácio

Carondelet. No entanto, poderá ser reeleição. Ele se reelegeu e ficou com Lugo, para aprovar uma reforma da
candidato a prefeito de sua cidade, apetite demais. Tentou em 2010 obter da Constituição de forma a permitir as
Guayaquil. E, tal como o ex-presidente Corte Suprema a autorização para dis- reeleições. A ação de Cartes e Lugo gerou
colombiano Álvaro Uribe, também im- putar um terceiro mandato. No entanto, uma reação popular tão furiosa que le-
pedido de disputar novas reeleições. o tribunal negou o pedido. Seu sucessor, vou ao incêndio de um dos andares da
Juan Manuel Santos, acabou com o sis- Câmara de Deputados. Cartes e Lugo
O artífice do fim da chamada era tema, aprovando no Parlamento uma tiveram de desistir da reforma.
Correa chegou ao poder de forma não reforma da Carta Magna na qual deter-
planejada. A primeira opção de Correa mina que “não poderá ser reeleito o ci- A s reeleições ilimitadas também são
para ser seu sucessor era o vice, Jorge dadão que, de qualquer forma, tenha repudiadas no México desde a pri-
Glas. Mas Glas não decolava nas pesqui- exercido a Presidência”. Isto é, não pode- meira metade do século XX, já que
sas. Desta forma, para evitar uma der- rá disputar a Presidência do país, além o presidente Porfirio Díaz havia coman-
rota, Correa recorreu a seu vice anterior, dado o país por 30 anos – sete mandatos
o popular Moreno. Ele tornou-se o can- A TENTAÇÃO DE quase consecutivos, com uma única in-
didato a presidente, com Glas como vice. REELEIÇÕES SEM terrupção no meio, encerrados com sua
Durante a campanha, Moreno prome- FIM SEDUZ TANTO fuga em 1911 –, instaurando um regime
teu investigar os casos de corrupção de corrupto que levou os mexicanos à ruína.
governos anteriores. POLÍTICOS DE Após a queda de Díaz e até 1935 os pre-
ESQUERDA QUANTO sidentes podiam ser reeleitos uma única
Poucos imaginavam que os tais“gover- vez. Mas a partir dali a Constituição foi
nos anteriores”incluíam a própria gestão DE DIREITA NA modificada, impedindo reeleições de
Correa. Nem bem tomou posse, Moreno AMÉRICA LATINA qualquer tipo. Essa foi a forma encontra-
abriu caminho para a investigação dos da pelo PRI, partido que governou o
casos de corrupção do vice, acusado de de um presidente, um vice-presidente, país na maior parte do tempo nas últi-
receber US$ 14 milhões da Odebrecht. O um presidente do Senado ou da Corte mas oito décadas, para resolver sua luta
vice foi preso, julgado e, em dezembro, Suprema que tenha ocupado a Presidên- interna de poder: embora o presidente
condenado a seis anos de prisão. Furio- cia da República. Santos considerou que tenha amplos poderes, não pode perma-
so, Correa chamou Moreno de “traidor”. isso permitirá o “equilíbrio de poderes” necer mais que seu período de quatro
e restabelecerá a tradição democrática. anos. Garante-se assim a rotatividade dos
Na sequência, Moreno convocou o caudilhos “priístas” de plantão.
referendo. Correa, que havia partido Outro país que abomina a ideia de
para um ano sabático na Bélgica, voltou reeleições presidenciais é o Paraguai. Os Na Argentina um presidente pode ser
às pressas para tentar evitar o colapso do habitantes ficaram escaldados depois da reeleito de forma consecutiva uma única
capital político armado ao longo da úl- ditadura do general Alfredo Stroessner vez. Se quiser voltar a ser candidato, pre-
tima década. No entanto, apesar do cres- (1954-1989). Ele fazia reeleições presi- cisa esperar um mandato presidencial no
cimento econômico que o Equador teve denciais “fake”, nas quais costumava meio para se apresentar às urnas. O casal
durante sua administração, seu estilo vencer com 98% dos votos. Após a que- Néstor e Cristina Kirchner encontrou
autoritário e a expansão da corrupção da de Stroessner, os paraguaios decidi- uma forma inventiva para contornar essa
cansaram a população, que votou contra ram proibir o sistema. Quem é presiden- limitação: eles se alternariam no poder
seu projeto de retorno ao poder. te uma vez nunca mais pode sê-lo em sucessivamente. Kirchner foi eleito em
toda a vida. De brinde, os ex-presidentes 2003 e Cristina em 2007. O plano era ele-
O referendo também incluiu outro paraguaios recebem o posto de senador ger Néstor em 2011 e voltar a reelegê-lo
ponto fundamental: impedimento de vitalício. Não têm direito a voto... mas em 2015.Aí voltaria Cristina para as eleições
todas as pessoas condenadas por casos podem discursar. No ano passado, o pre- de 2019. Mas em 2010 um entupimento
de corrupção de participar da vida po- sidente Horacio Cartes tornou-se cir- da carótida de Néstor frustrou o projeto.
lítica. Essa proposta teve 74% dos votos. cunstancialmente aliado de seu inimigo
e ex-presidente, o ex-bispo Fernando D urante o funeral de Néstor Kirchner,
O fenômeno equatoriano pode evi- o entourage presidencial começou
denciar uma incipiente tendência a elaborar outro plano, denomina-
na região para limitar a presença do publicamente de Cristina Eterna. A
de caudilhos no poder. Esse foi o caso da estratégia era implementar reeleições
Colômbia, país que tinha uma tradição ilimitadas. O mentor intelectual dessa s
de alternância de poder, até que, em
2004, o então presidente, Álvaro Uribe,
modificou o esquema, permitindo uma

12 de fevereiro de 2018 I ÉPOCA I 73

EQUADOR

ideia foi o filósofo argentino Ernesto UM CONTINENTE, VÁRIAS REGRAS

Laclau, que dava aulas na universidade O que dizem as leis de cada país da América Latina
sobre a possibilidade de reeleição de um presidente
americana Northwestern e residia na
NÃO TEM REELEIÇÃO
Grã-Bretanha desde 1969, onde era pro- DE QUALQUER TIPO
- Paraguai, desde 1989
fessor na Universidade de Essex. Segun- - Colômbia, implantou reeleições
em 2005 e as eliminou em 2015
do Laclau, a figura do “caudilho” era a - México, desde 1933

mais adequada à política latino-ameri- NÃO TEM REELEIÇÃO
CONSECUTIVA*
cana. Disse: “A América Latina precisa - Uruguai
- Chile
de presidentes que possam se reeleger - Peru (só existiu reeleição entre 1993
e 2000, no governo Fujimori)
mais vezes, para que os projetos políticos No Equador, Rafael
NÃO TEM REELEIÇÃO, MAS NA PRÁTICA Correa foi presidente
possam ser implementados”. PERMITE UMA, COM DRIBLE NA JUSTIÇA três vezes e tentou criar
- Honduras um sistema para voltar
Na primeira década deste século, pela quarta vez. Mas
PERMITE UMA REELEIÇÃO foi rejeitado por um
Laclau, que faleceu em 2014, exerceu CONSECUTIVA referendo
- Argentina, desde 1994 No Brasil, em 1997,
forte influência nos círculos bolivaria- - Brasil, desde 1997 o Senado mudou as
- Equador, desde 2018 regras e permitiu que
nos da Venezuela, país que na maior - Guiana, desde 2000 o então presidente,
Fernando Henrique
parte dos dois séculos de vida indepen- PERMITE UMA REELEIÇÃO CONSECUTIVA, Cardoso, fosse o
MAS, NA PRÁTICA, TEM REELEIÇÕES primeiro reeleito
dente não teve um sistema de reeleições ILIMITADAS, COM DRIBLE NA JUSTIÇA do país
- Bolívia, desde 2009 (mas o atual presidente
presidenciais imediatas, de forma a ga- Evo Morales conseguiu driblar o limite de dois
mandatos para se candidatar de novo)
rantir a alternância no poder. Mas em
TEM REELEIÇÕES ILIMITADAS
1999 o então presidente Hugo Chávez - Venezuela, desde 2009
- Nicarágua, desde 2014
obteve a aprovação de uma Constitui- - Suriname, desde 1992

ção que permitia uma única reeleição. *um presidente deve esperar um mandato presidencial no meio

A partir de então, conseguiu estender

seu mandato. Declarou que pretendia

governar o país até 2030. O plano foi

interrompido por um câncer devasta-

dor em 2013. Seu sucessor, Nicolás Ma-

duro, encontrou um formato turbinado

para permanecer no poder. Por um

lado, pretende ser reeleito nas eleições

que serão realizadas antes do fim de

abril. Além disso, para garantir sua per-

manência, proibiu os principais parti-

dos da oposição de disputar as eleições.
A tentação das reeleições sem fim
afeta tanto políticos de esquerda
como de direita. Esse é o caso do
atual presidente de Honduras, Juan Or-

lando Hernández, de direita, que partici-

pou, na década passada, da remoção do

então presidente,Manuel Zelaya,que pre-

tendia mudar a Constituição para permi-

tir reeleições.Apesar de sua postura inicial

antirreeleições, ao chegar ao poder

Orlando Hernández mudou de ideia.

Pressionou a Justiça para autorizá-lo a ser

novamente candidato. Foi recentemente

reeleito em eleições cravejadas de irregu-

laridades. Ainda falta muito para varrer

o caudilhismo do continente. u

74 I ÉPOCA I 12 de fevereiro de 2018

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A reportagem, originalmente publicada pela revista americana The Atlantic,
faz parte de uma série de três capítulos sobre a Rússia
1 - Há duas semanas: como Putin, numa aposta arriscada, conseguiu, com a ação de hackers,

colocar em xeque a democracia dos Estados Unidos
2 - Na semana passada: como Putin asfixia a oposição na Rússia e manipula as eleições

de março para ser reconduzido a um quarto mandato presidencial
3 - Nesta edição: o espectro da saída de Putin do poder no futuro assusta o Kremlin

O TUDO DOEUPNUATDIAN

O presidente russo não tem uma estratégia de saída do poder. À falta de
obstáculos, ele vai continuar batendo nos rivais para se manter no Kremlin

EJulia Ioffe nece garotas de programa para os oli-
m 10 de abril de 2017, um assessor
de Adam Schiff, membro demo- garcas. E ela se encontrou com Trump
crata do Comitê de Inteligência
do Congresso americano, que estava e levou para ele uma garota russa,
investigando a campanha de Donald
Trump por possível conluio com o a celebridade Olga Buzova”. Schiff,
Kremlin, conectou-se, por telefone,
com Andriy Parubiy, o presidente da sobriamente, pediu esclarecimentos.
Rada, o Parlamento ucraniano. Parubiy
disse a Schiff que tinha informações Parubiy respondeu diretamente:
potencialmente explosivas sobre a vi-
sita de Trump a Moscou para o con- “Sobchak é uma ‘agente especial do
curso de Miss Universo em 2013. “Eu
só alertaria que nossos amigos russos serviço secreto russo’”.
podem estar ouvindo a conversa”, avi-
sou Schiff. “Então eu não compartilha- Buzova “tinha material comprome-
ria nada ao telefone que você não quei-
ra que eles ouçam.” tedor sobre Trump depois de seu cur-

Parubiy, porém, seguiu em frente. to relacionamento”, disse Parubiy.
“Em novembro de 2013, o senhor
Trump visitou Moscou, visitou a com- “Havia fotos de Trump nu.”
petição Miss Universo e lá se encon-
trou com a jornalista e celebridade Schiff não traiu nenhuma emoção.
russa Ksenia Sobchak”, disse ele, em
seu inglês desajeitado e cheio de sota- “E então Putin foi avisado da disponi-
que. Ele explicou que, além de ter liga-
ções com Putin, Sobchak é “também bilidade do material compromete-
conhecida como uma pessoa que for-
dor?”, perguntou ele.“Sim, claro”, disse

Parubiy. Putin queria que fosse comu-

nicado a Trump que “todo esse mate-

rial comprometedor nunca seria divul-

gado se Trump cancelasse todas as

sanções russas”.

A maior bomba: Parubiy obtivera FOTO: RIA NOVOSTI/SPUTNIK/AFP

uma gravação de Buzova e Sobchak

falando sobre o dossiê contra Trump

quando as duas estavam visitando a

Ucrânia. Ele disse a Schiff: “Estamos

prontos a entregar (esse material) para

o FBI”. s

76 I ÉPOCA I 12 de fevereiro de 2018

ESPECIAL

TESTANDO OS LIMITES
O presidente da
Rússia, Vladimir

Putin . Ele não é um
supervilão. Ele só

empurra até o ponto
em que sente
resistência

II

P arubiy tinha mais a dizer.Ele contou pAaarbaomrdinaagreomsrEuUsAsaé trabalhasse especificamente com inteli-
a Schiff sobre reuniões que o general oportunista, oblíqua, gência e dar a ele versões completamen-
Michael Flynn, ex-conselheiro de ctehreriiavdelempeanlhteaçeafidcaaze te insanas dos acontecimentos”, me con-
segurança nacional de Trump, tivera com tou Kuznetsov sobre o trote.
um cantor pop russo que agira como
intermediário para o Kremlin. Eles te- “Vazamos para ele um monte de desin-
riam se encontrado em um café em formação”,disse Stolyarov.“Era completa-
Brighton Beach, um enclave de imigran- mente absurdo.” Um porta-voz de Schiff
tes russos no Brooklyn, em Nova York. disse, a respeito: “Antes de concordar em
Lá, disse Parubiy, “eles usaram uma se- receber a ligação, e imediatamente depois
nha especial antes de seus encontros. dela, o Comitê de Inteligência do Con-
Um dizia: ‘O tempo está bom em Deri- gresso informou as agências do governo
basovskaya’. A resposta correta era: americano apropriadas e o pessoal de
‘Chove de novo em Brighton Beach’”. segurança sobre a conversa e sobre nossa
crença de que provavelmente era falsa”.
“Certo. Bom, isso ajuda muito. Eu
agradeço”, disse Schiff. Ele falou que os K uznetsov e Stolyarov posam como
Estados Unidos receberiam bem a chan- Os Escrotinhos da Rússia, mas são
ce de verificar as provas que Parubiy mais do que isso. Nós nos encontra-
descrevera. “Vamos tentar trabalhar mos num pub belga de uma das cida-
com o FBI para ver, junto com seu pes- des-dormitórios de Moscou. Kuznetsov,
soal, como podemos obter cópias.” de 31 anos, usava uma camisa branca
estampada com caveiras pretas. Stolyarov,
Schiff estava certo em sua preocupação de 29 anos, envergava um moletom com
sobre“nossos amigos russos”estarem es- capuz cinza com o rosto de Putin estam-
cutando a conversa, ainda que não do pado sobre um mapa da Rússia. “Eu
modo como ele imaginou. Não foi Paru- enxergo Putin positivamente”, disse
biy que ligou. Foram Vladimir Kuznetsov Stolyarov. “Não consigo pensar em nada
e Alexei Stolyarov, dois russos passadores importante em que eu discorde dele”,
de trote conhecidos como Vovan e Lexus. concordou Kuznetsov. Quando a dupla
Não havia dossiê, nem encontros entre se formou, em 2014, eles começaram pas-
Flynn e um pop star russo em Brighton sando trotes em celebridades russas, mas
Beach. O telefonema fez os americanos cansaram disso rapidamente. “É mais
parecer trouxas, o que interessava a quem interessante falar com gente que decide o
telefonou. Kuznetsov e Stolyarov imedia- destino das pessoas”, disse Kuznetsov.
tamente mandaram a gravação para a
mídia russa pró-Kremlin, que alegremen- Ele e Stolyarov negaram repetidas ve-
te aproveitou a oportunidade: outro ame- zes qualquer conexão com os serviços
ricano tonto, pronto para acreditar nas secretos russos, mas claramente têm li-
mais risíveis histórias sobre uma Rússia gações amistosas com o governo Putin.
administrada por espiões viperinos e Tiveram programas em vários canais de
malvados. Qualquer russo que ouvisse as TV controlados pelo Kremlin, o que de-
gravações teria reconhecido imediata- manda aprovação de alto escalão. Quan-
mente quanto a conversa era idiota. Ha- do os encontrei, casualmente menciona-
via menção a subcelebridades russas, ram que tinham estado no Parlamento
além de outros indícios. A senha que russo no dia anterior, para uma reunião
Flynn supostamente usava é, na verdade, com um conhecido parlamentar. “Esta-
o título de uma comédia russa clássica. mos trabalhando num projeto”, disse
Stolyarov evasivamente. Ele então se
“Queríamos falar com alguém que

78 I ÉPOCA I 12 de fevereiro de 2018

gabou de ter hackeado por muito tempo FOTO: ALEXEY KUDENKO/RIA/ SPUTNIK/AFP ARMA SECRETA
a conta de Skype do falecido oligarca A celebridade russa
russo Boris Berezovsky, inimigo de Pu- peças de uma campanha cambiante,
tin. De algum jeito, eles também conse- com várias frentes, de influência infil- Olga Buzova. Os
guiram os números de celular de líderes trada, contra políticos, sistemas e valo- russos espalharam
estrangeiros, como o presidente da Tur- res ocidentais – uma campanha basea-
quia, Recep Tayyip Erdogan. da mais na premissa de tentativa e erro boatos sobre um
do que em uma grande estratégia. “Os dossiê com fotos de
Kuznetsov e Stolyarov têm uma ex- russos têm mil modos de atacar”, me
tensa lista de vítimas americanas. Em disse um ex-agente de Inteligência. Trump nu,
fevereiro de 2017, posando como o pri- “Eles não precisam que todos deem guardadas por ela
meiro-ministro ucraniano, eles passa- certo. Só uns poucos são suficientes.”
ram um trote no senador republicano As falhas dos EUA que os russos con-
John McCain, que confessou que Trump seguiram explorar parecem ofuscantes
encarnava o período mais duro de sua em retrospecto. “Estou impressionado
longa vida política. “Ele soou como nas últimas cinco semanas pela grande
quem não soubesse o que fazer”, lem- fragilidade da nossa democracia”, me dis-
brou Kuznetsov. Nesse mesmo mês, eles se Schiff, não muito tempo antes de cair
passaram um trote no senador Mitch no trote, enquanto sentávamos numa
McConnell, líder da maioria republica- cafeteria no porão do Capitólio. O que a
na, que lhes disse serem pouco prováveis Rússia mostrou na eleição de 2016 – e
novas sanções contra a Rússia. o que continua a mostrar depois das s

O objetivo das incursões americanas
de Kuznetsov e Stolyarov é tanto
descobrir informações importan-
tes – como o que vai acontecer em rela-
ção às sanções – quanto trolar, distrair,
confundir e ridicularizar pessoas que os
eleitores americanos podem estar incli-
nados a respeitar, mas que são hostis à
Rússia. Eles brincam com o que veem
como ingenuidade americana.“Isso nun-
ca aconteceria na Rússia”, disse Stolyarov.
“As pessoas não confiariam tanto, espe-
cialmente se forem integrantes do Parla-
mento ou funcionários públicos.” Nós
gostaríamos de passar trotes em atores
de Hollywood, acrescentou Kuznetsov.
“Mas eles são muito mais difíceis de atin-
gir que os senadores americanos”, disse.

Se alguém tivesse de desenhar avata-
res para a abordagem russa para minar
os Estados Unidos – oportunista, oblí-
qua, cheia de palhaçada e terrivelmen-
te eficaz –, seria difícil fazer melhor do
que Vovan e Lexus. Eles e os futuros
hackers treinados são todos pequenas

12 de fevereiro de 2018 I ÉPOCA I 79

eleições – não é tanto sua própria força campanhas de influência infiltrada da dar com Putin durante décadas enten-
quanto a vulnerabilidade americana: história”, a campanha continua. Putin, dem que isso é, na melhor das hipóteses,
não é preciso muito para virar o sistema sempre um jogador, vai continuar a uma fantasia.“Putin define os interesses
americano contra si mesmo.“Operações aproveitar as oportunidades conforme da Rússia em oposição à política do Oci-
de influência infiltradas não criam divi- elas aparecerem para sua vantagem ime- dente – e com o objetivo de distorcê-la”,
sões no campo; elas as amplificam”, dis- diata. Tendo em vista o que já foi revela- me disse Ash Carter, último secretário
se Michael Hayden, o ex-chefe da NSA, do – e a extensão com a qual o Congresso de Defesa de Obama. “É muito difícil
a Agência Nacional de Segurança Ame- americano amarrou as mãos de Trump construir uma ponte com essa motiva-
ricana. John Sipher, ex-agente da CIA, quanto a sanções –, Putin sabe que não ção. Ela torna impossível trabalhar coo-
concordou. “Se há alguém a quem cul- terá benefício imediato em jogar limpo. perativamente com a Rússia.”
par, somos nós”, disse ele. “Se a gente Sem nova dissuasão significativa, vai
aceita o golpe, é nossa culpa.” continuar batendo enquanto tanto ele Putin não é um supervilão. Não é in-
quanto seu país envelhecem e declinam. vencível ou impossível de deter. Ele em-
E nquanto os americanos tentam re- purra só até o momento em que sente
solver o quebra-cabeça do que exa- Alguns americanos, inclusive Trump, resistência. Seus planos de 2014 de podar
tamente aconteceu em 2016 e como acreditam que a Rússia poderia ser uma o terço oriental da Ucrânia, por exemplo,
eles caíram vítimas do que Hayden cha- boa parceira dos EUA, caso os interesses ruíram diante da surpreendente e brava
ma de “uma das mais bem-sucedidas comuns dos dois países pudessem ser resistência do Exército ucraniano e das
identificados. Mas os que tiveram de li- sanções ocidentais. Obama impôs san-
FOTO: SERGEI KARPUKHIN/REUTERS ções à Rússia por sua interferência na
TROLADORES eleição americana nos últimos dias de seu
Vladimir Kuznetsov mandato. Fechou instalações russas nos
EUA e expulsou alguns diplomatas, mas
(à esq.) e foi uma reação tardia e débil. Obama de-
Alexei Stolyarov, cidiu não usar opções de mais força,
como revelar dados de Inteligência que
conhecidos pudessem comprometer Putin ou aplicar
como Vovan e Lexus. sanções realmente mutilantes.

Bem-vistos O governo Trump, por sua vez, não
pelo Kremlin, está interessado em punir a Rússia.
aplicam trotes As várias investigações sobre a in-
em políticos terferência russa na eleição americana,
americanos bem como o foco da cobertura da im-
prensa, estão, em sua maioria, concentra-
das no que aconteceu em 2016. O que
inevitavelmente vai acontecer nas eleições
de 2018 e 2020 se a Rússia não for punida
e ameaçada com credibilidade no caso
de uma futura interferência está sendo
relegado. As forças americanas de con-
trainteligência estão paradas esperando
uma ordem para entrar em combate
com os russos, ordem que os bem infor-
mados suspeitam que nunca virá.

Putin armou para mostrar que não há
nada de especial sobre os EUA, que são só
mais um país. Se ele estará certo afinal,

80 I ÉPOCA I 12 de fevereiro de 2018

isso dependerá, em grande parte, de um as instituições do Estado – os tribunais, o
número suficiente de americanos – espe-
cialmente americanos poderosos e poli- Exército, as forças de segurança, o Parla-
ticamente conectados – ainda acreditar
que vale a pena defender seu sistema. mento, até os partidos de oposição – e a

H á um ponto no horizonte que preo- economia também. Conforme o bolo
cupa particularmente o Kremlin.
Em 2024, o próximo mandato pre- econômico fica menor, as elites se cani-
sidencial de Putin de seis anos terá termi-
nado. A Constituição russa limita Putin balizam na luta por quaisquer recursos
a dois mandatos consecutivos, e ele terá
71 anos.“Todos esses caras estão pensan- que restem e que possam ser arrancados
do em 2024”, me disse um homem de
negócios no topo do Rússia Unida, o da população.As pessoas que agora lotam
partido de Putin. O Parlamento poderia
mudar a Constituição para permitir a as mais famosas cadeias da Rússia são
Putin exercer mais um mandato. Mas isso
não é o ideal. Putin, formado em Direito funcionários de elite do governo: inúme-
antes de se tornar agente da KGB, insiste
em manter um simulacro de legalidade. ros burocratas, pelo menos quatro gover-
E, de qualquer modo, ele, um homem
mortal, só poderá exercer um número nadores e numerosos prefeitos. Um mi-
limitado de mandatos.
nistro está em prisão domiciliar. Eles são
Então, o que Putin vai fazer? Vai entre-
gar seu trono a um sucessor? Há cada vez os perdedores numa luta cada vez mais
menos candidatos. Seu círculo de asses-
sores encolheu; agora é composto majo- selvagem. Os vencedores típicos são os
ritariamente de homens velhos que, como
ele, vieram de Leningrado ou trabalharam que giram na órbita mais próxima da es-
na KGB. Em anos recentes, ele substituiu
governadores regionais por jovens leais e trela em decadência de Putin.
até ex-guarda-costas: a maioria dos quais
não tem experiência de governo signifi- Quanto mais tempo Putin passar usan-
cativa, mas deve tudo a ele. Cada vez mais
parece ser um homem sem uma estratégia do o câmbio, menos provável é que as
de saída. Como me disse um aliado de
Putin em 2013: “Nós não temos essa tra- engrenagens se encaixem por si mesmas,
dição de‘Ok, você exerceu dois mandatos
e vai embora’. Não temos outra tradição sem sua mão pesada para pô-las no lugar.
senão se agarrar até o fim e ir embora com
os pés à frente” – isto é, num caixão. “É o dilema do ditador”, disse um observa-

E m 2014, Vyacheslav Volodin, hoje o dor da Rússia baseado em Washington.
presidente do Parlamento russo, dis-
se:“Se há Putin, há Rússia. Se não há “O único jeito de afastar o risco é que você
Putin, não há Rússia”. Putin personalizou
não pode sair. E você não pode fazer

reformas, porque isso leva a rachaduras

no sistema, que levam a sua derrubada.”

Putin vem chutando a lata ladeira

abaixo por muito tempo, e isso deu cer-

to de maneira geral para ele. Ele ainda é

popular e ainda está em boa forma,

como suas exibições de masculinidade

sem camisa visam nos recordar. Mas há

cada vez menos ladeira abaixo e, um dia,

ela vai acabar. Todo mundo sabe que esse

dia está chegando, mas ninguém sabe o

que acontecerá no seguinte. “Se ele, de

‘‘Se há Putin, há repente, sair em 2024, nós ficamos ór-
Rússia. Se não há
Pduistsine,onpãroehsáidReúnstseida”o, fãos”, disse Konstantin Malofeev, um
Parlamento russo
oligarca que foi atingido pelas sanções

impostas pelo Ocidente por apoiar re-

beldes pró-Rússia na Ucrânia – o que ele

nega ter feito. Ele acredita que Putin foi

escolhido por Deus para liderar a Rússia.

A próxima pessoa, teme ele, não terá o

mesmo senso do dever. “A próxima

pessoa”, disse, “será pior”. u

12 de fevereiro de 2018 I ÉPOCA I 81

POR GUILHERME CASARÕES

O Brasil vai retomar
sua presença no mundo?

O secretário de Estado dos Estados Unidos, Rex Tiller- mais de US$ 1 trilhão em infraestrutura nos próximos anos.
son, acaba de concluir uma turnê pela América Lati- As pautas de Tillerson para o hemisfério explicam, em par-
na. Em seu primeiro aniversário, o governo Trump
te, a ausência do Brasil no roteiro da viagem. Em junho passa-

decidiu voltar os olhos para o próprio hemisfério, sinal de do, o secretário encontrou-se com o chanceler Aloysio Nunes

que quer reverter as tensões acumuladas desde a campanha e trataram da questão venezuelana. Mas, ao que tudo indica

do republicano à Presidência. Tillerson visitou México, Washington não considera o governo brasileiro um parceiro

Argentina, Peru, Colômbia e Jamaica. central em busca de soluções para a crise. Além de ser forte-

Mais do que minimizar os efeitos da verborragia de mente refratário à ingerência americana na região, o Brasil

Donald Trump contra os latinos e os mexicanos, em parti- perdeu, desde a chegada de Michel Temer à Presidência, qual-

cular, existem razões pragmáticas para os destinos escolhidos. quer possibilidade de diálogo com o governo Maduro.

Uma delas é a questão da Venezuela. Diante do agravamen- Do ponto de vista comercial, apesar de o Brasil ser uma eco-

to da crise política e econômica no país, Tillerson precisa de nomia estratégica para os EUA, a natureza da pauta bilateral

aliados na Organização dos Estados Ame- impede qualquer fortalecimento de curto pra-

ricanos (OEA) para respaldar iniciativas zo.Quase dois terços das exportações brasilei-

mais duras contra o governo Maduro. ras são manufaturados – setores que Trump
Washington vem endurecendo sua posição OS ESTADOS UNIDOS querfortalecerdomesticamente.ParaTillerson,
em relação à Venezuela. Em seu pronuncia- alavancar as trocas com o Brasil para neutrali-
mento ao Congresso, o presidente Trump DÃO PISTAS DE QUE zar a China seria contraproducente.Há parcei-
vangloriou-se de ter imposto duras sanções NÃO VALE A PENA ros mais dependentes de quem se aproximar,

contra a “ditadura socialista” de Nicolás Ma- GASTAR CAPITAL como Colômbia, Chile ou Argentina.
duro.Embora não haja sinais de que o gover- POLÍTICO COM UM Por fim, os EUA dão pistas de que não vale
no americano considere o recurso do uso da
a pena gastar capital político com um Brasil
força contra o país, vale lembrar que uma BRASIL EM TRANSIÇÃO emtransição.DesdeogovernoDilmaRousse-
intervenção militar regional foi aventada pelo ff,o Brasil perdeu presença política e econômi-

ex-ministro do Planejamento venezuelano e ca no mundo.Seis meses atrás,o vice-presiden-

professor de Harvard, Ricardo Hausmann. te Mike Pence ignorou o país numa viagem em que passou por

Além de realinhar o tabuleiro de xadrez regional, Tillerson Argentina, Colômbia, Chile e Panamá. A chanceler alemã An-

também quer reposicionar os EUA no jogo global. O grande gelaMerkel e o primeiro-ministro de Israel,Benjamin Netanyahu,

alvo da viagem parece ser a China. Com bastante atraso, os fizeram o mesmo.Diante de um cenário de incertezas eleitorais

EUA buscam reagir ao vertiginoso crescimento chinês na e lenta recuperação da economia, muitos parceiros aguardam

região, potencializado pela crise financeira de 2008 e a sub- o próximo ano para reativar as relações com o Brasil.

sequente retração comercial americana. Na última década, Pelo tom do discurso, Tillerson repete o mesmo equívoco

a China consolidou-se como o principal parceiro comercial de governos anteriores e parece não perceber que os laços com

de Argentina, Brasil, Chile e Peru. a América Latina não podem ser construídos sobre promessas

Ironicamente, os EUA querem vender a China como a“nova genéricas. Se o governo Trump resolver concretizar a retórica

potência imperialista” da região. Essa declaração de Tillerson, com medidas práticas de aproximação econômica, o Brasil

realizada antes do início da viagem, despertou reação imediata certamente se credenciará como um parceiro importante de

da imprensa estatal chinesa,que rotulou os comentários de“des- Washington a partir do ano que vem. Resta saber se os

denhosos e paranoicos”. E dificilmente convencerá os interlocu- candidatos à Presidência estarão preparados para esse debate. u

tores ao sul: na última reunião do Fórum China-Comunidade Guilherme Casarões é professor de administração pública e relações
dos Estados Latino-Americanos e Caribenhos (Celac),o chance- internacionais da Fundação Getulio Vargas, em São Paulo
ler chinês,Wang Yi, convidou as 31 nações parceiras a se juntar à

Iniciativa Cinturão e Rota, que pretende investir globalmente A cada edição, um representante da sociedade abordará um tema de interesse do leitor

82 I ÉPOCA I 12 de fevereiro de 2018



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Fonte: leitores impresso Kantar Ibope Media Target Group Index BR TG 2017 II (2016 2s + 2017 1s) v1.0 - Pessoas, leitores impresso 7 dias jornal e 30 dias versão lido via Midia Online, com projeção Brasil
base IVC. Leitores Digital comScore Inc., MMX Multi-Platform, Desktop 6+ Mobile 18+, Home & Work, dezembro17, Brasil | *Total Leitores = Somados digital + impresso com sobreposição de leitores.


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