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Published by ㅤㅤㅤ ㅤㅤ, 2018-07-24 08:16:57

ㅤㅤㅤ ㅤㅤ

d/o//s*si*/e//3/9*1**

0especial dinossauros c a p í t u l o 3
0
O horror que
vem do céu e
encerra uma
era na história
da vida.

DINOSSAUROS: O gUIA DefINItIvO 65

especial dinossauros c a p í t u l o 3 0
0
a queda
IMPACTO
tra seu fm. Os dinossauros, que evoluíram ao longo MORTAL
de 150 milhões de anos para se tornar bestas gigan-
tescas, viram-se de uma hora para outra sem ter Quando um pedregulho
como se alimentar. gigante cai num planeta
como a Terra, os efeitos são
Foi uma extinção em massa com um critério se- devastadores e globais.
letivo muito claro – todos os animais maiores que Veja o que os dinossauros
um cão morreram, sem exceção. Sobreviveram só tiveram de encarar.
os pequeninos, sobretudo aqueles capazes de viver
das sobras e acostumados às sombras, num mundo EFEITOS
até então dominado por répteis gigantes. Você adi- DA PANCADA
vinhou: havia chegado a vez dos mamíferos. Nós.
IncêndIos em
A biosfera levou algum tempo para se recuperar, escala global
mas não há mal que sempre dure (nem bem que O pulso de calor
nunca acabe, como diz o ditado). Num mundo livre fez com que
dos animais grandes, os mamíferos rapidamente se plantas pegassem
diversifcaram e, em coisa de 5 milhões de anos, já fogo, no mundo
haviam ocupado todos os nichos antigos, apresen- inteiro, o que
tando variedade de espécies similar à vista hoje. jogou mais cinzas
Vida que segue no terceiro planeta a contar do Sol, na atmosfera.
agora sob nova direção.
imagem: DaNieL ROSiNi
COMO SABEMOS?

Essa é uma narrativa tão mórbida quanto fascinan-
te, mas como sabemos que foi isso que aconteceu?
Bem, em 1980, um grupo liderado pelo fsico ame-
ricano Luis Alvarez e por seu flho geólogo, Walter
Alvarez, encontrou uma camada de sedimento es-
tranha, que remontava exatamente a 65,5 milhões
de anos atrás. Era um extrato rico em irídio, um
metal muito raro na Terra, mas comum em certos
asteroides. Análises mostraram que essa camada
estava presente em sítios na Itália, na Dinamarca
e na Nova Zelândia. Um evento global, portanto, a
teria produzido. E a hipótese mais simples era de
que um asteroide, o “primeiro dono” desse irídio,
tivesse colidido na época da formação do tal sedi-
mento – que hoje já foi encontrado em mais de cem
localidades diferentes espalhadas pelo mundo. A
poeira levantada pelo impacto, ao assentar, forma-
ria a camada observada.

Certo, mas para confrmar que foi esse o caso, se-
ria preciso também encontrar a cratera de impacto
formada naquela época. E ela foi identifcada em
1990, escondida por uma camada de rochas, sob o
vilarejo costeiro de Chicxulub, no México.

As características do buraco indicam que o as-
teroide bateu num ângulo raso (30 graus), o que
amplifcou ainda mais os estragos, ao aumentar a
quantidade de detritos arremessados para longe.
Hoje, não há dúvida. Os grandes dinossauros sumi-
ram no que foi um piscar de olhos geológico, que
coincide com o momento do impacto. Xeque-mate.

5626 DINOSSAUROS: O gUIA DEFINITIvO

especial dinossauros c a p í t u l o 3

0
0

o asTeroide Piracicaba São Paulo
SP
15 km craTera

de diâmetro 180 km

maracanã de diâmetro

0,9 km

de diâmetro

local do imPacTo

Península de Yucatan

(México)

Pulso de calor Poeira na chuva ácida
aTmosfera
A entrada violenta A pancada produziu A interação dos
e rápida do objeto uma grossa camada aerossóis com
na atmosfera gerou de aerossóis que o vapor d’água
energia superior bloqueou parte produziu ácidos,
a 1 bilhão de bombas da luz do Sol por que afetaram
atômicas como uma década. os oceanos e
a de Hiroshima. prejudicaram
Tsunamis a vida marinha.
Atingiram os dois
lados do Atlântico,
recobrindo de água
até 100 km da costa
dos continentes. Na
região, a onda chegou
a 1 km de altura.

DINOSSAUROS: O gUIA DefINItIvO 5637

especial dinossauros c a p í t u l o 3 0
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O retOrnO

Os
herdeirOs
dO reinO

Uma análise dos traços
compartilhados entre os grandalhões
carnívoros do cretáceo e as aves
modernas não permite oUtra conclUsão:
o asteroide fracassoU em extingUir por
completo a chama dos dinossaUros.

Isso talvez choque você, mas os dinossau- Herança genética

ros não foram realmente extintos. Para todos os Acima, uma pata de avestruz.
efeitos teóricos e práticos, as aves modernas são Abaixo, uma típica de alguns
dinossauros. dinossauros da família terópodes,
a linhagem que deu origem às
“Não queremos dizer que as aves sejam paren- aves. Tal pai, tal filho.
tes dos dinossauros. Não queremos dizer que
elas vêm dos dinossauros. Queremos dizer que
as aves são dinossauros, uma afrmação que não
é mais radical do que dizer que os humanos são
mamíferos”, defende de forma peremptória o pa-
leontólogo americano David Fastovsky, ecoando
um consenso na área.

Essa constatação passa de assustadora a óbvia
uma vez que analisamos traços que caracteri-
zam tanto os terópodes – dinossauros extintos
bípedes e, em sua maioria, carnívoros – como as
aves. O que esses dois grupos têm em comum, em
contraste com todos os outros grupos animais, só
leva a uma conclusão inescapável: todos eles de-
veriam ser unifcados sob a mesma rubrica. São
todos dinossauros.

74 DINOSSAUROS: O gUIA DefINITIvO

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0
0

Penas

Como a preservação fóssil
de tecidos moles é muito
mais complicada que a de
ossos, demorou até que os
paleontólogos sacassem
que as penas são um
traço comum entre muitos
dinossauros. velociraptors
confirmadamente as
tinham, ancestrais do
tiranossauro também e,
possivelmente, até o “rei”
dos dinossauros carnívoros
era ao menos parcialmente
penoso. olhe para qualquer
passarinho moderno, e não
há como duvidar: do ponto
de vista evolutivo, as aves
são dinossauros terópodes.

Bipedalismo

todos os terópodes,
assim como a maioria
dos dinossauros em
geral, inclusive seus mais
antigos representantes,
eram bípedes. o caminhar
sobre duas patas foi algo
que passou adiante na
evolução. nunca se viu na
natureza uma ave moderna
que andasse sobre quatro
patas. mamíferos, por
exemplo, são marcados
por um predomínio dos
quadrúpedes.

Sciuruminus

comparativo

imagens página anterior: otávio silveira desta página: éber evangelista DINOSSAUROS: O gUIA DefINItIvO 75

especial dinossauros c a p í t u l o 3 0
0
o retorno
Ossinho da sorte
Ossos ocos
Quem não conhece o famoso
Uma das características ossinho da sorte, em formato
que unificam todos os de forquilha, e que costumamos
terópodes é que possuíam quebrar para ver quem fica
ossos ocos. A mesma com o pedaço maior? O frango
coisa acontece nas aves obviamente o tem, mas não só ele.
modernas. No segundo Esse é um traço característico de
caso, é fácil explicar a todas as aves, útil para reforçar
pressão de seleção por a musculatura peitoral e permitir
uma constituição mais o voo. Adivinhe só, muitos
leve – parece útil se você dinossauros terópodes, como o
pretende alçar voo. Um velociraptor, também tinham esse
tiranossauro, contudo, osso, chamado de fúrcula.
nunca ambicionou voar,
e no entanto tinha ossos
ocos. Por quê? Bem,
quando você é grandalhão,
também é vantajoso ter ao
menos parte do esqueleto
mais leve. Não por acaso,
os saurópodes – maiores
dinossauros que já
existiram – desenvolveram
esse mesmo padrão
ósseo. E os terópodes,
ao que tudo indica,
também tinham sistemas
respiratórios similares aos
das aves, para facilitar a
oxigenação.

Aerosteon

comparativo

76 DINOSSAUROS: O gUIA DefINItIvO

especial dinossauros c a p í t u l o 3 0
0
Contando dedos

nos membros superiores,
aves e terópodes também
têm muito em comum.
embora as mãos das aves
modernas sirvam para
dar estrutura às asas e
não sejam aparentes, uma
análise óssea mostra que
eles possuem três dígitos.
O mesmo vale para a
maioria dos terópodes
(embora não todos). Uma
olhada para as mãozinhas
desproporcionalmente
pequenas do tiranossauro
não deixa mentir.

Patas características Tiranossauro

as aves modernas têm um comparativo
formato característico para os
pés, com três dígitos funcionais DINOSSAUROS: O gUIA DefINItIvO 77
na direção frontal.
Os terópodes também têm
essa mesma forma básica em
seus pés, embora eles difiram
das aves com relação ao
padrão de um quarto dígito, que
nas criaturas modernas é virado
para trás. além disso, ambos os
grupos compartilham entre si a
forma como usam essas patas,
apoiando-se sobre os dígitos,
em vez de usar a palma.

imagens: éber evangelista

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o retorno

os Caçadores
de fósseis

Conheça a inCrível história dos homens
e mulheres que Construíram nosso ConheCimento
da nobre linhagem dos dinossauros.

O estudo dos dinossauros nasceu efetiva- Outros achados foram se somando até que, em
1842, o anatomista Sir Richard Owen (1804-1892)
mente no século 19. Sabemos que, com certeza, chegou a uma conclusão importante – criaturas
fósseis foram achados em períodos anteriores, aparentemente díspares como iguanodontes e
causando assombro em seus descobridores, mas megalossauros faziam parte de um único grupo,
os primeiros estudos que podem ser chamados batizado de Dinosauria (algo como “réptil terrí-
de científcos vieram justamente de onde menos vel”). Nascia a terminologia que usamos até hoje
se esperava. para descrever coletivamente esses animais.

Mary Anning (1799-1847) encontrou seu pri- Sir Richard era uma fgura controversa, que
meiro fóssil com apenas 11 anos de idade, quan- fez ao longo de sua carreira coisas pouco elogio-
do seu irmão tropeçou em um crânio na praia sas, como diminuir o trabalho de gente como
em Dorset, na Inglaterra. Fascinada pela cria- Mantell – e depois até tentar tomar o crédito
tura, ela passou a colecionar achados similares para si por suas descobertas –, mas não há dú-
e tentar reconstruí-los. Entre suas descobertas vida de que ele teve um grande impacto no es-
fguram ictiossauros e plesiossauros – répteis tudo dos dinossauros, a começar por perceber
marinhos que viveram na mesma época em que sua natureza comum. Owen também nos deixou
seus primos terrestres famosos, os dinossauros. um grande legado, ao revolucionar a noção que
temos dos museus, insistindo em que seu acer-
Mulher e de origem humilde, de início ela não vo deveria permanecer em exposição para todos
foi levada a sério pelos pomposos acadêmicos da que quisessem vê-lo.
época. Mas seus esforços para catalogar e ano-
tar cuidadosamente novas descobertas, além A GUERRA DOS OSSOS
de tentar projetar como eram essas criaturas
jurássicas, acabaram por lhe trazer reconheci- O frenesi dos recém-batizados dinossauros
mento. Um dos que se apaixonaram pelas incrí- não tardaria a atravessar o Atlântico, e o que
veis revelações de Anning foi um médico britâ- se viu nos Estados Unidos na segunda metade
nico chamado Gideon Mantell (1790-1852). do século 19 foi uma intensa competição entre
dois paleontólogos velozes e furiosos: Edward
Ele já colecionava seus próprios resquícios Drinker Cope e Othniel Charles Marsh.
do passado biológico quando, em 1822, sua es-
posa encontrou nos campos de Sussex gran- Tudo começou com uma corrida para ver
des dentes fossilizados. Gideon notou que eles quem publicava a descoberta seguinte mais rá-
eram similares aos de uma iguana, só que muito pido que o rival. Mas logo a contenda se transfor-
maiores. Pela primeira vez, um dinossauro foi mou num medonho show de trapaças, envolven-
percebido pelo que realmente era – um grande do roubo e destruição de fósseis, apropriação
réptil extinto, que viveu entre 252 milhões e 65,5 da pesquisa alheia, suborno e ataques ferozes
milhões de anos atrás, uma era hoje conhecida de parte a parte nos meios acadêmicos. Foi um
como o Mesozoico. Os Mantells haviam encon- pega pra capar.
trado o que sobrou de um iguanodonte.

78 DINOSSAUROS: O gUIA DefINItIvO imagem: NaTURaL HiSTORY mUSeUm, LONDON {Science Photo Library}

0especial dinossauros c a p í t u l o 3
0
Fóssil de
plessiossauro,
descoberta de Mary
Anning em 1830.

DINOSSAUROS: O gUIA DeFINItIvO 79

especial dinossauros c a p í t u l o 3 0
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o retorno

A pressa em publicar suas descobertas tam- Acima, Roy Andrews,
bém induzia a erros, que ambos jamais ad- o protótipo de
mitiam. A disputa, que fcou conhecida como Indiana Jones.
“Guerra dos Ossos” ou “Grande Corrida dos Di- Abaixo, Sir Richard
nossauros”, teve impactos diversos. Owen, o criador do
termo “dinossauro”.
“É justo dizer que o resultado em última aná-
lise foi um número extraordinário de achados
espetaculares e um pesadelo de nomenclatura
que consumiu a maior parte dos últimos cem
anos para ser resolvido”, afrma David E. Fasto-
vsky, da Universidade de Rhode Island, nos EUA.

REVELAÇÕES E REVOLUÇÕES

O século 20 testemunhou o surgimento de gran-
des caçadores de fósseis, como o legendário ex-
plorador americano Roy Chapman Andrews
(1884-1960). Na década de 1920, ele fez grandes
descobertas na Mongólia, até então terreno pra-
ticamente inexplorado por paleontólogos.

Com seu chapéu característico, a habilidade
com armas de fogo e incrível conhecimento de
línguas orientais, a fgura cativante de Andrews
teria inspirado a criação de um personagem mui-
to famoso do cinema – ninguém menos que o ar-
queólogo Indiana Jones.

Contudo, o grande avanço no estudo dos di-
nossauros, que nos conduziria diretamente ao
entendimento moderno que temos dessas cria-
turas, veio com o americano John Harold Os-
trom (1928-2005). Durante a década de 1960, ele
conduziu diversos trabalhos que sugeriam que
os dinossauros provavelmente eram muito mais
parecidos com as aves modernas do que com os
répteis. Em 1976, uma análise do arqueoptérix –
praticamente um “elo perdido” – confrmou essa
hipótese de início controversa.

Estudos flogenéticos modernos se concen-
tram em decifrar com exatidão cada vez maior a
árvore genealógica dos dinossauros. Um dos mais
ativos paleontólogos a investigar isso hoje em dia
é o americano Paul Sereno, da Universidade de
Chicago, que combina trabalho de campo na bus-
ca por novos fósseis com esforços na produção de
cladogramas (gráfcos que detalham as relações
evolutivas entre grupos de espécies).

“Eu vejo a paleontologia como ‘aventura com
um propósito’”, diz Sereno. “Como mais descre-
ver uma ciência que permite que você explore
os mais remotos cantos do globo, ressuscitando
criaturas gigantescas que nunca foram vistas an-
tes? Você tem que ser capaz de ir aonde ninguém
jamais esteve.”

6800 DINOSSAUROS: O gUIA DefINItIvO imagens: sCienCe PHOTO Library + geOrge bernarD {Science Photo Library} + Davi augusTO

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Como se 1
esCava um
dinossauro Descoberta
O único jeito
É preciso sorte, estar realmente seguro de
no lugar certo e na hora certa, encontrar um fóssil é
para encontrar os restos vê-lo se insinuando
de criaturas mortas sobre o solo, por algum
há milhões de anos. movimento de terra
que o descubra
2 parcialmente.

exposição 3

Os pesquisadores Desenho
se dedicam a Com o fóssil
limpar as rochas parcialmente exposto,
em volta, com os cientistas
escovas e até desenham com
pincéis, com precisão a posição dos
cuidado para não ossos no local, para
danificar o que registrar a forma
sobrou do animal. original do achado.

4

embalagem

O material é
então retirado
com um “pedestal”
de rocha sob o
fóssil e embrulhado
com gesso, para ser
transportado para
o laboratório,
onde será estudado
em detalhe.

dinossauros: o guia definitivo 6811

especial dinossauros c a p í t u l o 3 0
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o retorno

Mitos
dinossáuricos

Lendas que são contadas por
aí desde a antiguidade podem
ter sido inspiradas por fósseis.

Descobrir um fóssil não exige conheci- imagens: Victor Habbick + subarasHii21 + Dm7 {Shutterstock} + reproDução

mento. O que mais se precisa é de sorte – perce-
ber algo numa rocha ou no chão que pareça um
osso animal petrifcado, recentemente exposto
por algum movimento do terreno, como um
deslizamento. Isso na prática signifca que hu-
manos têm tropeçado em dinossauros há muito,
muito tempo. A única diferença é que, antes do
século 19, ninguém sabia do que se tratava esses
restos mortais transformados em rocha. E isso
certamente deu asas à imaginação, produzindo
ideias que acabaram incorporadas em mitolo-
gias e lendas.

84 DINOSSAUROS: O gUIA DefINItIvO

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0
aqui há dragões

Todo mundo conhece essas criaturas míticas, e algo muito
estranho sobre elas é que aparentemente o conceito de
dragão, inventado na Antiguidade, foi desenvolvido em
dois lugares diferentes – na Europa e na Ásia. É impossível
dizer se isso reflete uma origem comum, mais antiga, ou
se a mesma ideia se estendeu de forma paralela nos dois
continentes. De toda forma, é inegável que uma criatura
gigante, com traços reptilianos, que é representada em
mitos como um ser do passado, pode ser fruto de um ou
mais encontros dos antigos com fósseis de dinossauros.

No lago Ness Metade ave,
Metade leão
O jornal inglês Daily Mail publicou, em 1934, o que
supostamente era a primeira foto do lendário monstro Outra criatura mítica que pode ter sido
do Lago Ness, na Escócia. A imagem refletia uma história inspirada por seres vivos reais do passado
muito contada antes e depois dela – a de que existia um é o grifo. Popularizado recentemente na saga
ser imenso sob as águas, talvez um resquício de uma literária e cinematográfica de Harry Potter,
era já encerrada da Terra. A foto mesmo lembrava um ele também tem origem na Antiguidade,
plesiossauro – um dos mais antigos répteis subaquáticos provavelmente no Oriente Médio, e se tornou
conhecidos da época dos dinossauros. Mas em 1994 surgiu uma criatura lendária conhecida por toda a
a confirmação de uma antiga desconfiança: a foto era uma Ásia e Europa. Estamos falando de um ser
fraude, feita com um submarino de brinquedo acoplado mítico que tem cabeça e asas de águia
a uma cabeça e um pescoço de massa para madeira. e corpo de leão. Segundo a historiadora
Os plesiossauros foram extintos após a colisão do asteroide da ciência e folclorista Adrienne Mayor,
que matou os dinossauros, 65,5 milhões de anos atrás. ela pode ter sido inspirada por fósseis
A probabilidade de que uma pequena população dessas de protocerátopos, cuja estranha
criaturas tivesse sobrevivido até hoje num lago na Escócia é, combinação de bico, crista e membros
para todos os efeitos, nula. podia ter se parecido aos antigos
a algo como um grifo.

gigaNtes
huMaNos

Uma prova concreta de que fósseis
podem produzir (ou pelo menos sustentar)
lendas é o fato de que um pedaço de
osso da coxa de um megalossauro foi interpretado pelo
reverendo Robert Plot, em 1677, como o encaixe do joelho
de um gigante humanoide, que supostamente habitava a
Terra antes do dilúvio bíblico. Esse fóssil ainda faria uma
aparição mais estranha na literatura científica em 1763,
quando Richard Brooke o descreve como os testículos de
um gigante. Numa ilustração, ele classificou o fóssil como
“Scrotum Humanum”. Isso fez com que alguns paleontólogos
comentassem, em tom de brincadeira, que a regra de
prioridade na nomenclatura devesse ser aplicada a esse
caso, e o megalossauro passasse a ser conhecido como
um animal do gênero Scrotum, espécie humanum.

diNossauros: o guia defiNitivo 85

especial dinossauros c a p í t u l o 3 0
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o retorno

Será mesmo que a
vida sempre encontra
um meio, Dr. Grant?

Parque dos
dinossauros
da vida real?

Quando cientistas são Questionados sobre a possibilidade de trazer animais

extintos há muito tempo de volta à vida, a resposta é um sonoro “talvez”.

6848 DINOSSAUROS: O GUIA DefINItIvO imagem: divulgação

especial dinossauros c a p í t u l o 3

0
0

Quem não se lembra de como os dinossau- Comparando genomas de várias aves, talvez fos-
se possível fazer um exercício computacional de
ros foram trazidos de volta à vida em Jurassic “devolução” desses genes perdidos, reconstruindo
Park? Insetos presos em âmbar haviam suga- por engenharia reversa os genes dos dinossauros.
do o sangue dos animais extintos. Um grupo
de cientistas extrai de dentro do âmbar o DNA Não seria simples – afnal, estamos falando de
dos grandalhões, completa os trechos faltan- uma trajetória de dezenas de milhões de anos de
tes com genes anfbios, e aí está: produz-se a mutações genéticas –, mas também não parece
partir disso um embrião, pronto para chocar impossível. “Em tese, poderíamos usar nosso
num ovo. conhecimento da relação genética entre aves e
dinossauros para ‘projetar’ o genoma de um di-
Descrito assim, parece fazer sentido, não? O nossauro”, argumenta Woollard.
problema é que o âmbar – resina fossilizada de
plantas – não tem nenhuma propriedade mági- Já existe poder computacional sufciente para
ca para preservar DNA por tanto tempo. Mesmo montar genomas quebrados em milhões de pe-
que o animal dentro dele – um inseto, digamos – daços (aliás, esse foi o jeito mais efcaz já desco-
tenha a mesma aparência do dia em que foi cap- berto para ler o DNA completo de uma espécie
turado no fuido amarelado, o material portador – primeiro quebra-se o dito-cujo em inúmeros
da informação genética não resiste por tanto pedacinhos para então ler cada um deles e, por
tempo e inevitavelmente se degrada. fm, remontar tudo na ordem, com base em pe-
quenas sobreposições entre os pedaços).
Foi o que confrmaram no ano passado cien-
tistas da Universidade de Manchester, no Reino Claro, mesmo que tenhamos os melhores super-
Unido. Eles tentaram detectar DNA em insetos computadores do mundo, nunca conseguiremos
imersos em âmbar com idade bem modesta – replicar exatamente o genoma de um tiranossau-
entre 10 mil e 60 anos –, e mesmo nas amostras ro. Faltam alguns parâmetros básicos, para os
mais novas foram incapazes de obter qualquer quais não temos a menor referência. Por exemplo,
sinal da molécula portadora da informação ge- o tamanho exato do genoma e o número de cromos-
nética. Imagine com fósseis de mais de 65 mi- somos. Além disso, o processo de reconstrução do
lhões de anos (idade necessária para conter al- genoma extinto terá de ser conduzido numa base
gum DNA de dinossauro) qual seria a situação. de tentativa e erro.

“Intuitivamente, pode-se imaginar que a rápi- Entretanto, se estivermos dispostos a aceitar
da e completa imersão em resina, resultando em apenas uma versão aproximada do que o tiranos-
morte quase instantânea, pudesse promover a sauro era em termos genéticos, um simulacro do
preservação do DNA, mas parece que esse não original, talvez possamos chegar lá.
é o caso”, diz David Penney, um dos autores do
trabalho. “Então, infelizmente, o cenário ‘Juras- Dá medo? Dá. Mas e quanto a fazer algo mais
sic Park’ deve permanecer no reino da fcção.” modesto, como trazer de volta os mamutes, ex-
tintos há cerca de 12 mil anos? Seria bem mais
UMA NOVA ESPERANÇA simples e menos aterrorizante.

OK, insetos em âmbar, má ideia. Mas será que Difcil dizer se algum dia alguém vai ter a co-
esse era o único meio de trazer um dinossauro ragem necessária para ressuscitar dinossauros
de volta à vida? extintos. Mas a ideia genérica de usar técnicas
de biologia molecular, como clonagem, para re-
Alison Woollard, bioquímica da Universidade cuperar animais perdidos parece inevitável. Em
de Oxford, no Reino Unido, tem sugerido uma 2000, morreu o último íbex-dos-pireneus, uma
alternativa. Em vez de procurar o DNA dos di- espécie de cabra nativa da França e da Espanha.
nossauros em fósseis, que tal tentar em seus Em janeiro de 2009, ela passou sete minutos
descendentes vivos? “inextinta”, quando uma fêmea clonada nasceu
viva, embora com saúde tão debilitada que mor-
Sabemos que, num sentido muito real, as aves reu logo em seguida e inviabilizou a confrma-
são os dinossauros que sobreviveram. Em meio a ção da ressurreição da espécie.
seu DNA, há trechos e versões de genes hoje ina-
tivos e desimportantes para a biologia das aves, Daí para um velociraptor há uma enorme dis-
mas que formaram a essência dos genomas de tância. Mas se há algo que a ciência nos ensina é
seus ancestrais. que nunca devemos dizer nunca.

DINOSSAUROS: O gUIA DefINItIvO 6859

especial dinossauros

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Fundada em 1950

VICTOR CIVITA ROBERTO CIVITA
(1907-1990) (1936-2013)

Conselho Editorial: Victor Civita Neto (Presidente), Thomaz Souto Corrêa (Vice-Presidente),
Alecsandra Zapparoli, Giancarlo Civita
Presidente do Grupo Abril: Giancarlo Civita

Diretora Editorial e Publisher da Abril: Alecsandra Zapparoli
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Diretora de Marketing: Andrea Abelleira

Diretor Editorial – Estilo de Vida: Alecsandra Zapparoli

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Repórteres: Bruno Vaiano, Felipe Germano e Pâmela Carbonari

Editor: Alexandre Versignassi
Editor de Arte: Jorge Oliveira

Colaboraram nesta edição: Salvador Nogueira (edição e textos), FazFazFaz (projeto gráfico, direção de arte
e edição de imagens), Alexandre Carvalho dos Santos (revisão), Sattu (ilustração da capa),
Fabricio Lopes (tratamento de imagens), Anderson C.S. de Faria (arte)

DINOSSAUROS ASCENSÃO E QUEDA
ISBN - - --

é um livro da Editora Abril S.A., distribuído em todo o país pela Dinap S.A. Distribuidora Nacional de Publicações, São Paulo.
O Dossiê Dinossauros: ascensão e queda o não admite publicidade redacional.

IMPRESSO NA GRÁFICA ABRIL
Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP)

Nd

Nogueira, Salvador
Dinossauros: ascensão e queda. / Salvador Nogueira. – São Pau-

lo: Abril, .
p ; il. ; cm.

(Dossiê Superinteressante , ISBN - - - - )

. Pré-história - Vida. . Dinossauros. . Paleontologia - História.
I. Título. II. Nogueira, Salvador. III. Série.

CDD .


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