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Published by Revista O Lutador, 2019-04-10 22:28:50

REVISTA OLUTADOR 3904 SETEMBRO 2018

Pela dignidade da vida

Keywords: Revista O Lutador,O Lutador,Revista Católica,Revista Católica O Lutador

Igreja Hoje [ É comunhão defender a vida...

ANO LXXXIV / Nº 3904
SETEMBRO / 2018
olutador.org.br

Pela dignidade
da vidaR$9,90

[ Católicos aumentam no mundo [ Esse sujeito chamado jovem

Setembro

é mês de celebração!

A Rede Catedral de
Comunicação Católica
comemora os três anos da
proclamação de Nossa Senhora
da Piedade como Padroeira das
emissoras, Rádio América e

TV Horizonte.

(31) 3209-0750 App: Rede Catedral

tvhorizonte.com.br tvhorizonteoficial (31) 3469-2549 App: Rede Catedral

Religião [ Católicos latinos nos EUA Espaço do Leitor [ Escreva, envie seu e-mail, comente

ANO LXXXIV / Nº 3903 Parabéns aos aniversariantes
AGOSTO / 2018 do mês de setembro!
olutador.org.br
Parabéns aos aniversariantes do mês de Setem-
Sacramentinos bro! “Eu já janeirei, feverei, até agostei com to-
na África dos os ventos que eles me trouxeram. Agora
vou setembrar, de preferência primaverando,
[ Roma: mais autonomia que é para desabrochar o que plantei no res-
para os mosteiros tante dos meses...”

[ As muitas curas dos novos padres Lembramos que, no dia 25 deste mês, será
[ Sabedoria: um sinal de esperança celebrada uma missa na intenção de nossos as-
[ Jovens na tríplice fronteira sinantes e de seus familiares, de modo especial
para os doentes e acamados. O celebrante do
Brasil-Colômbia-Peru dia 25/09/2018 também será o Pe. João Lúcio
Gomes Benfica, SDN. Deus abençoe a todos os
R$ 9,90 nossos assinantes.
[Caso seu nome não apareça na lista, entre em
Ó Trindade Santa, vós que sois a fonte contato com nosso setor de assinaturas:
de toda santidade, nós vos louvamos Fone: 0800-940-2377
por vosso servo o Pe. Júlio Maria De Lombaerde, E-mail: [email protected]
que, assemelhando-se ao Cristo Eucarístico, Dia 1º - DILCINEIA TASMO / ENY DE SOUZA BERNARDINO / HILDA DA FONSECA SANTOS / JOSE CARLOS VILELA / YVONE
cuidou do vosso rebanho com amor, STUTZ EMERICH. Dia 02 - ANTENOR LEAL / DR. JORGE ELPIDIO DE SOUZA / FLORINDA BURKOVSKI ROSSONI / GILBERTO
zelo e doação. E, deixando-se guiar pelo LOPES DE ALMEIDA / INES DOS REIS MARQUES / MARIA APARECIDA SILVA / NILDA RICARDO SIRELLI. Dia 03 - AFONSO
Espírito Santo, assim como a Virgem Maria, LIGORIO PEREIRA / FLAVIO BRUCE E MARIA DA GLORIA / FRANCISCO RICARDO DA SILVA / IRMA IVANEIDE CHAGAS ALBINO
testemunhou a ternura missionária da Igreja. / JOSE ADISON PEIXOTO / MARIA ALVES PINHEIRO VIEIRA / ROSANGELA FONSECA ARAUJO / VICENTINA PERIGOLO ROCHA
Concedei-me, ó Trindade Santa, pela intercessão / VITA DE VASCONCELOS PEDROSO. Dia 04 - ANGELA MARIA CANONICO PONTES DENARDI / ERMINIA MARIA LIGNANI DE
do Pe. Júlio Maria, a graça que vos suplico MIRANDA / JOSE AUGUSTO CARRILHO EMERY - EMM / LUZIA VILELA FERNANDES / MARIA AMELIA FERNANDES DA SILVA.
[pedir a graça]. E, se for de Vossa santa vontade, Dia 05 - ADALID MEDINA / ARACI / AUGUSTO MARTINS DA ROCHA FILHO / FRANCISCO CARLOS TOFFOLI / FRANCISCO
dai que Pe. Júlio Maria alcance a honra CARLOS TOFFOLI / GUSTAVO TOMASELLI / JOAO FERREIRA DOS SANTOS / MARIA MARLENE MOREIRA RAMOS / NELCI
TRINDADE FARIAS / PAULO CESAR DE ALMEIDA / THEREZINHA MARIA DE LELIS FERNANDES. Dia 06 - EVANDRO ALVES
dos altares, para Vossa glória GUEDES - EMM / JOSE VANDERLY BERGAMI. Dia 07 - AUGUSTA NUNES / DOMICIO VIEIRA DE SOUZA / JOAO VIANEI
e para o bem de tantas almas. MOURA LIMA / LUIS GONZAGA RODRIGUES / PADRE PAULO HENRIQUE DA SILVA / ROSILENE MARIA FERREIRA. Dia 08
Por Cristo, Nosso Senhor Amém. - CELIO MARTINS DA SILVA / MARIA NATIVIDADE ZACARIAS / MARIA NONATO DA SILVA. Dia 09 - DAVI LACERDA GARCIA
/ GILSON CRISTIANO TARDIVO / GLAUCIA MONTALVERNE COIMBRA / ROSA MARIA PEDROSA DE PADUA / SIMAO
BOSCHECO. Dia 10 - FREI ROBERTO MAGALHAES / LUIS ANTONIO DE OLIVEIRA CAPUTO / MARIA ANGELICA BRAGA
DUTRA / MARIA JOSE DE SOUSA MOURA / MILTON MARINO FILHO / PADRE JOSE VALTER ROSSINI. Dia 11 - ANGELO
LUIS BALTAZAR / CREUZA MARIA DO COUTO SILVA / FRANCISCO FABIO OLIVEIRA DOS SANTOS / HELENA DAS GRACAS C.
REIS / MARIA DOS ANJOS GOMES PEREIRA / VERA LUCIA BAETA NEVES. Dia 12 - ALINA BORGES LAMENDOLA / DILSON
DE ARRUDA / MARIA DE LOURDES TEIXEIRA VIEGAS / MARIA ISABEL FRANCISCA LACERDA DO AMARAL SIMONA /
MARIA LUIZA GOMES DELMORO / MARLENE DOS SANTOS FORNAZIER / NATHERCIA MARIA G. SALGADO / PE. GILBERTO
PEREIRA SOUZA / VIRGINIA MARIA GANDRA. Dia 13 - CESAR GONCALVES GUERRA / MARILZA APARECIDA DE ARAUJO
/ NEREU DO VALE PEREIRA / TEREZINHA GONCALVES SILVA. Dia 14 - ADRIANO GIUSEPPE BRESCIANI / LAZARA MARIA
BONTEMPO / MARIA FERNANDES DE MIRANDA. Dia 15 - AGUINALDO LUIZ GUIRIATTO / ALAIR TAVARES / EMMANUEL
CORREIA- EMM / FERNANDA CORDEIRO COELHO RODRIGUES / MARIA DE FATIMA ALVES CHAGAS / NADIR PERIN.
Dia 16 - ALCINO MARCELINO DE SOUZA AC/ CRESOL DE SIMONESIA / GERALDA MARETE LOPES DE OLIVEIRA / MARCELINO
KOHLER / MARIA LUIZA CANAVESI SOTERO / REGINA HOLTZ ALVES. / RUTH PENA BRANDÃO / SUZANA YUI SINZATO /
VANIA SHIRLEY CRISCUOLO PARREIRAS / WILMA MARIA GOLIA. Dia 17 - DOM GORGONIO ALVES DA ENCARNACAO /
FRANCISCA ADRIANA LIMA DA SILVA / PE. PEDRO DE SOUZA PINTO. Dia 18 - ANTONIO CARLOS DA SILVA / ANTONIO CELSO
MORAES REGO ELIAS / LINDALVA APARECIDA DA SILVA / MARCIA MARIA SANDOVAL CERQUEIRA / MILTON SACCOL /
PAULO BIANCHI / SOPHIA NILMA BERTELLI. Dia 19 - CONSTANCIA DE SOUZA DAMASCENO / DINAH LOBO / GUILHERME
PERINI TEIXEIRA DOS SANTOS / JOSE RABELO CAMPOS / LUCIA MARIA FURTADO G. PINTO / MARIA RITA DE AZEVEDO
RAMOS / MARIA RITA DE AZEVEDO RAMOS / MARLY EDUARDO SAADE / PE. AUGUSTO PADRAO / PE. LUIZ EDUARDO
CARDOSO DE SÁ. Dia 20 - ANA MARIA BENTES BRUM / CARMELLIO MAONTUANO DE PAIVA / DORALICE VASCONCELOS
NUNES / JAMIR SOBRINHO DA SILVA / JANE GUERRA CABRAL GOMES / JOSE EDGARD BITENCOURT / NIVALDA LUCIA
DA SILVA / STELA MAURO / TEREZINHA PARMA MACHADO. Dia 21 - ANTONIO LUIZ BOSS / CARLOS ALBERTO REZENDE /
CARLOS DANIEL DE SOUZA / CARLOS DANIEL DE SOUZA / CRISTINA DI GIAIMO CABOCLO DE FREITAS / DNER PEREIRA DE
JESUS / ILMO SR CARMO SERVINO DE AMORIM / JOSE ADELMO SOUTO GUEIROS / JOSE OLIMPIO DE ALMEIDA / MARIA
APARECIDA MAGALHAES DOS SANTOS / MARIA DE LOURDES RODARTE TRIGUEIRO / NAPOLEAO VAZ GUIMARAES.
Dia 22 - ALEXSSANDRO BILIBIO DIAS / ALOISIO MAYWORM PEREIRA / CARLOS MARTINS LOPES / MARIA APARECIDA
ROCHA LOPES / MARIA JOSE SIZOTTI / MARIA ROSA BIASOTTO CANDINI. Dia 23 - CLAUS LUCIANO BARROS LUZ / LUIS
CARLOS NEVES VELOSO / VICTOR ROBERTO DE CAMPOS BERGO. Dia 24 - ADRIANE CAMPOS EVANGELISTA MIRANDA /
ANA MARIA PIVETTA FOLDENAUER / GERALDO MAGELA MENDES / MARCONI DE QUEIROZ CAMPOS / ZENAIDE GOMES
JANNUZZI. Dia 25 - ALINE GONCALVES MOTA BORGES DA SILVA / CLAUDIO FREITAS - EMM / EDUARDO PEREIRA / MAGALI
AP. M . DA CRUZ - EMM / MARILENE LINS DA SILVA / WILSON HERCULANO LOURENCO DE FREITAS. Dia 26 - ALCY MARCOS
DA SILVA / EUGENIO ELISIO GUIMARAES MACHADO / JOSE RODRIGUES DOS SANTOS / JULIO PEREIRA DO NASCIMENTO
/ LUIZ ANTONIO FERREIRA DA SILVA / MARIA AUXILIADORA CARVALHO LAGE PIRES / MARVICIO ANTONIO DA SILVA /
VANIO JOSE DA CRUZ- EMM. Dia 27 - DOM WERNER SIEBEMBROCK, SVD / LUCIA MARIA FONSECA RODRIGUES / PE.
ELAIR SALES DINIZ. Dia 28 - ACHILES FERREIRA DA ROCHA / EDEVINO FILLA / MARIA FATIMA DE MELO CASSINI LABBATE /
NILSON RUBENS DE MORAIS. Dia 29 - AURORA SILVA DE OLIVEIRA / EDILEUSA E UBINALDO CANDIDO DE SOUZA / ERICA
RODRIGUES PEREIRA FARIA / COM. SÃO PAULO VARGEM ALEGRE / FLORIPES PAULA DE SOUZA PINHEIRO / LÁZARO
OLIVEIRA / LUIZ DE GONZAGA PARREIRA / PEDRO ROSA DA SILVA. Dia 30 - BENEDITO DE ALMEIDA / EMILIA DE CASTRO
MACHADO / EXPEDITA RITA GREGORIO / EXPEDITA RITA GREGORIO / IBRAHIM ANTONIO BITTAR JUNIOR / LUIZ FILIPE
VALIAS VARGAS / RONALDO BERNARDES ANDRADE / VURNI NUNES BRAGA.

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@ [ Preocupação combate à corrupção portantíssima Lei da Ficha Suja. Espe- conturbados no qual as diversas instân-
Como assinante de O Lutador, fiquei mui- ro que “O Lutador” esteja mais aten- cias do poder parecem tratar a “Re-pú-
to preocupado com omissão explícita da to quanto a isso, inclusive alertando a blica” como coisa particular, privada, a
importância do combate à corrupção de CNBB sobre manifestações como a mi- serviço de interesses de grupos e pes-
políticos e de pessoas poderosas em nos- nha, que deve ser também de muitos soas diversas. A “Lava-Jato”, oxalá qui-
so país nos seguintes documentos pu- assinantes dessa que se pretende se- sesse fazer uma limpeza de fato, não se
blicados com destaque por “O Lutador” ja uma revista imparcial e conceituada. reduziria a uma ação seletiva, desmora-
em sua edição de julho/2018: (1) Ma- lizando-se de tal forma. Ansiamos, sim,
nifesto do Conselho Nacional do Laica- [ AlOísiO dE ArAÚjO PrinCE por uma conduta que trate a todos, co-
to do Brasil; (2) Nota da CNBB sobre o [E-MAil: [email protected]] mo iguais perante a Lei e a Justiça, sem
momento nacional. Até mesmo no ar- exceção político-partidária. Mas, ao que
tigo de Débora Nunes, “Corrupção nos- BElO hOrizOntE, Mg parece, estamos longe disso. Somos to-
sa de cada dia”, há a nítida preocupa- dos cônscios do teatro ensaiado que, no
ção de minimizar a corrupção que tem Da Redação Brasil, apoiado pela grande mídia, tem
infelicitado o país por conta dos inte- Caro Sr. Aloísio, como o senhor e, acre- contribuído para aumentar a fome, a vio-
grantes da elite governante e empre- dito, os demais leitores também, devem lência, o desemprego e a dependência
sarial. Quando os mais importantes re- ter-se dado de que nossa postura tem si- de nosso país ao capital internacional.
presentantes e meios de comunicação do de evitar divulgar opiniões sobre as Somos totalmente a favor da ficha lim-
da Igreja Católica no Brasil deixam-se in- questões políticas. Vivemos tempos obs- pa, não seletiva, para todos. O que tive-
fluenciar por ideólogos de partidos po- curos e o que está reluzindo, verdadei- mos na nota e no manifesto é um aler-
líticos como o PT, hoje muito preocupa- ramente, não é ouro... Divulgamos uma ta da Igreja para todos nós. E somos do
dos em minimizar a inusitada e mons- nota da CNBB e um manifesto do CNLB. parecer de que “é preferível errar com a
truosa roubalheira que ocorreu em seus São entidades representativas da Igreja, Igreja que acertar sozinhos”. Nestes tem-
governos e desqualificar a justa prisão uma que representa os bispos e outra que pos difíceis, tenhamos ouvidos abertos
de seus líderes maiores (Lula e José Dir- representa os leigos. Não são opiniões, para ouvir o que Espírito diz à Igreja (cf.
ceu, principalmente), em quem se há são notas para esclarecimento e mani- Ap 2,7), e ainda a sensibilidade de per-
de confiar? Essa partidarização é ina- festo por garantia de direitos. E, quanto ceber as coisas que o Senhor escondeu
ceitável. Até parece que a CNBB arre- ao artigo de combate à corrupção, ele aos sábios e entendidos (o que não passa
pendeu-se de ter participado com des- procurou apontar para a necessidade de nas grandes mídias) e as está revelando
taque na campanha que resultou na im- vencer a corrupção que não está em um aos pequeninos... (cf. Mt 11,25).]
partido, mas disseminou-se para muito
além da classe política. Vivemos tempos

[ Pe. Júlio, descanse em Paz!
MUITOS OLHARES carregados de tris-
teza marcaram o último domingo, tinos de Nossa Senhora, lembrou ainda
seu interesse pelos meios de comuni-
dia 22 de julho, para a comunidade cató- cação, que o fez mais respeitado por se
lica, que se despediu do líder religioso, tornar um grande empreendedor na ra-
Padre Júlio Pessoa Franco, [*11/09/1930 diodifusão. Também foi grande promis-
– +21/07/2018]. Foram 60 anos de con- sor com a criação do Jornal “Tribuna do
vivência com as famílias, lideranças de Leste”, em 1972, e se tornou mais tarde
várias classes, autoridades que sempre órgão oficial de várias comarcas e muni-
o respeitavam. cípios. Foi também um grande empreen-
Em todo esse tempo, ele sempre pau- dedor em construção de capelas em vá-
tou em trabalhar para o crescimento da rias comunidades rurais, igrejas em vá-
região. Desde que chegou para o traba- rios bairros de Manhuaçu. O missioná-
lho de evangelização, foi considerado um rio era considerado uma pessoa séria e
desbravador enfrentando os obstáculos, prestigiada.
andando por comunidades longínquas Sua morte comoveu os fiéis da igre-
nas costas de um cavalo, percebendo as ja. Que ele possa agora contemplar, fa-
necessidades e idealizando projetos ca- ce a face, o Cristo pelo qual tanto traba-
pazes de alcançar seu objetivo. lhou nesta terra.]
Padre Mundinho, atual Superior da
Congregação dos Missionários Sacramen-
Fonte: jornal tribuna do leste

[ Expediente Editorial

O LUTADOR é uma publicação mensal O Evangelho: nossa regra de vida
do Instituto dos Missionários
Sacramentinos de Nossa Senhora A lguns dias atrás, recebi um vídeo através do WhatsApp, no qual
Daniela Mercury esbravejava que “a Bíblia não é nossa Constituição”. A
O Lutador forma como ela se expressava parecia indicar um conhecimento muito
ISSN 97719-83-42920-0 superficial da Palavra de Deus ou, talvez, uma visão reducionista e pre-
conceituosa. Até porque a Bíblia, de fato, não se presta a esta função.
Fundador Antes, a experiência de fé de um povo, ali consignada, revela a ação de
Pe. Júlio Maria De Lombaerde Deus que caminha com seu povo, que entra em nossa história e, co-
mo tal, serve de luz para iluminar o caminho de todos os filhos e filhas
Superior Geral de Deus. Uma Palavra que, lida e interpretada com o espírito em que
Pe. José Raimundo da Costa, sdn foi vivida, transmitida e, enfim, redigida, serve para nos ajudar a fazer
escolhas e a tomar decisões mais acertadas.
Diretor-Editor O Papa Francisco, também há poucos dias, teve a coragem de
Ir. Denilson Mariano da Silva, sdn pautar uma mudança no “Catecismo da Igreja Católica”, deixando-se
guiar pela da Palavra de Deus. Com esta atitude ele ajuda a Igreja a ver
Jornalista Responsável que a vida é mais forte que a morte, e a pessoa humana é maior que sua
Pe. Sebastião Sant’Ana, sdn (MG086063P) culpa. Com esta atitude ele reafirma que a Igreja deve assumir o Evan-
gelho como regra de vida. Aqui, entendemos a Igreja não apenas co-
Redatores e Noticiaristas mo Instituição, mas como a comunidade de fé, de pessoas batizadas
Pe. Marcos A. Alencar Duarte, sdn que se colocam no seguimento a Jesus Cristo.
Pe. Sebastião Sant’Ana, sdn Desta forma, o Evangelho deve ser a luz a iluminar a vida da
Frt. Matheus R. Garbazza, sdn Igreja, a vida dos cristãos: a vida pessoal, familiar, comunitária e so-
Frei Patrício Sciadini, ocd, Frei Vanildo Zugno, cial. Isso nada tem a ver com pieguismo, muito menos com alienação.
Dom Paulo M. Peixoto, Antônio Carlos Santini Trata-se de olhar para a vida de Jesus, luz que ilumina a Lei e os Pro-
e Dom Edson Oriolo fetas (cf. Mt 7,1-9) e, a partir de Seu testemunho, direcionar as ações,
opções e decisões, sejam elas pessoais ou familiares, eclesiais ou so-
Colaboradores ciais, à luz do Evangelho.
Vários Neste sentido, o Papa Francisco não apenas tem-se esforçado,
mas nos tem convocado a colocar o Evangelho em prática. Ser um fer-
Revisão mento do Evangelho no mundo. Não como uma espécie de receita pron-
Antônio Carlos Santini ta, mas como luz que nos permite o necessário discernimento. Saber
escutar o que o Senhor nos diz, para encontrar aquilo que de fato seja
Projeto gráfico e Diagramação mais fecundo no “hoje” da salvação. O discernimento, mediante a luz
Valdinei do Carmo do Evangelho e do Magistério da Igreja, é capaz de libertar-nos da rigi-
dez, das forças de morte e de opressão, e de penetrar no mais profundo
Assinaturas e Expedição da nossa realidade, ajudando-nos a optar verdadeiramente pela vida
Maurilson Teixeira de Oliveira em abundância para todos (cf. Gaudete et Exultate, 173).
O Evangelho é uma força libertadora. Ele liberta daquilo que fe-
Impressão e Acabamento re a vida humana e a vida no planeta. O Evangelho nos liberta de nos-
Gráfica e Editora O Lutador, Certificada FSC®, sas inconsistências, de nossos desvios, vaidades, da violência, da cor-
Praça, Pe. Júlio Maria, 01 - Planalto rupção e da injustiça. Aponta-nos sempre a direção que nos faz mais
31730-748 - Belo Horizonte, MG - Brasil fraternos, solidários e mais verdadeiramente humanos. Ter a coragem
de tomar o Evangelho como regra de vida é ousar colocar a vida em pri-
Telefax meiro lugar, como bem maior a ser protegido, preservado, cultivado...
[31] 3439-8000 | 3490-3100 O Evangelho nos revela o Filho de Deus, que veio ao mundo pa-
ra que todos tenham vida em abundância (cf. Jo 10,10). Quanto mais
Site o Evangelho for nossa regra de vida, mais vida teremos em nossa so-
olutador.org.br - facebook.com/revistaolutador ciedade e no mundo.
E isso é pra começo de conversa]
Redação
[email protected] [ i r . De n i l s o n M a r i a n o, s d n

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4.200 exemplares

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[Sumário olutador • r e vis ta m ensal • An o L X X XiV • Nº 39 0 4 • se tem b ro • 2018 •

[ É comunhão
defender
a vida
10 [ Somos
Igreja do
sim à vida:
vida sim! 16

[ Pela [ Virgens consagradas, esposas de Cristo 8
dignidade [ Evangelização em tempos
da vida
de toda de entretenimento 11
pessoa [ Exorcismos:
6
possessão ou psiquismo? 12
[ Leigos: [ Católicos aumentam no mundo 13
contemplativos [ Ser sábio é ser justo 14
[ Experiência de Deus: amparo e envio 18
na estrada [ Esse sujeito chamado jovem 20
26 [ Encontro Matrimonial Mundial (EMM) 22
[ Tempos sombrios? 23
[ Mudar de mentalidade 24
[ Construindo Cristo em nós 25
[ Porque vocês são fracos no bem,

somos fortes no mal 27
[ Comunidade: entre o ideal e a graça 30
[ Roteiros Pastorais 31
[ A infância golpeada 43
[ Mineração, tão devastadora

quanto ignorada 44
[ Os leigos na política 46
[ Bíblia Sagrada Africana 47
[ Revolução digital e o bem comum 48

jesus b astante * Capa [ A Igreja Católica se compromete com a

Pela
ddiganvidiaddae
de toda
pessoa

Papa Francisco elimina a pena de morte

do Catecismo. A Igreja Católica se

compromete com a abolição da pena

de morte em todo o mundoIgreja ensina,

à luz do Evangelho,

“ que a pena de morte

A é inadmissível, por-
de fato, a situação política e social
no passado fazia da pena de morte
um instrumento aceitável para tu-
tela do bem comum, hoje está cada

que atenta contra a vez mais viva a consciência de que

inviolabilidade e a dignidade da pes- a dignidade da pessoa não se perde

soa, e se compromete com determi- nem mesmo depois de ter cometido

nação para a sua abolição em todo o crimes muito graves”.

mundo.” Com estas palavras, o Papa A carta analisa como os anteriores

Francisco dá um passo gigantesco, pontífices foram caminhando nesta A nova formulação do nº 2267 do
Catecismo da Igreja Católica quer ser
modificando o artigo 2267 do Cate- linha, e constata que, “independen- um impulso para um compromisso
firme, através de um diálogo respei-
cismo para eliminar qualquer ves- temente das modalidades de execu- toso com as autoridades políticas, pa-
ra que se favoreça uma mentalidade
tígio de aprovação à pena de morte. ção, ‘implica um tratamento cruel, que reconheça a dignidade de cada
vida humana e para que se criem as
Em uma carta enviada aos bis- desumano e degradante’. A pena de condições que permitam eliminar ho-

pos de todo o mundo pelo prefeito morte também deve ser rejeitada por

da Congregação da Doutrina da Fé, o causa da seletividade defeituosa do

Cardeal Luis Francisco Ladaria Fer- sistema criminal e por causa da pos-

rer, o Papa Francisco enfatiza que “se, sibilidade de erro judicial”.

[ 6 • olutador [ setembro ] 2018

a abolição da pena de morte em todo o mundo...

mente a vida humana contra o agres- a dignidade da pessoa não fica pri-
sor injusto. Se os meios incruentos vada, apesar de cometer crimes gra-
bastarem para defender as vidas hu- víssimos. Além do mais, difunde-se
manas contra o agressor e para pro- uma nova compreensão do sentido
teger a ordem pública e a segurança das sanções penais por parte do Es-
das pessoas, a autoridade se limita- tado. Enfim, foram desenvolvidos sis-
rá a esses meios, porque correspon- temas de detenção mais eficazes, que
dem melhor às condições concretas garantem a indispensável defesa dos
do bem comum e estão mais confor- cidadãos, sem tirar, ao mesmo tempo
mes à dignidade da pessoa humana. e definitivamente, a possibilidade do
réu de se redimir.
Agora, nesse mesmo ponto, diz:
“2267. Durante muito tempo, o recurso Por isso, a Igreja ensina, no Novo
à pena de morte, por parte da legítima Catecismo, à luz do Evangelho, que “a
autoridade, era considerada, depois de pena de morte é inadmissível, porque
um processo regular, como uma res- atenta contra a inviolabilidade e dig-
posta adequada à gravidade de alguns nidade da pessoa, e se compromete,
delitos e um meio aceitável, ainda que com determinação, em prol da sua
extremo, para a tutela do bem comum. abolição no mundo inteiro”.]

No entanto, hoje, torna-se cada * Redator chefe de Religión Digital
vez mais viva a consciência de que e colaborador em diversos meios
escritos e audiovisuais.

CELAM – Nota sobre a pena de Morte

je a instituição jurídica da pena de “A Igreja ensina, à luz do Evangelho, uma consciência crescente em defe-
morte onde já se encontra em vigor, que a pena de morte é inadmissível, sa da vida, desde a sua concepção”.
conclui a carta de Ladaria aos bispos. porque atenta contra a inviolabilida-
de e a dignidade da pessoa, e se com- O comunicado continua, dizendo:
Antes e depois promete, com determinação, pela sua “Por isso, aceitamos esta mudança, co-
Na nova redação se admite como “por abolição em todo o mundo.” (nº 2267.) mo afirma o Cardeal Luís Ladaria, Pre-
muito tempo o uso da pena de morte Desta forma, continua a nota, o Papa feito da Congregação para a Doutrina
pela autoridade legítima, após o devido Francisco nos convida a obedecer ao da Fé, como um verdadeiro desenvolvi-
processo, foi considerado uma resposta Mandamento do Senhor “Não mata- mento da doutrina católica, cientes de
apropriada à gravidade de alguns crimes rás”, e ratifica o princípio de inviola- que Francisco representa Pedro e, como
e um meio admissível, ainda que extre- bilidade da vida e da dignidade hu- Vigário de Cristo na terra, tem a facul-
mo. para a proteção do bem comum”. mana, que “não se perde, mesmo de- dade e o dever de ensinar e guiar, com
pois de cometer crimes muito graves”. base no depósito da Fé e da Tradição”.
Algo que agora muda, esperamos
que para sempre, porque “a dignida- Segundo o novo parágrafo do Cate- Encorajamento
de da pessoa não se perde nem mesmo cismo da Igreja, “estende-se uma maior “Como agentes da Pastoral Carcerária,
depois de ter cometido crimes muito compreensão do significado das sanções que acompanham os desprovidos/as
graves”, nem a possibilidade “de se criminais pelo Estado. Enfim, devem ser de liberdade, diz a nota, afirmamos
redimir definitivamente”. implementados sistemas de detenção que devemos sempre crer na força re-
mais eficazes, que garantam a necessá- dentora da Misericórdia e na capaci-
Anteriormente, o Catecismo, no seu ria defesa dos cidadãos, mas, ao mesmo dade do ser humano, criado à imagem
ponto 2267, sublinhava o seguinte: tempo, não privem o recluso da possi- e semelhança de Deus, de se redimir.
O ensino tradicional da Igreja não bilidade de se redimir definitivamente”.
exclui, depois de comprovadas ca- Como discípulos missionários de
balmente a identidade e a respon- Exortação Jesus, concluem os Agentes da Pastoral
sabilidade de culpado, o recurso à Por isso, a Pastoral Carcerária do CE- Carcerária do CELAM, devemos amar,
pena de morte, se essa for a única LAM apela: “Exortamos os Estados cuidar e defender a vida humana de
via praticável para defender eficaz- onde, atualmente, se aplica a pena todos. Por isso, unimo-nos ao Papa
de morte, a decretarem a sua aboli- Francisco e rejeitamos a pena de mor-
ção; a todos os homens e mulheres te, assim como a pena até à morte”.]
de boa vontade, exortamos a contri-
buir para criarem, na opinião pública, Pastorais Carcerárias da América Latina e do

Caribe, Bogotá, Colômbia, 2 de agosto de 2018.

Fonte: Religión Digital

olutador [ setembro ] 2018 • 7 ]

Virgens consagradas,

esposas de Cristo

Elas são o ícone da natureza íntima da relação que o Senhor
quer estabelecer com a comunidade dos fiéis

No dia 8 de junho de 2018, da daquelas mulheres que, corres- Raízes bíblicas
solenidade do Sagrado Co- pondendo a carisma evangélico ne-
ração de Jesus, o Santo Padre las suscitado pelo Espírito Santo, com A Instrução recorre à Sagrada Es-
aprovou o texto da Instru- amor esponsal dedicaram-se à vir- critura para o elogio da virgindade
ção “Ecclesiae Sponsae Imago” [Ima- gindade, para experimentar a fecun- consagrada. “A partir da pregação de
gem da Igreja Esposa], documento didade espiritual da íntima relação Oseias – estreitamente ligada à sua
da Congregação para os Institutos de com Ele e oferecer os frutos à Igreja sofrida experiência pessoal – a metá-
Vida Consagrada e as Sociedades de e ao mundo.” (ESI, 1) fora nupcial aparece nos livros pro-
Vida Apostólica. O texto é assinado féticos para dar proeminência à total
pelo Prefeito Cardeal D. João Braz de São exemplos dos três primeiros gratuidade da eleição e da incansável
Aviz e pelo Secretário D. José Rodrí- séculos, em época de perseguição re- fidelidade por parte de Deus (cf. Os
guez Carballo, OFM. ligiosa, as virgens mártires Águeda 1-2; Ez 16,23), enquanto o povo ce-
de Catania, Lúcia de Siracusa, Inês de à sedução de outras divindades
Tradição apostólica e Cecília de Roma, Tecla de Icônio, e de seus cultos. Neste marco sim-
“Desde os tempos apostólicos – afir- Apolônia de Alexandria, Restituta de bólico, muitas vezes todo o povo de
ma o texto – esta expressão do Mis- Cartago, Justa e Rufina de Sevilha. Deus é comparado ou personifica-
tério da Igreja encontrou uma mani- O fim das perseguições não apagou do com a figura de uma virgem, se-
festação totalmente peculiar na vi- a busca de uma entrega total ao Se- ja para denunciar a idolatria, que o
nhor através da consagração virginal. expõe ao risco de desaparecer, co-

[ 8 • olutador [ setembro ] 2018

Igreja Hoje [ A mesma liberdade foi desejada por Jesus para os
seus seguidores, quando o Mestre pede deixem “tudo”...

mo uma virgem sem descendência pula e missionária; projetada pa- Vai longe o tempo em que a virgin-
(Am 5,2), seja para dar voz ao lamen- ra o cumprimento escatológico e, dade consagrada precisava da prote-
to por sua ruína (Lm 2,13) ou ainda ao mesmo tempo, participante das ção das muralhas do convento. Nes-
para convidá-lo ao arrependimento alegrias, esperanças, tristezas e an- te novo tempo, as “esposas de Cris-
(Jr 31,21). Às vezes, porém, para fa- gústias dos homens de seu tempo, to” se aventuram nas favelas e nas
zer ressoar a promessa da redenção sobretudo os mais pobres e fracos; prisões, nas periferias das megaló-
com que Deus irá resgatar Israel da imersa no mistério da transcendên- poles, cuja imagem foi definida por
devastação e do abandono e, assim, cia divina e encarnada na história um bispo brasileira como autêntica
encontrar a alegria de se reconhe- dos povos”. “coroa de espinhos”.
cer amado com amor eterno (cf. Jr
31,4.13; Is 62,5).” (ESI, 13) Assim considerada, a consagra- A necessária preparação
ção das virgens “estabelece uma es-
“Também o celibato de Jeremias pecial relação de comunhão com a A partir do item 74, a mesma Instru-
– o único a quem Deus ordena ex- Igreja particular e universal, defi- ção realça a importância do discer-
plicitamente que tomasse mulher – nida por um vínculo peculiar, que nimento vocacional e da formação
constitui um anúncio profético do determina a aquisição de novo es- para aquelas que pretendem abra-
castigo que está por abater-se sobre tado de vida e as introduz no Ordo çar a virgindade consagrada. Tra-
o povo (cf. Jr 16,2). É um expressivo Virginum”. Por isso mesmo, torna-se ta-se de um processo que “impli-
instrumento da palavra de Deus, um necessária “a mediação do ministé- ca todas as dimensões da pessoa –
símbolo de morte, ou melhor, uma rio do bispo diocesano ou, em uma corporal e afetiva, intelectiva, voli-
personificação dolorosa da mensa- Igreja particular similar à Diocese, tiva e espiritual – e se prolonga por
gem do juízo, que anuncia a destrui- do ministério do pastor que a pre- toda a vida, já que a pessoa con-
ção iminente como castigo pela infi- side em comunhão com o sucessor sagrada jamais poderá supor que
delidade do povo a Deus.” (Ibidem) de Pedro”. completou a gestação daquele ho-
mem novo que experimenta dentro
O exemplo de Jesus A virgindade nas ruas de si, nem de possuir em cada cir-
Pouco adiante (nº 15), a Instrução re- cunstância da vida os mesmos sen-
corda o modelo de Jesus, que “abraça No momento em que a timentos de Cristo”.
livremente uma vida sem laços nem maioria das Congrega-
obrigações familiares para poder de- ções femininas lamen- Daí, a importância do acom-
dicar-se plenamente ao anúncio do ta a falta de vocações, panhamento espiritual, dos crité-
Reino e à realização do desígnio de estas se multiplicam no rios de discernimento, de um iti-
amor do Pai para a humanidade”. A seio dos Movimentos e nerário de formação prévio à con-
mesma liberdade foi desejada por Je- das Comunidades Novas, sagração.
sus para os seus seguidores, quando com a opção pelo celibato
o Mestre pede deixem “tudo” (pan- Por baixo das palavras, vê-se a
ta: Mt 19,27; Mc 10,28), deixem seus aliada à prática das diaconias, em hos- preocupação com grupos que se
bens (ta idia: o íntimo, a própria in- pitais, presídios, casas de recupera- isolam da vida eclesial: “a candida-
timidade, Lc 18,28). ção, centros de evangelização e apoio ta cultivará a união com a comuni-
às paroquias. São médicas, enfermei- dade eclesial, seja valorizando as re-
E isto supõe deixar, além de pais, ras, professoras, auxiliares em clíni- des de relações fraternais que cons-
irmãos, irmãs, também mulher (gyné: cas, catequistas paroquiais, vivendo tituem o tecido ordinário e cotidia-
Lc 18,29) ou filhos (tékna: Mt 19,29; no meio do mundo o seu chamado. no da experiência eclesial, seja parti-
Mc 10,29; Lc 18,29), chegando ao ex- cipando, tanto quanto possível, dos
tremo de lhes falar em eunuchia (a No item nº 67, a Instrução deixa eventos diocesanos mais significa-
condição de eunucos), não como des- claro que “nada impede que uma vir- tivos”. (100)
prezo pela mulher, mas como espe- gem consagrada se beneficie da va-
cial dom de Deus concedido aos que riedade de carismas e espiritualida- E mais: “Segundo as aptidões,
são chamados. des com os quais o Espírito enriquece as possibilidades efetivas e os caris-
a Igreja e, eventualmente, encontrar mas de cada uma, o compromisso
No coração da Igreja na referência a determinada agrega- de edificação da comunidade po-
O item nº 20 da Instrução repete que ção eclesial (Ordem terceira, Asso- derá concretizar-se em um serviço
“na vida das virgens consagradas ciação de leigos, Movimento), a seu pastoral ou em outra forma de tes-
se reflete a natureza da Igreja, ani- carisma e espiritualidade, uma aju- temunho, que, no contexto social e
mada pela caridade tanto na con- da para expressar seu próprio caris- cultural em que vive, expresse a co-
templação quanto na ação: discí- ma virginal”. laboração na missão evangelizado-
ra e de promoção humana da Igre-
olutador [ setembro ] 2018 • 9 ] ja”. (ACS)]

Igreja Hoje [ Ser bom não é mérito, é necessidade da vida...

yago nantes *

É comunhão saudável, com prioridade para a vida?
defender a vida Ou um futuro lastimável de pessoas dis-
postas a matar? Por que decretar uma
Oaborto tem sido um dos temas que mais gerou discussões pena de morte aos nascituros? O caso
nas redes sociais de todo o país. Entretanto, o ponto de vis- do aborto não reflete somente em uma
ta que culmina em torno do assunto é negativo. É nosso de- morte física do ser humano que está
ver defender toda forma de vida e abominar qualquer atitude ca- sendo formado, mas, muitas das vezes,
paz de tirá-la. em uma morte ou profunda dor espiri-
tual e psicológica na pessoa que aborta.
Quem ama, preserva a vida
A discussão sobre o assunto está em escala nacional, mas as grandes mídias não Como seres humanos, temos de de-
se pronunciam diante disso. Estão caladas diante de um assunto importante em fender a vida que nos foi dada, para que as
nível nacional. O aborto, além de causar a morte de uma vida inocente, pode futuras gerações sejam capazes de apren-
trazer danos irrecuperáveis à vida e à saúde da pessoa que aborta. Quando der, melhorar e edificar uma sociedade
sabemos que não temos condições de criar um filho, temos que pensar livre da morte e pensamento que levam
antes de tomar uma atitude, mas nenhuma delas, em hipótese al- a ela. Coloquemo-nos sempre a favor da
guma, deve levar a um pensamento que mata e que fere vida, em todos os seus estágios, desde a
os direitos contra a vida. concepção até à velhice com dignidade.

O Papa Francisco diz que não é progressista
pretender resolver os problemas eliminando uma
vida humana, pois esta é a forma de pensar dos ma-
fiosos: existe um problema, eliminemo-lo. Se pen-
sarmos como mafiosos, o mundo se autodestrui-
rá, mataremos uns aos outros. A vida nos foi dada,
fomos feitos irmãos para nos amar uns aos outros
e fazer com que nossa sociedade progrida sempre,
que avance na linha da vida e nunca seja retrógada.

Ser bom não é mérito Pe. Júlio Maria, Servo de Deus, já
Os que defendem o aborto podem encontrar argu- nos dizia: “Uma verdade fundamental,
mentos, aparentemente seguros, contudo esta práti- que sempre deveríamos ter diante dos
ca, por si só, é um mal. Equivale a uma disseminação olhos, é que sem Deus nada podemos.
de ódio contra uma vida inocente. O aborto é como o E que com Ele tudo nos é possível”. Se
canto de uma sereia, uma atração para o mal, que leva Deus é bom, devemos ser reflexo de
a precipitar-se num caminho sem volta. Caso não haja sua bondade no mundo.]
condições de criar um filho, procure ajuda. Sempre há
uma mão amiga para amparar. * Santuário Bom Jesus de Manhumirim, MG

A Igreja Católica é contra o aborto e é aquela que acolhe
os que precisam de ajuda, seja por falta de condições para criar
um filho, seja pelo erro de ter cometido um aborto e se encontrar em situação de
fragilidade social, física ou mental. É a maior instituição de caridade do mundo, não
buscando mérito para si, mas porque acredita na vida e é consciente de sua missão
de defender a vida. Embora os argumentos apresentem forte atratividade e des-
lumbramento, somente o bem e a defesa da vida trazem consigo a verdade maior.

A herança para o futuro
Pensemos que o amor está nos pequenos gestos e o que fizermos hoje mostra-
rá seus reflexos no amanhã. O futuro que ensaiamos para nossa sociedade será

[ 10 • olutador [ setembro ] 2018

F rei edson matias * Igreja Hoje [ Os exageros...

Evangelização
em tempos de entretenimento
Quem é que não gosta de
um momento de descon-
tração? O ser humano pre-
cisa de momentos alegres
que renovem suas forças para a lu-

ta de cada dia. Contudo, não se po-

de tornar a descontração o centro da

vida. Na sociedade de consumo em

que vivemos, quase tudo foi transfor-

mado em mercadoria para satisfazer

as necessidades humanas, desde a

alimentação até o supérfluo. Quan-

do se precisa só ‘distrair’ para viver,

não se vive. O mundo do entreteni-

mento hoje se estabelece como ne-

gação das relações humanas e isso rias formas de descontração, e talvez fundir comunidade cristã com lugar
tem provocado grandes danos às co- isso seja necessário em certa medida. terapêutico pessoal e familiar, dei-
munidades cristãs. Mas, como dissemos acima, o pro- xando de lado a adesão evangélica.

Clube ou comunidade de fé? blema central surge quando o entre- É preciso urgentemente proporcio-
tenimento se torna o centro agrega- nar uma Igreja viva que saiba dar res-
Observando os novos formatos de dor e motivador do ‘pertencimento’ postas aos desafios atuais, que sai-
encontros de grupos em nossas co- à comunidade cristã. E nesse caso ba lutar no Anúncio do Evangelho.
munidades, percebemos isso clara- surge a pergunta: Nossos jovens não podem ser forma-
mente. Cada dia mais nossas reuniões dos em ‘igrejas de jardim de infân-
e formações têm tomado ares de en- ❝somos um clube de pessoas cia’, mas para uma batalha contra o
tretenimento. Muita música, pulos, que se encontram para se di- egoísmo e as situações em que vive
risos, alongamentos, brincadeiras etc. vertirem ou para aprende- a maioria de nosso povo.
Os responsáveis de cada momento rem do Mestre?❞
têm que encontrar histórias e piadas O Evangelho deixa claro para nós:
engraçadas para prender a atenção Igreja ou jardim de infância? “Todas as vezes que fizestes isto a um
de todos. Quando o encontro é ‘bem O que ainda chama a atenção é que destes meus irmãos mais pequeni-
feito’, é porque ‘divertiu’ os ouvintes. muitos desses formatos de encontros nos, foi a mim mesmo que o fizestes”.
As próprias celebrações eucarísticas não trazem nenhum envolvimento (Mt 25,40.) Conhecemos a árvore pe-
têm tomado essa roupagem. Porém, social e religioso. Por exemplo, na prá- los frutos e não pelas aparências ou
esse ‘bem feito’ tem deixado de la- tica das obras de misericórdia. Parece pelo barulho. Precisamos ouvir com
do o motivo de um encontro cristão. que seu objetivo é apenas fazer rir e urgência o que a Igreja tem pedido
chorar os participantes, ou seja, en- a nós: ser igreja em saída e não ficar
Talvez o que mais choca hoje são tretendo-os. E quando mais gente e ensimesmada.
os encontros realizados para jovens. mais diversão, melhor. “Foi o melhor
Neles ocorre muita música, apresen- encontro de que participei!” Mas on- As brincadeiras, músicas e danças
tações, risos, choros, gritos, aplausos, de está a proposta evangélica? Onde fazem parte da vida humana e preci-
pula-pula etc. E não estamos dizen- está Jesus Cristo? samos desses momentos, contudo,
do de jovens de 8 anos, mas homens não é somente para isso que uma co-
e mulheres de mais de 20 anos. Talvez O grande desafio hoje parece ser: munidade cristã se reúne.]
precisemos reconhecer que tais en- como nos engajarmos no caminho
contros proporcionam alegria e vá- do Reino de Deus? Não se pode con- * Frei franciscano capuchinho.
Doutorando em teologia
na FAJE-BH

olutador [ setembro ] 2018 • 11 ]

Religião [ Os limites...

Exorcismos:

possessão ou psiquismo?

É importante determinar o limite entre os casos de possessão demoníaca
e as enfermidades do psiquismo humano.

cação passiva – a possessão ordina-
riamente só acontece em pecadores”.

Em moda na televisão brasi- brios psicológicos ou vícios da per- Doenças da alma?
leira, boa parte dos chama- sonalidade.
dos “possessos” não passam O entrevistado justifica a confusão
de pessoas afetadas por doen- Padre Talmelli, exorcista da Dio- entre doenças mentais e fenômenos
ças mentais. Entrevistado pelo jornal cese de Siena, Itália, volta a citar Fran- diabólicos pelo costume de chamar as
italiano “Avvenire” [16/06/2018], Pa- cisco: para distinguir o “espírito” que doenças mentais como “doenças da
dre Raffaele Talmelli, beneditino, 55 está por trás de alguma coisa, “o único alma”. Ora, as doenças da alma são os
anos, fala da importância de definir modo é o discernimento”, que é dom e pecados e os vícios, isto é atos huma-
a sutil linha divisória que separa as graça de Deus. Inclui, decerto, razão e nos que, como tais, exigem plena ad-
intervenções do demônio das pato- prudência, mas “supera-o, porque se vertência e consentimento deliberado.
logias mentais que atingem a pessoa. trata de entrever o mistério do projeto “O demônio instiga ao pecado, a repe-
único e irrepetível que Deus tem pa- tir os comportamentos pecaminosos,
“A vida cristã é um permanente ra cada um, e que se realiza em meio até que se tornem ‘hábitos operativos
combate, diz ele. É necessário ter força aos mais variados contextos e limites”. estáveis’, ou seja, vícios. Já as doenças
e coragem para resistir às tentações mentais, por sua natureza, atacam a
do demônio e anunciar o Evangelho.” As possessões diabólicas – comen- ‘capacidade de entender e de querer’.
E cita as palavras do Papa Francisco ta o entrevistado, que é psicólogo e Isto faz com que a responsabilidade
na Exortação “Gaudete et Exsultate”, psiquiatra – não se confundem com moral do sujeito seja fortemente con-
ao lembrar que o cristão não é cha- doenças psiquiátricas, mas não ocor- dicionada pela gravidade da própria
mado apenas a um combate “contra rem por acaso. Em norma, são o fruto doença, ainda quando ele possa as-
o mundo e a mentalidade mundana”, de uma vida moral corrompida, por- sumir comportamentos reprováveis.”
mas também “a uma luta constante que o diabo nos ataca ali onde estamos
contra o diabo, que é príncipe do mal”. fracos e nunca deixa de nos enganar. Pe. Talmelli lembra que a Igre-
ja sempre convida a distinguir real-
O dom do discernimento Padre Raffaele Talmelli observa mente entre intervenção diabólica ex-
Hoje, no Brasil, existem grupos e que “uma publicidade doentia levou traordinária e doença psíquica, e a
pastores que usam pretensos exor- a pensar que a possessão demonía- consultar especialistas competentes
cismos como meio de atrair segui- ca seja uma espécie de meteorito que em medicina e psiquiatria, de modo
dores e crescer em audiência na TV, cai do céu e atinge algum infeliz. Ao a evitar erros clamorosos. Seria uma
banalizando a libertação espiritual contrário, normalmente ela é o fruto atitude prejudicial e ilusória fazer ora-
e apontando a presença do maligno da corrupção de costumes. A Tradi- ções de exorcismo para uma pessoa
onde apenas se verificam desequilí- ção cristã ensina que – com exceção afetada por distúrbios psicológicos.
de alguns santos, que passaram por
experiências diabólicas como purifi- Ao final da entrevista, sendo inter-
rogado sobre a razão de Deus permitir
[ 12 • olutador [ setembro ] 2018 a ação do maligno, o exorcista citou
as palavras de Bento XVI: “Deus não é
um encantador que, no final de tudo,
arranja todas as coisas e realiza o seu
happy end. Ele é um verdadeiro pai;
um criador que defende a liberdade
humana, mesmo quando esta o repe-
le. Por isso a vontade salvífica de Deus
não implica que todos os homens che-
guem necessariamente à salvação”.]

Religião [ Ser fiel...

aCuatmóleinctoasm no
mundo

Em 2016, A matéria informa que estão au- namismo na África, com um crescimen-
os batizados mentando no planeta os católicos bati- to considerável de 23,3% no período de
na Igreja zados, cresce o número de bispos, mas seis anos. As Américas consolidam sua
cresceram 1,1%, se reduz o número de religiosos não posição geral, contando 48,6% do total
com destaque presbíteros, de religiosas professas e dos fiéis do planeta, com a América do
para o continente sacerdotes, contração que se reflete Sul reunindo a maior parte desse total
africano. também no total de seminaristas. Já (60%). Enquanto isso, mesmo conser-
Padres, os diáconos permanentes – em geral, vando quase 22% da comunidade cató-
religiosos homens casados – aumentam à taxa lica mundial, a Europa viu os batizados
e seminaristas de 3% ao ano. crescerem apenas 02,% entre 2010 e 2016.

Rem baixa. Os dados de 2016 constam do An- As nações mais católicas do mundo
eportagem do jornal “Av- nuarium Statisticum Ecclesiae, publi- Em apenas 15 países, vivem 64% dos
venire” [13/06/2018], assi- cado pelo escritório central de estatís- batizados de todo o planeta. Quatro
nada por Giacomo Gambas- ticas da Igreja, impresso pela Tipogra- são nações africanas: Republica De-
si, traz os novos números da fia Vaticana. No período, foram erigi- mocrática do Congo, Nigéria, Uganda
Igreja Católica. Eles falam de das 6 novas sedes episcopais e 4 epar- e Angola. Quatro são americanas: Bra-
pequenos passos, mas são passos para quias. Uma diocese foi elevada a sede sil, México, Estados Unidos e Colôm-
frente. Enquanto a Europa reduz paró- metropolitana, e 3 vicariatos apostó- bia. Duas são da Ásia (Filipinas e Ín-
quias e fecha seus templos, a África se licos a dioceses. dia) e cinco da Europa (Itália, França,
destaca pelo dinamismo missionário. Espanha, Polônia e Alemanha).
O total de católicos batizados su-
biu para 1 bilhão e 299 milhões em to- Eis outros dados
do o planeta, com o aumento de 1,1%, numéricos para 2016:
pouco abaixo do crescimento da popu- ❯ Sacerdotes: 414.969
lação mundial, com uma taxa de 17,67 ❯ Religiosas professas: 659.000
católicos por 100 habitantes. ❯ Diáconos permanentes: 46.312 ]

Distribuídos de forma desigual pelo
planeta, os católicos mostram maior di-

olutador [ setembro ] 2018 • 13 ]

bíblia [A Bíblia está funcionando para nós como

DENILSON MARIANO DA SILvA

ser sábio é ser justo
Mês da Bíblia 2018 – Livro da Sabedoria

ExistE um aparelho que nos ajuda a enxer-
gar longe. É o binóculo. Mesmo quem nunca
usou um binóculo sabe que ele amplia a ima-
gem para que a gente possa enxergar. Pode-
mos comparar o Livro da Sabedoria a um binóculo.
Ele foi escrito para ajudar o povo a enxergar melhor
o que estava acontecendo à sua frente. O binócu-
lo não aumenta a realidade, ele aumenta apenas a
capacidade de enxergar a realidade. Ele nos faz ver
mais longe. Este é o objetivo do Livro da Sabedoria:
ajudar a ver melhor a ação dos maus e injustos que
investiam contra o povo de Deus.

justos e injustos propaganda tão atrativa, que amea-
çava esmagar os costumes, os bons
O livro da Sabedoria, escrito em Alexandria, con- princípios e os ensinamentos que o
templa apenas duas categorias de pessoas: os jus- povo recebera de Deus. Havia uma
tos que caminham com Deus e os injustos que não grande atração pelos escritos gregos,
conhecem a Deus ou não lhe são fiéis. O traço mais da ciência, sobretudo da filosofia. Os
importante é a fidelidade a Deus, que se dá através membros do povo mais inteligentes e
da prática da justiça. estudados começaram a pensar que

Logo no início, o autor deixa claro que os in-
justos vivem de aparências e, por isso, se enganam.
Para os injustos, a vida é breve, triste, sem sentido,
como uma nuvem ou fumaça (2,1-5). Por isso a ânsia
de aproveitar ao máximo possível tudo o que puder:
alegria, comida, bebida, prazeres, uma vida afogada
em futilidades. Para sustentar esse tipo de vida, nas-
cem as espertezas e o esquema de exploração sobre
os mais pobres e necessitados.

No Livro da Sabedoria, fica claro que a explo-
ração dos pobres não é algo acidental. É algo plane-
jado para alimentar o sistema que domina: “Vamos
oprimir o justo pobre e não vamos poupar as viúvas,
nem respeitar os cabelos brancos do ancião. A nos-
sa força será a regra da justiça, porque o fraco e cla-
ramente coisa inútil”. (2.10-11.)

Neste esquema dominador, Deus não entra,
a Justiça não entra, a Sabedoria não tem lugar. Além da exploração aos mais
fracos, aparece claramente o controle que os dominantes têm sobre o exer-
cício da justiça e do direito. Ou seja, os pobres e os pequenos, os excluídos
não têm a quem recorrer neste mundo. Porém, o Livro da Sabedoria mos-
tra que Deus está do lado dos justos. O justo caminha para a imortalidade
(1,13). Esta é a grande boa nova anunciada pela Sabedoria.

O Livro da Sabedoria nasceu com objetivo de ajudar a vencer a alie-
nação imposta como propaganda oficial do governo de Alexandria. Era uma

[ 14 • olutador [ setembro ] 2018

um retrovisor bom ou um retrovisor embaçado?...

a sabedoria dos gregos era superior à tos (3,16-19). Mais uma vez, está em vem à tona as situações de injustiças,
sabedoria do Deus de Israel. Tinha-se questão a fidelidade a Deus. No pano desigualdades sociais e violência de
a impressão de que a sabedoria dos de fundo está a imagem de que uma uns sobre os outros. É através deste
poderosos era mais bonita e mais for- árvore má não pode produzir bons fru- confronto que se podem identificar as
te que a Sabedoria de Deus. O Livro tos. Se as sementes não são boas, é me- verdadeiras raízes das injustiças que
da Sabedoria vai desmascarar essa lhor que não vinguem. Elas não terão marginalizam e oprimem a grande
falsa ideia e mostrar que a Sabedo- forças para se desenvolverem. E logo maioria da população. O justo, em-
ria de Deus é maior que a sabedoria serão arrancadas (4,4). Importante é pobrecido e desprezado, é o espe-
dos homens. preservar a virtude, que aqui é sinôni- lho que nos faz enxergar melhor a
mo de justiça, de fidelidade a Deus. O realidade. Se, ao contemplar os ca-
ler a Bíblia com novos olhos verdadeiro santo é o que anda na jus- cos de vidro na calçada, concluímos
tiça e estimula a outros a praticá-la. que quebraram a vidraça, ao contem-
O retrovisor é uma ferramenta para plar os “cacos de gente”, temos de nos
ajudar o motorista a guiar com segu- O tempo ilumina a história dar conta de que a Aliança com Deus
rança e a evitar acidentes. Quem não foi quebrada... Afinal, Jesus veio pa-
olha no retrovisor coloca sua vida e a O mar devolve o que não é ra que todos tenham vida em abun-
vida de outros em perigo. Quem não dele. Ele sempre devolve ou dância (cf. Jo 10,10).
olha no retrovisor da história para re- faz vir à tona o que não é de-
ver os erros e acertos, não caminha le. talvez possamos dizer al- Neste contexto, é oportuno re-
com segurança na história. go semelhante no tocante ao tomar o que o Papa Francisco nos
tempo, em relação às injusti- apresenta em sua Exortação Apos-
O Livro da Sabedoria leva o po- ças. O tempo sempre faz vir à tólica sobre a Santidade: “Quando
vo a olhar não apenas o que diz a Lei. tona as injustiças cometidas. encontro uma pessoa a dormir ao
Leva o povo a rever os acontecimen- relento, numa noite fria, posso sen-
tos. Faz o povo olhar o retrovisor da O Livro da Sabedoria deixa claro tir que este vulto seja um imprevis-
história. Faz ler as Escrituras com no- que o desfecho do julgamento dos to [...], um problema que os políti-
vos olhos. Abraão, Isaac e Jacó gera- injustos se dá a partir do confronto cos devem resolver e talvez até um
ram bons filhos, pessoas que que- com o justo. Embora o destaque seja monte de lixo que suja o espaço pú-
riam ser fiéis a Deus. Este era o espí- o julgamento no pós-morte, o con- blico. Ou então, posso reagir a par-
rito da lei que indicava que os filhos fronto entre justo e injusto se dá de tir da fé e da caridade e reconhecer
eram bênçãos de Deus. forma contínua também na história. nele um ser humano com a mesma
dignidade que eu, uma criatura in-
O autor da Sabedoria, que é um “O justo ficará de pé, sem temor, finitamente amada pelo Pai, uma
leigo, profundo conhecedor das Es- diante dos que o oprimiram e despre- imagem de Deus, um irmão redimi-
crituras, apresenta dois contrastes: zaram seus sofrimentos.” (5,1.) É pre- do por Jesus Cristo. Isto é ser cristão!
a) é melhor a esterilidade sem o pe- ciso ter presente que “ficar de pé” é a [...] Para os cristãos, isto supõe uma
cado (3,13-19); b) é melhor a falta de posição do acusado que foi declara- saudável e permanente insatisfação.
filhos com a virtude da honradez (4,1- do inocente pelo tribunal. Há uma in- [...] Não se trata apenas de fazer al-
6). Para bem entendermos esta pas- versão da situação em favor do justo. gumas ações boas, mas de procu-
sagem, é preciso lembrar que, na Bí- Deus o declara inocente e aponta os rar uma mudança social: ‘para que
blia, a fecundidade é uma das maiores verdadeiros culpados: aqueles que fossem libertadas também as gera-
bênçãos de Deus. Os filhos são bên- praticaram injustiças. Eles é que fi- ções futuras, o objetivo proposto era
çãos de Deus (cf. Sl 128). Não ter filhos carão tomados de terror, espantados claramente o restabelecimento de
equivalia a não ter a bênção de Deus. diante da salvação dos justos (5,2). sistemas sociais e econômicos jus-
tos, a fim de que não pudesse haver
De uma forma totalmente nova, o A verdade sempre vem à tona, a mais exclusão’”. (GE, 98-99.)
autor chega a elogiar a mulher que não mentira é sempre desmascarada. O
tem filhos. Isto se dá porque ela não se julgamento de Deus expressa a ma- Para aprofundamento
uniu aos estrangeiros, ela permane- nifestação da verdade. É o momento A Bíblia está funcionando para nós
ceu fiel à Aliança com Deus; por isso, em que o tempo faz caírem as más- como um retrovisor bom ou um re-
mesmo sem gerar filhos, sua recom- caras e os injustos se dão conta de trovisor embaçado? Por quê?
pensa virá no encontro definitivo com que sua vida é vazia e sem sentido.
Deus. Fica claro que mais importante Desviaram-se do caminho do Se- Nosso modo de ler a Bíblia está fazen-
que deixar uma geração de filhos cor- nhor. Afundaram-se na injustiça e do de nós pessoas mais justas e ho-
rompidos pela injustiça, é deixar um na perdição (5,6-8). nestas? Em que podemos melhorar?]
testemunho de vida justa e honesta.
De forma semelhante, é no con-
Na sequência, o autor apresenta fronto entre oprimido e opressor que
uma condenação aos filhos dos injus-
olutador [ setembro ] 2018 • 15 ]

P e . S e b asti ão S ant ’A na , S D N * Família [ Enquanto a Igreja e outras instituições p

ACNBB instituiu, em tistas. Quando, na segunda (6/08), Onde está o fanatismo religioso, em
sua Assembleia Geral de chegou a vez de a CNBB manifestar- acreditar que todo atentado contra
2005, a Semana Nacional se, Dom Ricardo foi enfático: a vida humana é crime? Onde está
da Vida (1º a 7/10) e o Dia o fundamentalismo religioso em di-
do Nascituro (8/10). A es- “Diante disso é estra- zer que queremos políticas públicas
sa iniciativa vieram somar-se mui- nho, mas querem nos que atendam à saúde das mães e dos
tas outras, com o objetivo de levar desqualificar como fa- filhos? Afinal, atentar contra a vida
os cristãos e a sociedade a defende- náticos e fundamenta- de um ser humano inocente é cri-
rem e a promoverem a vida huma- listas religiosos impon- me ou não?” – o bispo questionou
na, desde a sua concepção até a sua do sobre Estado Laico mais adiante.
morte natural, compreendida como uma visão religiosa”.
dom de Deus e corresponsabilida- Em síntese, Dom Ricardo mos-
de de todos. E questionou: “Onde está o funda- trou que a CNBB “reitera sua posição
mentalismo religioso em aderir aos em defesa da vida humana com toda
As celebrações da Semana Na- dados da ciência que comprovam o a sua integralidade (dado científico),
cional da Vida e do Dia do Nascitu- início da vida desde a concepção? dignidade (Art. 1º da Const.) e invio-
ro terão, neste ano, uma motivação labilidade (Art. 5º da Const.), desde a
especial, pois a legalização do abor- [ 16 • olutador [ setembro ] 2018 sua concepção até a morte natural. [...]
to voltou ao debate nacional, sobre- O direito à vida é o mais fundamental
tudo após a Audiência Pública con-
vocada pela ministra Rosa Weber e
realizada no Supremo Tribunal Fe-
deral, nos dias 3 e 6 de agosto.

Dom Ricardo Hoepers, Bispo da
Diocese de Rio Grande, RS, e Pe. Jo-
sé Eduardo de Oliveira, da Diocese
de Osasco, SP, apresentaram a po-
sição da CNBB nessa audiência, no
dia 6 de agosto. Certamente, os dis-
cursos de ambos já devem ter sido
comentados por ocasião da Sema-
na Nacional da Família (12–18/08).
Provavelmente, serão também utili-
zados nas celebrações e debates por
ocasião da Semana Nacional da Vi-
da, no início de outubro.

Filme bem antigo que se repete

Enquanto a Igreja e outras instituições
procuram defender o valor sagrado
da vida humana, não são poucos os
que, por interesses diversos, se po-
sicionam a favor do aborto e da eu-
tanásia ou assumem, sob várias for-
mas, atitudes desrespeitosas à vida
humana. Percebe-se que há uma bem
montada estratégia para apresentar
a Igreja Católica como expressão do
fundamentalismo e do obscurantis-
mo anticientífico.

Após ouvir atentamente as ins-
tituições convidadas a se manifestar
no dia 3/08, sexta, os dois represen-
tantes da CNBB puderam perceber
a trama montada pelas forças abor-

s procuram defender o valor sagrado da vida humana...

Somos ser humano clama por vingança junto
Igreja do de Deus e torna-se ofensa ao Criador
sim à vida: do homem’. (J. Paulo II)”. (EG, 213.)
vida sim!
“Assim que é concebido,
Aborto um homem é um homem”
É sabedoria conjugar ciência e fé. De
fato, o iluminismo racionalista e re-
ducionista pretendeu desmontar a
aliança entre razão e fé. Mas os real-
mente sábios não pensavam assim. É
de Albert Einsten a convicção: “Quem
julga haver conflito entre religião e
ciência não entende nem de uma e
nem de outra”. Pascal e Pasteur pro-
vavam a existência de Deus e confes-
savam ter recobrado, pela ciência,
uma fé mais robusta e amadurecida.

Poderíamos desfilar aqui outros
nomes de ciência e de fé. Mas, dian-
te do tema em questão – a defesa da
vida humana desde sua concepção
à sua morte natural – é precioso o ar-
gumento de alguém que merece to-
do o respeito nos meios científicos,
o Prof. Jerôme Lejeune, pai da Ge-
nética Moderna: “Assim que é con-
cebido, um homem é um homem”.

não! nascente está intimamente ligada à Somos Igreja do sim à vida
defesa de qualquer direito humano.
dos direitos e, por isso, mais do que Supõe a convicção de que um ser hu- Apesar da intensa programação pas-
qualquer outro, deve ser protegido. mano é sempre sagrado e inviolável, toral e litúrgica prevista para os meses
Ele é um direito intrínseco à condi- em qualquer situação e em cada eta- de setembro e outubro, o momento
ção humana e não uma concessão pa do seu desenvolvimento. É fim em nacional nos está pedindo uma pro-
do Estado. Os Poderes da República si mesmo, e nunca um meio para re- moção e divulgação especial da Se-
têm a obrigação de garanti-lo e defen- solver outras dificuldades. Se cai es- mana Nacional da Vida (1º– 7/10) e
dê-lo”. (Nota da CNBB, 11/4/2017.) ta convicção, não restam fundamen- do Dia do Nascituro (8/10).
tos sólidos e permanentes para a de-
Querem ridicularizar a Igreja fesa dos direitos humanos, que fica- Com Dom Ricardo Hoepers, as-
A propósito, vale a pena retomar o que riam sempre sujeitos às conveniên- sumimos essa bandeira, “porque fa-
Papa Francisco comenta, na Evange- cias contingentes dos poderosos de zemos parte da maioria dos brasilei-
lii Gaudium, sobre esta controvérsia: turno. Por si só a razão é suficiente ros que são movidos pela fé em Deus,
para se reconhecer o valor inviolável mas também pelo cuidado e defesa
“Muitas vezes, para ridiculizar jo- de qualquer vida humana, mas, se a da vida”. Diante da grande manifesta-
cosamente a defesa que a Igreja faz olhamos também a partir da fé, ‘toda ção das dioceses, regionais e da pre-
da vida dos nascituros, procura-se a violação da dignidade pessoal do sidência da CNBB em favor da VIDA
apresentar a sua posição como ideo- nascente, esperamos que a Semana
lógica, obscurantista e conservado- olutador [ setembro ] 2018 • 17 ] Nacional da Vida e o Dia do Nascitu-
ra; e, no entanto, esta defesa da vida ro sejam celebrados com muita cria-
tividade e compromisso em nossas
paróquias e comunidades. Há mui-
ta coisa bonita a ser feita na Sema-
na. Vamos todos testemunhar que
somos Igreja do sim à vida.]

*Paróquia Bom Pastor, Manhuaçu, MG

Catequese [ Quando a fé esmorece, há o risco

pe . v in ícius augusto tei x eira , c . m .

Levanta-te e come!

Experiência de Deus:
amparo e envio

EA passagem tação do desânimo em face das di- convida-o a resistir corajosamente e
sta tela, obra da pintora ficuldades e o socorro de Deus que a revestir-se de novo ardor, enviando
alemã Jutta Boxhorn, é uma vai ao encontro de seus escolhidos. -o em missão e dando-lhe condições
representação da passagem Volta, portanto, às fontes da fé que de prosseguir em seu caminho. A um
de 1Rs 19,1-8. Elias, o profeta, recebera e que movia seus passos. só tempo, Elias experimenta a ternu-
interpelara severamente o rei Acab ra e o vigor do Senhor, fecundando
por ter abandonado o Deus de Israel A pintura sua aridez, preenchendo seu vazio,
e aderido a um deus estranho (Baal), Na tela, a desolação de Elias, a aridez iluminando sua noite, povoando sua
difundindo seu culto e sustentan- de sua alma, é retratada pelo arbusto solidão, ecoando em seu silêncio, fa-
do seus profetas. Também ao povo, ressequido, incapaz de oferecer som- zendo renascer a profecia. Autêntica
lançara um desafio, reprovando sua bra, alívio e frescor. Além disso, ele experiência de fé! Bem disse o Papa
infidelidade à Aliança: “Até quando aparece prostrado pelo medo, encur- Francisco, em sua primeira encícli-
claudicareis das duas pernas? Se o Se- vado sobre si mesmo e com o rosto ca, em grande parte herdada de seu
nhor é Deus, segui-o; se é Baal, segui entre as mãos, como se estivesse a es- predecessor: “A fé não é um refúgio
-o” (1Rs 18,21). Perseguido pela fú- conder-se, recusando-se a olhar pa- para gente sem coragem, mas a dila-
ria de Jezabel, mulher de Acab, Elias ra frente, para Deus e para os outros. tação da vida: faz descobrir um gran-
foge em direção ao monte Horeb, a Através das duas grandes mãos que de chamado – a vocação ao amor – e
fim de salvar sua vida, caminhando abarcam Elias, a artista quis traduzir assegura que este amor é fiável, que
um dia inteiro pelo árido deserto e o cuidado e a delicadeza de Deus para vale a pena entregar-se a ele, porque
prostrando-se depois debaixo de um com seu profeta. Uma mão o ampa- seu fundamento se encontra na fide-
arbusto. Extenuado, pede ao Senhor ra e conforta, comunicando-lhe se- lidade de Deus, que é mais forte do
que lhe tire a vida. Em seguida, ven- gurança e paz em meio a seu esgota- que toda nossa fragilidade” (Lumen
cido pelo cansaço, adormece deso- mento. A outra, com o dedo em riste, fidei, n. 53).
lado. Eis que de repente, em meio
a seu torpor, um anjo do Senhor o [ 18 • olutador [ setembro ] 2018
toca, ordenando-lhe levantar e co-
mer. Elias abre os olhos e encontra,
à sua cabeceira, pão cozido e água
fresca. Levanta-se, come e torna a
deitar, voltando ao estado em que se
achava. Novamente o anjo o desper-
ta: “Levanta-te e come, pois, do con-
trário, o caminho te será longo de-
mais” (1Rs 19,8). Tendo obedecido
a ordem que lhe fora dada, susten-
tado por aquele alimento salutar, o
profeta pode empreender o cami-
nho na direção do Horeb (Sinai), a
montanha do encontro com o Deus
da Aliança (cf. Ex 3; Dt 4-5), que ha-
veria de devolver-lhe a vitalidade e
o dinamismo necessários à missão
(cf. 1Rs 19,9-17). Nesta travessia pe-
lo deserto, Elias revive a história de
seu povo (cf. Ex 16,2-4.12-15): a ten-

de esmorecerem também os fundamentos do viver...

A vida de. Assim, abre-se a visão do futu- como luz para a estrada, orientan-
ro. A fé, que recebemos de Deus co- do nossos passos no tempo” (Lumen
Todos nós atravessamos desertos, mo dom sobrenatural, aparece-nos fidei, n. 4).]
experimentamos sequidões e en-
frentamos desafios que nos acri- A tradição da Igreja identificou no pão oferecido a Elias uma prefigura-
solam. Seria suficiente considerar ção alegórica da Eucaristia. De fato, para nós, peregrinos no seguimen-
as mais variadas adversidades, so- to de Jesus Cristo, a Eucaristia é o pão que nos sustenta na travessia da
frimentos e conflitos que nos levam vida e que nos robustece para a missão. Ir. Míria Kolling, ICM, soube re-
a pensar que estamos no limiar de colher em uma canção verdadeiramente poética, intitulada A força da
nossas forças. Em meio a tudo isso, Eucaristia, o que de mais belo e inspirador se pode descobrir nesta pas-
importa saber o que ou a quem es- sagem bíblica:
tamos procurando. Não podemos
ceder à tentação de fixar-nos ape- Quando te domina o cansaço
nas em nós mesmos e na gravida- e já não puderes dar um passo,
de dos problemas que nos afetam. quando o bem ao mal ceder
“Quando a fé esmorece, há o risco e tua vida não quiser
de esmorecerem também os funda- ver um novo amanhecer...
mentos do viver” (Lumen fidei, n.
55). Precisamos reconhecer a pro- Levanta-te e come! Levanta-te e come!
ximidade do Senhor, acolher as vi- Que o caminho é longo, caminho longo!
sitas que ele nos faz, inclusive em Eu sou teu alimento, ó caminheiro!
meio às nossas desolações e fugas. Eu sou o pão da vida verdadeiro!
Ele vem para oferecer-nos o alimen- Te faço caminhar, vale e monte atravessar,
to que nos coloca de pé, de modo a pela Eucaristia, Eucaristia!
fazer-nos enxergar um novo hori-
zonte e impulsionar nossos passos Quando te perderes no deserto
na direção do Horeb. Aí, ele se dá e a morte então sentires perto,
a conhecer e nós lhe renovamos a sem mais forças pra subir,
adesão de nossa liberdade. No Ho- sem coragem de assumir
reb de nossa vida, silenciamos pa- o que Deus de ti pedir...
ra escutar a Deus e preparamo-nos
para a missão que ele nos confere. Quando a dor, o medo, a incerteza
Ali, naquela “solidão povoada”, on- tentam apagar tua chama acesa,
de ressoa “a música calada” (São e tirar do coração
João da Cruz), desobstruem-se os a alegria e a paixão
canais que deixam fluir de nosso in- de lutar não ser em vão...
terior a água da vida, do amor e da
paz. Como o profeta Elias, também Quando não achares o caminho,
nós, reencontrando o Senhor, reen- triste e abatido, vais sozinho,
contramos a nós mesmos e somos o olhar sem brilho e luz,
habilitados para encontrar os ou- sob o peso de tua cruz,
tros. Toda autêntica experiência de que a lugar nenhum conduz...
Deus reconstrói a pessoa, liberta-a
do egoísmo e encoraja seus passos Quando a voz do anjo então ouvires
vacilantes, transfigurando seu olhar e o coração de Deus sentires,
para enxergar o Senhor, os outros e te acordando para o amor,
a si mesma sob nova luz. “A fé nas- renovando o teu vigor,
ce no encontro com o Deus vivo, que água e pão, o bem maior...
nos chama e revela seu amor: um
amor que nos precede e sobre o qual olutador [ setembro ] 2018 • 19 ]
podemos apoiar-nos para construir
solidamente a vida. Transformados
por este amor, recebemos olhos no-
vos e experimentamos que há nele
uma grande promessa de plenitu-

F R T. D ione Afonso, S D N * Juventude [ A Igreja deve envolver os jovens

OSínodo se aproxima. sempregados atinge os 50%; somen- cumento final o capítulo II foi de-
A Igreja se prepara para te na Itália são 35% de jovens desem- dicado exclusivamente para uma
acolher no centro de sua pregados. “O que faz um jovem que verdadeira opção preferencial pe-
discussão os nossos jovens não encontra trabalho? – pergunta los jovens: “a Igreja vê na juventu-
com suas histórias e experiências de o Papa – Ele adoece, cai em depres- de uma enorme força renovadora,
fé. Talvez, nesse momento, a pergun- são, cai no desespero e nas depen- símbolo da própria Igreja. E a Igre-
ta essencial seja aquela mesma que dências, suicida-se. Precisamos re- ja faz isto não por prática, mas por
Jesus faz quando se dirige aos seus fletir sobre isso: o número de jovens vocação, já que é chamada à cons-
discípulos: “O que é que vocês es- que se suicidam só aumenta. Quan-
tão procurando?” (Jo 1,38.) Jovens, o do um jovem não encontra um meio
que procuram? “Convidamos vocês de sobreviver, ele sai de sua terra em
a fim de que possam partilhar sobre busca de melhoria de vida, sai de sua
o que buscam em suas vidas, nos- cultura, seus familiares... Isso é um
so desejo é poder caminhar juntos.” grave pecado social!”
(Papa Francisco) Assim como Jesus
mudou a vida daqueles discípulos, Tal situação social é muito refle-
Ele transforma também a nossa, e is- tida em nossas comunidades ecle-
so enche-nos de alegria! siais. Muitos jovens, por conta des-
se quadro, acabam se afastando de
O jovem uma vida eclesial mais ativa, não por-
sujeito social que não querem, mas porque a si-
Quando olhamos para a situação so- tuação econômico-social não con-
cial de nossos jovens, encontramos tribui para uma vivência de fé parti-
muitas fragilidades no que diz respei- cipativa. Ao mesmo tempo, aqueles
to às políticas públicas voltadas pa- jovens presentes em nossas igrejas,
ra a juventude. Deparamos com um ali estão na esperança de encontra-
alto índice de criminalidade e vio- rem um lugar onde se sintam em paz,
lência, quando os jovens são os mais longe dos sofrimentos do dia a dia e
afetados. Em 2013, a Campanha da da tristeza. Nessas horas, é a comu-
Fraternidade apontou os dados da nidade que os salva.
violência no país atingindo mais de
60% dos jovens. O jovem
sujeito eclesial
O Papa Francisco acentua outro A Conferência Episcopal Latino Ame-
dado preocupante: o desemprego. ricana e Caribenha, em 1979, reuniu
Na Europa, o número de jovens de- os bispos em Puebla e, no seu Do-

Esse
sujeito
chamado
jovem
[ 20 • olutador [ setembro ] 2018

em seus processos de decisões...

tante renovação de si mesma, isto é, numa situação onde não encontram Sobre o estilo de Igreja
a um incessante rejuvenescimento”. seu caminho por falta de orientação - Igreja mais missionária, que envol-
(DPb, 1178.) vocacional” (DPb, 1176), é preciso vesse os jovens nas missões de todas
que a Igreja redescubra, a partir do as pastorais e movimentos; uma Igre-
Sobre a situação social a que o apelo dos jovens, um renovado di- ja que promova eventos em que os
Papa nos direciona hoje, podemos namismo juvenil. É preciso apren- jovens pudessem ficar à frente, ten-
usar Puebla e afirmar que “ao lado der, descobrir novas modalidades de do como objetivo o seu testemunho
desses jovens que já vivem na inse- presença e de proximidade. “O amor de vida e transformação; uma Igreja
gurança dum futuro sem trabalho ou é proximidade e nossos jovens nos que fosse a casa dos jovens para in-
pedem para que sejamos próximos centivá-los a participarem dos gru-
deles – afirma o Papa Francisco”. “O pos de jovens, das missas, das ações
Cristo que deve ser apresentado aos solitárias e dos eventos que a mes-
jovens é o Cristo próximo e liberta- ma promove.
dor que, pelo espírito das bem-aven-
turanças, ofereça a todo jovem a in- Daniele Souza da Silva, Manaus, AM
serção num processo constante de
conversão; que compreenda suas – Uma Igreja luminosa e repleta de
fraquezas e lhe ofereça um encon- acolhimento, uma Igreja que se fa-
tro muito pessoal com Ele e com a ça também jovem, trajada de vigor
comunidade.” (DPb, 1183.) e animação. jovens gostam disso. É
preciso levar o Evangelho com ale-
Sínodo dos Jovens, gria, como diz o Papa Francisco. Ani-
outubro de 2018 mação, galera! Jovem não gosta de
Este sínodo tem a preocupação em ficar quieto.
desenvolver as condições para que
os jovens sejam acompanhados com Simone Rodrigues, Matozinhos, MG
paixão e competência no discerni-
mento vocacional, em “reconhecer o Sobre os instrumentos a utilizar
chamado de Deus ao amor e à pleni- – Entrar na dinâmica dos jovens atra-
tude”. O documento preparatório pa- vés de encontros de animação, cami-
ra o Sínodo afirma que “a Igreja deve nhadas promovidas por eles, incen-
envolver os jovens em seus processos tivando outros jovens a darem seu
de decisões e oferecer-lhes maiores sim a Deus, mostrando o amor de
papéis de liderança. Sentimos com Deus para com cada jovem, colocar-
grande paixão que estamos prepara- se no lugar do outro sem perder a hu-
dos para ser protagonistas, que po- mildade, o respeito, a compreensão.
demos crescer...”
Daniele Souza da Silva, Manaus, AM
Envie seu E-mail ou comente tam-
bém através de nossa página pelo Fa- – Por que não usar da música em nos-
cebook. Use a #OLutadorJovem e dei- sa Igreja? Lembram-se do Youcat?
xe o seu recado. Olhem só que ferramenta “plausí-
vel” deixada pelo Bento XVI! Alcan-
Dê a sua contribuição: çou milhões de jovens, incluindo a
– Sobre o protagonismo jovem mim. Pode-se apostar também na tec-
Quais são os campos privilegiados, nologia, talvez vídeos e documentá-
quer civis, quer eclesiais, onde os jo- rios com vários tipos de jovens, e de-
vens, com as suas competências e a sua pois expor ao mundo, de uma ma-
paixão, podem realmente ser corres- neira evangélica, que alcance o co-
ponsáveis pela missão da Igreja hoje? ração jovem.

Nós, da Revista O Lutador, que- Simone Rodrigues, Matozinhos, MG
remos ouvi-lo!]

#OLutadorJovem

* [email protected]

olutador [ setembro ] 2018 • 21 ]

Encontro Matrimonial [ Comunidades...

P e . N i valdo, J os é e Arialda*

Encontro Matrimonial Mundial (EMM)
Regional Norte
ARegional Norte I do EMM
é formada pelas dioceses de EMM – Roraima iniciou-se a expansão para Porto Ve-
Manaus, Roraima, Porto Ve- Em 2005, com forte apoio de Dom Ro- lho. A EED é formada por Padre Filip,
lho, Belém, São Gabriel da Cachoeira que, bispo local, na época, iniciou a Marco e Meire, com apoio de Dom
- SGC / Barcelos e Autazes / Borba, expansão para Boa Vista, que ficou a Roque, Arcebispo de Porto Velho.
compreendendo a maior região geo- cargo do casal Nizardo e Luiza, que
gráfica do Brasil, onde as distâncias acompanhou desde as primeiras visi- EMM – Belém
e os custos elevados de transporte tas até o EMM - Roraima. Os FDS são Em 2014, foi realizada uma visita a Dom
são parte da realidade regional, de realizados em Boa Vista e em algumas Alberto Taveira, Arcebispo (dialoga-
um povo hospitaleiro e de muita fé. cidades do interior, como São João da dor) de Belém, que aceitou o projeto
Até 2019, se Deus quiser, planeja- Baliza e Caroebe. A família dialogado- de implantação do EMM. Em 2015,
mos levar o EMM pra todas as ca- ra de Roraima realizou 22 FDS. Atual- com o apoio do Pe. Vanildo, Lahire e
pitais do Norte. Atualmente, Padre mente a EED é composta por Pe. Pedro, Arlete (a 1ª EED de Belém), da PAS-
Gennaro, Nizardo e Luiza servem Valdinan e Samya, e conta apoio de COM de Loretto e Pastoral Familiar,
como EER - Equipe Eclesial Regio- Dom Mario, bispo atual de Roraima. realizamos o 1º FDS de Belém com
nal Norte 1. 24 casais, graças a Deus.
EMM – Porto Velho
EMM – Manaus e expansões EMM Em 2013, com a vinda para Porto Ve- Belém já realizou 5 FDS. A atual
lho dos Padres Filip e Gabriel (dialoga- EED de Belém é composta por Pa-
– São Gabriel da Cachoeira / Barcelos dores), a convite de Dom Esmeraldo, dre Neuzivan, Haroldo e Silvana que,
Arcebispo local, na época, e do casal com apoio da Pastoral Familiar de
e EMM – Borba / Autazes servidor Marco e Meire de Salvador, Belém, dão uma força abençoada ao
EMM-Belém.
O EMM no Norte surgiu quando Pe.
Alfredo Ferronato, do PIME, se ofe- Daniel e Jeane
receu para servir na Prelazia de Pa- Diocese de Manaus
rintins, AM. Ele já havia participado “O FDS simplesmente representou
do FDS nos EUA, e serviu em vários para nós, a ressurreição para uma vi-
FDS. Em 1979, realizou-se o 1º FDS da nova, ressuscitando um casal já
em Parintins com a participação de morto, sem esperança, sem sal e sem
20 casais e, alguns meses, depois o 1º luz. Fez penetrar nos nossos corações
FDS em Manaus foi realizado, com endurecidos o ato do perdão, sabo-
a participação de 20 casais, 2 padres reando o maravilhoso gesto que é o
(Pe. Carlos e Pe. Daniel) e 2 religio- de dialogar. Hoje, o EMM vive nos
sas (Ir. Patrícia e Ir. Vianney). Pe. Al- nossos corações, pois nada é mais
fredo e casais de Ponta Grossa e Belo importante que a família.”]
Horizonte, compuseram a equipe.

Atualmente a EED de Manaus é
composta por Pe. Eudo, Folhadela e
Lúcia, tendo ainda os padres servi-
dores de FDS, Pe. Gilson, Pe. Gena-
ro e Pe. Josimar.

No Amazonas, foram realizados
152 FDS em Manaus, 2 FDS em Pa-
rintins, 1 FDS em Maués, 1 FDS na
diocese de São Gabriel da Cachoei-
ra, 1 FDS em Barcelos, a pedido de
Dom Edson, bispo em SGC, e 3 FDS
em Autazes, com apoio de Dom Elói
(bispo naquela época) e Dom Zenil-
do, bispo atual de Borba, graças ao
esforço de casais de Manaus.

[ 22 • olutador [ setembro ] 2018

Família Julimariana [ Caminhar...

P rof.: E miliano G . de O li v eira e I r . M aria do C armo L opes *

Tempos sombrios?

Tempo de retomar a história,
analisar o presente e avançar!
As elites brasileiras jamais pen-
saram no Brasil, mas somente e o povo tinha de se contentar com os fiança. Nosso tecido social parece se
na sua própria classe. Desde arranjos do governo. esgarçar. E isso influencia diretamen-
os tempos da Colônia, uma te na formação de nossos valores, em
elite controlava a política, a econo- Até a década de 1960, governo al- nossas relações e atitudes. [...]
mia e toda a sociedade. Os chama- gum pensou em justiça social. O pri-
dos “homens bons”, proprietários de meiro a pensar em reformas (traba- É urgente tomarmos consciência
terras doadas pelos capitães donatá- lhista, educacional, tributária e agrá- de que este país é nosso, de que somos
rios ou sesmeiros, eram portugueses ria) foi tirado do poder por um golpe. responsáveis pelo seu presente e futu-
que visavam a interesses particulares, Jango era o primeiro, dentre muitos, ro. Não podemos deixar que decisões
escravizavam índios e negros. Nessa que se aproximou dos trabalhadores de interesse público sejam tomadas
época, a justiça social era carta fora e poderia fazer um governo popular. por um grupo apenas! Neste sentido,
do baralho, o povo nem conhecia a Mas foi impedido. precisamos de uma Educação que vá
palavra justiça. além do conhecimento acadêmico e
Regime militar prepare os jovens para tomar posição
O poder dos “barões” Seguiram-se 21 anos de regime civil- frente às questões políticas e sociais.
“Conquistamos” nossa independência militar. A elite brasileira cada vez mais Jovens que sonhem e tenham atitudes
política, mas não a econômica. Saímos pensava em si. “Milagre Econômico” e que contribuam para a mudança.
de Portugal e caímos nos braços dos in- aumento da desigualdade social eram
gleses. A aristocracia proprietária de a receita que sempre dava certo. Com Neste ano de eleições, a CNBB nos
terra mandava num Brasil recém-in- o fim do regime civil-militar, tivemos a exorta a “fazermos desse momento di-
dependente. O poder ficou nas mãos chance de eleger um governante, após fícil uma oportunidade de crescimen-
dos “barões do café”, uma elite fortale- quase trinta anos sem eleições dire- to”. Estimula-nos a “abandonar os ca-
cida principalmente pela Lei de Terras tas. Enfim, um governo do povo. Mais minhos da intolerância e do desâni-
de 1850, que só aumentava latifúndios. uma vez as classes dominantes não o mo”. Encoraja-nos a “assumir a dimen-
permitem. Os meios de comunicação são política da fé, a serviço do Reino
No século XIX, com a industriali- emplacam o fenômeno Collor de Me- de Deus”. Assim, “movidos pela espe-
zação a pleno vapor na Europa, nossa lo. E o povo? Quase quinhentos anos rança, continuemos com os pés firmes
“elite”, preocupa-se com seus ganhos, depois da “descoberta”, continuava por neste duro chão de nossa realidade”.
e coloca o Brasil no mercado interna- fora de tudo.
cional como agroexportador, por sua As eleições se aproximam. Que ca-
“vocação para a agricultura”. Nenhu- Seguiram-se tentativas de dar um da cidadão brasileiro dê a sua contri-
ma política visou à justiça e à igualda- novo rumo ao país e atender ao povo buição para que elas sejam realizadas
de. E, no alvorecer do século 20, éra- mais sofrido. Mas situações diversas, com seriedade e verdadeiro interesse
mos um país desigual e escravocrata. como a falta de continuidade das Polí- pela nossa Pátria, Brasil. Que o com-
As mesmas elites da Colônia perma- ticas Públicas, corrupção e desmandos, promisso ético prevaleça!]
neciam no Império. fizeram ruir os projetos de mudança.
* Colégio Santa Teresinha – Manhumirim, MG
Com a República, nada de mudan- Hoje, percebe-se o descaso e a fal-
ça. Os “barões do café” do Império ago- ta de patriotismo. Os líderes políticos,
ra eram os “coronéis” da República. A ávidos de riquezas e de poder, legislam
escravidão chega ao fim, mas a popu- em causa própria.
lação continua carente de necessida-
des básicas. Veio Getúlio Vargas e, com Tempos sombrios vivemos hoje...
ele, o ideal de dar mais atenção ao tra- A esperança vai-se esvaindo. O idea-
balhador, valorizando-o. Mas as mu- lismo que nos faz sonhar com um país
danças vinham de “cima para baixo” justo, solidário e menos desigual vai-
se despedindo. A comunidade inter-
nacional olha nosso país com descon-

olutador [ setembro ] 2018 • 23 ]

Espiritualidade [ Ter atitude...

D om Paulo M endes P ei xoto *

Mudar de mentalidade

Vivemos um cenário de crise geral no Brasil, que afeta a todas as pessoas.
Ela é provocada por falta de confiança, pela corrupção, chegando mesmo
a uma podridão. A ideia é levar vantagem em tudo. Ao falar de mudança
de mentalidade, qual será a reação do povo diante das próximas eleições? Deixar

de votar ou anular o voto, isso não anula
uma eleição e favorece os carreiristas.

Para uma pessoa mudar de
mentalidade com o objetivo de cons-
truir uma sociedade diferente, ela te-
rá que fazer um sério compromisso
com a prática da verdade e agir com
fidelidade. É o que mais falta no mo-
mento, porque não se olha para a rea-
lidade com os olhos de Deus. A críti-
ca dos profetas ao sistema reinante
de seus tempos era justamente isso, a
perda da dimensão divina das coisas.

Houve um tempo em que apa-
receu João Batista anunciando uma
mudança de mentalidade na história.
Era uma voz que soava nos ouvidos
do povo hebreu e pedia que houves-
se transformação da sociedade. Ele
preparava a chegada de novos ares,
aquilo que precisa acontecer com o
Brasil e com a sociedade em geral.
João anunciava a chegada de Jesus
Cristo para construir um novo tempo.

O nascimento de Jesus Cris-
to, anunciado por João Batista, era
para a chegada do brilho de uma luz
de libertação, mas para isso aconte-
cer era exigida conversão, mudança de atitude, coragem para sair da zona
de conforto e enfrentar o abandono da hipocrisia. Não é tão fácil mudar de
mentalidade porque isso supõe perder privilégios, mordomias, e abrir mão
de acúmulos desnecessários.
A centralidade da vida das pessoas está em Deus e não nos bens ma-
teriais. Na terra tudo passa, mas todos devem fazer de tudo para viver mais
tempo, mas centrar sua vida naquilo que realmente possibilitará um futuro
de eternidade. Essa realidade não é comprada com dinheiro, nem com prá-
ticas cristãs de curas interesseiras, mas no compromisso de fidelidade e de
bom relacionamento comunitário.
Falamos hoje ser muito importante a mudança de vida e de menta-
lidade. Mas não basta querer que as coisas fossem diferentes. Há necessida-
de de a pessoa deixar-se mudar para depois provocar a mudança do outro e
do mundo. A tarefa começa em casa, no cuidado com a gente mesmo, que
começa de dentro para atingir realidades que são influenciadas pelo nosso
próprio agir na sociedade.]

*Arcebispo de Uberaba, MG

[ 24 • olutador [ setembro ] 2018

Liturgia [ Deus em nós...

F rt. M atheus R . G ar b a z z a , S D N

Construindo Cristo em nós
Toda celebração litúrgica é um
ato de culto a Deus. A Igreja Rito e revelação nhecimento do Filho de Deus, ao es-
reunida, seja numa peque- tado de adultos, à estatura do Cristo
na porção do Povo de Deus Para perceber sinteticamente o efei- em sua plenitude”. (Ef 4,13.) O rito li-
to da liturgia naquele que dela toma túrgico e a Palavra revelada concor-
ou numa grande multidão, eleva ao parte, basta observar um gesto mui- dam: é preciso que nos despojemos
Pai o louvor perene, por meio do Fi- das ações contrárias ao projeto do
lho, na unidade do Espírito. As vo- to comum e presente Reino de Deus para atingirmos, cada
zes dos que peregrinam neste mundo em todas as celebra- vez mais, a estatura de Cristo Jesus.
unem-se às daqueles que já contem- ções da Igreja. Trata-
plam face a face a glória do Senhor. se da postura de er- Pedagogia litúrgica
É uma realidade histórica e, simul- guer os braços aber-
taneamente, escatológica. tos ao orar. Evidentemente, esta conformação a
Cristo não se faz apenas por meio dos
O culto divino comporta, den- O Papa Francis- ritos. Eles são uma expressão daquilo
tro de sua própria dinâmica orante, co comenta o sentido que vivenciamos por meio da Pala-
um efeito sobre a comunidade. Se- deste gesto: “é a ati- vra de Deus e da ação sacramental.
ja por meio da graça própria de ca- tude do orante, assu- Nada na Sagrada Liturgia é por aca-
da sacramento, das preces que se fa- mida pelos cristãos so. Pense-se, por exemplo, na íntima
zem no Ofício Divino, das bênçãos desde os primeiros conexão entre as leituras bíblicas, so-
sacramentais etc. Somos partícipes séculos - como tes- bretudo aos domingos, que transmi-
do sacrifício de Cristo que nos une temunham os afres- tem ensinamentos importantes pa-
ao Pai, recebendo toda a força des- cos das catacumbas ra a vida cristã.
se evento salvífico. romanas - para imi-
tar Cristo de braços Modo privilegiado para que pos-
abertos no madeiro samos alcançar a estatura de Cristo é
da cruz. Ali, Cristo é o a Sagrada Comunhão. Cada vez que
Orante e, ao mesmo nos aproximamos da mesa sagrada,
tempo, a oração! No fortifica-se em nós a realidade de ser
Crucificado reconhe- “Corpo de Cristo”, para o bem nosso e
cemos o Sacerdote de todo o mundo. O próprio Senhor
que oferece a Deus o o disse: “Quem come a minha carne
culto que lhe é agra- e bebe o meu sangue permanece em
dável, ou seja, a obe- mim e eu nele”. (Jo 6,56.)
diência filial”1.
E que atitudes são construídas
Podemos dizer, na vida de quem procura asseme-
a partir deste gesto ritual, que a cele- lhar-se a Cristo? Para descobri-las,
bração litúrgica molda, pouco a pou- basta continuar seguindo a leitura
co, aquele que dela participa. O mo- de Ef 4,17-32. Quando São Paulo fala
delo é o próprio Cristo, que vai sendo da conduta cristã (que é a do próprio
formado em quem procura unir-se a Cristo!), assegura que devemos nos
ele em oração. Quando o presiden- despojar da vida passada e dos dese-
te da celebração estende os braços jos corrompidos. A justiça e a santi-
na liturgia para orar em nome de to- dade devem ser as grandes virtudes
dos (ou quando nós usamos o mes- a serem buscadas. Os vícios a serem
mo gesto em momentos orantes), o eliminados: a mentira, a ira, o ressen-
exterior demonstra aquilo que é fei- timento, o roubo, a falta de partilha,
to em nosso interior. Somos configu- as palavras ofensivas, a amargura, a
rados ao nosso Salvador. falta de perdão...

A mesma realidade é expressa Podemos nos perguntar, então:
por São Paulo: “até chegarmos, to- as liturgias que celebramos nos aju-
dos juntos, à unidade na fé e no co- dam nessa conformação a Nosso Se-
nhor Jesus Cristo?]
*Papa Francisco,

catequese do dia 10/01/2018.

olutador [ setembro ] 2018 • 25 ]

ANTÔNIO CARLOS SANTINI Atualidade [ Caminhar...

leigos:
contemplativos
na estrada
tOdA MAnhÃ, você pega
a estrada. Se tem esse pri- Você não precisará fazer sermões lancetes, contratos e projetos, aulas
vilégio, logo depois da mis- nem citar as Escrituras. Você em pes- e pesquisas, reuniões e cafezinhos.
sa e da comunhão. No ôni- soa é o Evangelho possível para mui-
bus ou no metrô, sempre dá tempo tos deles. Se não o “leem” em seus Veja o que diz Carlo Carreto:
de repassar mentalmente o Evange- gestos, não o lerão em parte alguma. “Os muros dos conventos tor-
lho do dia. Afinal, terá um dia cheio Num momento de pausa, cabe uma nam-se cada vez mais finos e mais
pela frente... breve oração por esses “visitantes” ou baixos: aqueles que vivem a virgin-
por todos aqueles que vivem mergu- dade no mundo tornam-se cada vez
Logo veremos você no balcão da lhados no mundo do sofrimento e da mais numerosos.
loja ou no canteiro de obras. Talvez dor. Nada melhor que ser uma ilha de
no escritório ou na sala de aula. São graça em um mundo de desgraças... Os próprios leigos tomam cons-
muitos os espaços de ação do leigo ciência de sua missão e buscam
cristão. E nesses mesmos espaços vo- Sei que muita gente preferiria a por sua espiritualidade. É de fa-
cê estará frente a frente com pessoas calma do quarto, quase uma cela de to a aurora de um mundo novo,
que ficarão felizes com um sorriso, convento, para se concentrar em Deus ao qual poderíamos, sem retó-
uma boa palavra, um bom conselho, em clima de misticismo. Mas Deus rica, dar o nome de ‘contempla-
a cooperação no trabalho, o atendi- saiu do quarto e foi para as ruas. É lá ção nas estradas’.”
mento cheio de atenção. que o encontrará. Por incrível que pa-
reça, Deus estará entre vendas e ba- Assim se vive a religião cristã, sem
oposição entre fé e vida. O Doc. 105
da CNBB fala sobre esta lamentável
mentalidade que pretende dissociar
o dia a dia dos princípios da fé. “Se-
gundo esta mentalidade e prática, o
mundo da fé é superior e, até mes-
mo, oposto ao mundo da vida. Por fé,
entende-se tudo o que se relaciona
ao mundo espiritual, ao culto e aos
sacramentos. No outro lado, estaria
a vida comum: o trabalho, as fun-
ções e os compromissos familiares,
a educação dos filhos, o mundo da
política etc.”

“Nos Evangelhos, ao contrário –
prossegue o mesmo texto -, Jesus nos
mostra como a fé se expressa em to-
das as dimensões da vida: pessoal (Mt
6,21), familiar (Mt 19,14), comunitá-
ria (Mt 18,21), profissional (Lc 19,8),
sociopolítica (Mt 6,24; 25,35) religio-
sa (Mt 7,21). Por isso, não podemos
separar a fé da vida, mas pela fé, viver
e realizar ações consequentes para
a revelação e expansão do Reino de
Deus na história.” (Nº 133a)

Então? Pé na estrada!]

[ 26 • olutador [ setembro ] 2018

saulo soares Atualiiddaaddee[[RSefrledtoir.b..em...

Porque vocês
são fracos no bem,

somos fortes no mal
Em recente “Ato pela Paz”, pro-
movido pela Igreja em Barra do o seguinte: “Porque vocês são fracos Não dá para colocar todo o pe-
Piraí, RJ, em memória das inú- no bem, deram-nos o nome de for- so desta cruz somente sobre os om-
meras vítimas fatais da violência no tes no mal... Com seu ‘não’ vacilante, bros dos pais. Não. Mas parte, sim.
município, a voz de uma senhora, disseram-nos ‘sim’, a fim de poupa- Sei que é difícil e que muitas coisas
aposentada, Sonia Souza da Costa, rem seus frágeis nervos. E a isso de- fogem ao nosso controle e atenção.
em entrevista a TV Rio Sul, dizia: “As ram nome de ‘amor’. Porque são fra- Há também, obviamente, a parcela
famílias, os pais, têm que ensinar os cos, compraram de nós o seu sossego. da sociedade, do Estado, do restante
filhos a respeitar, a amar o próximo. Quando éramos pequenos, davam- do “pessoal do bem”. Enfim...
Os pais não estão dizendo ‘não’. Es- nos dinheiro para irmos ao cinema
tão deixando os filhos serem criados ou comprarmos sorvete. Com isso, Todo pecado é uma busca desor-
‘à vontade’”. estavam prestando um serviço, não a denada pela felicidade, não é mes-
nós, mas à sua própria comodidade, mo? Muitos dos nossos jovens estão
Isto me fez lembrar de um arti- porque são fracos. Fracos no amor, desordenados. Pode soar aos nossos
go publicado já há algum tempo na fracos na paciência, fracos na espe- ouvidos, quando escutamos o man-
Revista de Domingo, de O Globo, in- rança, fracos na fé. Estaríamos dis- damento, o imperativo, a ordem de
titulado “Pose de bandido”, Martha postos a crer em Deus, no Deus infini- “amar a Deus e ao próximo”, como
Medeiros chama nossa atenção so- tamente bom e forte, que tudo com- algo autoritário, imposto. Mas, não.
bre a atração que a “estética das gan- preendesse e de nós esperasse que Deus, quando ordena, mais do que
gues” exerce sobre a juventude, de fôssemos bons, mas vocês não nos dar uma ordem, coloca em ordem
um modo geral. Diz ela: “Temos si- mostraram um só homem que fosse nossa vida.
do vítimas não apenas de marginais bom por crer em Deus... Em vez de
profissionais, com PhD em malda- nos ameaçarem com bastões de bor- O filósofo Kierkegaard diz que o
de, mas também de garotos mima- racha, coloquem-nos frente a frente indispensável é o Absoluto. Talvez
dos que aceleram seus carrões sem com homens de verdade, que acre- estejamos preocupados em forne-
medir consequências, que tomam ditem em Deus e que nos mostrem o cer aos nossos filhos bens e benefí-
decisões estúpidas por pura falta de caminho certo... Porque vocês são fra- cios importantes, mas relativos, não
orientação, que se metem em encren- cos no bem, nós somos fortes no mal”. absolutos. O Bem Supremo, Deus, e
cas pesadas porque, se saltarem fo- tudo o que d’Ele decorre, este sim, é
ra, temem ser considerados fracos, o indispensável Absoluto.]
babacas. Não percebem que não há
babaquice maior que fazer pose de
bandido. [...] Ninguém mais quer ser
da turma dos mocinhos. Por quê? O
pessoal do bem anda precisando de
uma boa assessoria de marketing”.

Uma pergunta é inevitável: Como
estamos criando nossos filhos? Para
uma pose de mocinho ou de bandido?
Para um belo quadro na parede ou
para uma triste manchete de jornal?

Dom Rafael Cifuentes – no cader-
no “Grandeza de coração”, da Ed. Qua-
drante – transcreve a seguinte carta
de um delinquente juvenil alemão
aos seus pais e a todos os pais. Diz ele

olutador [ setembro ] 2018 • 27 ]

Crônica [ Maria que cAoostSetiumnrgpoeuor

UM carro de boi parava debaixo da (Para o meu BEM, lembrando o dia em que
Gameleira da Pracinha, ponto de nos conhecemos, há 65 anos: eu estava com uma saia godê
encontro dos estrelados. Ali, to- e uma blusinha de cambraia, aberta em rendas
mavam-se as decisões, desde as mais cor- e bordada em ponto-sombra.)
riqueiras até às mais sérias: meninos tro-
cavam bodoques por pneus velhos, ovos No final das compras, os tecidos mais Então, a Singer cantava mais alto e
de passarinhos por bolinhas de gude... finos - para roupas da comadre e das mo- mais depressa. Mamãe costurava o dia
Namoros e negócios eram desfeitos ou ças - eram passados para a sala onde ma- todo, tocando o pedal com os pés mi-
fechados, agiotas emprestavam dinhei- mãe costurava: os modelos eram escolhi- mosos e fazendo maravilhas com seus
ro a juros altíssimos... dos de acordo com a idade das mocinhas. pontos.

Ah, Gameleira! Saudade de sua som- - Deixo por conta da senhora, dizia De suas mãos saíam preguinhas, acol-
bra grande, saudade até dos morcegos que a comadre. A senhora sabe o que combi- choados, godês – simples e duplos - man-
me faziam tanto horror:“eles vêm, emba- na com nosso gosto... gas fofas, babados e laçarotes encanta-
raçam seus cabelos e criam filhotinhos na dos. Mamãe tecia vestidos e sonhos, te-
sua cabeça...”Estrela toda ouvia essas pa- Entre adeuses e picolés, entre mea- cia amores e esperanças. E a vovó recebia
lavras horríveis; era o método mais usa- dinhas, botões e agulhas, foices e boti- as flanelas para passar biquinhos de cro-
do para as crianças ficarem caladas para nas gomeiras, entre chapéus Ramenzoni chê nos cueiros e paletozinhos de bebês.
o sono chegar... (o rabinho do R, fazendo arabescos, me Hoje estou com a cabeça fofa: ia-me es-
encantava...), entre enxadas Duas Caras quecendo de contar que a Comadre co-
Pois então, eu parei no carro de boi, / latas de querosene Jacaré / rolo de fumo lhia – todo ano - um bebê, junto com as
não foi? A Gameleira grande fez-me per- goiano / machados Collins / sabonetes Li- colheitas do compadre... Vovó Cristina
der o rumo da prosa... O carro de boi vinha febuoy, lá se ia o carro de boi, cheinho de tinha trabalho o ano inteiro...
cheio de gente, mulheres de saias compri- alegria, cantando até à volta...
das, pitando cigarros de palha, o fazen-
deiro em roupa de domingo, mil crianças
pulando, deliciadas com a cidade. Era um
dos compadres do meu pai que vinha pa-
gar a conta do ano e fazer outra compra
para acertar depois da colheita... O prazo
era esse e não havia juros... Aliás, o freguês
ainda ganhava agrados do comerciante: vi-
drinhos de água de cheiro, memórias para
enfeitar os dedos da patroa e das filhas...

Era um dia festivo: a loja era peque-
na para tanta gente. A comadre se assen-
tava e ia apontando as fazendas que du-
ravam o ano inteiro:

- Desce aquele riscado lá de cima!
- Aquela chita ramada de florzinhas
azuis! Pode descer o chitão também...
- Quero ver aquele brim cáqui e aque-
le outro,“arranca-toco”... E explicava: ar-
ranca-toco é grosso, aguenta o serviço
dos homens no meio dos espinhos e ga-
lhos secos...
Eu não arredava pé da loja, não podia
perder aquela festa! Ali mesmo, os fregue-
ses iam comendo suas matulas, farofa de
frango, pelota com mandioca, e a meni-
nada se lambuzava com picolés, coisa en-
cantada que só existia na cidade grande...
Papai avisava: “Logo mais tem o al-
moço pra todo mundo!” Mesmo assim,
as capangas e embornais de comidas iam
ficando vazios...

[ 28 • olutador [ setembro ] 2018

As noivas ricas faziam seus vestidos godinho ralo e mil espinhas vermelhas no - Veludo e shantung, para mantôs e
de cetim duchese, com caudas enormes: as rosto... Primeiro terno e gravata? redingotes...
provas eram feitas em cima da cama de
casal. Claro, eu subia junto para ajudar... - Só depois de homem feito, expli- - Chifon e mousseline, para as noivas
Aproveitava, enfiava a cabeça debaixo das cava a Madrinha Maria... e damas de honra!
mil camadas de saias: a combinação, as
mil anáguas engomadas... Queria ver o - Como a gente sabe que ele virou - Para os homens, casimira Aurora,
que tinha debaixo daquela nuvem de filós um homem feito, eu queria saber. da legítima! Panamá para ternos frescos!
e rendas... Ficava decepcionada, achava
que existia uma coisa diferente debaixo - Menina perguntadeira, vai lá pra - Chegou tricoline, Sô Zurinho?
dos refolhos dos godês. E ainda ganha- fora, dá sossego! Bem que sua mãe fa- - Chegou! E zibeline também.
va um pito de minha mãe: la que sua irmã é educada, e você é uma - Última novidade para os homens:
sirigaita... camisa Volta ao Mundo!!!
- Ana,tira essa menina enxerida daqui! - Calma, pessoal! Amanhã, tudo es-
Eu saía de lá, toda descabelada, im- Eu saía de lá e ia pra loja... Havia uma tá marcado e vocês podem vir fazer suas
pressionada de mamãe não se engasgar hierarquia de tecidos... Eu morria de in- compras!
com os alfinetinhos que prendia entre os veja e ciúmes de minha irmã, pioneira Cada etapa de nossa vida foi mar-
lábios - para prender aqui, ali, até o vestido nas novidades, por ser mais velha do que cada por tecidos da época. Nosso tempo
ficar com o jeito do corpo da noivinha... eu, que estava sempre um degrau abaixo mais bonito foi tecido em failles e faille-
Rendas valencianas e guipir davam dela... Das chitas-meninas, passei ao or- tes, nos tafetás e adamascados. Minha ir-
os acabamentos. O cetim duchese tinha a gandi-juvenil, à anarruga, ao fustão... Mo- mã se casou em nuvens de tule, e eu, em
vantagem de ser brilhante do avesso, po- delos também indicavam o status da ida- ondas de tafetá chamalote... Envelhece-
dendo ser aproveitado para detalhes do de: vestidinhos franzidos, mangas bufan- mos vestidas de malha, conjuntinhos de
modelo: laços, babados no decote, punhos tes, sianinhas e rolotês, para as meninas... banlon, saias justas e modelos recatados...
das mangas e mil botõezinhos que fecha- Daí, outro degrau: a primeira saia godê- Redingotes e mantôs de veludo e... cal-
vam o vestido atrás – o fecho éclair ain- duplo, presumindo-se recato e discrição ças compridas!
da não era conhecido por aqui: os vesti- para se usar roupa tão ampla... A saia go-
dos finos eram fechados com minúsculos dê era um meio de manter as meninas- ***
botõezinhos forrados do mesmo tecido. moças mais recatadas, com bons modos. Minhas netas ficam pasmas de ver co-
Mamãe, liderada pelas irmãs, modistas O vira-linho, verdadeiro milagre! Era só mo eu conto de minha felicidade em lu-
em Dores do Indaiá – a capital da redon- engomar a peça e, pronto, estava perfei- gar tão pequeno! E cochicham, com pe-
deza – tinha a máquina de cobrir botões, ta para desfilar no vaivém... com roupa ninha de mim...
novidade absoluta e importante nas ter- de (vira)linho...
ras estreladas... - Não vestiam shorts, nem vestido de
Cresci em uma casa grande, entre Calça-esporte, pantalonas, macaqui- alcinha! Nem roupa de decote e, muito
dois mundos: a loja e a casa da famí- nhos e macacões eram modelos jamais menos, minissaia... Credo, eram umas cai-
lia, separadas pela porta da sobreloja. imaginados naquela época. A primeira vez piras! Tadinha da vovó!
Em um, ouvia conversas dos fregueses, que Estrela viu uma moça de fora usando
lia os jornais e livros que papai manti- calças compridas, foi um alvoroço e um Uma não resiste:
nha sempre à mão. Do lado de dentro, constrangimento: quase arrancaram sua - Vovó, é verdade que, no seu tem-
convivia com outro tipo de pessoas, as roupa de tanto puxar, apalpar... Ela teve po, lá em Estrela, as moças jogavam vô-
freguesas de mamãe; ali, aprendia, tu- a bela ideia de tirar o lenço da cabeça e lei era de sapatinho de salto e saia godê,
do sobre pontos, moda, aviamentos... amarrá-lo na cintura... com anáguas engomadas?!
Mais ao fundo, estava a cozinha, outro Pela milésima vez, (re)conto o caso
lugar encantado, onde aprendia a can- A chegada dos viajantes - os cometas da Adélia da D. Pulu, uma das mais be-
tar modinhas do rádio, ouvia cochichos, - era motivo de alegria: mamãe era cha- las moças da cidade:
pegava pedaços de palavras no ar, deci- mada para ajudar nas cores e nos teci- - “Era dia de festa, o campo estava cheio
frava olhares, gestos e trejeitos da Ana e dos que eles apresentavam nas cartelas... de assistentes de fora... Todas de saia godê,
da Madrinha Maria. As cores pareciam versos na fala de mi- como era a moda... A bola branca subiu tão
Cresci entre rendas, rolotês, anáguas nha mãe: azul-ferrete, bonina, rosa-au- alto! A Adélia levantou os pés, tocou a bola
e lamês – fingimento do laquê - tecido rora, azul-desmaiado, branco-sujo (cru), com a pontinha dos dedos e... uma nuvem de
usado para os vestidos de anjos... amarelo-estrela, cinza-Pannair, verde-mus- rendas e fitas amparou a jogadora na queda
Os meninos passavam dos cueiros às go, preto-andorinha... que, de tão bonita, nem parecia queda: era
camisolinhas bordadas, e as fraldas eram uma bailarina pegando a lua branca num
de morim, do mais barato, por ser mais fi- Quando os pedidos chegavam, era passo de balé, em meio a nuvens de godês...”
no... Depois, vinham as calças curtas, com uma festa: o caminhão do Zé Macio des- Há um silêncio poético na sala...
suspensórios, até que chegassem às cal- carregava os caixotes, vindos das grandes Eu continuo tricotando: dois jun-
ças compridas, quando aparecia um bi- cidades pela Rede Mineira de Viação – tos, laçada, dois meias, um tricô, dois jun-
RMV, até Serra da Saudade. Juntava gente tos, laçada...
para ver as novidades. Papai e os caixeiros E tenho a sensação de estar tecendo
iam falando, como se fosse numa feira: o tempo em minhas mãos...
Como fazia minha mãe em sua Sin-
- Frisela! Para vestidos de senhoras ger...]
e senhoritas!

- Deixa a gente ver de perto, Sílvio!

olutador [ setembro ] 2018 • 29 ]

Páginas que não passam [ Refletir...

eCnotmre uonidiedaal deea:graça

D ietrich Bonhoeffer * começa a tornar-se aquilo que ela de- seu ideal imaginário devesse tecer os
ve ser diante de Deus, e a colher na fé vínculos que unem os seres huma-
Édamaior importância a promessa que lhe é dada. Quanto nos. Aquilo que não ocorre segundo
que isto esteja claro desde o mais cedo soar a hora dessa desilu- sua vontade, ele o considera como
início: a fraternidade cristã são para o crente e a comunidade, um fracasso. Quando seu sonho se
não foi um ideal, mas uma tanto melhor para os dois. estilhaça, ele vê a comunidade ruir.
realidade dada por Deus. É Assim, torna-se o acusador de seus
precisamente o cristão sério, ao en- Entretanto, cedo ou tarde iria à irmãos, depois o acusador de Deus
trar pela primeira vez em uma co- falência uma comunidade que não e, enfim, o acusador de si mesmo.
munidade de vida cristã, que muitas suportasse tal desilusão e não pas-
vezes trará consigo um ideal muito sasse por ela, e que, em consequên- De fato, Deus já estabeleceu o
exato daquilo que ela deve ser, e se cia, se agarra à sua ilusão, exatamen- único fundamento de nossa comu-
esforçará por realizá-lo. te quando devia vê-la quebrar-se. nidade, e desde muito tempo, antes
Mas é a graça de Deus que con- que entrássemos na vida comunitária
duz rapidamente ao fracasso todas Deus detesta os sonhos, pois com outros cristãos, Deus nos uniu
estas espécies de sonhos. É quando eles nos tornam orgulhosos bem juntos em um só corpo, em Je-
estamos submersos por uma grande e pretensiosos. Aquele que sus Cristo. É por esta razão que nós
desilusão em relação aos outros, aos sonha a imagem ideal de uma entramos na vida comunitária com
cristãos em geral e, se tudo corre bem, comunidade exige de Deus, outros cristãos, não com nossas exi-
sobre nós mesmos, que Deus quer dos outros e de si mesmo que gências, mas com gratidão e prontos
nos conduzir ao conhecimento de ela se realize. Ele se apresenta a receber.]
uma verdadeira comunidade cristã. na comunidade dos cristãos
É por pura graça que Deus não com suas exigências, erige *DIETRICH BONHOEFFER [1906-1945], nas-
permite que vivamos, ao menos por uma lei que lhe é própria e ceu em Breslau, Alemanha. Pastor luterano e
algumas semanas, segundo uma ima- em função da qual ele julga professor de teologia, dedicou-se à forma-
gem quimérica, e que nos abando- os irmãos e o próprio Deus. ção de comunidades. Adversário declarado
nemos a essas experiências exalta- Ele se impõe com dureza e do regime nazista, foi preso em 1943 e pos-
doras, a esse embalo gratificante que como uma reprovação vi- teriormente enforcado. Suas cartas da prisão
nos invade como uma embriaguez. va para todos os demais no foram reunidas no livro “Resistência e Sub-
Deus não é um Deus de emoções sen- círculo dos irmãos. missão”. Foi grande a irradiação de seu pen-
timentais, mas um Deus de verdade. samento após sua morte, deixando profun-
É por isso que somente a comu- Ele age como se de início tivesse de das marcas na reflexão teológica. Livros de
nidade que entra na grande desilu- criar a comunidade cristã, como se sua autoria publicados no Brasil: Ética, 2005;
são, experimentada com todos os fe- Discipulado, 2004; Resistência e Submissão:
nômenos desagradáveis e negativos, [ 30 • olutador [ setembro ] 2018 Cartas e Anotações Escritas na Prisão, 2003;
Tentação, 2003; Vida em comunhão, 1986,
todos pela Editora Sinodal; e Orando com
Salmos, Editora Encontro, 1995.

PRaostteoirraoiss

Leitura Orante 32 • Tudo em Família 33
Dinâmica para Grupo de Jovens 33 • Catequese 34

• Homilética 36

olutador [ setembro ] 2018 • 31 ]

Leitura Orante [ O caminho do justo...

Para ver C. O que o texto diz para nós o justo pobre e não vamos poupar as
mais longe l.1: Existe um aparelho que nos aju- viúvas, nem respeitar os cabelos bran-
da a enxergar longe. É o binóculo. Ele cos do ancião. A nossa força será a regra
invocação à trindade tem o poder de ampliar a imagem pa- da justiça, porque o fraco é claramen-
e oração ao Divino ra que a gente possa enxergar melhor te coisa inútil” (2.10-11). Neste esque-
espírito santo o que está à nossa frente. Podemos ma dominador, não entra Deus, não
comparar o Livro da Sabedoria com entra a Justiça, não entra a Sabedoria.
a. Situando o texto um binóculo. Ele foi escrito para aju-
Apesar de toda a sua riqueza, o Livro dar o povo a enxergar melhor o que Além da exploração aos mais fra-
da Sabedoria não faz parte da lista estava acontecendo naquela época cos, aparece claramente o controle
dos livros da Bíblia hebraica. O mo- na Alexandria, capital do Egito. O bi- que os dominantes têm sobre o exer-
tivo disto é que ele não foi escrito em nóculo nos faz ver mais longe. cício da justiça e do direito. Ou seja,
hebraico, mas em grego, e foi escrito os pobres e os pequenos, os excluí-
em Alexandria, ou seja, fora da Terra Esse é o objetivo do Livro da Sa- dos não têm a quem recorrer neste
Santa, em uma situação de migrantes bedoria. Ele amplia a visão do povo mundo. O Livro da Sabedoria mos-
desafiados a conservar a fé em uma para que enxergue melhor a ação dos tra que Deus está do lado dos justos.
terra estrangeira, em meio a outros maus e injustos que investiam con- O justo caminha para a imortalida-
costumes e religiões diferentes. tra o povo de Deus. de (1,13). Esta é a grande boa nova
anunciada pela Sabedoria.
Por esse motivo ele não foi inse- todos (cantando): Senhor vem dar-
rido na lista da Bíblia hebraica. Eis nos, Sabedoria, / que faz ver tudo, co- – O que mais chamou a sua atenção no
também o motivo pelo qual ele não mo Deus quis. / E assim faremos da texto bíblico e no comentário acima?
aparece nas Bíblias evangélicas que, Eucaristia / o grande meio de ser feliz.
desde a primeira tradução, feita por D. O que o texto nos faz dizer a Deus
Lutero, segue a lista hebraica. No en- l.2: O livro da Sabedoria contem- (preces e orações)
tanto, o Livro da Sabedoria influencia pla apenas duas categorias de pes- 1. Senhor, neste mês da Bíblia aju-
diversos livros do Novo Testamento, soas: os justos que caminham com dai-nos a saborear a Palavra para vi-
como o Evangelho de João e a Carta Deus e os injustos que não conhe- vermos como verdadeiros filhos e fi-
de Tiago. Vamos nos preparar para cem a Deus ou não lhe são fiéis. O lhas de Deus. Rezemos:
ouvir o que o Senhor nos vem falar. traço mais importante é a fidelida- todos: Senhor, enviai sobre nós a vos-
de a Deus, que se dá através da prá- sa Sabedoria!
b. O que o texto diz em si tica da justiça. Logo no início, o au- 2. Senhor, que a vossa Sabedoria ilu-
ler na bíblia: Sabedoria 2,1-20. tor deixa claro que os injustos vivem mine nossas ações e decisões pes-
de aparências e por isso se enganam. soais, familiares, comunitárias e so-
Chave de leitura Eles não conhecem o Deus da vida e ciais. Rezemos:
1. Como o injusto enxerga a vida? o seu projeto libertador. 3. Senhor, que o Mês da Bíblia seja
vivido e celebrado com intensidade
2. Para o injusto, o que é aproveitar Para o injusto, a vida é breve, tris- em nossa famílias e comunidades.
a vida? te, sem sentido, como uma nuvem ou Rezemos:
fumaça (2,1-5). Por isso a ânsia de
3. Como o injusto trata os justos? aproveitar o máximo possível tudo Outras preces espontâneas...
o que puder: alegria, comida, bebi-
4. O que Jesus nos diria diante desta da, prazeres, uma vida afogada em E. O que o texto
realidade, hoje? futilidades. Para sustentar esse tipo sugere para o mundo, hoje
de vida, nascem as desigualdades e – Nossa reflexão da Bíblia está nos
o esquema de exploração sobre os ajudando a ser mais justos e hones-
mais pobres e necessitados. tos? Por quê?

todos (cantando): Que sabedoria F. tarefa concreta
é esta que vem do meu povo? / É o Procurar participar de alguma ati-
Espírito Santo, agindo de novo. (bis) vidade do Mês da Bíblia em sua co-
munidade.
l.4: Importante lembrar que a explo-
ração dos pobres não é algo acidental, Encerramento
mas algo planejado para alimentar o Pai-Nosso, Ave-Maria e pedido de
sistema que domina: “Vamos oprimir bênção a Deus.]

[ 32 • olutador [ setembro ] 2018

Tudo em Família [ 57 – Pensar juntos...

Atrás da cortina

1. Coisas que acontecem nota de 100 sobre a cama, pegou seu pequena e desprovida, doente, so-
chapéu e foi embora. fredora ou diminuída for a criança”.
Aconteceu nos anos 50, em uma ca-
pital do Sudeste do Brasil. J.T., alto 2. Pensando juntos 3. Para uma reunião de casais
funcionário da Prefeitura, saía do Passaram 50 anos, mas a criança bra- – Em sua infância, você se sentia pro-
trabalho à noite e passou à frente de sileira continua exposta, correndo ris- tegido(a)? Ou corria algum tipo de
um pequeno hotel, onde uma jovem cos de todo tipo. Como pano de fun- risco?
prostituta o abordou. Subiram juntos do, a falta de segurança que somen-
a um apartamento do 2º andar. Já no te a família pode dar. Desamparada – Olhando para seus filhos, sobri-
quarto, ela pediu um adiantamento pelo Estado, sofrendo a ausência dos nhos, netos e afilhados, você avalia
para comprar um litro de leite antes pais, vítima de frequentes separações que essas crianças estão protegidas?
que a padaria fechasse. e abandonos, a criança pede socorro.
– A seu ver, quais os maiores riscos
Quando a jovem saiu para buscar Na Exortação apostólica “Familia- que elas enfrentam?
o leite, J.T. deixou o chapéu na cadei- ris Consortio” (26), o Papa João Paulo
ra e estendeu-se na cama. Ele notou II escreveu: “Na família, comunida- – A sociedade descristianizada - em
que a cortina que cobria a parede às de de pessoas, deve reservar-se uma especial pelos meios de comunica-
vezes ondulava um pouco. Teve um especialíssima atenção à criança, de- ção – faz um perigoso cerco sobre as
mau pressentimento: teria caído em senvolvendo uma estima profunda crianças. Em sua casa, como você pro-
uma cilada? Seria assaltado? Levan- pela sua dignidade pessoal como tam- cura protegê-las?
tou-se e foi verificar. bém um grande respeito e um gene-
roso serviço pelos seus direitos. Isto – Sua comunidade atua de algum modo
Atrás da cortina, encolhida e in- vale para cada criança, mas adquire para promover o bem das crianças?]
timidada, olhava para ele uma garo- uma urgência singular quanto mais
tinha de 3 a 4 anos de idade. J.T. en-
tendeu a razão do leite. Deixou uma

Minha comunidade hoje— Dinâmicas para Grupo de Jovens [ 57

Objetivo: 3. Pedir que cada subgrupo construa lhadas para diminuir as distâncias
Tomar consciência do espaço em que duas colagens: uma expressando a co- entre a comunidade que se tem e a
vive, refletindo suas problemáticas, munidade em que vive, e outra como que se deseja.
de modo a perceber as mudanças que gostaria que essa comunidade fosse.
deseja que ocorram e o que se faz ne- 7. Plenária:
cessário para que elas aconteçam. 4. Pedir que cada subgrupo apresen- compartilhar as conclusões a que
te o seu trabalho, prendendo as cola- chegaram, levantando as alternati-
número de pessoas: gens na parede, deixando entre elas vas e soluções possíveis.]
Indiferente um espaço que represente, na opi-
nião do subgrupo, a distância entre Fonte: pjcolider.blogspot.com
Material: a realidade que se tem e a desejada.
Copos plásticos; cola; revista; fita cre-
pe; caneta Hidrocolor ou Pilot 5. Após as apresentações, pedir que
os subgrupos se reúnam novamen-
Desenvolvimento: te e discutam que problemáticas da
1. Dividir o grupo em subgrupos de, comunidade precisam ser resolvidas
no máximo, cinco pessoas. para que a distância entre a realida-
de e o desejado desapareça.
2. Espalhar o material no centro do
grupo. (A cola deve ser dada a cada 6. Cada subgrupo constrói, com o ma-
subgrupo num copo plástico de ca- terial, uma ponte entre as duas co-
fezinho ou numa tampa de refrige- lagens, representando, nessa ponte,
rante). as questões que precisam ser traba-

olutador [ setembro ] 2018 • 33 ]

Catequese / Roteiros [ 3 encontros seguindo os evangelhos dos

1. – Mas isso é difícil! – disse o prín- 2.
Cortar cipe. Não existe nenhuma mais fácil? O Caminho
o mal de Jesus
pela raiz Disse o sábio: – Basta fechar os olhos é o caminho
(23º Dom. para não enxergar a realidade que nos do discípulo
Comum) rodeia. (24º Dom.
Comum)
Objetivo: Descobrir com as crianças 2. Iluminar (Ensinamentos de Jesus)
que Jesus quer cortar o mal pela raiz. Canto: “Buscai primeiro o Reino de Objetivo: Descobrir juntos quem é Je-
Material: Bíblia e um copo com água. Um Deus...” sus e como é o jeito das pessoas que re-
pedaço de papel bobina do tamanho de uma solvem segui-lo.
pessoa, bingo pedrinhas e bingo cartelas. O catequista proclama a Palavra Material: Faixa com a frase “Jesus é o
de Deus devagar e com muito respeito. Messias, o Filho de Deus”, Bíblia.
1. Ver (a realidade) Ler: Marcos 7,31-37.
Dinâmica: O contorno. Perguntar: 1. Ver (a realidade)
Um (a) voluntário (a) deita-se no chão a) O que Jesus fez para curar o surdo?
(ou sobre um papel de seu tamanho), b) O que Jesus pede ao surdo depois Dinâmica: Cabra-cega.
de braços estendidos e pernas afasta- de curá-lo? Os participantes receberão folhetos es-
das uma da outra. O grupo desenhará c) Como as pessoas olhavam para Jesus? critos, cada um com uma palavra: men-
com giz o contorno de quem se deitou. d) O que significa curar a surdez, hoje? tira, caminho, salvação, ódio, verdade,
Depois de desenhado, o (a) catequista egoísmo, violência, injustiça, sofrimen-
comenta: “Este corpo pode ser de qual- Para refletir to, libertação evangelho, fé (outras à es-
quer pessoa: rico, pobre, homem, mu- Jesus corta o mal pela raiz. Ele devolve colha). Um por vez, lê o que recebeu e
lher... Cada participante vai ajudar a ves- ao surdo a capacidade de ouvir e de fa- procura gravar o que ouviu. Se for ne-
tir esse corpo. Escreverá com giz, dentro lar. Ele devolve a dignidade à pessoa. O cessário, para memorizar melhor, ler
dele, o que uma pessoa vai adquirindo direito de ser feliz, o direito de ser gente. mais vezes.
durante a vida (amor, ódio, justiça, ca- Mas Jesus não quer ser visto como um
ridade, violência, briga, solidariedade, curandeiro, um fazedor de milagres. Ele Depois, um participante fica no meio
perdão, pecado, esperança, casa, roupa, não busca a fama, não quer ficar famoso do círculo de olhos vendados. Ele vai
alimento, emprego, droga...)”. aproveitando-se da deficiência dos ou- dando a volta dentro do círculo e to-
tros. O importante é recuperar a vida das cando nos demais. Quando a pessoa
Depois, ler e comentar a frase no pessoas. A cura que Jesus realiza é para é tocada, pergunta: – “Quem sou eu?”
quadro. provocar a conversão e o desejo de seguir Quem está de olhos vendados deverá
a Ele construindo um mundo melhor para dizer a palavra que está no papel que a
Experiência de vida todos. A isso nós todos somos chamados: pessoa tocada tem na mão. Haverá re-
Um príncipe morava com seu pai no a devolver a todos o direito de ser gente. vezamento, até que tenha motivação.
mais belo palácio da cidade. Vivia nos No final, verificar quantos acertos ca-
seus jardins e não sabia o que se passa- Guardar no coração: “Jesus faz os sur- da um fez.
va além dos muros do castelo. Quando dos ouvirem e os mudos falarem”.
atingiu a idade adulta, o rei pediu que Experiência de Vida
percorresse o seu futuro reino. Alegre, 3. Celebrar Cantar com as crianças a música: “Can-
o príncipe saiu pelo mundo. Oração: Colocar a Bíblia sobre o dese- tai ao Senhor um cântico novo, cantai
nho. Cada participante escolhe uma pa- ao Senhor, cantai ao Senhor (3x) Porque
Logo cruzou com um doente de AIDS lavra. Quem escolhe uma ação boa faz Ele fez, Ele faz maravilhas (3x) Cantai
e ouviu falar da discriminação huma- um pedido. Todos respondem: “Jesus re- ao Senhor, Cantai ao Senhor”.
na. Encontrou agricultores desterrados compensa as boas ações”. Quem escolhe
e tomou conhecimento das injustiças. uma atitude má pede perdão e todos res- Acrescentar espontaneamente o que
Desesperado, voltou para o palácio. pondem: “Vamos cortar o mal pela raiz”. temos para louvar o Senhor. A quem
louvamos neste canto?
– Descobri as dificuldades da vida – 4. Agir (a realidade nos convoca para...)
disse para o sábio da corte. Existe alguma Compromisso 2. Iluminar (Ensinamentos de Jesus)
maneira de não ter de enxergar mais isso? Antes de dormir, lembrar o que fez durante
o dia. O que foi bom? O que não foi bom? Canto: Escolher.
– Existe – disse o sábio. Corrija o Essa mesma pergunta que eu fiz a vo-
que estiver errado. Lute para ser me- Final cês, Jesus fez aos seus discípulos.
lhor e melhorará o mundo. Cantar “Toda a Bíblia é comunicação...”]

[ 34 • olutador [ setembro ] 2018

domingos 9, 16 e 23 de setembro...

Vamos ver o Evangelho: Marcos 3. É por isso que o professor respondeu:
8,27-35. Amar sem “Depende de você!”
distinção
Perguntar: (25º Dom. Comentar com as crianças: Seu gru-
a) Qual a pergunta que Jesus fez a seus Comum) po de catequese está vivo ou morto? E a
discípulos, para saber o que o povo pen- família e a comunidade? Qualquer que
sava sobre Ele? Objetivo: Mostrar que para Deus so- seja a resposta, você está comprome-
mos todos iguais, e devemos servir uns tido com ela? Como está a sua partici-
b) O que os discípulos responderam? aos outros. pação? “Depende de você!”
Material: Bíblia, três comprimidos de
c) Para seguir Jesus, o que é preciso fazer? Sonrisal e três copos com água para a 2. Iluminar (Ensinamentos de Jesus)
dinâmica. Canto de aclamação
d) Qual a profissão de fé dos discí- Ler Marcos 9,30-37.
pulos? 1. Ver (a realidade) Perguntar:
Dinâmica: Transformando o Sonrisal. a) O que Jesus ensinava aos seus dis-
e) Qual a nossa profissão de fé? a) Colocar um Sonrisal ao lado de um co- cípulos?
po com água e observar. O que aconteceu b) O que os discípulos discutiam entre si?
Para refletir quando o Sonrisal fica do lado do copo? c) O que Jesus disse quando tomou as
Jesus conversa com seus discípulos com b) Colocar o Sonrisal dentro do copo crianças no colo?
toda a coerência, clareza e convicção. com água, mas fechado em seu enve- d) Como estamos agindo para ajudar os
Isso ajuda os discípulos a terem certe- lope. O que acontece quando o Sonri- outros, em nossa família, com amigos (as)?
za de que ele é o Messias esperado. A sal cai na água, mas fechado dentro do
resposta de Pedro, em nome dos discí- seu envelope? Para refletir
pulos, é a grande profissão de fé: “Tu és c) Abrir e dissolvê-lo na água. Comen- Jesus deixa bem claro: “Quem receber
o Messias”. Eis a razão pela qual procu- tar: o que houve? O que era água agora um menor por causa do meu nome, é a
ramos seguir Jesus. é remédio, é a transformação. Aparen- mim que recebe e recebe o Pai”. Os me-
temente, o Sonrisal desapareceu, per- nores a que Jesus se refere são todos os
Guardar no coração: “O caminho de deu a sua identidade, mas na realidade pobres, indefesos, sem posses, sem ca-
Jesus é o caminho do discípulo”. agora ele é útil. É assim que devemos sas, sem terras, sem comida, sem aga-
ser na comunidade: somos iguais, mas salho, sem saúde.
3. Celebrar devemos servir aos outros.
O cristão que quer receber verdadei-
Oração Experiência de vida ramente a Jesus em sua vida não pode se
Cada participante receberá um dos pa- Contar a história: “Depende de você”. preocupar em o ser maior, em aparecer,
péis da dinâmica inicial. Em silêncio, mas sim, em servir melhor, acolher bem
escreverá no verso uma prece. Deve- Um jovem quis testar seu professor e principalmente amar sem distinção.
rá ser uma prece falando com Jesus. e foi falar com ele com um passarinho
Depois, cada um lerá sua prece. Após escondido na mão. Perguntou: Será que nós compreendemos o que
cada prece, a resposta será: “Tu és o Jesus diz? Não podemos ter medo de amar
Cristo, o Messias”. Em seguida, rezar – O passarinho está vivo ou morto? as pessoas, como Jesus espera de nós!
o Pai-Nosso. E o professor nada respondeu. No-
vamente o jovem perguntou: Guardar no coração: “Jesus nos diz
4. Agir (a realidade nos convoca – O passarinho que tenho na mi- para acolhermos a todos”.
para...) nha mão está vivo ou morto?
Depois, rezar o Pai-Nosso e a Ave O professor respondeu: 3. Celebrar
-Maria. – Depende de você! Oração
Se o professor respondesse que o Motivar um silêncio e, depois, todos rezam a
Compromisso: Escrever e entregar passarinho estava morto, o aluno abri- “Oração de São Francisco”. Pode ser cantada.
aos pais uma mensagem de amor e ria a mão e o passarinho voaria. E se
gratidão por tudo o que eles fazem respondesse que estava vivo, o jovem 4. Agir (a realidade nos convoca para...)
por nós. apertaria a cabecinha do passarinho, Compromisso
matá-lo-ia, abriria a mão e diria ao pro- Junto com o Pai e a Mãe, participar da
Final fessor que o passarinho estava morto. celebração ou missa na comunidade.
Encerrar com o canto: “Oração da família”.]
olutador [ setembro ] 2018 • 35 ] Final
Escolher um cântico para encerrar o
encontro.]

Homilética [ 12•10•2018 “Fazei o que Ele
vos disser.”

(Jo 2,5)

Solenidade
deNossa SenhoraAparecida

Leituras: ta o rei, que lhe promete a metade do Senhor Jesus Cristo. A mulher, sím-
Est 5,1b-2;7,2b-3; seu reino (7,26). bolo da Igreja perseguida, foge pa-
Sl 44[45]; ra o deserto, protegida por Deus co-
Ap 12,1.5.13a. 15-16a; Ester não pensa egoisticamen- mo Israel o foi. Deus não abandona
Jo 2,1-11 te; seu coração está voltado para a li- seu povo.
bertação e vida do seu povo. Eis seu
1. O povo perseguido. O livro de Es- pedido: “Se o Senhor quiser fazer- 3. O verdadeiro Esposo. O vinho, sím-
ter ensina uma espiritualidade da re- me um favor, se lhe parecer bem, o bolo do amor conjugal (cf. 1,2) e da ale-
sistência e tenta preservar a sobrevi- meu pedido é que me conceda a vi- gria, tinha acabado no meio do povo da
vência da comunidade judaica perse- da, o meu desejo é a vida do meu po- Antiga Aliança, a Aliança de amor en-
guida e oprimida no meio das nações vo (7,3)”. Assim a rainha Ester salva tre Deus e o seu povo perdera o senti-
estrangeiras. Ester apresenta-se ao rei o seu povo judeu e mostra que Deus do. A mãe de Jesus tem consciência e
para interceder em favor do seu povo, não está distante, nem dormindo. É busca socorro em quem pode socorrer.
sobre quem já pesava uma sentença através dos pequenos que Deus li- A mãe dialoga com o Filho. Constata
de morte, obtida pelo inimigo do po- berta seu povo. a realidade e dá ordem aos serventes:
vo judeu, o Primeiro Ministro Amã. “Fazei tudo o que ele vos disser”. Eis o
Com sua formosura, a rainha conquis- 2.A Igreja perseguida. O autor apre- papel de Maria: apontar-nos Jesus. É
senta dois sinais para iluminar a ele quem traz a solução para todos os
vida daqueles que se sentem su- problemas. É ele a realização das pro-
cumbir pelas forças negativas do messas.
antirreino.
Os servos e discípulos que obe-
1) “Uma mulher vestida de sol, a lua decem representam a Nova Aliança,
debaixo dos pés, e sobre a cabeça uma esposa do Messias – esposo. As talhas
coroa de doze estrelas” (v.1). Ela tem representam a imperfeição da Anti-
a grandeza das coisas de Deus. O sol ga Aliança – (v.6). Mencionando as 6
que a reveste indica que é protegida talhas de pedra, o evangelista lembra
por Deus, a lua sob seus pés fala da a imperfeição da Antiga Aliança (“7
eternidade e a coroa sobre a cabeça é o número perfeito; “pedra” aponta
aponta para a vitória. As 12 estrelas para as Tábuas da Lei, que eram de
relembram o povo de Deus (12 tribos pedra). As talhas eram para a purifi-
/ 12 apóstolos). cação dos judeus, mas estavam vazias.
O povo descuidou seu relacionamen-
2) “Apareceu, então, outro sinal no céu: to com Deus. A Antiga Aliança per-
um grande Dragão cor de fogo.Tinha dera o sentido.
sete cabeças e dez chifres.”(v.3).Tudo
indica monstruosidade e poder. Pare- Jesus é o verdadeiro esposo da Nova
ce mais forte que o primeiro sinal. Re- Aliança (vv.7-11). A ordem de Jesus é
presenta as forças da morte. O que pre- encher as talhas e levar ao mestre-sala.
tende o dragão? O mestre-sala prova do vinho e perce-
be sua qualidade, mas não conhece sua
Quer devorar o Filho que vai nas- origem. O mestre-sala simboliza aque-
cer: destruir a semente de vida e liber- les que não reconhecem o dom messiâ-
tação, destruir tudo o que é fonte de nico, que Deus faz em Jesus, o verda-
vida. Mas ele apenas parece forte, sua deiro esposo da humanidade nova, o
força é limitada. A vitória final é do esposo da Nova Aliança.]

[ 36 • olutador [ setembro ] 2018

Homilética [ 14•10•2018 “Para Deus
tudo é possível.”

(Mc 10,27)

28º Domingo Leituras da semana
do Tempo
Comum [dia 15: Gl 4,22-24.26-27.31 – 5,1; Sl 112[113],1-4.5a.6-7; Lc 11,29-32
[dia 16: Gl 5,1-6; Sl 118[119],41.43-45.47-48; Lc 11,37-41
[dia 17: Gl 5,18-25; Sl 1,1-4.6; Lc 11,42-46
[dia 18: 2Tm 4,10-17b; Sl 144[145],10-13ab.17-18; Lc 10,1-9
[dia 19: Ef 1,11-14; Sl 32[33],1-2.4-5.12-13; Lc 12,1-7
[dia 20: Ef 1,15-23; Sl 8,2-3a.4-7; Lc 12,8-12

Leituras: Sb 7,7-11; Sl 89[90]; da razão. Não há segredo para ela: vê diz que só lhe falta uma coisa. E é tudo
Hb 4,12-13; Mc 10,17-30 tudo com clareza e lucidez. A Palavra, o que lhe sobra. Quem tem de sobra
que é Jesus, é a expressão da ternura do não entra no Reino, porque o que nos
1. A sabedoria de Deus. O Livro da Pai, é a misericórdia em pessoa no meio sobra não nos pertence. Afinal, a porta
Sabedoria é o mais recente do Primeiro de nós. Jesus não veio para condenar, é estreita, não cabe quem quer entrar
Testamento. Surgiu entre os judeus de mas para salvar. com muita coisa: “Vai, vende tudo o
Alexandria, no Egito. Defende a identi- 3. O Reino de Deus. Estamos diante que tens e dê o dinheiro aos pobres...
dade judaica no meio de uma cultura que de um latifundiário, pois o termo para depois (só depois) vem e segue-me”.
idolatrava o poder, a riqueza, a saúde e a expressar a riqueza (em grego ktema-
beleza, ideais da felicidade para a cultura ta) significa terrenos (cf. Mt 19,22; Ele ficou abatido e triste. A impres-
grega.O que torna alguém feliz e realizado? At 2,45; 5,1). Esse rico era honesto e são é que “entrar no Reino de Deus”, fa-
justo, pois não apenas Jesus vê que ele zer parte da comunidade de Jesus é algo
A sabedoria está em discernir o quê e cumpre os mandamentos relaciona- mais exigente. A vida eterna se alcan-
como fazer para conservar essa liberdade. dos com a justiça social, mas ele pró- ça no futuro, mas quem abandona tu-
Poder, riqueza, saúde e beleza, são bens prio confessa que caminhou na jus- do por Jesus começa aqui e agora uma
perecíveis que escravizam; não produ- tiça desde jovem. Interessante, Jesus vida que já é definitiva (já recebe cem
zem segurança, não tornam o homem vezes mais; só que tudo é acompanha-
feliz nem realizado. Inspirado na ora- indica para possuir a vida eterna só do de perseguição).
ção de Salomão (cf. 1Rs 3,7-12), o au- os mandamentos relacionados com o
tor prefere a sabedoria a todos os bens próximo. Não faz menção dos man- Então, rico não se salva? Para Deus
da terra. Quem tudo renuncia pela sa- damentos relacionados com Deus. É nada é impossível. Então, Deus pode
bedoria pode ter a certeza de que com que o amor a Deus se prova com o fazer o rico partilhar seus bens como
ela irá readquirir tudo de novo. amor ao próximo. fez com Zaqueu. Portanto, é na con-
versão, partilha e opção pelos pobres
2.A Palavra de Deus. Sabemos que to- Talvez o homem tivesse o suficien- que está a chance de salvação para os
da a Bíblia é Palavra de Deus. O início te para ganhar a vida eterna, mas Jesus ricos. O resto é confiar na infinita mi-
da Carta aos Hebreus nos lembra que, sericórdia de Deus!]
muitas vezes e de muitos modos, Deus olutador [ setembro ] 2018 • 37 ]
falou pelos profetas. Agora, no período
final, Deus nos falou por meio do seu
próprio Filho. S. João vai-nos ensinar
que a Palavra de Deus é o próprio Fi-
lho de Deus (cf. Jo 1,1ss), a 2ª Pessoa
da Santíssima Trindade, que assume a
natureza humana.

Hoje, podemos dizer: a Palavra de
Deus é Jesus, é Deus no meio de nós.
Ela é vivificadora, gera vida para quem
dela se alimenta. Em João 6,35, Jesus
diz: “Eu sou o Pão da Vida”. Ela é efi-
caz, quer dizer, sempre realizou o que
anunciou (cf. Is 55,10-11).

Agora, tornando-se gente em Jesus,
ela é muito mais eficaz: é penetrante,
profunda como espada de dois gumes;
penetra além do nosso discernimento,

“O Filho
Homilética [ 21•10•2018 do Homem não veio
para ser servido,
mas para servir.”

Leituras da semana (Mc 10,45)

29º Domingo [dia 22: Ef 2,1-10; Sl 99[100],2-5; Lc 12,13-21
do Tempo [dia 23: Ef 2,12-22; Sl 84[85],9ab-14; Lc 12,35-38
Comum [dia 24: Ef 3,2-12; (Sl) Is 12,2-3.4bcd.5-6; Lc 12,39-48
[dia 25: Ef 3,14-21; Sl 32[33],1-2.4-5.11-12.18-19; Lc 12,49-53
[dia 26: Ef 4,1-6; Sl 23[24],1-6; Lc 12,54-59
[dia 27: Ef 4,7-16; Sl 121[122],1-5; Lc 13,1-9

Leituras: dote se tornava mediador entre Deus Evangelho de Marcos. Logo a seguir,
Is 53,10-11; e o seu povo, alcançando a misericór- temos o texto de hoje. Os discípulos
Sl 32[33]; dia de Deus. não entendem o ensinamento de Je-
Hb 4,14-16; sus sobre seu messianismo e sobre o
Mc 10,35-45 Jesus, o Filho de Deus, entrou no que é ser cristão. Os discípulos que-
céu uma vez por todas, através do sacri- rem poder e glória.
1. A vida oferecida. O assunto do 4º fício de sua própria vida. Ele se imolou
canto do Servo de Javé é o sofrimento, por nós e Deus o ressuscitou, colocan- Quem encarna a ambição polí-
a morte e a vitória do Servo como ví- do-o à sua direita. Ele é agora o úni- tica são os dois filhos de Zebedeu.
tima de injustiça. Parece que o Servo co mediador entre Deus e os homens. Tiago e João querem sentar-se ao
está abandonado até mesmo por Deus. Com o sacrifício redentor de Cristo lado de Jesus no governo de Israel,
Parece que Deus o castiga para a re- todos os antigos sacrifícios foram abo- com postos de honra e glória. Mal
missão dos pecados do povo. lidos e, com eles, qualquer mediação. sabem eles que, no trono da cruz de
Jesus, a seu lado, estariam dois mar-
Pelo conjunto da Sagrada Escri- Jesus é capaz de se compadecer de ginalizados! Jesus ensina que só al-
tura, sabemos que “Deus não quer a nossas fraquezas, pois é igual a nós em cançará a glória quem passar pela
morte do pecador, mas que ele viva”. tudo, com exceção do pecado. Carre- cruz do serviço, da doação de si mes-
E o Servo nem pecador era. Na ver- gou sobre si todas as dores do povo co- mo. É justamente a busca de poder
dade, Deus não se alegra com o sofri- mo o Servo de Javé. e de glória que massacra os servi-
mento do justo. Seu sofrimento pro- dores do Reino.
vém do pecado do mundo, da opressão 3. O cálice de Jesus. Em Mc 10,32-
dos poderosos. Mas Deus pode servir- 34, temos o 3º anúncio da Paixão no Jesus declara a ignorância dos dis-
se do sofrimento do justo para fazer [ 38 • olutador [ setembro ] 2018 cípulos e pergunta se eles podem beber
triunfar a sua causa; seu sofrimento o cálice do seu sofrimento ou sofrer o
não é consequência de seus próprios batismo da sua morte na cruz. Eles di-
pecados, mas dos pecados dos outros. zem que sim. Este “sim” deve ser uma
consciência adquirida depois do mar-
Qual é o resultado do sacrifício do tírio dos primeiros seguidores de Je-
Servo? a) A vitória da justiça, o triunfo sus. Jesus confirma os futuros márti-
da geração dos humilhados. b) Deus res, mas esclarece que o lugar de glória
está do lado dos fracos, marginaliza- é dado pelo Pai.
dos e oprimidos - os servos sofredo-
res. c) O Justo e todos os justificados A comunidade de Jesus é di-
contemplarão a luz da vitória de Deus, ferente das sociedades políticas.
seu clarão de glória. d) Ele será o por- Quem busca poder e glória pro-
tador da salvação de Deus para todos. voca aborrecimentos, marginali-
zação, violência. Jesus quer formar
2. Jesus Cristo Sacerdote. Ele é o úni- uma nova comunidade sem dife-
co mediador entre Deus e os homens. É renças entre os grandes, que são
nesta fé que a comunidade cristã pre- servidos, e os pequenos, que são
cisa permanecer firme. Era costume, servidores, dignificando a todos a
em Israel, entrar uma vez por ano na partir do serviço.
parte mais sagrada do Templo de Je-
rusalém, que se chamava “Santo dos São todos grandes na comunida-
Santos”. Ali estava a Arca da Aliança. de de Jesus, pois todos são servidores:
Através de ritos purificatórios e do sa- “Quem quiser ser o maior entre vos
crifício de um animal, o sumo sacer- seja aquele que vos serve, e quem qui-
ser ser o primeiro entre vós seja o es-
cravo de todos”. ]

Homilética [ 28•10•2018 “Vai, a tua fé
te curou!”

(Mc 10,52)

30º Domingo Leituras da semana
do Tempo
Comum [dia 29: Ef 4,32–5,8; Sl 1,1-4.6; Lc 13,10-17
[dia 30: Ef 5,21-33; Sl 127[128],1-5; Lc 13,18-21
[dia 31: Ef 6,1-9; Sl 144[145],10-14; Lc 13,22-30
[dia 1º: Ef 6,10-20; Sl 143[144],1.2.9-10; Lc 13,31-35
[dia 2: Jó 19,1.23-27a; Sl 22[23],1-6; 1Jo 3,14-16; Jo 19,17-18.25-39
[dia 3: Fl 1,18b-26; Sl 41[42],2.3.5bcd; Lc 14,1.7-11

Leituras: Jr 31,7-9; Sl 125[126]; 3.A luz do mundo. A cura do cego de quenos e desvalidos, mas os pequenos
Hb 5,1-6; Mc 10,46-52 Jericó, praticamente, no final da segun- do Reino não desistem. O cego grita
da parte do Evangelho, faz um paralelo mais alto ainda.
1.Tu és o meu povo. Deus não abandona com a cura do cego de Betsaida (cf. 8,22-
o seu povo,mas costuma dar-lhe a opor- 26) no final da primeira parte. O cego de Por fim,“jogar o manto fora”indi-
tunidade de conversão.O texto convida Betsaida simboliza o primeiro esforço ca o abandono de tudo por causa de Je-
Judá a se alegrar por causa da libertação de Jesus de abrir os olhos dos discípulos. sus. Ele rompe com a sociedade que o
de sua irmã do Norte - o povo de Israel. Jesus ordena que não entre no povoado, marginalizava e faz como os apóstolos,
Javé mesmo vai trazê-los de volta do exí- para indicar que não devia voltar a par- que deixaram tudo para seguir o Mes-
lio,da Assíria.Para mostrar que Javé é o ticipar da sociedade que marginalizava tre. O manto era tudo que tinha, ser-
Deus que defende,liberta e salva os fra- as pessoas. Mas a cura completa dos dis- via de cama, de coberta, como também
cos,o texto faz menção do cego,aleijado, cípulos é um trabalho difícil para Jesus. para receber as esmolas da sociedade.
mulher grávida e com recém-nascido.É Era, portanto, símbolo de sua depen-
o grupo dos marginalizados,indefesos e A confissão do cego Bartimeu se dência. Jesus pergunta o que ele quer
desamparados,que Javé reúne e liberta. aproxima da de Pedro (8,29) e da do que lhe faça.
centurião romano (15,39). Chamando
A dor da partida para o exílio, pro- Jesus de Filho de Davi, ele está profes- Primeiro, ele pede piedade por sua
vocada pelos próprios pecados, é agora sando a fé em Jesus como Messias. É a situação de indigência e marginaliza-
recuperada com a alegria do arrependi- ção, depois larga tudo o que o fazia de-
mento, da conversão e do retorno. Para
mostrar a ternura de Deus para com os
desprotegidos,o profeta usa a imagem do
Pastor, que conduz os rebanhos para os
córregos, por caminho plano, onde não
tropeçarão; e a imagem do Pai, que ama
profundamente seu filho primogênito.

2.Tu és o meu Filho. Na Antiga Alian- tese que o evangelista Marcos se pro- pendente. Agora ele pede um instru-
ça, o sumo sacerdote era escolhido en- põe a provar, quando inicia o seu evan- mento de libertação: o ver. Ele quer ver
tre os homens e constituído para o bem gelho: Evangelho de Jesus, o Messias Jesus, ver o caminho da libertação, quer
dos homens, nas coisas que se referem (=Cristo), o Filho de Deus. comprometer-se com Jesus. Quer ser
a Deus. Sua função era oferecer sacri- enviado como os apóstolos. Jesus de fa-
fícios tanto pelos próprios pecados co- O cego sabe quem é Jesus. O verda- to diz: “Vai, tua fé te salvou”.
mo pelos pecados do povo. Esta honra deiro discípulo sabe quem é Jesus mes-
só se recebe por vocação. É Deus quem mo sem o ter visto. Reconhecendo Jesus, É a missão principal do discípulo:
chama, como chamou Aarão. ele grita por piedade, mas o repreendem o seguimento do Mestre a caminho de
e o mandam calar-se. A sociedade do- Jerusalém. O cego é, portanto, o discí-
A glória de ser sumo sacerdote foi- minante tenta sufocar o grito dos pe- pulo perfeito.]
lhe dada por Deus quando disse: “Tu
és o meu Filho, eu hoje te gerei”. Aqui olutador [ setembro ] 2018 • 39 ]
está a superioridade do sacerdócio de
Jesus: ele é o próprio Filho de Deus. O
resto do texto apresenta a entrega to-
tal de Jesus, sua obediência através do
sofrimento, sua perfeição e o resultado
de sua oferta, que é a salvação de todos
os que lhe obedecem.

Homilética [ 02•11•2018 “E, inclinando
cabeça,
CToodmoesmosoFraiéçiãsoDdeefuntos entregou

o espírito.”

(Jo 19,30)

Leituras: amor ao próximo supera as barreiras O detalhe registrado pelo evange-
Jó 19,1.23-27a; da morte. Por isso mesmo, continua- lista São João – os soldados deixaram
Sl 22[23],1-6; mos a amar as pessoas que já passaram de quebrar as pernas do Crucificado,
1Jo 3,14-16; para Deus, e também acreditamos que pois já estava morto (v. 33) – não dei-
Jo 19,17-18.25-39 nossos amados, já em Deus, rezam por xa qualquer dúvida a respeito da mor-
nós como intercessores. Ou seja, nem te corporal do Filho de Deus, o Verbo
1. Meu redentor vive! O Livro de Jó – mesmo a morte pode interromper os encarnado.
um texto único na Sagrada Escritura, laços de amor entre nós.
pois escrito em gênero dramático, com Nossa admiração comovida jamais
narrador, personagens, diálogos e mo- Na Carta aos Romanos, o apósto- deveria ser trocada pela rotina quando
nólogos – tem sido avaliado sob uma lo Paulo confirma nossa fé na ressur- a Liturgia reconduz ao nosso olhar a
ótica pessimista, como se tudo na vi- reição: “Se o Espírito daquele que res- cena do Calvário: o Filho Deus mor-
da acabasse em sofrimento e desgra- suscitou Jesus dos mortos habita em reu por nós! Foi este o grau supremo de
ça e nem mesmo os justos escapassem vós, ele, que ressuscitou Jesus dos mor- seu despojamento, sua “kênosis”, como
desse destino. tos, também dará a vida a vossos corpos São Paulo observa na Carta aos Filipen-
mortais, pelo seu Espírito que habita ses: “Encontrado em aspecto humano,
No entanto, não é esta a mensagem em vós”. (Rm 8,11) [Cristo] humilhou-se, fazendo-se obe-
final do protagonista, pois Jó faz – em diente até a morte – e morte de cruz!”
pleno Antigo Testamento – um ato de 3.Viram que estava morto. Este Evan- (Fl 2,7b-8)
fé na ressurreição da carne: “Em minha gelho – um dos textos opcionais pa-
carne verei a Deus. Eu mesmo o verei, ra a celebração de Finados – nos co- Crucificado entre dois ladrões, após
meus olhos o contemplarão”. loca diante de um mistério central da sofrer extremos castigos corporais, Je-
doutrina cristã, que repetimos todas sus Cristo experimenta em sua carne o
Na Bíblia de Jerusalém, uma no- as vezes que rezamos o Símbolo dos destino provisório de todos os huma-
ta comenta: “Esta curta evasão da fé Apóstolos: Jesus Cristo morreu ver- nos: a morte. E assim se manifesta sem
de Jó dos limites intransponíveis da dadeiramente. reservas a total solidariedade do Salva-
condição mortal, para satisfazer sua [ 40 • olutador [ setembro ] 2018 dor com cada homem e cada mulher.
necessidade de justiça numa situa- Nada de nossa humanidade – exceto o
ção desesperadora, preludia a revela- pecado – esteve ausente da experiência
ção explícita da ressurreição da carne humana do Verbo encarnado.
(cf. 2Mac 7,9)”.
Para os pagãos, a morte continua
O Catecismo ensina: “A ressur- sendo um enigma inexplicável, um des-
reição dos mortos foi revelada pro- fecho inaceitável para a vida humana.
gressivamente por Deus a seu povo. O cristão, ao contrário, ao contemplar
A esperança na ressurreição corporal a morte de Jesus e sua ressurreição ao
dos mortos foi-se impondo como uma terceiro dia, é capaz de assumir com
consequência intrínseca da fé em um Cristo a própria morte e, confiante na
Deus criador do homem inteiro, alma ressurreição do grande Dia do Senhor,
e corpo”. (992) ver na mesma morte a porta que se abre
para a vida eterna em Deus.
2. Da morte para a vida. Este trecho
da 1ª Carta de São João nos dá a chave Todos os que se tornaram, pelo Ba-
da “imortalidade”: o amor.“Quem não tismo, membros do Cristo crucificado e
ama permanece na morte.” Já o amor ressuscitado, através da morte, passam
– um dos nomes do Espírito Santo – com Ele à vida sem fim.
reergueu Jesus do reino escuro da mor-
te e o trouxe de volta à vida. Assim, o Como estamos fazendo nossa pre-
paração para a morte? (ACS)]

Mensagens [ Sabedoria & Poesia

[ Palavra de sabedoria

“A regra de ouro
consiste em sermos

amigos do mundo
e em considerarmos
como uma toda a família humana.

Quem faz distinção
entre os fiéis da própria religião

e os de outra,
deseduca os membros
da sua religião e abre caminho

para o abandono,
a irreligião.”

Mahatma Gandhi

[ Poema para setembrO

Olhos de criança

R egin a Ch ia re llo

As crianças todas têm
nos olhos seus segredos
povoados de sonhos e medo,

invenções a contar.

Meus olhos de criança
formaram paisagens

que o tempo desbotou
e a vida que hoje vejo

não tem sonhos nem segredos,
minha inocência passou.

Meus olhos de criança,
da infância, da liberdade,
dos sonhos que inventei,
entregaram-se ao tempo

que passa sem alento...
Passa anel, passei...

Cantei de roda as cantigas,
tantas são as lembranças,
amarelinha, pique-esconde,

pula-corda, adivinha!

Em que tempo se perderam
meus olhos, meus sonhos, onde?

olutador [ setembro ] 2018 • 41 ]

variedades [ Culinária & Dicas de português

[ Não Tropece na Língua

[ rEuniÕEs nECEssáriAs: É PrECisO rEuniÕEs

aFdorcaicnagdoo O assunto é batido, já que costuma forma neutra (masculino singular).
ser tratado nas aulas de Português, A concordância, então, se daria com
Ingredientes mas sempre há o que discutir sobre a o infinitivo implícito:
concordância nominal, corretamen-
1 frango; suco de ½ limão; 6 co- te usada nas frases abaixo, como po- - É preciso [haver] uma ação emer-
lheres (sopa) de margarina; e demos verificar: gencial. Equivale a: Isto (haver uma
colheres (sopa) de mel. ação emergencial) é preciso.
. - Foram necessárias várias reuniões
de toda a oposição com Itamar: como - É preciso [haver] ações concre-
Modo de Fazer bom mineiro, ele mais ouviu do que tas. Equivale a: Isto (ações concre-
falou, mas obteve a garantia da opo- tas) é preciso.
Limpar o frango sem parti-lo, sição de que não sofreria retaliações.
esfregar com o limão. Derreter - É preciso [haver] políticos ínte-
a margarina e misturar ao mel. -No Brasil, foram precisos mui- gros. Equivale a: Isto é preciso.
Pincelar o frango, por dentro e tos anos para que o mito da demo-
por fora, com essa mistura. Le- cracia racial fosse derrubado pelas Daí a pergunta da estudante Sa-
var ao forno para assar, besun- estatísticas. mira Tereza, de Vila Velha, ES: Por fa-
tando, de vez em quando, com vor, qual a frase correta? É necessário
mais margarina misturada com Adjetivo concorda com seu subs- muita atenção ou É necessária muita
mel.] tantivo – é lição elementar. Os subs- atenção ao atravessar a rua.
tantivos reuniões e anos, no caso dos
Do livro exemplos supracitados, levam os ad- As duas frases estão corretas. A segun-
jetivos antepostos a eles a flexionar da segue a forma erudita, da língua
“Cozinhando sem Mistério”, no feminino plural e masculino plu- -padrão, que corresponde ao modelo
ral, respectivamente. Dito em outra literário. A primeira é a frase corren-
de Léa Raemy Rangel ordem: reuniões foram necessárias temente usada na linguagem oral e
& e anos foram precisos. assim utilizada por subentender um
verbo no infinitivo, o qual aliás tam-
Maria Helena M. de Noronha Todavia, o uso consagrou um ou- bém pode vir explícito: É necessário
Ed. O Lutador, Belo Horizonte, MG tro tipo de concordância – neutra, di- ter muita atenção ao atravessar a rua.
gamos – quando o adjetivo precede
Pedidos o substantivo, ou mais especifica- Estabeleceram as gramáticas o
0800-940-2377 mente, quando a frase começa com seguinte critério para o uso da for-
livraria.olutador.org.br “é preciso, é necessário, é proibido” ma neutra “É preciso/ É necessário/
etc. Exemplo: É proibido” no início da frase: o subs-
[email protected] tantivo não pode estar determinado.
- É preciso uma ação emergen- Haveria uma diferença entre as duas
cial e, nesse caso, é crucial a lideran- construções abaixo, que é o fato de
ça do presidente. vir o substantivo precedido por um
artigo definido (ex. 1) ou não (ex. 2):
Está correto, é norma culta. Seria ar-
tificial para qualquer falante de por- 1) É necessária a paciência de um
tuguês brasileiro, mesmo os cultos monge para te aguentar!
(pessoas com formação universitária
completa), falar ou escrever “é preci- 2) É necessário paciência, meu
sa uma ação emergencial”. Nós até di- bem.
ríamos “é necessária uma ação emer-
gencial”, mas nunca “é precisa uma No primeiro caso – repito o que diz
ação / são precisas ações”. a gramática normativa – o adjetivo é
obrigado a flexionar no feminino por
Como é que os gramáticos jus- causa da determinação pelo artigo a.
tificam esse uso? Pelo entendimen- A questão é que mesmo aí se pode su-
to de que aí fica implícito um verbo bentender o infinitivo: É preciso [ter]
no infinitivo, em geral ter/haver, que a paciência de um monge, o que per-
agiria como oração subjetiva (sujei- mitiria manter o neutro “É preciso”.
to da oração “é preciso”). Nesse ca- Incoerência gramatical? O assunto
so, a oração principal mantém-se na continua na próxima semana.]

Fonte: língua Brasil

[ 42 • olutador [ setembro ] 2018

M oni q ue R oec k er L a z arin * Sociedade [ Um fato chocante...

A infância golpeada pelas políticas antimigratórias

Por trás da brutalidade nas jaulas infantis dos EUA há um fato chocante:
crianças já são mais da metade dos refugiados, em todo o mundo.

As imagens recentes de crian- Isso vale ao mundo adulto, não nos çada que penalizava tanto a família
ças migrantes detidas em um ar- esqueçamos de que havia muitos – e quanto as crianças.
mazém no Texas, nos EUA, de- eram a maioria – maiores de idade no
monstram uma face perversa da atual galpão do Texas. A criança que só sa- As crianças são cada vez mais alvos
política de controle das fronteiras no bia o K’iche [dialeto maia da Guate- de cuidado de políticas protecionistas,
governo de Donald Trump, e susci- mala] enquanto língua, não tinha re- seja na vertente do cuidado, seja na con-
tam um debate que sociólogos da in- cursos suficientes para se comunicar cepção de sujeitos de direitos; contudo,
fância há tempos se propõem a pen- com os agentes e falar de sua tia. Mas e ao mesmo tempo, os indicadores sociais
sar: a infância é um fenômeno social. a menina que sabia e inclusive tinha o apontam o grande impacto da desigual-
Isso significa, dentre muitas outras telefone de sua tia memorizado? Esta- dade em suas vidas. Assim, a contradi-
perspectivas, que ela tem variações vam todas na mesma situação; quan- ção na constituição da infância parece se
internas, a depender da conjuntura do o ideal era que, atendendo às suas aguçar na multiterritorialidade dos flu-
de que se fala. Infâncias, então pode- particularidades, estivessem sendo es- xos de pessoas intensificados na globali-
mos dizer. cutadas e seus interesses atendidos. zação e no capitalismo contemporâneo.

Ser preso e separado da família em Mas o Governo Trump, alegando Os números retratam tal realidade:
um contexto migratório certamente é política protetiva às crianças, torna os mais recentes dados divulgados pelo
um desses cenários que traz especifi- ainda mais difícil o percurso migrató- Alto Comissariado das Nações Unidas
cidades – trágicas, obviamente – à vi- rio dessas famílias. Importante lem- para Refugiados (19/06/18) – apontam
vência da criança. Mas, há tempos sa- brar o que estudiosos da infância le- que em 2017 os deslocamentos forçados
bemos das atrocidades cometidas con- vantam sobre os direitos das crianças: atingiram 68 milhões de pessoas, sendo
tra imigrantes na tentativa de fechar as são três Ps que os compõem (prote- que destas 53% são crianças. Esse nú-
fronteiras (seja nos Estados Unidos ou ção, provisão e participação). A pro- mero torna-se mais intrigante quando
na Europa). Se fossem adultos talvez visão ali era uma chacota cruel, visto tomado proporcionalmente em relação
Melanie Trump não se teria se pronun- que os relatos falam de sacos de ba- ao grupo geracional adulto em termos
ciado. O que faz com que a imagem tata frita e folhas de papel sendo uti- demográficos da população mundial:
da criança traga tamanha comoção? lizadas como cobertor! A participa- apesar de corresponderem a 1/3 da po-
ção, que é já geralmente a face mais pulação mundial, quando o recorte é fei-
A criança por vezes é vista como renegada de tais direitos – pelos mo- to em termos de migração de crise elas
um indivíduo de essência vazia, pela tivos de se considerar a criança en- são numericamente os maiores afetados.
qual se disputa o que inserir. Nesse ca- quanto sem entendimento do mun-
minho, é vista como ser inocente, ou do, e portanto, inepta a opinar – já era Assim, se diversos acordos interna-
incapaz. De fato, as crianças possuem barrada no próprio ato de detê-las, cionais há décadas vêm pautando os di-
particularidades que as tornam ainda sem levar em consideração suas fa- reitos das crianças, é preciso que se leve
mais vulneráveis. Mas aqui a questão é las e sua mais contundente expres- em consideração que a intensificação
que a vulnerabilidade, bem como seu são no áudio: o choro. A proteção, ou dos fluxos migratórios contemporâneos
acirramento, é sobretudo contextual: dita proteção, era na realidade ação tem sido um dos contextos de risco que
depende mais da situação social em de tortura, tentativa de coibir os flu- as atinge com intensidade e violação. É
que ela está colocada, do que das ca- xos migratórios: uma separação for- não é qualquer fluxo e qualquer crian-
racterísticas em si da criança. ça migrante que está nesse impasse –
olutador [ setembro ] 2018 • 43 ] voltamos a questão das diferenças den-
tro de tal grupo geracional. A seletivi-
dade social atinge também o universo
das crianças. Se as fronteiras são poro-
sas, há quem passe por elas, enquan-
to outras ficam literalmente engaiola-
das. Quem passa e quem fica? Por quê?

Se as crianças simbolizam o futuro
e, portanto, geram comoção, é preciso
que elas também passem a simbolizar a
igualdade. Nesse caminho, deixa-se de
pensar somente no futuro, para vê-las
como presente. Afinal, o choro causa-
do pela política de controle de frontei-
ras está acontecendo agora!]

* Socióloga e pesquisadora

na área da Infância e Migração.
Fonte: Justificando, apud Outras Mídias

Mundo [ Brasil...

v erena glass Mineração,

Em meados de maio deste ano, tão devastadora
cerca de 700 pessoas de 16 quanto ignorada
estados do país se reuniram
em Parauapebas, no sudes- em meados de maio de 2018 realizou nos Agricultores ou CIMI - Conselho
te do Pará, para discutir um seu I Encontro Nacional, reunindo em Indigenista Missionário, a base com
tema que, ao mesmo tempo que im- Parauapebas cerca de 700 pessoas – a qual o MAM pretende trabalhar é
pacta a vida de centenas de comuni- entre agricultores, quilombolas, ri- múltipla, diversa e, por vezes, anta-
dades e famílias, pouco espaço ocu- beirinhos, indígenas, trabalhadores, gônica. Como criar uma cultura in-
pa no imaginário do povo brasileiro: universitários e pesquisadores, além terna que possibilite lidar ao mesmo
a extração, o processamento, o trans- de representantes de movimentos da tempo com comunidades indígenas,
porte e os impactos da mineração. África do Sul, Colômbia, Equador e quilombolas, pescadoras, agriculto-
Para o grande público, a imagem Peru – de 16 estados (Piauí, Ceará, ras; com comunidades urbanas afe-
do que é mineração no Brasil possi- Bahia, Pernambuco, Amapá, Mara- tadas pelo (mal) (ab)uso das águas
velmente seja a mina de ferro de Ca- nhão, Tocantins, Pará, Minas Gerais, ou pela poluição gerada na extração
rajás (da Vale), a maior do mundo, Mato Grosso do Sul, Goiás, Distrito e no processamento siderúrgico dos
assentada pelos militares dos tem- Federal, Rio Grande do Sul, Espíri- minérios; com comunidades impac-
pos da ditadura, na região onde hoje to Santo, Rio de Janeiro e São Paulo). tadas pelas ferrovias ou minerodu-
cresce desordenadamente a cidade tos que escoam a produção minerá-
de Parauapebas. Desafios ria; com operários precarizados das
Mais recentemente, o pior crime Com o I Encontro Nacional do MAM minas; com trabalhadores terceiri-
ambiental da história do país, pro- na moldura, é possível visualizar um zados e ultraprecarizados; com ga-
tagonizado pela mesma Vale e pela quadro complexo que realça alguns rimpeiros artesanais e outros?
BHP Billiton, em Mariana, e que vi- dos grandes desafios que o movi-
timou fatalmente 19 pessoas, deixou mento enfrentará no seu processo Fabiano Bringel, professor da Uni-
morto o Rio Doce e afetou centenas de constituição como organização versidade do Estado do Pará, em Be-
de comunidades nos estados de Mi- social nacional. lém, exemplifica: no recente trans-
nas Gerais e Espírito Santo, causou bordamento da bacia de rejeitos da
comoção nacional. Principalmente Em primeiro lugar, diferente do multinacional Hydro, em Barcarena,
pela cortesia da impunidade dispen- MST (do qual se originou) ou de ou- PA, as comunidades afetadas exigi-
sada pelo Estado e pelo Judiciário aos tros movimentos da Via Campesina, ram das autoridades a paralisação da
réus. Mas poucos têm a consciência como o MPA - Movimento de Peque- mineração. Já os trabalhadores, sua
dos impactos mais amplos de Cara-
jás, ou de que ocorrências como a de [ 44 • olutador [ setembro ] 2018
Mariana se multiplicam país afora.
Com especial destaque à impunidade.
Um dos estados mais afetados pe-
las atividades minerárias no Brasil, o
Pará tem sido também um dos prin-
cipais palcos dos conflitos ligados ao
setor. Assim, foi na região do projeto
Grande Carajás que, há cerca de seis
anos, impulsionada inicialmente por
militantes do Movimento dos Traba-
lhadores Sem Terra - MST, nasceu uma
articulação chamada à época de Mo-
vimento dos Atingidos por Mineração
– MAM, com a bandeira de unificar as
lutas das vítimas da indústria minerária.
De lá para cá, o MAM se nacionalizou.
Mantendo a mesma sigla, mu-
dou o nome para Movimento pela
Soberania Popular na Mineração, e

continuidade. Como lidar com este resistir e propor uma alternativa. Há terá que criar uma fissura nesta re-
paradoxo? Como organizar catego- lugares onde devemos superar a mi- lação Estado-capital.
rias tão distintas em suas culturas e neração, há acúmulo de forças onde
relações com os territórios, ou on- isso é possível. Mas há lugares – co- Por outro lado, o MAM elegeu co-
de a dependência das empresas mi- mo Parauapebas – onde não conse- mo prioritárias duas pautas que dia-
neradoras parece insuperável e seus guimos evitar a mineração.” logam intimamente com a institucio-
impactos insuportáveis? nalidade estatal: a luta pelo aumento
“O que precisamos é organizar do valor da CFEM (Compensação Fi-
Outro desafio do movimento é a as forças sociais para dar outro nanceira pela Exploração de Recur-
regionalidade e a especificidade da destino ao que Carajás produz, sos Minerais, ou royalties da minera-
atividade minerária em território na- explica Trocate. Falar que somos ção, paga pelas empresas aos Muni-
cional. De acordo com Marcio Zonta, contra a mineração nos dificulta cípios (65%), aos estados e Distrito
coordenador do MAM em São Paulo, o diálogo com a sociedade. Ne- Federal (23%), e a órgãos da admi-
são extraídos e processados atualmen- nhuma sociedade vive sem mi- nistração direta da União (12%)) e o
te cerca de 80 produtos minerários neração, mas não pode ser de fim da Lei Kandir, que isenta de pa-
distintos em todo o país. Como atuar qualquer jeito, impactando tudo. gamento de ICMS produtos e servi-
frente às especificidades da minera- Temos que construir um pacto ços destinados à exportação.
ção de urânio na Bahia, de granito no com a sociedade brasileira. Nos-
Rio Grande do Sul, de ouro em Goiás so lema é: negar, superar e, on- Apesar de não haver nenhuma
ou de bauxita no Pará? Como lidar de não é possível, controlar do previsão legal de destinação dos ro-
com os garimpos de esmeralda no ponto de vista social e popular.” yalties arrecadados por estados e mu-
sertão baiano ou de diamantes e ou- nicípios a compensações ambientais
ro em terras indígenas no Alto Tapa- Segundo o dirigente, é importante ou sociais, saúde, educação ou outro
jós, PA? Como tratar dos impactos de frisar que este é o discurso de nasci- benefício à população afetada pela
guseiras, das novas e velhas ferrovias mento do MAM. “Espero que se ra- mineração, de acordo com a coorde-
para o escoamento, do mineroduto dicalize. Temos uma grande necessi- nação do MAM “lutar pelo aumento
entre Minas Gerais e Rio de Janeiro? dade de formação política, temos que da CFEM não deve ser um problema
avançar para além das denúncias [dos para nós, porque quanto mais alta a
Radicalidade moderada impactos], e temos que recolher a sa- taxa que uma empresa terá que pagar
bedoria popular para entendermos o ao poder público, menos ela quere-
Um elemento central para o MAM, que é soberania popular. O programa rá se instalar aqui. As empresas es-
amadurecido durante os seis anos do MAM não está pronto. O que te- tão entrando em qualquer lugar por-
em que o movimento buscou aglu- mos são as nuances que o comporão”. que não pagam tanto imposto”, ar-
tinar força política e reflexões sobre gumenta a direção do movimento.
o setor minerário no Brasil, explica O que está claro, no entanto, pon-
Charles Trocate, dirigente nacional e tua Trocate, é que as respostas ao con- “Estamos tentando construir um
fundador do MAM em Parauapebas, flito minerário e a base das resistên- pensamento crítico na sociedade so-
é não negar a mineração como prin- cias têm que estar vinculadas à deso- bre a mineração, resume Charles Tro-
cípio fundante. Nesse sentido, expli- bediência civil e não a um processo cate. Em muitos lugares nós vamos
ca, são três as orientações centrais do de burocratização e institucionaliza- construir o MAM, mas em outros, se
movimento: resistência à implanta- ção do movimento. “A desobediência ajudarmos a fazer com que a socieda-
ção de projetos em novos territórios civil deve ser a nossa marca. Temos de entenda que há um problema mi-
(o direito de dizer não à mineração), que desobedecer às leis do capital, neral em curso, já teremos cumprido
luta contra a expansão e pela supera- ao código da mineração, e temos que um papel importante. Nos próximo
ção da mineração onde a conjuntura desvincular as ações das comunida- período, de 2018 a 2021, temos que
permitir, e luta pelo controle social des da institucionalidade do Estado.” pensar na agroecologia como supe-
dos bens naturais minerários do país ração da mineração, formação polí-
– o que inclui participação social na De olho nos impostos tica como superação da mineração, e
discussão e elaboração das políticas O MAM tem adotado um discurso comunicação e massificação do co-
para o setor, na definição da aplica- profundamente crítico ao que enten- nhecimento sobre o conflito mine-
ção dos recursos gerados, e na defi- de como relação incestuosa do Es- rário”. E, claro, o aprofundamento
nição das formas, dos territórios e da tado e do poder público com o capi- dos esforços de nacionalização do
destinação da produção de minérios. tal, à atuação do Estado como conti- movimento. “Derrotar as resistên-
nuidade do empresariado minerá- cias é mais fácil se não estivermos
“Simplesmente dizer ‘não à mi- rio nos procedimentos de licencia- organizados”, complementa Marcio
neração’ não abarca a complexida- mento, nos processos legislativos e Zonta. “Em todo o país, há territórios
de dos setores com os quais o MAM na leniência com desvios e crimes onde as mineradoras ainda querem
dialoga. Há lugares em que é possível sociais e ambientais. Nesse sentido, entrar. Um saque enorme que ain-
negar a mineração e construir outras afirma Marcio Zonta, o movimento da está por vir. Portanto, onde hou-
formas de economia. Aí não pode- ver conflito com as mineradoras, va-
mos negociar mitigação, temos que olutador [ setembro ] 2018 • 45 ] mos incidir de forma nacional.” [...]]

Leigos [ Ir ao encontro do outro...

Os leigos Formação,
na política espiritualidade
e acompanhamento
Ro bson Ri beiro de Oli v eira Castro * O Documento 105 da CNBB recorda
que o caminho dos leigos e leigas na
AIgreja do Brasil, neste política deve ser direcionado para a
ano de 2018, nos apresenta sua participação na construção da so-
o Ano Nacional do Laicato, ciedade, segundo os critérios do Rei-
com o tema “Cristãos leigos no, quando três elementos são funda-
e leigas, sujeitos na Igreja em saída, a mentais: formação, espiritualidade e
acompanhamento (cf. nº 263).
serviço do Reino”. E nos coloca a refletir
Isto se torna fundamental, pois es-
sobre a importância do protagonismo tamos vivendo momentos de muita in-
segurança e tristeza ao ver a democra-
dos cristãos leigos e leigas na Igreja e cia em nosso país passar por tantas pro-
vações. O povo brasileiro necessita de
na sociedade. O lema deste ano - “Sal acompanhamento, por isso cabe a lei-
gos e leigas, engajados e nutridos pe-
da Terra e Luz do Mundo” - é do Evan- lo Espírito Santo, arregaçar as mangas
para que se faça uma reestruturação
gelho de Mateus 5,13-14. da sociedade, não deixando nunca a
proposta fundamental, que é o amor
Os desafios do mundo nos cobram ao próximo e o acolhimento aos me-
nos favorecidos.
uma grande participação na realidade
Ir ao encontro do outro e agir de
sociopolítica. Os cristãos, leigos e lei- forma missionária e evangélica, é as-
sumir para si a dor do outro. É impres-
gas, são chamados a assumirem a sua cindível que os cristãos atuem no mun-
do tendo por base os ensinamentos de
proposta de vida e ajudar na constru- Jesus Cristo. A ação do Cristão deve ser
pautada na ação de Cristo, e na Dou-
ção da sociedade do bem viver. Homens trina Social da Igreja.

e mulheres são convocados à partici- Cada cristão é chamado a ser su-
jeito eclesial, a assumir seu protago-
pação ativa e consciente na política, licos, em Bogotá (1º/12/2017), afir- nismo e atuar na Igreja e no mundo;
por isso é importante descobrir e dis-
buscando formar-se para uma vivên- ma que a política é, antes de qual- cernir os “sinais dos tempos”, para res-
ponder de maneira lúcida e coeren-
cia autenticamente cristã, frente aos quer coisa, um serviço; não é serva te às interrogações de cada geração,
às suas angústias e esperanças, ale-
desafios da sociedade atual. de ambições individuais, de prepo- grias e tristezas, que são as angústias
e esperanças, alegrias e tristezas dos
Com esta certeza, devemos obser- tência de facções e de centros de in- discípulos de Cristo. De fato, leigos
e leigas, integrantes do povo, devem
var que cristãos leigos e leigas têm a teresses. Não é possível pensar em participar ativamente das comuni-
dades e se envolver diretamente nas
missão de, no meio do povo, em so- ação política se não pensarmos co- organizações político-sociais. É im-
portante ressaltar que a sua partici-
ciedade, atuar de forma consciente e mo Cristo foi em sua época, um ho- pação é imprescindível na vida da
sociedade.]
pautar a vida em uma autêntica luta em mem que viveu peregrinando, aten-
* Leigo, casado,
prol do bem comum. É importante fri- to às necessidades dos mais frágeis, Mestre em Teologia,
E-mail: [email protected]
sar que leigos e leigas são imprescindí- denunciando os abusos das autori-

veis na realização do Reino de Deus e dades, além de se colocar sempre ao

sua atuação consciente se faz quando lado dos que mais sofriam.

assumem o seu protagonismo. Desta forma, como afirma o docu-

mento 105 da CNBB, nº 162, devemos

O verdadeiro poder é serviço ter uma participação consciente e de-

Francisco, em sua primeira homilia cisiva nos movimentos sociais e, prin-

após a sua eleição, afirma que qual- cipalmente, nos debates políticos, no

quer poder deve passar primeiramen- envolvimento partidário, baseando-

te pelo serviço: “Não esqueçamos ja- se as ações sempre na Doutrina Social

mais que o verdadeiro poder é o ser- da Igreja e na Sagrada Escritura: “Ti-

viço, e que o próprio Papa, para exer- ve fome e me destes de comer, tive se-

cer o poder, deve entrar sempre mais de e me destes de beber, era migrante

naquele serviço que tem o seu vértice e me acolhestes, estava nu e me ves-

luminoso na Cruz”. tistes, estava enfermo e me visitastes,

O Papa Francisco, em uma men- estava encarcerado e fostes ver-me”.

sagem no Encontro de Políticos Cató- (Mt 25,35-36.)

[ 46 • olutador [ setembro ] 2018

Missão [ Palavras sagradas...

Bíblia Sagrada AfricanaPe. Renato Dutra Borges, sdn
“Mazu vasonekosena vawahwima kuli Kalunga, kaha anawahilila kunangula,
nakuhuhumuna, nakwolola, nakulongesa kana cili mukwloka.” (2Tm 16)

“Na redação dos livros sagra- para que as pessoas creiam em Cristo Deste esforço nasceu a “Bíblia Sa-
dos, Deus escolheu homens, dos (cf. Jo 20,30-31), para ajudar os cristãos grada Africana”. Trata-se de uma Bíblia
quais se serviu fazendo-os usar a caminhar (cf. Sl 118,105), para nossa com linhas de estudo, oração e refle-
suas próprias faculdades e ca- instrução (cf. 1Cor 10,11). xão, conforme o desejo expresso pe-
pacidades a fim de que, agindo los bispos africanos.
Ele próprio neles e por eles, es- Ressurge uma esperança
crevessem, como verdadeiros Nos últimos tempos, a Igreja em África Existe um grande vazio na tradu-
autores, tudo e só aquilo que tem testemunhado o avanço de estu- ção da Bíblia católica nas línguas na-
Ele próprio quisesse.” (Dei Verbum, 11) dos bíblicos sérios no âmbito acadê- cionais africanas. Em Angola, todas as
mico. Trata-se de um ressurgimento traduções da Bíblia em língua nacio-
Para nós da Igreja do Brasil, da esperança no continente que, no nal são de origem protestante.
desde 1971, setembro tornou-se passado, nos deu intérpretes brilhan-
o Mês da Bíblia e, já desde 1947, tes da Sagrada Escritura, como Santo Realizamos nossos trabalhos de for-
o último domingo do mesmo mês é Agostinho e Santo Atanásio. mação bíblica e de lideranças usando
comemorado como o Dia da Bíblia. as traduções da Bíblia Sagrada Africana
Há grande riqueza cultural escon- católica em português, e as protestantes
Na Bíblia, é o próprio Deus que dida em cada povo ao redor do mun- nas línguas Luvale e Lunda Ndembo.
se revela a nós através de sua Palavra. do, e no continente africano não é di-
Por isso devemos “acolher a Palavra de ferente. Em 1995, o então Papa João Campanha de Bíblias
Deus, não como palavra humana, mas Paulo II, na Exortação pós-sinodal “Ec- No ano de 2013, fizemos uma gran-
como mensagem de Deus, o que ela é clesia in Africa”, fez o seguinte desafio: de campanha de doação de Bíblias.
de verdade. Ela é viva, eficaz, mais pe- “Respeitando, preservando e favore- Houve grande retorno; para nossa ale-
netrante do que uma espada de dois cendo os valores próprios e as rique- gria e maior ainda para nossas comu-
gumes e atinge até a divisão da alma e zas da herança cultural do vosso po- nidades e catequistas, conseguimos
do corpo, das juntas e medulas, e dis- vo, vós sereis capazes de guiá-lo para oferecer a cada catequista uma Bíblia
cerne os pensamentos e intenções do uma melhor compreensão do misté- na sua língua e outra Bíblia em por-
coração”. (Hb 4,12.) rio de Cristo, que deve ser vivido nas tuguês. (Esta campanha ainda vigo-
nobres, concretas e quotidianas expe- ra. Se você desejar contribuir, entre em
Além disso, “toda a Escritura é ins- riências da vida africana. Não se trata contato conosco.)
pirada por Deus, é útil para ensinar, de adulterar a Palavra de Deus ou de
para repreender, para corrigir e para esvaziar a Cruz do seu poder (cf. 1Cor São Jerônimo dirige uma exorta-
formar na justiça. Por ela, o homem de 1,17), mas antes de levar Cristo preci- ção a Eustóquio sobre seu desejo de ler
Deus se torna perfeito, capacitado pa- samente ao coração da vida africana a Palavra de Deus, o qual se mantinha
ra toda boa obra”. (2Tm 3,16.) Ela serve e de erguer até Cristo a vida africana por muito tempo em vigília, o que tam-
inteira. Assim, não só o cristianismo bém diz respeito a nós: “Lê muitas ve-
aparece importante para a África, mas zes e aprende tudo o que for possível.
o próprio Cristo, nos membros do seu Deixa que o sono te surpreenda en-
Corpo, é africano”. quanto estás a ler; quando caíres, as
tuas faces serão calorosamente rece-
bidas pelas páginas sagradas”.]

olutador [ setembro ] 2018 • 47 ]

WESLEy FIGUEIREDO* ADCE [ Por um mundo mais humano...

Revolução sões, os líderes confiam na expe-
digital riência. Assim, os seus valores e
e o bem crenças pessoais tornam-se ainda
comum mais cruciais para as suas tomadas
de decisão. As boas decisões de ne-
nEStE SÉCulO, mui- de negócios têm envolvido empresas gócios são baseadas em princípios
tas empresas já produ- de segmentos diferentes, mas com os fundamentais, como o respeito pe-
ziram inovações mara- mesmos ideais e metas. Hoje se bus- la dignidade humana a serviço do
vilhosas que impacta- ca a eficiência, mas com sustentabi- bem comum. A decisão precisa en-
ram significativamente lidade, prática pouco usual no passa- xergar a empresa como uma comu-
a sociedade. A tecnologia das comu- do. Os consumidores hoje estão cada nidade de pessoas.
nicações, por exemplo, possibilitou vez mais informados para exercerem
a conectividade em tempo real com pressão sobre negócios globais que Neste contexto, a partir de estu-
soluções e produtos a custos mais bai- não são adeptos das boas práticas de dos desenvolvidos pelo Conselho
xos e com espantosa velocidade. O mercado, como o respeito aos direi- Pontifício e Justiça e Paz do Vatica-
detalhe é que está velocidade origina tos humanos e ao meio ambiente. no, publicados em “A Vocação do Lí-
um volume, um excesso de informa- der Empresarial – Uma Reflexão”, a
ção, que acabam induzindo pessoas De “negativo”, podemos apon- ADCE busca incentivar os empresá-
a realizarem processos e tomar deci- tar a superinflação de informações, rios, dirigentes de empresas e jovens
sões precipitadas, causando impac- que agora são instantâneas, deixan- empreendedores a “Ver”, “Julgar” e
tos significativos, quer positivos, quer do pouco espaço e tempo para uma “Agir” numa perspectiva mais am-
negativos, na gestão dos negócios. análise racional e coerente dos fatos. pla, equilibrando os requisitos do
mundo dos negócios com os prin-
De “positivo”, podemos citar a in- Atualmente o urgente muitas cípios ético-sociais, preparando-os
teratividade baseada na Internet. Ela vezes se sobrepõe ao importan- para serem agentes transformado-
promove o desenvolvimento de no- te. Toda a mensagem torna-se res de uma nova ordem mundial,
vos produtos e soluções para proble- prioridade quando a comuni- em nova economia, que seja mais
mas antigos que vêm reduzindo cus- cação instantânea insiste em inclusiva e sustentável e na qual a
tos e operações, beneficiando desde ter a nossa atenção. Não temos prosperidade global esteja basea-
pessoas a empresas. Novos modelos tempo para decisões bem estu- da na dignidade do ser humano no
dadas e pensadas sobre maté- bem-estar de todos.
rias complexas. As decisões e
escolhas são crescentemente Elaborado pelo Conselho Pon-
tomadas sem a adequada ava- tifício de Justiça e Paz do Vaticano –
liação e debate. CPJP, sob coordenação do Cardeal
Peter K. A. Turkson, a publicação
Diante da dificuldade na pre- “A Vocação do Líder Empresarial –
paração e na explicação das deci- Uma Reflexão”, foi lançada no Bra-
sil (em Belo Horizonte) no dia 19 de
[ 48 • olutador [ setembro ] 2018 julho de 2013, durante Congresso
Mundial de Universidades Católi-
cas - CMUC.

Com o objetivo de formar, cons-
cientizar e disseminar a cultura dos
valores cristãos no meio empresa-
rial, a ADCE sempre se posiciona
acerca dos assuntos contemporâ-
neos que afetam a vida das pessoas,
e busca contribuir no debate de co-
mo as empresas e seus líderes po-
dem atuar, por meio do trabalho e da
sua participação ativa, para a cons-
trução de um mundo mais humano,
justo e fraterno.

Conheça mais sobre a ADCE no
site www.adcemg.org.br]


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