Igreja Hoje [ Somos todos Amazônia para a vida do planeta
ANO XC / Nº 3917
OUTUBRO / 2019
olut dor.org.br
R$ 9,90
Francisco Missionário
[ Proximidade e saída missionária [ Mês missionário
Síria Caixeta, apresentadora do Manhã da Piedade.
MANHÃ DA PIEDADE
CELEBRA O PRIMEIRO ANIVERSÁRIO!
Há um 1 ano, deixamos seu dia com mais VARIEDADES
informação, leveza e espiritualidade.
tvhorizonte.com.br tvhorizonteoficial (31) 3469-2549 App: Rede Catedral
Igreja Hoje [ Ambiente e direitos humanos no Sínodo para a Amazônia Espaço do Leitor [ Escreva, envie seu e-mail, comente
ANO XC / Nº 3916 Aniversariantes
SETEMBRO / 2019 do mês de outubro de 2019
olut dor.org.br Neste mês de outubro, nosso carinho para com
todos os missionários e missionárias que se
Crer na vidaR$9,90 dedicam a servir à vida e ao anúncio do Evan-
[ Rastros de um homem de Deus [ Cristo vive e conta com os jovens gelho. Que cada um de nós reforce ainda mais
a sua ação missionária na Igreja e na socieda-
Ó Trindade Santa, vós que sois a fonte de. Parabéns aos assinantes que fazem aniver-
de toda santidade, nós vos louvamos sário neste mês. Lembramos que, no dia 25 de
por vosso servo o Pe. Júlio Maria De Lombaerde, outubro, será celebrada uma missa especial em
que, assemelhando-se ao Cristo Eucarístico, ação de graças pela vida e missão de todos os
cuidou do vosso rebanho com amor, assinantes de O LUTADOR e de seus familiares,
zelo e doação. E, deixando-se guiar pelo de modo especial para os doentes e acamados.
Espírito Santo, assim como a Virgem Maria, O Celebrante do dia 25/10/2019 será o Pe. João
testemunhou a ternura missionária da Igreja. Lúcio Gomes Benfica, SDN. Deus abençoe a to-
Concedei-me, ó Trindade Santa, pela intercessão dos os nossos assinantes. (Caso seu nome não
do Pe. Júlio Maria, a graça que vos suplico apareça na lista, entre em contato com nos-
[pedir a graça]. E, se for de Vossa santa vontade, so setor de assinaturas: Fone 0800-940-2377.
dai que Pe. Júlio Maria alcance a honra E-mail: [email protected] )]
dos altares, para Vossa glória Dia 1º - ALCIDES GALLO / ANGELA VAZ LEAO / FREI DALVINO - FRATERNIDADE FRANCISCANA BOM JESUS / MARIA DA PENHA
e para o bem de tantas almas. FERREIRA LOURES / MARIA JOSE TOLEDO / MARLY OLIVEIRA NERY. / Dia 02 - RENATO ANGELO SANTOS / VILMA HIDEKO
Por Cristo, Nosso Senhor Amém. KAMINARI / ERIKA (FILHA). Dia 03 -JOSE DOS SANTOS SILVA / LAERCIO DA ROCHA RODRIGUES / PEDRO FRANCISCO
DOS SANTOS / SANDRA MARIA DE SOUZA / VALERIA OLIVEIRA NERI MARQUES. / Dia 04- GIL NEY PEREIRA DE CARVALHO /
CRISTINA A. SAMIA / LEDIANA APARECIDA ALVES FERREIRA / MARIA UZETE DA SILVA NUNES E FRANCISCO JUNIOR NUNES /
PADRE WALTER JOSE BRITO PINTO / STELA MARIA DE OLIVEIRA DIAS. Dia 05 - THEREZINHA DAS DORES PEREIRA / VALTER
JUSTINO DOS REIS. / Dia 06 - AMAURI DIAS DE MOURA(DIACONO) / ANGELINA ALVES ARAUJO / DILTON LUIZ DE ARAUJO
/ JOAO EVANGELISTA PIMENTEL / MARLENE LACERDA DE OLIVEIRA / RAYLA COSTA LANES SANTOS / ROQUE SCHNEIDER.
Dia 07 - ADELIA ANTUNES DE SOUZA / FLORIZA MARIA LOURENCO LUCAS / JULIA BERNABE BURKART / MARIA DE LOURDES
ODEBRECHT MASSARO / NADEGE CARVALHO. Dia 08 - ANTONIO ALVES E ROSILENE / ANTONIO CECHINATTI / CID SERGIO
FERREIRA / EBER JOSE GONCALVES / LUIZ SAITO / PAULO CESAR TEIXEIRA / VERISSIMO HENRIQUE DE ALBUQUERQUE.
Dia 09 - ARLETE DOS PASSOS CUSTODIO / JOAQUIM TEIXEIRA DE SOUZA / LAIRCE MARTA BASILIO / LUCAS EVANGELISTA
DE OLIVEIRA / MARINA DIAS DA SILVA MACIEL- EMM / PETRONILHA MOREIRA SILVA AGUIAR / VAGNO SOARES DA SILVA /
WANY ARAUJO / WOLBER DIAS DE OLIVEIRA. Dia 10 - GILDA GOMES FARIA MONTEIRO / JOAQUIM APARECIDO DE SOUZA /
SATTUTH ALCURE QUARTO. Dia 11 - ASSAD FERES / CLAUDIO LEMOS FONTELES / EDMIR JOSE DE GODOY / ELI CARNEIRO
RIBEIRO / MARIA DA GLORIA MARTINS CRUZ. / Dia 12 - AMERICA BORGES GRACIOSA / JOSE LEAO ROCHA / MARIA DE
LOURDES MIRANDA DO VALE / MARIA LIGIA CHALTEIN ALMEIDA RIBEIRO. Dia 13 - ARY COSTA FILHO / LUIZ TOMAZ DA SILVA
/ MARIA DO ROSARIO BENEVIDES DOS SANTOS. / Dia 14 – AMARINA OLIVEIRA GUIMARAES / DELIENE FERREIRA MOURA
DUARTE / LUIS TRILLO BLANCO / MARIA APARECIDA PEREIRA / MIGUEL RAIMUNDO / VALDIVINO JOSE ALVES/KATIA CRISTINA.
Dia 15 – CRISTINA VIEIRA DA SILVA MOREIRA / PADRE GERALDO CARVALHO DE ARAUJO / PE. WILSON AUGUSTO COSTA CABRAL,
SDN / SILVIO CLAUDIO RIOS NAVES. Dia 16 – AGUSTINHO MAURICI / CARLINDO LOPES DE ASSIS / DRA. DAYRA E. PENALBA
MACHADO / JOSE GERALDO DA CUNHA / MARIA REGINA MIRANDA / ROBERTO MAURICIO DA CUNHA / ROBERTO VIANA DE
MOURA / WILSON SOARES DA SILVA FILHO. Dia 17 – ANTONIO LEIDES DE RESENDE / BEATRIZ CAMPOS DE PAULO E CASTRO
/ BERNADETE LACERDA / CARLA APARECIDA SACRAMENTO REIS SOUZA / EDSON DE PAULA FONSECA / JESUS RODRIGUES
BRAGA / MARIA EDNA GUERRA SEMIM / TIBURCIO DELBIS. / Dia 18 – NORMA VALLE VERLANGIERI / WASHINGTON LUIZ LARA.
Dia 20 – JACINTO RODRIGUES DE OLIVEIRA// MARLI / MARIA FLORINDA RAMOS MARQUES PINA / PADRE JOSE RONNES DOS
SANTOS. Dia 21 - ERNANDES ANTONIO MACHADO / PAULO CORREA DE OLIVEIRA. Dia 22 – EDUARDO MENEZES LIMA- EMM /
FRANCISCO LUIS SOBRINHO / PROFESSOR DIACONO DIMAS FERREIRA LOPES. Dia 23 - DECIO DE CARVALHO MITRE / MARIA DE
LOURDES OTONI C.DE SOUZA / NELLY CLARET GARCIA. Dia 24 – IVONE IZAR CUNHA / MARIA DE LOURDES SOUZA MELO / MARIA
HELENA DOS SANTOS ARRUDA / WILLIAM VIEIRA ALBUQUERQUE. Dia 25 – ELAINE VASQUES REIS SILVA / GUILHERME TEIXEIRA
APOCALIPSE / MARCIA HELENA SILVA ROCHA / RAIMUNDA DA CONCEICAO OLIVEIRA. / Dia 26 – FREDERICO DE PAULA NETO /
MARIA DO ROSARIO AGUIAR / MARILIA MAGALHAES MARQUES / NEI FERNANDO DE ALMEIDA DIBO / THEREZINHA DE CARVALHO
COCKELL. Dia 27 – SANDRA MARIZA LEMOS SECCHI. / Dia 28 – ALEXANDRINA MARIA DO NASCIMENTO SOARES / CARLOS
ALBERTO DE MACEDO ROCHA / FERNANDO TEIXEIRA / JAIME TOLEDO PIZA/ MARIA AMÉLIA / JOANETE DE BACHER FERRI / JOSE
SIMIM FERNANDES / MARCIO ANDRADE LOPES / NEIMAR BORGES LEAL. Dia 30 – ELY NUNES BONIFACIO / JAIRO CABRAL JUNIOR
/ MARCUS URIAS BOTELHO / MARIA INES BELEM REZENDE FERREIRA / MARIA ZEFERINA PEREIRA - EM MEMORIA / PADRE ANDRE
COSTA SANTOS / PADRE TIAGO GONCALO DE OLIVEIRA, SJS / PEDRO PAULO SACCO. Dia 31 - AMELIA MARIA SILVA MARTINS /
LILIA GERALDA FERREIRA / LUCIA DE MATTOS SOUZA / OTAVIANO DOS SANTOS / ROBERTO LANNA / ULYSSES MARIO TASSINARI.
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1ª Assembléia do Conselho Diocesano de Leigos de Caratinga
NOS DIAS 9 E 10 DE AGOSTO, foi realizada no centro PRESIDENTE:
de pastoral Bom Pastor, na cidade de Manhua- Marcos Lopes Domingos (Tarumirim, MG)
çu, MG, Paróquia Bom Pastor, a 1° Assembleia do VICE-PRESIDENTE:
Conselho Nacional do Laicato do Brasil – Diocese de Ana Adriana da Silva (Ipanema, MG)
Caratinga, MG. SECRETARIO:
Marismélia Catarina Gomes de Oliveira (Manhuaçu, MG)
A Assembleia iniciou-se com a celebração euca- Secretario adjunto:
rística presidida pelo Pe. Patrício, Assessor Diocesa- Iara Lima Moura (Carangola, MG)
no do Laicato. Estavam presente 53 leigos e leigas, re- TESOUREIRO:
presentantes de todas as foranias da Diocese, que ti- Sebastião Antônio (Mutum, MG)
veram a oportunidade de conhecer um pouco mais TESOUREIRO ADJUNTO:
sobre as novas Diretrizes Gerais da Ação Evangeliza- Gilmar Alves dos Santos (Carangola, MG)
dora da igreja no Brasil – Documento da CNBB nº 109. CONSELHO FISCAL:
1º Giuliane Quintino Teixeira (Caratinga, MG)
Este estudo foi assessorado por Whelton Pimen- 2º Imaculada Aparecida Silva (Inhapim, MG)
tel de Freitas, vulgo Leleco Pimentel, membro da Co- 3º Jorge Luiz Pedro (Caputira, MG)
missão do Meio Ambiente da Arquidiocese de Maria- SUPLENTES:
na, MG, coordenador da Escola de Fé e Política Dom 1º Ivânia da Costa (Caputira, MG)
Luciano Mendes de Almeida. Também ajudou na as- 2º José Camilo Donato (Simonésia, MG)
sessoria a presidente do Conselho Nacional do Laica- 3º Marcos Rodrigues (Santa Rita, MG)
to do Brasil - Regional Leste II - Leci Conceição do Nas-
cimento, também de Mariana. Desejamos a este Conselho a força e a graça necessá-
rias para o fortalecimento e crescimento da caminhada
Esta 1ª Assembleia também foi momento oportu- dos leigos e leigas na Diocese. Que todos sejam verdadei-
no para a eleição do Conselho Nacional do Laicato do ro fermento, sal e luz na vida da Igreja e da sociedade.
Brasil - Diocese de Caratinga. A equipe foi constituída
com os seguintes membros: ALBA – REVISTA DIRETRIZES
[ Expediente [ Editorial
O LUTADOR é uma publicação mensal Uma barca no Amazonas
do Instituto dos Missionários
Sacramentinos de Nossa Senhora PEDRO conheceu Jesus de Nazaré ao lado de sua barca de pescador. De-
pois, seria promovido a pescador de homens. Ao longo dos séculos, a
olutador imagem da barca foi o símbolo da Igreja tendo o Papa como timoneiro.
ISSN 97719-83-42920-0 Estar com Pedro é uma exigência da unidade eclesial.
A história registra vários cismas, quando alguém decidiu aban-
Fundador donar a barca e separar-se de Pedro. Hoje, quando a Santa Sé ouve o cla-
Pe. Júlio Maria De Lombaerde mor dos bispos e comunidades da Amazônia e acolhe em seu seio o Sí-
nodo da Pan-Amazônia, ressurgem vozes dissonantes e acenam com
Superior Geral a ameaça de uma nova quebra da comunhão.
Pe. José Raimundo da Costa, sdn Ora, ainda que o Reino de Deus não seja deste mundo (cf. Jo 18,36),
o Evangelho de Jesus se dirige a pessoas e sociedades encarnadas, que
Diretor-Editor passam fome e sede, sentem frio e calor, e foi no meio de gente assim
Ir. Denilson Mariano da Silva, sdn que Jesus passou fazendo o bem. Quando a Igreja reconhece a impor-
tância (e a necessidade!) do Sínodo da Amazônia, ela revive os propósi-
Jornalista Responsável tos do Concílio, que afirmou: “As alegrias e as esperanças, as tristezas
Pe. Sebastião Sant’Ana, sdn (MG086063P) e as angústias dos homens de hoje, sobretudo dos pobres e de todos os
que sofrem, são também as alegrias e as esperanças, as tristezas e as
Redatores e Noticiaristas angústias dos discípulos de Cristo”. (Gaudium et Spes 1)
Pe. Marcos A. Alencar Duarte, sdn O Sínodo da Amazônia não brota de um grupo de acadêmicos
Pe. Sebastião Sant’Ana, sdn dedicados à sociologia, mas do sofrimento e das lágrimas de comuni-
Frt. Matheus R. Garbazza, sdn dades que ali vivem seu calvário. Conforme o “Instrumentum Laboris”
Frei Patrício Sciadini, ocd, Frei Vanildo Zugno, do Sínodo, “as comunidades consultadas salientaram também o vín-
Dom Paulo M. Peixoto, Antônio Carlos Santini culo entre a ameaça à vida biológica e à vida espiritual, ou seja, uma
e Dom Edson Oriolo ameaça integral. [...] Por exemplo, a destruição e contaminação natu-
ral atingem a produção, o acesso e a qualidade dos alimentos. E, nes-
Colaboradores te sentido, para cuidar responsavelmente da vida e do ‘bem viver’, é
Vários urgente enfrentar tais ameaças, agressões e indiferenças. O cuidado
da vida se opõe à cultura do descarte, da mentira, da exploração e da
Redação opressão. Ao mesmo tempo, supõe a oposição a uma visão insaciável
[email protected] do crescimento ilimitado, da idolatria do dinheiro, a um mundo des-
vinculado (de suas raízes, de seu contorno), a uma cultura de morte”.
Correspondência A convocação do Sínodo forneceu lenha para a fogueira ateada
Comentários sobre o conteúdo de olutador, por grupos conservadores que rotulam o Papa Francisco de “comunis-
sugestões e críticas: [email protected] ta”, dada a sua insistência em aspectos sociais do Evangelho. Ao regres-
Cartas: Praça Padre Júlio Maria, 01 / Planalto sar de sua recente viagem à África, Francisco afirmou que reza para que
CEP 31730-748 / Belo Horizonte, MG / Brasil não aconteça um cisma na Igreja, mas não tem medo disso.
É natural que Francisco incomode católicos acomodados em um
Assinaturas e Expedição estilo de vida satisfeito, mas indiferentes à dor do próximo, e se sin-
Maurilson Teixeira de Oliveira tam interpelados diante da lembrança da situação dos migrantes, dos
excluídos da sociedade e das vítimas do sistema, como no caso das po-
Assinaturas pulações amazônicas.
R$ 80,00 / Brasil - www.olutador.org.br De 6 a 27 de outubro, Roma acolhe os Padres sinodais que refle-
[email protected] tirão, à luz do Evangelho, a situação extrema que assola a Pan-Ama-
0800-940-2377 - De 2ª a 6ª das 7 às 19 horas zônia. É visível o mal-estar reinante entre grupos empresariais e cír-
culos do governo diante daquilo que lhes parece ser uma intromissão
Outros países em assuntos “temporais”. Esta reação apenas vem confirmar o valor e
R$ 80,00 + Porte a importância que ainda são atribuídos à Igreja e ao Papa, como as úl-
timas instâncias de resistência à invasão do capital e da ganância. A
Edições anteriores matéria de capa desta edição, assinada por Victor Codina, SJ, ilustra de
Tel.: 0800-940-2377 forma ampla e profunda a situação que estamos vivendo.
É nosso dever de fiéis sustentar com nossa oração os trabalhos
Site do Sínodo, crendo firmemente que a assistência do Espírito Santo tra-
revista.olutador.org.br rá surpresas e novas esperanças, muito além do que podem supor os
facebook.com/revistaolutador temores dos adversários e as esperanças de todos nós.
E isto é para começo de conversa...]
Projeto gráfico e diagramação [ANTÔNIO CARLOS SANTINI
Valdinei do Carmo / Orgânica Editorial
Revisão
Antônio Carlos Santini
Impressão e Acabamento
Gráfica e Editora O Lutador, Certificada – FSC®
Praça, Pe. Júlio Maria, 01 / Planalto
31730-748 / Belo Horizonte, MG / Brasil
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|S U M Á R I O OLUTADOR • REVISTA MENSAL • ANO XC • Nº 3917 • OUTUBRO • 2019 •
9Somos todos 6Adversários
Amazônia de Francisco,
para a vida adversários
do planeta da Igreja
10Alemanha: de Jesus
o êxodo 12Igreja Casa: 20 Thanos:
dos proximidade o mal vence o bem
fiéis e saída
missionária 22 Mês missionário
23 Fenômeno migratório
24 A confiança
14Ler dos antigos
e interpretar 25 Liturgia
a Bíblia
e encarnação do Verbo
26 Os pobres
de São Vicente
27 Milagres: entre a fraude
16O Sínodo
da Amazônia e a maravilha
e a Família 28 Crônica/Maria
30 Eu, porém, vos digo...
31 Roteiros Pastorais
43 ADCE/MG
44 Economia da rosquinha:
18Catequese uma proposta
e visitação para o século 21
46 O laicato e o exercício
do sacerdócio
47 Batizados e enviados
48 Capitalismo ilícito
VÍCTOR CODINA, SJ Igreja Hoje [ Não incomoda abraçar crianças edoentes,
INTRODUÇÃO HISTÓRICA Adversários
de Francisco,
ÃO É A PRIMEIRA VEZ, nem adversários da
é estranho que existam Igreja de Jesus
grupos dissidentes e opos-
tos na Igreja, desde Paulo, logos foram interrogados, admoes- rias, fundamentalistas e conservado-
tados, forçados a permanecer em si- ras, em momentos de uma reforma
Nque enfrentou Cefas-Pe- lêncio, alguns removidos de suas ca- eclesial que deseja retornar às fon-
dro na Antioquia (cf. Gl deiras e um até excomungado. tes evangélicas e ao estilo de Jesus.
2,14), até os dias atuais. Isto acontece
desde os primeiros concílios até os Vale a pena este preâmbulo his- Críticas a Francisco
dois últimos. No Concílio Vaticano I tórico para não nos surpreendermos Atualmente, existe um forte grupo
(1870) um grupo de bispos e teólogos com que, ainda hoje, diante da nova opositor à Igreja de Francisco: leigos,
era contra a definição de infalibili- imagem da Igreja proposta por Fran- teólogos, bispos e cardeais que gos-
dade papal. Alguns não aceitaram cisco, tenham surgido vozes discor- tariam de sua renúncia ou seu de-
o Concílio e se separaram de Roma, dantes e críticas fortemente contrá- saparecimento precoce, e esperam
dando origem aos chamados “Vete- rias ao seu pontificado. que um novo conclave altere o cur-
ro-católicos”. Outros, sem deixar a so da Igreja atual.
Igreja, não quiseram participar, nem Através do “vai e vem” da histó-
assistir à última votação conciliar ria, deduzimos que o tipo e a orien- Nós não queremos fazer uma in-
sobre a infalibilidade, e alguns de- tação da oposição dependem sem- vestigação socio-histórica aqui, mui-
les ficaram tão zangados, que joga- pre do momento histórico vivido: são to menos um show de mídia, tipo
ram todos os documentos concilia- vozes progressistas e proféticas em ocidental, entre o bem e o mal; en-
res no Rio Tibre. momentos de Cristandade clássica tão, preferimos não mencionar os
No tempo de Pio XII, quando em ou neocristandade, e vozes reacioná-
1950 o Papa publicou a encíclica Hu-
mani Generis contra a chamada Nova [6 OLUTADOR [ OUTUBRO 2019
Teologia, alguns teólogos jesuítas de
Fourvière-Lyon, como Henri de Lubac
e Jean Daniélou, e alguns teólogos
dominicanos de Le Saulchoir-Paris
foram dispensados de suas cadei-
ras, como Yves Congar e Dominique
Chénu. Então, todos eles foram de-
signados como especialistas teoló-
gicos por João XXIII no Vaticano II.
No Vaticano II, houve uma for-
te oposição liderada pelo bispo fran-
cês Marcel Lefèbvre, que rejeitou o
Concílio Vaticano II por considerá-lo
neomodernista e neoprotestante, e
acabou sendo excomungado por João
Paulo II, em 1988, quando começou
a ordenar bispos à margem de Ro-
ma, por meio de sua Fraternidade
São Pio X.
Paulo VI, após sua encíclica Hu-
manae Vitae de 1968, sobre o contro-
le de natalidade, recebeu a respos-
ta respeitosa de numerosas confe-
rências episcopais que, sem negar
os valores do conteúdo da encíclica,
exigiram maior complementação e
matização.
Durante os pontificados de João
Paulo II e Bento XVI, mais de 100 teó-
mas incomoda visitar Lampedusa e campos de refugiados e migrantes...
nomes e sobrenomes dos adversá- corresponde aos bispos e pastores da dizer que a Igreja é poliédrica (tem [▶
rios que hoje estão “esfolando vivo” Igreja. Newman retoma essa tradi- muitas faces) e acima de tudo é si-
Francisco, mas sim, detectar quais ção afirmando que, embora às ve- nodal, todos nós fazemos o mesmo
são as linhas teológicas de fundo sub- zes possa haver tensão entre as duas caminho juntos, devemos escutar e
jacentes a esta sistemática oposição cadeiras, finalmente há convergên- dialogar; irrita que em Episcopalis
a Francisco, para saber qual é o te- cia entre elas. Communio falem sobre a Igreja do
ma da controvérsia. Sínodo e a necessidade de nos escu-
Esta distinção se aplica a Fran- tarmos mutuamente uns aos outros.
As críticas a Francisco têm duas cisco que, embora como padre jesuí-
dimensões, uma teológica e outra ta Jorge Mario Bergoglio tenha es- Perturba os grupos conservado-
bastante sociopolítica, embora, co- tudado e ensinado teologia pasto- res que Francisco tenha agradecido
mo veremos mais adiante, muitas ral em San Miguel de Buenos Aires, a Gustavo Gutiérrez, Leonardo Boff,
vezes as duas linhas convirjam. agora seus pronunciamentos per- Jon Sobrino e José María Castillo por
tencem à cátedra pastoral do Bis- suas contribuições teológicas, e que
1. Crítica teológica po de Roma. Ele não tem a intenção tenha cancelado as suspensões “a di-
A crítica teológica baseia-se na con- de se sentar como em uma cadeira vinis” para Miguel d’Escoto e Ernes-
vicção de que Francisco não é um teológica, mas como pastor. Como to Cardenal; desagrada a alguns que
teólogo, mas que vem do Sul, do fim já foi dito com certo humor, deve- Hans Küng, dispensado de sua ca-
do mundo, e que essa falta de pro- mos partir do Bergoglio da história deira por Paulo VI sobre a infalibili-
fissionalismo teológico explica suas para o Francisco da fé. dade papal, tenha escrito a Francis-
imprecisões e até seus erros doutri- co sobre a necessidade de repensar a
nários. Essa falta de profissionalis- O que, enfim, incomoda infalibilidade, e Francisco lhe tenha
mo teológico de Francisco é contras- seus opositores é que sua respondido chamando-o de “queri-
tada com a competência acadêmica teologia parte da realida- do companheiro” [lieber Mitbruder],
de João Paulo II e, claro, Josef Ratzin- de, da realidade da injus- e que ele queria contar com suas ob-
ger-Bento XVI. tiça, pobreza e destruição servações e estava disposto a discu-
da natureza e da realidade tir a infalibilidade. E incomoda mui-
Essa falta de teologia de Francis- do clericalismo eclesial. to que Francisco tenha canonizado
co explicaria suas perigosas decla- Romero, o bispo mártir salvadore-
rações sobre a misericórdia de Deus Não incomoda abraçar crianças e nho, considerado por muitos como
em O Rosto da Misericórdia (VM), sua doentes, mas incomoda visitar Lam- um comunista e um idiota útil à es-
tendência e apoio para com os mo- pedusa e campos de refugiados e mi- querda, e cuja causa ficou bloquea-
vimentos populares e pobres e a pie- grantes como Lesbos; incomoda di- da durante anos.
dade popular como lugar teológico zer que não devemos construir mu-
em A Alegria do Evangelho (197-201); ros contra os refugiados, mas pon- Irrita dizer que não é ele quem
sua falta de teologia moral abrin- tes de diálogo e hospitalidade. É ir- julga os homossexuais, afirmar que
do a porta para os sacramentos da ritante que, seguindo João XXIII, ele a Igreja é feminina e que, se as mu-
penitência e eucaristia, em alguns diga que a Igreja deve ser pobre e dos lheres não forem ouvidas, a Igreja
casos e antes do discernimento pes- pobres, que os pastores devem ter o ficará empobrecida e parcial.
soal e eclesial, para casais de casais cheiro das ovelhas, que deve ser uma
católicos separados se casarem no- Igreja que sai para as margens e que Seu convite à misericórdia, uma
vamente, como aparece em uma no- os pobres são um lugar teológico. misericórdia que está no centro da
ta do oitavo capítulo de A Alegria do revelação bíblica, não o impede de
amor (AL 305, nota 351); sua peque- Irrita dizer que o clericalismo é falar de tolerância zero contra os
na competência científica e ecoló- a lepra da Igreja, e fazer a lista das 14 abusos de membros significativos
gica manifesta-se em sua encícli- tentações da Cúria do Vaticano, que da Igreja com menores e mulheres.
ca sobre o cuidado da casa comum vão desde a sensação essencial e ne- Um crime monstruoso, do qual de-
(Laudato Si´); e escandaliza sua ên- cessária ao desejo de riqueza, vida vemos pedir perdão a Deus e às víti-
fase excessiva na misericórdia divi- dupla e Alzheimer espiritual. E inco- mas, reconhecer o silêncio cúmpli-
na (Misericordiae Vultus), que abai- moda acrescentar que estas são tam- ce e culpado da hierarquia, buscar
xa a graça e a cruz de Jesus. bém tentações de dioceses, paróquias reparação, proteger os jovens e as
e comunidades religiosas. Irrita dizer crianças, impedir que isso aconte-
Diante desta acusação, gostaria que a Igreja tem que ser uma pirâmi- ça novamente. E sua mão não treme
de recordar uma afirmação clássi- de invertida, com os leigos acima, quando ele destitui de seus cargos
ca de Tomás de Aquino, que distin- e abaixo do Papa e dos bispos; irrita os culpados, seja ele cardeal, nún-
gue entre a cátedra de ensino, típi- cio, bispo ou presbítero.
ca dos teólogos professores das uni- OUTUBRO 2019 [ OLUTADOR]7
versidades, e a cátedra pastoral, que Obviamente, não é que Francis-
co não seja teólogo, mas a sua teolo-
Igreja Hoje [ Adversários de Francisco...
[▶ gia é pastoral, passando do dogma capazes de tomar resoluções cora- Basicamente, a oposição a Fran-
ao querigma, dos princípios teóri- josas (cf. LS 53-59). cisco é uma oposição ao Concílio Va-
cos ao discernimento pastoral e à ticano II e à reforma evangélica da
espiritualidade. Sua teologia não é E o anúncio do próximo sínodo Igreja que João XIII queria promo-
colonial, mas do Sul, e isso incomo- de outubro de 2019 sobre a Amazô- ver. Francisco está na linha de todos
da o Norte. nia, que é um exemplo concreto da os profetas que queriam reformar a
necessidade de proteger o meio am- Igreja, junto com Francisco de Assis,
2. Crítica sociopolítica biente e salvar grupos indígenas da Inácio de Loyola, Catarina de Sena
Diante daqueles que acusam Fran- Amazônia do genocídio, está come- e Teresa de Jesus, Angelo Roncalli,
cisco de ser do terceiro mundo e co- çando a incomodar. Alguns altos dig- Hélder Cámara, Dorothy Stang, Pe-
munista, deve-se afirmar que suas nitários eclesiásticos europeus dis- dro Arrupe, Ignacio Ellacuría e o no-
mensagens estão em perfeita con- seram que o Instrumentum laboris nagenário Bispo Casaldáliga.
tinuidade com a doutrina profética, ou o Documento Preparatório do Sí-
bíblica e social da Igreja. O que fere nodo é herético, panteísta e que nega Francisco ainda tem muitos assuntos
é sua clarividência profética: não a a necessidade de salvação em Cristo. pendentes para uma reforma evan-
uma economia de exclusão e desi- gélica da Igreja. Não sabemos qual
gualdade; não a uma economia que Outros comentaristas se concen- é, nem como será sua trajetória fu-
mata; não a uma economia sem ros- traram unicamente na sugestão de tura, nem o que acontecerá no pró-
to humano; não a um sistema social ordenar a homens casados indíge- ximo conclave.
e econômico injusto que se cristali- nas para celebrar a Eucaristia em
za em estruturas sociais injustas; partes remotas da Amazônia, mas Os Papas passam, mas o Senhor
não a uma globalização da indife- silenciaram totalmente a denúncia Jesus ainda está presente e incenti-
rença; não à idolatria do dinheiro; profética que este Documento Prepa- va a Igreja até o final dos séculos, o
não a um dinheiro que governa em ratório do Sínodo faz contra a des- mesmo Jesus que era considerado
vez de servir; não a uma desigualda- truição extrativa que se comete na um comilão e beberrão, amigo de pe-
de que gera violência; que ninguém Amazônia, e que é causa da pobreza cadores e prostitutas, endemoninha-
é protegido por Deus para justificar a e da exclusão dos povos indígenas, do, louco, desobediente e blasfemo. E
violência; não à insensibilidade so- provavelmente nunca tão ameaça- acreditamos que o Espírito do Senhor,
cial que nos anestesia diante do so- dos como agora. que desceu sobre a Igreja primitiva
frimento dos outros; não ao arma- no Pentecostes, nunca a abandona
mentismo e à indústria da guerra; Em conclusão e não permitirá que o pecado, a lon-
não ao tráfico de seres humanos; Sem dúvida há uma convergência go prazo, triunfe sobre a santidade.
não a qualquer forma de morte pro- entre crítica teológica e crítica so-
vocada (cf. EG 52-75). cial de Francisco. Os grupos reacio- E enquanto isso, como Francis-
nários eclesiais alinham-se com os co sempre pede, desde sua primei-
Francisco nada mais faz do que poderosos grupos econômicos e po- ra aparição na sacada de São Pedro
atualizar o mandamento de não ma- líticos, especialmente no Norte. Po- no Vaticano como bispo de Roma até
tar e defender o valor da vida hu- demos até perguntar se esta recente hoje, oramos ao Senhor por ele, pa-
mana, do começo ao fim, e repete a explosão de abuso sexual que afeta ra que não desfaleça sua esperan-
pergunta de Javé a Caim hoje: “On- diretamente a figura de Francisco, ça e confirme a fé de seus irmãos. E
de está o teu irmão?” que é tanto pastor reformista ecle- se não podemos orar ou não somos
siástico quanto líder mundial, tem crentes, desejamos pelo menos uma
Também incomoda a crítica ao sido pura casualidade e simples coin- boa onda.]
modo de pensar no qual o lucro e a cidência.
técnica aparecem no centro de tudo,
e que destrói a natureza, polui o meio [8 OLUTADOR [ OUTUBRO 2019
ambiente, ataca a biodiversidade e
exclui os pobres e os povos indíge-
nas de uma vida humana digna (cf.
LS 20-52). Irrita as multinacionais,
incomoda que critique as empresas
madeireiras, petrolíferas, hidrelétri-
cas e de mineração, que destroem o
meio ambiente, prejudicam os ín-
dios daquele território e ameaçam
o futuro de nossa Casa comum. Ir-
rita a crítica aos líderes políticos in-
Igreja Hoje [ Todos os biomas são essenciais para a vida...
MARCELO BARROS
Somos todos Amazônia para a vida do planeta
Amazônia, o desafio da Ecologia Integral e a missão das Igrejas na região
É fundamental a preservação humana. Essa relação de solidarie- zônicos, busca soluções integrais
Cada metro quadrado do bioma dade e amor como postura social e que unam os sistemas naturais e
Amazônia tem mais diversidade política tem sido chamada por es- a realidade social. A crise é uma só:
que qualquer outro lugar do pla- piritualidade como atitude antro- socioambiental. A solução exige a lu-
neta. Essa imensa diversidade de pológica, mais do que como expres- ta contra a pobreza e o cuidado com
vida garante ao seu povo alimen- são religiosa. Ela se fundamenta a natureza. Tudo está interligado.
tos, medicamentos, azeites e outras na cultura tradicional dos povos,
dádivas que nem se podem calcu- mas também em uma nova forma A grande variedade de povos
lar. O bioma regula a distribuição de olhar a Terra, as águas e toda a que habitam a Amazônia depende
de chuvas por todo o território bra- comunidade da Vida. de que se detenha o modelo de de-
sileiro e pelo Uruguai, Argentina e senvolvimento depredador. Os po-
Paraguai. A água em forma de va- Assim sendo, a Ecologia Inte- vos em sua sabedoria criaram sis-
por cria o que se chama “rios voado- gral implica diálogo entre a ecolo- temas produtivos rentáveis, sem
res”, levados pelos ventos até o sul. gia ambiental, econômica, social, derrubar a floresta (açaí, cupuaçu,
Assim, abastecem de chuva prati- cultural e da vida cotidiana. Consi- castanha, peixes etc.). O que destrói
camente todo o Brasil. dera os princípios éticos do bem o bioma é a monocultura (soja, ga-
comum e a justiça entre as gera- do, mineração). Também não ser-
Basta saber disso para nos dar- ções. Integra a justiça para escu- ve o chamado “capitalismo verde”,
mos conta de que assim como to- tar tanto o clamor da Terra, quan- que se rege pelas leis do mercado e
dos os biomas são essenciais para to o clamor dos pobres. transforma em mercadoria o que
a vida, a preservação e a defesa da a natureza nos dá de graça.
Amazônia é fundamental para o Conforme a carta do Papa Fran-
equilíbrio do clima de toda a Ter- cisco sobre o cuidado da casa comum O Mahatma Gandhi já dizia que
ra. A própria vida no planeta, mas (Laudato sii) e o pensamento de es- a terra, com suas florestas e suas
especialmente o clima em todo o tudiosos de todo o mundo, passar áreas verdes preservadas, é sufi-
Brasil depende da preservação da de uma compreensão convencio- cientemente grande e maternal
floresta amazônica e do cuidado nal de ecologia para a vivência da para alimentar toda a humanida-
com seu bioma frágil. ecologia integral implica conver- de, mas nunca bastará para saciar
são para assumir que tudo está re- a ambição da pequena porção de
Quando o lucro é colocado acima lacionado (LS, 216- 221). Esse modo seres humanos que faz do lucro e
de tudo, a sanha de destruir a natu- de compreender a vida, baseado na da ganância a sua divindade. Pa-
reza fica incontrolável. A terra, as sabedoria ancestral dos povos ama- ra quem é cristão, o Evangelho ad-
águas e a floresta se tornam merca- verte: “Não podeis servir a Deus e
dorias a serem vendidas e compra- OUTUBRO 2019 [ OLUTADOR]9 ao dinheiro”. (Mt 6,24.)]
das de acordo com a conveniência
econômica dos seus pretensos prio- Fonte: Amerindiaenlared
ritários. De acordo com estatísticas
confiáveis, nos últimos dois anos,
a destruição da floresta amazôni-
ca aumentou desordenadamente.
Por uma ecologia integral
A ecologia integral não trata só do
ambiente, da fauna e da flora. É um
olhar holístico sobre as relações em
nossa casa comum. Ecologia inte-
gral é uma forma de compreender
a vida. Envolve pensamento, po-
lítica, programa educativo, estilo
de vida e amorosidade na relação
com a natureza e com a sociedade
Igreja Hoje [ Até agora tem faltado frequentemente às Igrejas a coragem
E FATO, a situação en- Alemanha:
volve toda a socieda- EM 2018, 200 MIL
de cristã. Segundo da-
dos da Conferência da avaliação que poderão ser discu- rior ao dos que tomam essa decisão
dos Bispos da Alema- tidos na reunião em Münster. Os re- em qualquer outro momento da vi-
sultados não serão muito diferentes da, escrevem os autores do estudo.
Dnha, 430 mil católicos e das experiências de outras regiões.
protestantes cortaram Dos 4.300 católicos que deixa-
os vínculos com suas Um ponto importante surpreen- ram a diocese de Essen em 2016, 40%
respectivas Igrejas em 2018: a Igreja deu os pesquisadores em sua análi- pertencia à faixa etária entre 23 e
Católica perdeu 216.078 membros, se: o dinheiro, ou seja, a taxa para a 35 anos. Claro que também incide
enquanto nas Igrejas protestantes a Igreja, não é a principal razão pela o nível de salário: quem de repen-
perda foi de cerca 220 mil membros. qual as pessoas se afastam da Igre- te se dá conta de que precisa pagar
Na Alemanha, os católicos so- ja, mas um conjunto de motivações algumas centenas de euros para
mam 23.002.128, ou seja, 27,7% da de natureza e conteúdo pessoais: a Igreja, avalia antes os custos o e
população alemã. As estatísticas fa- a moral representada pela Igreja benefícios. De acordo com os pes-
lam de uma Igreja que, nas 27 dio- já não corresponde mais à concep- quisadores, no entanto, o dinheiro
ceses e arquidioceses em que está ção do mundo das pessoas, e a ar- é apenas o último empurrão.
subdividido o país, conta com 10.045 rogância dos eclesiásticos de alto
paróquias (em 2017, eram 10.191). nível incomoda há bastante tempo. Os escândalos
Os sacerdotes são 13.285 (13.560 e a sensação de alienação
no ano anterior), dos quais 6.672 De acordo com os autores do estu- Um total de 10% dos entrevistados
são diocesanos. Para auxiliá-los no do, também a pertença à Igreja hoje é indicou como motivo do abando-
ministério pastoral, existem 3.327 considerada do ponto de vista da re- no os numerosos casos de abusos
diáconos permanentes (mais 19 do lação custo-benefício. Muitos ex-ca- sexuais ou o escândalo de gastos
que em 2017), 3.273 assistentes pas- tólicos estariam dispostos a pagar os absurdos para a residência do ex-
torais (dos quais 1.495 são mulheres impostos para a Igreja se padres e bis- bispo de Limburg, Tebartz Franz-Pe-
e 1.778 homens) e 4.537 assistentes pos oferecessem a eles algo diferente. ter-van Elst. Na avaliação dos es-
de comunidades. Já os religiosos são cândalos dentro da Igreja, os pes-
3.668 religiosos e as religiosas 14.357. As razões para o abandono mais quisadores notaram uma mudan-
Segundo informa o portal Vati- importante pode ser resumidas ça: o desejo de transparência e de
can News, o número daqueles que nestes quatro pontos: um momento renovação tornou-se mais forte. Os
decidiram “deixar” a Igreja foram específico da vida, os escânda- escândalos não seriam mais visto
216.078 pessoas em 2018, contra as los, o sentimento de alienação, como indicadores do atraso da Igre-
167.504 no ano anterior. a própria concepção do mundo. ja e relativizados. Isso teria como
possível consequência a escolha de
Por que eles estão saindo? Um momento específico na vida sair de uma Igreja que não é mais
Reportagem de Fabian Klask e Han- Faculdade, primeiro emprego, pri- vista como íntegra, mas repetida-
nes Leitlein, publicada pelo periódi- meira progressão na carreira ou pri- mente manchada por escândalos.
co Zeit [16/02/2018], informa que pe- meiro insucesso no trabalho, casa-
la primeira vez uma pesquisa tenta mento, filhos. A fase que os sociólogos Após as taxas caras, a razão mais
entrar nos detalhes das motivações definem como “hora do rush da vida” citada para o abandono é a falta de
dos “infiéis”. E, surpreendentemen- é emocionante, porque justamente laços emocionais e práticos com a
te, resulta que não é a taxa paga pa- nela acontecem, ao mesmo tempo, Igreja, muitas vezes combinados
ra a Igreja a principal motivação. muitas coisas. E para a relação com com dúvidas pessoais sobre a fé ou
a Igreja é uma fase particularmen- para a motivação de querer sepa-
A diocese de Essen - há décadas te crítica: no momento do planeja- rar a fé pessoal da pertença à Igreja.
abaladas pela queda do número de mento da própria carreira e família,
fiéis e por dificuldades financeiras o número daqueles que escolhem Também a imagem da mulher,
- decidiu fazer uma séria consulta: não ser membros da Igreja é supe- o celibato, a atitude em relação à
através de uma iniciativa não conven- homossexualidade – ou seja, as tra-
cional, a diocese encomendou uma [10 OLUTADOR [ OUTUBRO 2019
pesquisa a um grupo de estudiosos de
diferentes faculdades teológicas. Em
seguida, alguns meses antes do Ka-
tholikentag, apresentou os resultados
de uma narrativa forte que desperte o interesse na opinião pública...
o êxodo dos fiéis
CATÓLICOS ABANDONARAM A IGREJA
dicionais linhas de ruptura entre a Um grande número de fiéis é ape- não é suficientemente tradicional,
sociedade liberal e a doutrina moral nas formalmente parte da Igreja. Não suficientemente espiritual. O conselho
católica, estão entre as principais ra- participam nunca ou só muito rara- é, portanto, sugerir para essa “me-
zões indicadas para a saída da Igreja. mente na missa, não conhecem seu ta” ofertas específicas, como formar
pároco. Até mesmo um mínimo de o pessoal e construir credibilidade.
Mas o que emerge da análise atenção poderia ajudar a fortalecer o
das razões não dá elementos para vínculo. Concretamente: acolher os Muitas pessoas deixaram a Igre-
uma mudança de atitude. recém-chegados com uma carta, ou ja por causa de decepções pessoais
aproveitar a ocasião dos funerais ou pela atitude pastoral, algo que pode-
O que poderia ser mudado? batismos para entrar em diálogo. A ria ser evitado com um melhor pla-
Os autores do estudo recomendam Igreja deveria estar presente nos luga- nejamento e formação do pessoal.
os seguintes primeiros passos pa- res que são importantes para as famí-
ra refrear, de alguma forma, a ten- lias jovens, tais como as escolas pri- Até agora tem faltado frequen-
dência de saída: transmitir a men- márias, creches e escolas maternais. temente às Igrejas a coragem de
sagem, criar entes de contato para uma narrativa forte que desperte
reclamações, entrar em contato e Cuidar da tradição o interesse na opinião pública. Os
dialogar, cuidar da tradição, formar Uma coisa que surpreendeu os pes- pesquisadores, portanto, aconse-
o pessoal, construir credibilidade. quisadores é que, para alguns, a Igreja lham os bispos a posicionarem-se
mais como figuras significativas
Considerando que a moral (sexual) OUTUBRO 2019 [ OLUTADOR]11 de sua região.]
católica dificilmente pode ser supe-
rada, os pesquisadores recomendam
uma atitude mais ofensiva. As posi-
ções sobre a homossexualidade e os
divorciados recasados devem ser for-
muladas de uma maneira tão clara e
compreensível, que também os leigos
possam apresentá-las. Além disso,
não deveriam ser propostas apenas
proibições, mas apresentar o valor da
moral. Em um mundo pluralista, tais
posicionamentos poderiam não ser
compartilhados por todos, mas es-
clareceriam a linha da Igreja, na es-
perança de que, explicando franca-
mente a própria atitude, se angarie
pelo menos o respeito das pessoas.
De acordo com as pesquisas, a saí-
da da Igreja é uma decisão bem pon-
derada, no final de um longo processo.
Esse último passo poderia ser evitado,
dizem os pesquisadores. Por exemplo,
se houvesse um lugar para entrar em
contato para reclamações, que pode-
ria fornecer melhores orientações.
Com boas experiências, os momentos
negativos poderiam ser superados.
Igreja Hoje [ São muitos os desafios para sermos
PE. RODRIGO FERREIRA DA COSTA, SDN*
Igreja Casa:PROXIMIDADE
ACASA é o espaço do encontro
e do convívio. É o lar onde ce, como um homem fala com seu julgá-los, mas para acolher, cui-
encontramos espaço pa- amigo (cf. Ex 33,11). Um Deus que vê e dar e apresentar-lhes o rosto mi-
ra a interioridade, para a ouve o grito dos oprimidos (cf. Ex 3,7- sericordioso do Pai.
intimidade, e em torno da 8), que caminha com seu povo, que o
qual o mundo se constrói. Não so- sustenta com o pão do céu e cumpre Desta forma, a comunidade de
mos seres jogados no mundo. Nas- as suas promessas... Um Deus que discípulos missionários precisa estar
cemos e fomos acolhidos num lar, mora no meio do povo (cf. Lv 26,11). sensível às dores e angústias, alegrias
numa casa de família, e vamos ao e esperanças do povo, pois “o Evan-
mundo a partir da casa, e o mun- O ambiente da casa exerce um gelho convida-nos sempre a abra-
do é o mundo em torno à casa. Este papel central em sua atividade mis- çar o risco do encontro com o rosto
ponto de referência não nos deixa sionária de Jesus. Não se trata só do outro, com a sua presença física
perder-nos na imensidão anôni- da casa de tijolos nem só da famí- que interpela, com os seus sofrimen-
ma do mundo. lia, mas sobretudo da comunida- tos e suas reivindicações, com a sua
de. Durante os três anos em que an- alegria contagiosa permanecendo
Nossa primeira casa é o ventre dou pela Galileia, ele visitou as pes- lado a lado [...]. Na sua encarnação,
de nossa mãe. Este “ventre que nos soas. Entrou na casa de Pedro (cf. o Filho de Deus convidou-nos à re-
abriga é a primeira ‘escola’ de co- Mt 8,14), de Mateus (cf. Mt 9,10), de volução da ternura”. (EG, 88.) Daí a
municação, feita de escuta e contato Zaqueu (cf. Lc 19,5), entre outros. O necessidade de uma Igreja que se faz
corporal, onde começamos a fami- povo procurava Jesus na sua casa próxima dos pobres e marginaliza-
liarizar-nos com o mundo exterior (cf. Mt 9,28; Mc 1,33). Quando ia a Je- dos, que ousa tocar as chagas do Se-
num ambiente protegido e ao som rusalém, Jesus parava em Betânia, nhor na miséria humana, na carne
tranquilizador do pulsar do coração na casa de Marta, Maria e Lázaro (cf. sofredora dos outros, pois para Jesus
da mãe”. (Papa Francisco). A casa Jo 11,3). Ao enviar os discípulos, deu- o amor salvífico de Deus sempre pre-
é esse “ventre” feito de pessoas di- lhes a missão de entrar nas casas cede a obrigação moral e religiosa.
ferentes inter-relacionando-se. A do povo e levar a paz (cf. Mt 10,12-14).
casa é, portanto, imagem da pro- Igreja nas casas
ximidade, do convívio, do abraço, Em Jesus Cristo, a Pala- A Igreja sempre teve consciência de
do encontro de “corpos” que se to- vra eterna do Pai que es- ser uma comunidade de irmãos (as)
cam e que exultam pela presença tava voltada para Deus se reunidos (as) em nome do Pai e do
do outro (cf. Lc 1,39-56)... Nessa tra- fez carne e armou a sua Filho e do Espírito Santo para viver
ma das relações, damo-nos conta tenda entre nós (cf. Jo 1,1.14). a caridade e proclamar o Reinado
de que só vivemos e sobrevivemos de Deus. Os primeiros seguidores
se estivermos ligados, vinculados, Ele é o Emanuel, Deus conos- de Jesus de Nazaré que se uniam
conectados a outrem. co. Por isso, Jesus sempre se fez aos apóstolos formavam a comu-
próximo das pessoas: no diálogo nidade dos próximos, irmãos entre
Tomar a imagem da casa para com a mulher samaritana à bei- irmãos (cf. At 2,42-47).
pensar a mística pastoral de nossas ra do poço (cf. Jo 4,4-42); sentando-
comunidades eclesiais missionárias se à mesa com publicanos (cf. Mt A proximidade da Igreja é, pois,
é mais do que propor um método 9,10-13), enchendo-se de compai- essencial à evangelização. Sem ex-
pastoral; é, na verdade, uma espi- xão pela multidão faminta e dis- periência afetiva e efetiva de co-
ritualidade que diz respeito ao mo- persa porque não tinha pastor (cf. munidade não há verdadeira vi-
do da Igreja ser, a saber: uma Igreja Mc 6,34), no trato com seus dis- vência da fé cristã. Na comunidade
próxima, uma Igreja solidária e mi- cípulos chamando-os de amigos crescem as relações interpessoais,
sericordiosa, uma Igreja em saída. (cf. Jo 15,15); ensinando os discí- a fé, o aprofundamento da Palavra
pulos a rezarem chamando Deus de Deus, a participação na Eucaris-
O lugar da casa na atividade de Pai (cf. Mt 5,5-15). Nestes e em tia, a comunhão fraterna entre os
missionária de Jesus outros exemplos, encontramos Je- irmãos, além de firmar as bases
O povo de Deus sempre se alegrou sus junto do povo, principalmente do compromisso com a justiça so-
por ter um Deus próximo, que fala- dos pobres e pecadores, não para cial e a defesa da vida (cf. DAp. 309).
va com Moisés, seu servo, face a fa-
[12 OLUTADOR [ OUTUBRO 2019 No dia do nosso Batismo, fo-
mos acolhidos em nossa nova casa,
essa Igreja Casa, principalmente num contexto de cultura urbana...
E SAÍDAMISSIONÁRIA tes do Eterno nosso Deus. A hospi-
talidade é, ao mesmo tempo, uma
nova família, a comunidade de fé. do abraço, do perdão e da festa e se resposta ética ao outro e uma ex-
Nessa família cristã aprendemos unem no compromisso missioná- pressão da fé que acolhe a Deus que
a dar os nossos primeiros passos rio de ir ao encontro das “ovelhas passa e se passa no rosto do outro.
na fé. A Igreja é, pois, “colo de mãe” perdidas”, fazendo-se próximas das
que acolhe, afaga, cuida... e se dei- periferias humanas e geográficas... A Igreja “casa” precisa ser uma
xa interpelar pelos caídos à beira do “Trata-se de aprender a descobrir comunidade hospitaleira, sempre
caminho (cf. Lc 10,25-37). “A Igreja é Jesus no rosto dos outros, na sua de portas abertas para acolher tan-
mãe, e nem você nem eu conhece- voz, nas suas reivindicações” (EG, tas pessoas com suas vidas can-
mos uma mãe por correspondên- 91), pois se perdemos o contato ter- sadas e fadigosas, porque “a Igre-
cia. A mãe… dá carinho, toca, bei- no com os rostos desfigurados de ja não é uma alfândega; é a casa
ja, ama. Quando a Igreja, ocupada Cristo no mundo, corremos o risco paterna, onde há lugar para todos
com mil coisas, se descuida dessa de cair numa evangelização dou- com a sua vida fadigosa” (EG, 47.)
proximidade e só se comunica com trinária, ideológica, sem o perfu- Como o próprio Cristo que convida:
documentos, é como uma mãe que me do Evangelho. “Vinde a mim, todos vós que estais
se comunica com seu filho por car- cansados e carregados de fardo, e
ta.” (Papa Francisco) Igreja, casa de portas abertas eu vos darei descanso” (Mt 11,28),
para acolher e sair ao encontro neste sentido “a Igreja no Brasil, em
Num contexto de cultura urba- Quando lemos o Livro do Gênesis sua ação evangelizadora, assume
na, no qual as pessoas vivem cada (18,1-10), contemplamos a bela cena o compromisso de formar comu-
vez mais isoladas, “invisíveis” no da visita de Deus a casa de Abraão. nidades que vivam como Casa da
meio da multidão, sem “rosto” e sem Deus apareceu a Abraão ao mesmo Palavra, do Pão, da Caridade e da
“nome”, faz-se necessário investir tempo em que os três viajantes. É a Ação Missionária. Nelas, as pes-
em pequenas comunidades eclesiais Deus que Abraão dizia: “Não passe, soas, movidas pelo Amor da Trin-
missionárias que olham no rosto, SENHOR, diante de teu servidor. Es- dade Santa, vivenciem e testemu-
chamam pelo nome, sentem as do- pera que eu receba os três viajan- nhem a comunhão fraterna, como
res e se alegram com as conquis- tes”, porque os viajantes, cansados família, entre amigos, irmãos na
tas do seu povo. Comunidades que pelo calor e pela sede, passam an- fé, companheiros de jornada nas
vivam a experiência do encontro, estradas da vida, peregrinando
OUTUBRO 2019 [ OLUTADOR]13 rumo à Pátria Definitiva”. (DGAE,
2019-2023, 129.)
São muitos os desafios para ser-
mos essa Igreja Casa, principalmen-
te num contexto de cultura urba-
na, na qual predominam o indivi-
dualismo, o indiferentismo, a vio-
lência e a exclusão. É preciso cora-
gem e ousadia para fazer uma pro-
funda conversão pastoral em nos-
sas comunidades paroquiais; esta
conversão implica na formação de
pequenas comunidades que vivam
a experiência da proximidade, do
encontro, do cuidado e da respon-
sabilidade com o outro. Comuni-
dades que se nutrem da Palavra de
Deus, se fortalecem no Pão, teste-
munham a Caridade e saem apres-
sadamente em missão.]
* Pe. Rodrigo, SDN, é licenciado em Filoso-
fia, bacharel em Teologia, com especializa-
ção em formação para Seminários e Casa de
Formação. Mora atualmente na paróquia São
Bernardo, Belo Horizonte, MG.
ELÍLIO DE FARIA MATOS JÚNIOR* Bíblia [ Bíblia não caiu do céu, mas foi sendo
MA das mudanças mais im- Ler e interpretar
Upactantes que o cristianismo a Bíblia
católico sofreu no século XX
esteve relacionada à aceita- versos autores e com diversos es- texto. Compreendeu-se, na verdade,
ção de uma nova maneira tilos de linguagem. que o texto nasce do chão da vida do
de ler e interpretar a Bíblia. Povo de Deus. Aliás, devemos falar
Essa mudança só não foi mais evi- Deus fala pela Bíblia? Fala. Mas de textos, no plural, já que a Bíblia
dente porque não chegou ao povo não fala como alguém que dita um
em geral, restringindo-se a espe-
cialistas e a quem se tem mostra- [14 OLUTADOR [ OUTUBRO 2019
do mais curioso ou investigativo.
O documento que assinala a novi-
dade é a encíclica de Pio XII – Divi-
no Afflante Spiritu, de 1943.
Os protestantes liberais, desde
o século XVIII, já haviam tomado a
Bíblia como um texto antigo apli-
cando-lhe o instrumental “profa-
no” de análise que era usado pa-
ra textos antigos similares. Aliás,
já Espinosa, no século XVII, volta-
ra sua atenção para o que podería-
mos chamar de “aspecto humano”
da Bíblia.
A Igreja Católica, por causa da
veneranda doutrina da inspiração e
infalibilidade da Bíblia, mostrou-se
receosa em relação aos novos mo-
dos de abordagem dos textos sa-
grados. A Bíblia não é Palavra de
Deus? Como então aplicar à Palavra
de Deus um instrumental de análi-
se que tem a pretensão de fazer ver
como o texto nasceu e se constituiu
– tudo num ambiente fundamen-
talmente humano?
O Papa Pio XII, com a referida
encíclica, deu liberdade aos católi-
cos para valer-se do instrumental
profano – arqueologia, paleonto-
logia, história comparada das reli-
giões, linguística... – no estudo dos
textos sacros. O que mudou?
Para a Igreja Católica, a Bíblia
continuou sendo a Palavra de Deus
inspirada e sem erro. No entanto,
desfez-se a impressão que muitos
carregavam consigo de que essa Pa-
lavra tivesse como que caído pronta
do céu, ou mesmo tivesse sido di-
tada diretamente por Deus. O ele-
mento humano da Palavra foi evi-
denciado. A Bíblia não caiu do céu,
mas foi sendo constituída por di-
constituída por diversos autores e com diversos estilos de linguagem...
to) marcaram a consciência do Po- SUBSÍDIO
vo de Deus, que neles viram a ação para o Mês
salvadora de Deus. da Bíblia 2019
A Bíblia, assim, é testemunho de uma Neste ano a Conferência Nacio-
Aliança com Deus e, ao mesmo tempo, nal dos Bispos do Brasil – CNBB
o fundamento da perpetuação dessa – nos convida à leitura e ao estudo
Aliança — o fundamento de um culto, da 1ª Carta de João com o tema: “Pa-
de uma doutrina e de uma esperança. ra que n’Ele nossos povos tenham vi-
da”. O lema é “Nós amamos porque
é uma coleção de textos de diver- A Bíblia não é a primeira causa Deus primeiro nos amou” (1Jo 4,19).
sas épocas, de diversos gêneros li- da fé do povo, mas é o grande fru- O amor é resumo da Boa Nova de Je-
terários e com diversas finalidades. to dessa fé que reconhece a ação de sus e, de fato, ocupa um espaço cen-
Deus. Outrossim, é o fundamento tral na 1ª Carta de João. Para quem se
O que garante a ligação da Bíblia da fé de gerações que haveriam de coloca no seguimento de Jesus, ela é
com Deus a ponto de poder ser cha- vir e como que herdar a experiên- um convite especial para permane-
mada a “sua” Palavra é a ligação de cia dos primeiros. cer no amor de Deus
um povo, do qual e para o qual a Bí-
blia foi gestada, com Deus. O povo Hoje a Igreja lê a Bíblia com olhos Didaticamente, usa comparações
“concebeu” a Bíblia na relação his- renovados, mas não com outros olhos. esclarecedoras, que ajudam a com-
tórica – de alegria e tristeza, vitó- Os olhos são os mesmos – os da fé. preender o seu conteúdo. A 1ª João
rias e derrotas, lutas e esperanças Mas a Igreja sabe que a Bíblia traz alterna algumas reflexões e ensina-
– com o seu Deus. A ação de Deus uma linguagem própria cujo senti- mentos sobre a vivência das comu-
na vida do seu povo – do Antigo e do do deve ser captado a partir de uma nidades e, logo em seguida, faz exor-
Novo Testamento – foi o princípio introdução ao sentido geral da his- tações, convites à conversão, à mu-
ativo que “gerou” a Bíblia. Eventos tória da salvação. Bíblia e história dança de vida e a assumir a missão
como a libertação da escravidão do se confundem. Daí a importância cristã. Não deixe de motivar seu gru-
Egito (Antigo Testamento) e a res- de ler o texto no seu contexto his- po e sua comunidade para a reflexão
surreição de Jesus (Novo Testamen- tórico de origem. Eu não tomo um deste mês da Bíblia 2019.
texto bíblico e o interpreto ao pé da
letra, sem relação com a história Adquira e ajude sua comunidade
que o gerou; história de aliança en- a vivenciar com intensidade o Mês da
tre Deus e seu povo; história que Bíblia. “Desconhecer a Escritura é des-
continua na Igreja. conhecer Jesus Cristo!” (S. Jerônimo)
Pela relação com a história da FORMATO: 11X15CM, 32P.
salvação e com os ensinamentos
oficiais da Igreja, temos os grandes Apenas: R$ 2,00 + Porte
pontos referenciais de como enten-
der os textos bíblicos. Mas, dentro PEDIDOS
destes grandes marcos, eu posso 0800-940-2377
dar a minha tonalidade particu- olutador.org.br
lar à interpretação da Bíblia. As- [email protected]
sim, por exemplo, todas as vezes
que leio sobre o evento de liberta-
ção do povo hebreu, eu posso ver aí
a minha libertação pessoal ou a de
minha comunidade. O texto adqui-
re assim seu sentido e seu sabor a
partir das atitudes e sentimentos
que provoca no leitor.]
*Mestre em filosofia e teologia moral,
doutorando em filosofia.
OUTUBRO 2019 [ OLUTADOR]15
Família [ Tudo envolve o evangelho da vida, a família
PE. SEBASTIÃO SANT`ANA SILVA, SDN
O Sínodo QUE OUTUBRO de 2019 rico de pro-
da Amazônia postas! Será o Mês Missionário
Extraordinário. Celebraremos a
e a Família Semana Nacional da Vida e o Dia do
Nascituro (1 a 8). No dia de São Fran-
Novos caminhos cisco (4), padroeiro da Ecologia, en-
para a Igreja e para cerraremos o “Tempo da Criação”,
uma ecologia integral proposto pelo Papa Francisco e ini-
ciado em 1º de setembro (Dia Mundial
[16 OLUTADOR [ OUTUBRO 2019 de Oração pelo Cuidado da Criação).
Destaque muito especial mere-
ce o Sínodo para a Amazônia (6 a 27),
convocado pelo Papa Francisco, e que
terá como tema “Amazônia: Novos
caminhos para a Igreja e para uma
Ecologia integral”.
Vem aí a Festa de N. Sra. Apa-
recida, nossa Padroeira, e o Dia da
Criança (12). E tantas outras come-
morações...
No final do mês (27), o Dia Nacio-
nal da Juventude, com o tema “Juven-
tude e Políticas Públicas: uma histó-
ria nos chama à civilização do amor”.
Tudo envolve o evangelho da vi-
da, a família e o cuidado com a “ca-
sa comum”.
e o cuidado com a “casa comum”...
Preocupação com a Amazônia zônia repleta de vida e sabedoria. gelização e a promoção humana.
e alerta climático vêm de longe Continua com o clamor provocado Quantas escolas, hospitais, ofici-
Desde 1952, os bispos dos nove países pela deflorestação e pela destruição nas, obras sociais se construíram
da Amazônia têm realizado encon- extrativista, que reclama uma con- e foram mantidas durante sécu-
tros sobre a missão da Igreja nessa versão ecológica integral. los em todos os rincões da Ama-
realidade singular do Continente. zônia. Vilas e cidades se edifica-
A missão da Pastoral Familiar ram a partir das ‘missões’ da nossa
Em Santarém, PA, em 1972, foram junto às famílias amazônicas Igreja. Quanto sangue, suor e lágri-
agraciados com a “profética e pro- O capítulo V da II Parte do “Instru- mas foram derramados na defesa
gramática” mensagem de São Paulo mento de Trabalho” se intitula Famí- dos direitos humanos e da digni-
VI: “Cristo aponta para a Amazônia!” lia e Comunidade, onde são apresen- dade, especialmente dos mais po-
tadas as características das famílias bres e excluídos da sociedade, dos
No Encontro de Belém, PA (1990), amazônicas. Há um enorme campo povos originários e do meio am-
os bispos da Amazônia advertiram de atuação para a Pastoral Familiar. biente tão ameaçados”. A Carta de
o mundo para o iminente desastre Belém lamenta imensamente que
ecológico com consequências para A Igreja deve valorizar e respeitar “hoje, em vez de serem apoiadas
todo ecossistema que ultrapassa as e incentivadas, nossas lideranças
fronteiras do Brasil e do Continente. a rica multiculturalidade da Pan-Ama- são criminalizadas como inimi-
gos da Pátria”.
A Conferência de Aparecida (2007) zônia. A partir do respeito, ajudar a su-
sugeriu a criação da Rede Eclesial O Papa Francisco e os partici-
Pan-Amazônica - REPAM. Fundada perar as estruturas que alienam. pantes do Sínodo contam com nos-
em 2014 pelo CELAM, CNBB e CLAR- so apoio.
CRB, a REPAM, em 2016, pediu ao Pa- Outra sugestão é a promoção da
pa um Sínodo sobre a Amazônia. Por que tantos católicos
Convocado em 2017, foi cuidadosa- função da mulher, reconhecendo seu contra o Papa e o Sínodo
mente preparado. De 6 a 27 de outu- da Amazônia?
bro, no Vaticano, acontecerá o Síno- papel na formação e continuidade das A Igreja quer identificar novos cami-
do Especial sobre o tema Amazônia: nhos para a evangelização dos povos
novos caminhos para a Igreja e para culturas, na espiritualidade, nas co- da Amazônia e se compromete com
uma ecologia integral. sua defesa. Defende o “chão sagra-
munidades e famílias. do que Deus criou em sua generosi-
Novos caminhos para a Igreja dade e deve ser conservado para as
e para uma ecologia integral Sugere ainda “articular uma Pas- presentes e futuras gerações” (Carta).
O “Instrumento de Trabalho” do Sí- toral Familiar” que siga as indicações
nodo, construído a partir de diver- da “Amoris Laetitia”: a) que acompa- Esta postura da Igreja mexe
sos encontros da REPAM e da con- nhe, integre e não exclua a família profundamente contra os interes-
tribuição de especialistas, consta ferida; b) que fortaleça e console a to- ses de vários setores, inclusive do
de três partes: dos; c) com formação permanente atual governo do país. Mexe tam-
dos agentes pastorais que tenha em bém com aqueles grupos de cató-
– a primeira, o ver-escutar, é consideração os recentes Sínodos e licos que não comungam a mes-
chamada de “A voz da Amazônia”, a realidade familiar da Amazônia; ma visão do Evangelho e da Igreja
tem o objetivo de apresentar a rea- d) uma Pastoral Familiar na qual a que têm o Papa Francisco, a CNBB
lidade do território e seus povos; família seja sujeito e protagonista. e tantas pessoas que entenderam
a missão de cuidar da nossa “ca-
– na segunda parte, “Ecologia Igreja sempre focada sa comum”.
integral: o clamor da terra e dos na evangelização
pobres”, aborda-se a problemáti- e na promoção humana A divulgação de tantas mentiras
ca ecológica e pastoral; A Carta dos participantes do último e calúnias tem provocado a confu-
Encontro de Estudo do Instrumento são na cabeça de muitos católicos.
– e, na terceira parte, “Igreja pro- de Trabalho do Sínodo – realizado
fética na Amazônia: desafios e es- em Belém, PA, de 28 a 30 de agosto Você, católico e agente da Pas-
peranças”, estuda a problemática último –, mostrou que “a Igreja Ca- toral Familiar que ama a sua Igre-
eclesiológica e pastoral. tólica desde o século XVII está pre- ja, que acredita no Deus dos pobres
sente na Amazônia, preocupando- revelado por Jesus, de que lado vo-
O “Instrumento de Trabalho” des- se, ao mesmo tempo, com a evan- cê está?
taca que “a escuta dos povos e da ter-
ra por parte de uma Igreja chamada OUTUBRO 2019 [ OLUTADOR]17 Acompanhemos com interesse o
a ser cada vez mais sinodal, come- Sínodo e oremos pelo seu bom êxito!]
ça entrando em contato com a rea-
lidade contrastante de uma Ama-
PE. JOSÉ HERVAL Catequese [ A comunidade cristã precisa oferecer
Evangelização,
EVANGELIZAÇÃO para valer. É o que vamos ver Vale a pena meditar sobre a
Antes de falar de cateque- no texto do Evangelho de São Pessoa de Jesus, que chamou Pe-
se, é preciso ter claro que João 1,35-42. dro e os demais companheiros pa-
a missão da Igreja é evan- ra serem discípulos e, depois, se
gelizar. No texto, vemos o que acon- tornarem apóstolos. O discípulo
O que caracteriza a evangeliza- teceu lá: dois homens um tanto fica perto do Mestre até apren-
ção é o anúncio da Palavra de Deus curiosos e encantados com a Pes- der a ser discípulo. O apóstolo sai
acompanhado do bom exemplo de soa de Jesus. Eles foram perguntar em missão para fazer discípulos
quem está anunciando. A ordem de onde ele morava: Jesus respondeu: para Jesus.
Jesus é anunciar o Evangelho, é fa- “Venham ver!” Eles foram, viram e
zer discípulos... No Evangelho, ve- gostaram de ficar perto do Mestre A Igreja é a comunidade dos dis-
mos Jesus chamando seus primei- e tornar-se discípulo. cípulos de Jesus. Somos discípulos
ros discípulos, até mesmo através que deveremos um dia ser apósto-
de um simples olhar. Depois, apa- No dia seguinte, um dos dois foi los, missionários ardorosos, cate-
recia um chamando o outro para atrás do seu irmão, o Simão, que quistas empolgados com a Pessoa
seguir a Jesus. também acabou sendo chamado de Jesus e sua Missão.
por Jesus. Por aí se vê que “só quem
Discípulo de Jesus é quem é discípulo é capaz de fazer discí- E nós aqui? Precisamos ser ca-
acompanha a Pessoa de Jesus pulo”. André ajudou Pedro a se en- tequistas realmente evangelizados
contrar com Jesus. e empolgados com a Pessoa de Je-
[18 OLUTADOR [ OUTUBRO 2019
dois caminhos para a educação da fé...
catequese e visitação
sus e entrosados com os irmãos na de refazer a caminhada da Inicia- Vamos à Bíblia:
comunidade. Portanto, o primeiro ção Cristã.
passo é a evangelização. Deus visitou Sara, já bem idosa, e
Para nossa catequese ser evan- que tinha uma missão especial de
Catequese gelizadora, ela precisa de algo bem gerar um filho também muito es-
Já a catequese, em princípio, vem claro e concreto para oferecer aos pecial (cf. Gn 21,1).
depois do anúncio. A catequese é catequizandos e às suas famílias:
um itinerário de formação na fé, na a iniciação à fé e o aprofundamen- Deus visitou Zacarias e sua es-
esperança e na caridade, que for- to na caminhada da fé. Não pode- posa Isabel, também idosa. Isa-
ma a mente e o coração, levando a mos viver de sonhos irrealizáveis, bel, embora estéril, tinha a mis-
pessoa a seguir Jesus Cristo como achando que vamos evangelizar a são de dar ao mundo um homem
caminho, verdade e vida. partir das crianças. Já estamos can- muito especial, o João Batista (cf.
sados de fazer isso, e com muito Lc 1,8-14).
A comunidade cristã precisa ofe- pouco resultado.
recer dois caminhos para a educa- Deus, através do seu Anjo Ga-
ção da fé dos que já foram evange- Vamos a algo bem concreto, e briel, visitou a Virgem de Naza-
lizados, a saber: para valer mesmo. Então, vamos!... ré, destinada a uma missão úni-
Vamos às famílias dos catequizan- ca neste mundo, a saber, a mis-
1Catequese como iniciação à fé dos. Vamos aos jovens dentro de são de ser a Mãe do Salvador (cf.
e à vida comunitária: essa fase suas famílias. Vamos aos adultos Lc 1,26-28).
leva a pessoa à adesão a Jesus que já estão caminhando com os
Cristo e à conversão; próprios pés. Vamos! Deus visitou Isabel por meio da
Virgem Maria, grávida de Jesus. É
2Catequese como aprofundamen- O sentido bíblico da visita maravilhoso o exemplo da Virgem
to: aqueles que aderiram a Pes- O catequista não pode desconhecer de Nazaré, a futura Nossa Senhora.
soa de Jesus e à vida de Igreja o valor bíblico e teológico da visita. Ela, tão logo se sentiu grávida pela
precisam de mais fortes esclareci- No documento da CNBB nº 71, lemos: intervenção de Deus, foi às pressas
mentos que os ajudem no engaja- “O ‘encontro’ é o primeiro Dom ou visitar Isabel (cf. Lc 1,39-45).
mento na comunidade. carisma que o Espírito concede às
pessoas, e é ele, o Espírito Santo, o Aquela senhora idosa e gestan-
Mais: como estamos com mui- protagonista da missão, aquele que te ficou emocionada, e até um tan-
tos irmãos batizados que não rece- chega primeiro. O cristão, portan- to confusa, ao receber a visita ines-
beram nenhuma evangelização, a to, deve dar grande valor ao encon- perada feita pela futura Mãe do Se-
catequese tem de cuidar da evan- tro com as pessoas...” nhor. Isabel exclamou: “Como posso
gelização também. É por isso que merecer que a Mãe do meu Senhor
dizemos hoje: catequese evangeli- “O cristão que tomou consciência venha me visitar? Logo que você
zadora. Então, vem a pergunta: Co- de sua missão de evangelizador de- chegou e me saudou, a criança se
mo fazer isso? verá não apenas acolher bem quem moveu dentro de mim”. (Lc 1,43-44.)
se aproxima, mas ir ao encontro dos
Não temos resposta mágica, nem outros e retomar a prática evan- Já pensou? Duas futuras mães
receita pronta. Temos de abrir ca- gélica das visitas às casas (cf. Mt se visitando... E nesse ambiente de
minho e caminhar juntos: catequis- 10,11-14; Mc 6,10-11; Lc 10,5-7.38-42).” visitas, Deus foi mostrando para elas
tas, pais e catequizandos. O cami- os sinais de sua presença. Momen-
nho se faz caminhando. Os nossos bispos ainda nos lem- to sagrado, com certeza. E quando
bram que a visita tem um profun- nasceu o filho de Isabel, o pai, Za-
Todos nós temos de ser reevan- do sentido bíblico e teológico. Quer carias, rezou dizendo que “Deus vi-
gelizados. Nós, catequistas, e as fa- dizer: “a pessoa enviada por Deus sitou o seu povo”. (Lc 1,67-68.) Mais
mílias dos catequizandos. Sim, te- representa o próprio Deus que vi- ainda: a salvação entra na casa on-
mos de aprofundar nossa fé. Temos sita seu povo”. (CNBB, Doc. 71, 99). de a visita é feita em nome de Je-
sus, e em comunhão com a Igreja
OUTUBRO 2019 [ OLUTADOR]19 de Jesus Cristo (cf. Lc 19,9).]
Juventude [ MAIS QUE UM FILME DE HERÓIS, É UM FILME PARA CONTAR
FRT. DIONE AFONSO, SDN
O mal venTcHeAoNbOeSm:
que fazer quando o mal rotados. O mal venceu o bem. To-
vence o bem? Quando da e qualquer chance de esperan-
ça é eliminada.
Oum vilão surge mais po-
deroso que os heróis e Thanos e
os deixa sem ação? Ocu-
pando o quinto lugar en- a ascensão do mal
tre as maiores bilhete-
rias do cinema, a Marvel Nunca um vilão foi tão esperado
Studios fez de Avengers: e desejado pelos fãs do cinema. A
Infinity War o filme mais esperado Guerra Infinita é considerada o mar-
da década. Lançado em 2018 e di- co zero da história do cinema. Mais
rigido pelos irmãos Joe e Anthony que um filme de heróis, é um filme
Russo, os Vingadores, os mais po- para contar o tamanho do poder,
derosos heróis do mundo são der- da ambição e da maldade de Tha-
nos. O único vilão capaz de derro-
tar os heróis mais fortes do mun-
do. Pela primeira vez o mal ven-
ceu. Thanos venceu. Nada supera
seu poder e sua maldade.
[20 OLUTADOR [ OUTUBRO 2019
O TAMANHO DO PODER, DA AMBIÇÃO E DA MALDADE...
Controlar o tempo, a o desejo de purificar sua sempre mais uma chan- gers: endgame [2019], Tha-
mente, o espaço, a realida- raça. Todos os que não se ce de corrigir as coisas e nos diz que o mal é inevi-
de, o poder e a alma. Seis encaixavam em suas cate- de perdoar. Temos a opor- tável, que ele é inevitável.
joias do infinito. Seis poderes gorias merecia morrer. E tunidade de nos redimir e Ele não está errado, mas
grandiosos que ninguém é ele estava disposto a matar. de amar. Custe o que cus- errou quando achou que o
capaz de possuir. Poderes tar! O bem vencerá o mal mal era a única porta aber-
sobrenaturais que seriam Onde estão os super-heróis? sempre. Custe o que cus- ta para o nosso futuro. Ele
capazes de fazer daquele tar! O amor sempre nos errou quando achou que a
que os controla o próprio O que fazer quando a es- salva. Custe o que custar! humanidade precisava de
deus do universo. Esse era perança parece não mais Somos super-heróis ca- correção, quando, na ver-
o desejo de Thanos. Ele não existir? Depois de Thanos pazes de derrotar o mal. dade, o que nós precisamos
desejava uma guerra, não ainda há possibilidade de Não precisamos controlar é de conscientização, de
quis lutar, não provocou vitória? Será que os vilões o tempo, a realidade, o es- reeducação e de perdão.
nenhum duelo. Ele só de- ganharam? Falar de super paço... Não temos esse po- Um futuro novo é possí-
sejava uma coisa: com as -herói, de bondade não dá der, nem esse dever. Nosso vel quando a gente pas-
seis joias, “corrigir” os ca- mais sucesso no cinema? superpoder está na capa- sar a rever nossas ações e
minhos da humanidade. Será que falar do mal, da cidade de acolher o próxi- propagar a paz pensando
Aniquilar 50% das coisas guerra, da morte é mais mo, de nos aproximar do sempre no Bem Comum.
vivas do universo para que lucrativo do que falar do doente, de abraçar o que
a outra metade sobreviva. bem, do amor, da vida? sofre de tristeza, de amar Para rezar e discutir em grupo
Thanos tira tudo de nós o irmão que nos feriu. For- - No dia a dia dos nossos
A maldade humana em Guerra Infinita. O Capi- ça mais poderosa que es- jovens, o mal anda ven-
tão América, Viúva Negra, sa não existe, e vilão ne- cendo o bem? Em que si-
Dirigido por Christopher Homem de Ferro, Rocket nhum é capaz de suportar. tuações? Quais superpo-
Nolan, o filme do Batman não conseguem superar a deres usamos contra es-
de 2008, The Dark Knight, derrota, nem reconstruir Thanos passou toda a se mal? ]
da DC Comics, apresentou um novo caminho depois sua vida projetando seu
Joker, o Coringa de Heath da vitória do mal. Tentam plano de maldade e de des- Fonte: MCU
Ledger. O Coringa é um vi- caminhar, mas não con- truição. E ele foi capaz de
lão que apresenta distúr- seguem seguir em frente. tudo, de sacrifícios. Em no-
bios psicológicos e men- me do poder e da ambição,
tais. Uma representação Mas ainda não acabou: matou sua filha para con-
diabólica do que é, de fato, quando voltamos ao dis- quistar o mal que sempre
o mal. O Coringa, na frieza curso de Rowling, na ba- almejou. Quem vive assim
e sem nenhuma compai- talha final da saga Harry não tem tempo para pen-
xão, arquiteta suas malda- Potter, o personagem Ne- sar em amor, em perdão,
des exibindo um largo e re- ville Longbottom faz ques- em esperança, nem no ou-
pugnante sorriso no rosto. tão de mencionar aqueles tro. Não somos assim! “Se
que morreram lutando pe- somos capazes de odiar,
Em 2007, David Yates los amigos: “Perdemos o também somos capazes de
trouxe para as telas do ci- Harry, perdemos amigos, pedir perdão e de perdoar.
nema o longa Harry Potter familiares, mas eles conti- Somos capazes de amar.”
and the Order of the Phoe- nuam conosco aqui dentro
nix, e o vilão Lord Volde- (no coração). Fred, Remo, Nós podemos vencer o
mort, de Ralph Fiennes. Um Tonks. Todos eles! Eles não mal. Entre tantos descami-
personagem que também morreram em vão. Mas é nhos, nossos jovens ainda
soube representar o mal o seu fim, porque está er- acreditam numa esperança
de forma assustadora. A rado...” O bem sempre ven- viva e que os liberte do ca-
roteirista, num dos diálo- ce. Se ele ainda não ven- minho do vício, da explo-
gos do personagem, escre- ceu é porque nossa luta ração, do tráfico, da pros-
ve que “não existe o bem e ainda não acabou! tituição e do desemprego.
o mal. Somente o poder e Nós também temos que
aqueles que são muito fra- Podemos vencer o mal acreditar que este mun-
cos para possuí-lo” (J. K. do liberto das maldades
Rowling). Voldemort tinha O Fim do Jogo ainda es- é possível, sim. Em Aven-
tá para acontecer. Temos
OUTUBRO 2019 [ OLUTADOR]21
Encontro Matrimonial [ Experiências...
missionMáêriso
FALAR do Encontro Matrimo-
nial Mundial neste mês de Pe. Daniel, Neto e Vera – Equipe Eclesial Diocesana de Teresina, PI
outubro, mês missionário, é
falar de alegria e esperança. Foi assim que me senti quan- je eu sou um pouco melhor, se amo
Alegria pelo presente que ganhei do vivenciei o meu Fim de Semana. mais a Igreja, aos meus irmãos do
quando vivenciei o meu “Fim de Foi um verdadeiro encontro comi- presbitério e ao povo, agradeço ao
Semana”, esperança de que cada go e um encontro com Jesus. Passei Fim de Semana do Encontro Ma-
vez mais casais, sacerdotes, re- a ver a realidade de modo diferen- trimonial Mundial.
ligiosos e religiosas também ex- te, mudando o meu modo de pen-
perimentem vivenciar esse mo- sar e agir em relação à Igreja, ao Muita coisa há de ser feita, mas
mento em suas vidas, porque é, meu presbitério e às pessoas com isso não é problema, porque sei por
na verdade, um encontro pessoal as quais convivo, sobretudo, meus onde começar e seguir em busca. É
com Jesus. paroquianos. por isso que digo àqueles que ainda
não vivenciaram o “Fim de Semana”,
Neste mês, nossa Igreja no Brasil Não é que tenha solucionado que não percam tempo, pois ele é
nos convoca a refletir justamente todos os meus problemas, mas me um verdadeiro presente de Deus em
sobre a nossa missão, pois estamos mostrou como posso enfrentá-los nossas vidas, é um tempo de graça.]
no mês missionário, e missioná- com maturidade e discernimento,
rio é todo batizado. O tema do mês “tomando a decisão de amar”. Se ho- @encontromatrimonialmundialbrasil
missionário este ano é: “Enviados
para testemunhar o Evangelho da [22 OLUTADOR [ OUTUBRO 2019
paz”. De fato, só consegue testemu-
nhar a paz quem a tem dentro de
si mesmo. Ninguém testemunha
o que não vive.
É Cristo, que nos “deu a sua paz”,
que nos envia como suas testemu-
nhas para ir ao encontro do outro.
Vai ao encontro do outro com o co-
ração cheio de alegria. Diante disto
ele vai ao encontro das outras pes-
soas para lhes comunicar essa ale-
gria que contagia pelo testemunho
alegre de ser um enviado de Cristo.
É uma experiência que ninguém
quer guardar para si, mas comu-
nicá-la aos demais.
Família Julimariana [ Promover e integrar...
IRMÃS CORDIMARIANAS DE AMAJARI, RORAIMA
Fenômeno migratório
“Os migrantes não são perigosos, estão em perigo.
É preciso acolher, proteger, promover e integrar.” (PapaFrancisco)
DEUS sempre nos surpreende, até outras urgências, como refúgio, ao sofrimento das crianças que che-
coloca em nossa frente desa- acesso a direitos e denúncias de ex- gam com fome, desnutridas, doen-
fios que muitas vezes e de di- ploração laboral e tráfico de pessoas. tes, vítimas da migração forçada, re-
versas formas nos exige um trato do descaso principalmente da-
olhar para além de nós. Foi nessa Tem sido, sem dúvida, uma ex- queles que deviam promover a vida.
perspectiva, como Cordimarianas, periência profundamente transfor-
que acolhemos o chamado “fenôme- madora: o que pensávamos ser uma Hoje, queremos dar nossa voz a
no migratório” aqui em Amajari, ci- fase tornou-se um ciclo permanen- esse grande apelo migratório. A Dio-
dade de fronteira com a Venezuela te, pois todos os dias nossos herma- cese de Roraima, movida pelo seu pro-
que, deste 2013, dava seus primeiros nos cruzam a fronteira em busca de fético elã missionário, na pessoa de
sinais do agravamento na crise polí- um horizonte possível. Dom Mario Antônio, e outras organi-
tica, econômica e humanitária. Esta zações, com apoio da CNBB, através
instabilidade levou milhares de ve- Conseguimos nos organizar com do Fundo Nacional de Solidariedade,
nezuelanos a percorrerem em mé- a ajuda da Cáritas, da Pastoral do Mi- lançaram o Plano Nacional de Inte-
dia mais de 200 quilômetros a pé pa- grante, das Irmãs Scalabrinianas, pio- gração Caminhos de Solidariedade.
ra chegarem ao Brasil. Trazem nas neiras em ações migratórias, da OIM,
suas mochilas nada mais que espe- IFRR, e da Diocese de Roraima. E com O plano conta, em um dos eixos,
ranças, e o pouco que conseguiram o apoio da própria Congregação, de com a ajuda das dioceses, paróquias,
carregar sob o peso do sol e da fome, Ir. Ximena, animadora dos projetos congregações religiosas e outras para
uma verdadeira via-sacra. de integração a partir da música, de acolher migrantes e refugiados vene-
leigos e leigas militantes das causas zuelanos em seus territórios, por meio
Em 2018, fomos norteadas por cam- sociais, do Exército Brasileiro, uma de ações solidárias de integração, dan-
panhas nacionais e internacionais, e verdadeira força-tarefa, empenha- do mais dignidade à população vene-
inspiradas a agir como Igreja a partir dos todos no bem comum, pois to- zuelana que chega a Roraima, para
das palavras do Papa Francisco que dos somos migrantes. que possam com esperança voltar a
disse: “Os migrantes não são perigo- sonhar em outra região do Brasil. Des-
sos, estão em perigo”; “é preciso aco- Possivelmente compreendemos sa forma todos podemos contribuir.
lher, proteger, promover e integrar”. o contexto político social da Venezue-
São palavras que, na prática frente a la, a pressão dos países dominado- Convido os queridos leitores a ani-
uma cultura atual desumanizadora, res, os impactos das medidas incon- marem suas paróquias, suas dioce-
revelam os vários estágios da nossa sequentes das autoridades locais, o ses, suas congregações, suas famí-
condição humana. De um lado, ges- colapso econômico; entretanto, fica lias, seus amigos… Seja você tam-
tos profundos de fraternidade; de ou- difícil entender e conviver com a in- bém construtor de caminhos de so-
tro, o preconceito, a xenofobia, o des- diferença de muitos, principalmente lidariedade.]
prezo com sua face mais horrenda.
OUTUBRO 2019 [ OLUTADOR]23
Coerência, compaixão
e misericórdia
Sentimos-nos, então, provocadas a as-
sumir com coerência nosso Carisma
Compaixão Misericórdia do jeito de
Maria, no meio de nossos hermanos
e hermanas que chegam a nós com
todos os tipos de necessidades, desde
as mais básicas, como comida, rou-
pas, medicamentos, uma informação,
Espiritualidade [ Sabedoria...
A confiança dos antigos
DOM PAULO MENDES PEIXOTO* O transcurso da história das Os antigos tinham uma visão
pessoas tem marcas profundas de de Deus com características de
OPAPA FRANCISCO, na Exor- desmotivação da fé. A Palavra de pastor. Eram imbuídos de con-
tação “Gaudete et Exsulta- Deus, contida na Bíblia, passa por fiança e consciência de estarem
te”, cita dois inimigos sutis outro caminho, porque ali encon- sob sua proteção. Jesus mostra
da santidade que, por sua tramos, no meio de dificuldades, que as coisas e os bens do mun-
vez, ferem também o sentido real grandes motivações que condu- do são efêmeros e passageiros.
da verdadeira fé: o gnosticismo e o zem a uma verdadeira confiança Para Ele, a vocação do ser huma-
pelagianismo. São heresias do iní- em Deus. Muitos personagens bí- no, como gesto de responsabilida-
cio do cristianismo, mas alarman- blicos confirmam essa realidade: de e permanente vigilância, tem
tes também nos dias de hoje, por- além de Abraão, Moisés, os pro- sua plena sustentação e firme-
que apresentam propostas enga- fetas, várias mulheres, os após- za na confiança e na fé em Deus.
nosas sobre a verdade, impondo tolos etc.
uma roupagem que impede a ação O que servia mesmo de base para
da graça de Deus. A fidelidade de Deus na reali- preservar a confiança das pessoas
zação de suas promessas é moti- antigas, principalmente do Velho
Abraão, enfatizado pela sabe- vadora de fé para as pessoas. Para Testamento, era a espera da ma-
doria divina, fez um caminho bo- aqueles que seguem e têm intimi- nifestação do Reino, conforme as
nito de fé, legando-nos uma con- dade com Jesus Cristo, a fé é uma promessas de Deus. Assim, pode-
fiança incondicional em Deus. En- identidade em suas vidas, inclusi- mos definir a fé, nas palavras de
frentou situações conflitantes de ve com capacidade de abertura pa- Sagrada Escritura, como sendo “um
prova e não se deixou levar pelos ra o encontro com o outro na co- modo de já possuir o que ainda se
males de seu tempo. O seu modo munidade. Fé, talvez mais do que espera, a convicção acerca de rea-
autêntico de agir não ficou preso confiança, que proporciona ao in- lidades que não se veem”. (Hb 11,1.)
a uma vazia racionalidade e aos divíduo “buscar o Reino de Deus” Fé, que é eficaz no cristão.]
sentimentos superficiais, dentro acima de todas as coisas.
daquilo que propõem o gnosticis- *Arcebispo de Uberaba, MG
mo e o pelagianismo modernos. [24 OLUTADOR [ OUTUBRO 2019
Liturgia [ O Verbo...
DIÁC. FRT. MATHEUS R. GARBAZZA, SDN
Liturgia e Sendo assim, a liturgia cristã não
encarnação do será a mera repetição de gestos ou
oferendas para conquistar o cora-
Verbo ção de Deus. Todo o culto da Nova
Aliança gira em torno da memória
COMO é que o ser humano po- te da liturgia, acaba dando vazão a concreta de Jesus, seus feitos e pa-
de oferecer a Deus um cul- sentimentos menos nobres, esque- lavras, e sobretudo do grande mis-
to que lhe agrade? Essa per- ce-se de olhar para o Senhor como tério de sua paixão, morte e ressur-
gunta perpassou diversas modelo de santidade. reição. Não é sem razão, portanto,
culturas e tradições religiosas ao que o Servo de Deus Pe. Júlio Maria
longo da história. Trata-se de um Os cristãos também são herdei- dizia que “a Eucaristia é o prolon-
anseio profundo, que se expressou ros dessa compreensão presente na gamento da Encarnação”, fazendo-
por meio das mais diferentes for- Antiga Aliança, mas com um dife- nos perceber a íntima conexão en-
mas rituais. Para o povo de Deus do rencial bastante específico. A Reve- tre a liturgia e a vida toda de Nos-
Antigo Testamento, porém, havia lação de Deus não se encerra ape- so Senhor.
uma convicção fundamental: pa- nas numa fórmula externa, mas se
ra que o culto possa ser aceito pelo concretiza numa pessoa, Jesus de A oferta de si
Senhor, é necessário que Ele mes- Nazaré. O Mistério Pascal do Verbo Encarna-
mo transmita à humanidade o mo- do manifesta a profunda entrega de
do como deve ser feito. É o que le- O Verbo e a Revelação Jesus nas mãos do Pai. Não reservou
mos, por exemplo, em longas pá- O Concílio Vaticano II relembra que nada para si, mas procurou em tu-
ginas dos livros do Êxodo, Núme- o Verbo de Deus feito carne é a ple- do ser obediente ao projeto salvífico
ros e Levítico. nitude da Revelação. Nele Deus se para toda a humanidade. Seu gesto
comunica totalmente, ditando não é o ápice do altruísmo: doa sua pró-
Para o Cardeal Joseph Ratzinger apenas decretos e mandamentos, pria vida para a remissão dos pe-
(Papa Bento XVI) é paradigmática a mas abrindo-nos a possibilidade da cados (cf. Mt 26,28). A liturgia tor-
passagem narrada no capítulo 32 do participação na vida divina. Cristo na presente, diante de toda a Igreja
Êxodo, na qual o povo constrói para “completa totalmente e confirma reunida em assembleia, este mes-
si um bezerro de ouro para ser posto com o testemunho divino a Revela- mo Mistério, aplicando seus méri-
no lugar de Deus. Segundo ele, todas ção, a saber, que Deus está conosco tos a cada um.
as vezes em que o ser humano cria para nos libertar das trevas do peca-
um culto baseado nele mesmo, sem do e da morte e para nos ressuscitar Mas, para oferecer a Deus o cul-
considerar o caráter transcenden- para a vida eterna”. (Dei Verbum, 4.) to agradável, bastará a celebração
litúrgica tal como estabelecida pela
OUTUBRO 2019 [ OLUTADOR]25 Igreja? É necessário ir mais além.
São Paulo mostra com intensidade
em que consiste o culto agradável: é
associar-se à oferta do Verbo, à sua
entrega total. Por meio da ação li-
túrgica da Igreja, somos feitos partí-
cipes do Corpo de Cristo. Assim, po-
demos também oferecer a nós mes-
mos como oferta agradável: “Eu vos
exorto, irmãos, pela misericórdia de
Deus, a oferecerdes vossos corpos
em sacrifício vivo, santo e agradá-
vel a Deus: este é o vosso verdadei-
ro culto”. (Rm 12,1.)
Tomar parte na celebração litúr-
gica será sempre, para o cristão, um
chamado a associar-se à Encarna-
ção, a viver segundo os valores pre-
conizados por Aquele que por nós deu
sua vida. Com muita razão o Papa
Bento XVI afirmou: “A Eucaristia ar-
rasta-nos no ato oblativo de Jesus.
Não é só de modo estático que rece-
bemos o Verbo encarnado, mas fi-
camos envolvidos na dinâmica da
sua doação”. (Deus Caritas Est, 13.)]
ANTÔNIO CARLOS SANTINI Atualidade [ O sistema...
ANOS70, em Volta Redonda, o ao sistema. É o sistema quem os a mártir dos explorados como Irmã
programa dos sábados pela fabrica cuidadosamente, pois sem Dorothy Stang.
manhã incluía uma visita eles o mundo capitalista não pode
à feira livre, no Aterrado. Lá subsistir. A linha de montagem na Esses amigos dos pobres conhe-
esperavam por nós as sucu- fabricação do pobre inclui a expro- ciam a inquietante frase do Mestre:
lentas laranjas pera rio, o priação da terra, a mão de obra se- “Pobres, sempre os tereis...” (Mt 26,11)
palmito cortado no mato, a fruta- miescrava, a robotização do traba- E Jesus pronunciou estas palavras
pão do litoral e os caçonetes lustro- lho, o aviltamento dos salários, a pois sabia que nós iríamos precisar
sos pescados ainda naquela noite. especulação imobiliária, a usura – do pobre. Quem não consegue encon-
enfim, todos estes traços indispen- trar Jesus no alto da montanha ou
Invariavelmente, no burbu- sáveis ao nobre mundo capitalista. nas missas transformadas em show,
rinho dos compradores, entre as sempre poderá encontrá-lo no famin-
bancas dos feirantes, lá estava um Ora, o cenário degradante da to ou no doente: “Foi a mim que o fi-
velhinho com sua sacola verme- miséria foi o bendito gatilho pa- zestes!” (Mt 25,40)
lha, a repetir incansavelmente o ra o surgimento de uma legião de
mesmo bordão: santos, os quais se voltaram para Não por acaso, Madre Teresa de
o pobre e a ele dedicaram sua exis- Calcutá definia os mendigos e os le-
- Uma esmolinha para os po- tência: um mestre esmoler como prosos como o “doloroso disfarce de
bres de São Vicente! José de Calasanz, um amigo dos Cristo”. Com fome e com sede, analfa-
pivetes como Dom Bosco, as mães beto ou deficiente, no hospital ou no
Era um membro da Socieda- dos miseráveis como Madre Tere- presídio, na favela ou no lixão, lá es-
de São Vicente de Paulo, tão des- sa e Irmã Dulce, o parceiro dos le- tá o pobre, digo, lá está Jesus Cristo...
prezada, tão criticada, rotulada de prosos como Damião de Veuster,
assistencialismo por aqueles que Não podemos alegar que Deus fu-
nunca assistem os pobres, além giu para longe de nós...]
de ignorar solenemente o espetá-
culo da miséria. Ora, o cenário degradante da miséria
foi o bendito gatilho para o surgimento
Bem, é preciso fazer uma cor- de uma legião de santos, os quais
reção: de fato, os pobres não per- se voltaram para o pobre e a ele
tencem a São Vicente, ainda que dedicaram sua existência.
o padre Vicente de Paulo os tenha
adotado na França do século XVII, [26 OLUTADOR [ OUTUBRO 2019
e Frederico Ozanam viesse a esco-
lher o nome do santo para a orga-
nização que cuidaria dos indigen-
tes do planeta dois séculos depois.
Sim, os pobres não pertencem
a São Vicente de Paulo. Pertencem
Os
pobres
ViceSnãdteoe
Atualidade [ Milagres...
CARLOS SCHEID
– Milagre! MILAGRES:
Milagre!
entre a fraude e
Não se assustem: é apenas o narra- a maravilha
dor da TV emocionado com a defesa
do goleiro. A palavra “milagre” des- um tipo de estenose espinhal que O Dr. Alexis Carrel, conhecido mé-
gastou-se a tal ponto, que entrou no afetava o conjunto de nervos locali- dico francês, narrou no livro “Viagem
vocabulário esportivo para designar zado ao final da medula espinhal. A a Lourdes” a sua experiência pessoal
um esforço atlético. doença, conhecida como “síndrome diante do milagre. Cético, intoleran-
da cauda equina”, afetava a irmã Ber- te, positivista, perdera há muito a fé
Mas existem também os “mila- nadette desde o final dos anos 1960. da sua infância. Carrel acompanhou
gres” que povoam a telinha todos os Sua cura instantânea foi reconhe- uma paciente em viagem de trem a
dias - milagres previamente anun- cida como um milagre pelo Bispo de Lourdes. Maria Bailly tinha chagas
ciados com hora marcada – e que ser- Beauvais, no norte da França. Era o de tuberculose, lesões dos pulmões
vem de chamariz para atrair incau- 70° milagre em Lourdes admitido pe- e peritonite. Rosto macilento, pulsa-
tos. Amigo meu, morador do bairro la Igreja Católica. ção 150, abdome distendido, orelhas
Ouro Preto, em Belo Horizonte, fala- e unhas azuladas.
va-me sobre os “milagres” ensaiados Ruth Cranston resume os crité-
na garagem de seu vizinho, pastor de rios adotados pela Comissão Canô- Mergulhada na piscina de Lour-
uma igreja pentecostal... nica para examinar os frequentes des, em questão de minutos desapa-
casos de pessoas que ali experimen- receram em definitivo todos os sin-
Apesar de tudo, os milagres exis- tam curas de todos os tipos. Para re- tomas. Ela bebeu um copo de leite.
tem. Resistem às fraudes. E não admira conhecer uma cura milagrosa - isto Seu rosto tornou-se luminoso. Ali es-
que a Igreja Católica seja tão reticen- é, inexplicável pelos conhecimentos tava o milagre que iria transformar
te em relação a milagres, aparições e da medicina -, devem existir sete ca- a vida do Dr. Carrel. Maria Bailly in-
fenômenos místicos. Vinte séculos de racterísticas: gressou na Congregação das Irmãs
história aconselham a ficar prevenido 1) Que a doença era grave e impossí- de S. Vicente de Paulo e dedicou-se
diante de desequilíbrios mentais, alu- vel, ou pelo menos difícil, de curar; aos enfermos.
cinações coletivas e surtos da imagi- 2) Que a doença curada não estava
nação popular. São poucos os milagres em estado de declínio até um pon- Vale refletir sobre as palavras de
que resistem a uma análise objetiva. to tal que poderia ter cessado pouco Aleksandr Mien: “O milagre é algo
tempo depois; bem maior que uma simples infra-
Lourdes, na França, aponta na di- 3) Que nenhuma medicação foi uti- ção da ordem natural das coisas. No
reção oposta. Ali os milagres aconte- lizada, ou se foi, que sua ineficácia milagre, revela-se a natureza mais
cem. Ali eles espantam os doutores e era certa; profunda da criação, uma outra di-
reduzem a poeira os argumentos dos 4) Que a cura foi repentina e instan- mensão em que as leis do mundo fí-
céticos. Estou relendo o livro “O Mila- tânea; sico são superadas e reina a liber-
gre de Lourdes” (Ed. Melhoramentos, 5) Que a cura foi perfeita; dade. Quando uma pessoa encontra
S.Paulo, s/d). Publicado na década de 6) Que não houve anteriormente uma esta nova dimensão, ‘chegou a ela o
50, tem como autora Ruth Cranston, crise resultante de alguma causa e Reino de Deus’, segundo as palavras
uma jornalista protestante, que foi na sua hora natural; neste caso, não de Cristo”.
pessoalmente a Lourdes para exami- se pode dizer que a cura foi milagro-
nar in loco as propaladas curas. Seu sa, mas natural, inteira ou em parte; Milagres acontecem. Entre ou-
olhar neutro apenas confirma a au- 7) Finalmente, que depois da cura não tros, o milagre de aceitar as próprias
tenticidade dos relatos. houve nenhuma recaída da doença. doenças e viver feliz com elas. Coi-
sas que acontecem em Lourdes to-
Em Lourdes, uma Corporação Mé- OUTUBRO 2019 [ OLUTADOR]27 dos os dias...]
dica que reúne profissionais de va-
riadas religiões examina e acompa-
nha os miraculados, utilizando me-
todologia científica. Uma Comissão
Canônica, ainda mais rigorosa e exi-
gente que o grupo de médicos, rejei-
ta a maioria dos casos apresentados
como milagres. Isto explica que, des-
de os tempos de Santa Bernadete, no
Séc. XIX, não cheguem a uma centena
as curas reconhecidas e autenticadas
como milagrosas, ainda que sejam
milhares os testemunhos de cura.
A penúltima delas foi o caso de
Jean-Pierre Belay, 51 anos, curado ins-
tantaneamente de uma esclerose em
placas já em estágio avançado, em
outubro de 1987. A mais recente foi
a cura da Irmã Bernadette Moriau,
em 2008, aos 69 anos. Ela sofria de
Crônica [ Maria
CRESCI ouvindo as pessoas se Cumprimentos
cumprimentarem com certa
cerimônia, quase um ritual. Aos poucos, já havia os apertos estivessem em uma missão impor-
Meus pais tinham muitos afi- de mão, bem de longe, os compa- tante, oficial...
lhados em Estrela: de casa- dres tesos, quase fazendo continên-
mento, de batismo, de crisma ou cia. Mas o que me encantava mes- Nesse tempo, Goiás era outro fim
de... coração. Ser padrinho, naque- mo era o cumprimento charmoso de mundo: quem ia pra lá, sumia!
la época, era ser mais que parente! e elegante do toque no chapéu: os Não havia a Cora Coralina ainda,
Compadre, comadre... era um título cavalheiros jamais se aproxima- nem muito menos Brasília. Goiás
muito especial. Quando chegavam vam de uma dama sem antes cum- era a terra-do-nunca. Pois então. Tí-
a nossa casa, tinham privilégios re- primentá-la com um ligeiro toque nhamos um conhecido que foi para
servados a pessoas ilustres: jogo de na aba do chapéu. Dizem que, an- lá, com a família, e que voltou, depois
jarro e bacia de louça para lavarem tes disso, literalmente, se desco- de um tempão. Entre as novidades,
as mãos e toalhas de barra bordada. briam ao cumprimentar pessoas trazia o beija-mão, cumprimento
Almofadas que só saíam do armá- idosas e senhoras... Tempo bento! novidadeiro que espantava os mi-
rio para o médico, o padre ou o Bis- neiros de cara séria e desconfiada.
po. Refeições na mesa da copa, di- Depois, chegou-se à batidinha
ferentemente das refeições alegres nas costas que, devagar, transfor- Mas que foi divertido, isso foi!
na mesa grande da cozinha, com mou-se em abraços, também mui- Nós, as mocinhas, fazíamos fila pa-
a comida farta servida nas pane- to discretos, acompanhados de ca- ra cumprimentar o Sô Avelino, só
las pretas ou barreladas de cinza... ras sérias dos compadres, como se para termos o gosto de ganhar o
beija-mão e, depois, esconder pa-
Havia um compadre que nos [28 OLUTADOR [ OUTUBRO 2019
matava de nojo com seu hábito de
cuspir no assoalho o tempo todo...
Quando ele saía, a água já estava
pronta para esfregar as tábuas lar-
gas da sala...
Os meninos do compadre chu-
pavam picolé – coisa moderna de-
mais – o tempo todo, lambuzando
a roupa, sujando tudo, melecando
o que achassem por perto... E... ai
de quem ousasse dar um pio de de-
saprovação!
Pois esses compadres, ricos,
sistemáticos, chegavam e cumpri-
mentavam meus pais de maneira
formal, respeitosa e com um pala-
vreado que era em latim, do mais
vulgar, do mais sertanejo, do qual
a gente só percebia o final da lon-
ga saudação:
- Sôs Cristo... Hoje, penso que
seria Louvado seja Nosso Senhor
Jesus Cristo!
ra rir, rir, rir... As mulheres casa- Bem mais tarde, não sei de on- HUMOR
das estavam seriamente proibidas de veio a moda, apareceram os dois
de se avistarem com o Sô Avelino... beijinhos, jogados ao vento, diferen- ECONOMIA PATERNA
tes dos beijinhos que minha parenta O menino chega em casa no fi-
Também uma parenta de minha pespegava no rosto da gente. E, de- nal do ano e diz:
mãe, que se mudara para Uberaba pois, ainda arranjaram a expressão: - Pai, tenho uma notícia pra você...
com a família, chegou com outro -O que é? - pergunta o pai.
salamaleque: um beijinho na face - Humm... Humm... Dois pra -Você não me prometeu uma bi-
que, à boca pequena, era um beiji- casar... cicleta se eu passasse de ano?
nho preguento, gelado, parecendo -Sim, meu filho.
uma perereca do brejo que se per- Agora, arranjaram um passa- -Então, se deu bem! Economi-
dia e pulava na gente. Pois também mão nas costas, enquanto jogam os zou um dinheirão...
para essa parenta fazíamos fila e beijinhos ao vento. Mãos de cima
depois ainda arranjávamos ami- -abaixo, de baixo-acima das costas, OS MESMOS MOTIVOS
gas desprevenidas para conhece- um costume que não tem nem um Certo dia, a menina estava sen-
rem a parenta de Uberaba. E era de pouco a cara dos mineiros. tada, observando a mãe lavar a lou-
se ver o espanto e o vexame quan- ça na cozinha. De repente, percebeu
do a perereca do brejo pregava na Pior, inventaram um rodopio, que ela tinha vários cabelos brancos.
face da amiga... tipo de dança, sem sair do lugar, Olhou para a mãe e lhe perguntou:
uma verdadeira maratona. Fico meio - Por que você tem tantos cabe-
sem jeito, setentona, embarcar nos los brancos, mamãe?
braços da modernidade... A mãe responde:
- Bom, cada vez que você faz al-
Ainda não cheguei ao passa-mão go errado e me faz chorar ou me dei-
nem à valsinha. Mas penso que não xa triste, um de meus cabelos fica
demoro a estrear tais modernices, branco...
porque o par tem que entrar no uso, A menina pensou um pouco e
senão fica meio fora da roda... logo disse:
- Mãe, o que você fez pra vovó,
Santo Deus, e pensar que muita que ela está com todos os cabelos
gente vai me ler e vai pensar que a brancos?
MARIA está passando dos limites, está
falando que o povo mineiro é caipi- CASO ESPECIAL
ra. Não, não falo por Minas Gerais – Um psicólogo que vive em Ciu-
que são muitas -, falo pelas bandas dad Satélite chama por telefone, às
de cá, das Gerais onde vivo e aprecio quatro da manhã, seu colega que vi-
o mundo. Nós não somos caipiras, ve no Pedregal, e diz:
como já proclamou um Presidente - Pancho, vem com urgência,
da República, somos diferentes... tenho um caso único no meu con-
sultório.
E tem mais na história dos - Mas como? A estas horas?! Irei
cumprimentos, aqueles mais le- de manhã.
ves, apressados, de quem não tem - Tem que ser agora, esta é uma
tempo para parar: grande oportunidade: única!
O médico do Pedregal, ainda de
- Ei, D. Branca, tudo bem? pijama, pega seu carro e chega a Ciu-
- Tudo bem, obrigada... (Aí vem dad Satélite:
o resto que já está se transforman- - Mas o que pode ser tão urgente?
do em fórmula de cortesia) - Tenho um argentino no meu
- Ah! Então tá bom! consultório...
- É... - E o que tem? Eu também aten-
- Fica com Deus! do muitos!
- Amém! - Sim, mas com complexo de in-
- Até amanhã! ferioridade, é o primeiro caso que
- Até! atendo!]
- Se Deus quiser!
- Ele vai querer!...
(Do livro “Horas mágicas”,
Ed. O Lutador, Belo Horizonte)]
OUTUBRO 2019 [ OLUTADOR]29
HÉBERT ROUX Páginas que não passam [ Aprender...
Eu, porém, mas porque ele veio para cumprir
vos digo... a Lei e, por conseguinte, dar-lhe to-
do o seu sentido, toda a sua autori-
(Mt 5) dade, toda a sua eficácia.
ANOVA JUSTIÇA DO REINO, cujo incalculáveis: a cada instante colo- Jesus não troca por outros os
executor é Jesus, produz em ca-se para ele a questão última de mandamentos que ele cita, mas par-
quem a possui como “sua jus- sua existência; trata-se de saber se ticulariza e acentua sua amplitude
tiça” uma vida nova concre- ele é lançado no fogo da Geena ou e seu alcance, contrariamente à in-
tamente manifestada por atos bem se entra no Reino dos céus. terpretação dos “antigos”. É contra
precisos. A vida nova do homem toda essa atuação dos antigos, isto
cristão é uma vida “real”, isto é, a Em nenhuma outra passagem, é, de Israel, ao tratarem os manda-
de um uma pessoa comprometida senão nesta parte do Sermão da mentos como se pudessem sepa-
em toda a complexidade da exis- Montanha, percebe-se melhor a rá-los de Deus, que os deu, e bus-
tência terrestre, carnal, temporal. que ponto o Evangelho assume a cando estabelecer por si mesmos a
A palavra de Jesus se dirige ao ho- forma de uma moral, ou melhor, sua “própria justiça” (cf. Rm 101,3),
mem real que eu sou, e não a an- de uma moralidade nova, no sen- que Jesus aqui dirige sua autorida-
jos! (Cf. Hb 2,16.) tido de que diz respeito à conduta de. Aquele que fala aqui e diz “EU”,
do cristão em todos os domínios de é aquele que, no versículo 17, diz:
Este homem tem um irmão e sua existência. “EU vim...”
um adversário (cf. Mt 5,23-25), ami-
gos e inimigos (43-47); ele nada ig- Mas é preciso acrescentar, tam- A novidade radical dos manda-
nora das realidades da vida sexual bém, que em nenhum outro lugar mentos que Jesus enuncia consiste
(27-32); ele fala e discute, se engaja Jesus indica mais claramente a ori- nisto: agora toda a Lei de Deus não
e realiza atividades (33-37); ele vi- gem e o sentido dessa vida nova da pode mais ser considerada fora de
ve no mundo onde há tribunais e qual ele deixa entrever alguns tra- MIM. É porque eu vos digo estas coi-
templos, mulheres provocantes e ços. Tudo o que ele diz, ele o diz com sas que elas são verdadeiras e se rea-
tipos importunos, bons e maus. No sua soberana autoridade, que nada lizam! Aquele que fala aqui, é tam-
detalhe de sua vida diária, não há tem a ver com aquela dos escribas bém Aquele cuja palavra é criadora.
um só gesto, uma só palavra, um só e dos fariseus (cf. Mt 7,28) e não é, “Ele diz e a coisa acontece”, “ele dá
olhar, um sentimento que não pos- em grau algum, a de um moralis- a vida aos mortos e chama as coi-
sa ter, para o destino eterno de ca- ta ou de um filósofo. sas que não são mais como se elas
da homem, um alcance e um peso existissem” (Rm 4,17).
Seu ensinamento não pode ser rece-
bido de modo independente, como se Quando Jesus se dirige ao ho-
ele se tratasse de um conjunto de sen- mem e diz: “Faz isto!”, esse homem
tenças ou conselhos que fosse possí- que não existe é chamado à exis-
vel seguir de maneira autônoma, sem tência, o morto ressuscita, o peca-
se preocupar também com o Mestre dor condenado pela Lei de Deus se
que os dá. põe a viver por sua graça. O man-
damento que dá a morte torna-se,
É precisamente para evitar em seus quando Jesus Cristo o dirige a mim,
ouvintes o erro, tão fácil, de sepa- uma esperança viva: a descrição de
rar seu ensinamento de sua pes- minha vida em Jesus Cristo.]
soa, que Jesus introduz cada um de
seus ensinamentos pela fórmula (“L’Évangile du Royaume”, Ed.
seis vezes repetida: “EU, porém, vos Je Sers, Paris, 1942)
digo...” Ele não se apoia em nenhu-
ma outra autoridade, exceto em si HÉBERT ROUX [1902-1980] nasceu em
mesmo, não porque ele se ponha Montauban, França. Licenciado em le-
em lugar da Lei da antiga aliança, tras e em teologia, foi consagrado pas-
tor da Igreja Reformada. Identificou-
[30 OLUTADOR [ OUTUBRO 2019 se com a teologia de Karl Barth e rea-
lizou estudos bíblicos com seus paro-
quianos, reunidos no livro “L’Évangile
du Royaume”. Foi interlocutor oficial
de sua Igreja junto aos católicos e rea-
lizou importante atividade ecumênica
na Conferência de Oxford. Foi observa-
dor no Concílio Vaticano II.]
Roteiros Pastorais
Leitura Orante 32 • Tudo em Família 33
Dinâmica para Grupo de Jovens 33
Catequese 34 • Homilética 36
OUTUBRO 2019 [ OLUTADOR]31
Leitura Orante [ Orar...
"Orar sempre, orar sem desanimar." (Lc18,1)
A. Situando o texto dos excluídos, dá alegria aos afli- Todos: Ouvi, Senhor a minha oração!
O Evangelho nos convida a manter tos, renova e transforma toda cria-
uma relação estreita, íntima, insis- tura, santifica e oferece a vida eter- b. Deus fiel, vós que escutais o clamor
tente e confiante com Deus. Estas na. “Onde está Deus”? Não poucas do vosso povo, volvei vosso olhar de
atitudes nos permitem entrar em vezes diante de tantas realidades e Pai para os sofredores, para os que
comunhão com Ele e a nos dispor- acontecimentos, essa é a nossa per- clamam com confiança e dai-lhes
mos a fazer a Sua vontade. A oração, gunta. Deus não abandonou e nem sentir o vosso amor.
feita com perseverança, é expres- abandona seu povo, nem mesmo é
são e, ao mesmo tempo, alimento insensível aos seus apelos. Resta- c. Deus justo e bom, que nunca aban-
da fé em Deus. Vamos ouvir o que o nos moderar nossa impaciência e donastes o vosso povo, ensinai-nos
Senhor nos diz: confiar em que Ele não deixará de a nunca desanimar em meio às di-
intervir para nos libertar. ficuldades da vida e a acreditarmos
Cantando: A vossa Palavra, Senhor, é sempre na vossa presença.
sinal de interesse por nós. (bis) Cantando: Creio Senhor, mas aumen-
tai minha fé! (bis) (Outras preces espontâneas)
B. O que o texto diz em si
A oração é um diálogo com Deus, E. O que o texto sugere
Ler na Bíblia: Lucas 18,1-8. um ato de fé, de comunhão, de in- para nossos dias?
timidade. Através dela percebemos - Tenho sido perseverante na ora-
Chave de Leitura: quem é Deus, seu amor, sua bonda- ção? Em que posso melhorar?
de, sua misericórdia. Porque somos
1. O que Jesus nos ensina nesse texto? amados por Ele e buscamos amá-lo, F. Tarefa concreta
devemos manter, de maneira per- Participar das iniciativas do mês
2. Por qual motivo o juiz injusto aten- severante e esperançosa, nossa vi- missionário em sua paróquia ou
deu à viúva? da de oração. comunidade.
3. Qual a diferença entre o Juiz in- Cantando: Deus é amor. / Arrisque- Encerramento
justo e Deus? mos viver por Amor. / Deus é Amor. Deus Pai, que em Jesus Cristo, vos-
/ Ele afasta o medo. so Filho amado, entrastes em rela-
4. O que o exemplo da viúva e a ati- ção conosco e nos destes a conhe-
tude de Deus têm a nos dizer? D. O que o texto nos faz dizer a Deus? cer vosso projeto de vida e salvação,
ajudai-nos a assumir a missão que
C. O que o texto diz para nós a. Deus de amor, de bondade e de ter- nos confiastes no coração do mundo.
O Evangelho de Jesus, a Sabedoria nura, concedei ao nosso coração a
de Deus, é espírito e vida, faz levan- vossa graça, e renovai em nós a fé, - Peça a Deus a graça de perseve-
tar os caídos, restitui a dignidade a esperança e o amor. rar no seguimento a Jesus...
[32 OLUTADOR [ OUTUBRO 2019 (Baseado em um texto do Pe. Joel,
Arquidiocese de BH)]
Tudo em Família [ 70 – Genética...
A boa genética
1. Coisas que acontecem 2. Pensando juntos um ser humano no momento em
que os esposos o formem pela sua
Fim de ano, reuniu-se a família pa- As escolas recebem alunos com de- união de amor”.
ra celebrar o Natal: os avós, os filhos ficiências motoras e neurológicas
e os netos. Os jovens organizaram que se explicam pelo alcoolismo dos 3. Para uma reunião de casais
uma espécie de “amigo oculto”. Ca- pais. O noticiário fala de crianças - Você percebe em si mesmo os tra-
da um recebeu o nome do familiar a recém-nascidas que já manifestam ços herdados dos pais e avós? Per-
quem deveria entregar um cartão de síndrome de abstinência porque as cebe as influências positivas que re-
Natal de sua própria criação. A ne- mães usavam drogas durante a gra- cebeu de seus antepassados? Já ma-
ta universitária elaborou um cartão videz. Tais fatos apontam que mui- nifestou gratidão por isso?
todo enfeitado, onde escreveu: “Vô, tos pais ignoram a dignidade de seu
muito obrigado pela boa genética, papel como transmissores de vida. - Durante o namoro e o noi-
por me instruir no caminho do Se- vado, você recebeu algum tipo de
nhor e por todo o seu amor”. Ao gerar filhos, a pessoa huma- formação sobre sua responsabi-
na colabora com Deus criador mais lidade como futuro transmissor
A mensagem valorizava algo que do que em qualquer outra atividade da vida?
muitas vezes fica esquecido: os pais humana. De certo modo, “Deus su-
passam para filhos e netos uma “ge- bordina sua ação à dos esposos, co- - Em seu lar, os filhos estão re-
nética”, que abrange aspectos físicos, menta Jacques Leclercq, porque es- cebendo a formação cristã essencial
mentais e espirituais. Isto deveria pera, para criar a alma, que os pais para que levem a sério sua missão
servir de motivação para os casais tenham preparado na sua união o de futuros pais e mães?
cuidarem de si mesmos em vista germe de que a alma fará um ser
dos futuros descendentes. humano; e a alma fará do germe - Participa de algum grupo de
casais? Já pensou em participar?]
30 segundos — Dinâmicas para Grupo de Jovens [ 70
Participantes: 10 a 30 pessoas “saber escutar e falar”, e introduzir - Conseguimos sintetizar nos-
Tempo estimado: 30 minutos questões como: sas opiniões de maneira clara e ob-
Modalidade: Debate. jetiva?]
Objetivo: Estimular a participação de - Sabemos respeitar e escutar (e
todos por igual nas reuniões e evi- não simplesmente ouvir) a opinião Fonte: pt.scribd.com
tar interrupções paralelas. do outros?
Material: Nenhum.
Descrição: O coordenador apresenta OUTUBRO 2019 [ OLUTADOR]33
um tema a ser discutido pelo grupo.
Baseado neste tema, cada integrante
tem trinta segundos para falar so-
bre o assunto apresentado, sendo
que ninguém, em hipótese alguma,
pode ultrapassar o tempo estipula-
do, ao mesmo tempo em que os ou-
tros integrantes devem manter-se
em completo silêncio.
Se o comentário terminar antes
do término do tempo, todos devem
manter-se em silêncio até o final
deste tempo. Ao final, o tema pode
ser, então, debatido livremente. O
coordenador também pode desviar,
utilizando como tema, por exemplo,
Roteiros para catequese [ CELEBRAÇÕES
1. ❝Neste caminho
Celebração para conhecemos
encerramento como tu és o Criador
da catequese de tudo e que nos amas
(1ª Eucaristia) apesar de nossas infidelidades.❞
Oração inicial c) Se Jesus é a videira, quem somos Oração final
Pai santo, estamos no final desta nós? Vamos concluir nossos encontros
etapa da catequese. Neste caminho com uma bênção. Ela foi tirada do
conhecemos como tu és o Criador d) O que acontece com quem fica Antigo testamento, do Livro dos Nú-
de tudo e que nos amas apesar de unido a Jesus? meros. É chamada a bênção de Aa-
nossas infidelidades. Reconhece- rão, o irmão de Moisés. Para fazer
mos que Jesus Cristo foi enviado e) Sem Jesus, o que podemos fazer? esta bênção, cada um de nós colo-
para abrir-nos os olhos e o coração Destacar frases importantes. cará seu braço direito sobre o ombro
para o amor. Obrigado, Pai santo, (*Refletir sobre a passagem bíblica) esquerdo do colega ao lado e, assim,
obrigado por Jesus Cristo, nosso Se- formaremos um círculo, uma cor-
nhor. Amém Atividade rente de união. Depois todos juntos
Cada catequizando receberá um pronunciamos a oração:
Motivação balão e uma folha de papel. Para
Chegamos ao fim desta etapa da preparar a festa de encerramen- - Deus te abençoe e te guarde! Amém!
catequese. Começamos vendo co- to, vamos escrever nos papéis o que
mo Deus criou tudo por amor, mas aprendemos da Bíblia na cateque- - Ele te mostre a sua face e se com-
o ser humano quebrou o pacto com se deste ano. Colar com fita adesi- padeça de ti. Amém!
Deus. Para refazer a aliança, o Pai va nos balões. Pendurar os balões
enviou seu filho Jesus. Nos encon- na sala da festa. - Volva para ti o seu olhar e te dê a
tros, refletimos o nascimento, a vi- paz! Amém.
da, a morte e a ressurreição de Je- Isto servirá para fazer uma re-
sus. Depois, vimos como o Antigo visão do que foi visto na caminha- Este planejamento foi retirado
Testamento todo aponta para Je- da e também para celebrar o ano. do livro: Iniciação à Eucaristia,
sus. De Abraão até os profetas há Sobre a mesa da catequese, colo- livro 1, Leomar A. Brustolin,
uma história marcada por alegrias car alimentos e bebidas para se- Ed. Paulinas,
e tristezas, de santos e pecadores rem partilhados. Fazer uma festa p. 220 a 225.]
que trilharam o caminho do Povo de encerramento. Antes de iniciar
de Deus. Também somos parte des- a festa, fazer uma oração.
ta família. Em nossa vida, no dia
a dia, Deus continua a caminhar [34 OLUTADOR [ OUTUBRO 2019
conosco.
- De todo o tempo da catequese,
qual a passagem da Bíblia que mais
lhe chamou a atenção? Por quê?
Leitura orante: João 15,4-5
“Eu sou a videira e vocês os ramos”
Fazer a reconstrução do texto:
a) A quem devemos estar unidos?
b) O que acontece com o ramo que
não fica unido à videira?
2. ❝Não é obrigatório
Para que o dízimo seja de 10% do salário,
recordar: nem o Catecismo nem o Código de Direito
os mandamentos Canônico obrigam esta porcentagem,
da Igreja mas é bom e bonito se assim o for.❞
Além dos Dez Mandamentos 3 - “Receber o sacramento da Euca- de ‘elevação espiritual’ e penitência
que conhecemos, existem ristia ao menos pela Páscoa da res- que nos preparam para as festas li-
os Cinco Mandamentos da Igreja. surreição.” O período pascal vai da túrgicas; contribuem para nos fa-
Páscoa até a festa da Ascensão e ga- zer adquirir o domínio sobre nossos
1 - “Participar da missa inteira nos rante um mínimo na recepção do instintos e a liberdade de coração”.
domingos e outras festas de guarda Corpo e do Sangue do Senhor em li-
e abster-se de ocupações de traba- gação com as festas pascais, origem 5 - “Ajudar a Igreja em suas necessi-
lho.” Ordena aos fiéis que santifi- e centro da liturgia cristã. Também dades materiais.” Recorda aos fiéis
quem o dia em que se comemora a é muito pouco comungar ao menos que devem ir ao encontro das ne-
ressurreição do Senhor, e as festas uma vez ao ano. A Igreja recomen- cessidades materiais da Igreja, ca-
litúrgicas em honra dos mistérios da (não obriga) a comunhão diária. da um conforme as próprias possi-
do Senhor, da santíssima Virgem bilidades. Não é obrigatório que o
Maria e dos santos, em primeiro lu- 4 - “Jejuar e abster-se de carne, con- dízimo seja de 10% do salário, nem
gar participando da celebração eu- forme manda a Santa Mãe Igreja.” No o Catecismo nem o Código de Di-
carística, em que se reúne a comu- Brasil, isso deve ser feito na Quar- reito Canônico obrigam esta por-
nidade cristã, e se abstendo de tra- ta-feira de Cinzas e na Sexta-feira centagem, mas é bom e bonito se
balhos e negócios que possam im- Santa. Este jejum consiste em um assim o for. O importante é, como
pedir tal santificação desses dias. leve café da manhã, um almoço le- disse São Paulo, dar com alegria,
ve e um lanche também leve à tar- pois “Deus ama aquele que dá com
Os Dias Santos – com obrigação de, sem mais nada no meio do dia. alegria” (cf. 2Cor 9,7).
de participar da missa, são estes, Quem desejar pode fazer um jejum
conforme o Catecismo: “Devem ser mais rigoroso; o obrigatório é o mí- Nota: Conforme preceitua o Código
guardados (além dos domingos) o nimo. Os que já têm mais de ses- de Direito Canônico, as Conferências
dia do Natal de Nosso Senhor Je- senta anos estão dispensados da Episcopais de cada país podem es-
sus Cristo, da Epifania (domingo no obrigatoriedade, mas podem fazê tabelecer outros preceitos eclesiás-
Brasil), da Ascensão (domingo) e do -lo se o desejarem. Diz o Catecismo ticos para o seu território.]
Santíssimo Corpo e Sangue de Cris- que o jejum “determina os tempos
to (Corpus Christi), de Santa Maria,
Mãe de Deus (1º de janeiro), de sua OUTUBRO 2019 [ OLUTADOR]35
Imaculada Conceição (8 de dezem-
bro) e Assunção (domingo), de São
José (19 de março), dos Santos Após-
tolos Pedro e Paulo (domingo) e, por
fim, de Todos os Santos (domingo)”.
2 - “Confessar-se ao menos uma vez
por ano.” Assegura a preparação
para a Eucaristia pela recepção do
Sacramento da Reconciliação, que
continua a obra de conversão e per-
dão do Batismo. É claro que é pouco
se confessar uma vez ao ano; seria
bom que cada um se confessasse ao
menos uma vez por mês, pois fica
mais fácil de se recordar dos peca-
dos e de ter a graça para vencê-los.
Homilética [ 24•11•2019 “Jesus, lembra-te
de mim quando entrares
no teu reinado!”
Leituras da Semana (Lc 23,35-43)
Solenidade [dia 25: Dn 1,1-6.8-20; (Sl) Cânt. Dn 3,52-56; Lc 21,1-4
de Nosso Senhor [dia 26: Dn 2,31-45; (Sl) Cânt. Dn 3,57-61; Lc 21,5-11
[dia 27: Dn 5,1-6.13-14.16-17.23-28; (Sl) Cânt. Dn 3,62-67; Lc 21,12-19
Jesus Cristo, [dia 28: Dn 6,12-28; (Sl) Cânt. 68-74; Lc 21,20-28
Rei do Universo [dia 29: Dn 7,2-14; (Sl) Cânt. Dn 3,75-81; Lc 21,29-33
[dia 30: Rm 10,9-18; Sl 18[19A],2-5; Mt 4,18-22
Leituras: 2Sm 5,1-3; Sl 121[122]; observâncias religiosas (cf. 2,16.21.23). Jesus é o servo escolhido por Deus,
Cl 1,12-20; Lc 23,35-43 A Carta procura corrigir a comunida- que assumiu até às últimas conse-
de e salienta: quências sua messianidade; ele veio
1. Davi, figura do Messias. A liturgia salvar a humanidade, trazer vida pa-
de hoje escolhe este texto, em que Da- a) A origem divina da iniciativa da ra os marginalizados e assumir um
vi é aclamado rei de todo Israel, para salvação (vv. 12-14). reinado somente reconhecido pelos
simbolizar a universalidade do rei- pequenos e excluídos.
nado de Jesus. Com a morte de Saul, Foi o Pai que nos permitiu partici-
Davi é ungido rei (2Sm 2,4.7) sobre Ju- par da herança dos cristãos na luz; O patíbulo da cruz é seu trono de
dá durante sete anos e meio. Depois é como pagãos, vivíamos nas trevas. glória. Tudo isso é algo que ultrapas-
eleito rei sobre as tribos do Norte (2Sm Agora, vivemos numa comunidade, sa a nossa lógica, é algo fora do “bom
5,3) e reina sobre todo o Israel durante em que Jesus é nossa luz. senso”; por isso, enquanto aqueles que
trinta e três anos, unificando todas as vivem fora da lógica dos grandes o
tribos (1Rs 2,11). Por quais motivos Da- b) Jesus é o Rei de todo o universo (18- aceitam, os letrados e donos do mun-
vi foi escolhido rei também das tribos 20). Ele é nosso Salvador, a plenitude do o rejeitam.
do Norte? Por causa da fraternidade do humano e do divino. Ele reina so-
de raça (v. 1), sua experiência militar bre o universo inteiro. Vemos Jesus A atitude do bom ladrão simboliza
e as bênçãos de Deus (v. 2). como raiz, centro e ponto de unida- e sintetiza a caminhada de fé de todos
de de toda a criação, pois Deus criou os que creem e aceitam Jesus como
Vemos assim, em 2Sm 5,1-5, o perfil seu Rei e Salvador. Os outros evange-
da autoridade em três traços princi- tudo em Jesus (as coisas da terra e as listas não narram este diálogo. Para
pais: a) a verdadeira autoridade exer- coisas do céu, as coisas visíveis e as Lucas, quais são os passos da cami-
ce a liderança pela liberdade e justiça invisíveis). nhada de fé para Lucas?
(v. 2a); b) a consciência de que o povo
pertence a Deus (v. 2b); O líder é um Que lugar Jesus ocupa na sua vida? Primeiro: o reconhecimento do nos-
pastor que dá segurança e vida para Jesus conseguiu seu reinado aliando- so pecado. Todos somos pecadores e
o povo; c) a autoridade autêntica sa- se aos poderosos ou aos marginali- merecemos a condenação. Ao reco-
be conviver com as lideranças popu- zados e excluídos? nhecer o nosso pecado, confessamos
lares (os anciãos de Israel (v. 3a), par- a inocência de Jesus.
tilhando o poder. 3. O início do Reino. Muitos gostariam
de ver os evangelhos como uma re- Segundo: a profissão de fé na reale-
Davi torna-se assim o unificador portagem televisiva, ou pelo menos za de Jesus. Jesus é rei, apesar de não
do povo de Deus e símbolo do rei ideal. lê-los como uma crônica, com seus estarmos percebendo isto claramen-
Após o exílio, o povo sonha com um pormenores históricos. Aos evange- te aqui e agora.
novo Davi. Sua importância cresceu listas não interessa tanto a crônica,
por ser ele o antepassado profético a história em si, mas o testemunho Terceiro: a súplica pela salvação:
de Jesus, o Messias, chamado filho de fé da comunidade, ou o testemu- “Lembra-te de mim quando vieres em
de Davi. Por todas as qualidades de nho de uma comunidade de fé. O que teu reino”. (v. 42).
líder e de unificador das tribos, tor- nos interessa na narração da Paixão
nou-se figura do Messias, que iria go- é o significado da pessoa de Jesus e A resposta de Jesus é uma garan-
vernar todo o universo (cf. 2a leitura). do seu gesto de amor. tia digna de fé: “Eu lhe garanto: Ho-
je mesmo você estará comigo no pa-
2. Jesus é Rei. Na comunidade de Co- [36 OLUTADOR [ OUTUBRO 2019 raíso”. O Reino de Deus começa aqui
lossos, misturavam-se elementos ju- e agora para quem tem fé. O início
daicos e cristãos, e mesmo pagãos. A do Reino de Deus começa com o mo-
soberania de Jesus estava sendo pos- vimento de conversão e reconheci-
ta em dúvida diante de poderes an- mento do próprio pecado.
gélicos, outras forças cósmicas e ou-
tros seres intermediários, no mesmo Quem começa a sair das gargan-
plano do único mediador Jesus Cristo. tas destruidoras desta estrutura de
Além disso, buscavam uma série de pecado e morte começa a entrar no
Reino, começa a refazer o paraíso per-
dido. Só os excluídos têm facilidade
em dar esse passo de vida, pois eles
não estão agarrados a esta estrutu-
ra de morte.]
Homilética [ 1º•12•2019 “Ficai atentos!”
(Mt 24,42)
1º Domingo Leituras da Semana
do Advento
[dia 2: Is 4,2-6; Sl 121[122],1-9; Mt 8,5-11
[dia 3: Is 11,1-10; Sl 71[72],1-2.7-8.12-13; Lc 10,21-24
[dia 4: Is 25,6-10a; Sl 22[23],1-6; Mt 15,29-37
[dia 5: Is 26,1-6; Sl 117[118],1.8-9.19-21.25-27a; Mt 7,21.24-27
[dia 6: Is 29,17-24; Sl 26[27],1.4.13-14; Mt 9,27-31
[dia 7: Is 30,19-21.23-26; Sl 146[147A],1-6; Mt 9,35 – 10,1.6-8
Leituras: Is 2,1-5; Sl 121[122]; cristãos que assumiram a vida no- 3. Vigiem comigo! Mt 24 e 25 formam
Rm 13,11-14a; Mt 24,37-44 va com Cristo. A expressão “vocês co- o discurso escatológico, onde apare-
nhecem o tempo” (kairós, em grego) cem dois temas importantes. O pri-
1. A paz total. “Este oráculo é um acrés- é uma referência ao tempo da atua- meiro diz respeito ao fim do Templo e
cimo posterior e relembra os temas ção da graça de Deus e da salvação. à destruição de Jerusalém, que marca
do Terceiro Isaías (Is 56-66): no fu- Nesse tempo, o comportamento de- o início de uma nova época surgida
turo, os povos pagãos se dirigirão a ve ser novo, ou seja, fundamentado da prática de Jesus e seus seguidores.
Jerusalém para participar da Alian- no amor (vv. 8-10). O segundo é o desconhecimento em
ça, e então haverá paz definitiva.” O relação à vinda do Filho do Homem e
v. 1 mostra claramente que se trata Aqui aparece a imagem do des- a consequente vigilância ativa.
de uma visão para o futuro, não um pertar do sono, pois a salvação já está
futuro que se deve esperar, mas sim, mais perto de nós agora do que quando É sobre este segundo tema que
um futuro que deve ser antecipado começamos a acreditar. Depois apa- trata o Evangelho de hoje. Ninguém
no presente a partir de uma tomada recem as imagens da noite e do dia. A sabe quando será o fim (v. 36). Mas
de consciência dos empobrecidos que noite vai avançando e o dia está pró- é bom lembrar que a segunda vinda
mantêm acesas suas esperanças de ximo. A noite corresponde às obras de Cristo e o fim do mundo serão um
dias melhores e sua coragem de lutar. das trevas, ou seja, uma vida desones- acontecimento só. Jesus compara sua
ta com orgias, bebedeiras, prostitui- vinda ou o fim do mundo ao tempo
O monte do Templo de Javé é a ção e libertinagem, brigas e ciúmes. de Noé. Ninguém percebia nada. Foi
cidade de Jerusalém, que está cons- só Noé entrar na arca e veio o dilúvio
truída sobre o monte de Sião. Ali está O dia corresponde às armas da e arrasou a todos; do mesmo modo
o Templo. O monte era o lugar onde o luz. É a imagem da veste do sol- ninguém vai perceber quando Jesus
povo se encontrava com Deus. Isaías dado romano, suas armaduras de voltar. Será de uma hora para a ou-
quer dizer que, um dia, o mundo todo guerra. Vestir as armas da luz é fu- tra. O importante é vigiar.
vai prestar culto ao único Deus ver- gir dos vícios que a noite propicia
dadeiro. Do Templo, Deus mostrará e, como afirma o v. 14, vestir-se do Os vv. 40-41 falam que “dois ho-
seus caminhos a todos os povos. “De Senhor Jesus e não seguir os de- mens estarão trabalhando no cam-
Sião sairá a Lei, e de Jerusalém a Pa- sejos dos instintos egoístas relem- po: um será levado, e o outro será
lavra de Javé”. Nesse templo, “Deus brados no v. 13. “Liberto do egoísmo deixado”. O mesmo acontecerá com
julgará as nações e será o árbitro de que corrompe a pessoa e a socieda- duas mulheres que estão moendo
povos numerosos”. de, o cristão vive a madrugada de no moinho. Qual será o critério para
um tempo novo.” esta seleção? É, sem dúvida, o crité-
Então, haverá paz total e um re- rio do compromisso com Jesus Cris-
lacionamento novo entre os povos. Através do batismo, através do to. Há quem trabalhe construindo
As armas serão transformadas e não compromisso sério com Cristo, o o futuro através da vigilância ati-
haverá mais treinamento para a guer- cristão percebe que a longa noite va. Estes estão preparados. Sua ca-
ra. Os instrumentos de destruição, da injustiça e do pecado já vai dan- sa não será arrombada, pois vivem
espadas e lanças, serão transforma- do lugar a uma madrugada de tem- vigiando. Há, entretanto, quem viva
dos em instrumentos de produção de pos novos. Foram os vv. 13 a 14 que como se o futuro não existisse. Não
vida, enxadas e foices. Quem vai pu- ocasionaram a conversão de San- leva a vida com seriedade. Não an-
xar a fila será a casa de Jacó, ou seja, to Agostinho. da vigilante, nem preparado. Quan-
o povo de Deus: “Venha, casa de Ja- do vier o ladrão ele não poderá evi-
có; vamos caminhar à luz de Javé”. OUTUBRO 2019 [ OLUTADOR]37 tar o roubo.
Você, como cristão, está puxan- Vigiar é comprometer-se com Je-
do esta fila na caminhada para os sus. Em Mt 26,28.40.41, na agonia de
novos tempos? Jesus no Jardim das Oliveiras, ele pede
aos discípulos: “Fiquem aqui e vigiem
2. Um tempo novo. É interessante ob- comigo” (v.38). Vigiar é, portanto, ser
servar as imagens usadas por Paulo. solidário com Jesus, partilhar a vi-
Todas se referem aos compromissos da com os mais pobres, ser solidário
batismais lembrados aos primeiros com o irmão na alegria e na tristeza.]
Homilética [ 8•12•2019 “Alegra-te,
cheia de graça,
o Senhor está contigo!”
Leituras da Semana (Lc 1,28)
Imaculada [dia 9: Is 35,1-10; Sl 84[85],9ab-10-14; Lc 5,17-26
Conceição [dia 10: Is 40,1-11; Sl 95[96],1-3.10ac.11-13; Mt 18,12-14
de N. Senhora [dia 11: Is 40,25-31; Sl 102[103],1-4.8.10; Mt 11,28-30
[dia 12: Gl 4,4-7; Sl 95[96],1-3.10; Lc 1,39-47
[dia 13: Is 48,17-19; Sl 1,1-4.6; Mt 11,16-19
[dia 14: Eclo 48,1-4.9-11; Sl 79[80],2ac.3b.15-16.18-19; Mt 17,10-13
Leituras: Gn 3,9-15.20; Sl 97[98]; Jesus, com seu mistério da encar- vai ver realizadas suas esperanças.
Ef 1,3-14; Lc 1,26-38 nação, paixão, morte e ressurreição, As bênçãos aconteceram e o Misté-
vence a serpente, a autossuficiência rio do Reino foi revelado sobre nós.
1. A serpente vencida. O texto retrata humana e restaura com sua graça a
uma época de opressão semelhan- dignidade humana perdida – sua ima- O anjo saúda Maria, convidan-
te à sofrida pelo povo hebreu no Egi- gem e semelhança com Deus, dan- do-a a alegrar-se, pois o Senhor es-
to, sob o jugo do Faraó, como tam- do-lhe nova chance de habitar o pa- tá com ela, repleta dos favores de
bém a opressão babilônica. É o tem- raíso perdido. É a Boa Nova do Reino. Deus. A alegria dos tempos messiâ-
po de Salomão. As histórias da ár- nicos já começa a aparecer. O Mes-
vore, do paraíso e da serpente são 2. A adoção filial. Paulo começa ben- sias, o continuador da dinastia de
uma pesada crítica à absolutização dizendo ao Pai, que em Cristo nos Davi, nascerá do seio de Maria, e seu
do poder, do ter e do saber. Poder, cumulou com toda espécie de bên- reino não terá fim. As profecias refe-
ter e saber, quando absolutizados, se çãos; é um hino de louvor, compos- rentes ao Messias vão-se realizan-
tornam ídolos geradores de morte. to de seis bênçãos, se o prolongar- do. No caso, a profecia de Natã (cf.
mos até o versículo 14. Em síntese, 2Sm 7,1-5.8b-12.19a.25-26).
Tudo isso é culpa da serpente. Por o Pai nos abençoou em Cristo com
quê? Porque ela simboliza a autossu- a eleição (v. 4), a predestinação (vv. Maria pergunta como isso vai
ficiência humana. O homem autos- 8-10), a redenção (v. 17), a recapitu- acontecer e o anjo responde que é
suficiente acha que não precisa dos lação (vv. 8-10), a herança (vv.11-12) pelo poder do Espírito Santo que ela
outros nem de Deus. Ele se basta a si e o Espírito Santo (vv. 13-14). conceberá. Maria não entende nada
mesmo, ocupa assim o lugar de Deus. do que está acontecendo, mas acolhe
No auge do seu orgulho, despojado Deus nos escolheu, antes da cria- com o coração aberto o mistério do
de toda a graça de Deus, o homem ção do mundo, para sermos santos amor de Deus. Deus mostra a inde-
percebe que está nu, por isso se es- e sem defeitos no amor. “Santos e pendência e a liberdade do seu agir
conde envergonhado e amedronta- sem defeitos” é referência aos sa- na história. José não tomará parte
do. Sua autossuficiência estraga seu crifícios judaicos, cujas vítimas não na gravidez de Maria, mas assegu-
relacionamento com Deus e com o podiam ter manchas ou defeitos. Fo- rará legalmente a filiação davídica
seu semelhante. Ignora a obediência mos destinados a ser “filhos adoti- de Jesus, pois ele é descendente de
e o serviço (vv. 10-11), por isso o ho- vos”. O Filho é sempre da mesma Davi. Jesus é assim filho de Deus e
mem acusa a mulher. A autossufi- natureza do Pai. Assim é Jesus. Mas filho de Maria. Não tem pai huma-
ciência conduz à irresponsabilidade. nós não somos da mesma nature- no, apenas mãe. Para mostrar que
za de Deus. Deus é divino, nós so- para Deus nada é impossível, o an-
Depois da maldição da autossu- mos humanos; entretanto, Deus nos jo revela a gravidez de Isabel, que
ficiência e do orgulho, fonte de todo adotou como filhos em Jesus Cris- era estéril e já estava no sexto mês.
pecado, aparece no v. 15 o que os es- to, por isso somos filhos adotivos. A
tudiosos chamam de protoevange- finalidade é o “louvor e a glória da O sim de Maria significa crer; crer
lho: uma espécie de anúncio evan- própria gratuidade da ação divina”. significa confiar apesar da obscuri-
gélico antecipado no Primeiro Tes- dade. Maria se coloca como a serva.
tamento. Depois que o texto diz que 3. O mistério revelado. O pequeno Serva com toda liberdade. Serva, aqui,
Deus põe inimizade entre a “serpen- grande-anúncio evangélico de Gn 3,15 não significa escrava, pois Deus não
te” (= autossuficiência humana) e a (1a leitura) vai ser agora plenamente quer escravos, mas livres. No Sim de
mulher (criada à imagem e seme- revelado em Jesus Cristo. Também o Maria, nós a vemos como modelo pa-
lhança de Deus), vem esta linda fra- mistério das bênçãos amorosas do ra todos os que creem, inteiramen-
se para corrigir tudo o que houve de Pai, lembradas na Segunda Leitura, te a serviço da Palavra de Deus que
errado no mundo: “Esta (a descen- tem início com o “sim” da Imacula- anuncia tempos novos e gera uma
dência da mulher, isto é, Jesus) te da Virgem Maria, como resposta ao sociedade nova. Maria está a servi-
ferirá a cabeça e tu (“a serpente” = anúncio do anjo Gabriel. Em Jesus, ço de Jesus, Palavra que se fez carne.
autossuficiência humana) lhe feri- o Filho da Virgem Imaculada, o povo Mais tarde, Maria vai nos revelar os
rás o calcanhar”. segredos do Reino: “Fazei tudo o que
[38 OLUTADOR [ OUTUBRO 2019 ele vos disser!” (Jo 2,5).]
Homilética [ 15•12•2019 “Ele vai preparar
o caminho diante de ti.”
(Mt 11,10)
3º Domingo Leituras da Semana
do Advento
[dia 16: Nm 24,2-7.15-17a; Sl 24[25],4b-5b.6-7c.8-9; Mt 21,23-27
[dia 17: Gn 49,2.8-10; Sl 71[72],1-4ab.7-8.17; Mt 1,1-7
[dia 18: Jr 23,5-8; Sl 71[72],1-2.12-13.18-19; Mt 1,18-24
[dia 19: Jz 13,2-7.24-25a; Sl 70[71],3-4a.5-6b.16-17; Lc 1,5-25
[dia 20: Is 7,10-14; Sl 23[24],1-4b.5-6; Lc 1,26-38
[dia 21: Ct 2,8-14 ou Sf 3,14-18; Sl 32[33],2-3.11-12.20-21; Lc 1,39-45
Leituras: Is 35,1-6a.10; nhor vai resolver este problema. O perança para todos e até mesmo vi-
Sl 145[146]; Tg 5,7-10; Mt 11,2-11 exemplo tirado da vida do campo da para quem estava morto.
é muito bonito e esclarecedor. É
1. A alegria da volta. Os capítulos 34- o exemplo do agricultor. Ele faz a João, da prisão, manda pergun-
35 são chamados de “Pequeno Apoca- parte dele, depois espera pacien- tar a Jesus: “És Tu, aquele que há
lipse de Isaías”. Eles foram escritos temente o fruto precioso da ter- de vir, ou devemos esperar outro?”
depois do Exílio Babilônico (586-538 ra, até receber a chuva do outono A resposta de Jesus não é teórica,
a.C.). É um anúncio do julgamento e da primavera. “Esta chuva é um mas prática. Ele manda os discípu-
das nações opressoras e a restaura- sinal de que Deus não abandona o los de João contar a ele o que eles es-
ção de Jerusalém. seu povo.” tão ouvindo e vendo da parte de Je-
sus. É exatamente o que foi anun-
Nosso texto fala do retorno a Je- b. A perseverança. O v. 8b diz: ciado na primeira leitura (Is 35,1ss;
rusalém – Sião. Um novo êxodo vai “Também vós, exercei a paciência cf. Mt 15,29-31). Quem tem olhos e
acontecer e o povo oprimido e humi- e firmai vossos corações, porque a ouvidos vai concluir que o Messias
lhado já pode alegrar-se, pois verá a vinda do Senhor está próxima”. É o chegou, vai concluir que Deus visi-
glória de Javé. Deus vingará seu povo, apelo à atitude de perseverança. Só tou o Seu povo.
salvando-o da mão dos opressores um coração forte, numa opção ma-
(v. 4). O texto é profundamente poé- dura, é capaz de aguentar até o fim. No v. 6, Jesus conclui: “E feliz de
tico, cheio de entusiasmo e alegria. O v. 11 dá o exemplo de Jó. Ele aguen- quem não se escandaliza a meu res-
Quem fala tem convicção e certeza tou firme e Deus o recompensou de peito!” Quem é capaz de se escanda-
da força do Deus libertador. A vida modo admirável, pois Deus é rico em lizar de Jesus? Exatamente aqueles
é reconstituída com exuberância. O compaixão e misericórdia. que se alimentam da exploração do
aspecto ecológico salta aos olhos nos povo a quem Jesus socorre.
primeiros versículos. c. A união. Está no versículo 9 com
a recomendação de não se queixa- Quem é João Batista para Jesus?
2. Perseverar até o fim. Quem ler os rem uns dos outros. É preciso deixar João é mais do que um profeta (v.9),
seis primeiros versículos do capítu- o julgamento para o Juiz supremo, o maior de todos os homens. Con-
lo 5º vai perceber no apóstolo Tiago que já está às portas. victo de sua missão de precursor do
a veemência dos profetas da justiça Messias (v. 10), ele não se deixou le-
social, uma atitude e um palavrea- d. O exemplo dos profetas: Aqui, var pelo sistema (não era um caniço
do muito próximos de Amós. A ex- no v. 10, os profetas são modelos pa- agitado pelo vento), nem concordou
ploração dos ricos sobre os pobres ra os cristãos através do sofrimen- com a riqueza exploradora (não se
e as retenções dos salários fazem to e da paciência. Eles suportam to- vestia de roupas finas nem morava
com que Tiago fale coisas pesadas dos os maus tratos das lideranças em palácios).
sobre os ricos. injustas e opressoras; não desani-
maram, não perderam a esperan- O menor do Reino de Deus é maior
Diante de tanta opressão e mi- ça nem o pique do anúncio, da de- que João. Depois de tantos e tão gran-
séria, o pobre vai perdendo a espe- núncia e do testemunho, e Deus os des elogios a João Batista, inclusive
rança, ficando impaciente, e o de- recompensou. dizendo que ele é o maior de todos
sânimo de perseverar na luta vai os homens, Jesus conclui: “No en-
tomando conta dele. Jesus está de- 3. A missão de Jesus. João talvez te- tanto, o menor no Reino dos Céus é
morando muito para inverter esta nha se surpreendido com Jesus. Por maior do que ele”. João apenas pre-
situação. Diante deste sofrimento quê? Porque ele anunciou Jesus co- para as pessoas para o encontro de-
dos pobres e explorados, diante de mo um juiz severo que julgaria os finitivo com o Reino de Deus inau-
sua impaciência e falta de perseve- bons e os maus, separando-os co- gurado por Jesus.
rança, Tiago exorta a comunidade a mo se separa o trigo da palha (cf. Mt
assumir quatro atitudes concretas: 3,12). Jesus, entretanto, apareceu su- E esse menor, quem é? São, sem
perando toda expectativa, trazendo dúvida, aqueles a quem Jesus dedica
a. A paciência. “Irmãos, tende pa- vida aos marginalizados, vista para suas ações miraculosas, seus ensi-
ciência até a vinda do Senhor”. O Se- os cegos, saúde para os doentes, es- namentos, sua vida. São as crianças,
os discípulos, os marginalizados, os
OUTUBRO 2019 [ OLUTADOR]39 pequeninos (cf. Mt 10,24; 11,25; 18,1-6).]
Homilética [ 22•12•2019 “José fez conforme
o anjo do Senhor
havia mandado.”
Leituras da Semana (Mt 1,24)
4º Domingo [dia 23: Ml 3,1-4.23-24; Sl 24[25],4-5b.8-9.10.14; Lc 1,57-66
do Advento [dia 24: 2Sm 7,1-5.8b-12.14a.16; Sl 88[89],2-5.27.29; Lc 1,67-79
[dia 25: Is 9,1-6; Sl 95[96],1-3.11-13; Tt 2,11-14; Lc 2,1-14
[dia 26: At 6,8-10; 7,54-59; Sl 30[31],3c-4.6.8ab.16bc.17; Mt 10,17-22
[dia 27: 1Jo 1,1-4; Sl 96[97],1-2.5-6.11-12; Jo 20,2-8
[dia 28: 1Jo 1,5 – 2,2; Sl 123[124],2-5.7b-8; Mt 2,13-18
Leituras: Is 7,10-14; Sl 23[24]; tamento vê a profecia do Emanuel se pela ação do Espírito Santo. São
Rm 1,1-7; Mt 1,18-24 realizar-se plenamente em Jesus, o dois fatos absolutamente novos,
verdadeiro Messias, que realiza as só aceitos na fé.
1. A Virgem conceberá. No tempo da esperanças do povo.
guerra siro-efraimita (ano 734 a.C.), Entre os judeus havia duas eta-
quem reina sobre Judá é Acaz. Síria 2. A missão de Paulo. Paulo é após- pas no casamento. A primeira era
e Israel cercam Jerusalém. A finali- tolo sem ter conhecido Jesus pes- o contrato: durava um ano. Era só
dade era acabar com a dinastia da- soalmente, ou seja, sem pertencer na segunda etapa que se podia con-
vídica, anulando as promessas de ao grupo dos 12. Seu chamado ao viver sob o mesmo teto. Maria en-
Deus a Davi, colocando no reino de apostolado foi de uma maneira mi- contra-se grávida nesta primeira
Judá um rei estrangeiro. raculosa a caminho de Damasco, etapa.
escolhido para anunciar o evange-
Na verdade, em 2Sm 7,12-16, Deus lho aos pagãos. Uma “noiva” grávida poderia ser
havia prometido a Davi que nunca denunciada pelo noivo e apedreja-
lhe faltaria um descendente no tro- Sua missão é o anúncio dessa Boa da. José era justo e escolheu a solu-
no. O povo está em situação difícil. Notícia, antes prometida aos profe- ção melhor: abandonar Maria se-
Sua fé está em jogo, mas o rei Acaz tas. Ela se refere a Jesus, ao Filho de cretamente sem a denunciar. Assim
se preocupa com o poder e, para ga- Deus. Como homem, ele nasceu da ninguém a prejudicaria. Mas talvez
ranti-lo, já havia pedido socorro à família de Deus. Segundo o Espírito José quisesse retirar-se exatamen-
Assíria (cf. 2Rs 16,7). Santo, foi constituído Filho de Deus te porque teria intuído a irrupção do
com poder, através da ressurreição mistério de Deus na vida de Maria,
Por sua absoluta falta de con- dos mortos. muito superior ao matrimônio que
fiança em Javé, Acaz é reprovado pe- ele desejava contrair.
lo profeta Isaías ao trocar Javé pela O centro do seu Evangelho é,
força dos cavalos. É uma idolatria. portanto, Jesus Cristo, sua prega- Aí, ele se curva diante do Onipo-
Aliás, esse rei já foi capaz de sacri- ção, morte e ressurreição. Através tente, retirando-se, exatamente por-
ficar seu filho único aos ídolos (cf. dele, Paulo foi chamado ao aposto- que um homem justo não oferece re-
2Rs 16,3). lado com uma finalidade específi- sistência à força do Altíssimo. Mas o
ca: conduzir todos os povos pagãos anjo intervém e esclarece o profun-
Javé manda seu profeta desafiar à obediência da fé, para a glória do do mistério do plano de Deus. O Es-
o rei para mostrar-lhe Seu poder e nome de Jesus. Com isto Paulo já pírito Santo de Deus está agindo em
proteção. Ele pode pedir qualquer si- quer antecipar sua tese central que Maria. Ela dará à luz um filho e José
nal. Hipocritamente, Acaz respon- a salvação se dá através da fé em tem a incumbência de lhe dar o no-
de que não quer sinal nenhum, pois Jesus Cristo e não através das obras me de Jesus. O v. 24 afirma que José
não quer tentar a Javé. Na verdade, da Lei (cf. 1,16-17). recebeu Maria em sua casa.
ele já havia trocado a força de Javé
pela força do exército assírio. 3. A origem de Jesus. Maria fica grá- O nome de Jesus indica sua mis-
vida pela ação do Espírito Santo. Em são. Jesus significa Deus salva, quer
Eis o sinal da fidelidade de Deus Mt 1,1, fica já claro que Jesus é des- dizer: a missão de Jesus é a salvação
a Suas promessas: “A jovem conce- cendente de Abraão e de Davi, para dos homens. O v. 21 diz claramente:
beu e dará à luz um filho, e o cha- mostrar a continuidade da história “Ele vai salvar o seu povo dos seus pe-
mará pelo nome de Emanuel”. A jo- do povo de Deus, como Deus realiza cados”. Mateus termina mostrando
vem é a esposa do rei. O grande sinal Suas promessas. que em Jesus se realiza, em pleni-
de Deus é uma criança - Ezequias - tude, a profecia de Is 7,14: “A Virgem
o filho de Acaz. Ele subirá ao trono e Se falamos de continuidade, conceberá e dará à luz um filho. E
será esperança para o povo. podemos ao mesmo tempo falar será chamado pelo nome de Ema-
de novidade. É o Filho de Deus que nuel, que significa: Deus está conos-
Rompendo as barreiras do tem- vai nascer entre os homens. Além co”. Emanuel não é propriamente o
po e usando a Bíblia grega - a Sep- disso, a gravidez de Maria acon- nome de Jesus, mas indica o senti-
tuaginta -, onde o termo “jovem” (no tece sem o concurso humano. Dá- do da sua vida: a presença de Deus
hebraico) foi traduzido para o grego no meio de nós.]
pela palavra “virgem”, o Novo Tes- [40 OLUTADOR [ OUTUBRO 2019
Mensagens [ Sabedoria & Poesia
“Uma das grandes conquistas
e benefícios da civilização
e do mundo em que vivemos
é a descoberta
de que não há verdade
para o homem
se ele se nega
ao diálogo.”
(Bernard Bro, O.P.)
Semáforo
SAULO SOARES
A cidade fervilha. Eu, uma ilha cercada de cimento,
O que nos resta de sentimento, sem dó, e endurece.
Nesta festa de rumores, pó e buzinas,
Quem ouvirá minha prece, saberá minha sina, sentirá minhas dores?
Haverá que não me apresse e me diga: vou contigo aonde fores?
A cidade fervilha. Eu, na escotilha dum navio que teima em singrar,
Que queima seu molhado pavio.
Mas, que mar? Que mar? De pedra e gelo? De um sol demasiado frio?
Melhor não sê-lo, melhor não-mar...
No desfiar deste novelo, quem se fia na indiferença,
Desvia os olhos do irmão que passa:
Eis aí sua triste crença, bebe, então, sua amarga taça!
A cidade fervilha. Escuto um choro:
Entre os pés e o cerebelo haverá um coração?
A cidade fervilha. Eu, uma ilha a olhar o semáforo dos olhos do foro... e a gritar:
– Perdão, Senhor, perdão!
OUTUBRO 2019 [ OLUTADOR]41
Variedades [ Culinária & Dicas de português
[ Não Tropece na Língua
[ NORMA CULTA E LÍNGUA-PADRÃO
deTcoerbtoala Para os linguistas, a língua-padrão se te, entretanto, o mesmo professor que
estriba nas normas e convenções agre- ensina essa gramática não consegue
Ingredientes gadas num corpo chamado de gramá- observá-la em sua própria fala nem
tica tradicional e que tem a veleidade mesmo na comunicação dentro de seu
1 pacote de massa folhada pron- de servir de modelo de correção para grupo profissional”. (p. 18.)
ta; 100g de bacon picado miúdo; toda e qualquer forma de expressão
100g de manteiga; 1kg de cebolas linguística. Vamos ilustrar os argumentos aci-
em rodelas bem fininhas; 6 ovos ma expostos. Não há brasileiro – nem
batidos; 100g de queijo parmesão Querer que todos falem e escrevam mesmo professores de português – que
ralado; 1 lata de creme de leite; da mesma forma e de acordo com pa- não fale assim:
1 colher (sobremesa) de cheiro- drões gramaticais rígidos é esquecer-
verde picado; sal e pimenta-do se que não pode haver homogeneidade – Me conta como foi o fim de se-
-reino, a gosto. quando o mundo real apresenta uma mana...
heterogeneidade de comportamentos
Modo de fazer linguísticos, todos igualmente corre- – Te enganaram, com certeza!
tos (não se pode associar “correto” so- – Nos diz uma coisa: você largou
Picar o bacon e acrescentar a man- mente a culto). o emprego mesmo?
teiga. Deixar derreter e fritar as
cebolas. Deixar esfriar e adicio- Em suma: há uma realidade he- Ou mesmo assim:
nar os demais ingredientes (ex- terogênea que, por abrigar diferenças – Tive que levar os gatos, pois en-
ceto a massa folhada), misturan- de uso que refletem a dinâmica so- contrei eles machucados.
do tudo bem. Esticar a massa e cial, exclui a possibilidade de impo- – Conheço ela há muito tempo, é
forrar um pirex. Despejar o re- sição ou adoção como única de uma ótima menina.
cheio. Levar ao forno por uns 30 língua-modelo baseada na gramáti- – Acho que já tinha lhe visto antes.
minutos.] ca tradicional, a qual, por sua vez, es-
tá ancorada nos grandes escritores da Então, se os falantes cultos, aque-
Do livro língua, sobretudo os clássicos, sendo, las pessoas que têm acesso às regras
pois, conservadora. E justamente por padronizadas, incutidas no processo
“Cozinhando sem Mistério”, se valer de escritores é que as prescri- de escolarização, se exprimem desse
ções gramaticais se impõem mais na modo, essa é a norma culta. Já as for-
de Léa Raemy Rangel escrita do que na fala. mas propugnadas pela gramática tra-
& dicional e que provavelmente só se en-
“A cultura escrita, associada ao contrariam na escrita [conta-me como
Maria Helena M. de Noronha Ed. poder social, desencadeou também, foi / enganaram-te / diz-nos uma coi-
O Lutador, Belo Horizonte, MG ao longo da história, um processo for- sa / pois os encontrei / conheço-a há
temente unificador (que vai alcançar tempos / já o/a tinha visto] configuram
Pedidos basicamente as atividades verbais es- a norma-padrão ou língua-padrão.
0800-940-2377 critas), que visou e visa a uma relati-
livraria.olutador.org.br va estabilização linguística, buscan- Se para os cientistas da língua, por-
[email protected] do neutralizar a variação e controlar a tanto, existe uma polarização entre a
mudança. Ao resultado desse proces- norma-padrão (também denomina-
so, a esta norma estabilizada, costu- da “norma canônica” por alguns lin-
mamos dar o nome de norma-padrão guistas) e o conjunto das variedades
ou língua-padrão.” (Faraco, Carlos Al- existentes no Brasil, aí incluída a nor-
berto, “Norma-padrão brasileira”. In ma culta, no senso comum não se faz
Bagno, M. (org.). Linguística da nor- distinção entre padrão e culta. Para os
ma. SP: Loyola, 2002, p.40.) leigos, a população em geral, toda for-
ma elevada de linguagem, que se apro-
Aryon Rodrigues (in Bagno 2002, xime dos padrões de prestígio social,
p.13) entra na discussão: “Frequente- configura a norma culta.
mente o padrão ideal é uma regra de
comportamento para a qual tendem os Fica evidente em todas as consul-
membros da sociedade, mas que nem tas recebidas no sítio Língua Brasil
todos cumprem, ou não cumprem inte- que as pessoas transitam pela nor-
gralmente”. Mais adiante, ao se referir ma culta e norma-padrão sem fazer
à escola, ele professa que nem mesmo distinção entre as duas, pois é real-
os professores de Língua Portuguesa mente tênue a linha demarcatória
escapam a esse destino: “Comumen- entre elas.]
[42 OLUTADOR [ OUTUBRO 2019 Fonte: Língua Brasil
WESLEY FIGUEIREDO* ADCE [ Ética...
OCONVIDADO para falar sobre Conselho de Ética foi tema
o Conselho de Ética no almo- de almoço-palestra da
ço-palestra da ADCE Minas
Gerais foi o vereador Mateus
Simões, recém-empossado presi-
dente do Conselho de Ética Pública
do Estado de Minas Gerais - CONSET.
ADCE Minas GeraisAdvogado,procuradorlicencia-
do da Assembleia legislativa de Mi-
nas Gerais e professor da Faculdade
de Direito Milton Campos, Mateus
Simões é também vereador de Be-
lo Horizonte, eleito no ano passa-
do pelo partido NOVO. O vereador
foi nomeado recentemente pelo Go-
vernador de Minas Gerais, Romeu
Zema, para o CONSET.
Na palestra, Simões afirmou que vi-
vemos um problema longo, contí-
nuo e grave de falta de padrão ético
de comportamento dos agentes pú-
blicos e a ideia do governo estadual
é tentar voltar esse assunto para o
centro das discussões.
“Esse Conselho existe desde 2004, Temos exemplos recentes de em- dos à conjuntura empresarial bra-
mas não havia nomeação para car- presas que sucumbiram por ques- sileira e mundial. Realizado men-
gos há quase seis anos. Para o go- tões éticas”, afirmou Frade. salmente, o evento é uma iniciativa
vernador atual, é importante tra- da ADCE Minas Gerais, em parceria
tar a questão ética como prioridade. O almoço-palestra tem como com o Sistema Fiemg, por meio do
Ele restabeleceu o funcionamento objetivo proporcionar aos empresá- Serviço Social da Indústria - Sesi).]
do Conselho, e a lógica do governo rios e dirigentes de empresas uma
é uma só: nenhum tipo de desvio, oportunidade para ampliar o conhe- *Assessoria de Imprensa
deslize ou ação desconforme po- cimento, estimular o pensamento (31) 3211-7532 | (31) 99147-8152
de ser aceito dentro da estrutura”, crítico e debater temas relaciona-
ressaltou o vereador. “Nenhum ti-
po de flexibilização vai ser possível OUTUBRO 2019 [ OLUTADOR]43
no que diz respeito a padrão ético
em Minas Gerais”, concluiu.
Segundo o presidente da ADCE
Minas Gerais, Sérgio Frade, a ética
é constante na associação e um dos
princípios de um dirigente de em-
presa cristão. “Esse tema é bastan-
te abrangente, é real e presente no
nosso dia a dia, mas acreditamos
que precisa ser estendido, não só
no ambiente de governo, também
nas empresas e de forma indivi-
dual. Precisamos preparar as pes-
soas para que possam agir de forma
coerente com a função que exerce.
Sociedade [ É UMA LEITURA ABSOLUTAMENTE FUNDAMENTAL, QUE PERMITE
Economia da rosquinha:
Impostos sobre capital produtivo. Compartilhar as riquezas da n
De forma simples, porém refinada, Kate Raworth, propõe uma
LADISLAU DOWBOR já beira a idiotice, quando temos 7,4 rosquinha. Como imagem é podero-
bilhões de habitantes consumindo sa, e como a Oxfam tinha desenvol-
CHEGOU um livro para mudar ferozmente. Falar em mercado livre vido esta metodologia, eu também
como pensamos a ciência eco- perdeu qualquer sentido na era dos a vinha utilizando. Em Doughnut
nômica: “Doughnut Economi- gigantes financeiros e das mega- Economics, ela já aparece comple-
cs: 7 ways to think like a 21st corporações articuladas. Pensar a ta. Vale a pena se apropriar de uma
Century Economist” (A economia da economia nacional e, mais ainda, a ideia básica: a de que estamos pro-
“rosquinha”, 7 maneiras de pensar política econômica nacional, na era duzindo algumas coisas em exces-
como um economista do século 21), da globalização, é cada vez menos so, como poluição do ar; e outras de
de Kate Raworth — e publicado nes- realista. Patentes de décadas no rit- forma insuficiente, como educação
se ano no Brasil, pela editora Zahar, mo presente de transformação tec- e saúde. Os excessos aparecem ex-
como Economia Donut: uma alterna- nológica são pré-históricas. Enfim, plodindo para além da rosca e as
tiva ao crescimento econômico. Exa- tantos aspectos da atividade econô- insuficiências não chegam à ros-
gero? Pois essa britânica de Oxford mica mudaram, em particular na ca, ficam no vazio interno.
alia simplicidade e clareza na expo- sua dimensão institucional, que já
sição, com uma revisão em profun- não resolve acrescentar um “neo-” Com esse desenho simples es-
didade de como vemos, analisamos ou um “pós-” às teorias herdadas. tamos saindo do quantitativo do
e contabilizamos as atividades eco- PIB, em que a destruição ambien-
nômicas. Ela inclusive faz a ponte Kate Raworth explica seu modelo tal, como desmatamento ou vaza-
com as teorias herdadas, avaliando De forma simples e direta, Raworth mentos de petróleo, aparece como
seus aportes e fragilidades frente a faz um tipo de reset de como vemos positiva, pois aumenta as ativida-
um mundo que mudou profunda- o mundo econômico, e a nova visão des e, logo, o PIB. Evoluímos para
mente. Ela não descarta as teorias faz todo sentido. Consciente de que uma conta completa que permite
herdadas, mas organiza a transição. precisamos hoje de uma imagem identificar o que deve ser contro-
de referência, não um detalhe, so- lado, por exemplo a contaminação
George Monbiot, no The Guar- bre o que queremos da economia, a química; e o que deve ser expandido,
dian, não exagera: “Eu li este livro autora substitui os nossos tradicio- por exemplo o acesso aos alimen-
com a excitação com que as pessoas nais gráficos de fluxos por uma ima- tos. Entramos assim na economia
do seu dia devem ter lido a Teoria gem: o doughnut, a nossa familiar do bom senso. Lembrando aqui a be-
Geral de John Maynard Keynes. É la frase que encontrei num banner
brilhante, entusiasmante e revolu- [44 OLUTADOR [ OUTUBRO 2019
cionário. Com um poço profundo de
aprendizagem, sabedoria e pensa-
mento profundo, Kate Raworth re-
desenhou e redefiniu os marcos da
teoria econômica. É completamen-
te acessível, mesmo para pessoas
sem conhecimento do assunto. Eu
acredito que Doughnut Economics vai
mudar o mundo”. Comentário forte,
mas surpreendentemente adequado.
Pois não é exagero mesmo. Com
décadas de busca por um ajuste da
teoria econômica às novas realida-
des, eu fiquei realmente feliz com
o resultado. O mundo mudou. Con-
tinuarmos presos no cálculo do PIB
que perdeu qualquer sentido. Não
contabilizar os impactos ambientais
TRANSITARMOS PARA A ECONOMIA DO SÉCULO 21...
uma proposta para o século 21
natureza. Controle sobre dinheiro e mercados.
métrica mais humana para a prosperidade
de estudantes de economia: “Cres- Ou seja, no vazio interno da ros- constatamos em qualquer iniciati-
cer por crescer é a filosofia da célu- ca, temos as insuficiências, short- va que assegurou mais recursos pa-
la cancerosa”. Doughnut Economics fall, o que tem de remediar para en- ra a população, o resultado é maior
nos traz um ponto de partida sobre trar no espaço seguro da própria ros- demanda, multiplicação de peque-
o qual podemos construir as políti- ca. E no vazio externo, temos os ex- nas e médias empresas e expansão
cas, organizar estímulos ou regu- cessos, o overshooting, que precisa- do emprego. O que, aliás, gera maior
lação, e repensar as nossas teorias. mos reduzir. massa de impostos e equilíbrio de
contas públicas. Veja-se o sucesso
O bom da rosquinha, como to- Nada do New Deal, do Welfare State, e até
dos sabem, é o concreto, aquela ro- muito diferen- mais recentemente da “geringon-
dinha onde tem a massa e o açú- te de como cuida- ça” portuguesa.
car em cima. No limite interno da mos da nossa casa, on-
rosca, para dentro do vazio, ficam de temos de complemen- Em Doughnut Economics, ao ver-
as insuficiências que devem ser sa- tar as insuficiências e contro- mos em que setores e com que ati-
nadas: 12 itens como alimento, saú- lar os excessos. Com esse es- vidades estamos, por um lado, di-
de, educação, emprego e renda, paz tudo, a economia deixa de ser lapidando os recursos naturais do
e justiça, voz política, equidade so- um mistério para amadores de planeta por excessos de uso, e por
cial, igualdade de gênero, habita- modelos matemáticos, e outro que insuficiências existem em
ção, redes, energia e água. O corpo passa a fazer sentido pa- diversas partes da população, pode-
da rosca é o espaço onde devemos ra os comuns dos mos, setor por setor, canalizar os
nos situar, dimensão justa e segura esforços e recursos financeiros pa-
para a humanidade. No limite ex- mortais. ra onde irão gerar maior equilíbrio.
terno da rosca, fica o teto ecológico
que não devemos ultrapassar: nove Ao mesmo tempo, temos uma Ou seja, podemos calcular onde
itens envolvendo mudança climá- imagem simples e desafios que são devemos nos restringir, onde pode-
tica, acidificação dos oceanos, po- coerentes com o que foi decidido nas mos expandir, em que setores há
luição química, sobrecarga de ni- grandes conferências de 2015, com o prioridade e assegurar o básico pa-
trogênio e de fósforo, extração de Acordo de Paris e os Objetivos do De- ra a população. A economia passa a
água doce, conversão do solo, per- senvolvimento Sustentável, a Agen- fazer sentido. Tim Jackson, que co-
da de biodiversidade, poluição do ar da 2030, em Nova Iorque. menta o livro, lembra o absurdo de
e destruição da camada de ozônio. termos sido “persuadidos a gastar o
Veja a imagem: A simplicidade e facilidade de lei- dinheiro que não temos em coisas
tura, inclusive de visualização men- de que não precisamos para causar
tal, dos desafios econômicos, são es- impressões que não irão durar sobre
senciais, pois enquanto a imensa pessoas que não nos importam”. Já
maioria da população não entender era tempo para que alguém desse
a lógica de como usamos os nossos um pouco de sentido na visão geral
recursos, as farsas irão continuar. da economia realmente existente.
Inclusive a farsa maior de que pre- No centro das respostas, não estão
cisamos dos ricos, pois eles inves- modelos complicados, e sim, a “ca-
tem e geram empregos, e de pobres, pacidade do século XXI de criar for-
pois a pobreza os leva a trabalhar. Na mas muito mais efetivas de gover-
realidade, os ricos hoje fazem apli- nança, em cada escala, do que as
cações financeiras em vez de inves- que têm sido vistas anteriormente”.
tir, colocam os recursos em paraí-
sos fiscais e, portanto, pouco inves- Volto a afirmar: é uma leitura ab-
tem e mal pagam os seus impostos. solutamente fundamental, que per-
No mundo que funciona, impostos mite transitarmos para a economia
sobre o capital improdutivo levam do século 21, transição necessária,
os rentistas a buscar fazer algo de pois as mudanças são profundas.]
útil com os seus capitais. E como
Fonte: Outras Palavras
OUTUBRO 2019 [ OLUTADOR]45
Leigos [ O ministério da profecia...
PE. AGENOR BRIGHENTI
O laicato na Igreja e no mundo [9
O laicato e o exercício do sacerdócio
PELO BATISMO, todo o Povo de Deus povo; da celebração eucarística co- bleia toda ela sacerdotal. O canto li-
é um povo profético, sacerdotal mo ceia ao redor de uma mesa, à túrgico é devolvido à assembleia e o
e régio. Entretanto, a Igreja, a missa como sacrifício oferecido pe- coral ou o grupo de canto, que canta-
partir do século IV, ao configurar-se lo “sacerdote” num altar de pedra; va sozinho, perde seu sentido. Para
no binômio clero-leigos, havia eclip- da simplicidade das celebrações do- inserir o presidente da celebração
sado o sacerdócio comum dos fiéis mésticas aos rituais com os esplen- no seio da assembleia, as vestes li-
conferido pelo Batismo, monopo- dores da corte imperial; das vestes túrgicas são simplificadas e se su-
lizado pelos ministros ordenados. do cotidiano a ministros do altar re- pera o caráter pomposo e suntuoso
vestidos das honras e indumentá- da liturgia, pois o rito, quanto mais
Quase um milênio e meio de- rias típicas dos altos mandatários simples, mais se parece com o mo-
pois, o Concílio Vaticano II resga- do império etc. do discreto de Deus se comunicar.
tou o sacerdócio comum dos fiéis,
colocando o sacerdócio ministerial Com isso, a missa deixa de ser Para o Concílio, a presença real de
ao serviço dos fiéis não ordenados, um ato comunitário, para conver- Cristo na liturgia está nas espécies
no seio de uma Igreja toda ela mi- ter-se numa devoção privada, tan- consagradas do pão e do vinho, mas
nisterial, a partir da centralidade to do “sacerdote” como de cada um também na assembleia reunida, na
da Palavra, que faz do ministro or- dos fiéis em suas devoções particu- Palavra proclamada e no presiden-
denado, antes de tudo, “ministro da lares. O sentido pascal da celebra- te da celebração.
Palavra”. O cristianismo não tem ção litúrgica é deslocado para devo-
“sacerdote”, mas um povo todo ele cionismos sentimentais, em espe- A celebração eucarística passa
sacerdotal, presidido por ministros cial a meditação da paixão e morte a ser antes, de tudo, banquete, me-
ordenados. de Cristo. Enquanto o padre, num morial do único sacrifício de Cristo,
altar distante, reza a missa de cos- que se prolonga na história através
O eclipse do sacerdócio tas para o povo, os fiéis se entretêm de uma ceia.
de todo batizado com suas devoções particulares, em
A descaracterização da liturgia da torno aos santos. A própria comu- Por isso, o rito eucarístico passa
Igreja primitiva, plasmada numa nhão é substituída pela “adoração a ser celebrado na “mesa do altar”,
diversidade de ritos no seio de uma da hóstia” e a festa de Corpus Ch- sobre a qual se apresenta as espé-
assembleia toda ela sacerdotal, co- risti se converte na festa mais im- cies consagradas mais como “ali-
meçou já no século IV, com a pas- portante do ano litúrgico, superior mento e bebida” do que “corpo e san-
sagem das pequenas comunidades inclusive à festa da Páscoa. gue”. Toda a assembleia passa a ter
com celebrações nas casas, para ce- acesso à comunhão sob as duas es-
rimoniais massivos, em basílicas; O Vaticano II e o regate pécies. E para visibilizar a Igreja co-
da assembleia celebrante ao padre do sacerdócio comum mo Povo de Deus todo ele profético,
como único ator da liturgia, rezan- Segundo o Concílio, dado que pelo sacerdotal e régio, os sacramentos
do em voz-baixa e de costas para o Batismo o Povo de Deus, como um passam a ser celebrados no seio de
todo, constitui um povo profético, uma assembleia litúrgica.
sacerdotal e régio, na liturgia, o pa-
dre preside uma assembleia toda ela Entraves atuais no exercício do
celebrante. Consequentemente, o sacerdócio comum dos fiéis: após
protagonista da celebração litúrgi- duas décadas de avanços na reno-
ca não é o padre, mas a assembleia. vação do Vaticano II, um gradativo
e longo processo de involução ecle-
Por isso, o povo passa a rodear o sial instaurou-se na Igreja. Expres-
altar e o padre a presidir a assem- são desta involução é a volta do bi-
bleia celebrante de frente para ela, nômio clero-leigos, também na li-
dialogando com ela, em sua língua. turgia, estampado na volta à deno-
O padre deixa de ser chamado “sa- minação do “presbítero” como “sa-
cerdote”, pois preside uma assem- cerdote”.]
[46 OLUTADOR [ OUTUBRO 2019
Missão [ Em saída...
PONTIFÍCIAS OBRAS MISSIONÁRIAS-POM O cartaz
Batizados O cartaz oficial da Campanha Missio-
e enviados: nária tem em sua arte o destaque pa-
a Igreja de Cristo ra o Mês Missionário Extraordinário,
convocado pelo Papa Francisco, tra-
em missão zendo o tema “Batizados e enviados:
no mundo a Igreja de Cristo em missão no mun-
do”. A arte quer nos lembrar que to-
AS PONTIFÍCIAS OBRAS MISSIONÁ- preparar este evento, especialmen- do o batizado é missionário, estando
RIAS – POM têm a respon- te através de ampla sensibilização a cruz no centro, recordando o misté-
sabilidade de organizar das Igrejas particulares, dos Insti- rio pascal. A água é um elemento im-
a Campanha Missioná- tutos de vida consagrada e Socieda- portante, recordando o batismo dos
ria, realizada sempre no des de vida apostólica, assim como discípulos e missionários. Destacam-
mês de outubro, na Igreja associações, movimentos, comuni- se as cores missionárias presentes
de todo o Brasil. Colabo- dades e outras realidades eclesiais”. na cruz, lembrando que o horizonte
ram nesta ação a CNBB da missão é universal.
por meio da Comissão para a Ação Oração do
Missionária e Cooperação Intere- O símbolo do Mês Missionário Ex-
clesial, a Comissão para a Amazô- Mês Missionário traordinário, celebrado no mundo to-
nia e outros organismos que com- do, vem representado junto ao círio
põem o Conselho Missionário Na- Extraordinário pascal, ao centro do cartaz. Lembra-
cional - COMINA. mos ainda a diversidade dos sujeitos
Pai Nosso, o Teu filho unigênito enviados em missão que caminham
Neste ano, a Campanha Missio- Jesus Cristo, / ressuscitado den- junto ao Papa Francisco, lembrando
nária será celebrada de maneira es- tre os mortos, / confiou aos seus a sinodalidade da Igreja.
pecial. Fomos convidados pelo Pa- discípulos o mandato: / “Ide e fazei
pa Francisco para viver em todo o discípulos todos os povos”. / Recor-
mundo o Mês Missionário Extraordi- da-nos que, pelo batismo, / torna-
nário. Em 22 de outubro de 2017, Dia mo-nos participantes da missão
Mundial das Missões, o Papa Fran- da Igreja. / Pelos dons do Espíri-
cisco, durante o Angelus, anuncia- to Santo, concede-nos a graça de
va publicamente para toda Igreja sermos testemunhas do Evange-
sua intenção de proclamar um Mês lho, / corajosos e vigilantes, / pa-
Missionário Extraordinário - MME ra que a missão confiada à Igre-
em outubro de 2019, para celebrar o ja, / ainda longe de estar reali-
centenário da Carta Apostólica Ma- zada, / encontre novas e eficazes
ximum Illud de seu predecessor, o expressões / que levem vida e luz
Papa Bento XV. ao mundo.
Naquele mesmo dia, o santo Pa- Ajuda-nos, Pai Santo, / a fa-
dre enviou uma carta ao Cardeal zer com que todos os povos / pos-
Fernando Filoni, prefeito da Congre- sam encontrar-se com o amor /
gação para a Evangelização dos Po- e a misericórdia de Jesus Cristo, /
vos e presidente do comitê supremo Ele que é Deus convosco, vive e rei-
das Pontifícias Obras Missionárias na / na unidade do Espírito Santo,
- POM, encomendando “a tarefa de / agora e para sempre. / Amém]
OUTUBRO 2019 [ OLUTADOR]47
Mundo [ Mercados
LEONARDO BARRETO* E PAULO PEREIRA**
Capitalismo ilícito ceitas. A empresa também oferecia
Atividades ilegais das corporações aos médicos altos valores por pales-
farmacêuticas no mercado tras em eventos médicos de pouca
de opioides expressão na comunidade científi-
ca. A frequência de participação dos
NO DIA 23 DE ABRIL DE 2019, a dis- De fato, nas últimas décadas, a médicos nestas palestras lucrati-
tribuidora atacadista de medi- defesa dos seus interesses encontrou vas, que foram classificadas como
camentos Rochester Drug Coo- espaço nos mais altos níveis da es- pagamento de propinas pelos pro-
perative e seus ex-executivos, trutura governamental dos EUA. A motores, era diretamente relacio-
Laurence F. Doud III e William Pie- relação entre controle e mercanti- nada com a frequência de prescri-
truszewski foram formalmente acu- lização das drogas desencadeou um ções do Subsys. Apenas em 2016 a
sados pelas autoridades federais dos mercado multibilionário no qual es- empresa realizou 18.000 pagamen-
EUA por conspiração para o tráfico tas corporações desempenharam um tos para profissionais especializa-
de medicamentos opioides controla- papel central em diversos escânda- dos no tratamento de dores de ca-
dos (oxicodona e fentanil) que eram los de corrupção e atos criminosos, beça e das costas. [...]
distribuídos para uso sem prescri- tornando as fronteiras entre o lícito
ção médica correspondente. e o ilícito uma ficção útil. [...] Pressão pública
e medidas
Este fato se insere no contexto Marketing ilegal: de contenção
da grave crise que os Estados Unidos Insys Therapeutics Apesar do alto número de mortes re-
enfrentam desde 1999 em decorrên- e Purdue Pharma gistrado por overdose também em
cia da expansão do uso de opioides A lista é extensa. No início de maio decorrência do uso de drogas ilícitas
por parte de sua população. De acor- deste ano, o ex-presidente da Insys advindas das organizações crimino-
do com o CDC - Centers for Disea- Therapeutics, John Kapoor, foi con- sas, as corporações farmacêuticas
se Control and Prevention, de 1999 a denado por pagamentos de propi- desempenharam uma função pri-
2017, mais de 700.000 pessoas mor- nas para médicos. Estes pagamen- mordial na crise estadunidense. As
reram em decorrência de overdose tos tinham por objetivo aumentar o estratégias corporativas que visavam
de drogas, das quais quase 400.000 número de prescrições do medica- à expansão do mercado de opioides
envolveram o uso de algum opioide. mento Subsys, um spray de fentanil no país foram concebidas nos últi-
Em 2017 foi registrada uma média que pode ser 100 vezes mais potente mos anos através de diversas táti-
de 130 mortes diárias por overdose do que a morfina. O spray havia si- cas de marketing ilegal, omissão de
de opioides no país. do aprovado pela FDA para o trata- efeitos colaterais e conluio com ato-
mento de dores em pacientes com res públicos em níveis estaduais e fe-
Tal expansão decorre, em grande câncer terminal, mas estava sendo deral, principalmente com as agên-
medida, da evolução de um mercado receitado para diversos tipos de do- cias responsáveis pela aprovação de
lícito de medicamentos analgésicos res, inclusive crônicas. novos medicamentos.
opioides nas últimas duas décadas,
estruturado em torno da articula- Investigações ainda apontam que Neste cenário, duas questões sur-
ção entre os interesses de grandes a equipe de vendas da Insys Thera- gem para debate: quais os limites
corporações farmacêuticas transna- peutics contratava representantes da atuação lícita das corporações
cionais e o governo estadunidense. de vendas jovens e atraentes, in- farmacêuticas transnacionais, ou,
cluindo ex-strippers, e as instruíam de maneira mais assertiva, a partir
Na contramão do senso comum, a seduzir e acariciar as mãos dos do momento que corporações estão
no entanto, para além da sua atua- profissionais de saúde enquanto conectadas com o tráfico ilícito de
ção no âmbito lícito, tais corpora- os convenciam da necessidade de medicamentos e com outros diver-
ções parecem ter se envolvido tam- aumento de prescrições destas re- sos crimes, estes limites já existi-
bém em atividades ilegais para a ram? O que já se sabe é que nas úl-
expansão deste mercado. [48 OLUTADOR [ OUTUBRO 2019 timas duas décadas, o que era ca-
tegorizado como lícito esteve cons-
tantemente em meios ilícitos e vi-
ce-versa.]
* Docente do Departamento de Relações In-
ternacionais da PUC-SP e do Programa de
Pós-Graduação em Relação Internacionais
San Tiago Dantas (Unesp, Unicamp e PUC-SP)
** Pesquisador do GECI e mestrando do Pro-
grama de Pós Graduação em Relações In-
ternacionais San Tiago Dantas (Unesp, Uni-
camp e PUC-SP)
Fonte: Terra em Transe