The words you are searching are inside this book. To get more targeted content, please make full-text search by clicking here.
Discover the best professional documents and content resources in AnyFlip Document Base.
Search
Published by Revista O Lutador, 2019-04-05 16:35:42

REVISTA O LUTADOR 3910 MARÇO 2019

Brumadinho: a vida pede socorro

Keywords: Revista Católica O Lutador,Revista O Lutador,Jornal O Lutador,Brumadinho

Igreja [ MOBON: 40 anos a serviço da evangelização

ANO XC / Nº 3910
MARÇO / 2019

olut dor.org.br

SOCORRO!Brumadinho: avida pede

R$ 9,90

[Políticas Públicas: liberdade pela justiça e pelo direitos
[Transparência, imperativo da gestão eclesial!
[JMJ: Jovens discípulos a caminho

TEM INTEGRANTE NOVA NA FAMÍLIA AMÉRICA!

A jornalista Lina Freire chega para alegrar
a programação do seu rádio.

segunda a sexta, segunda a sexta, sábado, 14h
às 6h15 às 16h30

americabh.com.br radioamericaam750 (31) 3209-0750 App: Rede Catedral

AGORA EM NOVO
HORÁRIO!

Cultura, esporte, direito do
cidadão, economia doméstica e
tudo sobre a Arquidiocese de BH.

Segunda a quinta, ao vivo, às 8h45,
ou pelo aplicativo “Rede Catedral”.

tvhorizonte.com.br tvhorizonteoficial (31) 3469-2549 Fernanda Penna,
apresentadora e

jornalista

App: Rede Catedral

Catequese [ Tudo a partir de Jesus Espaço do Leitor [ Escreva, envie seu e-mail, comente

ANO XC / Nº 3909 Aniversariantes
FEVEREIRO / 2019 do mês de março de 2019

olut dor.org.br Em meio a tantas tragédias em nosso país, ce-

Colóquio Julimariano lebrar a vida torna-se uma atitude ainda mais

R$ 9,90 nobre. Juntamente com os aniversariantes deste

[A neopentecostalização de igrejas e grupos mês, rendemos graças a Deus por tantas pessoas
[Novos caminhos para a transmissão da fé
[Melhorai vossa conduta e vossas práticas! que se empenham em ser amparo, consolo e con-

Ó trindade Santa, vós que sois a fonte forto a quem sofre direta ou indiretamente com
de toda santidade, nós vos louvamos
por vosso servo o pe. Júlio maria de lombaerde, essas tragédias. Deus os abençoe sempre! E que a
que, assemelhando-se ao cristo eucarístico,
cuidou do vosso rebanho com amor, presença do Espírito Santo seja a luz a iluminar
zelo e doação. e, deixando-se guiar pelo
espírito Santo, assim como a virgem maria, a vida de cada um de vocês. Lembramos que, no
testemunhou a ternura missionária da igreja.
concedei-me, ó trindade Santa, pela intercessão dia 25 deste mês, será celebrada uma missa espe-
do pe. Júlio maria, a graça que vos suplico
[pedir a graça]. e, se for de vossa santa vontade, cial na intenção de nossos assinantes, também
dai que pe. Júlio maria alcance a honra
lutadores, e de seus familiares, de modo especial
dos altares, para vossa glória
e para o bem de tantas almas. para os doentes e acamados. O Celebrante do dia
por cristo, nosso Senhor Amém.
25/03/2019 será o Pe. João Lúcio Gomes Benfica,

SDN. Deus abençoe a todos os nossos assinantes.

[Caso seu nome não apareça na lista, entre

em contato com nosso setor de assinaturas:

Fone: 0800-940-2377
E-mail: [email protected]]

dia 01 - aloisio de arauJo PrinCe / edesia loCKs / Fernando de souZa / Jose Jesus Gomes de arauJo /
maria anGela soares / maria do Carmo Correa nolasCo / maria elZa de oliVeira / maria saleTTe barao
oliVeira / neuZa maria marTins de souZa sanTos / Paulo Terra / Pe. ernesTo medeiros. / dia 02 - anTonio
mourTHe FilHo // Vania / Carmo PasCHoini / Jose selliTTi ranGel / lourdes FraGa HerinGer / maria aPareCida
eGidio borGes / maria da ConCeiCao raPoso / norma Calil Fernandes / salomao JorGe neTTo / syndalVa
salGado / ValdiVina PinHeiro sanTana / walmir Carlos Pereira. dia 03 - CiCera FeliCio / maria benediTa
mendes - emm / sebasTiao monTeiro siQueira. / dia 04 - Celso maTias de almeida / eliane silVa FranCa e
Geraldo maGela / maria elVira saiTer GarroCHo / Pedro dias Zanini. dia 05 - aliCe Paolina marKieweCZ /
alZira ConCeiCao marinHo eVanGelisTa / amelia soares de VasConCelos / eliZabeTH GladCHeFF FonseCa
/ FranCisCa adriana de souZa / Joao baPTisTa da silVa / Joseane brinaTi de souZa e sebasTião de souZa /
maria dalVa Pessoa miranda / maria das GraCas barbosa rodriGues / sabino da silVa marQues / Valdir
aPareCido seZe. / dia 06 - elwaCione CelesTe braGa arauJo / Joao Pinelli / luCiana do Carmo silVa
reis / marina aPareCida de oliVeira / mario Jose briTo / Pe. willian GroPo da silVa / ViCTo leal sanTos.
dia 07 - Jeremias PinTo de oliVeira / oTTo H. sHorr / waldir de luna Carneiro. dia 08 - FranCisCo malaCarne
/ Joao HenriQue moreira / Joao KaZuyosHi miyasHiro / Julia HoTT sanGlarde de Paula / marCio aPareCido
sPaGnolo / maria eVanGelina Generoso. dia 09 - Hermes bruno JasineViCius / iGor e Joseline - emm / malTa
TeiXeira de a. Carneiro- emm / maria CelesTe aVila / Padre Jose Geraldo loPes / sauliTa maria Pedroso
lemos / Vilma Pereira dos sanTos. dia 10 - aGuinaldo Jose do CraTo / Cleise edna silVa Prado / ione murTa
/ marCio anTonio reiser / marisTela Correia CosTa. dia 11 - anTonio airTon de sousa marTins - emm / arlen
XaVier CarValHo / iraCema Gerusa barros da luZ / JorGe sobral VenanCio / maria aPareCida GonCalVes
moTa / maria Jose rodriGues leles / Zosimo ToFFoli. / dia 12- eVandro souZa lima / Jose reynaldo de
FreiTas Padua / maria aPareCida marinHo G. dias / noeZia aGrimar CaeTano dos sanTos / waldemar Kumel.
dia 13 - anTonio Carlos soares HunGria / Cleria de CouTo Finamore / elenilda mariano rodriGues / Jose Cardoso
de mesQuiTa / marGarida oliVeira andrade / maria de oliVeira maCiel aranTes / sylVia maria Ferreira XaVier /
Vaina maria de oliVeira barbosa. / dia 14 – ana CoelHo / benediTo luiZ Fernandes / Geraldo Zambalde lara.
dia 15 – luiZ serGio wiGderowiTZ / maria dalVa soares CamaroTa / maria ZuleiCa de melo / Padre Carlos
FraGoso FilHo / rosimeire maria marTins e silVa / wilson FranCisCo de oliVeira. dia 16 – elias baTisTa reis
/ Jose seVerino da CruZ / olinda silVa de moraes / raimundo Veloso leal e Vera luCia. dia 17 – adelino
CamPeao / Fany liGnani / GilberTo da CosTa FranCo / iramir CaTTa PreTa sabido / laura Carlos de briTTo /
nelson lino da silVa. / dia 18 – aloysius GenTil GonCalVes / amanTino JaCinTo moreira / Heloisa maria de
souZa alVes / maria da PenHa ribeiro rosesTolaTo / maria Jose nunes sTeinmeyer - emm / sebasTiao de Faria.
dia 19 – alberTo GonCalVes Fernandes / Julio maria malTa / lais arauJo sanTana / marGarida maria Freire
reis. dia 20 – anselmo maTTos CerQueira / Claudio FoTina de oliVeira / Claudio Jose da silVa reGo / deusdeTe
Pereira FausTino / Gil reiGada / iraCema elias de almeida. dia 21 – dr.. Helio beGliomini / Gilmar ViTorino
ribeiro / luiZ serGio de oliVeira / raimunda maCHado de oliVeira / silVio romero de CasTro / sTella maTuTina
CosTa nunes / Zelia maria mello ribeiro. dia 22 – Carlos alberTo ribeiro / Gilda KuCKer aranTes // olaVo
FonTana aranTes-in memorian / Jose anTonio enCinas manFre / maria eFiGenia silVeira / maria isabel Camoes
VieiTo PadilHa / Padre ademir sebasTiao lonGaTTi / rené CaeTano braGa. dia 23 - aleXsandro da silVa leiTe
/ Jose loPes Carneiro / luiZa maria baPTisTa Pereira / maria aliCe de souZa Cardoso / serGio Jose de
oliVeira. dia 24 – ruFino FranCisCo do Carmo. dia 25 – eusTasio de oliVeira FerraZ / GerTrud breuCKmann
/ Joao ClareT orsini TeiXeira / louriVal Fideles de arauJo / mario de oliVeira mosCardini / Padre miCHele
Ferrara. dia 26 – aliCe de CasTro brum - em memoria / aloisio bresinsKi / Corsina marQues ribeiro /
FranCisCa das CHaGas iVo alVes / Joel laZaro dias / lodoViCo disarZ /minisTro da euCarisTia da sua ParoQuia
/ maria auXiliadora silVa QueiroZ. / Carlos orTeGa / CeCilia leonel CaeTano orTeGa – (in memoriam).
dia 27 – maria auXiliadora dornas de andrade / maria auXiliadora Vieira / maria de lourdes a. C. barreTo /
Telma mendes e iraCy oliVeira Faria / wimer Guerreiro. dia 28 – ana maria sanTos sousa / Joao Guerreiro
da silVa / luCia Helena molliCa / maria ines miranda CarValHo / Padre sebasTiao rodolFo JuCHem / riTa de
Cassia braGa. dia 29 – adasio Jose Ferreira / anTonio de lisboa / Celio moreira Cardoso / maria saleTe abreu
Cardoso / FeliCio moser. dia 30 – adauTo FranCisCo maTHeus / Jose ramos ForbeCi / lineu de CarValHo /
mariano riCardo de Toledo / mario auGusTo duarTe de sa / monsenHor Jose HuGo de resende maia / Padre
FranCisCo milTon aleXandre. dia 31 – José CHaVes / maria walmira C. CarrilHo / VirGinia alVes de briTo.

no site e no facebook... Siga a Revista O Lutador pelo twitter.com/revistaolutador

minas está de luto tros de sustentabilidade. Uma tris- Livros recebidos
te coincidência: nesta sexta-feira,
mAis uma “abominação da de- dia 25, quando uma barragem se de Laços e cantos:
solação”, como disse Jesus no rompe no coração da nossa amada As cores do pergaminho
Evangelho de Marcos, referin- Brumadinho, entrou em pauta, no
do se aos absurdos nascidos das ga- Conselho da Secretaria Estadual de “Dos Laços, porque os laços compõem
nâncias e descasos com o outro, com Meio Ambiente e Desenvolvimen- as lembranças de uma vida: laços de
a verdade e com o bem de todos: to Sustentável, a autorização para amor, de amizade, laços, laços, laços...
mais uma barragem rompida em a retomada da mineração na Serra E Cantos, porque canto é a própria poe-
Minas Gerais, agora em Brumadi- da Piedade. Uma tragédia se efetiva sia, é a composição.
nho, Região Metropolitana de Be- e outra se anuncia.
lo Horizonte. A Arquidiocese de Be- Com laços e cantos, pintei as cores
lo Horizonte une-se a cada um dos A Arquidiocese de Belo Horizonte do pergaminho, ou seja, papel que, por
atingidos, compartilhando suas do- defende, incansavelmente, de mo- sua vez, também remete a relíquias,
res. Nossas comunidades de fé, espe- do inegociável, a natureza, obra do antiguidades, passado etc.
cialmente às que servem ao Vale do Criador, compreendendo que o ser
Paraopeba, estejam juntas, para levar humano, as plantas e os animais Ligia Porto – Gráfica O Lutador – 2018
amparo, ajuda, a todos que sofrem devem viver em completa harmo- Entrelinhas / Um médico
diante de tão lamentável tragédia. nia, pois são todos habitantes do entre historiadores
planeta, a Casa Comum.
Os danos humanos e socioam-
bientais são irreparáveis e apontam Rezemos pelas vítimas desta
para uma urgência, já tão evidente: tragédia, unidos ao coração de ca-
é preciso repensar modelos de de- da pessoa e de todas as famílias que
senvolvimento que desconsideram sofrem, renovemos, mais uma vez,
o respeito à natureza, os parâme- o nosso compromisso com a solida-
riedade. É urgência minimizar a dor
dos atingidos por mais esse desas-
tre ambiental, sem se esquecer de
acompanhar, de perto, a atuação
das autoridades, na apuração dos
responsáveis por mais um triste e
lamentável episódio, chaga aberta
no coração de Minas Gerais. A justiça
seja feita, com lucidez e sem medio-
cridades que geram passivos, com
sentido humanístico e priorizando
o bem comum, com incondicional
respeito e compromisso com os mais
pobres. Minas Gerais está de luto.]

Dom Walmor Oliveira de Azevedo
Arcebispo de Belo Horizonte

❝ – WWW.SACRAMENTINOS.ORG.BR – ❞ O médico e escritor Helio Begliomini
nos apresenta dois livros: Em “Entre-
linhas” o autor nos mostra que “As en-
trelinhas falam! Elas se comunicam!
Elas têm expressão viva e multicolori-
da...” aptas para reunir a variedade de
modalidades literárias: crônicas, dis-
cursos, necrológios, ensaios...

Em “Um médico entre historiado-
res”, um registro da ocupação da cadei-
ra nº 34 da Academia Paulista de Histó-
ria, tendo como patrono Jaime Zuzar-
te Cortesão e como fundador: Manuel
Nunes Dias.

[ Expediente [ Editorial

O LUTADOR é uma publicação mensal Avida pede socorro!
do Instituto dos Missionários
Sacramentinos de Nossa Senhora Nosso início do ano vem marcado, infelizmente, por muitas tragédias
que poderiam ter sido evitadas, caso houvesse maior zelo pela vida hu-
olutador mana. Quando a sede do lucro e da vantagem econômica são colocados
ISSN 97719-83-42920-0 em primeiro lugar, a vida padece, vem a morte, a dor e sofrimento. Per-
de-se a vida, os filhos, a família, os amigos, os bens, a própria história...
Fundador Isto é o que presenciamos nas tragédias do rompimento da barragem
Pe. Júlio Maria De Lombaerde em Brumadinho, nos adolescentes mortos pelo incêndio no “Ninho do
Urubu”, no Rio de Janeiro, nos outros adolescentes mortos pelo fogo no
Superior Geral Centro de Internação em Goiânia... Estes são alguns dos muitos sinais
Pe. José Raimundo da Costa, sdn de que, em nosso país, a vida pede socorro!
Merece louvor e gratidão o incansável trabalho dos bombeiros. Mas,
Diretor-Editor não podemos nos descuidar ou achar normal a perda de vidas humanas.
Ir. Denilson Mariano da Silva, sdn Cada morte representa um atentado ao Criador. Ele quer que tenhamos
vida e vida em abundância para todos (cf. Jo 10,10). É preciso manter em
Jornalista Responsável nós a capacidade de nos indignar diante de todo atentado à vida huma-
Pe. Sebastião Sant’Ana, sdn (MG086063P) na e à vida no planeta. Se pescar fora da época e matar um animal sil-
vestre são crimes passíveis de prisão, o que se deveria esperar de uma
Redatores e Noticiaristas irresponsabilidade tamanha que matou centenas de vidas, que devas-
Pe. Marcos A. Alencar Duarte, sdn tou casas e edificações, que destruiu plantações e matou toda a vida de
Pe. Sebastião Sant’Ana, sdn um rio? O rompimento da barragem em Brumadinho, não é um mero
Frt. Matheus R. Garbazza, sdn acidente, muito menos um “incidente”, é um crime, um atentado à vi-
Frei Patrício Sciadini, ocd, Frei Vanildo Zugno, da humana e à natureza. Muitas outras barragens, em Minas e em ou-
Dom Paulo M. Peixoto, Antônio Carlos Santini tros estados do Brasil apresentam verdadeiro risco de rompimento. É
e Dom Edson Oriolo preciso que se tomem medidas para preservar a vida e o meio ambien-
te: A vida pede socorro!
Colaboradores Os adolescentes mortos pelo fogo no Rio de Janeiro e em Goiás tam-
Vários bém nos apontam a necessidade de maior cuidado com a vida. Sonhos
foram roubados, famílias passaram a carregar uma dor que não passa,
Redação que não tem cura, pois seus filhos não existem mais. É preciso que a vida
[email protected] seja colocada acima do lucro, como defende a Doutrina Social da Igreja. E
é preciso também que a Igreja reforce a sua voz profética. E que, a exem-
Correspondência plo de Jesus, ela se coloque verdadeiramente do lado dos mais sofridos,
Comentários sobre o conteúdo de olutador, dos últimos, das vítimas geradas pelo poderio econômico. Que ela seja a
sugestões e críticas: [email protected] voz dos sem voz, que assuma o risco de defender a vida, o direito e a ver-
Cartas: Praça Padre Júlio Maria, 01 / Planalto dadeira justiça, pois só “seremos libertados pelo direito e pela justiça!”
CEP 31730-748 / Belo Horizonte, MG / Brasil (cf. Is 1,27). Que esta Campanha da Fraternidade, que vem em boa hora,
ao tratar das políticas públicas, possa gerar frutos de mais vida e espe-
Assinaturas e Expedição rança para todos, sobretudo para os mais sofridos. A vida pede socorro!
Maurilson Teixeira de Oliveira Tenhamos um olhar atento à realidade que nos circunda: a violên-
cia vem crescendo nos lares e nas ruas, e a tendência é aumentar com
Assinaturas a facilidade da posse de armas. A mudança nas leis parece dar aval pa-
R$80,00 / Brasil - www.olutador.org.br ra que policiais matem com maior facilidade. A lei contra a homofobia
[email protected] tem dificuldade de ser aprovada, cresce a violência e a discriminação.
0800-940-2377 - De 2ª a 6ª das 7 às 19 horas A Igreja, com o Sínodo da Amazônia, que defende a vida dos povos e da
natureza, é vista como ameaça ao Governo. A ensejada mudança nas
Outros países regras da aposentadoria prevê um aumento da indigência e da mendi-
R$ 80,00 + Porte cância em nosso país. Muitos passarão a trabalhar até morrer sem con-
seguir se aposentar...
Edições anteriores Decididamente: a vida pede socorro! E isso é pra começo de conversa.]
Tel.: 0800-940-2377
[denilson mariano
Site
revista.olutador.org.br
facebook.com/revistaolutador

Projeto gráfico e diagramação
Valdinei do Carmo / Orgânica Editorial
Revisão
Antônio Carlos Santini

Impressão e Acabamento
Gráfica e Editora O Lutador, Certificada – FSC®
Praça, Pe. Júlio Maria, 01 / Planalto
31730-748 / Belo Horizonte, MG / Brasil
olutador.org.br

Telefax
[31] 3439-8000 / 3490-3100

Tiragem desta edição
4.200 exemplares
Foto de capa
flickr.com juliansantoscunha

As matérias assinadas Procure por produtos
são da responsabilidade certificados FSC®
de seus autores,
não expressam,
necessariamente,
a opinião
de olutador. ]

|Su m á r i o o luta d o r • revista mensal • A no X C • N º 3 91 0 • mar ç o • 2 0 19 •
8Políticas Públicas:
liberdade pela justiça 14 Libertar a Jesus
e pelo direito 18 Brumadinho: flor de lótus
20 JMJ: Jovens

discípulos a caminho

22 O EMM e meu

relacionamento

23 Irmãs Sacramentinas

de Nossa Senhora

24 Ela está gritando

25 Pobre Glória!

26 Maria, a boa Mãe

27 Visita ao guru

28 Crônica / Maria

30 A coroa da fé

31 Roteiros Pastorais

43 ADCE / A mineração,

o meio-ambiente

e as futuras gerações

44 Fé em Deus

e confiança nas armas

46 Avanços e retrocessos

na caminhada

10 12MOBON: do laicato-2
40 anos Transparência, 47 Para que serve
a serviço da imperativo da
evangelização o mosquito?
gestão eclesial! 48 Mineradoras

lesam a humanidade

16Políticas 6O crime da VALE
Públicas, exige justiça,
os jovens não apenas
e a família medidas
paliativas

GilVander moreira* capa [ Depois de muita insistência, alguns atingidos
pelo IBAMA e pela polícia civil a não passarem
[ O crime/tragédia
gigante causado o crimE
pela mineradora da vALE
VALE, com licença exige justiça,
do Estado, exige de não apenas
todas as pessoas medidas
de boa vontade paliativas
compromisso
ético para que relato dramático humanos também é incalculável. Já
não apenas Em um relato dramático que inter- é o maior crime socioambiental da
ações paliativas pela nossa consciência, diz Gibran: história da humanidade em número
e secundárias “É terrível o crime socioambiental da de pessoas mortas. Depois de mui-
sejam postas em VALE, com anuência do Estado, ocor- ta insistência, alguns atingidos me
prática, mas é rido a partir de Brumadinho, MG, confidenciaram que foram orienta-
imprescindível que dia 25 de janeiro de 2019. A recupe- dos pela VALE, pelo IBAMA e pela po-
justiça no sentido ração dos bens naturais é impossí- lícia civil a não passarem nenhuma
mais profundo vel de se pensar, e a perda dos seres informação a ninguém, nem à im-
seja efetivada.
Profundamente [6 oluTador [ MARçO 2019
comovido e
indignado, o
coordenador
da Frente de
Evangélicos pelo
Estado de Direito em
Minas Gerais, Fillipe
Gibran, passou o 28
de janeiro de 2019,
em Brumadinho,
MG, tentando ser
solidário e contribuir
para que mais esse
crime tragédia não
fique impune.

me confidenciaram que foram orientados pela VALE,
nenhuma informação a ninguém, nem à imprensa...

prensa, nem aos movimentos sociais imparciais. Nojento ver e ouvir a VALE sante (abaixo) de barragens, como é
e nem às pastorais sociais. fazendo propaganda sobre as miga- o caso, por exemplo:
lhas de ajuda humanitária que está
“Falaram pra gente que nenhum fazendo diante da sexta-feira da pai- - Barragem de Congonhas, onde
movimento social vai pagar as inde- xão que a mineradora, com licença há 1,5 milhão de pessoas morando
nizações; que quem paga é a VALE - do Estado, provocou. É inadmissível abaixo de uma megabarragem de re-
Pagará quando e quanto? Como pa- que o Ministério Público, Estadual e jeitos minerários;
gar o impagável? -, então é melhor Federal, e o poder judiciário mandem
fazer o que a VALE quer”, disse um prender apenas funcionários e auto- - Cratera da Mina de Águas Claras,
sobrevivente. ridades secundárias. E os principais atrás do que resta da Serra do Curral,
responsáveis por esse crime anun- em Belo Horizonte, acima dos bairros
E continuou: “Ouvi que muitos mo- ciado, que não é de Brumadinho, mas Mangabeira, Serra e, se romper, pas-
radores retiraram vários corpos de pes- da VALE e dos seus aliados no Estado? sará como um tsunami varrendo tu-
soas do leito dos rios e que inclusive na do o que encontrar pela frente, desde
região de São Joaquim de Bicas, um Com um povo trabalhador, Bru- o bairro Mangabeiras até a Praça da
pouco abaixo, encontram corpos tam- madinho era uma região rica em nas- Estação, no centro de Belo Horizonte;
bém soterrados. Muitos moradores es- centes e cachoeiras, por isso, abaste-
tão inconformados, dizendo que o nú- cia parte de Belo Horizonte e Região - Barragem do Doutor, na Mina
mero de desaparecidos é muito maior Metropolitana com farta produção de Timbopeba, que poderá atingir as
do que a VALE e a imprensa estão di- de verduras e legumes. Além de ser comunidades de Antônio Pereira, no
vulgando. Ouvi muitos relatos de pes- uma cidade com inúmeros núcleos e município de Ouro Preto;
soas dizendo que seus parentes esta- sítios históricos, bens culturais tom-
vam no local do crime e que estão de- bados e comunidades tradicionais, - Barragem da mineradora An-
saparecidos, porém não constam nas entre elas, remanescentes de quilom- glo American, em Conceição do Mato
listas. E a VALE está se negando a inse- bos, como as de Marinhos, Sapé, Ribei- Dentro, onde há várias comunidades
rir muitos nomes de desaparecidos na rão e Rodrigues. Lamentavelmente, abaixo da barragem que, como um
lista. [...] Muitos moradores com pa- as mineradoras invadiram Bruma- dragão, está devastando tudo. No no-
rentes desaparecidos não conseguem dinho e região, e foram sacrifican- roeste de Minas, em Paracatu, acima
inserir os nomes dos parentes nas lis- do os biomas e espalhando violência da cidade, como uma espada de Dâ-
tas da VALE, que está fazendo blinda- socioambiental sem fim. mocles, está uma das maiores barra-
gem das informações e das pessoas, fez gens de rejeitos minerários do Brasil.
um cerco para ninguém chegar perto É necessária a participação dos
das barragens, nem dos ribeirinhos. atingidos e atingidas, melhor dizen- Nesse tempo em que, de forma
Os moradores estão enlutados e sem do, violentados e massacrados, no vergonhosa e escandalosa, os inte-
informações certas. Os voluntários de Comitê criado pelo Governo Federal resses do capital e dos capitalistas se
outros Estados foram dispensados. Os para “Supervisão de Respostas a De- sobrepõem ao bem comum, aos direi-
funcionários da VALE estão pressio- sastre em decorrência da ruptura da tos fundamentais, de forma institu-
nados e os bombeiros, extenuados.” barragem do Córrego do Feijão” (De- cionalizada, é fundamental a atenção
creto 9.691, de 25/1/2019). e a mobilização de todas as forças vi-
Necessidade de transparência vas da sociedade para que a vida seja
Diante deste cenário que traspassa de Outras situações de grande risco respeitada e preservada, e a justiça,
dor nosso coração, temos de alertar Tornou-se um imperativo ético e uma de fato, se concretize, sem restrições.]
que a VALE está controlando e blin- necessidade de sobrevivência para
dando as informações, os espaços, o povo e para as próximas gerações * Religioso da Ordem dos carmelitas; licen-
e o Estado não pode permanecer em paralisar já toda atividade de mine- ciado e bacharel em Filosofia pela UFPR; ba-
uma posição secundária, preocupa- ração no Estado de Minas Gerais por charel em Teologia pelo ITESP/SP; mestre
do apenas com ajuda emergencial. A meio da suspensão de todas as licen- em Ciências Bíblicas pelo Pontifício Institu-
transparência no trato com os milha- ças de projetos de mineração no Es- to Bíblico de Roma, Itália; doutor em Educa-
res de famílias golpeadas é necessária tado por tempo indeterminado, até ção pela FAE/UFMG; assessor da CPT, CEBI,
e uma questão ética inarredável. Se que sejam feitos estudos técnicos idô- CEBs, SAB e Ocupações Urbanas; professor
não forem enfrentadas as questões neos por professores e técnicos inde- de Direitos Humanos e Movimentos Popula-
de fundo com firmeza, em breve ou- pendentes para se averiguar a segu- res em curso de pós-graduação do IDH, em
tros crimes tragédias ocorrerão. Ocul- rança ambiental de todos. Se não for Belo Horizonte, MG, autor de livros e artigos.
tar informações é mentir e violentar seguro, que não seja reaberto nunca,
mais uma vez quem já foi golpeado. o processo de mineração.

As famílias violentadas têm di- Essa medida é necessária, por-
reito a informações transparentes e que há inúmeras comunidades a ju-

MARÇo 2019 [ olutador]7

Igreja Hoje [ Somos convocados por Deus e pela
distorcida que tenha tomado conta de

Políticas Um tempo de conversão
Públicas:
liberdade pela O que é de todos e diz respeito a todos,
justiça e pelo deve ser assumido responsavelmente
por todos. A Igreja do Brasil convoca
direito a todos os cristãos e pessoas de boa
vontade a um processo de reflexão
denilson mariano da silva e tomada de posição social no que
diz respeito às Políticas Públicas.
Diante do desastre
criminoso aconteci- O período quaresmal, tempo de
do em Brumadinho, conversão e de volta para Deus, nos
MG, com o rompi- leva refletir sobre o projeto de Deus
mento de uma das para nós, seu povo. O Deus da vida
barragens da Com- caminha com seu povo na histó-
panhia Vale do Rio Doce, ria, mas exige que o povo participe
torna-se ainda mais dela ativamente.
urgente tratar de
políticas públicas. Somos convocados por Deus e
pela Igreja a vencer qualquer for-
ma de comodismo, alienação e vi-
são distorcida que tenha tomado
conta de nossa mentalidade, ou en-
raizado em nosso modo de ser cris-
tão. Somos motivados a descobrir
formas, meios e estratégias para
transformar nossa fé em ação pa-
ra a garantia da vida e da dignidade
de todas as pessoas na sociedade.

O que nos motiva neste cami-
nho é a atitude convicta dos profe-
tas: “Serás libertado pelo direito e
pela justiça”. (Is 1,27.) E pela práti-
ca de Jesus, que anuncia um Reino
de justiça para que todos tenham
vida em abundância (cf. Jo 10,10).
Somos os herdeiros dos profetas e
continuadores da missão de Jesus.
Não podemos nos furtar à missão
que nos foi confiada na Igreja e na
Sociedade.

Que as mortes ali O que vem a ser política pública
ocorridas não caiam
no vazio, não sejam A Campanha da Fraternidade (CF)
em vão. Mas que acor- deste ano quer nos ajudar a com-
dem nossa memória e nos preender e a participar mais ativa-
façam buscar meios de mente das Políticas Públicas. São
preservar a vida. Não políticas que favorecem a todos,
é possível que o lu- mas principalmente os mais po-
bres. Daí a necessidade de enten-
cro e força do ca- dermos bem o que vem a ser Polí-
tica Pública. Precisamos também
pital continuem a superar os preconceitos que levam
ceifar vidas indefi- as pessoas a se fecharem a tudo o
nidamente. Decidi- diz respeito à política, por enten-
damente, precisamos de uma derem que se trata de coisa suja,
conversão social. de corrupção e desvios.

[8 olutador [ MARÇo 2019

Igreja a vencer qualquer forma de comodismo, alienação e visão
nossa mentalidade, ou enraizado em nosso modo de ser...

A palavra “Política” finca suas É nossa obrigação pela Ditadura Militar, mesmo de-
raízes em um termo grego e se re- O Papa Francisco, em suas homi- pois da Redemocratização, os in-
fere à “pólis”, ao lugar de tomar de- lias e em seus escritos, sempre nos teresses de pessoas e grupos par-
cisões em função do bem comum. tem orientado sobre a questão de ticulares têm sempre predomina-
É o espaço do diálogo e do exercício que envolver-se na política é uma do sobre os interesses da cidada-
do poder para a construção da vida obrigação dos cristãos. Ele destaca nia. A Constituição de 1988, conhe-
em sociedade. Por isso “Política” diz que não podemos “lavar as mãos” cida como “Constituição Cidadã”, foi
respeito a tudo na vida em socieda- como fez Pilatos: A Política é uma um avanço importante, mas ten-
de. Ela está na arte, nas relações de das formas mais altas da caridade, tam minimizar e até mesmo anu-
trabalho, no preço dos alimentos, pois busca o bem comum. Os leigos lar suas conquistas.
nas questões da moradia, do estudo, cristãos devem trabalhar na polí-
do transporte, do lazer, nas empre- tica. E se a política está suja, é por- São duas as principais razões
sas, nos clubes, nas associações, na que os cristãos não se empenha- para a sustentação e a defesa das
religião etc. Nas Palavras de Dom ram nela ou se empenharam sem
Pedro Casaldáliga: “Tudo é política, o espírito evangélico. É fácil colo- 1Políticas Públicas:
embora o político não seja tudo”. car a culpa nos outros. Mas o que Corrigir os desvios gerados pelas
eu faço pelo bem comum? Qual o forças de mercado (comandadas
A nossa vida particular se dá den- pela livre iniciativa). Para regular a
tro de uma sociedade, quer no campo meu empenho para que a socieda- competitividade, como bancos pú-
ou na cidade. Não temos como ficar de, o lugar que eu moro, minha ci- blicos para financiar seguimentos
fora dessa realidade da vida. As deci- dade, meu Estado, meu país, seja, marginalizados pelo sistema de cré-
sões sociais pesam sobre nossa vida. de fato, mais justo, humano e soli- dito privado; controlar efeitos noci-
Elas podem ser favoráveis à justiça e dário? (Vídeo do Papa no Vaticano.) vos ao meio ambiente, à segurança, à
ao direito ou podem negá-los, preju- qualidade de vida e serviços públicos.
dicando sobretudo os mais pobres e Na história do nosso país, os in-
sofredores. Por isso, a CF nos alerta teresses individuais e os interesses 2Lutar contra a desigualdade gera-
para o fato de que Políticas Públicas coletivos sempre se misturaram no da pelo desenvolvimento econô-
dizem respeito à busca de soluções campo do exercício do poder. A is- mico. É papel das Políticas Públicas
para as necessidades e os proble- to se dá o nome de patrimonialis- reparar as iniquidades sociais com
mas da sociedade em que vivemos. mo. Um líder político é qualificado oferta de bens, serviços e projetos
como patrimonialista quando, ao que quebrem a excluvidade do di-
A Política Pública é a ação do Es- assumir um cargo público (verea- nheiro para o atendimento às ne-
tado (Governo), bem como das ins- dor, prefeito, governador etc.), cria cessidades humans básicas: saú-
tituições sociais (grupos e entida- mecanismos de controle e também de, educação, moradia, assistên-
des organizadas) e pessoas que se de desvios, para satisfazer as suas cia social... visando à melhoria da
empenham na busca de garantir a necessidades pessoais, particula- qualidade de vida, sobretudo dos
segurança e a ordem na sociedade. res. O dinheiro público é desviado mais desasistidos. (cf. TB nº 55-61.)
Busca fazer com que a lei, a justiça, para interesses pessoais. O públi-
previstos na Constituição Federal e co fica a serviço da vontade parti- Se o desafio é comum, é impor-
nas outras leis estaduais e munici- cular, privada. tante que todos se envolvam na busca
pais, sejam colocadas em prática por de soluções e que sejam soluções que
meio da defesa dos direitos de to- Desde o período da monarquia, visem a atender prioritariamente os
dos. (cf. Texto Base CF 2019 nº 20-21.) passando pela Primeira República, menos favorecidos. Mais uma vez,
que os mortos na barragem conti-
A Política Pública é um espa- MARÇo 2019 [ olutador]9 nuem a gritar em nossa conciência:
ço de participação para a busca e a “Que isso não se repita!” Que siga-
garantia dos direitos. É preciso que mos firmes na busca de garantida
esse espaço seja ocupado por pes- da vida e da liberdade pelo exercí-
soas honestas, sérias, que ajam a cio do direito e da justiaç (cf. Is 1,27).
favor do bem comum, que busquem
a justiça e o direito. Por cristãos que Para aprofundamento: Quem se in-
queiram fazer a diferença, sendo teressa pela política tem buscado o
um fermento da justiça, uma luz bem comum ou os privilégios par-
que desmancha as tramas da cor- ticulares? Por quê? O que fazer pa-
rupção e da violência, e um sal que ra mudar essa prática?]
tempera a sociedade com a vida que
brota do Evangelho (cf. Mt 5,13-14). * E-mail: [email protected]

igreja [ Doutrina cristã e amor à Igreja...

DENILSON MARIANO DA SILVA

moBoN: 40 anos a
serviço da evangelização
oTrABALHo dE EvANGELi-
zAÇÃo do moBoN – Mo- na busca de promover a conscientiza- Preparação CF 2019 – Casa do mobon
vimento da Boa Nova an- ção dos leigos e leigas, para um maior
tecede em muito a cria- engajamento na vida eclesial e social. o movimento da Boa Nova
ção da Casa do Mobon, Com o Concílio Vaticano II, convoca-
em Dom Cavati, MG, e ao As raízes desta casa do pelo Papa João XXIII, abriram-se
mesmo tempo extrapola o alcance da O começo do trabalho aconteceu a novos horizontes para a vida e a ca-
visibilidade que esta casa lhe confe- partir de uma iniciativa do Pe. Geral- minhada da Igreja, agora com uma
re. Ao celebrar os 40 anos da Casa do do Silva, Missionário Sacramentino postura mais aberta aos leigos e com
Mobon, temos uma boa oportunida- de Nossa Senhora, em Alto Jequitibá, propostas mais ecumênicas. Alípio
de para resgatar a sua importância e MG, alguns anos antes do Concílio Va- Jacintho da Costa, na época ainda um
procurar divulgar um pouco de sua ticano II. Diante da carência do povo jovem religioso Sacramentino, depois
contribuição para a caminhada de no conhecimento da doutrina e da de um curso no Chile, em meados
evangelização em Minas Gerais e em Palavra de Deus, ele intuiu a neces- de 1966, dá uma nova configuração
outros Estados do Brasil. sidade de formação bíblica e iniciou ao trabalho de evangelização. Assim
as “escolas bíblicas”, sobretudo para ele destaca: “Os encontros e reflexões
A construção deste centro de evan- responder às polêmicas protestantes. acontecidos no pós-Concílio nos le-
gelização aconteceu durante o ano de varam a ampliar a visão e passamos
1978, com doações vindas das várias Este trabalho bíblico com grupos a seguir o caminho da renovação da
paróquias da região e mediante o tra- de leigos clareava as questões de fé, vida pessoal e da formação para a vi-
balho de mutirão da parte do povo das doutrina cristã e amor à Igreja. O grupo da em comunidade. O trabalho bíbli-
comunidades. Foi um ano de inten- começado por ele ganhou o nome de co foi-se descolando da linha apolo-
so trabalho e logo veio a sua inaugu- “Pioneiros do Evangelho” e fazia par- gética e assumindo a linha do com-
ração no dia 11 de março de 1979. Ano te de uma organização que recebeu o promisso com a vida familiar, a or-
em que aconteceu também a impor- nome de MAPE - Movimento de Apos- ganização de comunidades e o for-
tante Conferência dos bispos latino tolado dos Pioneiros do Evangelho. talecimento do culto dominical e da
-americanos em Puebla, no México. catequese”.

A Casa do Mobon foi construída
com o objetivo de formar animadores
de comunidades. Um espaço que favo-
recesse o encontro do povo com a Pala-
vra de Deus, em um ambiente acolhe-
dor e fraterno. Nesses 40 anos, a Casa
do Mobon prestou relevantes serviços
à Diocese de Caratinga e região. Pro-
moveu encontros de formação bíbli-
ca, catequética e pastoral, sempre sin-
tonizada com a caminhada da Igreja,

Preparação CF 2019 – Casa do mobon

[10 oluTador [ MARçO 2019

Alípio, Mariano, João Resende feiçoando e tomando corpo em nos- se torna discípulo e se dispõe a tam-
sa Diocese e em muitas outras onde bém formar novos discípulos. Cons-
Alípio relata que o trabalho de con- o trabalho da Boa Nova ia atingindo. tituindo-se ‘discípulos missionários’.
clusão do seu curso no Chile passou
a se constituir o esquema dos cursos MOBON 40 anos Há pelo menos duas urgências
de formação para as lideranças lei- A casa do Mobon foi construída pelo neste pós-jubileu: desenvolver a con-
gas nas comunidades. Tratava-se de povo simples. Foi edificada com recur- templação entre os leigos, ser con-
apresentar Jesus como a grande Boa sos vindos de doações das comunida- templativo, para alimentar a místi-
Nova do Reino de Deus. Basicamente, des, foi edificada por eles e para eles, ca que vai nos dar forças para ir pra
dois cursos mais centrais: o “Pré Boa em função de favorecer a formação frente. Não tem como caminhar sem
Nova”, que era um despertar para o dos pobres para o discipulado missio- essa mística do Evangelho. [...]
engajamento na vida de comunidade, nário. É preciso que ela continue sen-
e o “Boa Nova”, que tinha o objetivo de do deles, acessível, acolhedora, um Outra é o caminhar ‘sentindo com
fazer a pessoa assumir um ofício de lugar onde o pequeno se descubra em a Igreja’, fazendo eco com o que Ela
liderança na comunidade e até ajudar sua dignidade, como gente, como fi- nos propõe, hoje. É preciso que o MO-
na aplicação de outros cursos. Os di- lho de Deus, e com uma grande mis- BON desenvolva em nós um sentido
rigentes que aplicavam os cursos co- são a realizar na Igreja e na sociedade. poético, não de versejar, mas de ler
meçaram a ser chamados de “Turma a realidade de uma maneira agradá-
da Boa Nova” e, posteriormente, veio a É diante disso que João Resende vel, mais simpática, mais leve, mais
ser este o motivo da mudança do no- afirma que esses 40 anos da Casa do simples, isso vai nos puxar, cada vez
me para “Movimento da Boa Nova”. Mobon são, na verdade, um “tributo mais, para frente até no próximo ju-
ao leigo”. E em uma conversa bastante bileu, se Deus quiser.”
Alípio destaca ainda que, com o espontânea com Alípio e João Resende,
entusiasmo gerado pelo estudo bíbli- no mês de janeiro deste ano, pedimos [Alípio: “Meu desejo e esperança é
co, começaram a surgir os grupos de que destacassem o que eles veem de que esse trabalho do MOBON não
reflexão. Inicialmente era a indicação mais importante nestes 40 anos do Mo- morra. É o que eu peço todos os dias.
de um texto bíblico para cada sema- bon e qual o grande desejo que alentam Assim como Maria, nas Bodas de Ca-
na, acompanhado de uma pergunta em seu coração. Eis o que eles dizem: ná, sentiu a falta do vinho, faço a pre-
motivadora. A resposta desta pergun- ce para que Nossa Senhora fale com
ta era partilhada entre os grupos, no [Alípio: “O que eu estou vendo hoje Jesus desta falta de vinho, que é de
final do mês, o que veio a configurar- de mais importante são os novos gente com vontade, com disposição
se como “plenário”. Um espaço de tro- missionários que estão aparecendo. O e seriedade, que queira trabalhar na
ca de ideias e elemento importante João e eu já fizemos muitos trabalhos, evangelização. Tenho fé e esperança
para socialização e clareamento das estamos ficando velhos. Hoje vemos de que esse trabalho vai crescer ainda
ideias. Aos poucos vai-se evoluindo um grupo bom de gente, leigos e leigas mais e vai aparecer essa gente nova. [...]
até chegar à publicação dos “rotei- conscientes, jovens de pé no chão e que
ros de grupo de reflexão”, assumidos anunciam a Palavra com aquele entu- Que esse Movimento não pare! Que
posteriormente pela Diocese de Ca- siasmo. Pessoas capazes de provocar esse “fazer discípulos” faça do MOBON
ratinga. Esses grupos foram-se aper- um novo entusiasmo em outros. [...] um grande lutador nesse sentido, co-
mo Santa Teresinha: ‘vamos conti-
Para mim, o mais importante são nuar fazendo o bem do céu aqui na
esses novos discípulos de Jesus que es- terra’. Que este trabalho de evangeli-
tão crescendo. Os jovens de hoje com zação não pare, seja da forma como
suas ideias, uma nova geração que acontece hoje, seja em novos meios ou
está a serviço da Igreja como entu- em novos espaços como pela Internet,
siasmo e alegria. A família cresceu... nas redes sociais, mas que não pare.”
mas, essa nova geração de discípulos
surge para levar o trabalho adiante.” [João Resende: “Uai, esses 40 anos
dizem muitas coisas! Entre elas, di-
[João Resende: “Nós estamos num zem que a gente deve juntar: leigo
ano jubilar, ocasião para fazer uma e Bíblia - Bíblia e leigo. Quando es-
memória prospectiva. A memória tem sa dupla dá as mãos, nada embar-
maior valor quando se alimenta do ranca. Quando o leigo assume a Bí-
que aconteceu e faz uma prospectiva blia e ela é vivida, interpretada, reli-
de continuidade da caminhada. O que da pelo leigo, a partir de sua realida-
faz esse Movimento da Boa Nova ir pa- de, gera uma força tão grande, que
ra frente é a fidelidade à formação de garante o futuro de um bom traba-
leigos como discípulos missionários. lho de evangelização. É o leigo abra-
Esse é um grande desafio, pois o leigo çando a Bíblia e a Bíblia abraçando
não é tanto o pregador, mas aquele que o leigo, o meu sonho é que essa di-
nâmica perdure até à eternidade.”]
MARÇo 2019 [ olutador]11

dom edson oriolo* Igreja Hoje [ Estamos vivendo em uma so

ialogando com
ministros ordena-
dos e lideranças, em
variadas realida-
des, tenho respon-
dido a uma mes-

Dma questão: como
reagir, no âmbito
eclesial, à crise econômica que, as-
solando toda a sociedade, não dei-
xa de atingir, também, nossas co-
munidades de fé? Tenho buscado
abordar o tema sem a pretensão de
“inventar a roda”. Penso que no ce-
nário de crise econômica e crise de
confiabilidade, a resposta da ges-
tão eclesial deva ser o cultivo dos

Transparência,

próprios valores da gestão, ilumi- [ É necessário sial não pode ser indiferente a es-
nada pela “fé”, tendo por paradig- gerenciar sa onda portentosa. Se nos perce-
ma o “Evangelho”. Entre esses va- bemos questionados, devemos res-
lores, destaca-se a transparência. bem os recursos ponder positivamente, superando
e assegurar respostas lacunas que, infelizmente, incidem
Cultura da transparência rápidas a quem doa, sobre nosso modo de ver e conduzir
Está demonstrado que o sucesso na estabelecendo laços a administração. Para os ministros
gestão eclesial está atrelado à con- ordenados, na sua maioria sérios e
fiabilidade. A própria crise econô- de comunicação dedicados, aqui está uma oportuni-
mica pela qual passamos é conse- rápida e produtiva. dade de pôr em prática o paradig-
quência da falta de transparência, ma conciliar do “protagonismo dos
em razão da improbidade que ela O vínculo de leigos”. É necessário que, em face
revelaria. Também os gestores ecle- confiança se da “cultura da transparência”, nós
siais são, de mais a mais, questiona- conquista quando não apenas respondamos com pro-
dos por essa realidade. Por um lado, se assume tagonismo, mas sejamos incentiva-
diante da sociedade laica, a Igreja é a transparência dores na estruturação de paróquias
arrolada em face de sua gênese de como paradigma pautadas em valores inalienáveis.
instituição do “terceiro setor”, com e caminho para
deveres legais diante dos poderes a honestidade, Estamos vivendo em uma so-
públicos. Por outro lado, também ciedade onde nunca se falou tanto
os fiéis, esperam de seus pastores e clareza. ] em transparência. As pessoas sen-
líderes uma administração trans- tem esse anseio e protagonizam a
parente com a verdade, vértice de [12 olutador [ MARÇo 2019 aspiração por uma cultura global
nossa pregação. de transparência. É crescente a rei-
vindicação por instituições, paró-
A crise econômica é ocasião de quias e organizações públicas, go-
crescimento e faz surgir uma “cultu- vernamentais, políticas, assisten-
ra da transparência”. A gestão ecle- ciais, privadas e religiosas pautadas

ciedade onde nunca se falou tanto em transparência...

pela transparência na administra- que não dizer urgente? - a transpa- parência, essenciais em cada célu-
ção de recursos. Mesmo dos meios rência na administração das dioce- la que forma a Igreja de Cristo, in-
de comunicação se cobra transpa- ses, congregações religiosas, paró- tegralmente presente em cada fa-
rência de fontes e métodos como quias, comunidades eclesiais, pa- mília diocesana. Exemplo disso é a
condição para a credibilidade. A rei- ra a credibilidade das propostas e experiência efetivada na Arquidio-
vindicação por conhecer como fun- da própria missão da Igreja, diante cese de Belo Horizonte, condensa-
cionam as entranhas da adminis- da sociedade organizada e de seus da no precioso volume: Documento
tração das dioceses, paróquias, ins- fiéis. A transparência evoca outras 5 – Cúria Metropolitana: normas,
tituições, congregações religiosas, realidades em que se supõe: inte- procedimento e orientações.
como as decisões são tomadas, co- gridade, honestidade, sanidade fi-
mo são aplicados os recursos, res- nanceira, empatia e fidelidade ao Transparência, na acepção que
soam em todos os ambientes. sentido da missão. Neste sentido, motiva a intensa reorganização ad-
as Igrejas Particulares (arquidio- ministrativa da arquidiocese da ca-
Três movimentos importantes ceses, dioceses e afins), invocan- pital mineira, não é apenas “pres-
A transparência assegura três im- do o princípio da “diocesaneidade”, tação de contas”, isto é, uma atitu-
portantes movimentos da gestão vêm procurando responder a esse de local e sem repercussão no todo
eclesial: legitimidade, apoio dos imperativo com processos que pri- eclesial, mas ações operacionais pa-
drão, que se subordinam a um pro-

, imperativo da gestão eclesial!

paroquianos e vinculação de con- mam pela transparência, mesmo cesso possível de cálculo, governo e
fiança. A legitimidade é a relação à custa de coação de todos os entes controle, no nível arquidiocesano.
objetiva entre a fé que nos motiva e comprometidos, em vista de um Segurança legal para ministros or-
nossas atitudes em todos os âmbi- mesmo fim. denados e líderes, garantia de pro-
tos da vida eclesial. Como falar con- bidade administrativa e, sobretudo,
tra o consumismo, mas dar valor Em comunhão com a Igreja possibilidade de cumprimento da
superlativo ao supérfluo e dispen- O conceito de “diocesaneidade” é missão e foco na missão evangeliza-
sável? O apoio dos paroquianos se de grande relevância teológica, ca- dora de proclamar a Palavra de Deus.
conquista na medida em que par- nônica e pastoral. Incide, também,
ticipam efetivamente na adminis- e de forma relevante, sobre a ges- A Igreja tem a missão de ser
tração da comunidade, isto é, quan- tão eclesial. No passado, a gestão transparente. Agir de acordo com
do doam e conseguem ver para on- era pensada de forma local, quase a verdade é garantia de sucesso em
de está sendo canalizado o recurso. sempre paroquial, com processos nossas inciativas e, em longo prazo,
marcadamente dispersos e muitas de felicidade e realização, no âm-
É necessário gerenciar bem os vezes sem critérios objetivos que bito pessoal e comunitário. Deve-
recursos e assegurar respostas rá- permitissem um acompanhamen- mos conhecer e aderir à organiza-
pidas a quem doa, estabelecendo la- to salutar. Na maioria das vezes, o ção fundada na transparência, ade-
ços de comunicação rápida e produ- arbítrio de cada responsável era o rirmos e nos comprometemos ne-
tiva. O vínculo de confiança se con- critério para a administração dos la, como instrumento eficaz para
quista quando se assume a trans- bens temporais. No entanto, o atual escolhermos sempre o que é justo e
parência como paradigma e cami- contexto torna imprescindível, tam- de acordo com o nosso chamado e
nho para a honestidade, clareza, bém no campo da gestão, o cultivo ideal, falando uma mesma língua
independência, falar com respeito, do paradigma da diocesaneidade. e baseados nos mesmos processos,
educação, empatia (colocar-se no A gestão pensada no macro, isto é, crescendo como instituição pecu-
lugar do outro), ganhar o respeito na comunhão de toda a Igreja Par- liar, com a bela missão de levar a
dos fiéis pelo que se prega e vive. ticular, nas suas diversas instân- boa-nova de Jesus Cristo.]
cias, assegura a sanidade e a trans-
A Igreja não está ao largo deste * Bispo Auxiliar na Arquidiocese
fenômeno. É imprescindível – por MARÇo 2019 [ olutador]13 de Belo Horizonte, MG

V Í C T OR C ODINA* Bíblia [ Jesus quer sair às ruas e não ficar prisioneiro

LibJeesrtuasr a

do passado, quer percorrer caminhos novos...

[ Libertar Jesus No conclave de março de 2013, doar, consolar, anunciar o Reino,
não equivale a que precedeu a eleição de gerar esperança e alegria, dar vi-
dizer: “Jesus sim, Francisco, o cardeal Bergo- da, porque só ele possui o Espírito
Igreja não”, mas glio teve intervenções in- sem medida.
implica formar teressantes, algumas de-
uma igreja não las curiosas e pouco conhecidas. Devemos libertar Jesus de mui-
autorreferencial, tas prisões nas quais temos pren-
mas em saída, Comentando sobre o texto do dido Jesus ao longo dos séculos,
Apocalipse 3,20, onde se diz que o para recuperar o frescor do seu
evangélica, Senhor está à porta e bate, Bergo- Evangelho, voltar à Galileia, para
transparente glio disse que o texto refere-se cla- escutar a sua voz profética contra
com sandálias ou ramente a Jesus que bate à porta os atuais hipócritas e explorado-
descalça, pobre, de fora para entrar. res do povo, contra os novos mer-
missionária e cadores do templo, voltar a recu-
pascal, desligada Mas ele acrescentou que esta- perar Jesus como o artesão Naza-
de todo poder va pensando nos tempos em que reno, perigoso e desconcertante,
Jesus bateu na porta por dentro, capaz de confiar em seu Pai, de
temporal, para nos deixar sair. morrer e ressuscitar.
comprometida na
libertação do povo Sem dúvida, essa interpretação Igreja comprometida
poderia chocar muitos estudiosos Mas libertar Jesus não equivale
e na libertação bíblicos, mas é uma idéia inquie- a dizer: “Jesus sim, Igreja não”,
da criação, tante porque, como Berglogio acres- mas implica formar uma igreja
centou, a Igreja autorreferencial não autorreferencial, mas em saí-
interpelada pela pretende manter Jesus Cristo den- da, evangélica, transparente com
dor das vítimas, tro de si mesma e não o deixa sair. sandálias ou descalça, pobre, mis-
sionária e pascal, desligada de to-
alegre com a Jesus quer sair às ruas do poder temporal, comprometi-
alegria do Espírito. Em outras palavras, prendemos da na libertação do povo e na li-
Jesus dentro de doutrinas, leis, ri- bertação da criação, interpelada
A Igreja não pode tos, templos, palácios episcopais pela dor das vítimas, alegre com
substituir Jesus, e estruturas do passado. Temos a alegria do Espírito. A Igreja não
deve promover um um Jesus prisioneiro durante sé- pode substituir Jesus, deve promo-
encontro pessoal culos na Igreja da Cristandade, ver um encontro pessoal com Ele.
ocidental, medieval, feudal, in-
com Ele.] quisitorial, colonial, diplomáti- Somente quando libertarmos
ca, poderosa, antimoderna, abso- Jesus dessas prisões e deixá-lo sair
lutista, burguês, patriarcal, cen- ao mundo hoje para escutar o po-
tralista e elitista. Jesus foi preso vo, podemos abrir-lhe a porta, dei-
em estruturas eclesiais que estão xá-lo entrar em nossa casa, ceiar
longe de pessoas pobres e simples, com ele e ele conosco.
crianças e mulheres, agricultores
e pecadores, dos migrantes e re- Bergoglio, no conclave de 2013,
fugiados, de todos os que, em to- já anunciara seu futuro roteiro
das as culturas e religiões, bus- pastoral e o estilo de uma Igre-
cam a verdade. ja que está em saída. Talvez por
isso ele tenha sido eleito Papa, e
Jesus quer sair às ruas e não talvez por isso outros o rejeitem
ficar prisioneiro do passado, quer hoje. Mas o que é certo é que o Se-
percorrer caminhos novos, pisar nhor continua batendo à porta:
a terra, ir para as fronteiras, chei- quer entrar ou quer sair?]
rar a ovelhas, poeira, suor e lá-
grimas, ouvir o clamor das pes- * Doutor em Teologia,
soas, conversar, abraçar, beijar, assiste às comunidades populares
dar a mão, curar, abençoar, dizer de Oruro na Bolívia.
palavras de encorajamento, per- (Texto Amerindiaenlared.org)

MARÇo 2019 [ olutador]15

P e . S e b a s t i ã o S a n t ’A n a , SDN * Família [ Crianças, adolescentes, jovens,

recente tragédia de Bru-
madinho, que ceifou tan-
tas vidas, faz com que a
proposta da Campanha da
Fraternidade (CF) de 2019,
ganhe enorme atualidade.
Realizada de 6 de março

Aa 14 de abril, contará com
a participação de nossas

famílias e comunidades.

Com o tema Fraternidade e Políticas Pú-

blicas e o lema “Serás libertado pelo direi-

to e pela justiça” (Is 1,27), a CF tem como ob-

jetivo geral: “Estimular a participação em

Políticas Públicas, à luz da Palavra de Deus

e da Doutrina Social da Igreja, para fortale-

cer a cidadania e o bem comum, sinais de

fraternidade”.

Quando o Documento de Aparecida

(435), ao sintetizar a tríplice missão da

Pastoral Familiar, destaca o “promover a

cultura da vida” e o “trabalhar para que

os direitos das famílias sejam reconheci-

dos e respeitados”, está apontando dire-

tamente para as Políticas Públicas e seus

Políticasnumerosos frutos. Participação, cidadania
e bem comum

O Texto-Base (TB) da CF 2019, a

partir da Palavra de Deus e da

Públicas, Doutrina Social da Igreja, nos
convida a olhar para a questão
das Políticas Públicas a partir
de três palavras, contidas no
objetivo geral. Elas lançam lu-

os jovens e zes sobre o tema e provocam a
ação libertadora: a participa-
ção, a cidadania e o bem co-
mum (cf. TB 160).

Para a Doutrina Social da

a família Igreja, é necessária “uma parti-
cipação ativa e consciente dos
cristãos leigos e leigas na vida
da sociedade, sendo esse um de
seus princípios permanentes”.

(TB 163.) E mais: “Um governo

verdadeiramente democráti-

co é definido não somente por-

que foi legitimamente eleito,

mas também enquanto envolve

todos os sujeitos da sociedade

civil em seus diversos níveis,

[16 olutador [ MARÇo 2019 de modo que todos sejam in-

adultos, todos somos chamados a participar dos encontros...

formados, ouvidos e envolvidos no pecialmente dos jovens, em vista vista do exercício da cidadania”. O
que se refere ao bem comum, em do exercício da cidadania. Papa Francisco, o Sínodo dos Bis-
um processo de democracia parti- pos (2018), a JMJ e a CF 2019 incen-
cipativa”. (Idem) A intervenção dos - Suscitar cristãos católicos com- tivam sua participação efetiva, a
leigos nas tarefas governativas em prometidos na política como teste- partir da ética cristã e dos espaços
vista do bem comum é mediação munho concreto de fé. oferecidos.
concreta da caridade (cf. TB 167).
Presença Quanto à FAMÍLIA, celebram-se
Para melhor compreensão dos cristãos em 2019 os 25 anos da CF que abor-
da proposta da CF 2019 leigos no vasto dou o tema da família: “A família
Para tornar mais evidente seu ob- mundo da política como vai?” O TB lembra que a CF é
jetivo geral, a CF 2019 propõe os O Texto-Base é claro: “Os cristãos lei- ocasião propícia para todas as ins-
objetivos específicos. Estes am- gos e leigas devem estar presentes tituições que trabalham com o te-
pliam a compreensão da propos- no vasto mundo da política. Pode- ma da família se comprometerem
ta da Igreja: se dizer que Cristo estará presente com afinco na participação das Po-
nesse meio se os cristãos lá estive- líticas Públicas ligadas à família
- Conhecer como são formula- rem”. (TB 169.) Para reforçar a tese, (cf. TB 108).
das e aplicadas as Políticas Públicas o TB cita, em nota de rodapé, o ar-
estabelecidas pelo Estado brasileiro. gumento de Jacques Maritain, em Vamos conhecer
sua obra Por um humanismo cris- e aprofundar
- Exigir ética na formulação e tão, p. 28: “Para que o povo viva com a proposta
na concretização das Políticas Pú- Cristo, é preciso que os cristãos vi- da CF 2019?
blicas. vam com o povo”. A Igreja convida a todos nós, famí-
lias, pastorais e movimentos so-
- Despertar a consciência e in- “Infelizmente, em nossos dias, ciais, associações diversas etc., a
centivar a participação de todo ci- observa-se um descrédito da políti- conhecermos melhor o que são as
dadão na construção de Políticas ca e dos políticos, o que induz mui- Políticas Públicas e as pistas de ação
Públicas em âmbito nacional, es- tas pessoas a se desinteressarem da CF 2019.
tadual e municipal. pela militância política” - consta-
ta o nº 170 do Texto-Base, que cita A tomada de consciência dos
A Igreja convida o Papa Francisco: “Muitas vezes, a avanços da Constituição de 1988
a todos nós, famílias, própria política é responsável pelo e do ensino da Doutrina Social da
pastorais e movimentos seu descrédito, devido à corrupção Igreja nos fará perceber que a par-
sociais, associações e à falta de boas Políticas Públicas”. ticipação nesse processo é uma
diversas etc., (Laudato Si, 197.) forma de vivermos o Evangelho.
a conhecermos melhor Por isso, a CF 2019 está convocan-
o que são as Políticas Aos cristãos inseridos na política do os cristãos para serem agen-
Públicas e as pistas pede-se o empenho para a criação tes de transformação da socieda-
de ação da de estruturas sociais mais justas, de e sementes do Reino nos seus
CF 2019. a partir do princípio ético do bem diversos âmbitos.
comum, iluminados pela fé e pe-
- Propor Políticas Públicas que las orientações da Doutrina Social Crianças, adolescentes, jovens,
assegurem os direitos sociais aos da Igreja (cf. TB 171). adultos, todos somos chamados a
mais frágeis e vulneráveis. participar dos encontros, cursos,
Políticas públicas, debates, rodas de conversa, cele-
- Trabalhar para que as Polí- os jovens e a família brações etc.
ticas Públicas eficazes de gover- “As Políticas Públicas dizem respeito
no se consolidem como políticas às várias dimensões da sociedade e Além do cursinho preparado pelo
de Estado. visam a assegurar os direitos huma- Movimento Boa Nova - MOBON, há
nos mais elementares para que ca- o rico material da CNBB: DVD, Texto
- Promover a formação política da pessoa tenha condições de viver -Base, Círculos Bíblicos, Encontros
dos membros de nossa Igreja, es- com dignidade” - explica o Pe. Eri- Catequéticos, Encontros específicos
valdo Dantas, autor do Cartaz da CF. para Ensinos Fundamental, Médio
e Superior. Também para Grupos
Um dos objetivos específicos da de Jovens, Famílias, além de uma
CF 2019 é promover a formação po- Celebração Ecumênica.
lítica dos membros de nossa Igre-
ja, especialmente dos jovens, em Participe! A Mãe Igreja agradece.]

MARÇo 2019 [ olutador]17

Especial [ As boas práticas
sites e folders,

significativos, na área de segurança

e de manejo estrutural dos altos ris-

cos inerentes à atividade minerária e

com forte desprezo pelo cumprimen-

to das legislações de segurança. Ou

seja, estamos diante de práticas coti-

dianas que podem ser tecnicamente

caracterizadas como de descaso pa-

ra com as boas práticas em minera-

ção e de negligência e imperícia em

relação aos cuidados fundamentais

conhecidos dessa atividade de risco.

Diante disso fazemos contundente

afirmação: o que aconteceu em Ma-

riana e Brumadinho, mas também

o que está por acontecer, como uma

bomba relógio prestes a explodir, em

tantos outros lugares onde estão lo-

calizadas as quase 800 barragens de

rejeito de minério espalhadas por Mi-

nas Gerais e por todo o Brasil, não é

tragédia, fatalidade ou acidente, mas

hediondo crime econômico, político

e socioambiental, simultaneamente

contra a vida do país, da sociedade

Edward N.M.B.Guimarães* e o equilíbrio de nossa casa comum.
Economias locais, municipais, es-
Os dois últimos graves parece, de pessoas em todos os âm-
crimes das minerado- bitos do poder público. taduais e federais são arruinadas. Po-
ras ocorridos em Minas líticas públicas e legislações são ba-
Gerais, infelizmente, Ninguém conquista tamanho po- nalizadas, corrompidas, burladas e
der, a ponto de se colocar acima da arruinadas. Ecossistemas inteiros
Constituição e das diversas legisla- são afetados, desequilibrados, arra-
sados e aniquilados. Direitos sociais

não são exceções, mas eles ções socioambientais, sem uma efi- fundamentais de comunidades tradi-
desnudaram os podres bas- ciente rede capilar de cooptação, cor- cionais, indígenas e quilombolas, ga-
rupção e apropriação, cujos tentácu- rantidos por nossa Constituição, são

tidores da atividade e da polí- los alcancem pessoas em todos os três ignorados, usurpados e a sua própria
tica minerária em nosso País. poderes, nos níveis municipal, esta- dignidade humana devorada. A vida
dual e federal, bem como em todos de inúmeras pessoas inocentes é bru-

Irresponsável lógica extrativista os órgãos competentes para fiscali- talmente ceifada e, por consequência,
Tomamos conhecimento da domi- zar a perigosa atividade minerária. a estrutura de inúmeras famílias é
nante e irresponsável lógica extrati- profundamente abalada e destruída.
vista promovida pelas grandes em- Os acontecimentos recentes e o
que pesquisamos revelam uma sede Os crimes compensam?
insaciável e eticamente imoral, por
presas de mineração e, o que é mais lucros cada vez maiores e com me- Será que tamanhos crimes compen-

agravante, com a conivência cúm- nores custos das mineradoras, – in- sam? Lamentavelmente, somos le-

plice e amplamente cooptada, ao que clusive com visíveis cortes, levianos e vados a dizer: tudo indica que sim!

Brumadinho:
O desafio de florescer em meio ao fétido e lamacento pântano. Dos crimes das mineradoras
[18 olutador [ MARÇo 2019

na atividade de mineração, ainda que “acolhidas e acordadas”, divulgadas em
não são seguidas pelas empresas...

Chegamos a esta triste constatação 4Há mais esforços econômicos e los V e VI, nos quais aborda, no pri-
políticos por parte das empresas meiro, a centralidade do repensar a
1pelas seguintes razões: de mineração em pagar gran- política a partir da emergente cons-
As empresas de mineração con- des escritórios de advocacia para re- ciência ecológica integral e, no segun-
seguem burlar todo o complexo correr de multas e financiar políti- do, da urgência irrenunciável de nos
e frágil sistema sociopolítico de
controle e, como se pode notar, em cos para conquistar, “legitimamen- dedicarmos ao cultivo da educação e

todos os níveis. Nos casos dos crimes te”, flexibilizações na legislação so- da espiritualidade ecológicas (FRAN-

socioambientais em que são siste- cioambiental, ampliando ainda mais CISCO, 2015, p. 99-142) – e a prática

maticamente multadas por órgãos os riscos da atividade minerária, do libertadora de Jesus de Nazaré, que

como o Instituto brasileiro de meio que em cumpri-las. nos revela um Deus que nos liberta

ambiente e dos recursos naturais re- e responsabiliza, podem servir-nos
nováveis - IBAMA, conseguem sair O que pode ser feito? de fontes de inspiração.

praticamente impunes. Não pagam O que fazer, enquanto indivíduos e Muitas atividades podem e de-

2as multas e tudo fica por isso mesmo; sociedade, conscientes de nossa cor- vem, com urgência, ser feitas para
Três anos depois do grave crime responsabilidade cidadã, para que no suscitar mudanças na postura de pa-
da Samarco-Vale-BHP, na Bacia futuro tenhamos outra realidade no catos cidadãos resignados com a ig-
do Rio Doce, não obstante o ta- tocante ao que estamos refletindo? nóbil situação. É preciso mobilizar

manho do estrago socioambiental e a sociedade com passeatas, abaixo

com condenações assinadas pelo Mi- -assinados, debates; fomentar pes-

nistério Público, federal e estadual, quisas multi-inter-transdisciplina-

estas empresas continuam, a grosso res sobre as várias temáticas envol-

modo, ilesas e impunes. Parecem não vidas na mineração; promover se-

ter aprendido nada com os erros co- minários e rodas de conversas com

metidos, pois não repensaram e não os movimentos populares e grupos

mudaram suas agressivas práticas. diversos da sociedade civil, com am-

Criaram, ao contrário, uma empresa, pla formação da consciência crítica.

a Renova, que é acusada por muitos Concretizar formas criativas de

profissionais competentes da área pressão sociopolítica; empoderar os

socioambiental e jurídica, entidades Na milenar espiritualidade orien- cidadãos; despertar e alimentar uma

e movimentos populares dos atingi- tal de ricas tradições de sabedoria, espiritualidade ecológica integral –

dos, de ser uma “empresa de facha- cultiva-se uma certeza esperançada pessoal, social e ambiental – que des-

da” para terceirizar o crime cometi- fundada nos ardis de uma flor sin- perte atitudes de amor, serviço e zelo

do, evitando desgastes públicos, além gular, plena de límpida beleza, que nos cuidados com a nossa casa co-

de dificultar e burocratizar as medi- se tornou capaz de florescer, bela e mum, em vista da formação de só-

das de mitigação, reparação e o paga- pura, mesmo mergulhada em con- lida mentalidade ecoética libertado-

3mento das indenizações às vítimas; texto profundamente adverso e hos- ra. A força da mudança brota do tes-
As boas práticas na atividade de til à vulnerabilidade da vida: o de um
mineração, ainda que “acolhi- pântano profundamente lamacento. temunho de quem está na luta e da
das e acordadas”, divulgadas em Trata-se da flor de lótus, flor torna-
sites e folders, não são seguidas pe- da símbolo de luta, encorajamento experiência afetiva de coletivos; por-

tanto, que “ninguém solte a mão de
ninguém!”]

las empresas. Servem, infelizmente, e incansável perseverança na bus- * Doutorando em Ciências das Religião pela PUC
mais para dar satisfação e construir ca da iluminação e sabedoria para a Minas, secretário executivo do Observatório da
uma boa imagem de empresa ética, conquista do bem viver. Evangelização e coordenador do grupo multidis-
ainda que às custas de propaganda ciplinar Mineração e Correlatos; em 2016, junta-
A espiritualidade dessas escolas

enganosa para a sociedade, do que de sabedoria oriental, a encorajado- mente, com a profª Denise de Castro Pereira, or-
de referência ou baliza, de fato, para ra Encíclica Laudato Si’ do Papa Fran- ganizou o livro “Mineração e Sociedade: Aborda-
suas próprias práticas minerárias; cisco – com destaque para os capítu- gens multidisciplinares sobre desafios e urgências
à luz da tragédia da Bacia do Rio Doce”.

flor de lótus
e da política brasileira ao impulso coletivo de um criativo processo ecoético libertador.

MARÇo 2019 [ olutador]19

Juventude [ A JMJ só acontece porque vocês a dão vida
lá nas suas comunidades. Lá é onde vocês mostram quem

F R T. D i o n e Af o n s o , SDN *

JMJ: Jovens discí

A34ª edição da Jornada Mun- minho. “Se alguém se põe a cami- sim, vemos o segundo movimen-
dial da Juventude foi sedia- nhar, já é um discípulo. Se ficas pa- to da caminhada do jovem discí-
da no Panamá entre os dias rado, é um perdedor. Começar a ca- pulo. Vós, jovens, sois os mestres e
22 a 27 de janeiro de 2019. minhar é a maior alegria do discí- os artesãos da cultura do encontro:
“Eis aqui a serva do Senhor, pulo. Vós, jovens, não tendes medo
faça-se em mim segundo a Tua Pa- de arriscar-se e caminhar.” O Papa ❝A cultura do encontro é aque-
lavra” (Lc 1,38) serviu como inspira- Francisco chama a atenção para um la que nos faz caminhar jun-
ção para este encontro de fé com os discipulado com visão missionária. tos com as nossas diferenças,
jovens de toda a Igreja. Na figura de Esse primeiro movimento convida mas com amor, todos unidos
Maria, o sucessor de Pedro convida os jovens a se porem a caminho, a no mesmo caminho [...] Entrar
os jovens a se colocarem a caminho se tornarem discípulos de Jesus; e na cultura do encontro é apelo
e a enxergar no “Sim” de Maria, o caminhando com Ele, eles não se e convite a termos a coragem
chamado renovado a os impulsio- igualam ao caminho da Alice que, de manter vivo e em conjunto
nar e a testemunhar Cristo em suas perdida, não sabe aonde quer che- um sonho comum.
comunidades. A JMJ revela para nós gar, mas, “sabendo caminhar es-
um grande testemunho de fé: “mo- cutando e escutar completando-se Entre nós, há tantas diferenças, fa-
vida pelo calor da juventude e pe- uns aos outros, sabendo testemu- lamos línguas diferentes. Todos nos
las cores e ritmos de vossas cultu- nhar anunciando o Senhor no ser- vestimos de forma diferente, mas,
ras, ela renova a alegria e a espe- viço aos nossos irmãos vossa ca- por favor, procuremos ter um so-
rança da Igreja”. (Papa Francisco) minhada se converterá numa pas- nho em comum. Isto, podemos fa-
toral concreta a serviço do Reino”. zê-lo. E isto não nos aniquila, mas
O discípulo é aquele que caminha enriquece. Um sonho grande, um
O discurso inaugural do Papa Fran- Mestres e artesãos sonho capaz de envolver a todos.
cisco desperta nos jovens dois mo- da cultura do encontro [...] Um sonho concreto, que é uma
vimentos essenciais para a cami- Encontrar-se não é fazer mímica, Pessoa, que corre nas nossas veias.”
nhada enquanto sujeitos na Igreja e todos fazendo a mesma coisa, is-
na sociedade. O primeiro movimen- so quem faz são os papagaios. As- Quem caminha, não caminha
to é o discipulado. Para descobrir a só. E para caminhar juntos, é pre-
novidade da juventude na Igreja é [20 olutador [ MARÇo 2019
preciso saber caminhar juntos. Não
caminhar por caminhar. “Sair do
vosso país para estar juntos por es-
tar, isso não é ser jovem. É preciso
caminhar com objetivo.” O escritor
anglicano britânico Charles Lutwid-
ge Dodgson [1832-1898], conhecido
pelo pseudônimo Lewis Carrol, em
sua renomada obra “Alice no País das
Maravilhas”, deixa bem claro que o
caminho só nos é claro e concreto
se tivermos um objetivo: “Se você
não sabe quem é, nem para onde
vai, Alice, qualquer caminho serve”.

O discípulo é aquele que não tem
medo de se arriscar e pôr-se a ca-

m realmente são...

ípulos a caminho

ciso sonhar juntos. Lutar juntos, atenção de toda a Igreja, afirmando sejo de uma Igreja mais discípula e
rezar juntos. “A cultura do encon- que a JMJ não se reduz a esse mo- caminhante. Com o coração trans-
tro é aquela que nos faz caminhar mento de grande encontro mun- formado, “onde cada um retorna-
juntos com as nossas diferenças, dial. Na verdade, diz ele, “a JMJ só rá para suas casas, paróquias, e pe-
mas com amor, todos unidos no acontece porque vocês a dão vida quenas comunidades carregando
mesmo caminho”. Voltando à fic- lá nas suas comunidades. Lá é on- uma força nova que gera o desejo do
ção do “País das Maravilhas”, Alice de vocês mostram quem realmente encontro verdadeiro e sincero com
só atinge seu objetivo quando acei- são, com seus trabalhos missioná- o Senhor, cheios do Espírito Santo
ta se encontrar consigo mesma e rios e com suas dores e dificulda- para lembrar e manter vivo aque-
com aqueles que, estranhos e di- des”. O que deve ficar também não le sonho que nos faz irmãos, e que
ferentes, se unem para caminhar pode morrer aqui com a missa de somos convidados a não deixar que
juntos e vencem no final. envio. O próprio nome já afirma, o coração congele diante dos desa-
é envio, é um ide, é um “fazer em fios do mundo”. (Papa Francisco)
O legado da JMJ mim a Palavra do Senhor” acontecer.
É interessante observar nos discur- A Jornada Mundial da Juventu-
sos do Papa, durante a Jornada Mun- Jovens com os seus rostos ra- de deve formar nossos jovens co-
dial da Juventude, que ele chama a diantes de esperança e fortalecidos mo discípulos missionários cami-
na fé. Com as suas orações e o de- nhantes. Jovens sujeitos de uma
nova sociedade. Jovens protagonis-
tas da evangelização. Jovens de co-
ração aberto e acolhedor, ensinan-
do-nos a verdadeira cultura do en-
contro. Jovens que se inspirem em
Maria e não deixem que o coração
esfrie diante dos grandes desafios
que nosso mundo nos impõe. E que
possam dizer sim. Um sim que es-
quenta, que faça renovar o com-
promisso com cada comunidade
onde moram.

Para rezar e

1discutir em grupo
Partindo da leitura de Lucas 1,26-
38, como as atitudes de Maria
nos iluminam nos dois movi-
mentos: “discípulo que caminha” e
“caminhar para encontrar” ?

2O Papa nos chama de “artesãos
da cultura do encontro”. Vamos
tecer em nossa comunidade en-
contros entre nossos irmãos? Como
podemos fazer? Sugestões.]

* Religioso SDN,
E-mail: [email protected]

MARÇo 2019 [ olutador]21

pe. jacob, msf Encontro Matrimonial [ Valores...

O EMM e meu relacionamento

A partir do FDS – Fim de Semana – percebemos valores que,
à medida que os vivenciamos, nos transformamos.

Quanto mais o tempo passa, ra quem compartilha quanto para de, a elevação, a irradiação e, não
mais me vejo obrigado a lou- mim próprio. em último lugar, a cura, auxiliam
var o Senhor pelo meu in- em muito minha vivência de um
gresso na Família do EMM. Mi- A coragem para me arriscar, par- amor celibatário.
nha caminhada, especialmente ticularmente na partilha de senti-
a sacerdotal, tem duas fases dis- mentos difíceis, é outro fator de cres- Concluo essa reflexão orante
tintas: a de “antes” e a de “depois” cimento e realização. A consciência lembrando, com imensa gratidão,
do meu FDS. da minha condição humana com a graça da intersacramentalidade.
todas as suas consequências, abre Ela me ensina a cultivar meu ser
Louvo a Deus pela mudança de espaço para que eu cultive melhor a sacerdotal em profunda e íntima
atitude que em mim aconteceu. En- humildade e a confiança. Saber-me comunhão e participação com o ser
trei no meu FDS pensando que era limitado, desequilibrado, pecador, matrimonial dos casais. Saber que
Sacerdote, porque havia sido orde- não mais me escandaliza, pelo con- posso contar em todas as circuns-
nado. Foi a partir do FDS que percebi trário, me associa mais profunda- tâncias com a força de casal oriun-
que o Espírito Santo me empresta- mente a tudo o que é humano. Essa da do sacramento do Matrimônio
ra um Ser Sacerdotal que devia fa- atitude compreensiva me auxilia me faz bem mais seguro quanto a
zer acontecer. Isso só seria possível muito a ser mais misericordioso. algumas decisões a serem tomadas.
num relacionamento íntimo, fiel
e responsável, ou ele não passaria Fontes de espiritualidade Poderia prosseguir elencando
de mera fachada. Descobrir as fontes da espiritua- mais valores que me fazem, hoje,
lidade, tanto matrimonial quanto um ser sacerdotal bem mais rela-
Recebi um Instrumental valioso sacerdotal, faz de mim uma pessoa cionado comigo, com os demais e
A partir do FDS percebi valores que, mais ligada a tudo o que diz respei- com o próprio Deus.
à medida que os vivenciava, trans- to ao Diálogo, à Oração em Casal ou
formaram o meu ser sacerdotal. Foi em Comunidade, ao relacionamen- Por tudo isso, amados, colega
nestes abençoados dias que rece- to com a sexualidade e, particular- sacerdote, casal, religioso/a, se pos-
bi um instrumental muito valioso mente, o convívio com casais, sa- sível, vivenciem um FDS e sintam
para cultivar meu relacionamento. cerdotes, religiosos/as que vivem a alegria de se tornarem membros
Refiro-me ao Diálogo Diário. A ale- os mesmos valores. dessa admirável Família do EMM.]
gria de escutar com o coração quem
se achega a mim, é um valor que é Acolher os dons dos sacramen- Pe. Jacob, Oscar e Nara
de inestimável utilidade, tanto pa- tos do Matrimônio e do Sacerdócio, – Equipe Regional Leste 1
ou seja, a maternidade e paternida- – Rio de Janeiro, Niterói e Nova Iguaçu

[22 olutador [ MARÇo 2019 [email protected]

Família Julimariana [ Compartilhar...

irmãs solanGe Pereira barros e Zely de Paula, sdn - bH

irmãs sacramentinas
de Nossa senhora
Caminhando na esperança, construindo sonhos,
compartilhando amor.
Com JÚBiLo E GrATidÃo esta-
mos celebrando 90 anos de
história! Nascemos na pobre-
za de Jesus de Nazaré e da sa-
bedoria e insistência de Dom Carlo-

to Távora, Bispo de Caratinga, MG.

Dom Carloto sentia a necessida-

de de religiosas na sua Diocese, es-

pecialmente para formar professo-

ras catequistas. Resistindo, a prin- o anúncio do Reino, com a Igreja e o luta pela justiça, igualdade e par-
cípio, Padre Júlio Maria atendeu, povo; denúncia a tudo que se opõe à tilha, na vivência da fraternidade,
num ato de obediência, ao pedido vida, aos valores do Reino e aos prin- construindo a comunhão.
do bispo, quando viu nele a mani- cípios da fé cristã; vivência e anúncio
festação da vontade de Deus. Na vibrante da Eucaristia e de Maria; Ação apostólica e missionária
noite de 24 de dezembro de 1929, a criatividade na busca de recursos pa- Na ação apostólico-missionária, as-
Congregação nascia, fruto de um ra a sobrevivência e evangelização. sumimos as orientações da Igreja
coração obediente e da coragem de na qual estamos inseridas. Nossa
missão se expressa na educação,
sete jovens, entre elas Irmã Ma- Uma mulher comprometida saúde, inserção nos meios popula-
res, catequese, educação da fé, for-
ria Beatriz Frambach, que logo foi Madre Maria Beatriz foi uma mu- mação de lideranças e no serviço da
acolhida. Nestes 90 anos de história,
convidada para liderar o grupo ini- lher comprometida com a vontade sustentadas pela graça divina, vive-
mos a nossa vocação, buscando ser
ciante, tornando-se a Cofundadora. do Pai. “Fazer a vontade de Deus” era resposta aos apelos de Deus. Foram
inúmeros os sinais de sua presença,
“Amor e sacrifício” seu ideal de santidade, seu progra- manifestados nesta caminhada his-
ma de vida. Soube sempre dizer sim tórica!... Temos muito a agradecer!

Dos lábios do Padre Júlio Maria, as a Ele. Esse dom, verdadeiro presente Vamos cantar o nosso “Magni-
ficat”, realizando ao longo do ano,
primeiras Irmãs acolheram o lema de Deus, que marcou e iluminou o seu entre muitas atividades das nossas
Comunidades, uma peregrinação à
da Congregação: “Amor e Sacrifí- caminho de santidade, foi enrique- Casa Mãe, em Manhumirim, MG,
berço da Congregação, lugar místico,
cio”. Um começo de muita carên- cido depois com o aprofundamento memorial sagrado da Vida Sacra-
mentina, onde renovamos as nos-
cia. Contavam apenas com a graça da espiritualidade missionário-eu- sas forças, o nosso encanto pela Vi-
da Religiosa Consagrada, a paixão
de Deus. Construir, aprender, en- carístico-mariana, fundamento do pelo Reino e o vigor missionário.

sinar, viver, sair em missão, con- nosso Carisma, tesouro legado à Con- O encerramento das celebra-
ções dos 90 anos da Congregação
viver com as dificuldades próprias gregação das Irmãs Sacramentinas acontecerá no dia 24 de dezembro
de 2019. Será um momento de gra-
daquele tempo... Logo no início, ex- pelo seu Fundador, de quem Madre tidão e louvor, recordando o nasci-
mento de Jesus e da Congregação.]
perimentaram o sentido profun- Beatriz foi fiel discípula. Aprendeu

do deste lema, enfrentando a re- com ele a viver o amor à Eucaris-

sistência e a perseguição dos diri- tia e a Maria, amor que ela soube

gentes do município. Estes perce- cultivar, difundir e nele crescer.

beram que as obras do Padre Júlio O sonho de Madre Beatriz era

Maria seriam empecilho à manu- que as Irmãs vivessem na frater-

tenção do seu poder e do controle nidade como os primeiros cristãos,

público. Mas, filhas de um luta- numa comunhão de vida, de amor,

dor, as Irmãs se mantiveram de pé! de união. Buscou na Palavra de Deus

Através de sua vida de apaixona- um lema para a vida das Comuni-

do missionário, Padre Júlio Maria dades: “Um só coração, uma só al-

deixou-nos uma grande herança: o ma”. Hoje, entendemos que nosso

compromisso com o Evangelho, com Carisma e Missão exigem de nós a

MARçO 2019 [ oluTador]23

dom oTaCÍlio Ferreira de laCerda* Espiritualidade [ Construir pontes...

ELA ESTÁ GRITANDO

arQUidiocEsE dE BELo HorizoNTE, convida todos a refletirem sobre a preservação de nossa Casa Co-
mum. a poesia e a dor dão o tom às palavras de dom otacílio, instigadas pelas tragédias de brumadinho,
de bento rodrigues e tantas outras que matam as pessoas e a natureza. mas a esperança da conversão
prevalece no convite a acolhermos a missão confiada por deus: recriar o paraíso.

“Com efeito, sabemos que toda a criação, até o presente, está gemendo
como que em dores de parto…” (Rm 8,22)

Posso ouvir seus gritos, porque sugada, pisoteada.
Impossível secar suas lágrimas, porque são como um mar.

Há que se ter um limite para ambição desmedida,
Sobretudo quando movida pelo interesse insano
Da produção, consumo, venda e lucro sem fim.

Posso ouvir seus gemidos, clamores subindo aos céus;
Ela não suporta nossa arrogância e falta de escrúpulos,

Com exploração abismal, graves consequências,
Muitas vezes pagas por vidas de pobres e indefesos,
Que vão sobrevivendo sem direitos sagrados garantidos.

Posso ouvir seus suspiros profundos de esperança,
Como que dizendo: “convertam-se, enquanto é tempo!”

Retomemos o projeto do Criador no Paraíso:
“Crescei e multiplicai-vos, enchei e dominai a terra” (Gn 1,18),

Desde que “dominar” não seja sinônimo de “destruição”!

Ela, nossa “casa comum”, Planeta Terra, apesar do que façamos,
Por desígnio divino, nos sacia, como um milagre, todos os dias,

Como rezamos ontem, hoje e sempre com o Salmista:
“Eu o sustentaria com a fina flor do trigo

E saciaria com o mel que escorre da rocha” (Sl 81,16).

Ela está gritando, agonizando…
Urge rever com ela nossa postura.
Amar e cuidar de nossa casa comum,
Recriar o Paraíso, sem adiamento,
Missão que Deus a nós confia. Amém.

* Bispo auxiliar da Arquidiocese de Belo Horizonte.
Referencial para a Região Episcopal Nossa Senhora Aparecida - RENSA. Responsável pelo Vicariato Episcopal para a Ação Social

[24 oluTador [ MARçO 2019

Liturgia [ As palavras...

F r t. M a th e u s R . G a r b a zz a , SDN Pobre

Na edição anterior d’O Luta- Glória!
dor, falamos sobre a impor- lebração Eucarística. Muito do que sa o rito (seja ele qual for!), perce-
tância da música para a vi- possuímos em nossos repertórios bemos que esse processo ajuda a
da humana e, consequen- precisa ser revisto para fazer o hino reforçar em nós os sentimentos
temente, para a sagrada li- ‘antigo e venerável’ da Igreja, cuja e atitudes próprias que a Liturgia
turgia. Continuaremos agora nos- letra consta no Missal, resplande- nos oferece.
sa reflexão sobre este tema, tratan- cer em toda a sua beleza.
do de um hino importantíssimo no De fato, “repetições são indis-
contexto da celebração eucarística: Para tanto, existem várias op- pensáveis para que a liturgia nos
o “Glória a Deus nas alturas”. Mes- ções de melodias feitas a partir da prepare como uma gota d’água que
mo com função primordial na es- letra oficial do hino em português. cai numa pedra e que, ao longo dos
trutura do rito, como parte do Ordi- Algumas mais extensas e solenes, séculos de história da salvação, pe-
nário da Missa, tem sido bastante para uso nas grandes festas, ou- netre na experiência como a fonte
“maltratado” ao longo dos últimos tras mais simples e diretas. Pa- que escava os canyons”1.
anos por composições menos ade- ra facilitar o canto da assembleia,
quadas para a liturgia. algumas composições trazem um Isso vale para a Palavra de Deus,
refrão (geralmente repetindo as as anáforas, os hinos do Ordinário
As palavras que introduzem o palavras iniciais). Muitas vezes é da Missa e todos os demais textos
hino são de origem bíblica. Estão difícil sair do comodismo, do cos- que Igreja fixa para a Sagrada Li-
em Lc 2,14, são a exultação dos anjos tume arraigado há anos. Pode ser turgia. Não se trata de uma cami-
pela chegada do Salvador. A conti- bastante desconfortável, mas com sa de força, mas de um caminho
nuação do hino não se encontra na um pouco de boa vontade e dedica- seguro, palmilhado, para o louvor
Sagrada Escritura, mas se inspira ção será possível aprender e can- comunitário da Igreja.
nela e possui raízes tão antigas na tar com toda a assembleia melo-
tradição eclesial que deve ser tida dias que sejam adequadas à cele- Para refletir
em grande apreço. bração da Missa.
1Temos cantado o Glória confor-
Isso lemos na Instrução Geral Pedagogia da repetição me a letra do Missal em nossas
do Missal Romano - IGMR, nº 53: “O É realmente importante repetir comunidades? Ou permanece ain-
Glória é um antiquíssimo e venerá- sempre a mesma letra? Não se da algum “Glória pirata”?
vel hino com que a Igreja, congrega- torna um tanto tedioso? Pelo con-
da no Espírito Santo, glorifica e su- trário. Quando entendemos a “pe- 2Nossos músicos e cantores têm-
plica a Deus e ao Cordeiro”. Por aqui dagogia da repetição” que perpas- se esforçado por aprender e pro-
já podemos desfazer um equívoco por à assembleia melodias apro-
muito recorrente: o Glória não é um priadas para a celebração litúrgica?]
hino trinitário, mas cristológico. É
ao mesmo tempo um grande lou-
vor e uma súplica da Igreja inteira.

Insubstituível
Precisamente por toda essa carga
tradicional, bíblica e teológica, a le-
tra deste hino não deve ser substi-
tuída ou modificada. Esta orienta-
ção é reforçada pela própria IGMR:
“Não é permitido substituir o texto
deste hino por outro” (nº 53). Cui-
de-se, portanto, de não “piratear” o
texto litúrgico, substituindo-o por
outros de questionável acerto teo-
lógico ou gosto duvidoso.

Em outras palavras, não é por-
que uma música possui a palavra
glória que se presta ao uso na Ce-

1. DANNELS, G. A obra de um outro. Apud FONSECA, Joaquim. Quem canta? O que cantar na liturgia? São Paulo: Paulus, 2008, p. 57.

MARÇo 2019 [ olutador]25

anTÔnio Carlos sanTini Atualidade [ Modelo de mãe...

Maria, Quanto deve um filho à sua mãe? E quanto “deve” Jesus à Virgem Mãe?
a boa Muita coisa, por certo. Além da herança genética, a cor dos olhos e o
Mãe tipo de cabelo, o filho recebe da mãe o sangue e o leite. Recebe cari-
nho, ternura e presença. Recebe cuidados: banho, alimentação. Mais ain-
da: recebe modelos, esquemas de reação diante dos fatos, dinamismos psi-
cossociais. E mais alto: recebe uma “educação espiritual”.

Os filhos precisam ser “apresentados” a Deus, o que se faz dentro
de certo clima, uma espiritualidade. Não é indiferente conhecer um “Deus-
que-castiga-menino-que-faz-coisa-feia” e um “Deus-que-gosta-de-mim”...

Jesus aprendia? Claro que sim. “E Jesus crescia em estatura, sa-
bedoria e graça, diante de Deus e diante dos homens” (Lc 2,52). Um cresci-
mento físico, somático. Um amadurecimento intelectual, psíquico. Uma
elevação espiritual, pneumática. Pode ser que, no caso de Jesus, Deus fei-
to homem, este “aprender” talvez se identificasse com um “lembrar”: pas-
sar a saber o que soubera desde a eternidade. Mas é a Mãe que traz à tona
esta lembrança...

Assim sendo, muitos traços de Ma-
ria de Nazaré se manifestaram vi-
sivelmente em Jesus, tal como to-
da criança absorve traços mater-
nos: um fraseado, ao falar; gestos,
meneios da cabeça, uma forma de
olhar as pessoas. Um jeito de sorrir...
Além de todo um acervo “cultural”:
ditos populares, refrãos, vocabulá-
rio. E se é assim tão forte a influên-
cia dos pais na formação do ser in-
fantil – como traços que permane-
cem por toda a vida! -, com muito
mais razão se grava no “coração” do
filho uma impressão de ordem éti-
ca, moral e religiosa. Não a ponto
de suprimir a liberdade profunda
da pessoa, mas de modo a deixá-la
fortemente condicionada.
Já basta para entender que o Pai celeste jamais teria escolhido co-
mo Mãe de seu Filho feito homem uma “mulher qualquer”? Uma “mulher
comum”? Mas, como bom Pai, preparou divinamente essa Mulher, investin-
do nela o seu Espírito de forma e em intensidade jamais antes realizadas?
Claro que as mães cristãs sempre têm diante dos olhos o modelo
de Maria, a se perguntar: “Nesta situação que estou vivendo, o que é que a
Mãe de Jesus teria feito?” Natural, fazem a pergunta e, a seguir, se esfor-
çam por imitá-la... Que enorme responsabilidade ser mãe! Que admirável
débito os filhos conservam em relação a seus pais!
Pois Jesus, no dia a dia de Nazaré, muitas vezes terá ficado ab-
sorto, contemplativo, admirando a Beleza que manava – como a água pu-
ra da rocha viva – dos gestos de sua Mãe, de suas atitudes, de seu silêncio
profundo! Quanta gratidão terá o Filho manifestado ao Pai em oração, por
causa da Mãe que lhe havia preparado! Que veneração terá mantido por
Maria o grupo dos discípulos de Pentecostes, ao reverem tão vivos em Ma-
ria os traços dominantes de seu Mestre já ressuscitado!
Ah! Se as crianças tivessem boas mães!...]

[26 oluTador [ MARçO 2019

Carlos sCHeid Atualidade [ Reflexão...

Visita ao guru

O UTro diA, amanheci com – Por quê? A flor tem alma? Desligou, ficou pensativo. De-
a avó atrás do toco. O céu – Nada disso, cara! É que você pois de alguns minutos, percebeu
estava cinzento, a pia ti- pode escorregar e quebrar um bra- que eu ainda estava ali.
nha entupido e o gato an- ço. Ou dois...
gorá quebrara meu vaso Sem saber o que dizer, hesitei – Então...
de estimação. Achei que já era de- um pouco. Fiquei na dúvida se ele – Bem, vim procurá-lo pensan-
mais e fui visitar meu guru. Afinal, falava sério ou zombava de meus do que Vossa Luminescência pode-
estamos em tempos de coaches infortúnios. O guru pareceu-me co- ria me dar uma mãozinha...
econômicos e eminências pardas, chilar. Depois, grunhiu interroga- – Sim. Uma mão lava a outra.
sem falar nos médiuns e curan- tivamente: Mas, sem sabão, só espalha a su-
deiros que atraem “clientes” até – Hum? jeira. Certo?
do primeiro mundo... – Estava esperando... Seguiu-se um silêncio ainda
– Quem espera sempre alcança... mais longo. O guru recolheu-se a
Como de hábito, encontrei-o sen- Desde que o trem não descarrile... seus devaneios, beirando o nirva-
tado no tapete ruço, com as per- Confesso que não estava en- na. Uma criada cor de azeitona en-
nas cruzadas na posição do lótus. tendendo nada. Afinal, a filosofia trou com uma tigela de caldo. Achei
A bem da verdade, naquele quar- oriental é sempre hermética para que minha entrevista tinha ter-
tinho escuro, o ambiente não es- nós, coisa para iniciados. Consu- minado. Ergui-me sem fazer ba-
tava muito salubre e achei o tur- mistas e pragmáticos, demoramos rulho, abri a porta e fui saindo de
bante do guru mais ensebado que a chegar ao âmago das ideias. Mas mansinho.
de costume. fui adiante. À minha frente, sob um sol
– Minha mulher vive reclaman- de fogo, uma acácia amarela do-
Quando abri e fechei a porta, ele do... Diz que o dinheiro do meu sa- minava o gramado todo verde.
ainda continuou de olhos fechados lário não dá para as despesas. Lá de dentro, entre duas colhe-
por alguns minutos. Mantive o si- O guru pigarreou e, com o olhar radas da sopa engordurada, o
lêncio, prendendo a respiração, pa- afastado, filosofou: guru gritou:
ra não quebrar seu profundo êxta- – O dinheiro não traz a felici- – É proibido pisar na grama!
se. Depois, sem pressa, ele abriu as dade. Traz o ladrão... Quando cheguei ao portão, ou-
pálpebras, dominado por irresis- – Pois se o dinheiro não está vi que ele acrescentava:
tível pachorra. Com a longa unha dando para os gastos, como é que – Comer, pode...]
do indicador direito, tirou alguma ainda vou comprar um cachorro?
coisa do canto do olho e, arredon- – Quem não tem cão caça com
dando os lábios, emitiu uma síla- gato, não é? Pergunte ao rato!
ba alongada: Súbito, tocou um celular. Era
do guru. Ele enfiou a mão nas pro-
– OOOM... fundezas de sua fralda alaranjada
A seguir, sério, perguntou: e de lá extraiu um Nokia, top de li-
– Por que me procuras? nha. Sem pedir licença, conversou
– Problemas... Meu gato des- com alguém. Ouviu um instante e
truiu minha orquídea mais rara... respondeu:
– Troque por um cão. O cão é o – O sol nasceu para todos, mi-
melhor amigo do homem. Aliás, é nha filha. A briga é pela sombra!
o único amigo que morde.
– Eu gostava muito daquela flor... MARçO 2019 [ oluTador]27
– Nunca pise numa flor!

Crônica [ Maria

Querida Luísa, lou um palavrão, desses cabeludo, um Bão demais, né? Eu inda tenho umas
“Pego da pena pra escrevê essas mal palavrão chique, de cidade grande. O duzentas rezas do ano passado, que,
traçadas linha, sabê as suas notícia e, irmão dela falou: graças a Deus, o ano correu bem, quais
ao mesmo tempo, mandá as minha...” não precisei de tirá nada da poupan-
Como lá diz, a distança faz a gente fi- - Não fala palavrão, é Semana San- ça do Banco...
cá longe, mas a saudade não deixa a ta, Deus tá vendo tudo...
gente se isquecê uma da outra... Pulando do pau pro cavaco: a gen-
Aqui em Estrela tá o maior climão A Joyce Kelly, falou ali na bucha: te pensa que é só minino que apron-
de Coresma. Pricisa de vê! Tá o maior - Pode falar, o Jesus morreu, ontem ta, né? Pois não é não... Homem for-
bom, como diz meus subrinho da ci- foi o enterro dele... te, sabido, da Sociedade, como lá diz,
dade... Mas num para aí não... Ontem nós também aprontou o ano passado...
Os causos são os mesmo, mais é tão tava se alembrando do causo da pro- Querdita?
bom repetir, repetir, né? Fica parece- cissão do Senhor Morto. Estrela toda
no que o povo antigo não morreu, que tava lá. Cada canto de fazê a gente Juntaro os homens mais impor-
não derrubaro as casa veia, que não chorá. Perdão, Deus clemente, peeerrr- tante da cidade pra carregá o caixão
atrapaiaram nada... Gosto de contá, doai, Senhooorrr! Percisa ver a bele- do Senhor Morto... Ocê se alembra da
senão, daqui uns ano, ninguém sa- za das voz da Nieta e da Fia! A Nieta casa do Sô Antônho da Fábrica de Man-
be nada de nossa terra adorada, sal- canta fininho e a Fia canta grosso, teiga, uma das mais chique da rua do
ve, salve! maior belezura! Cada suspiro que da- Dr. Abel, uma que tinha até passeio
O Zé do Bechó, coitado, veve ain- va nó no peito! E as mulher rezan- de cimento? É... É aquela mesmo, que
da, mas caminha daquele jeito: dan- do um terço atrás do outro, pra in- tem uma menina do cabelo verme-
do pulinhos, porque ele ficou prega- teirá as mil Ave-Maria do Banco... lho, cor de cobre, como lá diz, são es-
do na gosma que a mardita cachorri- Craro que não é Banco de dinheiro, trangeiro...
nha da coresma sortou pela boca ba- cê sabe. É banco de reza. Cê deposi-
fenta... Lembra do causo? Ele isperou ta as mil Ave-Maria lá no Banco de Pois então... Lá vai a procissão com
dá meia-noite e ficou isperando a ca- Deus e, quando percisá, tira um tan- a matraca cantano e, quando é fé, lá
chorra enfeitiçada, escorreguenta fei- to bão, que dê procê alcançá a graça na esquina do Correio, aparece o Sô Pe-
to sabão, feito baba de quiabo... Ficou que percisa... dro Coelho, tocano duas vaca de tapa.
iscondido nas moita de bambu, lá no Cê ainda sabe o que é vaca de tapa? É
Beco da Sá Cesária e, quando a diaba [28 olutador [ MARÇo 2019 das mais brava do pasto. O vaqueiro
chegou, ele pulou nela e... ficou pre- põe duas tapa de banda da cara dela,
gado no chão... pra ela enxergá só na frente dela, vê
Tenho o maior gastume de ver ele o caminho e não virá pra banda ne-
pulando, coitado do Izé... Mas, pen- nhuma... Pois, não há de vê, foi casti-
sando bem, quem mandou ele querê go pro Sô Pedro Coelho, isso foi, nem
fazê bonito pra Eufrásia, namorada tem que vê! Com tapa e tudo, as va-
dele? Do que adiantou? Ela fugiu com ca viro a procissão, investiro no povo,
o paiaço do Circo Mundial e ele ficou desmanchô a reza toda!
aqui, pulando até hoje...
Outro causo é o da Joyce Kelly, neti-
nha da diretora do Grupo, a D. Cãinda.
Minina ladina, sabe de um a tudo...
Pois não há de vê que a amiguinha
dela, chegou de Belorzonte e foi en-
fiando nas brincadeira deles. Aí, fa-

Contaro depois, que custaro a tirá - Eu não tenho pecado mortá, não, HuMOR
o Crispin das matraca lá de cima de Sô Padre. Eu trabaio na enxada de dia
um pé de laranjeira, com cada espinho e, de noite eu toco.... cAsTiGo iNFErNAL
desse tamanho, pareceno agúia...Su- - Vovô, o que as pessoas fazem no inferno?
bir, ele subiu; pra descer, foi preciso de - Toca, que é serrrr toca? Põe prrrrr- - Ora, ficam vendo televisão. E só passa futebol...
escada...Ah, e os homem importante, ra forrrrra... Olha o tamanho da fila... - Então, não é tão ruim assim...
tudo de opa vermelha, parecendo joa- - Você que pensa! Todos os jogos ter-
ninha, aquele bichinho que voa e tem - Eu toco, toco, toco... sanfona... minam 0 X 0...
a roupa vermeia enfeitada de bolinhas - Onde tocarrrrrr?
pretas, sabe quar? Foi a coisa mais is- - No... Na... No... Puxa-Faca... EsTá EXPLicAdo...
túrdia, mais costa a cima....esquecero O missionário pôs a cara vermelha - Vovó, como foi que a senhora conse-
a pose, largaro o Jesus com caixão e tu- de fora e gritou pro Zé Taruna: guiu aposentar-se por insalubridade?
do lá no passeio da casa do Sô Antônho - Pois vai tocarrrrrr fanfão no in-
da Manteiga... Não sobrou uma joani- ferrrrrno!!! - Ora, meu netinho, a vovó assis-
nha... Madrinha Maria falou pra Ana: Minina do céu! Gastaro três homi te televisão há mais de trinta anos!
pra carregá o Zé Taruna desmaiado...
- Não sobrô um home pra fazer quar- Pra rebatê esse, só mesmo o cau- sorTE GrANdE
to pro Jesus...! so da Sá Joana... Aquela, casada com - Faz tempo que não vejo o Bartolo-
o Joaquim Coité, aquela, sá, que mo- meu...
E ninguém nunca mais comprou ra na roça do Juca Fubá...Todo mun-
carne do Sô Pedro Coelho... Ele foi cas- do sabe da vida pelejada deles! 15 fio, - Não sabia? Foi enterrado sema-
tigado, bem feito, tocá vaca na Sexta– ela puxa da perna, trabaia feito uma na passada.
feira da Paixão... Com vara de ferrão! condenada... Já tinha muitos ano que
não confessava, tadinha, e resolveu - ‘Tava doente?
Cê deve de se alembrá, nesse dia, dá uma limpada na alminha de an- - Não. Acertou na quina e morreu...
ninguém podia fazê nada: nem var- jo... Pra quê, minina?! - Morreu de emoção com o prêmio?
rê casa, nem assobiá, nem penteá ca- Lembro como se fosse hoje: ela che- - Não, cara! O infeliz bateu a ca-
belo, nem tirá bicho-de-pé, nem tomá gou, de vestido de chita com florzinha beça na quina da mesa...
banho de assento, nem matá uma for- azul, de coque, a boca fartano um tanto
miguinha, e só podia comê um tiqui- de dente, brinco de bichinha nas oreia EU AvisEi!
nho, mas um tiquinho assim... Era je- e um rosário no pescoço... - O senhor não viu um louco passar
jum bissoluto... - O... quê ê ê ê? Isso tudo? O padre por aqui? Ele acabou de fugir do hos-
já estava roxo de raiva, com a cara de pício...
Pió, ou mió, que a gente nunca es- fora... Não sabe que Jesus morrrrreu
quece, é o caso dos missionário que por nós! Ontem foi a Prrrocissão do - E como ele é?
vinha ajudá o Pe, César... Era uns ho- Enterrro... - Baixinho, magrinho e pesa 190
mão vermelho, gordo, falava tudo en- E ela, a maior santinha, falou alto, quilos...
rolado e era duma brabeza de espan- nem pensou que a igreja toda ia escutar: - Mas como um baixote magrice-
tá...Até os sordado tinha medo deles... - Desculpa, Sô Padre. Abençoa eu as- la pode pesar 190 quilos?
sim memo... Fico lá na roça e nem sa- - Eu não falei pro senhor que ele
Minina do Céu! Todo mundo have- bia que Jesus tava perrengue... é louco?!
ra de confessá com eles, porque era di- Tá veno, Luísa, ocê não pode ficá
ferente, não sei pruque, mas como lá muito tempo sem aparecê na Estre- No PsiQUiATrA
disse, era diferente... la... Aqui continua o trem mais bão... - Doutor, minha mulher está furiosa
Espero resposta sua, contando as comigo, porque eu gasto todo o meu
Coitado do Zé Taruna, home mais novidades daí... dinheiro em CDs...
sério, mais bão de serviço, nem casá “Peguei da pena pra escrevê essas
num casô, pra tomá conta da irmã sol- mal traçadas linha, sabê suas notícia - Ué, mas não há nada errado em
teirona que nem ele. Pra Estrela toda, e mandá as minha...” gostar de música...
ele não tinha pecado... Mas, pra Deus, Eu nunca isquici as aula da D. Irany.
sempre tem um pecadinho, né? Deus que a tenha, ela ensinou como - Na verdade, doutor, eu não gosto,
começá a escrevê e terminá uma car- não... É que eu coleciono aqueles bu-
Igreja cheinha de gente, filas enor- ta... Fiz só até o segundo ano e não te- raquinhos que vêm no centro do CD...]
mes, dois confessionários de casinha nho inveja de ninguém pra iscrevê...
e cortininha, lembra? Os missionário Sua amiga, criada, obrigada,
não cochichava que nem o Pe. César; Maria José de Oliveira]
eles falava tudo alto, o povo morria de
vergonha de contá os marfeito.. MARçO 2019 [ oluTador]29

Zé Taruna ajoelhou, meio de ban-
da, fez o pelo sinal e o padre gritou:

- Quais são os seus pecados?

Páginas que não passam [ Deus... A coroa da fé

G RE G Ó RIO P ALAMAS * manam eternamente a misericórdia e Cristo não falará em nosso favor no
a bondade. E não são todos os homens, século futuro e não nos apresentará
Quando, no salmo, o profeta sem distinção, que se aproveitam de a seu Pai para unir-nos a ele, se não
diz: “Deus faz maravilhas em sua força e de sua graça para o perfeito tiver encontrado em nós essa opor-
seus santos”, ainda acrescen- exercício da virtude e a realização de tunidade.
ta : “Ele dará força e coragem a seu maravilhas, mas aqueles que puseram
povo”. (Sl 68,36.) Considerai com inte- em prática as suas resoluções e com- Enquanto servidor de Deus, ca-
ligência o poder destas palavras pro- provaram por atos sua adesão a Deus da um dentre os santos se declara por
féticas. É a todo o seu povo que Deus e sua fé; aqueles que, estando comple- Cristo nesta vida passageira e diante
dará força e coragem. tamente afastados do mal, aderem fir- dos homens mortais. Ele o faz por um
memente aos mandamentos de Deus curto lapso de tempo e na presença de
Deus não faz acepção de e fixam o olhar de seu espírito sobre pequeno número de homens. Já nos-
pessoa. Entretanto, ele faz Cristo, Sol da justiça. so Senhor Jesus Cristo, que é Deus e
Senhor do céu e da terra, irá decla-
maravilhas somente em Não somente Cristo oferece do céu, rar-se por nós no mundo da eterni-
seus santos. O sol espalha do para aqueles que combatem, o socorro dade, diante de Deus, seu Pai, cerca-
de seu braço, mas os exorta com estas do de anjos e arcanjos e de todas as
alto com igual abundância palavras do Evangelho: “Aquele que potestades do céu, na presença de to-
os seus raios sobre todos, se declarar por mim diante dos ho- dos os homens, desde Adão até o fim
no entanto, só podem vê-lo mens, de minha parte eu me decla- dos séculos.
aqueles que têm olhos e que rarei por ele diante de meu Pai que
não os fecharam: aqueles que está nos céus”. Pois todos ressuscitarão e compa-
gozam da pureza da luz com recerão diante do tribunal de Cristo.
o olhar puro de seus olhos. Como veem, jamais podemos pro- Então, na presença de todos e à vista
clamar nossa fé e nos declarar publi- de todos, ele dará a conhecer, glorifi-
Assim Deus, do alto do céu, dá a to- camente por Cristo se não tivermos cará e coroará aqueles que, até o fim,
dos as riquezas de sua graça. Ele mes- recebido dele a força e a assistência. lhe comprovaram sua fé. (Do Sermão
mo é a fonte de salvação e de luz da qual E por outro lado, nosso Senhor Jesus para o dia de Todos os Santos)]

*GREGÓRIO PALAMAS [1296 - 1359] foi um monge do Monte Athos, Grécia, posteriormente Arcebispo de Salônica, e conhecido como o

teólogo preeminente do Hesicasmo. Defensor da ortodoxia, deixou numerosas obras, entre as quais “Sermões”, “A Santa Hesiquia” e vários

livros de espiritualidade. Ele é venerado como santo pela Igreja Ortodoxa e alguns de seus escritos são encontrados na Filocalia.

[30 olutador [ MARÇo 2019

Roteiros Pastorais

Leitura Orante 32 • Tudo em Família 33
Dinâmica para Grupo de Jovens 33
Catequese 34 • Homilética 36

MARçO 2019 [ oluTador]31

Leitura orante [ Nossas condutas e práticas...

“serás ças e culturas. / Por tua graça, ó Senhor, - O que mais chamou a sua atenção no
libertado ressuscitados, / Somos em Cristo, hoje, texto bíblico e no comentário acima?
pelo direito novas criaturas.
e pela justiça.” d. o que o texto nos faz dizer a deus
L. 3: O profeta aponta para a necessidade (preces e orações)
(is 1,27) da “conversão social”. É preciso convert- 1. Senhor, que nós, leigos e leigas, seja-
er-se para uma nova forma de agir na mos capazes de enxergar nas políticas
Invocação à Trindade sociedade. Buscar meios de intervir para públicas uma ferramenta para uma ação
e Oração ao Divino que a justiça e o direito sejam efetivados mais concreta e eficaz a serviço da vida
Espírito Santo na vida social. na sociedade. Rezemos:
Todos: Senhor, que a nossa fé vença o co-
A. situando o texto As Políticas Públicas existem para re- modismo!
L. 1: O livro de Isaías, em sua primeira par- parar uma dívida social. O mundo, bem 2. Senhor, diante dos crucificados de ho-
te, trata de um período anterior ao Exílio como a sociedade, existe para todos, mas je, por falta de assistência, que nossa co-
da Babilônia (740 a 734 a. C.). Havia gran- a desigualdade de oportunidade e de con- munidade abrace esta Campanha da Fra-
des festas religiosas que mascaravam a dições faz com que a grande maioria não ternidade como caminho de mais vida
situação de injustiças contra os peque- tenha o devido acesso à saúde, moradia, e esperança. Rezemos.
nos, corrupção das autoridades e cobi- trabalho, educação, saneamento bási- 3. Senhor, que esta Campanha da Fra-
ça por parte dos grandes proprietários. co etc., o mínimo necessário para uma ternidade nos desperte a consciência e
vida com dignidade. incentive a participação de todo cida-
O profeta tenta abrir os olhos do po- dão na construção de políticas públicas
vo contra a corrupção e para a ameaça Todos (cantando): Pelo direito e a justi- em âmbito nacional, estadual e muni-
de cair nas mãos dos inimigos (Assíria). ça libertados... cipal. Rezemos:
O povo só vai garantir sua liberdade se
permanecer fiel a Deus e a seu projeto L. 4: Também Jesus de Nazaré, em seu (Outras preces espontâneas)
de Justiça. Vamos, com calma e atenção, ou- tempo, conviveu com o fenômeno do Es-
vir o que o Senhor vem nos falar. tado e do Poder exercidos por determina- E. o que o texto
das lideranças políticas. Jesus de Nazaré sugere para o mundo, hoje
Todos (cantando): A vossa Palavra, Se- anunciou seu Evangelho da chegada do - O que podemos fazer, de imediato, para
nhor, é sinal de interesse por nós. (bis) Reino de Deus no início do primeiro sécu- reforçar nosso envolvimento nas práti-
lo, em torno do ano 30. Politicamente, era cas de políticas públicas?
B. O que o texto diz em si? um momento delicado. A paz (pax romana)
Ler na Bíblia: Isaías 1,21-28. anunciada pelo Império como benefício F. Tarefa concreta
chave de Leitura: aos habitantes das províncias, na verda- Procurar descobrir formas de ampliar as
1. O que piorou na cidade? de resultava para grande parte da popu- ações concretas da Campanha da Fra-
2. O que Deus vai fazer? lação em dominação violenta e explora- ternidade e incentivar os grupos de re-
3. O que Deus espera de nós em nosso ção econômica. Mas Jesus não desistiu flexão ou círculos bíblicos em nossa co-
município? do anúncio do Reino de Deus, baseado na munidade.
justiça e no amor, a fim de que todos ti-
vessem vida em abundância (cf. Jo 10,10). Encerramento
Pai-Nosso, Ave-Maria e pedido de bên-
Todos (cantando): Eu vim para que to- ção a Deus.]
dos tenham vida, / Que todos tenham vi-
da plenamente.

c. o que o texto diz para nós
L. 2: O profeta acredita que a cidade vai-
se recuperar. Mas isso só vai acontecer
através da busca da justiça e do direito.
É preciso limpar a sujeira, vencer a cor-
rupção, buscar juízes honestos, consel-
heiros que sejam tementes a Deus, co-
mo havia no meio do povo, logo que en-
traram na Terra prometida.

É preciso ter os olhos abertos para a
realidade e ser capaz de reconhecer que
nosso Deus é o Deus da vida. A injustiça,
a corrupção e a violência contra os po-
bres e oprimidos não é vontade de De-
us, mas fruto da ganância dos podero-
sos que deles se aproveitam.

Todos (cantando): Pelo direito e a justiça
libertados, / Povos, nações de tantas ra-

[32 oluTador [ MARçO 2019

Tudo em Família [ 63 – Coisas que acontecem...

A fuga da dor

1. coisas que acontecem 2. Pensando juntos 3. Para uma reunião de casais
- Como você avalia a decisão de Már-
Alcino casou-se e separou-se. O rela- No rito do matrimônio, na Igreja Ca- cia, abandonando o marido em sua
cionamento com a esposa fora ruim tólica, os noivos devem responder a doença?
desde o início. Após dois anos, mu- três perguntas, cuja resposta define
dou-se para outra cidade e ali, no a validade ou a nulidade da união. - Em seu casamento, como vocês
novo ambiente de trabalho, conhe- Elas são ligadas à liberdade na de- tem reagido às situações de sofri-
ceu Márcia, também ela profissio- cisão de casar-se, à abertura para a mento? Sua união se fortaleceu ou
nal da área da saúde. A convivência geração de filhos e, por último, à in- ficou abalada?
os aproximou e decidiram casar-se. dissolubilidade da união. Antes, se
Tiveram um filho. dizia: “até que a morte os separe”. Ho- - Você considera que seu cônjuge tem
je, tentando ignorar a realidade da sido um apoio suficiente nos mo-
Depois de oito anos, Alcino foi diag- morte, mudaram as palavras: “Pro- mentos de dor?
nosticado com um câncer, o que mo- meto estar contigo na alegria e na
tivou a extração de um rim. Mas fo- tristeza, na saúde e na doença, na ri- - Que queixas você teria a fazer a es-
ram encontradas metástases que su- queza e na pobreza, amando-te, res- te respeito?
geriam um prognóstico sem muita peitando-te e sendo-te fiel em todos
esperança de cura. Márcia não su- os dias de minha vida”. - Em seu modo de ver, quais seriam os
portou a situação: - “Não tenho for- meios a adotar para enfrentar uma
ças para enfrentar isto. Não quero Na prática, as juras de amor nem situação semelhante?]
conhecer seu psicólogo, nem seu on- sempre resistem às situações de so-
cologista. Estou indo embora”. E mu- frimento. No caso de Márcia, a pro-
dou-se com o filho para sua cidade messa valeu apenas para a saúde...
natal, deixando Alcino sozinho.

conheça um pouco mais de mim — Dinâmicas para Grupo de Jovens [ 63

Participantes: 10 a 15 pessoas.
Tempo estimado: 15 a 20 minutos.
material: Folhas de papel e caneta

descrição:
a. Pegue algumas folhas e distribua en-
tre os participantes, peça que na folha
cada um coloque o nome do persona-
gem bíblico com quem mais se parece,
o que mais se parece com sua história.
b. Destaque três motivos desta escolha
ou três características do personagem
bíblico com o qual você se identifica.
c. Dê oportunidade para que cada um
partilhe com o grupo a sua escolha e
os motivos dela.

conclusão: Essa dinâmica é muito boa
para meditar na palavra e descontrair
com o grupo, além de conseguir co-
nhecer um pouco mais de cada um.
Palavra de deus: Mt 16,13-19.]

MARçO 2019 [ oluTador]33

Roteiros para catequese [ 3 encontros seguindo os evangelhos dos

1. Palavra de Deus: Lucas 4,1-13. 2.
Vencer Este é o
as tentações Perguntar: meu Filho
(1º Dom. a) Quem conduzia Jesus no deserto? amado.
Quaresma) (2º Dom.
b) Quem apareceu para tentar Jesus? Quaresma)
Objetivo: Compreender o que é con-
versão para viver a fraternidade. c) Como Jesus venceu as tentações? Objetivo: Jesus é o centro de to-
da a Bíblia, Antigo e Novo Tes-
Material: Quadro ou cartaz da CF e li- d) Como podemos vencer as tenta- tamento.
vrinho, Bíblia, cartaz: “Convertei-vos ções, hoje?
e crede no Evangelho”. Material: Bíblia, quebra-cabeça.
Para refletir
1. Ver (a realidade) Jesus vence as tentações deixando- 1. Ver (a realidade)
se guiar pela luz do Espírito San-
Dinâmica: Vamos começar nosso en- to e pela força da Palavra de Deus. Quebra-cabeça: O(a) catequista dis-
contro brincando de roda? Vamos dar O diabo usou até as Escrituras Sa- tribui pedaços de frases para montar
as mãos e cantar um canto bonito que gradas (Bíblia) para desviar Jesus um quebra-cabeça.
todos saibam de cor. Agora vamos le- com uma interpretação errada. Je- As frases são:
vantar as mãos dadas, dar uns pas- sus vence as tentações sendo fiel à Bíblia = Palavra de Deus /
sinhos para o centro e dizer: “Nós so- Palavra do Pai. Este é o caminho que Moisés = Lei Antiga /
mos uma turma de catequese muito devemos seguir. Muitos tentam nos Elias = Profecia /
unida e alegre!” desviar das coisas de Deus, da cate-
quese, da Igreja, usam de falsidades Jesus = Luz de Deus.
Experiência de Vida: Que tempo ini- e nos apresentam diversão, espor- Mostrar que Jesus é a luz que ilu-
ciamos na quarta-feira passada? O te e outras tantas coisas. Precisa- mina toda a Bíblia: Antigo e Novo Tes-
que o padre ou ministro disse ao tra- mos aprender com Jesus a vencer tamento.
çar o sinal-da-cruz com cinza na nos- as tentações.
sa testa? (“Convertei-vos e crede no Experiência de Vida: Pode-se contar
Evangelho!”) O que a Igreja quer dos Guardar no coração: “Não tentarás a seguinte história: a Rã que queria
cristãos no tempo da Quaresma? O o Senhor, teu Deus”. ser boi.
que quer a CF -Campanha da Frater-
nidade? 3. Celebrar À beira do lago estava um boi
pastando. Bem perto havia tam-
O tema da CF deste ano é: “Frater- Oração: Deus, Pai do teu Povo, a Igre- bém um grupinho de rãs que can-
nidade e Políticas Públicas”. O lema ja, nós Te damos graças. Pelo Batis- tavam e brincavam. Uma das rãs,
é: “Sereis libertados pelo direito e pela mo e Confirmação, libertaste-nos das cheia de inveja e orgulho, disse às
justiça” (Is 1,27). Quando um problema amarras da morte e do pecado para nos colegas: - “Querem apostar que eu
se torna problema de muitos como introduzir na nova terra prometida, ficarei grande como aquele boi”? E
saúde, educação, moradia, transpor- a Eucaristia. Neste início de Quares- foi para a beira do lago e começou
te, enfrentamento da violência etc., ma, ajuda-nos a vencer as tentações a beber água.
é preciso que todos participemos da e a voltar para a participação na vida
busca de solução. Esse é o sentido das de fé, firmes na tua Palavra. As outras rãs, zombando da colega
Políticas Públicas. Um problema so- diziam: - “Ei, ainda estás pequena!” E
cial exige um remédio social. Exige o 4. Agir (a realidade nos convoca para...) riam... A coitada da rã continuava se
nosso envolvimento para resolvê-lo. E enchendo de água... E ficava olhando
só teremos uma sociedade sadia com Compromisso para o boi para ver se já estava como
a busca da justiça e do direito. Uma Descobrir as atividades da comuni- ele. Sabe o que aconteceu? A rã inve-
grande tentação nossa é deixar tudo dade ligadas à Campanha da Frater- josa estourou e assim acabou com a
para que o governo resolva... nidade. sua vida.

2. Iluminar (ensinamentos de Jesus) Final As mesmas coisas podem aconte-
Terminar o encontro com um canto cer com quem vive cheio de ciúmes,
Canto: para aclamar a Palavra alegre. Depois rezar o Pai-Nosso e a inveja e orgulho. Cada um deve fi-
Ave-Maria.] car satisfeito com aquilo que tem e
com aquilo que é. Desejar ser mais
[34 olutador [ MARÇo 2019 do que somos e podemos, muitas ve-
zes nos leva ao fracasso.

domingos 10, 17 e 24 de março]

2. Iluminar (Ensinamentos de Jesus) 3. 2. Iluminar (Ensinamentos de Jesus)
É preciso
Canto de aclamação: produzir Canto de aclamação
Leitura: Lucas 9,28-36. frutos
(3º Dom. Leitura: Lucas 13,1-9.
Perguntar: Quaresma)
a) Quem se encontra ao lado de Jesus Perguntar:
e conversa com Ele? Objetivo: Descobrir, juntos, a missão a) O que vai acontecer se as pessoas
b) O que Pedro sugere fazer diante da- libertadora de Maria e Isabel. não se converterem?
quele acontecimento?
c) O que disse a voz que saiu da nuvem? Material: Bíblia. b) O que o homem mandou fazer com
d) O que precisa ser transfigurado em a figueira?
nossa vida? 1. Ver (a realidade)
Dinâmica: Um vaso com planta, ou c) O que o agricultor respondeu?
Para refletir reunir-se em volta de um pé de fruta.
Jesus está na subida para Jerusalém. Ver se tem fruta, o que é preciso pa- d) O que Deus espera de nós, seus filhos?
Na montanha, lugar do encontro com ra produzir. De que cuidados a plan-
Deus, acontece a Transfiguração. Je- ta precisa. Comparar a planta com Para refletir
sus se manifesta mais brilhante que a comunidade, ou com a catequese. Deus quer a conversão de todos. Con-
Moisés e Elias. Significa que Jesus é a Identificar os frutos produzidos pela verter-se é voltar-se para Deus. É dei-
luz que ilumina todo o Antigo Testa- comunidade ou pela catequese. xar de fazer o mal e passar a fazer o
mento. Ilumina a Lei – representada bem. É produzir bons frutos. A figuei-
por Moisés, e ilumina a profecia – re- Experiência de Vida: Contar a histó- ra é um retrato do povo de Deus. Mui-
presentada por Elias. ria: Um gesto amigo de cristão. tas das vezes, nos descuidamos e pa-
ramos de produzir bons frutos. Mas
A voz de Deus aponta que Jesus é o Fi- Franco estudava e sempre ia ao ca- Jesus acredita em nós, acredita na
lho de Deus. É a Ele que devemos escutar. tecismo. Naquele dia, estava brincan- nossa conversão.
Ele é quem nos dá o sentido verdadeiro do com um colega de turma. De re-
das Escrituras Sagradas. E não basta pente a mãe de Franco gritou: “Meu Jesus é o agricultor que veio nos
ouvir, é preciso colocar em prática, por filho, o almoço está na mesa!” Fran- trazer esperança. Ele está sempre dis-
isso nada de fazer tendas e procurar co estava já andando para almoçar e posto a nos dar uma nova chance. Ele
o sossego. É preciso continuar cami- disse ao amigo: “Você pode ir almo- vai cavar em volta de seu povo, de sua
nhando com Jesus e anunciando a sua çar, depois vamos continuar”. Igreja, estercar, cuidar para que possa
Boa Notícia aos pobres e necessitados. dar frutos de justiça e de paz.
O outro menino abaixou a cabe-
Guardar no coração: “Este é meu fi- ça e disse: - “Lá em casa não tem al- Guardar no coração: “Quem sabe ela
lho, o Escolhido, escutai o que ele diz”. moço. Minha mãe não prepara al- ainda dá fruto?”
moço”. - “Como assim?” - indagou
3. Celebrar Franco. - “É que lá em casa faltam 3. Celebrar
as coisas...” Colocar a Bíblia próxima da planta
Oração: ou da árvore. Expressar preces des-
Com o cartaz da acolhida e o quebra- Franco entendeu tudo. Já em casa, tacando os frutos que já produzimos
cabeça montado, fazer breve silêncio, disse ao seu pai: - “Quanto custa aque- e os que precisamos produzir.
expressar um compromisso e rezar le terno que o Senhor me prometeu?”
o Pai-Nosso. - “Uns cem reais...” - “Então eu queria 4. Agir (a realidade nos convoca para...)
o dinheiro no lugar do terno”, respon-
4. Agir deu o filho. Os pais se entreolharam. Compromisso
Logo Franco explicou:- “É que lá fora Ensinar em casa o que aprendeu no
Compromisso há um amigo meu que sua mãe nun- encontro de hoje. Convidar seus fami-
Acender três velas no cantinho de Je- ca prepara o almoço, porque não tem liares a participarem da missa nes-
sus da sua casa e rezar com a sua fa- as coisas, e eu quero dar o dinheiro ta semana, pondo em prática o que
mília uma oração à sua escolha. para a mãe dele; assim ela prepara- aprendeu.
rá o almoço para todos”.
Final Final
Canto: “Vem, Senhor, vem nos sal- Aquele Natal foi o mais alegre e ani- Encerrar o encontro com Pai-Nosso,
var. / Com teu povo vem caminhar.”] mado na casa do Franco. E também Ave-Maria e canto animado.]
na casa do amigo. Você já fez um ges-
to deste tipo?

MARÇo 2019 [ olutador]35

Homilética [ 14•04•2019 “Pai,
em tuas mãos

entrego
o meu espírito.”

Leituras da Semana (Lc 23,46)

Domingo [dia 15: Is 42,1-7; Sl 26[27],1.2.3.13-14; Jo 12,1-11
de Ramos e da [dia 16: Is 49,1-6; Sl 70[71],1-2.3-4a.5-6ab.15.17; Jo 13,21-33.36-38
Paixão do Senhor [dia 17: Is 50,4-9a; Sl 68[69],8-10.21bcd-22.31.33-34; Mt 26,14-25
[dia 18: Ex 12,1-8.11-14; Sl 115[116],12-13.15-16bc.17-18; 1Cor 11,23-26; Jo 13,1-15
[dia 19: Is 52,13–53,12; Sl 30[31],2.6.12-13.15-16.17.25; Hb 4,14-16; 5,7-9; Jo 18,1–19,42
[dia 20: Gn 1,1 – 2,2; Sl 103[104],1-2a.5-6.10.12.13-14.24.35c; Gn 22,1-18; Sl 15[16],5.8.9-10.11;

Ex 14,15 – 15,1; Cant. Ex 15,1-2.3-4.5-6.17-18; Is 54,5-14; Sl 29[30],2.4.5-6.11.12a.13b;

Is 55,1-11; Cant. Is 12,2-3.4bcd.5-6; Br 3,9-15.32 – 4,4; Sl 18[19],8.9.10.11; Ez 36,16-17a.

18-28; Sl 41[42],3.5bcd; Sl 42[43],3.4; Rm 6,3-11; Sl 117[118],1-2.16ab-17.22-23; Lc 24,1-12

Leituras: Is 50,4-7; Sl 21[22]; fundo nas águas sujas da miséria hu- Judas e ensina que o maior é aque-
Fl 2,6-11; Lc 22,14–23,56 mana. Jesus assumiu a condição dos le que serve, que faz o que Jesus está
mais excluídos: deixou sua condição fazendo, que é capaz de doar a pró-
1. O Servo humilhado. A liturgia nos divina, seu modo glorioso de vida (v. pria vida (Fl 2,7-8). Jesus anuncia a
apresenta o 3º cântico do servo sofre- 6) e, praticamente, tornou-se um na- traição de Pedro (vv. 31ss), apesar de
dor. Quem é este personagem miste- da (aniquilou-se a si mesmo). É o mis- ter rezado tanto por ele e apesar de
rioso? Poderia ser o povo de Israel, uma tério da encarnação. sua boa vontade.
pessoa anônima, até mesmo o profeta
ou, quem sabe, simbolizaria o Israel Segue-se um movimento ascenden- Jesus tem consciência de sua mor-
messiânico, o Messias futuro. te: a ação do Pai que glorifica o Filho te na cruz e diz, simbolicamente, que
(vv. 9-11), em alusão ao mistério de sua a vida cristã é uma luta (vv. 35ss). Em
Mas o Novo Testamento vê em Jesus ressurreição e ascensão. O Pai exalta o seguida Jesus se dirige para o monte
a realização perfeita dos quatro cân- Filho, dá-lhe o Nome que está acima das Oliveiras e se põe a rezar, mas es-
ticos do Servo de Javé. Jesus é o Servo de todo o nome, restitui-lhe as con- tá pronto a realizar a vontade do Pai.
humilhado pelos homens e exaltado dições divinas de antes, glorificando Sua oração foi intensa. Jesus estava
por Deus. A missão do Servo é mostrar também sua humanidade (v. 9). A ele angustiado. Duas vezes adverte os dis-
à custa das ofensas recebidas que o todos devem a honra e a adoração; os cípulos a rezarem, para não caírem
amor de Jesus é perene. que estão nas alturas celestes, os que em tentação (vv. 39ss).
estão sobre a terra e os que estão de-
O Senhor Javé dá-lhe a capacidade baixo da terra. Os vv. 47-53 narram a traição de Ju-
de falar para levar o conforto ao povo. das e a prisão de Jesus. Em seguida te-
Abre-lhe os ouvidos, para que, apren- Deus Pai confere a Jesus o nome mos o episódio da negação de Pedro na
dendo como discípulo, possa transmi- de “Senhor”. É sua identidade de res- casa do Sumo Sacerdote (vv. 54ss). Je-
tir ao povo os ensinamentos de Deus. suscitado. Com este hino, Paulo nos sus começa a realizar nos pormeno-
O Servo é um discípulo dócil e aplica- convida a ter os mesmos sentimen- res a profecia do Servo Sofredor. Pela
do. Javé, por fim, lhe dá proteção. Quer tos de Jesus (v. 5): desapego, humilda- manhã, Jesus foi levado ao tribunal
dizer, Javé prepara o Servo para a mis- de, obediência e entrega total a servi- judeu (= Sinédrio), onde ele se reve-
são no meio do seu povo. ço dos excluídos. “Quem se humilha la o Filho de Deus (vv. 63-71). Depois é
será exaltado”. Se Deus nos chamasse conduzido a Pilatos, onde o enchem de
A atitude do Servo é de impressio- hoje, estaríamos em condição de ser- acusações e, em seguida, a Herodes,
nante humildade, resignação e en- mos exaltados? mas ali permanece em silêncio (23,1-
trega total. Não oferece resistência 12). Então, ele é enviado a Pilatos, que
àqueles que o torturam (dá as cos- 3. A morte que salva. Em Jesus se rea- o declara inocente, mas os judeus pe-
tas). Ele tem certeza de que o Senhor liza a profecia do Servo sofredor. Ali dem a sua morte e Pilatos acaba ce-
Deus lhe presta auxílio e de que não acontece o aniquilamento total do Fi- dendo (23,13-25).
sairá frustrado. lho de Deus (Fl 2,6-8). O alto do Calvá-
rio é o ponto mais baixo que Jesus al- Jesus leva sua cruz ao Calvário
Israel é convidado a ter esta espe- cançou no seu mergulho na miséria com a ajuda de Simão Cireneu. De-
rança e certeza do Servo. Diante de tu- humana. É o seu encontro solidário pois, Jesus é crucificado e, antes de
do o que aconteceu com Jesus, Servo com os mais excluídos. morrer, perdoa seus algozes e pro-
de Javé e Nosso Senhor, nossa certeza mete o paraíso a um dos dois crimi-
e esperança são inabaláveis. São estes Depois do Calvário começa o mo- nosos que foram crucificados com
os seus sentimentos de cristão diante vimento ascendente (Fl 2,8-11) daque- ele (vv. 36ss).
do sofrimento? le que desceu para resgatar os ex-
cluídos. Seu êxodo termina na ca- Às quinze horas, Jesus morre para
2. O Servo glorificado. Este hino sin- sa do Pai como Senhor glorificado. A a salvação de todos. Representando os
tetiza a história de Jesus: o mistério paixão começa com a Eucaristia (vv. povos pagãos, um oficial romano re-
de sua encarnação, morte e glorifica- 14ss), onde Jesus se doa antecipada- conhece que Jesus era justo. Por fim,
ção. Vemos primeiro um movimento mente no pão e no vinho consagra- Jesus é sepultado por José de Arima-
descendente (vv. 6-8). É o gesto radi- dos. Ali, Jesus anuncia a traição de teia. Eis o drama do Servo Sofredor e
cal do Filho, seu mergulho mais pro- Redentor dos homens.]
[36 olutador [ MARÇo 2019

Homilética [ 19•04•2019 “Tudo está consumado.”

(Jo 19,30)

Sexta-feira Santa
– Paixão e Morte de
N. S. Jesus Cristo –

Leituras: Is 52,13–53,12; Sl 30[31]; mas para que o Pai o salvasse da mor- que o verdadeiro juiz é Jesus, que vai
Hb 4,14-16;5,7-9; Jo 18,1–19,42 te”. É uma referência à agonia de Je- julgar os vivos e os mortos. Pilatos, para
sus no Getsêmani. E foi atendido por manter seu status, entrega Jesus à mor-
1. Humilhação e glória. Javé convida o causa do seu profundo respeito ao Pai. te, mesmo sabendo que ele é inocente.
povo a olhar a figura do Servo sofredor.
Mas pede que olhe mais longe, além A última observação é que, enquan- Jesus carrega a cruz até ao Calvário,
das aparências. Muitos ficaram ater- to os sumos sacerdotes ofereciam um onde é crucificado entre dois ladrões.
rorizados ao ver o estado sub-humano sacrifício externo, Jesus se identificou O letreiro afirmava mais uma vez que
a que o servo foi reduzido, mas muitas com o sacrifício, o altar e o cordeiro. Jesus era o rei dos judeus. Lá estavam
nações ficarão horrorizadas ao ver a “Ele se tornou assim fonte de salva- algumas mulheres. A mãe de Jesus e o
meta final da caminhada do Servo So- ção para todos os que lhe obedecem.” discípulo que Jesus amava. Jesus decla-
fredor, pois Deus o exaltará. ra Maria como mãe da Igreja, represen-
3. O rei rejeitado. Jesus é levado ao pa- tada pelo discípulo que Jesus amava.
Um grupo olhou apenas a aparência lácio do governador Pilatos. Ali conti-
do Servo. Comparou-o com raiz em terra nua o interrogatório, onde Jesus con- A hora fatal da morte e da glória
seca, um homem sem beleza e formo- firma ser o rei, mas não deste mundo. chegou e Jesus, inclinando a cabeça,
sura, desprezado, a tal ponto que nin- Pilatos acha Jesus inocente, mas o po- entrega seu espírito à Igreja. Morre Je-
guém fazia caso dele. Mas depois o gru- vo prefere que soltem o bandido Bar- sus, nasce a Igreja. Aqui, com a expres-
po percebeu o significado profundo do rabás. Pilatos mandou flagelar Jesus. são “entregou o seu Espírito”, o evan-
sofrimento do Servo: ele sofre inocen- gelista parece usar um duplo sentido:
temente. Sofre por causa das enfermi- Os guardas, caçoando, vestiram-no de a morte e o Pentecostes.
dades, culpas e pecados do povo. Seu so- rei com um manto vermelho e uma
frimento, aceito com humildade e sem coroa de espinhos. É uma afirmação Jesus morre no dia da preparação
reclamações, traz a salvação para o povo. indireta de que Jesus é realmente rei, para a Páscoa, ou seja, no dia em que
mas rejeitado. os judeus matavam o cordeiro pascal.
Javé intervém glorificando o servo Isto significa que o verdadeiro Cordei-
(53,11-12). Sua vida foi entregue como Pilatos o apresenta ao povo que pede ro Pascal, que tira o pecado do mun-
sacrifício em favor dos pecadores, o Se- a crucificação do Filho de Deus. Ele se do, é Jesus. Ele substitui, assim, todos
nhor o glorificará, ele verá a luz e será esforça para soltar Jesus, mas o povo os sacrifícios do Antigo Testamento.
festejado entre os grandes. quer que Jesus morra. Pilatos, fazendo
Jesus sentar-se no tribunal, relembra Os soldados não quebram as per-
2. A vítima que salva. O texto mostra nas de Jesus, porque já estava morto.
Jesus como sumo-sacerdote, que in- MARÇo 2019 [ olutador]37 Mas atravessam seu lado com a lan-
tercede por nós, não como os outros ça, e saiu sangue e água, símbolos dos
da Antiga Lei, através de sacrifício de sacramentos da Igreja: eucaristia e ba-
animais. Ele é mais capaz do que os ou- tismo. É Jesus com sua morte, geran-
tros de se compadecer de nossas fra- do vida para a Igreja.
quezas, pois ele mesmo foi provado em
tudo como nós, com exceção do peca- José de Arimateia e Nicodemos se en-
do. Ele mesmo foi a vítima oferecida carregaram de tirar o corpo de Jesus da
por nós. Por causa da sua obediência cruz. Eles perfumaram-no com 30 qui-
Deus o atende. Chegado à perfeição ele los de perfume (coisa própria de enterro
se tornou para todos os que lhe obede- dos reis), embalsamaram-no e o colo-
cem causa de salvação eterna. Jesus caram num túmulo novo, no jardim.
entrou no céu, e é junto de Deus que
ele intercede por nós. O jardim é lembrado no início (Jar-
dim das Oliveiras) e no fim. É uma alu-
Jesus experimentou as consequên- são ao jardim do Éden. Lá, o ser huma-
cias do pecado sem nunca ter pecado. no rejeitou a vontade de Deus buscan-
Ele rezou ao Pai “com clamor e lágri- do egoisticamente a vida e encontrou a
morte. Aqui, Jesus, atendendo à vonta-
de de Deus, entregou-se caridosamen-
te à morte, gerando vida.]

Homilética [ 20•04•2019 “Olhou para dentro
e viu apenas
Sábado Santo os lençóis.”
– Vigília Pascal –
(Lc 24,12)

Vamos dar uma ideia geral das lei- voz, e buscá-lo através de uma mu- tação que Cristo alcançou para nós
turas de hoje. A quantidade não per- dança de vida, pois Deus é genero- através da cruz, nós a acolhemos
mite aprofundamento. As leituras so no perdão. através do batismo.
de hoje querem mostrar a caminha-
da de Deus com seu povo, trazendo Os pensamentos de Deus, seus Evangelho:
libertação e vida. caminhos e misericórdia são total- Lc 24,1-12.
mente diferentes dos pensamentos, Dia de Domingo. As mulheres vão ao
1a Leitura: caminhos e misericórdia do homem. túmulo preparar o corpo de Jesus,
Gn 1,1.26-31a. Sua palavra fecunda e salvadora é ungindo-o com perfumes e bálsa-
Aqui temos a criação do céu, da terra, comparada com a chuva e a neve mos, que eles prepararam na sex-
do homem e da mulher. Deus criou que fecundam a terra. A Palavra de ta-feira (cf. Lc 23,56), pois o corpo
o homem e a mulher à sua imagem Deus sempre cumpre a sua missão. de Jesus havia sido sepultado às
e semelhança, ou seja, com traços pressas. Estamos percebendo mui-
divinos. Deu-lhes com sua bênção 4a Leitura: to amor, mas pouca fé, pois Jesus
o poder da fecundidade, o poder de Rm 6,3-11. havia anunciado sua ressurreição
multiplicar-se e administrar a cria- O apóstolo Paulo explica o significa- ao 3o dia.
ção. E o que Deus fez era muito bom. do da vida nova através do batismo.
De fato não encontraram o cor-
2a Leitura: O batismo, mergulho na água, sim- po do Senhor e ficaram sem saber
Ex 14,15-15,1. boliza a morte para o pecado. Se com o que estava acontecendo. Dois an-
Este trecho narra a libertação do Cristo fomos sepultados na morte, jos aparecem e anunciam que Jesus
povo da escravidão egípcia, através com ele também devemos ressus- está vivo; ele ressuscitara, segundo
da passagem do Mar Vermelho. É citar para uma vida nova. o que ele mesmo havia anunciado
Deus vindo ao encontro do seu po- na Galileia.
vo escravizado e trazendo-lhe a li- O gesto de sair da água simboli-
bertação através de Moisés. za a ressurreição, a vida nova. Ba- Elas anunciam esta “boa nova”
tizar jogando água sobre a cabeça aos onze apóstolos e a todos os ou-
Os egípcios reconhecem a ação da criança não deixa transparecer tros discípulos, mas eles não acre-
de Deus nesta frase: “Vamos fugir com tanta clareza este aspecto fun- ditam nelas. Pedro, porém, na mes-
de Israel, pois o Senhor combate a damental do batismo – mergulho, ma hora, foi ao túmulo. Viu ape-
favor deles, contra os egípcios”. Tu- que é a entrada na água (morte) e a nas os lençóis de linho. Isto signi-
do isto prefigura a vitória de Cristo saída da água (vida nova). A liber- fica que o corpo de Jesus não fora
sobre a escravidão do pecado, tra- roubado. “Então Pedro voltou pa-
zendo libertação e vida para todos [38 olutador [ MARÇo 2019 ra casa, admirado com o que ha-
os que creem. via acontecido.”

3a Leitura: Pedro ficou admirado, mas o tex-
Is 55,1-11. to não fala que ele acreditou. É cla-
O povo, de novo, se afastou de Deus ro que ele acredita depois que Jesus
com seu pecado. Mas é só em Deus aparece a ele sozinho (v. 34), e jun-
que o povo encontra abundância de to com os outros (vv. 35ss), quando
vida. O profeta anuncia aqui a vida Jesus até mesmo comeu um peda-
gratuita oferecida por Deus. Para ço de peixe com eles (v. 43).
isso é preciso apenas escutar a sua
Todo Domingo nós celebramos
a Ressurreição do Senhor. Qual é a
vibração da sua fé?]

Homilética [ 21•04•2019 “Ele viu
e acreditou.”

(Jo 20,8)

Domingo da Leituras da Semana
Ressurreição
[dia 22: At 2,14.22-32; Sl 15[16],1-2a.5.7-8.9-10.11; Mt 28,8-15
[dia 23: At 2,36-41; Sl 32[33],4-5.18-19.20.22; Jo 20,11-18
[dia 24: At 3,1-10; Sl 104[105],1-2.3-4.6-7.8-9; Lc 24,13-35
[dia 25: At 3,11-26: Sl 8,2a.5.6-7.8-9; Lc 24,35-48
[dia 26: At 4,1-12; Sl 117[118],1-2.4.22-24.25-27a.; Jo 21,1-14
[dia 27: At 4,13-21; Sl 117[118],1.14-15.16ab-18.19-21; Mc 16,9-15

Leituras: At 10,34a.37-43; mina anunciando o que todos os pre- Que cristão é este que tem a obriga-
Sl 117[118]; Cl 3,1-4; Jo 20,1-9. gadores (= profetas) testemunham: a ção de viver como se já estivesse res-
necessidade da fé em Jesus, para re- suscitado? Esse cristão é você, sou eu,
1. Jesus em ação. A Igreja de Jerusalém ceber o perdão dos pecados. somos todos nós. Que estamos espe-
corria o risco de esclerosar-se, fechada rando para vivermos em profundida-
em Jerusalém e bitolada no judaísmo. O que Jesus quer da sua Igreja hoje? de o sentido do nosso batismo?
E é Pedro o primeiro a romper com o Expulsão de demônios no sentido li-
esquema, com a abertura aos pagãos. teral, como fazem diversas seitas, ou 3. O encontro com a vida. No primei-
O texto, proposto pela liturgia de ho- luta pela implantação do Reino com ro dia da semana – domingo, o dia da
je, salienta parte do sermão de Pedro: a expulsão do demônio da opressão, nova Criação - Maria Madalena vai ao
seu anúncio sobre Jesus Cristo aos pa- da injustiça, da alienação, da exclu- túmulo. Ela vai visitar o cadáver de Je-
gãos. Em poucas palavras, ele anuncia são, enfim, de toda a forma de pecado? sus. Madalena simboliza a comunida-
a atividade de Jesus de Nazaré a partir de sem fé, caminhando ainda no es-
do batismo pregado por João. 2. A vida do cristão. No capítulo se- curo. Ela acha que roubaram o corpo
gundo, Paulo falou sobre o batismo, de Jesus. Quem não tem fé busca ex-
Pedro apresenta o itinerário de Je- através do qual o cristão participa da plicações racionais para tudo: houve
sus: depois do batismo de João, ele par- morte e ressurreição de Cristo. Como um roubo. É isso que ela transmite
tiu da Galileia e percorreu toda a Ju- Cristo morreu e foi sepultado, o cristão para Pedro e para o discípulo que Je-
deia. Deus ungiu Jesus com o Espírito também, coberto pela água do batis- sus amava.
Santo e com poder.
mo, morre para o mundo do pecado. A seguir, os dois discípulos vão ao
O que Jesus fez é sintetizado no v. 38: Como Cristo ressuscitou para uma vi- túmulo. A comunidade, por falta de fé,
“Ele andou por toda a parte, e curando da nova, também o cristão, emergin- não estava reunida. Os dois discípulos
a todos os que estavam dominados pelo do da água, ressuscita para uma vida correm ao túmulo. O discípulo que Je-
diabo, porque Deus estava com Jesus”. nova com Cristo. sus amava chega primeiro, não sim-
plesmente porque é mais jovem, mas
Que significa curar todos os que es- Paulo conclui seu raciocínio. Se os por causa do amor. Quem ama che-
tavam dominados pelo diabo? Se levar- cristãos ressuscitaram com Cristo, não ga mais rápido, entende mais, acolhe
mos em conta que o diabo estava dire- pertencem mais a este mundo de pe- mais, aceita mais. Por respeito, ele não
tamente relacionado com tudo o que cado. Eles têm, agora, um compromis- entra, apenas se inclina e vê os panos
divide, discrimina, oprime, com tudo so novo; não pecar nem buscar mais de linho estendidos.
o que é mentira, erro e pecado, com as coisas da terra, mas sim, as coisas
todo o tipo de doença, física e mental, do alto, do céu, de onde Cristo reina. Simbolicamente, o túmulo é para
então começaremos a entender toda João a cama nupcial, não lugar de mor-
a atividade de Jesus. O que Jesus que- A vida do cristão é Cristo; sua vida te, mas lugar de encontro com o Senhor
ria era uma sociedade justa e frater- está escondida em Cristo no céu. Pa- da vida, com a comunidade-esposa.
na, com homens livres, respeitosos da ra as coisas do mundo, o cristão já es- Pedro chega, olha e vê tudo: os panos
dignidade uns dos outros. tá morto. A vida do cristão só apare- de linho estendidos e o sudário dobra-
cerá gloriosa, junto com Cristo, quan- do num lugar à parte. Ladrões não te-
No testemunho de Pedro com os após- do Cristo, que é sua vida, aparecer na riam este cuidado de deixar as coisas
tolos, eles testemunham três ativida- sua glória. arrumadinhas. O corpo de Jesus, por-
des: a de Jesus a favor do povo, a dos ju- tanto, não foi roubado.
deus contra Jesus e a de Deus em favor MARÇo 2019 [ olutador]39
de Jesus. A ação de Jesus foi menciona- Mas Pedro não chega a conclusões
da acima. Os judeus mataram Jesus, maiores. Tal como Maria Madalena,
suspendendo-o numa cruz, mas Deus ele representa neste momento a comu-
o ressuscitou ao terceiro dia e lhe con- nidade ainda incrédula. Então, o ou-
cedeu aparecer às suas testemunhas e tro discípulo entrou também. Ele viu
até mesmo tomar refeições com elas. e acreditou. Quem ama tem intenções
profundas e vai mais longe. O discípulo
Em seguida Pedro fala sobre a mis- que Jesus amava percebeu claramente
são que Jesus deu aos apóstolos: pregar que Jesus havia ressuscitado.]
e testemunhar que Deus o constituiu
juiz dos vivos e dos mortos. Pedro ter-

Homilética [ 28•04•2019 “Estende a tua mão
e coloca-a
Leituras da Semana
no meu lado.”
[dia 29: At 4,23-31; Sl 2,1-3.4-6.7-9; Jo 3,1-8
[dia 30: At 4,32-37; Sl 92[93],1ab.1c-2.5; Jo 3,7b-15 (Jo 20,27)
[dia 1º: At 5,17-26; Sl 33[34],2-3.4-5.6-7.8-9; Jo 3,16-21
2º [dia 2: At 5,27-33; Sl 33[34],2.9.17-18.19-20; Jo 3,31-36
Domingo [dia 3: 1Cor 15,1-8; Sl 18[19A],2-3.4-5; Jo 14,6-14
da Páscoa [dia 4: At 6,1-7; Sl 32[33],1-2.4-5.18-19; Jo 6,16-21

Leituras: At 5,12-16; Sl 117[118]; ilha de Patmos, exilado, porque anun- sença de Jesus no meio da comunida-
Ap 1,9-11a.12-13.17-19; Jo 20,19-31 ciou a Palavra de resistência e comba- de alude à presença eucarística. Tudo
te à opressão e ao mal e deu testemu- isto lembra a eucaristia).
1. A Igreja viva. O texto de hoje é um nho de Jesus.
sumário, um resumo das atividades Os discípulos ainda estão com me-
apostólicas, uma síntese da caminha- O autor vai relatar a experiência que do, por isso as portas estão fechadas.
da, um retrato da Igreja, uma visão de ele teve no dia do Senhor, isto é, no Do- Mas, com seu corpo ressuscitado, Je-
conjunto, às vezes, idealizada (cf. 2,42- mingo (v. 10). Ele deve depois enviar seu sus entra assim mesmo e tranquiliza
47; 4,32-37). O que temos, de bonito, na escrito às sete igrejas. O número 7 está os discípulos, trazendo-lhes a paz da-
comunidade? carregado de simbolismo de totalidade. quele que é o Senhor da vida. Os discípu-
O escrito deve ser lido pela Igreja na sua los recobram a alegria ao verem Jesus.
Eles se reuniam em grupo. Hoje te- universalidade. “Sete” aqui significa,
mos o grupo na liturgia eucarística e portanto, todas as comunidades cristãs. Segue-se o envio missionário. Os dis-
grupinhos de oração e reflexões da Pa- cípulos devem continuar a missão de
lavra de Deus e as diversas pastorais. O autor vê sete candelabros de ou- Jesus sob a garantia do Espírito Santo.
O importante é a união. ro. Representam a Igreja, preciosa aos Para isso Jesus faz uma nova criação.
olhos de Deus. O Filho do Homem está O sopro de Jesus relembra o sopro de
Os outros sumários falam da ora- agindo no meio dos candelabros, isto Deus ao criar o homem. É o Pentecos-
ção e da partilha do pão e comunhão é, Jesus está atuando dentro da Igreja, tes acontecendo no Evangelho de João.
entre eles (cf. 2,42ss). O testemunho não se esqueceu dos que sofrem. Os vv. Os discípulos recebem o Espírito Santo.
suscita adesão em massa. A comuni-
dade não se fechava. 13ss descrevem simbolicamente Jesus O projeto de Deus iniciado por Jesus
ressuscitado. deve ser continuado. Eis a síntese do
Do lado de fora, ou para fora, os após- projeto de Jesus: os pecados daqueles
tolos realizam sinais e prodígios. A co- João reage caindo aos pés da divin- a quem vocês perdoarem, serão per-
munidade era elogiada pelos de fora. dade, mas Jesus o conforta e encoraja. doados. Os pecados daqueles que vocês
Alguns de fora reagem e perseguem a Quem tem fé não precisa ter medo, pois não perdoarem não serão perdoados.
comunidade (vv. 13.17ss). Jesus é o Senhor da história (o primei- Quem quiser aderir ao projeto de Jesus
ro e o último). Ele é o Vivente, aquele pode receber através dos apóstolos e
O povo trazia doentes para as pra- que ressuscitou para viver para sem- seus sucessores o perdão dos pecados.
ças em esteiras e camas em busca de pre e exercer o domínio sobre a man-
milagres. Como no deserto, Deus pro- são dos mortos. O episódio de Tomé ensina que ver
tegia o povo com sua sombra. Aqui até Jesus pessoalmente não é o mais im-
a sombra de Pedro realiza prodígios. 3. O Senhor da vida. Estamos no Do- portante, pois muitos viram e não acre-
Até doentes e endemoninhados de ci- mingo de Páscoa. Com sua vitória so- ditaram. Importante é a fé. As testemu-
dades vizinhas procuravam os após- bre a morte, Jesus inaugura uma no- nhas oculares não estão num plano su-
tolos e eram curados. va era. Percebe-se um contexto de cele- perior, em relação aos que não viram
bração eucarística (é o 1o dia da sema- Jesus pessoalmente. Feliz não é quem
Percebemos que a Igreja continua, na, Domingo. “Ao anoitecer” lembra viu, mas quem aqui e agora acredita
na pessoa dos apóstolos, a atividade o costume dos cristãos celebrarem a em Jesus e adere ao seu projeto de vida,
de Jesus. A Igreja se tornou vida para eucaristia na tarde de Domingo. A pre- que inclui todos os excluídos.
os excluídos.
[40 olutador [ MARÇo 2019 Primitivamente, o Evangelho de João
O que a Igreja faz hoje de maravi- terminava aqui. Depois foi acrescentado
lhoso para o povo, principalmente pa- o capítulo 21, que também é inspirado.
ra os excluídos? Os versículos 30-31 mostram a função
dos sinais. A palavra “sinal” substitui
2. Jesus vive. A experiência que João co- em João a palavra milagre, usada pe-
munica revela a experiência e solida- los outros evangelistas. A finalidade
riedade do autor com os destinatários. dos sinais é suscitar a fé e adesão ao
O autor se considera irmão e compa- projeto de Jesus. Ele é o Messias o Filho
nheiro, participante da mesma Igreja de Deus. Aderir a ele é buscar a vida.]
sofredora, perseguida. Ele se acha na

Mensagens [ Sabedoria & Poesia

[ Palavra de sabedoria

❝A Palavra de Deus não é uma doutrina
sobre a qual se discute,

ou uma ideia que nos agrada,
mas um acontecimento que irrompe

na vida real dos homens.❞

H el m ut G o ll w i t z e r

[ Poema para o mês de março

M aldita a lama Nota: Este poema é fruto do sentimento de pro-
funda indignação eco-ética. Ele nasceu no calor da

Edward Guimarães, João Henrique e Manuel Robério experiência vivida pelos membros do grupo mul-

tidisciplinar Mineração e Correlatos da PUC Minas,

Maldita a lama mal dita no dia de nossa visita ao local da tragédia crimino-
Que jorra da ganância por fácil e farto lucro sa da Samarco-Vale-BHP Billiton, na Bacia do Rio
Doce, e de modo impactante e impressionante, ao

Pois atropela a lucidez do bom senso ético totalmente destruído distrito de Bento Rodrigues.
E devora os norteadores princípios da “com ciência”. Não tinha como não sentir aquela dor aguda provo-
cada pelo cheiro da tristeza dos sonhos despeda-

çados, pelas marcas da negligência esculpidas na

Maldita a lama mal dita lama da tragédia-crime anunciada, pelo grito en-
Que exala das relações promiscuas e corruptas surdecedor do silêncio que tomou conta do grupo
Pois compra, manipula e determina votos e eleições diante do caos de lama… na memória a gravidade
E rasga as regras da lei e decide o teor dos “licenciamentos”. do alerta descrito no laudo ambiental de 2013, feito
pelo Instituto Pristino por ocasião da renovação da
licença ambiental, bem antes do rompimento da

barragem do Fundão. Portanto, um grave crime

Maldita a lama mal dita de negligência, imperícia e descaso contra a vida.

Que desnuda a grave doença da governança política

Pois tem por guia a perpetuação no poder e a lógica do ter sobre o ser

E, “desumana”, torna-se incapaz de sentir perdas sociais e danos ambientais.

Maldita a lama mal dita
Que corre das rompidas barragens da mineração
Pois engole veredas e casas e seres e rios e bacias
E destrói, insensível, “tudo o que vê pela frente”.

Maldita a lama mal dita
Que brota das bocas insanas, mesquinhas e imorais
Pois falam de amor, de sustentabilidade e de ética
E desejam “apenas” manter os seus magnos lucros perversos.

MARÇo 2019 [ olutador]41

variedades [ Culinária & Dicas de português

[ Não Tropece na Língua

[ o sENHor E oUTros modos dE TrATAmENTo

Nhoque Quando devo usar expressa tanto pela preposição “de”
vossa Excelência e v. Exa.? quanto pelos pronomes possessivos.
Ingredientes Como o pronome “seu/sua” pode gerar
(JENIFFER, GOIÂNIA, GO) ambiguidade, uma vez que ele se refe-
2 xícaras de batatas cozidas e re igualmente a você(s), ele(s), ela(s),
espremidas; 1 ½ xícara de fa- O uso das fórmulas de tratamen- senhor e senhora, muitas vezes (prin-
rinha de trigo; 1 colher (sopa) to abreviadas ou por extenso é mais cipalmente na televisão e ao telefone)
de margarina; 1 ovo; molho uma questão de estética do que de for- as pessoas preferem usar “dele, dela,
que desejar (de carne moída, malidade ou de respeito. Só há mes- do senhor, da senhora” por questão de
de camarão, de tomates etc.); mo exigência em relação a Presidente clareza. No caso em apreço, por não
sal e queijo parmesão ralado, da República e Governador de Estado, haver ambiguidade, sem dúvida se-
a gosto. casos em que se deve escrever Vossa ria mais enxuto perguntar: “Qual o
Excelência por extenso. Nas demais número do seu telefone?” Mas o ou-
Modo de fazer situações, cabe a você escolher, ver a tro tipo de pergunta também é válido.
forma mais conveniente.
Misturar bem as batatas, a mar- Gostaria de saber se uma pessoa in-
garina, o ovo, o sal e juntar, aos v. sa. está convocada ou convocado? vestida em um cargo de direção, co-
poucos, a farinha de trigo até mo por exemplo presidente de uma
ficar uma massa lisa. Formar (ALEXANDRA PONTES, SALVADOR, BA) comissão de licitação, quando digitar
rolinhos com a massa e cortá algum ofício ou memorando tem que
-los em pedacinhos. Jogá-los Gostaria de saber se ao utilizar o pro- se dirigir à outra pessoa na 1ª pessoa
numa panela com água fer- nome de tratamento v. sa. e o desti- do plural, ex: enviamos, comunicamos
vendo com sal. À medida que natário for do sexo masculino, deve- etc. Não seria mais elegante e moder-
os nhoques subirem à tona, re- rei usar o verbo no masculino. Ex.: v. no na 1ª pessoa (comunico, envio)?
tirá-los e colocá-los num es- sa. está autorizado...
corredor de macarrão, man- (PATRÍCIA AMORIM SANTIAGO, BELO HORIZONTE, MG)
tendo-os aquecidos. Arrumar (VALÉRIA MARINHO, RIO DE JANEIRO, RJ)
num prato, cobrir com o mo- Não é realmente necessário o uso da
lho escolhido e polvilhar com O emprego de “V. Sa. ou V. Exa. está primeira pessoa do plural nesses ca-
o queijo parmesão ralado.] convocado, autorizado” ou “convoca- sos, a não ser que a pessoa fale por si
da, autorizada” depende do sexo da e pela instituição ao mesmo tempo,
Do livro pessoa a quem nos dirigimos: ou seja, quando se trate do conjunto.

“Cozinhando sem Mistério”, - se a um homem, usamos adjeti- O moderno (e não tão atual assim,
vos e particípios no masculino: pois há 30 anos eu já via autoridades
de Léa Raemy Rangel escrevendo “cumprimento, envio, co-
& * Vossa Senhoria foi convocado pa- munico”) é realmente usar a 1ª pessoa
ra depor. do singular, sobretudo no início e no
Maria Helena M. de Noronha fim de uma correspondência, situa-
Ed. O Lutador, Belo Horizonte, MG * Não sei se V. Sa. será chamado à ções em que está bem determinado
mesa, professor. quem é o falante, ou quem está assu-
Pedidos mindo a assertiva ou opinião. Não há
0800-940-2377 * Senhor Promotor, V. Exa. parece problema se lá pelas tantas for usa-
livraria.olutador.org.br insatisfeito com a questão. do o pronome nós ou o verbo respec-
tivo, desde que isso indique uma re-
[email protected] - se a uma mulher, usamos adjeti- ferência plural, por exemplo à em-
vos e particípios no feminino: presa ou à instituição como um to-
do. Essa mescla dos pronomes pes-
* Vossa Senhoria foi autorizada a soais EU-NóS é comum não só em
depor. correspondências, mas em discur-
sos de autoridades, conforme tenho
* Não sei se V. Sa. será chamada à documentado.]
mesa, professora.
Fonte: língua brasil
* Senhora Juíza, V. Exa. parece sa-
tisfeita com a decisão.

o uso da seguinte expressão soa es-
tranho, mas é muito comum: doutor,
qual o número do telefone “do senhor”?
Não seria “seu”? Por quê?

(ADALBERTO A. DE MATOS, BARRA DAS GARÇAS, MT)

Ambos os modos de se manifestar es-
tão corretos, pois a “posse” pode ser

[42 oluTador [ MARçO 2019

Wesley Figueiredo* ADCE [ Princípios...

A mineração, o meio-ambiente
e as futuras gerações

AADCE, através da UNIAPAC, que fazem possível para as asso- balho – mediante o uso da inova-
União Internacional dos Diri- ciações e cada um dos seus mem- ção, da tecnologia, dos recursos e
gentes Cristãos de Empresas, bros o logro mais pleno e mais fácil do trabalho – da forma mais efi-
considera que o desenvol- da sua perfeição”, podemos afir- ciente, amigável com o meio am-
vimento deve ser visto co- mar então que o “bem comum” é biente.
mo um processo integral. O Papa o “conjunto das condições sociais
não só faz referência para as dimen- e ambientais”, isto é, as condições No mundo empresarial, os nos-
sões ambientais, econômica e social que permitem a todos e a cada um sos “próximos” são os nossos fun-
da ecologia, mas acrescenta uma de nós alcançar a nossa própria cionários e as suas famílias, as
quarta dimensão: a “ecologia cul- perfeição. Nesta linha, a UNIAPAC/ comunidades nas quais agimos,
tural” - onde nos convida a “cons- ADCE adere plenamente à seguinte os nossos acionistas, fornecedo-
truir lideranças que marquem ca- proposta: em “uma ecologia inte- res, distribuidores e clientes, além
minhos, procurando atender às ne- gral, que não exclua o ser huma- do meio ambiente que nos rodeia,
cessidades das gerações atuais, in- no, é indispensável incorporar o que, de uma perspectiva huma-
cluindo a todos, sem prejudicar as valor do trabalho”. na, é entendido como as futuras
gerações futuras.” gerações.]
É fundamental proteger o
“Não podemos deixar de reconhe- meio ambiente se, além do mais, * Extraído da Declaração da UNIAPAC a respeito
cer que a sociedade, cada vez mais queremos resguardar a dignidade dpuabElniccaícdlaiceamL[af*eu(A3vdesa1rt)seo3ierS2osi’1dds1eoo-2P7r0a5i1pa06a.0dFeranImcispcroe, nsa
globalizada, nos faz mais próxi- da pessoa humana que necessita
mos, mas não mais irmãos” (Ben- de forma “mais plena e mais fácil”
to XVI, “Caritas in Veritate”). O Pa- o acesso aos recursos naturais
pa lembra que esta falta de solida- como meio para obter a sua própria
riedade globalizada é precisamen- perfeição.
te o resultado da perda da nossa
percepção de fraternidade e reci- Ao mesmo tempo que fornece
procidade nas relações baseadas à sociedade bens e serviços real-
no princípio da gratuidade. Se não mente necessários, um empresá-
nos vemos entre nós como irmãos rio pode criar novos postos de tra-
e se não aplicamos o princípio que
salienta a respeito de que aquilo [43 olutador [ MARÇo 2019
que acontece a um de nós, ocor-
re para todos nós, então qualquer
desenvolvimento, que possamos
alcançar, não será integral.

Ao definir “o clima como um
bem comum”, o Papa Francisco faz
coincidir o foco da sua Carta to-
talmente com aquele da tradição
quanto à Doutrina Social da Igreja.
Enquanto na Encíclica Gaudium
et Spes, a Constituição Pastoral do
Concílio Vaticano Segundo, o “bem
comum” é definido como o “con-
junto de condições da vida social

Sociedade [ Onde está a nossa segurança? Será que é possível concilia

Fé em Deus O próprio autor sagrado, ao nar-
rar a violência de Caim contra seu
e confiança irmão Abel, já mostra o caminho de
nas armas superação da violência não aceitan-
do que Caim seja punido com a pena
Oódio, a vingança, a violên- pe. rodrigo ferreira da costa, sdn de morte; ao contrário, “quem matar
cia contra o outro estão pre- Caim pagará multiplicado por sete”
sentes na humanidade desde fos também procuraram pensar so- (Gn 4,15). E, para os cristãos, Jesus se
os tempos mais remotos. Os bre a violência e alguns chegaram a apresenta como o Príncipe da paz que,
primeiros capítulos da Bíblia afirmar que o “homem é lobo do ho- em sua vida e em seus ensinamentos,
mem”. (Thomas Hobbes.) Porém, mes- testemunhou a força da não violên-
narram o fratricídio de Caim contra mo a história da humanidade sendo cia. “Sua missão não se realiza pela
uma história manchada de sangue, violência e pela opressão, mas pela
Abel (cf. Gn 4,1-10), isto é, um irmão há um grande desejo no coração hu- mansidão de um pedagogo, que dei-
mano de encontrar o caminho da paz. xa penetrar nos humildes, gota por
que mata o próprio irmão. Os filóso- gota, o espírito de amor e solidarieda-
de que faz crescer o verdadeiro Reino
[44 olutador [ MARÇo 2019 de Deus.” (Johan Konings.)

A tentação do poder das armas
O clima de insegurança em que vive-
mos em nosso país, a crescente on-
da de violência que atinge nossas ci-
dades e a desconfiança dos cidadãos
nos poderes constituídos têm con-
tribuído para crescer a tentação de
acreditarmos no poder das armas.
Talvez por isso, o decreto presiden-
cial de flexibilização da posse de ar-
mas de fogo para o cidadão comum,
assinado no último dia 15 de janei-
ro, mesmo sendo “um decreto an-
tievangélico e contra os ensinamen-
tos de Jesus, pois não se trata mais
só da legítima defesa: é a violência
amparada pela lei” (Dom Diasin), te-
nha sido recebido com tanta expec-
tativa mesmo por pessoas que pro-
fessam a fé em Jesus Cristo. Muitos
pensam que possuindo uma arma
em casa poderão “fazer justiça com
as suas próprias mãos”, e assim es-
tarão seguros. Esquecem-se do prin-
cipal mandamento de Deus que per-
passa toda Bíblia e se estende na éti-
ca, que é o não matarás.

Enquanto crentes, precisamos nos
questionar: onde está a nossa segu-
rança? Será que é possível conciliar
a fé no poder de Deus e no poder das
armas? Muitos podem dizer que não
há contradição entre a fé em Deus e
a confiança nas armas, mas se de
fato quisermos ser fiéis aos ensina-
mentos de Jesus de Nazaré, que pre-
feriu morrer a matar, essa concilia-
ção não é possível.

ar a fé no poder de Deus e no poder das armas?...

Jesus ensina a não violência cha o amor, e não os que alimentam gamos com aqueles que não pensam
o ódio e o rancor; felizes os que pro- como nós, quando reagimos diante
Jesus de Nazaré tinha tudo para ser movem a paz, e não os fazedores de das injustiças e trabalhamos juntos
um homem ressentido e violento, guerra; felizes os que abraçam dia- por uma sociedade mais justa e igua-
pois desde cedo sofreu a violência riamente o caminho do Evangelho, litária, pois “uma paz que não surja
dos poderosos. Ainda criança, seus mesmo enfrentando perseguições, como fruto do desenvolvimento in-
pais tiveram que fugir com o Meni- e não que os usam da religião para tegral de todos não terá futuro e se-
no para o Egito devido à perseguição seu próprio benefício (cf. Mt 5,1-12). rá sempre semente de novos confli-
de Herodes que, por medo de perder tos e variadas formas de violência”.
o poder, ordenou que matassem “to- Vivemos tempos de grande violência
dos os meninos menores de dois anos Violência no trânsito, nas ruas e pra- Não devemos compreender a paz
em Belém e arredores” (cf. Mt 2,16), ças, nas cidades e no campo, nas fa- como “mera ausência de violência
tendo assim que viver a sua infância mílias e nas igrejas, nas redes so- obtida pela imposição de uma parte
como imigrante em terras estran- ciais etc. Sem contar a violência si- sobre as outras. Também seria uma
geiras. Quando adulto, Jesus expe- lenciosa praticada contra os pobres paz falsa aquela que servisse como
rimentou novamente a dor dos re- por meio de uma economia de mer- desculpa para justificar uma orga-
fugiados ao passar pelas aldeias de cado que não tem a pessoa como fo- nização social que silencie ou tran-
samaritanos e não ser acolhido, po- co, e sim o lucro e o acúmulo de ri- quilize os mais pobres, de modo que
rém não aceitou a proposta de vin- quezas. Há também que considerar a aqueles que gozam dos maiores be-
gança da parte dos seus discípulos violência do preconceito contra aque- nefícios possam manter o seu estilo
(cf. Lc 9,51-55). les e aquelas que têm uma condição de vida sem sobressaltos, enquanto
sexual diversa; bem como violência os outros sobrevivem como podem”.
Dor maior Ele sofreu ao ser re- contra os negros e os índios, ou se- (Papa Francisco, EG, 218-219.)
jeitado pelos seus conterrâneos que, ja, as minorias que são diariamen-
por preconceito e fechamento, não o te violentadas e desrespeitadas em Jesus de Nazaré fez da não vio-
acolheram e ainda queriam elimi- seus direitos. lência uma estratégia de resistên-
ná-lo (cf. Lc 4, 14-30); e, mesmo de- cia e profecia. A paz que ele nos deu
pois de sofrer a dura violência de ser Diante de tanta violência e in- é uma paz que se constrói com o es-
torturado, humilhado e condenado à segurança, tem-se criado a forço de todos, e não por decreto de
morte por um tribunal injusto, “ele cultura do medo e do isola- alguns. Uma paz que não procura
não abriu a boca” (cf. Mc 14, 53-65). Na mento: muros, grades, cercas eliminar os inimigos, mas, ao con-
cruz, Ele olha no rosto de seus algo- elétricas, segurança privada, trário, reza por eles, perdoa sempre
zes, não com ressentimento, ódio ou confiança nas armas etc. O e toma a iniciativa de fazer o bem
desejo de vingança, mas com mise- outro é visto quase sempre aos que nos odeiam (cf. Lc 6,27). Es-
ricórdia. Por isso, no lugar das famo- como um inimigo em poten- te caminho novo do amor, da tole-
sas invectivas proféticas, Jesus pre- cial do qual eu tenho que me rância e do respeito ao outro, vivido
fere derramar sobre eles o perfume proteger. e ensinado por Jesus, é na verdade
do perdão: “Pai, perdoa-lhes porque a única via que temos para obter a
não sabem o que fazem”. (Lc 23,34.) Neste contexto de “guerra mundial tão sonhada paz. Do contrário, a hu-
em pedaços”, a paz deixou de ser bus- manidade estará se autodestruindo,
A não-violência ensinada e pra- cada como um valor positivo, fruto uma vez que “a prática da violên-
ticada por Jesus deve ser paradigma da fraternidade, do respeito do outro cia, como toda ação, muda o mun-
para todos os cristãos. Não é possível e da mediação pacífica dos conflitos. do, mas a mudança mais provável é
ser fiel a Jesus de Nazaré defendendo Busca-se uma paz negativa, orienta- para um mundo mais violento” (H.
ou praticando a violência. Seu pro- da pelo uso da força e das armas, da Arendt), pois a violência gera sem-
jeto é de paz. Sua resistência segue intolerância com os “diferentes”, da pre mais violência, o fruto dela ja-
a via da humilde mansidão. Sua ar- punição... Pensam que a violência po- mais será a paz.
ma é o amor. Seu maior legado é ter de construir a paz, mas, como escre-
declarado felizes os pobres, e não os ve H. Arendt, “do cano de uma arma O sonho do profeta Isaías de trans-
ricos e poderosos; felizes os que rea- jamais pode nascer a paz!” formar as armas em instrumento de
gem com humilde mansidão, e não trabalho - “das espadas forjarão ara-
os violentos e sanguinários; felizes Ser instrumentos de paz dos e das lanças, foices” (Is 2,4) - deve-
os que choram com os outros, e não A paz se faz quando aprendemos a ria ser também o nosso sonho, pois,
os que riem da desgraça alheia; feli- respeitar as diferenças, quando dialo- como alertou Jesus a Pedro, “quem
zes os que têm fome e sede de justiça, empunha a espada, pela espada mor-
e não que os usam do seu poder para MARÇo 2019 [ olutador]45 rerá”. (Mt 26,52.) Sejamos, portanto,
cometer injustiças contra os mais fra- instrumentos da paz, não da violência
cos; felizes os misericordiosos, e não que mata. Coloquemos a nossa con-
os vingativos; felizes os que mantêm fiança no Senhor, pois ele é a nossa
o coração limpo de tudo o que man- única segurança.]

Leigos [ Avançar...

ag e n o r b r i gh e n t i

Avanços e
retrocessos

na caminhada
do laicato [2

Abordando a situação do lai- estão empenhados numa “reforma Igreja; e a avaliação implica a parti-
cato na Igreja e na sociedade, da reforma” do Vaticano II. lha entre todos dos méritos das con-
no artigo anterior destacamos quistas, bem como em assumir limi-
seu potencial e suas qualida- Página virada? tes a serem corrigidos na projeção da
des: um gigante, mas adormecido e A Igreja, antes do Vaticano II, conce- ação futura.
domesticado. O Concílio Vaticano II, bia os leigos e as leigas como coadju-
em sua “volta às fontes” bíblicas e pa- vantes do clero e, depois do Concílio, O serviço no seio da sociedade se
trísticas, deu aos leigos e leigas plena passou a vê-los como sujeitos e prota- faz pela pastoral social e, a partici-
cidadania na Igreja e os lançou nu- gonistas da evangelização. Dado que pação dos cristãos, como cidadãos,
ma missão profética no seio da so- todos os ministérios na Igreja brotam se dá nas organizações da sociedade
ciedade autônoma. Só é bom cristão do batismo, não há duas categorias civil, sejam elas autônomas ou do po-
quem é também bom cidadão. Pas- de cristãos – clero e leigos, mas um der público. Para isso, o planejamento
sados 50 anos da renovação conci- único gênero – os batizados, em uma participativo é um instrumento va-
liar, é oportuno perguntar como an- Igreja toda ela ministerial. Os minis- lioso, permitindo a participação dos
da a caminhada do laicato, na Igreja tros ordenados são membros do Povo leigos e leigas em uma pastoral or-
e na sociedade. de Deus, que presidem a Igreja, mas gânica e de conjunto. [...]
não a comandam; ao contrário, são
Virando a página ministérios a serviço dos leigos e lei- Vaticano II:
O Concílio Vaticano II, sem romper gas. Como diz o Vaticano II, há uma batalha perdida
com a Tradição, fez uma profunda radical igualdade em dignidade de ou esperança
reforma da Igreja, superando o po- todos os ministérios na Igreja. Todos renovada?
sicionamento apologético da con- os batizados estão no mesmo nível e Há três décadas, em grande medida,
trarreforma tridentina. Foi a con- condição; a diferença é de dons e ca- a Igreja está caminhando para trás.
cretização de um desejo que vinha rismas (cf. LG, II). O Vaticano II está vivo, mas é brasa
de longe, desde o século VIII (ad ri- sob cinzas, mais resiste que avança.
mini fontes), passando por Francis- Consequentemente, segundo o Va- Aparecida e o pontificado de Francis-
co de Assis na virada do milênio e, ticano II, há uma corresponsabilida- co são um sopro capaz de acender no-
por Lutero, no limiar da era moder- de de todos em tudo na Igreja. Junta- vamente o fogo do Espírito, presen-
na. O Vaticano II deveria ter aconte- mente com o clero, os leigos e leigas te na renovação conciliar. Vaticano
cido em Trento, mas só veio a reali- são sujeitos no discernimento, nas II, uma batalha perdida ou esperan-
zar-se 500 anos depois. E, ainda as- decisões, na execução e na avaliação, ça renovada? A canonização de João
sim, para Yves Congar, a Igreja não relativos à vida da comunidade ecle- XXIII e de Paulo VI, os dois Papas do
estava preparada. Para ele, o Concílio sial como um todo. O discernimento se Concílio, assim como a de Dom Ro-
veio vinte anos antes da hora. Quem faz no diálogo e no debate; a tomada mero, sinalizam para uma esperan-
sabe, muito mais, pois passados 50 de decisões, através de assembleias, ça renovada.]
anos, alguns segmentos da Igreja ain- conselhos e equipes de coordenação;
da não o acolheram e, pior, outros a execução, pela criação de serviços de Fonte: amerindiaenlared.org
pastoral, para dentro e para fora da

[46 olutador [ MARÇo 2019

audrey dufour Mundo [ Um elo na cadeia...

Na Europa, suas picadas pode sPqeauorrveae O biólogo critica notadamente as
estragar o verão. No mundo, medidas de eliminação de mosqui-
é o animal mais mortal, ve- m o s qu i t o ? tos adotadas em Camargue, no li-
tor de parasitas e de várias toral do Mediterrâneo, que teriam
doenças, como o paludismo. À par- Vetor de doenças levado a reduzir a população de an-
te de ser um bicho ruim, será que o e parasitas, dorinhas.
mosquito tem de fato um papel na o inseto
biodiversidade? é também Mosquitos
importante polinizadores
Na biodiversidade – essa casa co- polinizador Outro papel menos conhecido do
mum tão querida do Papa Francisco de plantas e mosquito é a polinização. “Somen-
– cada organismo tem uma lugar e te a fêmea dos mosquitos se alimen-
um papel. Do menor ao maior dos significativo elo ta de sangue, e unicamente para o
animais, cada um tem sua utilidade na cadeia biológica. desenvolvimento dos ovos; normal-
na cadeia alimentar a na evolução mente os mosquitos se alimentam
do ambiente. Dizem que sobra ape- Destruir ou de néctar”, detalha Claudio Lazza-
nas um animal que não faria falta conservar? ri, do Instituto de Pesquisas Bioló-
ao mundo: o mosquito. gicas do Inseto – IRBI, da Universi-
“Os mosquitos fazem parte de uma dade de Tours.
Praga do verão, rede trófica, isto é, de um conjunto
na França, seu de animais em mútua ligação”, ex- Em estudo publicado no ano 2010,
“bzzziiiii” noturno traz a plica Jacques Blondel, ecólogo e di- na revista “Nature”, a entomologis-
perspectiva de um sono retor de pesquisas emérito no Cen- ta americana Janet McAllister con-
ruim. Pelo mundo afora, tro Nacional de Pesquisas Científi- trapõe que os mosquitos polinizam
a situação é francamente cas – CNRS, da França. “Erradicar pouco, se comparados às abelhas
catastrófica. Mais os mosquitos não deixaria de ter e mamangavas, e sobretudo plan-
de 400.000 pessoas consequências para os pássaros.” tas que não úteis ao homem. Clau-
morrem de paludismo dio Lazzari reconhece: “De fato, os
a cada ano, após uma MARÇo 2019 [ olutador]47 mosquitos polinizam flores, plan-
picada de mosquito. tas que não consumimos”.
Vetores de uma série de
enfermidades, às vezes Mesmo assim, o inseto que suga
mortais, os mosquitos sangue tem suas utilidades, mes-
parecem não ter outras mo sem negar que estas poderiam
razões para existirem... ser compensadas por outros inse-
tos, como os aracnídeos, para a ca-
Um elo da cadeia alimentar deia alimentar, ou as mamangavas
No entanto, o mosquito serve para para a polinização. Sem contar o fa-
alguma coisa. Na cadeia alimen- to de que das 3.500 espécies de mos-
tar, as larvas de mosquitos são de- quitos existentes, apenas 200 picam
voradas por peixes e batráquios, e os humanos. Então, por que supri-
os mosquitos adultos pelos pássa- mir estas?
ros, morcegos e lagartos etc. Es-
tes animais poderiam sobreviver “Nós não temos um inseticida
sem os mosquitos? A resposta não seletivo para uma única espécie
é evidente, mas todas as opiniões de mosquitos”, sublinha Jacques
estão de acordo em afirmar que Blondel. “É impossível eliminar ape-
seu desaparecimento teria conse- nas certas espécies sem destruir o
quências sobre grande quantida- ambiente”, apoia Claudio Lazzari.
de de aves e quirópteros. “E, no fundo, todas as espécies são
importantes, mesmo aquelas que
não possuem para nós uma utili-
dade direta.”

Assunto para meditação na pró-
xima noite de insônia...]

Fonte: La Croix

D OM JOAQUI M GIOVA NI MOL* Mundo [ A dimensão cruel...

Mineradoras lesam a humanidade
Riquezas das Minas Gerais, seus
minérios e tantas outras mara- poderes acima citados e já tão pou- Repudiar esse modelo
vilhas, que tão generosamen- co acreditados. Conscientemente, as Por isso mesmo, urge que as pessoas,
te nos foram dadas pelo Cria- mineradoras optam, por serem mais organizações e instituições que valo-
dor, transformaram-se em sua per- baratos, por modelos de exploração rizam a vida humana, que querem de-
dição. Minas vê, gravíssima e rapi- de minério de ferro e de outros me- fender a natureza dessa progressiva e
damente, seus rios, lagos, afluentes, tais mais danosos ao meio ambiente suicida destruição, se insurjam contra
terras agricultáveis, comunidades e e à vida humana. O lucro exorbitante, esse modelo de negócio que enriquece
suas culturas sendo dizimadas. São quase ilimitado, com pouco retorno à tão poucos, destruindo a vida de tan-
cometidos crimes contra a vida hu- sociedade por meio do poder público, tos. Do modo que se realiza, esta eco-
mana, contra o meio ambiente e con- é o único critério e preside, inconse- nomia mata, repito o Papa Francisco,
tra o direito de viver em comunidade quentemente, as decisões em relação o maior líder humanitário do mun-
e em família. aos modelos de exploração dos recur- do atual.
sos naturais.
Na Encíclica Laudato si, o Papa Fran- É inadmissível a persistência des-
cisco nos alerta para a necessidade da Por causa dessa sede insaciável e se modelo econômico de enriqueci-
urgente compreensão de que o Plane- enlouquecida por riquezas cada vez mento pela destruição. É impossível
ta agoniza e clama contra o mal que maiores, “que a traça e a ferrugem des- continuarmos aceitando que a natu-
provocamos por causa do uso irres- troem e os ladrões roubam” (Mt 6,19), reza, obra-prima de Deus, seja siste-
ponsável e do abuso dos bens que Deus concentradas sempre mais nas mãos maticamente destruída. E que milha-
nele colocou. de pouquíssimas pessoas, empresas res de trabalhadores, idosos e crian-
mantêm trabalhadores na pobreza a ças, mulheres e jovens, prevalente-
O que foi legado ao homem para que vida inteira e expostos à morte. A mi- mente os mais pobres e humildes,
prospere e tenha uma vida plena e a neração em nosso País se tornou eti- sejam diariamente expostos ao ris-
transmita às futuras gerações, a ação camente insustentável, calamitosa e co de morrer em função de uma ga-
irrefreavelmente gananciosa e crimi- de altíssimo risco para a vida humana nância deplorável.
nosa das mineradoras destrói em tão e toda a vida existente em suas áreas
pouco tempo. Vemo-nos diante da dé- de atuação. Precisamos, talvez como nunca an-
bil regulação deste setor pelo Legislati- tes, como nos convoca o Papa Francis-
vo, eivado de pessoas financiadas por A dimensão cruel e potência da- co, cujo nome tem inspiração em São
essas empresas e que são autorizadas nosa da reincidência desses crimes Francisco de Assis, “exemplo por exce-
pelo Executivo, imiscuído em múltiplos nos apontam que apenas o fato de lência pelo cuidado com o que é frágil
interesses nem sempre republicanos, não se tratarem de um contexto de e a ecologia integral, vivida com ale-
e precariamente fiscalizadas pelos ór- conflito armado é que os distingue gria e autenticidade” (Laudato si), de
gãos que existem para isso. Soma-se a de que sejam entendidos como cri- um debate que una a todos, porque o
isso um Judiciário leniente, ensimes- mes de lesa-humanidade. As práti- desafio ambiental diz respeito e tem
mado, caríssimo, insensível, preten- cas de seus infratores, afinal, se mos- impacto sobre todos nós.]
sioso e divorciado do povo brasileiro. tram sistemáticas, resultam da cla-
Foi assim em Mariana, pela Vale/Sa- reza dos riscos e danos de suas ações Fonte: Arquidiocesebh.org.br
marco, até hoje “na justiça”; é assim em covardes atos desumanos e con-
em Brumadinho, pela Vale. Não pode- tra a população civil. * Reitor da PUC Minas
mos deixar que assim continue. e Bispo auxiliar de Belo Horizonte

Não foi acidente

Não houve um acidente nessas Minas
Gerais. Houve um crime ambiental
e um homicídio coletivo. Uma ma-
tança de pessoas, animais e do meio
ambiente. Quase mataram também a
esperança, a fé, a dignidade e o amor
das pessoas que sobraram, agora ter-
rível e indescritivelmente sofridas,
mas em processo curativo, em re-
construção, soerguimento, revita-
lização e retomada de posse de sua
brava dignidade.

Como não há uma empresa mine-
radora em abstrato, as pessoas que ne-
la atuam e têm responsabilidade so-
bre esta tragédia devem ser rigorosa-
mente punidas, para que, juntamen-
te com a mineradora, não caiam em
desgraça também os que exercem os

MARÇo 2019 [ olutador]48


Click to View FlipBook Version