REVISTA
Grupo de Pesquisa Mulheres em Letras - BH (MG) - Ano 10 - 2020 - Nº 16 - ISSN: 2319-0094
Edição especial
Centenário de nascimento
CLARICE LISPECTOR sob múltiplos olhares
Publicações do Grupo ML
ADQUIRA JÁ O SEU EXEMPLAR
Valor: R$ 40,00 (remessa inclusa)
Contato: [email protected]
ÍNDICE EDITORIAL
Feliz aniversário, Clarice! p. 04 Salve Clarice!
Nádia Battella Gotlib
O Grupo de Pesquisa Mulheres em Letras
Precisamos conversar: de Clarice para Elisa p. 05 não poderia deixar de também homenagear a
Ana Beatriz Mello Santiago de Andrade inesquecível Clarice Lispector, no centenário de
seu nascimento. E decidimos fazê-lo de duas for-
Clarice Lispector: uma obra sobre conflitos na transforma- mas: com uma live, no dia 21 de novembro de
ção de sujeitos femininos p. 06 2020, e com esta edição especial de nossa pu-
Ana Carolina de Araújo Abiahy blicação periódica, ambas intituladas “Clarice Lis-
pector, sob múltiplos olhares”.
A hora da estrela: a importância da obra crepuscular de O título escolhido pretende dar conta da
Clarice Lispector p. 07 intenção de refletir sobre uma Clarice por intei-
Ana Cláudia Trigueiro ro em suas múltiplas faces: não só a escritora de
instigantes romances e contos, de potencial in-
Um sopro de vida e as pulsões clariceanas p. 08 terpretativo inesgotável, como a correspondente
Ana Patrícia Frederico Silveira e Ivanildo da Silva Santos afetuosa, e a jornalista bem humorada e provo-
cadora, entre outras.
Ressignificando o olhar sobre o mundo através da escrita Para a live, foi convidada a professora
de Clarice Lispector p. 10 Nádia Battella Gotlib, reconhecida estudiosa de
Carla Verena Miranda Barbosa Clarice, autora de livros que são referência nos
estudos clariceanos, e seis colegas do Grupo Mu-
As crianças clandestinas de Clarice Lispector p. 12 lheres em Letras – Ângela Laguardia, Fátima Pe-
Cristiane de Mesquita Alves res, Iara Barroca, Imaculada Nascimento,
Kelen Benfenatti e Luciana Pimenta – , também
Tanto em Clarice quanto em Júlia: as experiências do viver estudiosas da escritora.
das mulheres (1896-1960) p. 13 Nesta especialíssima edição – resultado
Gabrielle Carla Mondêgo Pacheco Pinto primoroso do trabalho da Todavoz Editora –, te-
mos o grande prazer de apresentar vinte inspira-
O sorriso da Pequena Flor p. 15 das leituras de colegas de diferentes instituições
Geovanny Luz dos Anjos Santos do país, inclusive um texto da professora Nádia
Gotlib, que contribuem, sem sombra de dúvida,
Leves traços e breves contornos em Clarice Lispector e Inês para nos dar mais vontade de reler os escritos de
Pedrosa: aproximações, de Ângela Maria Rodrigues Laguar- Clarice Lispector!
dia p. 16
Iara C.S. Barroca Constância Lima Duarte
Crônica para os impasses num conto sobre o amor p. 18 EXPEDIENTE
Imaculada Nascimento
(ISSN 2319-0094)
Além do tempo-espaço: Clarice Lispector p. 20 Revista Mulheres em Letras, publicação do Grupo
Jessica Ziegler de Andrade Mulheres em Letras, cadastrado no CNPq e FALE/UFMG.
Coordenadora: Constância Lima Duarte.
A cada palavra, Clarice p. 22 Editora responsável:
Kayto Luiz Figueiredo Maria de Fátima Moreira Peres (Reg. MG 03731JP).
Colaboraram nesta edição: Constância Lima Duarte, Iara
Diário da escrita: cartas de Clarice p. 24 Barroca, Imaculada Nascimento, Kelen Benfenatti Paiva, Lai-
Kelen Benfenatti Paiva le Ribeiro, Luciana Pimenta, Maria do Socorro Vieira Coelho.
Revisão:
Desejo que não passa: sexualidade e velhice nos contos de Imaculada Nascimento, Maria do Socorro Vieira Coelho.
A via crucis do corpo p. 26 Site: www.mulheresletras.com.br
e-mail: [email protected]
Lívia Verena Cunha do Rosário Facebook: www.facebook.com/mulheresemletras
Produção editorial: Todavoz Editora
O êxtase da noite: o estranho erótico em “Onde estivestes Site: todavozeditora.com.br
de noite?” Clarice Lispector. p. 28 e-mail: [email protected]
Luciana Borges
A descoberta do mundo, de corpo inteiro, para minha mãe:
que en-cantou o meu brincar p. 30
Luciana Pimenta
O calendário de Clarice p. 33
Ozana Aparecida do Sacramento
Um olhar para a crônica de Clarice Lispector p. 35
Rodrigo Molon de Sousa
Um diálogo a três: da mulher, para a mulher e sobre a
mulher p. 37
Rubiani Boldrini da Silva dos Santos
Mulheres em Letras - n.16 - Nov. 2020 3
COM A PALAVRA Foto: arquivo particular de Nádia Gotlib
Feliz aniversário, Clarice!
Nádia Battella Gotlib1
10 de dezembro de 2020.
Nessa data Clarice Lispector completaria 100 anos de idade.
Ela se foi, mas nos deixou legado surpreendente, em quantidade e
qualidade. Escreveu não só contos, romances, crônicas, literatura
infantil, páginas femininas – cerca de 450! – , cartas para familiares,
amigos, jornalistas, escritores, editores, tradutores, como também,
na condição de entrevistadora, deixou registradas em revistas e jor-
nais essas “conversas” com artistas, intelectuais e outras pessoas do
seu tempo.
Também escreveu alguns artigos, como aluna do curso de
Direito e como jornalista, já no início dos anos 1940. Mais tarde,
escreveria mais um artigo sobre tradução. Lembre-se que Clarice tra-
duziu várias obras ficcionais e não ficcionais, sobre temas variados.
Escreveu também uma única peça de teatro.
E uma única conferência, aliás, muito interessante, em que
discorre sobre o conceito de vanguarda, faz uma seleção de alguns
bons textos de poetas brasileiros de sua preferência e propõe o que,
na sua opinião, seria uma obra de vanguarda: aquela que tem a
capacidade de nos “guiar” Mas para onde?
Eis Clarice concluindo: para algum lugar que não se sabe bem qual seria... Ou seja, literatura de
vanguarda seria a boa literatura, que nos desterritorializa no sentido de nos levar para lugares outros,
nos desautomatizando do que é estático, instigando o leitor para a mudança libertadora em campos
inusitados do imaginário...
Pois o que ali se anuncia nessa conferência, sem menções teóricas nem metodológicas, não seria
uma leitura da sua própria literatura? Uma autocrítica sem o selo da própria consciência desse fazer
crítico? Ou, quem sabe, até com tal consciência pensante, ainda que não explicitada, sobre o que ela
mesma faz?
Pois Clarice Lispector cultiva uma linguagem pautada pelo movimento, pela “procura”. Segundo
palavras da própria escritora, o que ela quer é “a procura da coisa”. Daí seu empenho em desenhar re-
gulares e sucessivos recomeços, em que segue o percurso de uma construção de liberdade, enfrentando
obstáculos, pois “o horror sou eu diante das coisas”, como afirma a narradora em A paixão segundo G.
H.
Personagens mulheres procuram o seu “lugar próprio” num mundo por vezes todo feito contra
elas, tal como Macabéa. Porque não é só da miséria material que suas narrativas se ocupam. Há a misé-
ria do descaso, da indiferença, da ignorância, da insensibilidade, da truculência machista.
E, nessa procura, a escritora segue seu caminho, sem se considerar nem “profissional” nem
“intelectual”, para dessa forma assegurar sua liberdade de ação. No entanto, sem aderir a sistemas e
a associações organizadas de militância, a escritora executa, através e pela linguagem, o desmonte de
sistemas cristalizados e de pensamentos autoritários.
Inaugura, assim, um leque de probabilidades de energia e de forças vitais calcadas no respeito
pelo outro e na valorização da natureza, do humano, do não humano, enfim, na valorização do “ser
vivo”.
Viva Clarice Lispector entre nós e para sempre!
1 Professora, estudiosa de Clarice, autora de livros que são referência nos estudos clariceanos.
4 Mulheres em Letras - n. 16 - Nov. 2020
ACADEMIA
Precisamos conversar: de Clarice para Elisa
Ana Beatriz Mello Santiago de Andrade1
Clarice Lispector se correspondeu com sua sa e um incessante desejo de olhar para o presente
irmã mais velha, e também escritora, Elisa Lispec- e para o futuro de Clarice as afasta. Nas cartas, po-
tor, no período em que morou na Europa, corres- de-se observar o cotidiano compartilhado e a afi-
pondência tornada pública no livro organizado por nidade maior da escritora com sua irmã: o desejo
Teresa Monteiro. O volume Minhas queridas (2007) da escrita, porque ambas optaram pelo exercício
traz cartas trocadas entre Clarice, Tania e Elisa – as da escrita. Por outro lado, vale ressaltar como se
três irmãs Lispector. Quando a escritora e o marido evidenciava a distância entre a irmã mais nova e
se mudaram para a Europa, Clarice havia publicado a irmã mais velha, como em uma carta de dezem-
Perto do coração selvagem (1943) e O lustre (1946) bro de 1944, em que Clarice Lispector fala sobre
e acompanhou a repercussão de suas obras no Bra- a intimidade (ou a falta dela) que tinha com Elisa
sil à distância, através de cartas que as irmãs e seus Lispector. Reproduz-se, aqui, literalmente, uma das
amigos lhe enviavam. passagens significativas desta correspondência:
A irmã mais velha e a mais nova traçam ca-
minhos diversos em termos de vida e literatura no Querida, eu lhe peço: cuide-se extraordinaria-
que diz respeito ao exílio vivido de Clarice. Enquan- mente, pense que isso também é para mim,
to Elisa Lispector, em No exílio (2005), constrói um eu lhe peço. E pelo amor de Deus, veja nas
romance de memória, contando a vinda da família minhas palavras mais do que minhas palavras.
da Ucrânia ao Brasil, reafirmando sua identidade Aquela sua carta em que você diz que nós te-
judaica e deixando ainda como legado o livro de mos a intimidade que deveríamos ter, é certa
memórias Retratos antigos (2012), Clarice Lispec- de algum modo. E se você nas suas cartas não
tor alegoriza o fora em muitas de suas obras, mas é tão íntima comigo eu no entanto adivinho,
explicita o tema em uma crônica chamada “Escla- perdoo ao acaso e às circunstâncias o fato de
recimentos – explicação de uma vez por todas”. termos uma espécie de pudor, uma em rela-
Nessa crônica, declara que nasceu na Ucrânia, terra ção a outra. Mas leio suas cartas como se você
de seus pais, “numa aldeia chamada Tchechelnik, me dissesse tudo, e na verdade é tudo o que
que não figura no mapa de tão pequena e insig- você quer dizer. Tânia, por exemplo, se deixa
nificante” (LISPECTOR, 1999, p. 319). Quando sua mais acarinhar do que você, não é verdade? E
mãe estava grávida dela, seus pais estavam indo do que eu. (MONTEIRO, 2007, p. 65)2
para os Estados Unidos ou o Brasil, a decisão viria
depois, e pararam em Tchechelnik para ela nascer. O objetivo, então, é pensar como essas
Nesse sentido Clarice conclui: “cheguei ao Bra- cartas tão íntimas preenchem ou esvaziam, o tem-
sil com apenas dois meses de idade” (LISPECTOR, po todo, o espaço lacunar da sinceridade. Uma
2005. apud GOTLIB, 2009, p. 34), razão pela qual se carta é atravessada por filtros quando se escreve,
considerava brasileira. Na crônica, fica evidente, já e a correspondência entre Clarice e Elisa pode ser
pelo subtítulo (“explicação de uma vez por todas”) considerada não só como escrita de si, mas como
o desconforto em falar sobre suas origens. Nem um documento biográfico para se conhecer a in-
mesmo esse olhar nostálgico para o passado de Eli- terlocução intelectual e familiar estabelecida por
Clarice Lispector nos seus textos da intimidade.
Referências:
GOTLIB, Nádia Battella. Clarice fotobiografia. 2. ed. São Paulo: Imprensa Oficial do Estado de São Paulo, 2009.
LISPECTOR, Clarice. A descoberta do mundo. Rio de Janeiro: Rocco, 1999.
MONTEIRO, Teresa. Minhas queridas. Rio de Janeiro: Rocco, 2007.
1 Graduada em Letras pela UFSC.
2 Carta de Clarice para Elisa Lispector em dezembro de 1944.
Mulheres em Letras - n. 16 - Nov. 2020 5
Clarice Lispector: uma obra sobre conflitos
na transformação de sujeitos femininos
Ana Carolina de Araújo Abiahy1
A obra de uma autora consagrada como que nos detivemos. Da mesma forma, analisamos
Clarice Lispector, e que conseguiu alcançar certa
popularidade mesmo em um país de poucos leito- o papel que a ideologia dominante desempenhou
res, comporta diversas abordagens e leituras. Nos-
sa contribuição em diversas análises, especialmen- para a formação do imaginário feminino.
te dos contos, é a de indicar um percurso temático
e a utilização de técnicas literárias que reforçam o No percurso, a teoria e a crítica feminista
caráter social da obra clariceana. É o que espera-
mos fazer neste espaço exíguo, mas nessa home- se impuseram como eixo principal, visto que a pre-
nagem tão merecida.
Nossas reflexões tomam por base o apren- ocupação era analisar os conflitos das personagens
dizado durante a dissertação, centrada nos contos
“A fuga”, de 1941, “A imitação da rosa” e “Amor”, provocados pela ideologia patriarcal. Conforme Lú-
ambos escritos na década de 1950. Detivemos-nos,
na construção das protagonistas Elvira, Laura e Ana cia Helena, Lispector toma “a figuração do femini-
que retratam mulheres dedicadas ao universo do-
méstico, no perfil idealizado pela ideologia patriar- no como mote insistente para investigar não só a
cal da época. Essas personagens vivenciam confli-
tos que problematizam esse perfil, que colocou a singular emergência da mulher na sociedade, mar-
maternidade e o casamento como obrigatórios. As
narrativas expressam angústias de brasileiras edu- cada por enorme repressão, mas, principalmente,
cadas sob o estigma da idealização da esposa, mãe
e dona-de-casa que, na época em que os contos para recolocar a questão da mulher e a da inscrição
foram produzidos, sofria alterações. Assim, perce-
bemos que as narrativas de Lispector estabelecem do sujeito na história” (1997, p. 27).
vínculos entre a literatura e as tensões sócio-histó- O conto “A fuga” mostra uma personagem
ricas. feminina que se resigna ao fracasso em sua luta
Considerando o que Candido (1985) apon- contra a insatisfação de uma relação nos moldes
ta como caminho, tentamos “averiguar como a do patriarcado: “Sim, doze anos pesam como qui-
realidade social se transforma em componente de los de chumbo” (LISPECTOR, 1999, p. 73). As ou-
uma estrutura literária, a ponto dela [sic] ser estu- tras narrativas, escritas no momento em que as
dada em si mesma, e como só o conhecimento des- transformações no papel da mulher começam a
ta estrutura permite compreender a função que a ser mais intensas, mostram dificuldade maior de
obra exerce” (1985, p. 2). É o que visualizamos em acomodação à passividade. A resistência de Laura
Lispector, que utilizou as ferramentas literárias que se dá pela negação de partilhar da lógica racional.
se afirmavam na época, as quais apontam para o Na “loucura”, ela rompe com o estigma da infe-
fluxo da consciência, a descontinuidade entre tem- rioridade e fica “com a serenidade do vaga-lume
po e espaço e a mudança no foco narrativo, para que tem luz” (LISPECTOR, 1998, p. 53). Já Ana, com
representar preocupações dos sujeitos em deter- mais autoconfiança e após sua experiência com a
minado momento histórico. A função que as técni- sensorialidade da natureza, demonstra que é pos-
cas narrativas desempenham para contar a história sível acreditar em uma outra forma de viver: “Ao
desses sujeitos femininos em conflito foi algo em redor havia uma vida lenta, insistente” (LISPECTOR,
1998, p. 28). Os três contos são exemplos de uma
temática e técnicas trabalhadas pela autora desde
o seu primeiro romance.
Lispector colaborou para a representação
crítica daquelas dedicadas ao universo doméstico,
abaladas quando ocorre maior inserção feminina
no mercado de trabalho, ocasionando mudança
nos valores e na imagem esperada do sujeito mu-
lher. Grande parte das análises sobre Lispector so-
mente enxergam que ela trata do social em A hora
da estrela. Para nós, as narrativas de Lispector ins-
crevem questões fundamentais para a superação
de modelos discriminatórios.
1 É jornalista e Mestre em Letras pela UFPB, onde já foi docente. Atualmente trabalha no Instituto Federal da Paraíba.
6 Mulheres em Letras - n. 16 - Nov. 2020
Referências:
CANDIDO, Antonio. Literatura e sociedade. 7ª ed. São Paulo: Ed. Nacional, 1985.
HELENA, Lúcia. Nem musa, nem medusa: itinerários da escrita em Clarice Lispector. Niterói: Eduff, 1997.
LISPECTOR, Clarice. Laços de família. 1960. Rio de Janeiro: Rocco, 1998.
__________. A bela e a fera. 1979. Rio de Janeiro: Rocco, 1999.
Imagem: Pixbay
A hora da estrela: a importância da
obra crepuscular de Clarice Lispector
Ana Cláudia Trigueiro1
Uma obra escrita quando uma grande au- profissional, moradia digna, inclusão em grupos
tora vive o crepúsculo de sua existência merece sociais que oferecessem apoio, orientações etc.
maior atenção. Quando essa autora é Clarice Lis-
pector, a experiência da leitura deve ser mais aten- O caráter de urgência, a descrença e o final
ta, porque pode comportar uma mensagem ainda abrupto da protagonista, bem poderiam estar re-
mais poderosa e surpreendente do que todas as fletindo a psique da sua criadora, e talvez seja uma
outras. O leitor estará diante de algo extraordiná- espécie de testamento literário, no qual ela ofere-
rio. De uma maneira radical, como afirma Clarisse ce seu pensamento último acerca da sociedade.
Fukelman (2017, n. p.), “de questionar a realidade Clarice partiria poucos meses depois de sua derra-
e nela intervir através da literatura”. deira história e de maneira tão trágica quanto.
O enredo de A hora da estrela parece ter Chamar a atenção para um estado de coi-
íntima relação com o momento que a autora vivia sas personificadas em uma mulher vulnerável para,
quando o escreveu. Embora seus biógrafos infor- a seguir, incumbir o leitor de uma missão impor-
mem que ela não sabia de sua doença, à época, tantíssima, este parece ter sido o desejo da autora
o inconsciente se manifesta nessa narrativa, de expresso nas angústias e nos pedidos do narrador:
modo a supor um saber prévio, que não o baseado “Cuidai dela porque meu poder é só mostrá-la para
em uma lógica acerca da morte iminente. Clarice que vós a reconheçais na rua, andando de leve por
sentia-se muito mal. Tanto, que não conseguiu da- causa da esvoaçada magreza” (LISPECTOR, 2017, p.
tilografar. A novela foi escrita à mão em diversos 53).
fragmentos de papel, a partir dos quais a escritora,
com a ajuda de Olga Borelli, compôs a versão final. Hélène Cixous em um belíssimo ensaio
Foi publicada em 26 de outubro de 1977, pouco feito especialmente para a edição comemorativa
antes de a autora ingressar no hospital da Lagoa, dos quarenta anos de A hora da estrela, aborda a
onde faleceria em dezembro, vítima de câncer no questão de maneira poética: “Sempre sonhei com
ovário. o último texto de um grande escritor. Um texto que
seria escrito com as últimas forças, com o último
A protagonista, Macabéa, é uma moça po- alento” (CIXOUS, 2017).
bre, doente, com pouca instrução formal, nordes-
tina, órfã e aturdida com a vida e a cidade grande, Hélène se referia à expectativa do leitor
onde reside isolada, apesar de rodeada de gente. experimentado que acompanha a produção do es-
É a condição social que determina sua exclusão da critor invulgar e aprecia a edição final, de maneira
vida na metrópole. A jovem está lá, mas sem aces- ainda mais cuidadosa, tendo em vista que o autor
so aos dispositivos que poderiam salvá-la, como está no auge de sua maturidade e no apogeu de
um serviço de saúde de qualidade, qualificação sua existência, combinação que pode levar a ou-
tras: produção literária e imanência. A expectativa
se confirma nesse livro. A hora da estrela já é uma
1 Natalense de 47 anos é psicóloga e escritora.
Mulheres em Letras - n. 16 - Nov. 2020 7
obra modelar da literatura brasileira. É a mais co- com convicção desconcertante, que escrevia para
nhecida, mais vendida e também a mais traduzida si mesma e que não se importava em não ser com-
de Clarice Lispector. preendida por seus críticos. Chegou a ser acusada
É estimulante ver Clarice deixar as ques- de “ser uma escritora hermética”, como informou
tões existenciais e intimistas, o cerne de seus escri- na entrevista concedida em 1977 ao repórter Júlio
tos, para colocá-las em segundo plano nesta obra, Lerner da TV Cultura. Talvez tenha feito uma con-
em nome de um objetivo maior: descrever o so- cessão, porque o tempo estava se esgotando. Não
frimento de uma mulher que simboliza uma mul- havia mais como adiar um projeto que cabia ao es-
tidão, mulher essa diferente dela em quase tudo. critor, com o seu poder, apresentar à sociedade.
Clarice era a ousadia em pessoa. Antes, afirmava,
Referências:
CIXOUS, Hélène. Extrema fidelidade. In: LISPECTTOR, Clarice. A hora da estrela: edição com manuscritos e ensaios inéditos. Rio
de Janeiro: Rocco, 2017.
FUKELMAN, Clarisse. Escreves estrelas (ora, direis). In: LISPECTOR, Clarice. A hora da estrela: edição com manuscritos e ensaios
inéditos. Rio de Janeiro: Rocco, 2017.
LISPECTOR, Clarice. A hora da estrela: edição com manuscritos e ensaios inéditos. Rio de Janeiro: Rocco, 2017.
LISPECTOR, Clarice. Panorama com Clarice Lispector. Entrevista concedida a Júlio Lerner. TV Cultura, 1977. Disponível em:
https://tvcultura.com.br/videos/5101_panorama-com-clarice-lispector.html Acesso em: 14 out. 2020.
Ilustração: Comfreak por Pixabay Um sopro de vida e as pulsões clariceanas
Ana Patrícia Frederico Silveira1
Ivanildo da Silva Santos
Um sopro de vida trata do desejo ou da de tantos outros leitores da obra, embora Clarice
pulsão condutores dos personagens que compõem anuncie: “[...] eu escrevo para nada e para nin-
a obra O autor e Ângela Pralini que se complemen- guém. Se alguém me ler será por conta própria e
tam e sobre muitos temas refletem e escrevem, autorrisco. Eu não faço literatura: eu apenas vivo
apresentando visões dicotômicas e bastante filo- ao correr do tempo”. (LISPECTOR, 19992 , p. 16).
sóficas, constituintes de cada personagem do re- Ao falarem de si mesmos, os personagens
ferido romance. Esses personagens são extensões discutem sobre a condição que carregam e o que
impulsiona suas vidas: o oficio de escrever, de ser
escritor(a), mesmo diante de uma narrativa sem
uma ação em movimento, visto que em Um sopro
de vida o que temos é o fragmento da memória
expressa entre O autor e Ângela que estabelecem
entre si um “embate” em busca do autoconheci-
mento, a partir da premissa de que o ato de escre-
ver provoca a reflexão sobre aquilo que o constitui
ou o que rodeia: o sujeito enveredado no vazio, no
qual mergulha, em parceria com o imprevisível, o
desconhecido, e a escrita fala, sem o saber, com o
sangue atribuído ao desejo de estarem vivos e de
morrerem ao mesmo “instante-já”.
Teremos, pois, de reconhecer a inquie-
1 Doutora em Letras pela UFPB: professora do IFSP.
2 A edição utilizada nesta análise foi publicada em 1999, pela Editora Rocco, mas a sua primeira edição ocorreu no ano de
1978, pela Editora Nova Fronteira, sendo Um sopro de vida uma obra póstuma.
8 Mulheres em Letras - n. 16 - Nov. 2020
tação que a pulsão de morte conduz ao sujeito, Pontalis (2016), a pulsão de morte3 “se contrapõe
desprendendo-o de tudo o que é vivo, esvaziando- às pulsões de vida e que tendem para a redução
-se no mundo inorgânico. No caso de Ângela: das completa das tensões, isto é, tendem a recondu-
palavras, e, assim, a escrita exaure seu espírito ao zir o ser vivo ao estado inorgânico” (LAPLANCHE;
Nada, ao abandono da razão, atropelando o lógico PONTALIS, 2016, p. 407), quando se alcança a ple-
e inquietante viver, entregando-se ao vazio, onde nitude, conforme pulsão da personagem, que não
ela se encontra em plenitude (“neste vazio é que deve ser confundida com a autodestruição da fi-
existo intuitivamente, mas é um vazio terrivelmen- gura exterior, mas com “o livre cavalgar” oferecido
te perigoso: dele arranco sangue”. (LISPECTOR, pela escrita que a liberta do peso do corpo e das
1999, p. 15). Logo, o ato de escrever colabora com agruras da vida. Para ilustrar esta afirmativa, evo-
a cura do escritor e do leitor acerca do assunto ex- quemos Clarice, de onde o sangue pulsa a urgência
posto, refletido e transportado da inconsciência da vida:
para a consciência. Nas palavras dela:
Vida não tem adjetivo. É uma mistura em cadi-
Tudo o que aqui escrevo é forjado no meu nho estranho, mas que me dá em última análi-
silêncio e na penumbra. Vejo pouco, ouço se, em respirar. E às vezes arfar. E às vezes mal
quase nada. Mergulho enfim em mim até o poder respirar. É. Mas às vezes há também o
nascedouro do espírito que me habita. Minha profundo hausto de ar que até atinge o fino
nascente é obscura. Estou escrevendo porque frio do espírito, preso ao corpo por enquanto
não sei o que fazer de mim. Quer dizer: não (LISPECTOR, 1999, p. 19).
seio que fazer com meu espírito. (LISPECTOR,
1999, p. 17) Reflitamos sobre o ser e o existir imbrica-
dos pelo processo criativo da escrita e de si mes-
Ora, para onde se dirigiria “o mergulho mo como espelhos do “estar no mundo”, como sua
enfim em mim”? Com essas palavras, Ângela atri- principal pulsão que se dispõe a recomeços moti-
bui aos signos o “nascedouro do espírito que me vados pela ideia do eterno retorno. Como ilustra
habita”, a penumbra enigmática do eu, uma vez Blanchot (1987, p. 243), ao "aquém vazio, em que
que a escrita ultrapassa a matéria corporal. Eis o o fim tem peso de recomeço", que não se susten-
movimento contraditório das pulsões, mas tam- tam sem começo e sem fim, mas na renovação po-
bém fundamental o desinvestimento absoluto; isto tencializada pelo “sopro de vida”, cientes de que o
é, a escrita é a “procura de íntima veracidade de desinvestimento de si provoca a taquicardia a cada
vida” (LISPECTOR, 1999, p. 17). Para Laplanche e palavra escrita pulsante.
Referências:
BLANCHOT, M. O espaço literário. Rio de Janeiro: Rocco, 1987.
FERREIRA. Nádia P. A teoria do amor na psicanálise. Rio de Janeiro. Jorge Zahar. 2004.
FREUD, S. Além do princípio do prazer, psicologia de grupo e outros trabalhos (1920-1922). Direção-geral da tradução de Jayme
Salomão. Rio de Janeiro: Imago, 1977. p. 12-85. (Edição standard brasileira das obras completas de Sigmund Freud, 18).
LAPLANCHE & PONTALIS. Vocabulário da psicanálise. São Paulo. Martins Fontes. 2016.
LISPECTOR, Clarice. Um sopro de vida. São Paulo: Editora Rocco, 1999.
3 Na mitologia grega há uma relação intima entre amor e morte. Eros, deus do amor, Tanatos, deus da morte. Certa vez,
embriagado, Eros adormeceu numa caverna, e suas flechas se espalharam e se misturaram com as flechas da morte, carregando,
assim, as flechas de amor e morte. A partir desse mito, Freud descreve dois instintos humanos antagônicos: a pulsão de vida,
Eros, tende a evocar a preservação da vida conservando a energia que sustenta a existência do indivíduo, evitando o desprazer.
Em Além do princípio do prazer (1920/1977), Freud postula que “o objetivo de toda a vida é a morte”, isto é, a pulsão de morte é
autodestrutiva e se volta para o mundo exterior pela agressividade. Contudo, Tanatos é uma força interna inerente ao indivíduo.
Assim, “a vida conjuga o desejo de viver com o desejo de destruição” (FERREIRA, 2004, p. 31). Com isso, a pulsão de morte se
exterioriza com a destruição da matéria criadora priorizando a volta a um estado anterior, ou inorgânico. A potência criadora
(pulsão de morte) é “um sopro de vida”, ou seja, contendo dentro de si, também, a vida.
Mulheres em Letras - n. 16 - Nov. 2020 9
Ressignificando o olhar sobre o mundo
através da escrita de Clarice Lispector
Carla Verena Miranda Barbosa1
Não entendo. Isso é tão vasto que ultrapassa qualquer entender. Entender é sem-
pre limitado. Mas não entender pode não ter fronteiras. Sinto que sou muito mais
completa quando não entendo. Não entender, do modo como falo, é um dom.
Não entender, mas não como um simples de espírito. O bom é ser inteligente
e não entender. É uma benção estranha, como ter loucura sem ser doida. É um
desinteresse manso, é uma doçura de burrice. Só que de vez em quando vem a
inquietação: quero entender um pouco. Não demais: mas pelo menos entender
que não entendo. (LISPECTOR, 1967, p. 108)
Foto: desenho sobre foto internet
Entendemos pouco, ou quase nada, dian- em nós a curiosidade, nos fazendo ir em busca das
te do que ainda iremos aprender, reaprender ou respostas tão almejadas para o não entendimento
desaprender para aprender de novo sobre a vida, de nós mesmos, elaborando interrogações e ques-
a existência, coisas e as pessoas. E isto é magnífi- tionamentos sobre o que nos atravessa.
co, porque o não entendimento nos traz o anseio
de ir em busca daquilo que nos incomoda, nos le- Lispector também nos convida a nos per-
vando ao encontro das questões que nos movem mitir estar bem conosco quando não entendemos
como humanos, despertando em nós o desejo de sobre algo, sem carregar a culpa por isso, já que
entender sobre tudo aquilo que nos põe em dúvi- não entender é um tanto natural e inerente a nossa
da, provocando a curiosidade, a inquietação e as natureza humana, e é esta condição que nos per-
descobertas. mite interrogar as coisas, e, consequentemente, a
“descobrir” sobre elas. Isso não seria uma espécie
Clarice Lispector, em suas escrevivências, de consolo, mas, sim, de afirmação, o que não tira
nos inspira a refletir sobre estas questões, espe- de nós o desejo da busca por algo a mais.
cialmente sobre o não entendimento da vida e de
seus acontecimentos. Como diz a escritora, “Do Afinal, revelamos e materializamos nosso
que sei sou ignorante. Do que sinto não ignoro. inacabamento como seres que pensam através de
Não me entendo e ajo como se me entendesse ". querer conhecer, saber e entender. Porém, nos en-
Nesta poética do não entendimento de si mesma, caixamos na condição de inacabamento perante a
ela nos leva a pensar e a ponderar sobre aquilo que tudo que se apresenta neste vasto mundo.
raciocinamos ou não entendemos, mas que gera
Do mesmo modo, afirmamos nossa incom-
pletude, que nos possibilita alimentar a curiosida-
1 Pedagoga. Licenciada em Pedagogia pela Universidade do Estado da Bahia-UNEB.
10 Mulheres em Letras - n. 16 - Nov. 2020
de e o desejo de saber sobre tudo aquilo que pode evidencia,
nos levar para além de nossas limitações, pois a
busca pelo aprendizado revela a necessidade de [...] o bom é ser inteligente e não entender. É
ressignificar o olhar sobre o que carregamos como uma benção estranha, como ter loucura sem
verdade, nos dando a possibilidade de atribuir no- ser doida. É um desinteresse manso, é uma
vos significados ao mundo. Isso é tão real, que o doçura de burrice. Só que de vez em quando
pouco que sabemos nos motiva a ir além e a dese- vem a inquietação: quero entender um pouco.
jar descobrir mais, formular novas perguntas para Não demais: mas pelo menos entender que
entender ou não, o (não) entendível. não entendo. (LISPECTOR, 1967. p. 108)
Tal ideia corrobora a descoberta do mundo Portanto, o desejo de entender um pouco,
que Clarice apresenta e que se revela a nós de for- não muito, e de interrogar cada vez mais a nossa
ma transformadora, provocando-nos a viver ultra- existência, é satisfatório e se presta a nos propor-
passando o entendimento das coisas. Como dizia cionar profundos aprendizados. Não é em vão que
Lispector: “Renda-se, como eu me rendi. Mergu- cada tipo de conhecimento adquirido por meio da-
lhe no que você não conhece como eu mergulhei. quilo que nos inquieta, nos oferece a intensa con-
Não se preocupe em entender, viver ultrapassa quista de múltiplas experiências e possibilidades
qualquer entendimento.” Talvez, buscar entender de compartilhar aprendizados e saberes. Ao mes-
seja algo muito complexo ou não necessário e sem mo tempo, “ [...] isso é tão vasto que ultrapassa
sentido para Clarice e para muitos de nós. Buscar o qualquer entender. Entender é sempre limitado.
entendimento pode ser limitador. Manter o movi- Mas não entender pode não ter fronteiras.” (LIS-
mento dos ciclos do que não se entende pode ser PECTOR, 1967, p. 108).
mais difícil do que olhar. Talvez olhando, mergu-
lhando, reparando e aprofundando o olhar sobre o Como se pode ler, este aprendizado nos
não entendível, nos torne mais sábios e mais refle- revela que não teremos as respostas prontas para
xivos no quesito aprender. cada questão interrogada, mas alimentaremos o
desejo de criar novas perguntas que, talvez, não
Neste pensar, é perceptível que o não en- sejam respondidas nem entendidas. Afinal, é o não
tendimento é subjetivo, e, por assim ser, também entendimento que mantém viva a nossa essência.
nos fala sobre os inacabamentos que fazem parte Dele vem o desejo de conhecer um pouco, e este
de nós, que nos provocam não apenas inquieta- revelando que os desassossegos não se esgotam
ções, mas também diversos questionamentos so- em suas imediaticidades, mas de diversas formas,
bre estes incômodos. Com isso, afirmamos nossa provocam em nós a inquietação e o desejo da pro-
condição humana que enfrenta não apenas limita- cura, de beber da fonte e satisfazer a curiosidade
ções, mas também uma contundente “ignorância” sobre o mundo, querendo sempre descobrir o ne-
sobre algumas destas situações que vivenciamos. É cessário para alimentar novas dúvidas e reflexões.
isso que nos move a procurar e a satisfazer a “do-
çura de burrice” que habita em nós, como Clarice
Referências:
LISPECTOR, Clarice. A Descoberta do Mundo. Rio de Janeiro: Editora Nova Fronteira, 1967, p. 108.
Mulheres em Letras - n. 16 - Nov. 2020 11
As crianças clandestinas de Clarice Lispector Foto: Fátima Peres
Cristiane de Mesquita Alves1
As personagens infantis criadas por Clari- ga e foi às comemorações.
ce Lispector apresentam um caráter de aprofun- “Tentação”, não vale salvar a menininha
damento introspectivo e inacabado tanto quanto
as demais alicerçadas pela escrita intensa e exis- dos ruivos cabelos infernais. A pulsação exterio-
tencialista da autora ucrano-brasílica, sobretudo rizada da criança em ter a companhia e posse do
as que protagonizam o livro de contos: Felicidade basset só a impediu porque ele lhe demonstrou
Clandestina. claramente a rejeição. Ofélia de “A legião estran-
geira” foi a vingança de Clarice a Ofélia de Shakes-
As crianças descritas nessas narrativas es- peare. A de Clarice deseja matar, não se matar: “Eu
tão distantes de ser aquelas com traços angelicais, tinha a ousadia de dizer sim a [...] Ofélia, eu sabia
adocicados e seres frágeis que povoam o imaginá- que também se morre em criança sem ninguém
rio popular constituído pelos valores puritanos de perceber. [...] Já há alguns minutos eu me achava
uma sociedade cristã-patriarcal. Há uma metamor- diante de uma criança. Fizera-se a metamorfose.”
fose do mal em processo que circunda o desen- (LISPECTOR, 1998, p. 75-76), quando Ofélia mata
volvimento desses pequenos humanos. E a forma o pinto: “Oh, não se assuste muito! [...] às vezes a
como Clarice manifesta esse mal que existe, e que gente mata por amor, mas juro que um dia a gente
nasce na infância, faz com que contribua para que esquece, juro!” (LISPECTOR, 1998, p. 80).
seu texto se torne um soco no estômago, pois nes-
ses contos, o leitor encontra também “―ataques As crianças de Clarice são assustadoras e
sádicos de uma consciência desconfiada da própria desafiadoras nesses contos. O que dizer de Sofia,
veracidade de sua narração.” (ROSENBAUM, 2006, então? A pré-adolescente que revisita suas memó-
p. 23), e não está preparado, de imediato, a acei- rias de adulta. Uma anti-heroína clariceana infan-
tar,que o mal se manifesta desde a infância. tojuvenil que, a todo momento, ficava esnobando
e testando o professor em Os desastres de Sofia. As
Nessa perspectiva, não passam por uma meninas são analisadas psicologicamente por Cla-
leitura despercebida, a inveja, a maldade e o sadis- rice em detalhes, mas é interessante que há mui-
mo de uma menina gorda, que parece sentir ale- tas hesitações e ausências de dados nas narrativas,
gria em ver uma magra andar várias vezes por cau- como em “Come, meu filho” ou “Menino a bico
sa de um livro que ela poderia ter, logo no primeiro de pena”. Sobre esse ponto de vista, pode-se sin-
dia em que foi à casa da outra, buscá-lo. Castigar tetizar a justificativa pela própria Clarice: “Não sei
a suposta rival – seria uma necessidade prazerosa, como desenhar o menino. [...]. Um dia o domes-
já que ela “talento tinha para a crueldade. Ela toda ticaremos em humano, e poderemos desenhá-lo.
era pura vingança, chupando balas com barulho.” Pois assim fizemos conosco e com Deus. O próprio
(LISPECTOR, 1998, p. 9). menino ajudará sua domestificação: ele é esforça-
do e coopera.” (LISPECTOR, 1998, p. 136-137).
Em “Restos de carnaval”, há uma narrado-
ra-adulta rememorando um dos carnavais passa- Logo, diante da breve revisitação a Feli-
dos em que ela, em seu egoísmo, não queria com- cidade Clandestina, no que se refere à figura da
preender que a família não poderia participar dos criança, constata-se que ela representa o que Ro-
festejos, assim como ela também não, se fosse boa senbaum (2006, p. 51) chamaria de “diabólica ino-
e sensata, devido a mãe se encontrar doente. Mas, cência”, o que corrobora esta análise ao atribuir o
a vontade de se divertir, sem impor a enfermidade adjetivo clandestinas a essas crianças clariceanas
da mãe em primeiro plano, foi mais forte que ela. à margem do estereótipo social inventado para a
Fantasiou-se com os restos da fantasia de uma ami- infância.
1 Doutora em Comunicação, Linguagens em Cultura pelo PPGCLC- UNAMA/Professora de Literatura do UEPA.
12 Mulheres em Letras - n. 16 - Nov. 2020
Referências
LISPECTOR, Clarice. Felicidade Clandestina. Rio de Janeiro: Rocco, 1998.
ROSENBAUM, Yudith. Metamorfoses do mal: uma leitura de Clarice Lispector. São Paulo: Edusp, 2006.
Tanto em Clarice quanto em Júlia: as experiências
do viver das mulheres (1896-1960)
Gabrielle Carla Mondêgo Pacheco Pinto1
Clarice Lispector (1920-1977) e a família mesma forma, Júlia, em Livro das Noivas (1896),
fixaram residência no Rio de Janeiro em janeiro de apresenta um manual para as mulheres, com dicas
1935, meses após Júlia Lopes de Almeida (1862- /pistas para um bom casamento.
1934) falecer na mesma cidade. Entre Júlia, a es- O texto propõe-se à observância da escri-
critora mais lida da Primeira República, e Clarice, ta de Clarice e Júlia, entendendo a literatura como
uma das figuras mais populares e premiadas na Li- fonte fecunda e dimensão educativa do impresso.
teratura Brasileira, há semelhanças, a exemplo da Chartier (2002) ajuda a compreender como as re-
extensa produção bibliográfica, mesmo Júlia não presentações coletivas podem exprimir um deter-
tendo ocupado uma cadeira2 na Academia Brasilei- minado momento histórico, e o cruzamento de
ra de Letras. fontes em Burke (2011) esclarece como essas fon-
Outro ponto que as aproxima é a atuação tes podem ser questionadas.
na imprensa. Júlia Lopes teve ampla participação Os impressos eleitos para este texto – Li-
em diversos periódicos3, alguns de destaque na im- vro das noivas (1896) e a coluna “Correio Femini-
prensa nacional, como O Paiz (1884-1930). Clarice no4 ” do periódico Correio da Manhã (1960) – são
Lispector iniciou carreira na imprensa, colaboran- fontes privilegiadas para a abordagem de temas
do com o jornal A Noite (1911-1964) e, anos mais que correspondem ao devir das mulheres. Embo-
tarde, com o Correio da Manhã (1901-1964), em ra trate-se de períodos históricos culturalmente
evidência neste trabalho. distintos, tem-se por finalidade apresentar seme-
Embora a obra de Clarice seja marcada lhanças dos discursos de Clarice e Júlia, escritas
pela introspecção (GOTLIB, 1995; AMARAL, 2017), marcadamente femininas para as mulheres de seu
este texto se interessa por sua produção periódica, tempo. O quadro a seguir apresenta os textos sele-
quando problematiza o cotidiano feminino, ofere-
cendo dicas/orientações para a vida conjugal. Da cionados:
Livro das Noivas (1896) Correio Feminino – “Feira de utilidades” * Fonte: quadro elaborado
Saber ser pobre A colaboração no lar/ Dirigir um lar pela autora.
Carta a uma noiva Os noivados
Ser mãe Diferentes concepções de maternidade
Educação Eduque seus filhos
Concessões para a felicidade Receita de casamento
A poesia da vida Felicidade conjugal
1 Professora de Língua Inglesa da Prefeitura da Cidade do Rio de Janeiro. Doutoranda do Programa de Pós-graduação em Edu-
cação da UERJ e integrante do GRUPEEL.
2 Mesmo com participação ativa nas reuniões para a fundação da ABL, Júlia Lopes não recebera o convite. É Filinto de Almeida
(1857-1945), seu marido, o convidado a ocupar a cadeira de número 3. (FANINI, 2016); o ano da morte de Clarice marca a história
da ABL com a entrada de Rachel de Queiroz, em novembro de 1977.
3 São mais de 20 periódicos nacionais, além da imprensa internacional, como indica a historiografia.
4 Clarice assinou Helen Palmer, um dos seus três pseudônimos femininos - Teresa Quadros, Helen Palmer e Ilka Soares. (LISPEC-
TOR, 2006).
Mulheres em Letras - n. 16 - Nov. 2020 13
Os textos em Livro das Noivas abordam o cotidiano feminino da Imagem: Martina Bulková
época – o casamento, a casa, os filhos, quando a educação das mulheres
estava intimamente atrelada à sua condição de “primeira educadora
dos filhos”. Os argumentos favorecem a educação feminina, res-
saltando a renúncia e o cuidado incessante como características
naturais das mães. Em Correio Feminino, a posição de guardiã
do núcleo familiar é destacada. A dona de casa precisa
“saber economizar” e viver com as adversidades
financeiras do marido; manter a limpeza e a ordem;
e zelar pela educação dos filhos.
Observado sob três instâncias – noivado,
acordos e “felicidade conjugal”, o casamento é
evidenciado. Nesse contexto, Clarice ressalta a
importância de se aguardar o “tempo recomen-
dado” para o casamento, já que há requisitos a
se cumprir, ao passo que Júlia propõe cautela
com os próprios comportamentos perante o
noivo antes do casamento, a fim de se evitar
infortúnios.
O casamento se materializa na combina-
ção entre sacrifício e otimismo da mulher, nas
concessões que a esposa está disposta fazer, no
recolhimento de sua intelectualidade. A felicidade
do casal está associada à compatibilidade e ao
desejo mútuo de sucesso. A “poesia da vida”
deposita no amor conjugal a solução para o
enfrentamento de quaisquer adversidades.
Este breve estudo observou as apro-
ximações entre a escrita de Clarice Lispector
e Júlia Lopes de Almeida para as mulheres.
Ressalte-se o caráter instrutivo e o aconse-
lhamento propostos pelas escritoras, no
que tange ao cotidiano feminino e aos
deveres morais com o casamento, a
casa e a educação dos filhos, os quais
cabiam às mulheres.
Referências
ALMEIDA, Júlia Lopes de. Livro das Noivas. 1ª edição. Rio de Janeiro, RJ: [s.n.]. 1896.
AMARAL, Emilia. Para amar Clarice: como descobrir e apreciar os aspectos mais inovadores de sua obra. Barueri (SP): Faro Edi-
torial, 2017.
BURKE, Peter (Org.). Tradução de Magda Lopes. A escrita da história; novas perspectivas. São Paulo: Editora UNESP, 2011.
CHARTIER, Roger. A história cultural entre práticas e representações. Trad. de Maria Manuela Galhardo - 2ª ed. Lisboa: Difusão
Editora, 2002.
FANINI, Michele Asmar. A (in)visibilidade de um legado: seleta de textos dramatúrgicos inéditos de Júlia Lopes de Almeida. São
Paulo: Intermeios; Fapesp, 2016.
GOTLIB, Nádia Battella. Clarice – uma vida que se conta. São Paulo: Ática, 1995.
LISPECTOR, Clarice. Correio feminino; organização de Maria Aparecida Nunes. Rio de Janeiro: Rocco, 2006.
Fontes Documentais
Correio da Manhã (RJ) -1901-1964, ano 54, ed.20492, 15 de janeiro de 1960; ed.20502, 27 de janeiro de 1960; ed.20516, 12
de fevereiro de 1960; ed.20520, 17 de fevereiro de 1960; ed.20526, 24 de fevereiro de 1960; ed.20536, 9 de março de 1960;
ed.20573, 22 de abril de 1960.
14 Mulheres em Letras - n. 16 - Nov. 2020
O sorriso da Pequena Flor
Geovanny Luz dos Anjos Santos1
Clarice Lispector foi uma das escritoras também, uma relação que se constrói pela polari-
mais importantes da Literatura Brasileira. Ficou co- zação dos personagens: Marcel Pretre é homem,
nhecida por majoritariamente retratar o cotidiano branco, europeu, enquanto Pequena flor é mulher,
de mulheres burguesas. Desde seu primeiro livro negra, africana. Não há entre eles qualquer pon-
publicado, seu estilo causou surpresa na comu- to de semelhança, além da humanidade, que, de
nidade literária do país. Apesar de sua obra não certa forma, também é anulada pelo explorador.
ser reduzida a essa temática, os críticos da prosa Dessa forma, cria-se uma imagem da alteridade
clariciana deram mais foco a uma análise do eu e demarcada por diferenças étnicas e de gênero, o
do fluxo de consciência, relacionada geralmente, a que corrobora a leitura de que o conto é um em-
uma leitura que se propunha a investigar os aspec- bate sobre opressor e oprimido. A partir desses
tos psicológicos e existencialistas. Na tentativa de encontros, as epifanias claricianas se constroem.
percorrer um caminho não tão explorado na obra Quase imperceptivelmente, a obra da escritora é
de Lispector, este artigo busca analisar o conto “A tecida por uma violência delicada. Afinal, epifanias
menor mulher do mundo” que pode lido como são quebras, embora umas sejam mais abruptas
uma literatura mais engajada e preocupada com o que outras.
social e político, entretanto, não excluindo as leitu- O desconforto de Marcel Pretre se reflete
ras a respeito da epifania clariciana. Essa narrativa em sua tentativa falha de sorrir de volta à mulher,
está presente no conjunto de contos intitulado La- que não simplesmente o desconcertou devido ao
ços de família, com publicação em 1960. sorriso, mas também por estar grávida. O choque
O conto tem um enredo simples: o perso- do homem se dá pelo fato de, enfim, reconhecer
nagem Marcel Pretre, um explorador que viaja aos aquela mulher como um ser humano e não só
interiores do Congo, na intenção de encontrar os como uma criatura selvagem. O conto tem, exa-
menores pigmeus do mundo e, nessa busca, depa- tamente nesse ponto, seu momento epifânico. A
ra-se com a menor mulher do mundo, que ele mes- epifania ocorre no momento em que o sujeito Mar-
mo apelida de “Pequena Flor”. Após esse encontro, cel Pretre reconhece como humana a pessoa que
ocorre um deslocamento temporal e físico que nos até então ele admirava com um fascínio cruel. O
revela a reação das pessoas da cidade diante da espanto do explorador francês está em perceber a
imagem da menor mulher do mundo. subjetividade da Pequena Flor.
A escolha vocabular/lexical para referir-se A grande revelação do conto, portanto,
a Marcel Pretre, “explorador”, é muito significativa, encontra-se no fato de Marcel Pretre sair do que
pois, além de denotar o sentido de desbravador, a ele considera familiar e ter uma experiência de epi-
palavra também pode ser lida como aproveitador fania quando encara a subjetividade da Pequena
ou dominador, remetendo até mesmo ao passado Flor. O elemento “estranho” que desencadeia uma
colonial da África. Em contraposição ao explorador desordem não é simplesmente encontrar um povo
Marcel, posiciona-se a menor mulher do mundo, com uma cultura diferente, mas sim ver de tão per-
cuja descrição se assemelha à de um animal. to o sorriso de um deles e, com isso, desencadear
O encontro de Marcel Pretre e a pigmeia o reconhecimento do outro: o suposto “selvagem”
se materializa como um ato de violência, visto que é humanizado.
remonta a um passado colonial e explorador. Existe
Referências:
LISPECTOR, Clarice. A menor mulher do mundo. In: Laços de família. Rio de Janeiro: Rocco: 2009, p. 68-75.
1 Graduado em letras pela UFF, Mestre em Literatura brasileira pela UFRJ e professor no ensino básico.
Mulheres em Letras - n. 16 - Nov. 2020 15
Leves traços e breves contornos em
“Clarice Lispector e Inês Pedrosa: aproximações”,
de Ângela Maria Rodrigues Laguardia
Iara C.S. Barroca1
“Sou uma pessoa que tem coração que o tom essencialmente poético constituído dessas
por vezes percebe, sou uma pessoa que pretendeu duas “almas femininas”: vozes proféticas, que ele-
pôr em palavras um mundo inteligível e um mun- gem, como epicentro, o universo das mulheres,
do impalpável. Sobretudo uma pessoa cujo cora- acompanhado de suas angústias, de seus proble-
ção bate de alegria levíssima quando consegue em mas, de sua sensibilidade espiritual.
uma frase dizer alguma coisa sobre a vida humana Ao aproximar o universo ficcional dessas
ou animal.” duas escritoras, desnuda-se, também, o estilo sin-
O desejo de pesquisar vozes femininas, gular e a riqueza ideológica, estilística e temática
em dissonantes e congruentes movimentos de de cada uma delas, inserida no símile e distante
enunciação, materializou-se na pesquisa de dou- contexto histórico, social e geocultural de duas
torado realizada por Ângela Maria Rodrigues La- vozes que se distinguem, que se separam, que se
guardia, cuja proposta basilar de pesquisa pressu- confrontam, não obstante se unem na ânsia de fa-
pôs comparar as antologias cronísticas das mais zer, no e por meio do texto, o experimento literário
expressivas mulheres, autoras de crônicas no Bra- de aproximação entre dois mundos, dois olhares e
sil e em Portugal: Clarice Lispector e Inês Pedrosa, dois estilos em harmoniosa convergência.
respectivamente. Tal comparação implicou o estu- Nos textos de “A descoberta do mundo”,
do dessa temática, priorizando duas importantes Clarice Lispector recolhe-se, em suas próprias re-
vertentes: a dos Estudos Femininos, em ambos os velações, para dar voz a uma “autorrevelação epe-
países de origem dessas escritoras, e a da análise fânica”, na qual confronta, filosoficamente, o uni-
da evolução do conceito de crônica, ao longo dos verso que descobriu ao longo de suas vivências,
tempos, enquanto expressividade e constituição constituídas nas aproximações de seus contatos
de um gênero literário. pessoais, em sua experiência familiar e em suas
Mediante a conclusão de sua pesquisa de viagens pelo mundo. São textos/crônicas que fi-
doutorado, cuja tese intitulada “Vozes femininas xam, em flashes esparsos, momentos do cotidiano,
em A descoberta do mundo, de Clarice Lispector e reações de figuras e personagens, em grande parte,
Crônica Feminina, de Inês Pedrosa”, foi defendida femininas, a sensível relação entre seres humanos
na Universidade Nova de Lisboa, em 2014, Ânge- e animais, na busca da representação de diversos
la Laguardia nos presenteia com o exemplar que questionamentos, acerca da confluência dos valo-
aqui apresento, embora sua primeira edição já te- res humanistas na concepção de posturas políticas
nha sido publicada e lançada no ano de 2017, em e sociais, numa espécie de crença na redenção do
Lisboa, através do CLEPUL – Centro de Literaturas mundo que reaviva um comprometimento cívico.
e Culturas Lusófonas e Europeias da Universidade Nas palavras de Inês Pedrosa, publicadas
de Lisboa. Com distinta sensibilidade e clara com- no Jornal de Letras, em outubro de 2013, temos:
petência, a pesquisadora e membro da Academia “Nunca me deixo contaminar pela desesperança,
Barbacenense de Letras publica o resultado da porque a História, desde a decantada Grécia An-
contraposição de duas antologias cronísticas, es- tiga, com o seu cortejo de escravos, é um relato
pecialmente ao invocar o eco plural de sensações, de barbárie repetidamente salvo pela visão e pela
percepções, sentimentos, emoções, ideias, ideais capacidade de transcendência de um vasto grupo
e atitudes que as vozes enunciativas registram sob de seres humanos – artistas, cientistas, políticos,
1 Professora Ph.D Associado I, da Universidade Federal de Viçosa na área de Línguas e Literaturas de Língua Portuguesa.
16 Mulheres em Letras - n. 16 - Nov. 2020
pensadores.” Ainda sobre o escrever, a autora nos mento que permaneceria apenas vago e sufocador.
diz: “Ainda acredito que o mundo pode melhorar à Escrever é também abençoar uma vida que não foi
vista desarmada durante o breve espaço da minha abençoada.”
vida; se não acreditasse, não teria a perseverança Ancorado em diferentes aproximações e
de escrever todas as semanas, esteja onde e como perspectivas literárias, este livro se nos abre como
estiver, feliz ou infeliz, varrida pela febre ou numa precioso espaço de registro das reflexões sobre a
ebulição de festa. Dentro de todo cronista há um gênese da escrita dessas duas célebres escritoras –
optimista furioso – a própria zanga serve de tes- vozes que se pronunciam a partir de dois mundos,
temunha a esse contrato de encantamento com o de dois estilos e de dois olhares em constante con-
mundo.” vergência, aproximados, porém, pela esperança de
Em Clarice Lispector, a palavra é bênção, humanização na palavra, pela palavra.
redenção que nos transpõe para o mundo das Nas palavras da poetisa portuguesa Ana
intuições: “Eu disse uma vez que escrever é uma Luísa Amaral, “quem escreve dá voz às palavras,
maldição. [...] Hoje repito: é uma maldição, mas quem as lê dá-lhes outra voz”. Sejamos, pois, ou-
uma maldição que salva. [...] É uma maldição por- tras vozes dos traços e dos contornos essenciais
que obriga e arrasta como um vício penoso do qual das aproximações que aqui se apresentam, ilumi-
é quase impossível se livrar, pois nada o substitui. nadas pelo olhar crítico e sensível com que Ângela
É uma salvação. Salva a alma presa, salva a pessoa Laguardia nos brinda, ao partilhar, conosco, o pri-
que se sente inútil, salva o dia que se vive e que moroso estudo das crônicas de Clarice Lispector e
nunca se entende a menos que se escreva. Escre- Inês Pedrosa: escritoras sui generis na literatura de
ver é procurar entender, é procurar reproduzir o seus países.
irreproduzível, é sentir até o último fim o senti-
Foto: arquivo da autora
Mulheres em Letras - n. 16 - Nov. 2020 17
Crônica para os impasses num conto sobre o amor
Imaculada Nascimento1
Por destino tenho que ir buscar e por destino volto com
as mãos vazias. Mas – volto com o indizível. O indizível
só me poderá ser dado através do fracasso da minha
linguagem.
Clarice Lispector
Na história Alice no país das maravilhas, a repente, “numa certa hora da tarde” que “era mais
lebre louca oferecia vinho a Alice para, em seguida, perigosa”, numa “Certa hora da tarde [em que] as
dizer que não havia vinho. “Mais uma charada” – árvores que plantara riam dela” (p.18), Ana é lan-
pensa Alice que, afinal, não se contém: “Bem que çada em outra dimensão do amor, por ela definida
vocês podiam ocupar melhor o tempo ao invés como o horror e o mal-estar, mas, que, também,
de ficar fazendo charadas que não têm resposta.” sem que ela se dê conta, como uma espécie de se-
Essa passagem me veio à cabeça no momento em dução com a qual vê, no bonde, um cego mascan-
que me sentei para escrever sobre o conto “Amor”, do chicles.
estranho, abrupto – feminino também –, no qual “Amor” é um texto flutuante que joga com
a relação de amor se encena em Laços de família a ambiguidade do sujeito do enunciado, sujeito
(1998)2. Tempo cíclico, embora simultaneamente falado pelo discurso do enunciador, arquiteto da
estagnado em algum momento, chama a atenção
aquilo que apenas é permitido entrever – o re-ve-
lado – algo que escapa, que não cede à decifração,
algo possivelmente da ordem do Real lacaniano
que deixa o leitor atordoado e, ao mesmo tempo
seduzido pela narrativa.
Bem próprio do impasse feminino que
nela habita – encurralada entre o amor dos laços
familiares e a impossibilidade de não ver a produ-
ção de efeitos de horror e mal-estar que outro tipo
de amor lhe causa, Ana percorre uma trajetória
sinuosa. Presa pelos laços ao amor fusional e, de
1 Professora de literatura, doutora em Teoria da Literatura e Literatura Comparada, mestre em Literatura Brasileira.
2 Todas as citações referem-se a essa edição.
186 Mulheres em Letras --nn..16 - Nov. 2020
perplexidade humana frente ao desconcertante e pingavam entre os fios da rede. O cego interrom-
sua proximidade com a morte: “O que havia mais pera a mastigação e avançava as mãos inseguras,
que fizesse Ana se aproximar em desconfiança? tentando inutilmente pegar o que acontecia” (p.
Alguma coisa intranquila estava sucedendo. Então 22). Todos olhavam para ela e um moleque ria.
ela viu: o cego mascava chicles... Um homem cego O mundo ruiu e “se tornara de novo um
mascava chicles.” (p. 21). mal-estar. Vários anos ruíam, as gemas amarelas
A secreta intimidade entre Ana e o cego escorriam” (p. 22). As coisas foram se acalmando.
que mascava chicles, termina por promover aque- “Mas o mal estava feito” (p. 23). A dimensão do
le curioso entrecruzamento entre afetos que só o olhar, privilegiada nesse momento epifânico, impe-
impossível permite entrever, irredutível a palavras le Ana a sair do seu ponto de cegueira pelo “olhar”
e explanações. Um momento de fading do sujeito, do homem cego: “O que chamava de crise viera
de dissipação, de escoamento, do Real: “Um cego afinal. E sua marca era o prazer intenso com que
mascando chicles mergulhara o mundo em escura olhava agora as coisas, sofrendo espantada. [...] Ela
sofreguidão. [...] E através da piedade aparecia a apaziguara tão bem a vida, cuidara tanto para que
Ana uma vida cheia de náusea doce, até a boca”. esta não explodisse!” (p. 23).
(p. 23). Desceu do bonde bem depois do seu ponto
O cego mascava goma na escuridão, sem e perambulou por uma rua desconhecida, sentan-
sofrimento e com os olhos abertos – afirma o nar- do-se em um banco onde permaneceu por muito
rador. “O movimento da mastigação fazia-o pare- tempo: “Ela adormecia dentro de si”. O tempo pa-
cer sorrir e de repente deixar de sorrir, sorrir e dei- recia infinito, o indizível não saía de dentro dela e
xar de sorrir – como se ele a tivesse insultado, Ana “Quando Ana pensou que havia crianças e homens
olhava-o” (p. 22). Zonza, sem saber por que, ela grandes com fome, a náusea subiu-lhe à garganta,
deu um grito. O motorista entendeu que alguém como se ela estivesse grávida e abandonada [...]
queria descer e freou bruscamente; o pesado saco como a repulsa que precedesse uma entrega – era
de tricô que tinha no colo foi parar no chão, os fascinante, a mulher tinha nojo, e era fascinante”
ovos se espatifaram e “Gemas amarelas e viscosas (p. 25).
Onde a fronteira? Onde o intraduzível e o
dizível? O conto de Clarice nos abandona com es-
sas questões e nos lança na perplexidade da escri-
ta, na Babel da linguagem. Em uma de suas vias
de sentido, a travessia do amor e do inferno só se
completa no parágrafo final, quando ela se anco-
ra na normalidade: “E se atravessara o amor e seu
inferno, penteava-se agora diante do espelho, por
um instante sem nenhum mundo no coração. An-
tes de se deitar, como se apagasse uma vela, so-
prou a pequena flama do dia” (p. 29).
Foto: Fátima Peres
Referência:
LISPECTOR, Clarice. Amor. In: Laços de família. Rio de Janeiro: Rocco, 1998.
MMuullhheerreesseemmLLeettrraass- -nn. .1166--NNoovv..22002200 179
Além do tempo-espaço: Clarice Lispector
Jessica Ziegler de Andrade1
Em Perto do Coração Selvagem, Joana re- lou muito de si mesma: “Eu chegara ao nada, e o
velou humildemente aceitar tudo que vinha de si. nada era vivo e úmido.” (2009, p. 60)
Desconhecia as causas e, portanto, atentava para O que fez de tão singular a Lispector, lei-
tora de Joyce, Mansfield e Hesse, a moça que es-
o risco de “pisar no vital sem saber” (1998, p. 20). colhia livros pelos títulos? O que fez de tão único
Tal qual sua personagem, Clarice tateou a própria para a literatura brasileira que hoje, por meio de
identidade. Com mãos que procuraram respostas suas obras, alcança as prateleiras mundo afora?
no escuro. Recebeu o inesperado com coragem, Clarice se despiu e mergulhou. Entregou-se a um
soube ocupar no mundo seu lugar de observado- espaço marcado por silêncios agudos e procurou
ra. Em A paixão segundo GH, possivelmente reve-
Foto: Fátima Peres
1 Poeta, escritora e advogada. Sua primeira publicação foi aos 13 anos, com o texto “Súplicas na escuridão”, premiado e
publicado em coletânea pela Biblioteca Nacional e Folha Dirigida.
2 Com base na afirmação de Clarice Lispector em entrevista, concedida em 1977, ao repórter Júlio Lerner, da TV Cultura.
3 Clarice Lispector, em seu último bilhete escrito no hospital da Lagoa, Rio de Janeiro, em 7/12/1977.
20 Mulheres em Letras - n. 16 - Nov. 2020
nele a sua dimensão: a palavra! Talvez a menina o que não posso dizer.” (GOTLIB, 2014, p. 185)
Joana, perto do coração selvagem da jovem Clari- Se não pôde dizer, tampouco buscou con-
ce, pudesse adivinhar esse mergulho como um ca-
minho necessário, concluindo que o percurso “Era solar-se. Em Nápoles, no ano de 1945, tornou a
uma alegria quase de chorar, meu Deus.” (Perto do escrever ao amigo, confessando: “Um dia desses
Coração Selvagem, 1998, p. 39) eu acordei com uma moleza de gripe e depois do
café voltei para a cama. Achei que era um bom mo-
No entanto, ao longo de suas obras, pro- mento para ler as poesias de Emily Brontë. Como
vou que o mergulho era um movimento contínuo. ela me compreende, Lúcio, tenho vontade de dizer
E a maior dificuldade, talvez, fosse entregar-se a assim. Há tanto tempo eu não lia poesia, tinha a
ele com a mesma devoção de uma primeira vez. impressão de ter entrado no céu, no ar livre. Fi-
Inaugurar-se: bebendo um pouco de mar, lam- quei até com vontade de chorar mas felizmente
bendo um pouco de vento, com as mãos lançadas não chorei porque quando choro fico consolada,
ao ar, adivinhando o instante. Ah! O instante! Em e eu não quero me consolar dela; nem de mim.”
Água Viva observou com cuidado: “Nada existe de (GOTLIB, 2014, p. 195)
mais difícil do que entregar-se ao instante. Esta di-
ficuldade é dor humana. É nossa.” (2019, p. 58) Lispector talvez compreendesse que es-
crever era, em alguma medida, habitar o escuro.
Também foi essa a dor da mulher Clarice Dessa forma, sua personagem Rodrigo S.M. de A
que confessava estar morta no hiato de suas obras . Hora da estrela, também não buscou consolação
Talvez o instante se protraísse com maior violência enquanto escritor: “Sim, minha força está na soli-
no ócio da escrita, no intervalo do contínuo mer- dão. Não tenho medo nem de chuvas tempestivas
gulho. A mãe de Pedro e Paulo, a dona de Ulisses, nem das grandes ventanias soltas, pois eu também
esposa de diplomata ou jornalista moradora do sou o escuro da noite.” (1998, p.18). Entrando no
Leme, quando não escrevia, sentia-se uma mulher céu através da poesia ou adentrando o silêncio de
deslocada no instante. Sabia que para suportar a um quartinho com uma barata, Clarice acolheu o
ilusão do Tempo era preciso criar. Criar e recriar-se. peso de sua solidão sem desviar o olhar. Sua pala-
Quem sabe por isso, tenha alertado em Água Viva: vra-dimensão foi a um só tempo e espaço, busca
“Criar de si próprio um ser é muito grave. Estou me e resgate, vazio e encontro: “Escrevo por não ter
criando. E andar na escuridão completa à procura nada a fazer no mundo: sobrei e não há lugar para
de nós mesmos é o que fazemos. Dói. Mas é dor de mim na terra dos homens.” (A Hora da Estrela,
parto: nasce uma coisa que é.” (2019, p. 55) 1998, p. 21).
Nasce uma escritora. Nasce o ícone Lispec- No conto “Os Desastres de Sofia”, Lispec-
tor que inspira gerações vindouras. Nasce a mulher tor anunciou: “As palavras me antecedem e ultra-
Clarice que, despretensiosamente, mergulhou no passam, elas me tentam e me modificam, e se não
vazio, trazendo à superfície palavras profundas. tomo cuidado será tarde demais: as coisas serão
Trazendo o mistério e a lacuna, o silêncio e a eter- ditas sem eu as ter dito.” (A Legião Estrangeira,
na busca: “o peso da palavra nunca dita, prestes 1990, p. 12). Tarde, ela estava certa! Tão tarde
quem sabe a ser dita.” Assim, em carta ao amigo quanto cem anos! Seu mergulho desafiando a fí-
Lúcio Cardoso datada de 1944, contou: “Meu livro sica, transcendeu Tempo-Espaço. Suas palavras e
se chamará O Lustre. Está terminado, só falta nele silêncios ainda ecoam vivos e úmidos entre nós.
Referências:
GOTLIB, Nádia Batella. Clarice Fotobiografia. 3ª. ed. atual. São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo, 2014.
LISPECTOR, Clarice. Água Viva. Organização e prefácio de Pedro Karp Vasquez. 1ª ed. Rio de Janeiro: Rocco, 2019.
LISPECTOR, Clarice. A Hora da Estrela. Rio de Janeiro: Rocco, 1998.
LISPECTOR, Clarice. A Legião Estrangeira. 9ª ed. São Paulo: Ática, 1990.
LISPECTOR, Clarice. A Paixão Segundo G.H. Rio de Janeiro: Rocco, 2009.
LISPECTOR, Clarice. Perto do Coração Selvagem. Rio de Janeiro: Rocco, 1998.
Mulheres em Letras - n. 16 - Nov. 2020 21
A cada palavra, Clarice
Kayto Luiz Figueiredo1
Quando instigado a escrever sobre a vida Por conseguinte, a vida, união do viver
e obra de Clarice Lispector, seu nome fez retomar com o saber é, assim como no livro, um jogo de
na mente tudo aquilo que a autora me transmite: descrições, do aqui e do agora, é o entendível e
o que seria da obra sem a vida? O que seria da vida pronunciável, são as palavras que escolhemos e o
sem a obra? Em que momento obra e vida acon- sentido com que a empregamos, a linha de trans-
tecem juntas e quando é que conseguimos captá- porte entre o que é meu e que eu quero que seja
-las? E é sobre isso que Água viva, o sétimo roman- seu. Já a obra não tem menção, é o conteúdo de
ce da autora, publicado em 1973, me fez pensar, cada palavra, o sentimento de cada música, a es-
enquanto devorava suas páginas em poucas horas. sência de cada frase, o entendimento que te passo
De início, já deixo destacado que para mim este ro- e a reação que você me transmite; é, mais do que
mance é como um compilado de tudo que Clarice tudo, o ser e o estar acoplados em uma coisa só,
já fez, de tudo que ela é e de vários biografemas2 portanto, vida e obra não são uma só, mas são am-
subconscientes da autora, que contemplam cada bas habitando um mesmo espaço de tempo atual e
palavra de uma de suas mais famosas frases “Não momentâneo, antes chamado de futuro e agora de
se preocupe em entender, viver ultrapassa qual- passado tangenciados pelo veículo da palavra.
quer entendimento”, explicitando a interdepen-
dência da vida e da obra e a necessidade de viver o Dessa forma, a personagem principal e
agora. narradora da história, uma pintora aclamada, mas
autoproclamada “não muito hábil com as pala-
Em Água viva, a vida e a obra se unem para vras”, passa por um incessante e interminável flu-
tornar o texto um compilado de sensações e descri- xo de consciência dado pela junção do sentimento
ções, da união de Clarice com a personagem provi- transpassado por suas pinturas (obra), com a utili-
da dos devaneios da autora, como o corpo sendo a zação do mecanismo das palavras (vida), tornando
vida, e o consciente sendo a alma, em prol de mos- o pensamento completo, com sentido, meio e pro-
trar a inquietação da forma mais enlouquecedora pósito, a fim de tentar capturar a todo instante, o
possível, utilizando de um jogo de palavras único, próprio instante.
para criar no leitor um conceito próprio proposto
pela narrativa: o que era, o que é (e sua efemerida- A leitura é sucinta, apesar de ser este ins-
de) e o que será. Todo esse emaranhado de ideias tante um dos mais curtos da autora, é sem dúvi-
é exposto da forma mais literal e incrível possível: das um dos mais intensos, os questionamentos
a palavra, que, por ser completa, possui sentido, baseados no conceito criado pela história são
meio e fim, mas que por ser completa, há de ser provocantes, e em alguns momentos, machucam,
compreendida e para isto, há de ser desmembra- ao refletir e ao ter junto com a personagem este
da, como comenta Nádia Battella Gotlib: “[...] nes- “brainstorming” insaciável sobre a fugacidade dos
se estágio, em que se é simplesmente, a palavra momentos e da nossa incapacidade de capturá-los,
não existe mais. Essa novela é também, tal como mesmo tendo os recursos das palavras e dos sen-
G.H., um caminho para se desvencilhar da palavra, timentos para tentar fazê-lo conquanto este senti-
do som, e permanecer no que ela chama de ‘it’- no mento gere um propósito para a vida: reter o “ins-
mais pleno silêncio”3. tante-já”, embora saibamos que não há uma forma
concreta de fazê-lo, o que nos instiga é justamente
1 Estudioso; Curso Técnico em edificações no Instituto Federal de Minas Gerais – Campus Ouro Preto; Ex-editor e Criador
de conteúdo do Jornal Panfletu’s – Mariana MG.
2 O biografema é uma estratégia biográfica de livre-produção textual, na medida em que não deriva de significado (como
a biografia), mas, enfatizando imagens, cenas, gestos, fragmentos textuais, pulsões, opera significancias.(Disponível em: www.
lume.ufrgs.br › ... › Ciências Humanas › Educação. Acesso: 02 de nov. 2020).
3 Em A Paixão Segundo GH, de Clarice Lispector publicado em 1964.
22 Mulheres em Letras - n. 16 - Nov. 2020
este desafio. história, capturar um momento específico que, de
Por fim, Clarice cita: “[...] e outra coisa: nos forma imperceptível, já passou e o incômodo ge-
rado pela perda do mesmo é o combustível para a
meus livros quero profundamente a comunicação realização primária deste mesmo ciclo, autossufi-
profunda comigo e com o leitor”. Tece muito bem ciente, infinito e enlouquecedor, mas como afirma
tudo aquilo que Água Viva é sobre uma súplica pelo Clarice no próprio romance A loucura é vizinha da
entendimento, da forma mais difícil e desgastante mais cruel sensatez..
possível, pois aos vômitos de ideias, tenta, extrain-
do o máximo dos conceitos criados no percorrer da
Referências:
LISPECTOR, Clarice. A descoberta do mundo. Rio de Janeiro: Edit. Rocco, 1999, p. 123.
LISPECTOR, Clarice. Água Viva. Rio de Janeiro: Edit. Rocco, 1998, p. 80.
BARTHES, Roland. Sade, Fourier, Loiola. São Paulo: Martins Fontes, 2005. p. 14-15.
GOTLIB, Nádia Battella. Os dois lados da mesma moeda? “Mineirinho” e “Água Viva”. São Paulo, 2009 p.4.
Mulheres em Letras - n. 16 - Nov. 2020 23
Diário da escrita: cartas de Clarice
Kelen Benfenatti Paiva1
“Acho que ele [meu trabalho] consiste na maior parte do tempo em me vencer. Em
vencer meu cansaço e minha impotência. Acho que meu trabalho de elaboração é
tão exaustivo que eu depois não tenho o ímpeto e a força da realização. [...] O que
me atrapalha é que vivo permanentemente cansada. O trabalho está desorganiza-
do, está muito ruim, muito confuso. Material eu tenho sempre e em abundância.
O que me falta é o tino da composição, quer dizer, o verdadeiro trabalho. [...] O
trabalho de compor é o pior. Eu gasto muito de minhas forças procurando formar
uma vida severa e austera, procurando me esvaziar de pequenos prazeres - só as-
sim se consegue o tom de vida que eu gostaria de ter. Mas é exaustivo também. Eu
gostaria de ter um aparelho matemático que pudesse ir marcando com absoluta
justeza o momento em que eu progredi um milímetro ou regredi outro. Minha
impressão é a de que eu trabalho no vazio, e para não cair eu me agarro num pen-
samento e para não cair desse novo pensamento eu me agarro em outro. É essa a
minha vida mental.”
(Carta de Clarice Lispector a irmã Tânia Kaufmann. Berna, 1º julho de 1946)
Ao ler uma carta direcionada a outrem, via”; cansada dos mosquitos de Nápoles, do frio
é comum nos sentirmos coparticipantes da “con- de Berna e da falta de sorrisos dos bernenses, das
versa”. É comum também acreditarmos que ali, dificuldades em Torquay, dos excessivos jantares e
nas folhas marcadas pelo afeto e intimidade, se festas em Washington, do medo de não se adap-
encontram de forma autêntica e sincera os corres- tar com a volta ao Brasil: “Por incrível que pare-
pondentes. Contudo, é preciso não esquecer que ça, tenho medo de minha futura desadaptação. Já
aquele que escreve projeta diante do outro ima- me parece sinceramente não pertencer mais a ne-
gens de si. Mas o que dizer quando quem escreve nhum lugar, tenho medo disso. Mas vamos deixar
é alguém que tem uma relação viva com a escrita o futuro ao futuro.” (LISPECTOR, 2007, p. 139). En-
e com a ficção? O que dizer quando a remetente contramos ainda Clarice pedindo que lhe enviem
assina “Clarice”? livros, revistas, jornais do Brasil e notícias sobre a
recepção de seus livros; indo a óperas e assistindo
Entre as muitas cartas escritas por Clari- a filmes e peças teatrais, realizando trabalho volun-
ce, um conjunto se apresenta de forma especial, tário na Seção de Serviço Social de Saúde da FEB,
aquele enviado às irmãs Tânia e Elisa entre os anos em assistência aos soldados brasileiros feridos em
de 1940 e 1957. A maioria das cartas foram envia- combate.
das de fora do Brasil, durante os anos que acompa-
nhou seu marido diplomata. Dessas páginas mar- Nessas cartas, mais que informações de
cadas pelo afeto e intimidade, o leitor encontra cunho biográfico, da intimidade corriqueira da
Clarice ansiosa pela “conversa escrita”, queixando- vida, das alegrias e inquietações da Clarice-mulher
-se da ausência das respostas das irmãs, sentindo em relação ao marido, à solidão, ao modo como via
falta do Brasil, da língua portuguesa, dos romances o outro, à impessoalidade dos quartos dos hotéis,
policiais, do calor, de morar em casa; cansada das à saúde física e mental, às viagens, aos compro-
banalidades do convívio social a que se via obriga- missos sociais, ao desejo de ter um rádio, à relação
da como “uma boa Senhora de diplomata” e dos com as empregadas, à maternidade, aos filhos, à
muitos banquetes que lhe davam “enxaqueca pré- “vida desenraizada” fora do Brasil, às várias mu-
1 Doutora em Literatura Brasileira pela UFMG, escritora, professora e Coord. do curso de Letras do IF Suldeste MG/SJDR.
24 Mulheres em Letras - n. 16 - Nov. 2020
danças: “Nem meu anjo da guarda sabe mais onde Essa mulher, que só aprendeu a perdoar e
moro.”(p.116), encontramos também o que aqui a se resignar e a amar, precisa pelo menos
denominamos “diário da escrita”, registros propo- uma vez tocar no ódio de que é feito o seu
sitais da Clarice-escritora. perdão. Entende-se que ninguém tem cul-
pa: ela está tentando odiar um homem cujo
Ela vai reafirmando na correspondência “único crime impunível” é não amá-la. Na
sua imagem de escritora, cujo ofício é “tão duro verdade, por mais irracional que fosse, ela
quanto quebrar pedra”, relata as dificuldades de o odiava, só que não conseguia sentir em
escrever, o sentimento de impotência diante da es- cheio o próprio ódio. Depois é que vem o
crita, o incômodo com a crítica literária. Faz ainda búfalo. Mas estou vendo que estou matan-
uma autocrítica de sua produção: do a história, contando-a desse jeito. Um
dia vocês verão. (LISPECTOR, 2007, p. 134)
Aqui tudo igual. Eu lutando com o livro, que Nas pistas deixadas propositalmente por
é horrível. Como tive coragem de publicar ela em sua correspondência, faz questão também
os outros dois? Não sei nem como me per- de registrar o título e o autor dos recortes de jor-
doar a inconveniência de escrever. Mas já nais enviados a ela por suas irmãs, fazendo uma
me baseei toda em escrever e se cortar este espécie de inventário de leituras, evidenciando
desejo, não ficará nada.” (LISPECTOR, 2007, sua consciência do valor documental da corres-
p. 93). pondência e da carta como forma de arquivamen-
to do eu: “Eu infelizmente sou um espírito cansado
Sua insatisfação se refere ao livro A cidade e ‘blasé’; pouca coisa me entusiasma, eu bebi de-
sitiada e se repete com outros como A maça no es- mais na literatura.” (p. 49)
curo: “O livro está me dando muito desgosto, acho
que fracassei. Foi um livro muito difícil de fazer, o Philippe Artières chama a atenção para o
que não é desculpa. Mas ainda vou trabalhar nele. processo de arquivamento do eu e o desejo de tes-
Se eu conseguisse dar a ele certa maciez que consi- temunhar:
go dar nos meus contos [...]”. (LISPECTOR, 2007, p.
131) O arquivamento do eu não é uma prática
neutra, é muitas vezes a única ocasião de
Em outros momentos, o relato é sobre a um indivíduo se fazer ver tal como ele se
dificuldade de escrever: “Não escrevi uma linha, o vê e tal como desejaria ser visto. Arquivar
que me perturba o repouso. Eu vivo à espera de a própria vida é simbolicamente preparar o
inspiração com uma avidez que não dá descanso. próprio processo: reunir peças necessárias
Cheguei mesmo à conclusão de que escrever é a para a própria defesa, organizá-las para re-
coisa que mais desejo no mundo, mesmo mais que futar a representação que os outros têm de
amor.” (p.6) nós. (ARTIÈRES, 1998, p. 31).
Às vezes, no meio da carta, interrompe a É isso o que Clarice faz nas cartas que es-
narrativa de sua rotina para registrar fragmentos creveu às irmãs, prepara “o próprio processo”, em
de seu processo criativo: que tenta fazer com que a Clarice-escritora não
seja suprimida pela “Boa Senhora de diplomata”.
Um dia desses tive um ódio muito forte, Talvez por isso, encontremos nessas páginas dati-
coisa que eu nunca me permiti; era mais lografadas muito mais que a rotina diária da mu-
uma necessidade de ódio. Então escrevi um lher, mãe, esposa, encontramos a escritora Clarice
conto chamado “O Búfalo”.[...] É a história escrevendo nas entrelinhas das cartas um diário
de uma mulher que vai ao Jardim Zoológico fragmentado de sua escrita.
para aprender com os bichos como odiar.
Mas é primavera e os animais estão man-
sos, mesmo o leão lambe a testa da leoa.
Referências: 25
ARTIÈRES, Philippe. Arquivar a própria vida. In: Estudos históricos. Rio de Janeiro, v.11, n. 21, 1998. p. 9-34.
LISPECTOR, Clarice. Minhas queridas. Rio de janeiro: Rocco, 2007.
Mulheres em Letras - n. 16 - Nov. 2020
Desejo que não passa: sexualidade e velhice
nos contos de A via crucis do corpo
Lívia Verena Cunha do Rosário1
Cândida Raposo e Maria Angélica são as ra idade não tem desejo ou vida sexual. Dessa for-
mulheres retratadas nos contos “Ruído de Passos” ma, a história de Cândida Raposo também rompe o
e “Mas vai chover”, respectivamente, presentes no silêncio que ronda a masturbação feminina, já que
livro A via crucis do corpo publicado em 1974. Nes- após a visita ao médico, “nessa mesma noite deu
ses dois contos, Clarice Lispector aborda dilemas um jeito e solitária satisfez-se. Mudos fogos de ar-
enfrentados por mulheres da terceira idade em re- tifícios. Depois chorou. Tinha vergonha. ” (LISPEC-
lação a sua sexualidade. A própria Clarice Lispector TOR, 1998, p. 56). Ao tratar sobre esse assunto, a
era uma mulher “idosa” para os padrões da época autora lembra o leitor que a masturbação feminina
em 1974; tinha 55 anos. não é tratada como algo natural, como é a mas-
Em “Ruído de Passos” e “Mas vai chover”, culina, pois “às mulheres falta uma cultura sexual
o corpo ainda saudável da mulher idosa é fonte positiva de conhecimento do seu próprio corpo”
de angústia em virtude do preconceito que nega (WOLF, 1992).
a sexualidade como consequência da sua idade. Laznik (2003) relaciona a renúncia das mu-
As duas idosas passam por conflitos com o próprio lheres a viver sua sexualidade na menopausa ao
corpo, que ainda deseja, mas que sofre diante da interdito de representação onipresente em nossa
impossibilidade de realização do prazer em pleni- sociedade, o de pôr em cena os amores de uma
tude com o outro. mulher depois da menopausa, e divide as mulhe-
Cândida Raposo é uma viúva de 81 anos, res idosas em “desejantes” e “renunciantes”. Vê-se
cujo “desejo de prazer não passava”, por isso ela em Cândida Raposo esse caráter “renunciante”, já
decide ir ao ginecologista para saber sobre seu que a personagem renuncia ao prazer a dois e en-
“problema”. No entanto, a Medicina há muito tem- contra na masturbação o único “remédio” para a
po já esclareceu que “é um velho preconceito con- ausência de um parceiro.
siderar que a mulher menopausada acabou. Mu- Maria Angélica, a idosa de 68 anos do con-
lher menopausada é feliz, não tem mais riscos de to “Mas vai chover”, está entre as mulheres “de-
engravidar e pode ter uma vida sexual ativíssima sejantes” de que fala Laznik (2003), pois encontra
pelo resto da vida. ” (LEONEL, 2000, p. 250). em Alexandre, de 19 anos, a possibilidade de res-
A mulher fica abalada com a afirmação do gatar “o sexo há muito abandonado”. Ao tornar-se
médico: “Mas tenho oitenta anos de idade! ” (LIS- amante de Alexandre, Maria Angélica vira motivo
PECTOR, 1998, p. 55), mas o ginecologista reitera: de piada de seus vizinhos, empregadas e amigas.
“Não importa, minha senhora. É até morrer. ” (Id., Clarice Lispector, na passagem em que
Ibid). A surpresa com que a idosa recebe a notícia conta sobre o primeiro encontro sexual de Maria
reflete o senso comum de que na velhice é hora de Angélica com o rapaz, ao dizer “Oh, meu Deus, me
abandonar a vaidade, de reprimir os desejos e de perdoe por ter que escrever isto! – Maria Angélica
dar por encerrada a vida sexual. dava gritinhos na hora do amor. E Alexandre tendo
“Na circulação da libido não há jovem nem que suportar com nojo, revolta” (LISPECTOR, 1998,
velho, o desejo não tem idade” (MESSY, 1999, p. p. 78), revela que “o mal-estar das personagens
10). Entretanto, em nossa cultura, impera o culto à atinge a narradora, que, explicitamente, o manifes-
juventude e a falsa ideia de que a mulher na tercei- ta em sua narrativa, ao ter de escrever a relação
1 Mestre em Estudos de Fronteira pela Universidade Federal do Amapá. Professora substituta do curso de Letras da Universi-
dade do Estado do Amapá. Email: [email protected]
26 Mulheres em Letras - n. 16 - Nov. 2020
entre a senhora atormentada de desejo e o jovem um forte estigma que desvaloriza a mulher mais
dela enjoado” (GOTLIB, 1995, p. 420). A persona- velha” (WOLF, 1992, p. 38).
gem da idosa não cabe no conteúdo erótico do tex- Em “Ruído de Passos” e “Mas vai chover”,
to, por isso há um tom jocoso nessa voz que narra; Clarice Lispector trata da sexualidade e expõe uma
é como se esta assumisse a condenação, prevendo face da velhice que não costuma ser discutida, es-
o olhar da sociedade sobre um romance entre uma pecialmente quando se trata do desejo feminino.
mulher mais velha e um jovem. Em ambos os contos, as mulheres precisam vencer
Pensar sobre a velhice requer pensar tam- o preconceito da idade para satisfazerem seu de-
bém a respeito do olhar, pois as dificuldades en- sejo sexual, seja de modo solitário - quando Cândi-
contradas pelos idosos para se relacionarem com da Raposo teve a coragem de expor sua angústia e
o outro, a partir da degradação do corpo, ocorrem permitiu-se “resolver-se”, ou “negociado”, quando
principalmente por causa do olhar contaminado Maria Angélica teve a coragem de crer no amor
pelo preconceito. “Quando se trata do envelheci- do jovem por ela e atirou-se a essa relação. Deste
mento do corpo feminino, há ainda mais rigor des- modo, o tema que reúne sexo e velhice feminina é
se olhar e a sexualidade da mulher velha é geral- retirado da estagnação e projetado para além dos
mente vista como inexistente ou inadequada. Há julgamentos.
Foto: pasja1000 por Pixabay
Referências:
GOTLIB, Nadia Battella. Clarice: uma vida que se conta. 2. ed. São Paulo: Ática, 1995.
LAZNIK, Marie Christine. O Complexo de Jocasta. São Paulo: Companhia de Freud, 2003.
LEONEL, Carla. Medicina: mitos e verdades. São Paulo: Editora CIP, 2000.
LISPECTOR, Clarice. A via crucis do corpo. Rio de Janeiro: Rocco, 1998.
MESSY, Jack. A pessoa idosa não existe: uma abordagem psicanalítica da velhice. 2. ed. Trad. José de Souza e Mello Werneck.
São Paulo: ALEPH, 1999.
WOLF, Naomi. O mito da beleza. Rio de Janeiro: Rocco, 1992.
Mulheres em Letras - n. 16 - Nov. 2020 27
O êxtase da noite:
o estranho erótico em “Onde estivestes de noite?”
Clarice Lispector
Luciana Borges1
Qual é o elemento primeiro? logo teve que ser dois para haver
o secreto movimento íntimo o qual jorra leite
(Clarice Lispector, Água Viva)
“O desconhecido vicia”, afirmou Fauzi te e repulsiva, mas não afasta os seguidores, pois
Arap2. O desconhecido, inacabado, a morte, a rup- “eles haviam vindo exatamente para sofrer o peri-
tura com o instituído. A citação tomada como epí- go” (p. 46), de um tipo de que será associado aos
grafe por Clarice Lispector para “Onde estivestes interditos do conhecimento, do sexo e do acesso
de noite”, conto homônimo ao livro publicado em ao que figura em alguns momentos descritos como
1974, constitui um pórtico, cuja leitura interpela sendo a verdade (p. 47).
leitores a transcender? A fabulação nos coloca em O preço de experimentar o ápice dessa
face do estranho, ou como diria Evando Nascimen- experiência impossível de ser descrita pode ser a
to ao associar essa categoria freudiana (unheimli- morte, mas as pessoas estão dispostas à finitude:
ch) aos processos narrativos claricianos, e nos colo- “os homens e mulheres não podiam resistir e que-
ca a enfrentar o inumano. No presente texto, cuja riam aproximar-se para amá-la morrendo [...]. Eles
brevidade nos impede esgotar a questão proposta, queriam amá-la de um amor estranho que vibra a
abordamos o modo como o erotismo e o estranho morte (p. 47)”. A sensualidade da cerimônia se es-
se articulam no acontecimento noturno narrado, tende até o êxtase orgásmico, tão intenso que os
pela mediação inumana de Ele-Ela e a partir da no- participantes não conseguem usufruir de sua to-
ção de êxtase da morte contida em Bataille (2004). talidade, sob pena de serem aniquilados. Apenas
O conto se concentra episodicamente em ao Ele-Ela é dado atingir o “grande gozo do Mal”:
uma reunião coletiva e aparentemente aleatória, quando Ele-Ela goza, os outros “recebiam fremen-
uma espécie de sabbath em que um ser, inexpli- tes ondas do orgasmo – mas só ondas porque não
cável e ininteligível, conduz um grupo ao alto de tinham força de, sem se destruírem, receber tudo”
uma montanha, onde ocorrerá o êxtase místico. (p. 53).
O ser andrógino que preside a cerimônia orgíaca O êxtase, sempre vizinho da morte, apare-
de celebração à noite, uma personagem insólita, é ce nesse trecho em uma recorrente imagem de ex-
multinomeada como o Ele-Ela, Amante, Viúva, So- tremo e excesso formuladas frequentemente por
litária, Mal-Aventurado, Aquele-Aquela-sem nome Bataille (2004), para quem o paradoxo do erotis-
e, por fim pelo ser reverso, Ela-Ele: “a mistura an- mo é que este constitui a “a afirmação da vida até
drógina criava um ser tão terrivelmente belo, tão na morte”. Nesse conto, o êxtase erótico apenas é
horrorosamente estupefaciante que os participan- possibilitado por via do Ela-Ele, expressão máxima
tes não poderiam olhá-lo de uma só vez” (LISPEC- da dúbia fusão entre masculino e feminino, ânsia
TOR, 2020, p. 46)3 . As escolhas linguísticas feitas pelo absoluto que se realiza nos recônditos do
pelo narrador, baseadas em oxímoros, descrevem desconhecido, nas fímbrias do não humano. Para
essa criatura como sendo a um só tempo atraen- Nascimento (2012, p. 31), “o não humano não é
1 Universidade Federal de Catalão (UFCAT).
2 Nascido em São Paulo, 1938, e falecido em 5 de dezembro de 2013. Foi um diretor, autor e ator de teatro brasileiro e escri
tor de muitos poemas. Disponível em: Wikipédia, a enciclopédia livre. pt.wikipedia.org › wiki › Fauzi_Arap. Acesso: 02 de nov.
2020.
3 Todas as citações do conto feitas no presente texto foram retiradas da mesma edição.
28 Mulheres em Letras - n. 16 - Nov. 2020
o oposto negativo do humano, nem inversamente apagado da memória como um sonho esquisito,
sua face melhor”. O Ele-Ela é justamente o sem- mas que deixa rastros nos corpos herdeiros des-
-nome, aquilo que, nas instâncias do ficcional cla- sa disruptura (a sede que não finda, o bocejo sem
riciano, possibilita a experiência de vida-morte, de fim), pois, durante a noite, não foram propriamen-
dor-êxtase, de pertença-exclusão. Ele-Ela/ Ela-Ele te humanos, mas experimentaram uma natureza
não é homem nem mulher, não é bicho nem plan- inusitada, de bicho e coisa, e gozaram nisso. Apro-
ta, mas é, a um só tempo, esse não-familiar que veitando a reflexão de Nascimento, “o bestiário
emerge do familiar, e resulta em estranhamento. (e seu correlato objetivo, o mundo das coisas em
Com efeito, para Freud, “esse unheimlich não é re- geral) clariciano dispõe a força do literário naquilo
almente algo novo ou alheio, mas algo há muito que ele excede o humano, abrindo para além do
familiar à psique, que apenas mediante o processo horizonte histórico (2012, p. 26). A tentativa de
da repressão alheou-se dela” (2010, p. 360). desficcionalização que se estabelece ao final, com
Como experiência interior, nos dizeres de Ba- a afirmação da veracidade dos fatos, institui o pa-
taille (2004), o erotismo é aquilo que “coloca o ser em radoxo da literatura formulado por Bataille, segun-
questão”, ou dito de outro modo, desconforma esse do o qual, sendo inorgânica, a literatura poderia
ser em relação ao seu familiar. Os corpos entregues dizer tudo: “somente a literatura poderia desnudar
ao descontrole – a pimenta nos órgãos genitais, a sa- o jogo da transgressão da lei – sem o que a lei não
liva grossa, o leite negro, o arrastar-se no chão como teria fim – independente de uma ordem a criar”.
vermes, o rebatizar-se com outros nomes em língua (1989, p. 22). Na relação com o estranho, o Mal e
inventada – vão despertar na semimemória da noite: a morte, o êxtase erótico dos corpos é também o
“Eles não sabiam de nada” (p. 56). êxtase da narrativa que se compõe, especialmente
A noite clariciana é esse momento de des- a partir de seus excessos nas tramas da linguagem
conformidade que, ao raiar do dia, poderá até ser ficcional.
Imagem: Cdd20 por Pixabay
Referências:
BATAILLE, Georges. O erotismo. São Paulo: Arx, 2004.
______. A literatura e o mal. Porto Alegre: L&PM, 1989.
FREUD, Sigmund. O inquietante (1919). Obras completas. Vol. 14. São Paulo: Companhia das Letras, 2010.
LISPECTOR, Clarice. Onde estivestes de noite. Rio de Janeiro: Rocco, 2020.
NASCIMENTO, Evando. Clarice Lispector: uma leitura pensante. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2012.
Mulheres em Letras - n. 16 - Nov. 2020 29
A descoberta do mundo, de corpo inteiro,
para minha mãe: que en-cantou o meu brincar
Luciana Pimenta1
...o que te dou quando canto, é ao mesmo tem-
po meu corpo (através da minha voz) e o mutis-
mo que você provoca nele. (O amor é mudo, diz
Novalis, só a poesia o faz falar.) O canto não quer
dizer nada: é isso que você compreenderá final-
mente que eu o dou a você, tão inútil quanto o
pedacinho de lã, a pedrinha que a criança dá à
sua mãe.
A dedicatória, Roland Barthes2,
Fragmentos de um discurso amoroso
Minha mãe me apresentou Chico Buarque. minha história do que eu mesma. Mas, vir morar
Tenho a impressão de que o conheço desde que em Belo Horizonte foi, com Clarice, A descoberta
me entendo por gente. É possível que eu não es- do mundo.
teja mentindo. É provável que minha mãe tenha Enquanto minha avó tece na cadeira de
cantado Chico Buarque para mim, enquanto em- balanço, meu avô alimenta os pássaros e meu pai
balava meus primeiros sonhos. – Mamãe, pergun- limpa os peixes que trouxe da pescaria, a voz de
tou minha filha, você cantava pra mim na minha minha mãe, cantando Chico Buarque, se mistura
mamentação? Sim, essa é a palavra que ela usou, às páginas daquele livro que realizava, em meu
mamentação, sem o “a” que é, por definição, prefi- mundo, verdadeira revolução copernicana. Mas as
xo de negação. – Claro que sim! Respondi. O canto palavras, mesmo quando desconhecidas, como se-
de minha mãe é o colo e a voz que embalam e en- riam as de um mundo em descoberta, tinham por
-cantam meus filhos, que não tiveram a alegria de epígrafes aquelas cenas entoadas pela voz de mi-
conhecer a fundadora da minha lalangue 3 , minha nha mãe. Eu saíra de casa, mas a casa e minha mãe
língua materna. estavam inscritas em cada linha do meu corpo.
Meu encontro com Clarice se deu aos Mais tarde eu viria saber que as entre-vistas que
quinze anos, quando deixei a casa de meus pais, não constavam d’A descoberta do mundo estavam
ainda que sair de casa nunca signifique que a casa publicadas em De corpo inteiro.
saia da gente. Continuo frequentando as paredes, Foi assim que quando li a entrevista que
muitos anos no reboco; as janelas e suas frestas Clarice Lispector fez com Chico Buarque4 , a des-
pra rua e o quintal, sempre maior que o mundo. coberta do mundo estava ali, de corpo inteiro. Cla-
Suponho que o chão daquela casa saiba mais da rice fisgou-me com a isca do brincar: “Esta grafia,
1 Professora Doutora do Curso de Direito da PUC Minas, Colíder do Grupo de Pesquisa Direito e Literatura (PUC/CNPq); Pes-
quisadora do Grupo Mulheres em Letras (FALE-UFMG/CNPq); Membro da Rede Brasileira de Direito e Literatura (RDL) e Poeta.
2 BARTHES. Roland. A dedicatória. In: Fragmentos de um discurso amoroso. Tradução de Hortênsia dos Santos, 13ª ed., Rio
de Janeiro: Francisco Alves, p.66 a 69.
3 Neologismo criado por Lacan fundindo o artigo “la” e o substantivo “langue”, em francês, formando “lalangue”, para dizer
da língua materna a primeira língua falada pelo bebê. “Uma primeira língua escutada enquanto são dados os primeiros cuidados
ao corpo. A lalação, o canto emitido pela mãe, ao qual o bebê responde com um sorriso, um murmúrio, um balbucio – isso é
lalangue”. COMPANI, Agatha. Lalangue – gozando do Outro: Uma presença Real no discurso. Disponível em https://academia-
freudiana.com.br/deformacao-psicanalitica/lalangue-gozando-do-outro-uma-presenca-real-no-discurso/
4 BUARQUE, Chico. Chico Buarque ou Xico Buark. [Entrevista cedida a Clarice Lispector]. Entrevistas. Organização de Claire
William. Rio de Janeiro: Rocco, 2007, p. 99 a 104.
30 Mulheres em Letras - n. 16 - Nov. 2020
Xico Buark, foi inventada por Millôr Fernandes, A criatividade, esclarece Winnicott, não
numa noite no Antônio’s. Gostei como quando eu se refere apenas à produção artística. “É bem ver-
brincava com palavras em criança.” 5 . Lá estava eu, dade que uma criação pode ser uma pintura, uma
verdadeiramente em casa. Era sábado, Chico can- casa, um jardim, uma roupa ou um penteado, uma
tava na voz de minha mãe, preparando o almoço, sinfonia ou uma escultura; tudo, até uma refeição
enquanto eu brincava de escrever palavras na par- preparada em casa. (...) [sic] A criatividade sobre
te cimentada do quintal, com pedaços de carvão, a qual me debruço é universal e faz parte de estar
restos de algum churrasco. vivo.”9 A criatividade diz respeito à capacidade do
Isso de brincar é a causa deste texto. “É indivíduo dizer: “EU SOU, eu estou vivo, eu sou eu
no brincar, e apenas no brincar, que a criança ou mesmo”10, como Clarice disse em A surpresa: “[...]
o adulto conseguem ser criativos e utilizar toda alegria de ser. Alegria de encontrar na figura exte-
a sua personalidade, e sendo criativo o indivíduo rior os ecos da figura interna: ah, então é verdade
pode descobrir o self”6 . Clarice sabia, até se não que eu não me imaginei, eu existo”11 (p. 23).
soubesse: “não fossem os caminhos de emoção a D’A Descoberta do Mundo, até que Winni-
que leva o pensamento, pensar já teria sido catalo- cott chegasse em minha vida, seria uma travessia,
gado como um dos modos de se divertir”7 . Há um mas tenho a impressão de que o encontrei com a
animus brincandi no pensar: familiaridade de quem escuta A Banda. “– O que é
que você sentiu quando o maestro Karabtnhewsky
Uma vez, por exemplo – no tempo em que dirigiu A Banda no Teatro Municipal? – Claro que
mandávamos roupa para lavar fora – eu es- gostei, mas o que me interessa mesmo é criar”12.
tava fazendo o rol. Talvez por hábito de dar Eis que, entre-vistas, ali estava, de novo eu, à toa
título ou por súbita vontade de ter caderno na vida e minha mãe me chamou “para ver a ban-
limpo como em escola, escrevi: rol de...E foi da passar, cantando coisas de amor”13. “A banda
nesse instante que a vontade não ser séria lembra música de nossos avós cantarem: tem um
chegou. Este é o primeiro sinal do animus ar saudoso e gostoso de se abrir um livro grosso e
brincandi, em matéria de pensar – como encontrar dentro uma flor seca que foi guardada
hobby. E escreve esperta: rol de sentimentos. exatamente para durar”14.
O que eu queria dizer com isto tive que dei- E ali ficamos, brincando com as palavras,
xar para ver depois – outro sinal de estar em Clarice, Chico e eu, até sermos interrompidos pela
caminho certo é do não ficar aflita por não pergunta de meu pai à minha mãe: – Fez o peixe,
entender; a atitude deve ser: não se perde Flor? – Sim, Cheiro. Vamos almoçar?
por esperar, não se perde por não entender8.
Foto: Fátima Peres
5 Idem, p. 99.
6 WINNICOTT, Donald. O brincar e a realidade. Traduzido por Breno Longhi. São Paulo: Ubu Editora, 2019, p.91.
7 LISPECTOR, Clarice. Brincar de pensar. In: A descoberta do mundo. Rio de Janeiro: Rocco, 1999, p.23.
8 Idem, p.24.
9 WINNICOTT, Donald. Op. cit., p.112.
10 WINNICOTT, Donald. Op. cit., p. 96.
11 LISPECTOR, Clarice. A surpresa. In: A descoberta do mundo. Rio de Janeiro: Rocco, 1999, p.23.
12 BUARQUE, Chico. Op. cit., p. 101.
13 Excerto do refrão da canção A Banda, de Chico Buarque de Holanda.
14 Idem, p. 102.
Mulheres em Letras - n. 16 - Nov. 2020 31
2020
100 ANOS DE CLARICE
JANEIRO FEVEREIRO MARÇO
ABRIL MAIO JUNHO
JULHO AGOSTO SETEMBRO
Foto: internet
OUTUBRO NOVEMBRO
32 Mulheres em Letras - n. 16 - Nov. 2020
O calendário de Clarice
Ozana Aparecida do Sacramento1
A obra para adultos de Clarice Lispector é perceberam que faltava milho para preparar comi-
alvo de inúmeros estudos, porém sua obra infantil das, pois só encontravam “espigazinhas murchas e
não tem merecido a mesma atenção por parte da sem graça” (LISPECTOR, 2015, p. 8). Elas resolvem
crítica. A partir da década de 1960, a autora come- chamar os curumins, porque eles dão sorte e estes
ça a publicar livros infantis. Lispector, em entrevista encontraram um milharal viçoso, colheram muitas
para Júlio Lerner, afirma que seu primeiro livro foi espigas e fugiram para a aldeia, ali pediram à avó
escrito para atender um pedido do filho. Na entre- para fazer um bolo e se fartaram. Com medo de as
vista, Lispector conta que esqueceu o livro escrito mães reclamarem da comilança, os curumins pe-
“para exclusivo uso doméstico” (LISPECTOR, 1983, diram aos colibris que amarrassem cipós no topo
p.3) e só se lembrou dele quando foi demandada de céu e sobem. As mães sobem atrás e cortam os
por um editor, então saiu O mistério do coelho pen- cipós e elas, ao caírem, se transformam em onças:
sante (1967) e depois: A mulher que matou os pei-
xes (1968), A vida íntima de Laura (1974), Quase de Quanto aos curumins, como já não podiam
verdade (1978) e Como nasceram as estrelas: doze voltar para a terra, ficaram no céu até hoje,
lendas brasileiras (1987), os dois últimos lançados transformados em gordas estrelas brilhan-
postumamente. tes. Mas, quanto a mim, tenho a lhes dizer
As lendas de Como nasceram as estrelas: que as estrelas são mais do que curumins.
doze lendas brasileiras foram escritas a pedido da Estrelas são os olhos de Deus vigiando para
marca de brinquedos Estrela para compor um ca- que corra tudo bem. Para sempre. E, como
lendário. A escritora recolhe onze lendas do folclo- se sabe, sempre não acaba nunca (LISPEC-
re brasileiro e a narrativa do nascimento de Jesus. TOR, 2015, p. 9).
Antes da reunião em livro, os textos circulavam de
forma fragmentária por livros didáticos (FRISON, No segundo agrupamento, reunimos as
2014, p. 285). Elas são assim distribuídas: janeiro: lendas de maio, julho e setembro que aludem a se-
“Como nasceram as estrelas”, fevereiro: “Alvoro- res míticos. Em “A perigosa Yara”, a bela sereia dos
ço de festa no céu”; março: “O pássaro da sorte”, rios amazônicos vem à tona todos os dias, mas em
abril: “As aventuras de Malazarte”, maio: “A perigo- maio, ela aparece mais bela a com o intuito de con-
sa Yara”, junho: “Uma festança na floresta”, julho: quistar um noivo por meio de seu canto mágico.
“Curupira, o danadinho”, agosto: “O Negrinho do Numa dessas aparições, um belo rapaz ta-
pastoreio”, setembro: “Do que eu tenho medo”, puia é seduzido, ele foge para sua aldeia, porém
outubro: “A fruta sem nome”, novembro: “Como já está enfeitiçado e acaba retornando ao rio e a
apareceram os bichos”, dezembro: “Uma lenda sereia o leva para o fundo do rio.
verdadeira”.
Neste estudo optamos por agrupar as nar- Os dois mergulharam e adivinha-se que
rativas considerando algumas proximidades temá- houve festa no profundo das águas. As
ticas. Dessa forma, quando se trata de transforma- águas estavam de superfície tranquila como
ção ou formação de algo temos “Como nasceram se nada tivesse acontecido. De tardinha,
as estrelas”, “O pássaro da sorte”, “A fruta sem aparecia a morena das águas a se enfeitar
nome” e “Como apareceram os bichos”. com rosas e jasmins. Porque um só noivo,
“Como nasceram as estrelas”, é a recriação ao que parece, não lhe bastava.
de uma lenda dos índios bororos (PECKER, 2009, p. Esta história não admite brincadeiras. Que
175). A tribo seguia sua vida habitual até as índias se cuidem certos homens. (LISPECTOR,
2015, p. 21-22)
1 Professora de literatura, doutora em Teoria da Literatura e Literatura Comparada, mestre em Literatura Brasileira.
Mulheres em Letras - n. 16 - Nov. 2020 33
Dentro da temática festa temos as lendas: A doçura dos brutos compreendia a inocên-
“Alvoroço de festa no céu” e “Uma festança na flo- cia dos meninos. E, antes dos reis, presente-
resta”. Na primeira narrativa conta-se que foi or- avam o nascido com o que possuíam: o olhar
ganizada uma festa no céu para a qual apenas os grande que eles têm e a tepidez do ventre
pássaros foram convidados. que eles são. Este menino, que renasce em
Inconformado, o sapo, valendo-se da bur- cada criança nascida, iria querer que fôs-
rice do urubu, escondeu-se dentro do violão. Che- semos fraternos diante da nossa condição
gando ao céu, dançou muito feliz. E a narradora e diante de Deus. O menino iria se tornar
resolve abreviar e ir logo para o desfecho mostran- homem e falaria. Hoje em muitas casas do
do que novamente o sapo se vale da estultice do mundo nasce um Menino. E, como se não
urubu: bastasse, espouca no ar como champanhe o
borbulhante 1978 (LISPECTOR, 2015, p. 44).
E entrou de novo sorrateiro no violão para
ir embora. O episódio bíblico reitera o mote cristão
Mas o urubu percebeu a coisa e ficou rai- de que tudo o que o nascimento do Deus-menino
voso: representa, ou seja, esperança, fraternidade, amor,
– Espertinho, não é? Pois agora mesmo é renasce em cada criança e em cada novo ano pre-
que você vai voar, vou te soltar no ar. nhe de fé e esperança. Reunir as lendas por te-
Então o sapo pediu todo manhoso: máticas, mesmo que amplas e precárias, permitiu
– Está vendo aquela pedra e aquele lago? observar mais de perto as escolhas da autora e de
Pelo amor de Deus, deixe eu cair na pedra forma mais acurada outros aspectos, como a pre-
porque se eu cair no lago eu me afogo! sença marcante de animais. Desde as fábulas de
– Pois é no lago que eu vou te largar, para Esopo, os animais frequentam as narrativas, mas
você morrer! nas clariceanas, eles não cumprem seu papel mais
O sapo, bem feliz, caiu no lago e salvou-se. comum de simbolizar os valores e conceitos mo-
Moral da festa? Bem, não houve (LISPEC- rais. Segundo Benedito Nunes: “os animais gozam,
TOR, 2015, p. 11-12) no mundo de Clarice Lispector, de uma liberdade
incondicionada, espontânea, originária, que nada
E no quarto grupamento temático, temos - nem a domesticação degradante de uns, nem a
narrativas que centram-se em personagens huma- aparência frágil e indefesa de outros - seria capaz
nos, restando aos animais um papel menos desta- de anular” (NUNES, 1995, p. 132).
cado. São elas “As aventuras de Pedro Malazartes”, Essa bicharada comporta-se ora como se-
“O Negrinho do pastoreio” e “Uma lenda verdadei- res humanos e isso ocorre com a onça de “Uma fes-
ra”. Nesta, Lispector reconta com lirismo o nasci- ta na floresta”, que é maldosa, maledicente. Outras
mento de Jesus. A cena é a de um presépio: Maria vezes, são apenas animais, como o boi e o jumento
após o parto, o Menino na manjedoura, José e os de “Uma lenda verdadeira”. Esses comportamen-
animais que aquecem a criança com seu hálito. tos dos animais ora se aproximam, ora se afastam
Cada um dos personagens cumpre seu des- da construção das fábulas tradicionais, porém
tino. A missão do menino era nascer; o de Maria, nunca as reproduzem ipsis literis. Cada lenda cla-
dar à luz; José, a de entender e os animais foram riceana “perpassada pelo sussurro de uma secreta
destinados a amar sem saber que amam. Assim, inspiração” nos convida à leitura dessa “verdade
renasce a fraternidade: [que] representa o que há de fantástico, sumaren-
to e rico no País” (LISPECTOR, 2015, p. 5-6).
Referências:
DINIS, Nilson Fernandes. Perto do coração criança: uma leitura da infância nos textos de Clarice Lispector. 2001. Tese (doutorado)
- Universidade Estadual de Campinas, Faculdade de Educação, Campinas, 2001. Disponível em: <http://www.
repositorio.unicamp.br/handle/REPOSIP/253672>. Acesso em: 27 set. 2020.
FRISON, Samuel. Clarice Lispector: oralidade, fabulação e recriação em Doze Lendas Brasileiras-como nasceram as estrela-
-Doze Lendas Brasileiras. Boitatá, v. 9, n. 17, 2014. Disponível em: http://www.uel.br/revistas/uel/index.php/boitata/article/
view/31666.
GOTLIB, Nádia Battella. Clarice: uma vida que se conta. São Paulo Ática, 1995.
LISPECTOR, Clarice. Como nasceram as estrelas. Rio de Janeiro: Rocco Digital 2015.
____________. Programa Panorama. LERNER, Júlio. TV Cultura.1 de fev. 1977. Disponível em: https://tvcultura.com.br/vide-
os/5101_Panorama-com-clarice-lispector.html. Acesso em: 10 set. 2020.
NUNES, Benedito. O drama da linguagem: uma leitura de Clarice Lispector. São Paulo: Ática, 1995.
PECKER, Jean-Claude. O céu estrelado de Claude Lévi-Strauss. Estudos Avançados, [S. l.], v. 23, n. 67, p. 173-182, 2009. Disponível
em: http://www.revistas.usp.br/eav/article/view/10388. Acesso em: 17 out. 2020.
34 Mulheres em Letras - n. 16 - Nov. 2020
Um olhar para a crônica de Clarice Lispector
Rodrigo Molon de Sousa1
Clarice Lispector, em grande parte de suas Deus, no décimo segundo chamo meu irmão.
obras, procura abordar a subjetividade do pobre. O décimo terceiro tiro me assassina – porque
Suas personagens quase sempre estão envolvidas eu sou o outro. Porque eu quero ser o outro.
em cenas domésticas, do cotidiano, em busca da (LISPECTOR, 1999, p. 123)
sua condição de ser. Em suas crônicas, isso tam-
bém acontece; nelas podemos perceber uma gran- Nesta citação, logo no início, vemos que a
de preocupação da autora com a questão social, narradora começa questionando os limites da justi-
por falar sobre quem foi excluído, oprimido, ou ain- ça afirmando “Esta é a lei”. Mineirinho estava sen-
da, por clarear o que deveria permanecer obscuro. do procurado por mais de trezentos policiais que, a
Publicado em 1969, como crônica, “Minei- princípio, seriam representantes da lei, mas como
rinho” narra um fato policial verídico sobre a mor- foi assassinado com tanta crueldade, passou de cri-
te, no dia 01 de maio de 1962, do marginal José minoso para vítima, perante os olhos da sociedade
Miranda Rosa, 28 anos, fugitivo do Manicômio Ju- carioca, à qual só restou um sentimento de indig-
diciário, onde deveria cumprir 104 anos de prisão. nação.
Escrito em primeira pessoa, a crônica ini- Yudith Rosenbaum, em A ética na literatu-
cia-se com uma conversa da narradora com sua ra, realizou um levantamento de como alguns jor-
cozinheira. Nessa conversa a narradora pergunta à nais da época noticiaram o ocorrido. A estudiosa
cozinheira qual era sua opinião sobre a morte de da obra de Clarice Lispector narra:
Mineirinho. Após deixar transparecer certo grau de
perplexidade, a cozinheira adverte que o que ela Nos jornais que noticiaram a morte, entre al-
sente não serve para ser dito e completa que, cer- gumas manchetes, destacam-se títulos como:
tamente, o facínora já havia chegado ao céu, mais “Mineirinho Morreu com Oração e Recorte no
rápido do que muita gente que nunca cometeu ne- Bolso” (Diário Carioca); “Mineirinho Foi Metra-
nhum crime. lhado 13 vezes e Atirado no Mato – Povo Aflui
Para Berta Waldman (1992, p 161), “Minei- Para Ver Bandido Morto” (Diário de Notícias);
rinho mata porque é um pária social, porque sente “A cidade Está em Paz” (Correio da Manhã) e
medo, porque precisa se defender. Enquanto a po- “Mineirinho Sem Sete Vidas” (Jornal do Brasil).
lícia ao disparar treze tiros contra ele, é assassina Esse pequeno inventário da repercussão da
e transgride o sexto mandamento que prescreve morte de Mineirinho não deixa dúvidas quan-
literalmente ‘não assassinarás’”. to à mobilização da opinião pública ante o
Dessa forma, a narradora descreve suas caso, oscilante entre, de um lado, a possível
sensações sobre os treze tiros que mataram Minei- “paz” que a eliminação do criminoso teria
trazido ao Rio de Janeiro (conforme os títulos
rinho, quando apenas um bastava: citados) e, de outro, a revolta dos moradores
da favela com a morte de seu “Robim Hood”.
Esta é a lei. Mas há alguma coisa que, se me faz (ROSENBAUM, 2010, p. 171)
ouvir o primeiro e o segundo tiro com um alí-
vio de segurança, no terceiro me deixa alerta, A autora destaca ainda que o corpo de
no quarto desassossegada, o quinto e o sexto Mineirinho fora encontrado à margem da Estrada
me cobrem de vergonha, o sétimo e o oitavo Grajaú-Jacarepaguá, no Rio de Janeiro, e certa-
eu ouço com o coração batendo de horror, no mente transferido para este local, onde, segundo
nono e no décimo minha boca está trêmula, no
décimo primeiro digo em espanto o nome de
1 Universidade Federal de Catalão (UFCAT).
2 Todas as citações do conto feitas no presente texto foram retiradas da mesma edição.
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os jornais, não havia sequer uma gota de sangue criminoso – nesse instante está sendo morto
do corpo. um inocente. Não, não é que eu queira o su-
Um fato interessante e que, a meu ver, é o blime, nem as coisas que foram se tornando as
que move a escrita dessa crônica, é que a violência palavras que me fazem dormir tranquila, mis-
rebentada, silenciosa, despejada em Mineirinho foi tura de perdão, de caridade vaga, nós que nos
maldade organizada, pensada. Não podemos es- refugiamos no abstrato vago.
quecer que o criminoso foi assassinado sugestiva- O que eu quero é muito mais áspero e mais
mente no dia do trabalho, como frisa Rosenbaum difícil: quero o terreno. (LISPECTOR, 1999, p.
(2010), e que, o que é da ordem da lei é diferente 126)
da ordem da justiça.
Para finalizar, a partir dessa citação, pode-
Uma justiça que não se esqueça de que nós mos dizer que para se estar fora da lei, tem que se
todos somos perigosos, e que na hora em que estar dentro, mostrando assim uma relação entre
o justiceiro mata, ele não está mais nos prote- “o dentro” e “o fora” e que, para Clarice Lispec-
gendo nem querendo eliminar um criminoso, tor, estar munido com a linguagem, como ela e a
ele está cometendo o seu crime particular, um cronista, significa estar armado para se defender e
longamente guardado. Na hora de matar um sair do desamparo da palavra e da sociedade.
Foto: Catkin por Pixabay
Referências:
CANDIDO, A. “A vida ao rés-do-chão”. In. A crônica: o gênero, sua fixação e suas transformações no Brasil. Campinas/Rio de
Janeiro: Editora da Unicamp/Fundação Casa de Rui Barbosa, 1992.
LISPECTOR, C. “Ser cronista”. In. A descoberta do mundo. Rio de Janeiro: Rocco, 1999.
___________. “Mineirinho”. In. A descoberta do mundo. Rio de Janeiro: Rocco, 1999.
ROSENBAUM, Y. “A ética na literatura: leitura de “Mineirinho”, de Clarice Lispector”. In. Estudos Avançados. São Paulo: v. 24, n.
69, 2010.
WALDMAN, B. A paixão segundo C.L. São Paulo: Escuta, 1992.
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Foto:Pixbay Um diálogo a três: da mulher, para a mulher e sobre a mulher
Rubiani Boldrini da Silva dos Santos1
Minha alma tem o peso da luz.
Tem o peso da música.
Tem o peso da palavra nunca dita,
prestes a quem sabe ser dita.
Tem o peso de uma lembrança.
Tem o peso de uma saudade.
Tem o peso de um olhar.
Pesa como pesa uma ausência
e a lágrima que não se chorou.
Tem o imaterial peso de uma solidão
No meio de outros.
Clarice Lispector
Identificar-se com as personagens reais da ção refinada com o social, presente em seu texto
própria ficção é o que nos possibilitam as narra- literário, embora, de fato, não se sobreponha à
tivas de Clarice Lispector. Em parte, essas vozes- narrativa. Sobre isso, pondera a própria autora:
-mulheres narradas, representadas como tímidas,
fortes, loucas, alienadas, anarquistas, resistentes Os meus livros não se preocupam sobre os
são, também, um pouco de nós leitoras(es). Nesse fatos em si, porque para mim o importante
entrelace de vozes e personalidades, a identifica- não são os fatos em si, mas a repercussão
ção com o texto clariceano é, até certo momento, dos fatos no indivíduo. [...]. Acho que, sob
uma aspiração de quem os lê. esse ponto de vista, eu também faço livros
Para falar de sua experiência de mundo, comprometidos com o homem e a realida-
Clarice partia de um universo singular e feminino de do homem, porque realidade não é um
no qual há protagonistas mulheres que “viviam” fenômeno puramente externo. (LISPEC-
como mulheres e refletiam os ofícios de mulher TOR, apud ABIAHY, 2006, p. 11).
em uma sociedade patriarcal. Entretanto, ainda
que Lispector tenha sido uma “escritora do femi- O compromisso com as cenas da vida real
nino”, como afirma Yudith Rosembaum (1999), a é visível nas representações femininas postas em
importância de sua obra não diz respeito somen- xeque nos textos de Lispector e que, por conse-
te às questões de gênero, mas, especialmente, às quência, corroboram a representação de uma tría-
amarguras da vida e ao desamparo do ser huma- de instituída como sacrossanta: a de esposa, mãe
no que impactam as profundezas da alma de uma e dona de casa, para Beauvoir (1980), “o destino
existência transgressora. de mulher”.
Para adentar um universo feminino de for- Em vista disso, a escrita clariceana põe em
ma consciente, personagens díspares e complexas evidência os direitos das mulheres e os dramas
foram construídas por Lispector. Não à toa, os crí-
ticos apontam na obra da escritora uma preocupa-
1 Pós-graduanda em Estudos da Linguagem pela Faculdade Atualmente, é revisora e professora de Língua Portuguesa e
Literatura em rede particular de ensino.
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por elas vivenciados em uma sociedade machista [...] escrever é o modo de quem tem a
e, assim, os papéis reservados às mulheres são, de palavra como isca: a palavra pescando
maneira consistente e intensa, desafiados. Em re- o que não é palavra. Quando essa não-
ferência a obra de Clarice Lispector, Elóxia Xavier -palavra – a entrelinha – morde a isca,
afirma que: alguma coisa se escreveu. Uma vez que
se pescou a entrelinha, poder-se-ía com
[...] Pode-se considerar a obra de Clarice alívio jogar a palavra fora. Mas aí cessa a
Lispector como um divisor de águas na analogia: a não palavra, ao morder a isca,
trajetória da narrativa brasileira de au- incorporou-a. O que salva é escrever dis-
toria feminina, uma vez que o discurso traidamente (LISPECTOR, 1998 p. 21-22).
oblíquo e enviesado de suas narradoras
questiona, ironicamente o sistema de gê- Em suma, o que Clarice Lispector escreve
neros (XAVIER, p. 159, 2002). tem a ver com a identidade humana sofrida, do-
ída, incoerente e com a verdade absurdamente
É dessa forma que Lispector, como repre- possível do leitor. O que ocorre a partir da leitura
sentante da literatura brasileira de autoria femi- das narrativas clariceanas é um encontro a três: da
nina, abre passagem para outras escritoras que leitora(or) com as personagens da obra e da(o) lei-
replicam, em seus textos, as relações de gênero e tora(or) com a autora. Do ponto de vista literário e
o espaço destinado à mulher na sociedade. Essa humano, a escrita de Lispector oferece-se para ser
reflexão denuncia a percepção que separa o ser analisada como convém, essencialmente no que
humano do mundo, principalmente, no que sepa- compete à história da mulher, que, ainda hoje, se
ra o homem da mulher, mas, que, acima de tudo, vê à margem e segue presa às convenções sociais
separa o humano de si mesmo. que lhe são impostas.
No universo ficcional de Lispector, suas Clarice Lispector criou um mundo ficcio-
personagens se debatem com as palavras inefi- nal em que várias facetas do mundo real são nele
cazes e só dizem o indizível. É um enlace da pa- representadas e por meio da sutil apreensão do
lavra-não-palavra-dita. Nesse sentido, a escritora quase indizível, a autora detém o fascínio de suas
apregoa que : (seus) leitoras(es). Sua obra não se esgota, porque
é capaz de atravessar o tempo em um fazer lite-
rário que permanece atual por lidar com o que é
fundamentalmente humano.
Foto:Pixbay
Referências:
ABIAHY, Ana Carolina de Araújo. Representações da tensão entre o sujeito feminino e a sociedade em Clarice Lispector: uma
análise dos contos “A fuga”, “A imitação da rosa” e “Amor”. Disponível em: <http://www.cchla.ufpb.br/ppgl/wp-content/uplo-
ads/2012/11/images_AnaCarolinaAbiahy.pdf>. Acesso em: 15 set. 2020.
BEAUVOIR, Simone de. O Segundo Sexo, v.I, II. Tradução Sérgio Milliet. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1980.
LISPECTOR, Clarice. Água viva. Rio de Janeiro: Rocco, 1998.
O último bilhete de Clarice. Disponível em: <https://www1.folha.uol.com.br/fsp/ilustrad/fq0106200506.htm>. Acesso em: 15
set. 2020.
ROSENBAUM, Y. As metamorfoses do mal em Clarice Lispector. Revista USP, n. 41, p. 198-206, 30 maio 1999.
XAVIER, Elódia. A hora e a vez da autoria feminina: de Clarice Lispector a Lya Lu�. In: Gênero e representação da literatura bra-
sileira: ensaios. Belo Horizonte: UFMG, 2002.
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QANM é um movimento surgido em 1980, em Belo Horizonte, em
protesto contra o assassinato de mulheres.
O Movimento foi reeditado em 2018, com o objetivo de denunciar
toda forma de violência contra a mulher, que continua a ser praticada
em nossa sociedade.
De acordo com matéria publicada pelo jornal Estado de Minas em
18 de agosto deste ano, entre janeiro e novembro de 2018 (dados mais
recentes), a imprensa brasileira noticiou 14.796 casos de violência do-
méstica em todos os estados. Os maiores agressores das mulheres ainda
são os companheiros (namorados, ex, esposos) correspondendo a 58%
dos casos de agressão. Os outros 42% ficam na conta dos pais, avôs, tios
e padrastos. A maioria das vítimas (83,7%) tem entre 18 e 59 anos de
idade, sendo que a faixa que mais concentra a idade das vítimas é entre
24 e 36 anos.
O Grupo de Pesquisa Mulheres em Letras declara, nesse momen-
to, que apoia integralmente as propostas do "Quem Ama Não Mata".
APOIO: