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Published by Huildino Santos, 2018-08-18 12:57:48

fimda 25 anos

fimda 25 anos

revista comemorativa

Mde iasnsgãoola

anos de presença
franciscana

| 25 anos | FIMDA | 1

sumário

PROVÍNCIA FRANCISCANA DA 06
IMACULADA CONCEIÇÃO DO BRASIL

Fundação Imaculada 26
Mãe de Deus de Angola
“Oeditoriallhar o passado com gratidão, viver o presente com paixão e abra-
Revista comemorativa çar o futuro com esperança”. A mesma proposta que o Papa Fran-
do Jubileu de 25 anos da cisco apresentou à Igreja para a celebração do Ano da Vida Con-
Fundação Imaculada Mãe sagrada está norteando esta publicação comemorativa pelos 25 anos da
de Deus de Angola Fundação Imaculada Mãe de Deus de Angola (FIMDA). Queremos,
nas páginas que seguem, traçar um breve panorama da presença da
Província Franciscana Ordem dos Frades Menores em terras angolanas, construída à base de
da Imaculada esforço e entrega de muitos frades que deixaram o nome escrito nesta
Conceição do Brasil história, sem contar o grande número de benfeitores que sempre esti-
veram juntos, pelas orações e pelo apoio material a esta iniciativa mis-
Ministro Provincial: sionária e o povo angolano, razão de ser desta presença evangelizadora
Frei Fidêncio Vanboemmel na África.
É lógico que uma publicação limitada pelo número de páginas e tam-
Vigário Provincial: bém pelo olhar daqueles que a produziram nunca daria conta de trans-
Frei Estêvão Ottenbreit mitir a grandeza e a beleza desta história em sua integralidade. Para
além de toda a limitação, nosso desejo é que todos se sintam incluídos,
Textos e fotos: porque cada um, a seu modo, é pedra viva desta construção, que tem
Frei Gustavo Medella como alicerce Jesus Cristo Pobre, Humilde e Crucificado, o mesmo que
tocou o coração de Francisco e transformou a sua vida.
Revisão:
Frei Walter de Carvalho Júnior

Edição e textos:
Moacir Beggo

Colaboração:
Frei Ermelindo Francisco e
Elisabete Barbero (Arquivo
da Província da Imaculada
Conceição)

Diagramação:
Jovenal Pereira

Sede da Província:
Rua Borges Lagoa, 1209
3º andar – Vila Clementino
São Paulo – Brasil

Tel.: 55-11-5576-7900

Sede da FIMDA:
Rua do Sanatório, s/n, Bairro
Palanka, Luanda, Angola

Tel.: 244- 946.232.288

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14 06 A África nos chama 26 Angola desperta
30 Trechos da carta do Ministro Geral Frei O frade angolano Frei Ermelindo
John Vaughn motivando para a Missão Francisco escreve sobre o seu belo país.
na África.
30 No coração da Missão
08 O 1º envio Frei Gustavo Medella, que viajou no
para a Missão final de julho e começo de agosto
Há 25 anos, no dia 16 de setembro de para Angola, traça um panorama da
1990, os três primeiros missionários Fundação Imaculada Mãe de Deus hoje.
foram enviados para Angola na Missa
de Agudos. Frei Plínio, Frei Pedro e Frei 35 O atentado
José chegaram a Malange no dia 25 de A presença em Kibala foi interrompida
setembro de 1990. durante um período da guerra devido ao
atentado sofrido por Frei Valdir Nunes
13 Frei Lotário Neumann Ribeiro
O missionário gaúcho escreveu para
sempre o seu nome na Missão. Ele 41 Os frutos da Missão
foi levado pela Irmã Morte no dia 4 de Em 25 anos, a Missão de Angola colhe
janeiro de 1993. os frutos deste trabalho missionário: 30
frades angolanos. Seminário com casa
14 História cheia e 13 postulantes para o noviciado
Frei Estêvão Ottenbreit, o então Ministro de 2016.
Provincial em 1990, fala nesta entrevista
das dificuldades, alegrias e desafios para 46 Presença dos leigos:
criar a Missão em Angola. fermento que fez crescer a missão

23 Abadessa Fabíola
Segundo Frei Estêvão, ela pode ser
chamada mãe da Fundação Imaculada
Mãe de Deus.

Capresentaçãoomo todos sabemos, há 25 anos, mais exa- de perseverança. Nossa missão evangelizado-
tamente, no dia 25 de setembro de 1990, ra tem se expandido, de maneira especial, em
pisavam o solo angolano os três frades nossas paróquias e missão. O amparo social
fundadores da atual missão franciscana em aos mais necessitados tem sido realizado, des-
terras angolanas. De lá para cá muitas coisas de o atendimento de porta até serviços mais
foram feitas. Muitas delas deixaram fortes mar- elaborados como o Projeto “Nossos Miúdos”,
cas no jeito de ser da nossa missão em Angola. o Projeto “INZO de Inserção Digital”, o Proje-
Muitas dificuldades foram suportadas, so- to “Bola da Paz” e as Escolas Paroquiais.
bretudo pelos irmãos que por primeiro vie- Portanto, temos motivos de sobra para dar
ram e, com certeza, essas dificuldades fazem graças ao Senhor. E que essa ação de graças
parte dos alicerces que construíram esta mis- solene seja também o momento de revermos
são. Muitas coisas boas também têm sempre nossa caminhada e, sempre de novo, nos dis-
acontecido. Sinais de ressurreição prometida pormos a dar passos firmes para que os pró-
a todos os que se dispõem a carregarem, pa- ximos 25 anos sejam vividos debaixo da graça
cientemente, a cruz em meio às dificuldades do Senhor. Que assim nossos confrades neste
do dia a dia. futuro, agora distante, possam também eles
Hoje, vivemos um momento propício para ter motivos de dar graças ao Senhor!
dar graças. A tão sonhada, rezada e cantada
paz chegou e, mais importante, não somente Frei José Antônio dos Santos
chegou mas ficou. Como Fundação vivemos
também um bom momento vocacional, com presidente da Fundação Imaculada
nossas casas de formação cheias de forman- Mãe de Deus de Angola
dos e, melhor ainda, com um excelente índice

mensagem Frei Michael Anthony Perry, OFM

Ministro Geral

Caros Irmãos, franciscanos e alguns já se consagraram a Ele.
Com alegria e gratidão uno-me a vocês nesta Tudo isso é fruto da presença significativa da
celebração dos 25 anos da Fundação Missio- vida franciscana.
nária em Angola. Quero recordar-lhes os valores centrais de
Quero agradecer a Deus pelo dom do caris- nossa vida. Primeiro a nossa relação com
ma missionário dado a São Francisco de As- Deus, que deve ser sempre cultivada com
sis que impulsiona nossa Ordem para viver e atenção e amor. Depois a nossa relação fra-
anunciar o Evangelho pelo mundo afora. O terna: a pertença à fraternidade vem antes de
mandato de Jesus a seus discípulos ainda res- qualquer outra categoria de pertença e tam-
soa em nossos ouvidos: “Ide por todo o mun- bém a fraternidade precisa de dedicação total
do, proclamai o Evangelho a toda criatura” e de empenho evangélico e absoluto; não se
(Mc 16,15). Nesta ocasião agradeço de modo contentem nunca com uma qualidade de vida
especial a todos os confrades que deixaram medíocre em fraternidade. Ainda, coloquem
tudo em seu país e colocaram-se à disposição em prática a simplicidade de vida e sobrieda-
do projeto de Deus para viver e anunciar o de para dar um maior testemunho possível
Evangelho em Angola. ao povo angolano. Enfim, como nos sugere
Há 25 anos, quatro confrades chegaram a esta também o Papa Francisco, cuidado para não
missão cheios de entusiasmo por saber que caírem na armadilha do clericalismo, que não
estavam concretizando um gesto significativo tem nada a ver com a nossa identidade fran-
da Província da Imaculada por ocasião das ciscana.
celebrações do 1° centenário da restauração. Esperamos que todo o empenho dos mis-
Hoje todos podem ver os frutos do esforço sionários continue produzindo frutos para o
dos confrades missionários e angolanos que, Reino de Deus e que o povo angolano tenha
juntamente com outros religiosos e leigos, sempre mais vida em abundância. Que a re-
fizeram e fazem tanto para que mais pessoas construção depois da guerra seja principal-
tenham vida em abundância e conheçam o mente de uma sociedade mais justa, fraterna
Evangelho de Jesus Cristo, fonte de vida eter- e solidária. Esperamos também que o Senhor
na. da messe continue chamando jovens angola-
As dificuldades que surgiram, especialmente nos para se consagrarem a Ele e anunciarem
pelos momentos de conflitos e guerras, certa- Jesus Cristo, único Salvador, com a vida e a
mente não foram poucas. Contudo, o Mestre palavra.
e Senhor que nos chama à vida consagrada e Com toda gratidão invocamos as mais copio-
à missão nunca nos abandona. A missão per- sas bênçãos sobre esta fraternidade.
tence a Ele. Obrigado a todos os missionários
que resistiram e não abandonaram as ovelhas Roma, 08 de setembro de 2015.
diante do perigo!
Sabemos que durante os 25 anos houve muito
empenho na evangelização, foram realizados
muitos trabalhos, construções e organização
de comunidades. Muitos jovens angolanos
sentiram o chamado de Deus para serem

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Frei Fidêncio Vanboemmel, OFM mensagem

Ministro Provincial

Caros Irmãos, tituição’ ao Senhor pelos missionários alemães
Tomás de Celano, ao narrar os inícios da con- que haviam restaurado a nossa Província, a par-
versão de São Francisco de Assis, relata que num tir de 1891.
determinado dia, ao ser assaltado por ladrões que Esta singela revista quer ilustrar a vida dos 25
lhe pediram uma identificação, ouviram do jo- anos desta nossa Missão, hoje presente na Fun-
vem Francisco esta resposta: “Sou um arauto do dação Imaculada Mãe de Deus de Angola e na
grande Rei” (1Cel 16). E com o passar dos meses, alma do querido povo angolano com quem
na inquietante busca da vontade do Senhor, ele partilhamos nossa vocação e missão. Uma ilus-
descobre no livro dos Evangelhos o real significa- tração que é acima de tudo um único e grande
do do ser arauto do grande Rei. Revestido com as hino de Ação de Graças!
vestes do Evangelho, na gratuidade e a exemplo Se a Missão persistiu nestes 25 anos, primei-
de Cristo e de seus discípulos, Francisco caminha ro agradecimento se dirige ao Onipotente e
por entre o povo para simplesmente levar a paz e Bom Senhor, o Doador de todos os dons, e à
fazer o bem a todos. Esta forma de vida atraiu ou- sua Mãe Santíssima, a Imaculada Virgem Ma-
tros ‘arautos’ que, com e como Francisco, abraça- ria, a “Mamã Muxima”, Mãe protetora da Mis-
ram a mesma vida identificada como ‘expressão’ são. Nesta ação de graças a Deus está também
viva do santo Evangelho (cf. 1Cel 32). E quando nosso agradecimento à Igreja de Deus que está
chegam ao número de 12 ‘irmãos’’, vão a Roma e em Angola: Bispos, sacerdotes, missionários,
se encontram com o Papa Inocêncio III e dele re- religiosos, religiosas e ao povo angolano. Uma
cebem o mesmo mandato evangélico: “Ide, com Igreja que nos acolheu, compreendeu, incenti-
o Senhor, irmãos, e pregai a todos a penitência” vou e nos perdoou nas nossas fragilidades hu-
(1Cel 33). manas. Neste mesmo hino de ação de graças se
A Ordem Franciscana, desde os seus primór- encontram todos os confrades que se fizeram
dios, se entende como irmãos enviados pelo Se- presentes na missão, tanto os da nossa Província
nhor para darem “testemunho da sua voz pelo como os das outras Entidades: muito obrigado
mundo universo” (CtOr 9). pelo vosso “SIM” missionário. No mesmo hino
Este espírito missionário, tão vigoroso e heroi- de louvor estão presentes todos os benfeitores e
co nas origens da Ordem Franciscana, é funda- benfeitoras, os voluntários e todas as pessoas de
mental para compreender e justificar a presença boa vontade que, no mesmo espírito e unida-
dos 25 anos da nossa Província Franciscana da de, compartilham a vida e a generosidade como
Imaculada Conceição do Brasil em terras ango- verdadeiros missionários. Enfim, neste mesmo
lanas. Jamais podemos nos esquecer de que esta hino de ação de graças, já cantado no som e rit-
Missão foi abraçada em tempos de dificuldades mo de Angola, estão os confrades, os postulan-
extremas, de carências e de muitas dores. Con- tes, os aspirantes e os seminaristas da Fundação
tudo, não faltaram aos nossos primeiros confra- Imaculada Mãe de Deus: irmãos dados pelo Se-
des enviados a esta nova frente missionária a fé, nhor, com alma e rostos angolanos!
a ousadia profética e a coragem do testemunho. “Louvai e bendizei o meu Senhor, e dai-lhe gra-
Como também não podemos nos esquecer de ças, e servi-o com grande humildade”.
que estes primeiros irmãos eram o dom mais
precioso do nosso singelo ofertório, da nossa
ação de graças e do nosso gesto concreto de ‘res-

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Documento

A ÁFRICA NOS CHAMA
TTranscrevemos os principais trechos da Carta “A Áfri-
ca nos chama”, apresentada pelo Ministro Geral Frei quase exclusivamente em termos de cultura ocidental, especial-
John Vaughn, OFM, por ocasião do oitavo centenário mente na cultura de Assis e da Itália. Cremos que a experiência
de nascimento de São Francisco. Este jovem continente foi es- africana dos valores humanos e religiosos possa dar-nos, a nós to-
colhido pela Ordem Franciscana para dar continuidade à fra- dos, novas intuições dos valores, tão importantes para nós, como
ternidade que Francisco iniciou na pequena cidade de Assis. a oração, a pobreza, a minoridade, a alegria, a simplicidade, a vida
fraterna, o estilo de vida evangélica ...

Oferecimento franciscano Prioridade sobre o trabalho
O irmão missionário será, primeiramente e antes de mais nada, Nossa decisão de sublinhar o valor da fraternidade sobre o tra-
um hóspede e um discípulo na Igreja local; mas ele não vem com balho implica numa nova escolha importante. Também o nosso
as mãos vazias; seu dom à Igreja local é a espiritualidade francis- método missionário deve assumir um caráter diferente. O pri-
cana, que está viva na Igreja universal. Cremos que esta espiri- meiro objetivo é a realização destes valores da fraternidade em
tualidade é um aspecto particular da vida total da Igreja, à qual nosso estilo de vida. A própria experiência da fraternidade se
os africanos têm direito, como qualquer outro membro da Igreja converte num objetivo. Para nossos irmãos será um passo essen-
universal. Nós procuramos compreender este novo modo à luz cial para o momento em que todo o peso da missão estará sobre
dos sinais dos tempos hoje, e estamos muito animados, neste os ombros deles.
sentido, pelas respostas dos Bispos, encontradas numa recente No passado os irmãos andaram pelas regiões mais afastadas do
viagem de orientação pela África. mundo para levar o Evangelho e, muitas vezes, estiveram a sós por
Resposta africana muito tempo. E muitos ainda vivem assim. Isto não é contrário ao
Esperamos que este novo modo de enfrentar as coisas clarifique franciscanismo e temos o maior respeito e admiração por seu espí-
outro aspecto daquilo que a missão é na Igreja hoje. A evangeli- rito de sacrifício e pelos resultados obtidos. É uma opção pelo bem
zação é um processo com duplo sentido: no sentido em que se dá da missão. Pensamos que esta escolha deva ser cedida aos próprios
e se recebe. Portanto, em nosso caso deveria existir uma resposta irmãos africanos. Mas, deveriam ter, sobretudo, a plena experiên-
africana ao nosso oferecimento da espiritualidade franciscana. cia da fraternidade franciscana; somente mais tarde, e com esta
Até agora, a vida e o trabalho de Francisco foram interpretados experiência, poderão decidir o que a vocação missionária parece
exigir deles, uma cultura particular, num tempo particular.

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Novas estruturas jurídicas um convite para uma colaboração mais íntima em objetivos e
A interprovincialidade deste Projeto-África terá também uma projetos comuns.
particular estrutura jurídica para a nossa presença franciscana. As perturbações, que estão acontecendo na África, tocam pro-
Uma vez que muitas situações só podem ser previstas de maneira fundamente a muitos africanos. As mudanças políticas, econô-
muito genérica, parece aconselhável que as estruturas devam ser micas e sociais privaram a muitos africanos de sua segurança e
simples e flexíveis. Para ser eficaz, o grupo internacional e inter- da proteção de sua tradicional comunidade social. Muitos deles
provincia1 dos irmãos fará bem reduzindo ao mínimo a quanti- estão isolados e marginalizados e em busca de uma nova comu-
dade de estruturas que agora tem e, por outro lado, assumindo nidade. É sobre este tema da comunidade que os esforços missio-
uma atitude aberta para a integração na cultura africana, já desde nários do Islã e da Cristandade poderão atingir aqueles africanos
o princípio. que escutam atentamente e que estão em busca de identidade e
Ao mesmo tempo, visto que serão necessárias algumas estrutu- segurança. Não devemos aproveitar esta ocasião e oferecer-lhes
ras, para formar as Comunidades, para determinar as responsa- o carisma da fraternidade franciscana como resposta às suas ne-
bilidades, para manter os laços com a Cúria Generalícia e com as cessidades?
Províncias de origem, já se começou, na Cúria Geral, um estudo Finalmente, teremos um número maior de irmãos africanos. Isto
para um esquema de estruturas provisórias adaptadas. nos ajudará a compreender melhor o Terceiro Mundo africano
Preparação adequada e qual poderia ser a nossa colaboração franciscana. Então, os
A cuidadosa preparação de uma iniciativa como está é uma franciscanos africanos serão os missionários de seu continente.
exigência justa da prudência e do interesse fraterno. De fato, Esta seria uma notícia agradável até para as pequenas entidades já
muitos bispos africanos e missionários nos aconselharam to- existentes na África. Com o tempo, os reforços para eles deverão
mar muito a sério esta preparação. As diferenças culturais e as chegar dos próprios africanos.
sensibilidades nacionalistas são hoje muito mais aguçadas do A autonomia do Terceiro Mundo em geral, e da África em par-
que eram no passado. Além disso, cada grupo levará consigo as ticular, tem assim uma aplicação para aquilo que diz respeito ao
próprias dificuldades, causadas pela posição interprovincial e futuro de nossas fraternidades africanas. Mas o nosso motivo
internacional. O compromisso missionário põe-se em discus- para estabelecer mais solidamente a Ordem na África vai mais
são, já desde o princípio, pela prioridade da inculturação e da além. A África e todo o Terceiro Mundo estão ansiosos para sair
exposição transcultural. de si mesmos. Não se recusam apenas a fazer o papel do neces-
Os membros de qualquer grupo que vá à África deverão conhe- sitado, mas desejam compartilhar suas riquezas, que não são
cer-se bem entre si. Estes receberão uma primeira introdução na riqueza econômica ou superioridade tecnológica, mas uma rica
cultura para a qual estão sendo designados e começarão o estudo experiência de formas de vida alternativa e de interação huma-
da língua. Neste estágio, a Secretaria Geral das Missões e uma na. Podem ainda oferecer valores e intuições religiosas. Aqui en-
comissão consultiva terão um trabalho importante. contramos a Missão como processo com duplo sentido: naquele
MOTIVAÇÕES DO PROJETO-ÁFRICA em que o Primeiro Mundo assume o papel de quem recebe com
Devemos reconhecer a importância que o Terceiro Mundo está agradecimento.
assumindo no atual desenvolvimento mundial. Sua riqueza em Em nosso caso, esperamos com ansiedade saber mais do Fran-
matérias primas, a explosão demográfica e a sucessiva emigração cisco africano e dos pontos de vista e da experiência africana da-
de milhões de pessoas, está produzindo efeitos políticos e econô- queles valores que reconhecemos como parte de nossa identida-
micos duradouros. No entanto, o atual sistema de assistência eco- de franciscana. Este novo contato com o mundo africano pode,
nômica não poderá conter, por longo tempo, a energia potencial pois, abrir nossos olhos ao sempre crescente número de asiáticos
que está escondida nestes países. Os peritos creem que a nova fase e de africanos no Primeiro Mundo, milhões dos quais represen-
dos anos 80 poderia ser a crescente tomada de consciência do tam uma tradição não cristã. Poderia dar nova energia ao nosso
Terceiro Mundo a respeito de suas potencialidades. Tendências modo de ser missionário com eles e a tantas outras situações não
semelhantes virão à luz na própria Igreja, e é importante que a cristãs de nosso ambiente.
Ordem esteja preparada para enfrentar estes desenvolvimentos. Uma presença mais intensa na África nos faz estarmos presentes,
A África certamente desempenhará o seu papel neste crescimen- de um modo positivo e de fato, entre os povos que passam fome,
to de autoestima. que não têm casa, entre os enfermos, os analfabetos, as vítimas
Também no campo religioso a África oferece oportunidades úni- da guerra e da tirania. São Francisco e seus seguidores podem
cas. Ao contrário da Ásia, onde as religiões mundiais já há muito dar uma ajuda, mas sobretudo muita esperança, alegria e princi-
tempo são de casa, a África poderá converter-se em cenário de palmente paz. Queira Deus conceder-nos a graça de sermos hoje
encontro entre as religiões mundiais, como o Cristianismo e o grandes pacificadores, especialmente entre os terríveis perigos
Islã e as antigas culturas africanas. Isto daria uma oportunidade dos armamentos nucleares. Muitos irmãos preocupam-se em
às duas para encontrar novas respostas na integração cultural e promover a paz, o que é uma coisa ótima. Oxalá o nosso Projeto-
para uma atitude mais aberta para com as novas situações. -Franciscano-África possa ser um projeto de paz!!!
Tanto o Islamismo como o Cristianismo não deveriam perder a
ocasião de um novo modo de valorizar-se reciprocamente. Em Frei John Vaughn, OFM
lugar de fazer-se a guerra, a nova situação deveria ser vista como Ministro Geral

Roma, 16 de janeiro de 1982

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envio

“E PELO MUNDO EU VOU...”

Há 25 anos, no dia 16 de setembro de 1990, na Missa solene

O bispo de “Eno Seminário de Agudos foram enviados os primeiros missionários
Malange pelo mundo eu vou, cantando o teu Frei Plínio Gande da Silva, Frei José Zanchet e
amor, pois disponível estou para servi-te, Frei Pedro Caron. Eles representavam os 550
recepciona Senhor!” frades da Província Franciscana da Imaculada
O canto ecoou solene na bela igreja do Semi- Conceição, que naquela momento dava o seu
os primeiros nário Santo Antônio de Agudos no dia 16 de “sim” à convocação do Ministro Geral, Frei John
missionários setembro de 1990, já Festa das Chagas de São Vaughn, com o pedido “A África nos chama”.
na chegada Francisco de Assis, festa que fala diretamente da Antes de entregar a Cruz Missionária, o Minis-
Cruz do Senhor, quando era celebrada a Missa tro Provincial lhes fez três perguntas, em que
a Malange. de Envio dos primeiros missionários a Angola. estava embutido o programa da Missão:
À direita , a Na celebração presidida pelo Ministro Provin- - Diante de representantes de mais de 20 Frater-

celebração
do envio em cial, Frei Estêvão Ottenbreit, estavam os três nidades de nossa Província, eu lhes pergunto se,
Agudos. missionários, que abririam as trilhas da Missão: de fato, estão dispostos a partir e a perseverar

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em todas as adversidades e, na alegria francis- frei plínio
cana, dar testemunho de total entrega à Missão,
incluída a própria vida? A MAIOR
- Partindo para a missão na África, vocês deve- EXPERIÊNCIA
rão – como o Cristo fez quando veio ao mundo DE DEUS NA
– encarnar-se no povo a quem vão servir. Estão MINHA VIDA
dispostos a renunciar a seus modos culturais de
viver, fazendo todo o esforço para levar a paz e Natural de Divino, em Minas Gerais,
o bem na convivência plena com a nova cultura Frei Plínio Gande da Silva vestiu o há-
que vocês vão encontrar? bito franciscano em 11 de fevereiro de
- Vocês irão à Missão não para satisfazer a pró- 1962. Ele professou como Irmão Leigo na Ordem
pria vontade. Vocês irão em nome de todos os dos Frades Menores em 7 de julho de 1969. Para
confrades da Província. Vocês irão como se o Frei Plínio, ser missionário na África foi a reali-
próprio Pai São Francisco refizesse sua Missão zação de um sonho e que ele classifica “como a
na África. “De São Francisco se disse que leva- maior experiência de Deus” em sua vida.
va sempre Jesus no coração, Jesus na boca, Jesus “Desde pequeno via os missionários verbitas
nos ouvidos, Jesus nos olhos, Jesus nas mãos, Je- e redendoristas e dizia que um dia seria mis-
sus em todos os membros do seu corpo”. É exa- sionário”, explica o frade, contando como foi a
tamente isto que vocês querem fazer na Missão? chegada a Angola. “Encontramos um país em
Naquele dia, Frei José revelou que havia dentro guerra. Inclusive ao chegarmos no aeroporto
dele um fogo que teimava em não se apagar, já estava à nossa espera o Bispo Dom Eugênio,
que em 1967 partiu para o Chile e, em 1984, que nos saudou com a seguinte frase: ‘Se vocês
partiu para o Mato Grosso. Agora, definindo-se estão pensando em Teologia de Libertação, po-
como “louco”, viajava a Angola para “o que der dem pegar o mesmo avião de volta para casa’.
e vier”. Logo após, começou um tiroteio entre UNITA
Frei Plínio confessou: “Parto feliz – acrescentou e MPLA, pois a UNITA queria conquistar o
– de uma felicidade nunca antes experimentada aeroporto. Todos ficaram deitados no chão até
por mim”. que a MPLA tivesse o controle da situação”.
Já Frei Pedro revelou que nunca tivera coragem “Achava que era uma guerra isolada e que não
de se apresentar para a Missão no Mato Gros- nos prejudicaria tanto. Mas a realidade foi ou-
so, por ser muito longe. E não sabia explicar tra e chegamos a ficar dois anos isolados do
por que partia naquele momento. Para ele, era a mundo em Kibala (93-95). Para mim foi a
vontade de Deus: “Deus escolhe os mais simples maior experiência de Deus na minha vida, pois
e tolos. Coloca-se entre eles para dizer, como a todo momento sentia sua presença em meio
Isaías: ‘Eis-me aqui, enviai-me’.” à guerra que não tinha fim”.
Os três missionários embarcaram no dia 24 de Frei Plínio, que reside na Fraternidade Nossa
setembro de 1990 e chegaram em Angola no Senhora Aparecida de Nilópois, ficou em An-
dia 25. gola oito anos e agora volta para celebrar os 25
anos. “Espero encontrar um País sem guerra,
sem fome, onde as crianças tenham o direito à
educação, saneamento básico, hospitais. Nos-
sos confrades em evangelização com o povo,
acolhendo novos vocacionados. E o direito de
ir e vir do povo”.
Para quem quiser fazer a experiência missio-
nária, Frei Plínio recomenda: “Vá com muita
fé , esqueça toda sua cultura e procure se incul-
turar com o povo”.

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FREI PEDRO

“Procurava dar a melhor
mensagem à luz do Evangelho”atural de Água Doce (SC), Frei Pedro
Caron esteve na Missão por doze anos e

Nmeio, em três períodos. “Numa conversa
ros, junto à vila. Estavam ali insepultos há duas
semanas devido à guerra civil. Eram quatro
defuntos. Foi uma experiência de fé. Eu propus
com Frei Estêvão Ottembreit, então ministro fazer essa obra de misericórdia num domingo.
provincial, sobre missão ad gentes, ele me de- Em outra ocasião, devido à gravidade da guer-
safiou: você não quer ir para missão? (Guiné ra, tivemos a oportunidade de voltar para casa
Bissau era a primeira proposta). Eu falava da com passagem paga pelo governo brasileiro.
China. Admirava o país, mas o problema era Mas nós, frades, nos reunimos e decidimos
a língua. Diante do desafio, fui rápido: ‘topo’! continuar junto do povo”.
Mais tarde, Frei Estêvão me falou que havia Segundo Frei Pedro, esses anos vividos em
sido o primeiro a se apresentar e que a missão Angola marcaram sua vida: “Aprendi a virtude
Em pé, da esq. seria em Angola”, recorda o missionário, hoje da paciência, da alegria, a valorizar o canto, a
para dir: Frei residindo em Concórdia. dança, a família, os símbolos religiosos e a co-
Frei Pedro, que ingressou na Ordem Francis- munhão com os mais sofridos. Procurava dar a
Evaldo, Frei cana em 19 de dezembro de 1964, não esquece melhor mensagem à luz do Evangelho”.
Plínio, Frei duas experiências que viveu ali. “Numa oca- Para os novos missionários, Frei Pedro reco-
Lotário e Frei sião, em Kibala, Frei José Zanchet, eu e mais menda: “Acredite de verdade no Cristo! Viva
José. Agachados,
Frei Pedro e Frei alguns homens fomos enterrar cadáveres que a espiritualidade de São Francisco, seja sim-
Juvenal Sansão. jaziam ao sol numa espécie de rotatória de car- ples, acolhedor, enfim, frade menor!”

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Completando 80 anos em 2015, (ele nasceu no Frei José Zanchet
dia 27 de outubro de 1935), Frei José Zan-
chet é a história viva da Missão Franciscana ELO VIVO ENTRE
em Angola. Componente do primeiro grupo en- O PASSADO E O
viado pela Província da Imaculada ao país africa-
no, viveu em Malange e Kibala, em sua primei- PRESENTE
ra passagem pela missão, que durou cinco anos
(entre 1990 e 1995) e hoje vive em Viana, em sua disposto mesmo, e eu respondei: ‘Claro, mande-
segunda experiência na missão (desde dezembro -me’”, conta Frei José, mostrando que desde o iní-
de 2013), quando foi transferido da Fraternidade cio estava inteiramente à disposição para integrar
São Francisco Solano, de Curitibanos, SC. este projeto missionário.
Com quase 60 anos de vida religiosa, Frei José Diante da resposta positiva de Frei José, foram
tem como marcas a disposição missionária (este- realizados os encaminhamentos necessários. A
ve no Chile, no Sertão da Bahia, no Mato Grosso celebração de envio ocorreu no dia 16 de setem-
e em Angola) e aptidão para atividades práticas, bro de 1990, no Seminário Santo Antônio, em
ligadas à eletricidade, pequenos reparos, etc.). Agudos, e o embarque dos missionários, entre
Gaúcho de Três Arroios, RS, animou-se em par- eles Frei José, foi no dia 24 de setembro do mes-
tir para terras angolanas depois que participou de mo ano, sendo que no dia seguinte já estavam em
um encontro realizado para os interessados em Luanda e, depois, Malange, lugar onde ficariam
conhecer um pouco mais da proposta de presen- instalados.
ça da Província em Angola, realizado entre 22 e Angola estava em guerra civil e Frei José conta
24 de junho de 1990, no Convento São Francisco, que as dificuldades deste conflito já puderam
em São Paulo. Na época Frei José trabalhava em ser sentidas na chegada. “Quando desembar-
uma paróquia de Dourados, MS, e relata que a camos em Malange, a primeira coisa que vimos
partir daquele encontro em São Paulo se sentiu do avião foram sete ou oito soldados com as
chamado a seguir para a África: “Eu cheguei na metralhadoras apontadas. Descemos e tivemos
Paróquia em Dourados e logo me sentei para es- que fazer novamente todos os papéis – mesmo
crever uma carta ao Provincialado, dizendo que já tendo passado por todos os trâmites em Lu-
estava pronto para partir. Uns quinze dias depois, anda – como se estivéssemos chegando a um
Frei Estêvão Ottenbreit (Ministro Provincial da país estrangeiro. Como não havia nenhuma
época) me telefonou perguntando se eu estava mesa para nos apoiarmos, pedi ao Frei Plínio
Gande, outro missionário do primeiro grupo,
para me ‘emprestar’ as costas e, assim, preenche-
mos os papéis um nas costas do outro”, recorda.
Por conta das dificuldades de comunicação, a
comunidade da Missão em Malange também
não tinha informações precisas sobre a hora de
chegada dos missionários, mas mesmo assim,

| 25 anos | FIMDA | 11

Duas dentro das possibilidades, fomos muito bem re- sos para o Centro de Kibala. Praticamente íamos
gerações: o cebidos.” “A recepção foi muito carinhosa. Mais ser fuzilados. Entraram em nossa casa, pergunta-
ou menos uma hora e meia de cantos e home- ram quem eu era e logo me deram um bofetão no
angolano nagens, até que seguimos para casa, já pelas 16h rosto que quebrou meus óculos. Fui me defender
Frei António do dia 25 de setembro, para almoçar e descansar com o cotovelo e levei outro tapa”, conta Frei José,
um pouco da viagem. segundo o qual, naquele dia, os frades só não fo-
abraça Frei O primeiro trabalho dos frades em Malange foi a ram mortos porque um dos chefes da Unita os
José Zanchet, visita às comunidades da missão, que eram cerca reconheceu.
de 135, muitas delas de acesso muito difícil. Frei Esta ofensiva contra os frades ocorreu por dois
o primeiro José Zanchet destaca e menciona a importância motivos: o primeiro porque naquela ocasião Ki-
missionário. da figura dos catequistas para a sobrevivência bala estava sob o domínio da Unita e alguns he-
em Angola. De acordo com o frade, nas aldeias, licópteros do governo pousaram no terreno da
que recebiam a visita esporádica de missionários, missão, o que levou os dominadores da cidade
eram estes homens que mantinham acesa entre a imaginarem que os frades estivessem dando
o povo a chama da fé. Os catequistas organiza- apoio às tropas rivais. E a outra motivação foi o
vam os trabalhos pastorais e também conduziam fato de os frades abrigarem alguns meninos e jo-
as celebrações de domingo. Com frequência se vens, pois, a partir dos 11 anos, eles eram pegos à
entusiasmavam e as celebrações ficavam longas, força para trabalhar pelos combatentes.
fato do qual Frei José se recorda com certo hu- Conseguir comida também era uma verdadeira
mor. aventura. O pouco que obtínhamos de alimen-
Frei José e os outros dois missionários perma- tos era através de Frei Plínio Gande da Silva que,
neceram em Malange até o fim de agosto de a partir da troca de peças de roupa, cartelas de
1992, quando foram transferidos para a cidade remédio ou outros artigos que levava até a praça
de Kibala, na Província do Kwanza Sul, a con- (espécie de mercado informal a céu aberto), con-
vite do então bispo da Diocese de Sumbe, Dom seguia algo para se comer.
Zacarias. Eles ocuparam as instalações dos Pa- Outra grande dificuldade era para se comuni-
dres Espiritanos, que haviam deixado a área por car. Os frades em Kibala ficaram mais de um
conta da guerra. ano sem nenhuma comunicação com os de-
O início da Missão em Kibala foi no dia 31 de mais confrades. A única maneira que tinham
agosto de 1992. Os trabalhos principais eram a para se informar era um pequeno radinho
assistência às Irmãs Clarissas, que na época mo- improvisado que funcionava movido a ener-
ravam naquela cidade, e o acompanhamento das gia gerada por uma roda de bicicleta. “Nós im-
aldeias. As dificuldades eram muitas, principal- provisamos um gerador com uma bicicleta que
mente por conta da guerra. Num momento de colocamos de cabeça para baixo. Enchemos o
grande tensão, Frei José relata que os frades che- pneu com pedaços de pano velho e ali giráva-
garam a ver a morte de perto: “O mais triste foi mos para ter energia para o radinho e assim
quando invadiram nossa casa e nos levaram pre- conseguíamos ficar minimamente informados.
Frei José retornou de Kibala para o Brasil em
1995. Em 1998, depois de Frei Valdir Nunes
Ribeiro sofrer um atentado, os frades se reti-
raram de lá, retornando àquela localidade em
2008, bem depois do fim da guerra. Pergun-
tado sobre o que o levou a querer retornar à
missão às vésperas de completar 80 anos, Frei
José aponta dois motivos: o carinho que ele
adquiriu pela missão na primeira vez em que
lá esteve e também a curiosidade sobre como
estaria o país depois do fim da guerra. Frei José
declara que se sente feliz nesta nova etapa na
missão, mas revela que, conforme se propôs
para esta segunda etapa, pretende solicitar
à Província seu retorno ao Brasil no mês de
maio de 2016.

12 | FINDA | 25 anos |

FREI LOTÁRIO,
MISSIONÁRIO PARA SEMPREgaúcho Frei Lotário Neumann não

ficou muito tempo em terras angola-

Onas, mas escreveu para sempre o seu
nome na história da Fundação Imaculada Mãe
de Deus de Angola. Ele partiu em missão no
dia 21 de março de 1992, junto com Frei Evaldo
Melz, e foi levado pela Irmã Morte no dia 4 de
janeiro de 1993.
“Você parecia vender saúde, forte, disposto,
resoluto e dedicado, transpunha com relativa
facilidade muitos obstáculos e dificuldades, en-
quanto os outros companheiros se viram ime-
diatamente nas garras do paludismo, minando
a saúde e o estado psicológico. De repente, você
em poucos dias recebeu o convite da Irmã Mor-
te para despedir-se de nós, deixar tudo como
prometeu no dia de sua profissão religiosa e
‘possuir’ unicamente Deus”, escreveu Frei Estê-
vão Ottenbreit, então Ministro Provincial, em
carta se dirigindo a Frei Lotário após o seu fa-
lecimento.
O missionário gaúcho nasceu em Arroio do
Meio (RS) e ingressou na Ordem Franciscana
em 1966 pela Província São Francisco de Assis,
onde professou solenemente no dia 2 de abril
de 1972. Ordenou-se presbítero no dia 27 de
dezembro de 1975. Trabalhou na formação, foi
procurador vocacional e foi eleito duas vezes
Definidor. Em Angola, foi nomeado guardião da
Fraternidade de Malange e guardião da Missão.
“Você muito bem sabia da minha preocupação
constante a respeito da situação precária de nos-
sa missão em Angola (precariedade material e
necessidade de pessoal). Em diversos momen-
tos partilhamos esta preocupação. Por isso suas
palavras de despedida calaram tão fundo em
mim. Suas últimas palavras foram: ‘Conte sem-
pre comigo na missão de Angola!’ Frei Lotário,
quem de nós poderia imaginar que estas pala-
vras tão depressa adquiririam importância defi-
nitiva? Agora, sim, elas se cumpriram! A África
o acolheu para sempre. Em seu chão banhado
de sangue dos que morrem vítimas da guerra
fratricida e de suas funestas consequências, nós
o deitamos como se deita um grão de trigo na
terra”, acrescentou Frei Estêvão na carta de des-
pedida.

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entrevista FREI ESTÊVÃO OTTENBREIT

GRATIDÃO E ALEGRIA

A Província Franciscana da Imaculada Conceição do Brasil celebrou em 1991 o centenário de
sua restauração graças aos missionários alemães. Esse momento de alegria e gratidão ganhou da
Fraternidade Provincial uma corajosa decisão de enviar missionários brasileiros para Angola.
À frente desta nova empreitada estava um missionário alemão, Frei Estêvão Ottenbreit, um dos
responsáveis – senão o responsável – personagens deste primeiro capítulo da história de 25 anos da
presença franciscana em Angola. Incansável, destemido, Frei Estêvão estava à frente da Província
da Imaculada no segundo mandato como Ministro Provincial quando iniciou o processo para
o envio dos missionários. Natural de Grosswallstadt, na Alemanha, onde nasceu no dia 6 de
setembro de 1942, Frei Estêvão veio para o Brasil ainda jovem, onde recebeu o hábito franciscano
no Noviciado de Rodeio em 1963. Ordenado presbítero em 1969, em 1982 era eleito Vigário
Provincial e, de 1985 a 1994, Ministro Provincial. Nesses dois mandatos, não poupou esforços
para ver a Missão de Angola se tornar uma realidade, mesmo em meio às enormes dificuldades,
especialmente no período da guerra. Hoje, fala com emoção e alegria dos frutos que a Missão
colhe. Para ele, este jubileu tem que ser festejado com gratidão e muita alegria!

Por Moacir Beggo A ideia de partir em missão na África surgiu por
ocasião do Centenário de Restauração da nossa
Por que a Província decidiu Província por missionários franciscanos alemães.
abrir uma frente missionária? Como sabemos, a antiga Província franciscana
Frei Estêvão – A primeira resposta deveria ser esteve muito próximo de se extinguir. A partir
– e deve ser – porque a Ordem Franciscana é de 1855 não podia mais acolher novos membros,
missionária. Somos chamados para sermos en- noviços. Então, bastaram quarenta anos para re-
viados. Logo, devemos ser missionários lá onde duzir uma Província em decadência - também
estamos. Concretamente aqui, no Brasil, nos cin- por outras causas - a um único sobrevivente em
co estados – Espírito Santo, Rio de Janeiro, São 1889, ano da proclamação da República.
Paulo, Paraná e Santa Catarina, mas também em Nessa mesma época, os católicos alemães sofriam
lugares além do território da Província. perseguição por parte do chanceler Otto von Bis-
marck, cujo sonho era transformar a Alemanha
num país protestante (já que a reforma protes-
tante teve seu início na Alemanha). Encorajados
pelo superior da Ordem em Roma, os francisca-
nos tomaram a decisão de partirem em missão
ao Brasil e reerguer a nossa Província em vias de
extinção. Chegaram em 1891. Cem anos depois,
em 1991, preparando esse centenário da chegada
dos primeiros missionários alemães, refletimos
sobre como poderíamos celebrar este evento.
Uns achavam que seria interessante escrever um
livro, outros que deveríamos fazer uma grande
celebração, outros ainda que poderíamos cons-
truir um monumento para comemorar esta data
significativa. Foi neste clima que apareceu a ideia
de repetirmos o gesto dos missionários alemães

14 | FINDA | 25 anos |

| 25 anos | FIMDA | 15

O centenário nos deu o motivo e A missão era, então, tornar
a carta, a direção e o modo de como conhecido o carisma franciscano?
deveríamos estar presentes em Angola Frei Estêvão – Sim. A nossa missão seria antes
de tudo esta. Pode soar um pouco forte o que
quando vieram para restaurar a nossa Província. vou dizer agora: não fomos para resolver os pro-
Em outras palavras: assim como eles vieram, nós blemas sociais da África ou para resolver os de-
vamos partir. safios da Igreja em Angola, mas para a “implan-
tatio ordinis” (fazer surgir uma nova entidade
Era uma forma de a Província franciscana em Angola). Evidentemente, quan-
retribuir a gratidão com o mesmo gesto? do fomos, queríamos nos tornar úteis também
Frei Estêvão – Sim, exatamente. Queríamos nestes dois sentidos, seja em obras sociais, seja
imitá-los indo a um lugar onde a Ordem ainda em serviços pastorais. Basta dizer que nos fo-
não estava presente. Na época tínhamos bem ram confiadas três paróquias, nas quais há obras
presente uma carta que o então Ministro Geral, sociais atendendo a diversas necessidades. Mas
John Vaughn, escrevera em 1982 com o título “A a principal “tarefa” da nossa ida era e continua
sendo fazer conhecido o carisma franciscano,
entusiasmar jovens angolanos para abraçarem

Da esq. para África nos chama”. Esta carta foi motivada pela esse carisma e ajudar a constituir uma entida-
dir.: Frei constatação que a Ordem estava espalhada pelo de angolana na perspectiva da carta “A África
mundo inteiro, mas muito reduzida no conti- nos chama”. Nela encontramos as principais
Alexandre nente africano. Inicialmente até voltamos nossos referências para o porquê e o como estarmos
Magno e Frei olhares para Guiné Bissau, onde já estavam fran- presentes nesta missão. Por isso é sempre bom
Luís Iakovacz ciscanos italianos e portugueses. Depois se achou lembrar essa carta aos atuais e futuros frades -
celebrando na melhor ir para Angola onde ainda não havia uma brasileiros e angolanos – da missão em Angola
presença OFM. Então, juntaram-se as duas coi- para que possam, cada vez mais “dar um rosto
aldeia. sas: o motivo do centenário e o apelo da carta “A angolano” aos enfoques franciscanos, assumin-
África nos chama”. O centenário nos deu o moti- do valores da cultura local. Ao completarmos 25
vo e a carta, a direção e o modo de como deverí- anos de presença em Angola temos que manter
amos estar presentes em Angola. O Ministro Ge- viva essa memória.
ral, nesta carta, indica que se de um lado, como
diz o Evangelho, devemos ir sem levar nada, por O que levou a Província a optar
outro lado, “não vamos de mãos vazias”. Em ou- por Angola se temos no Brasil
tras palavras, quem vai deve ir com a consciên- muitos descendentes africanos?
cia de ser portador do carisma franciscano a ser Frei Estêvão – Essa pergunta foi a que mais
partilhado com nossos irmãos africanos. Uma ouvi quando nos decidimos por Angola. Por
presença, portanto, como irmãos e menores, par- duas vezes viajei na companhia do então secre-
tilhando o carisma franciscano com jovens dis- tário da Província, Frei Anacleto Gapski (1989
postos a abraçá-lo e dando-lhe um rosto africano. e 1990), para preparar a nossa presença. Por

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que Angola? Num resumo breve de uma longa A principal ‘tarefa’ da nossa ida
história devo mencionar que houve um pedido era e continua sendo fazer conhecido
do bispo de Sumbe, Dom Zacarias Kamuenho, o carisma franciscano
enviado à Curia Geral da Ordem em Roma.
Pedia assistência para as irmãs clarissas mexi- todas as partes. Para não sair, facilmente se en-
canas que fundaram um mosteiro na diocese. contra mil e bons argumentos...
Esta carta não obteve resposta positiva. Alguns Mas, nós queríamos colocar um sinal claro (no
anos mais tarde, porém, um outro bispo, desta ano jubilar) de partilha do pouco que tínhamos
vez o bispo de Malange, Dom Eugênio Salessu, para quem não tinha nada. De abrir-nos, de ser
escreveu ao Ministro Geral da Ordem pedindo “uma Igreja em saída” como nos diz o Papa Fran-
pelo mesmo motivo a presença de frades em cisco hoje. Sem esquecer o tema da restituição à
Malange (para o mosteiro de clarissas que vie- África pelo tanto que nos deu no passado. Con-
ram da Espanha). Ele teve mais sorte porque fesso que estas perguntas e críticas nos deram
seu pedido coincidiu com a nossa manifesta- oportunidade de refletir sobre o verdadeiro sen-
ção de querer partir em missão para a África. tido de partir em missão.
Assim acabamos indo para Angola e, a rigor,
estamos lá por causa do pedido das irmãs cla-

rissas. Mais tarde elas até se tornariam decisi- Em algum momento, o Sr. teve medo Da esq. para
vas para que pudéssemos consolidar a nossa de não dar certo este projeto missionário? dir.: Frei Simão
presença em Angola. Frei Estêvão – Como estava envolvido pessoal- Laginski; Frei
Voltando à pergunta feita com frequência, até mente na celebração do centenário e no envio dos Piaia, Frei
num certo tom de crítica: realmente, temos primeiros missionários, devo dizer que algumas Angelo José,
muitas situações semelhantes e desafiadoras na vezes tive realmente receio de não dar certo. De Frei Angelo
sociedade e na Igreja no Brasil. Mas como já es- um lado, simplesmente pelo fato de que, quando Vanazzi, Frei
tava tentando explicar: nossa inspiração e tarefa partimos, Angola ainda estava em plena guerra Márcio, Frei
explícita vinha da carta “A África nos chama”, que civil. Só para lembrar, na primeira viagem, eu e Ivair, Frei José e
nos pedia uma presença em países onde a Ordem Frei Anacleto só conseguimos chegar a Luanda. Frei Paulo.
ainda não estava presente e, principalmente, para Era impossível chegar a Malange por causa dos
compartilhar com outras culturas o carisma fran- combates. Nessa primeira viagem encontramos o
ciscano. bispo de Malange em Luanda, de tal modo que a
Lembro-me também que, neste contexto, se viagem não foi em vão. Já na segunda viagem con-
questionava a entrega de conventos. Concre- seguimos ir até Malange. Levamos literalmente
tamente, o convento de Ipanema na cidade do dois dias para fazer uma viagem que hoje se faz em
Rio de Janeiro. Tive até certa dificuldade de en- pouco mais de 4 horas. As estradas estavam muito
contrar uma resposta para as Irmãs Clarissas do esburacadas e, a cada dez ou quinze quilômetros,
mosteiro do Rio de Janeiro que insistiram em havia o perigo das minas bloqueando a estrada.
dizer que “Ipanema, também era terra de mis- Então, o medo estava presente sim. Além do mais,
são”. Enfim, observações deste tipo vinham de os primeiros missionários viveram lá em condi-

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Quando fomos aconselhados a sair de Angola, nas mãos da UNITA. Um belo dia, porém, pou-
os frades foram categóricos: ‘Não vamos sair! sou um helicóptero no terreno amplo e plano da
O povo sofre. Vamos sofrer com eles’. “Missão”. Bastou para que os homens da UNITA
desconfiassem dos frades, suspeitando da cola-
ções muito precárias (de alimentação, de conforto boração dos frades com as forças do MPLA. Por
e de segurança). Por muito tempo, tomar banho causa disso, quase foram mortos no paredão. Por
só era possível de “canequinha”. Havia falta de água sorte escaparam pelo reconhecimento da parte
e de comida. Eu me recordo que Frei Plínio (Frei de um dos soldados. Sem exagero, se pode dizer
Plínio Gande da Silva), um dos primeiros missio- que os frades foram muito estimados pelo povo
nários, às vezes saia de manhã com uma peça de porque eram os únicos, durante os duros anos
roupa para ver se conseguia trocá-la na praça (fei- de guerra civil, sempre dispostos a ajudar, ainda
ra) por alguma comida para a fraternidade. Hoje, que fosse só para dar um comprimido para dor
graças a Deus, tudo é diferente. de cabeça.
A mesma sorte não teve o Frei Valdir?
O primeiro destino foi Malange, Frei Estêvão – Frei Valdir Nunes Ribeiro, em
a paróquia e missão de Katepa? outra ocasião, foi baleado por um soldado. Teve
muita sorte ao ser levado de helicóptero para a ca-

Da esq. para Frei Estêvão – Sim, inicialmente nos estabelece- pital Luanda para ser tratado a tempo. Seria lon-
dir.: Frei mos em Malange por causa do convite do bispo go demais contar todas as peripécias da missão
de darmos assistência ao mosteiro das Clarissas. nesse período de guerra. Mas gostaria de lembrar
Laurindo, Atendendo, porém, a conselhos de missionários ao menos uma que aconteceu com este primei-
Frei Odorico experientes, procuramos não ficar na dependên- ro grupo de frades em Kibala por causar grande
cia de uma diocese e de um só bispo. Sabendo preocupação por mais de um ano. Perdemos o
e sua gaita. que o bispo de Sumbe havia feito o primeiro pe- contato com eles por estarem incomunicáveis em
dido aos franciscanos para acompanhar as Cla- território da UNITA. Por duas vezes viajei a Lu-
rissas mexicanas, fizemos contato com ele e nos anda, mas não consegui comunicar-me com eles.
fixamos em Kibala na casa da “Missão” (mas sem E para retomar a pergunta a respeito do receio e
padres na época). No dia 31 de agosto de 1992, do medo relacionados com a nossa presença em
fiz a primeira visita à nova residência dos frades Angola, quero dizer que a atitude dos frades mis-
em Kibala. Frei Plínio e Frei José Zanchet já ti- sionários foi decisiva. Quando a situação ficou
nham chegado no dia 28 de julho. O problema realmente muito difícil em todos os sentidos e até
é que Kibala estava no território dos adversários os respectivos bispos nos aconselharam a retira-
do governo. O conflito era basicamente entre o da, a resposta categórica dos frades foi esta: “Não
governo (Movimento Popular de Libertação de vamos sair. O povo sofre. Vamos sofrer com eles”.
Angola – MPLA) e a oposição (União Nacional
de Independência Total de Angola – UNITA). Mas não foi a guerra que causou a
Inicialmente fomos bem acolhidos no território morte de um dos primeiros missionários?

18 | FINDA | 25 anos |

Frei Estêvão – O nosso projeto missionário Frei Lotário foi a primeira semente que caiu
nasceu aberto para a participação de outras na terra angolana para frutificar. Imaginem o
entidades brasileiras. A Província que imedia- impacto que sua morte causou a todos nós
tamente demonstrou interesse de participar foi
a Província de São Francisco, de Porto Alegre. O problema é que as fez publicamente e as críti-
De modo que, na segunda leva, em março de cas que mais nos dariam trabalho e preocupação
1991, fui ao Rio Grande do Sul para participar foram as dirigidas em carta aberta aos bispos da
do envio de dois confrades gaúchos: Frei Lo- Conferência Episcopal Angolana. Esta carta se
tário Neumann e Frei Evaldo Melz. Frei Lotá- transformou imediatamente num incêndio de
rio estava muito preparado em espiritualidade grandes proporções. Por causa deste “incêndio”,
franciscana e era homem indicado para ser o tive que viajar por diversas vezes a Angola, sem-
coordenador do grupo dos frades em Angola. pre na iminência de ouvir a ordem dos respecti-
Faleceu, porém, em 4 de janeiro de 1993, ví- vos bispos, principalmente do cardeal de Luan-
tima de várias complicações, agravadas ainda da: Voltem para casa! O cardeal de Luanda, Dom
por um paludismo. Frei Lotário foi a primeira Alexandre de Nascimento, não podia nem ouvir
semente que caiu na terra angolana para fruti- a palavra “teologia da libertação”. Na mesma épo-
ficar. Imaginem o impacto que sua morte cau-
sou a todos nós.

Qual foi o momento mais difícil da missão? ca que nós fomos para Angola, foram também os Da esq. para
Frei Estêvão – O mais difícil foi uma boa ideia frades conventuais da Província de Santo André, dir.: Freis em
que tive, mas da qual me arrependo até hoje. Na SP. Por causa das suas críticas tiveram que retirar- Assembleia
mesma época em que decidimos enviar os pri- -se de Angola. Assim nós estávamos também na em 2013 e Frei
meiros missionários para Angola, o Definitório iminência de sermos mandados de volta ao Bra- Evaristo, muitos
Provincial chegou a liberar um confrade para a sil. Nem consigo descrever meu estado de espíri- anos à frente da
Pastoral Afro no Brasil. Então pensei: “Ninguém to e emocional viajando a Luanda na expectativa Missão.
melhor do que ele para acompanhar os primeiros de ouvir do Cardeal: “Saiam daqui!” Mas houve
missionários a Angola, para ter um contato dire- um “anjo” que veio em nosso socorro.
to com a cultura afro, em um país de onde vieram Como foi isso?
pessoas na condição de escravos para o Brasil, Frei Estêvão – Falando da nossa missão em An-
etc”. Assim ele embarcou junto com os três pri- gola e do jubileu de 25 anos de presença, não
meiros missionários, com a licença de permane- podemos nos esquecer daquela que eu chamo
cer por um tempo para adquirir conhecimentos de mãe da Fundação Franciscana em Angola: a
e experiência em vista da Pastoral Afro no Brasil. então abadessa das Clarissas, Fabíola Horga Ruiz.
Pessoa inteligente como ele é, imediatamente de- Espanhola de origem e abadessa do mosteiro de
tectou pontos discutíveis, principalmente olhan- Malange. O cardeal Dom Alexandre é natural de
do a realidade do país e da Igreja a partir da ex- Malange. Como cardeal de Luanda viu o mostei-
periência eclesial latino-americana. Não quero e ro de Malange prosperar em vocações, queria que
não posso julgar o fundamento das suas críticas.

| 25 anos | FIMDA | 19

O jubileu deverá intensificar este apelo para à Mitra de Luanda e vizinho do novo mosteiro
que realmente possamos celebrar a festa na das Clarissas. Lá está hoje a sede da Fundação e
certeza de estarmos fazendo ‘a nossa parte’! onde estamos construindo a casa para acolher os
frades de profissão temporária, estudantes de Fi-
elas fundassem também um mosteiro em Luan- losofia (dada a proximidade da faculdade). Em
da. Muito bem. Fizeram as tratativas necessárias. conversas posteriores, o Cardeal disse aos frades
A abadessa Fabíola, conhecendo e participando que gostaria de ter no local um tipo de “Centro de
da nossa aflição acima mencionada, convidou- Espiritualidade”, onde as religiosas em geral (na
-nos para falar com o Sr. Cardeal. Eu tenho a cena época da guerra 24 horas por dia ocupadas para
ainda bem clara diante dos meus olhos: Eu e Frei resolver todo tipo de problema), pudessem fazer
Anacleto, secretário da Província, fomos com a seu retiro mensal, confessar-se e descansar um
abadessa ao encontro do Cardeal Dom Alexan- pouco num ambiente agradável. Foi e continua
dre. A abadessa, ao entrarmos no palácio episco- sendo uma feliz ideia. Com Frei Hermenegildo
pal em Luanda, nos disse: “Vocês ficam de boca Pereira, construímos uma gruta, plantamos algu-
fechada. Eu é que vou falar!” (Ela era realmente mas árvores e erigimos uma Via Sacra. Hoje, este
uma mulher resoluta, lutadora, destemida). E lugar é conhecido como “Quimbo de São Fran-
cisco” e atrai milhares de pessoas para rezar, prin-
cipalmente às quintas-feiras. Enfim, o mérito é da

Da esq. para assim fizemos. Eu e Frei Anacleto, sentados no Irmã Fabíola, já falecida, que agora certamente
dir.: a Família sofá no fundo da sala e a abadessa e o cardeal ao continua intercedendo por nós junto de Deus.
redor da mesa tratando do novo mosteiro em
Franciscana Luanda. A certa altura, a irmã Fabíola colocou Como é recordar o início deste projeto que
de Angola e o como condição para a fundação do mosteiro em agora celebra o seu jubileu de 25 anos? O que
Definidor Frei Luanda a garantia da presença dos frades fran- mudou nesse país que acolheu os missionários
ciscanos para a devida assistência. Ele não gostou brasileiros?
Germano. desta exigência da abadessa e imediatamente, até Frei Estêvão – Depois de trinta anos de guerra
em tom bastante elevado, refutou: “Mas, tem que civil, a gente vê que a cada ano que passa a situ-
ser brasileiros?”. Ao que ela respondeu com toda ação do país melhora. Em termos de infraestru-
a calma, mas com firmeza: “Tem que ser esses tura muita coisa mudou e está mudando. Antes
ou não vai ter mosteiro.” Enfim, o Cardeal con- não tinha luz e água. As estradas eram precárias.
cordou, livrando-nos da ameaça de sermos ex- O campo, minado. Hoje tanto a comunicação via
pulsos do país (porque até aquela data nenhum internet como por telefone celular já cobre gran-
bispo teve coragem de assinar qualquer tipo de de parte do país. Em toda a parte se planta e se
contrato para garantir a nossa presença em An- colhe; e as “cicatrizes” que a guerra deixou vão se
gola). Devo dizer que, a partir daquele momento, fechando cada vez mais.
o Cardeal mudou gradativamente a sua atitude Aproveito a ocasião para falar de outra curiosi-
em relação à presença dos nossos frades. Foi ele dade. Somos praticamente a última Província
que nos cedeu um terreno amplo, pertencente da nossa Ordem a assumir uma região como

20 | FINDA | 25 anos |

Missão. Era prática durante séculos as Provín- Com profunda gratidão, vai a grande
cias assumirem um território, providenciando preocupação: saberemos devidamente
missionários e garantindo o seu sustento. É o acompanhar e cuidar destes jovens frades?
que estamos fazendo em Angola. Porém, a par-
tir de 1970, mais ou menos, começou a drástica talecem a esperança. Ao celebrar 25 anos de pre-
diminuição de vocações na Europa. As Provín- sença, contamos atualmente com 22 aspirantes,
cias não tinham mais condições de enviar frades 13 postulantes, 6 noviços, 21 frades de profissão
em número significativo. Diante disso, a Ordem temporária (Filosofia e Teologia) e 3 professos
incentivou os projetos missionários interpro- solenes. Não tenho explicação para isso. Parafra-
vinciais e internacionais, onde ela assume com seando o saudoso Frei Giacomo Bini, digo: Não
a ajuda das Províncias um território, enviando é certamente por nosso mérito, virtudes e quali-
pessoal e garantindo os recursos necessários. dades, mas é São Francisco que continua a entu-
Exemplo recente disso é o projeto Amazônia que siasmar jovens e a chamá-los ao seguimento do
depende da UCLAF e do Definitório Geral e não Cristo pobre e crucificado.
mais de uma Província. Durante seis anos como Juntamente com a profunda gratidão, porém, vai
Vigário Geral pude acompanhar estes projetos e a grande preocupação: saberemos devidamente
não escondo que esta nova praxe ainda nos causa
muitos problemas e dificuldades. É que nasce-

mos “provincianos” e devemos ainda aprender acompanhar e cuidar destes jovens frades e vo- Da esq. para
a abrir-nos solidariamente a toda a Ordem e sua cacionados? Este é o grande desafio: encontrar dir.: Frades em
missão. frades que se disponham a ajudar na formação Assembleia em
Portanto, somos a última Província de uma praxe destes jovens. Creio que o jubileu deverá inten- 2015 e Frei José
antiga. Partimos na confiança de encontrar fra- sificar este apelo para que realmente possamos Antônio, atual
des para enviar e recursos para sustentar. Cele- celebrar a festa na certeza de estarmos fazendo “a presidente da
brar 25 anos de presença para mim significa an- nossa parte”. FIMDA.
tes de tudo agradecer a Deus pela disponibilidade
de tantos frades que lá trabalharam – alguns já O sr. consegue vislumbrar um
falecidos – e no momento atual trabalham. Agra- prazo para Angola ser uma Província
decer também a Deus pela crescente generosida- independente? Quais os desafios?
de das nossas Fraternidades, e do povo ao qual FreiEstêvão – Uma nova entidade angolana é um
servem, em recolher doações para o sustento dos desejo. Principalmente diante do grande objetivo
frades e das construções que se fazem necessá- de dar ao carisma franciscano cada vez mais um
rias. rosto caracterizado pelos valores da cultura an-
Sem querer dizer que somos melhores do que golana. A primeira preocupação não deverá ser a
os outros – porque também nós temos as nossas “independência” mas o significado da nossa pre-
dificuldades e limitações –, digo com profunda sença cada vez mais inculturada. Podemos dizer,
gratidão que a nossa Fundação em Angola vai com certeza, que longo será o caminho. Se con-
bem. Somos abençoados com vocações que for- tinuar assim e, principalmente, se conseguirmos

| 25 anos | FIMDA | 21

Assim como se parte em missão para além Mas, como diz o Papa, o que importa
do território da Província, nós aqui devemos é a qualidade e não a quantidade.
renovar continuamente o espírito missionário Frei Estêvão – Sem dúvida, para vivermos o
carisma franciscano não importa a quantida-
fortalecer a formação, não tenho dúvidas que um de. Só que tem as consequências. Veja bem,
dia chegaremos lá. Uma coisa que “preocupa” os quando eu entrei no noviciado éramos na
confrades angolanos é quando digo repetidas ve- Província perto de 750 frades. Hoje, somos a
zes que “nós não fomos para ficar”. O que quero metade. E certamente hoje o trabalho é mais
dizer realmente com isto? Quero advertir que exigente do que 50 anos atrás. Então, sem dú-
não fomos para “colonizar”. Fomos no espírito vida, podemos ser frades numa Província viva
da carta “A África nos chama” e certamente es- com 300 frades. Só que não poderemos fazer o
taremos lá e ajudaremos no que for possível até o que fazíamos antes. A redução ou diminuição
momento em que se possa dizer: temos todas as traz consequências.
condições para assumir e garantir a vida e a mis-
são de uma entidade franciscana angolana. Até lá Deixe uma mensagem
vivamos em plena “comunhão de bens”. motivando para esta celebração jubilar.
Frei Estêvão – Prefiro fazer um apelo. Nós
sempre vimos também a nossa ida a Angola

Da esq. Por que as vocações são como paradigma para a nossa “presença mis-
para dir.: mais numerosas do que no Brasil? sionária” no Brasil. Assim como se parte em
Frei Mário Frei Estêvão – Hoje, no Brasil, vivemos uma missão para além do território da Província,
Tagliari e Frei situação quase semelhante à da Europa em nós aqui devemos renovar continuamente o
Fidêncio em termos de vocações. Situação de bem-estar, de espírito missionário, lá onde vivemos e servi-
celebração no mil opções, de muitas possibilidades. Outra mos. Sinto-me muito identificado com a visão
Quimbo. causa é certamente também a diminuição do do Papa Francisco: Igreja em saída, Igreja hos-
número de filhos nas famílias. Quando eu fiz pital de campanha, Igreja do bom samaritano.
noviciado – um pouco mais de 50 anos atrás – Acho muito bonito e gratificante uma Provín-
todos os meus colegas brasileiros provinham cia gerar uma nova entidade franciscana. Não
de famílias com doze a vinte filhos. Hoje, não para aumentar o domínio. Não para multipli-
é raro encontrar o filho único tornando-se car filiais. Não para adquirir maior influência.
frade. Então, essa realidade é bem diferen- Mas, como fazem os pais: para dar vida aos
te da de Angola, onde as famílias ainda têm filhos. Criar os filhos. Deixar partir os filhos.
mais filhos. Creio que a situação pós-guerra E a nós cabe unicamente ajudar, com todas
da sua infância e juventude, a realidade di- as forças, para que se crie esta nova entidade
fícil, vivida e contada pelos pais, alimenta a franciscana, e que possa, o quanto antes, assu-
identificação com os ideais de uma vida sim- mir o seu caminho e ser uma presença missio-
ples e compartilhada, vividos e pregados por nária significativa na sociedade e na Igreja em
Francisco de Assis. Angola.

22 | FINDA | 25 anos |

Madre Fabíola, a Mãe da Missãoomo deixa bem claro Frei Estêvão Ot-
tenbreit, na sua entrevista nesta Revis-

Cta (ver na pág. 20), os frades perma-
fazia a sua primeira profissão em 13 de agosto
de 1957 e ali se entregava a Deus em definitivo
na profissão solene, em 4 de abril de 1962, com
neceram em Angola devido ao empenho de apenas 21 anos.
Madre Fabíola Horga Ruiz, a fundadora do Sua missão em terras angolanas começou
Mosteiro Sagrado Coração de Jesus, em Lu- quando o bispo D. Eugênio Salessi, de Ma-
anda, onde foi Abadessa por quatro triênios. lange, pediu a presença das Clarissas na sua
Segundo Frei Estêvão, ela é a “Mãe da Fun- diocese. Com mais nove irmãs, ela pisou em
dação” que está sob a proteção da Imaculada solo angolano no dia 20 de fevereiro de 1982
Conceição. “Quem te conheceu, pode teste- e se tornou uma das fundadoras do Mosteiro
munhar o coração maternal e carinhoso que Nossa Senhora dos Anjos.
tinhas para com cada um. A juventude, com “Mulher religiosa, intrépida, valente e sem
o teu sorriso e olhar cheio de Deus, sentia-se medo de enfrentar as grandes empresas quan-
animada a uma vida comprometida na entre- do se tratasse da glória de Deus”, acrescentou
ga a Deus. As crianças sentiam-se felizes con- a Abadessa Madre Anuarite. A pedido de D.
tigo e quantas mães deram o teu nome às suas Alexandre Nascimento, Cardeal de Luanda,
filhas. Os adultos viam em ti uma verdadeira ela fundou o Mosteiro Sagrado Coração de
mãe, amiga e conselheira”, disse a Abadessa Jesus em 1996. Mas sua incansável luta con-
Madre Anuarite durante a Missa de Exéquias tinuou fora de Angola e, desta vez, com um
de Ir. Fabíola, que faleceu no dia 29 de dezem- grupo de 8 irmãs, fundou em 2006 um mos-
bro de 2010, vítima de leucemia. teiro em Moçambique. Foi neste mosteiro que
Tinha, então, 69 anos de idade, sendo 53 de celebrou as bodas de ouro de profissão reli-
vida religiosa e 28 anos vividos em Angola. Es- giosa. O enterro
panhola, ela nasceu em Prádanos de Ojeda em Ir. Fabíola foi sepultada no dia 3 de janeiro e de Madre
3 de abril de 1941, sendo a última filha de 13 a igreja do Mosteiro ficou pequena para tanta Fabíola,
filhos do casal Horga e Rosa Ruiz. Era ainda gente que queria se despedir dela. Entre as au- a mãe da
uma adolescente quando ingressou na Ordem toridades, o governador de Luanda. Ela foi a Missão, como
de Santa Clara de Assis, no Mosteiro de Nossa primeira Clarissa a ser sepultada no cemitério a chama Frei
Senhora dos Anjos, em Astudillo, Palencia. Ali do Mosteiro que ela planejou. Estêvão.

| 25 anos | FIMDA | 23

Pedro Caron OS MISSIONÁRI
(duas vezes)
24/09/1990
José Zanchet
(duas vezes)
24/09/1990
Plínio Gande
da Silva
24/09/1990
Juvenal
Sansão
29/12/1990
Lotário
Neumann/RS
25/03/1991

Evaldo Melz
25/03/1991

Odorico
Decker
14/10/1991

Simão Dilson Adão
Laginski Geremia
(três vezes) 21/02/1995
26/10/1993
Genildo
Valdir Nunes Provin
Ribeiro 19/09/1995
(duas vezes)
22/09/1995

Hermenegil- Samuel Antônio Dante Carlos
do Pereira Ferreira de Mazzucco Bardier Alberto
30/05/1996 Lima 04/06/1997 Echegaray Guimarães
27/06/1996 04/06/1997 (duas vezes)
Ângelo Mário Stein 01/03/1998
Vanazzi Márcio de 17/04/2000 José Antônio Ivair Bueno
(duas vezes) Araujo Terra Alexandre dos Santos de Carvalho
15/03/1999 15/03/1999 Magno 01/04/2001 (duas vezes)
Evaristo Cordeiro da Ângelo José 31/05/2001
24 | FIMDA | 25 anos | Pascoal Silva Luiz Júlio César
Spengler 01/03/2002 02/08/2004 Batista dos
31/05/2001 Santos
02/08/2004

IOS EM ANGOLA Almir
Bonetti
02/08/2004
José Urley
López
Buitrago
29/12/2005
Laerte de
Farias dos
Santos
31/03/2006
Aloísio Paulo
Agostinho
dos Santos
31/03/2006
Sebastião
Agostinho
Kremer
23/05/2007

Atílio
Dalla Costa
Battistuz
20/07/2008

André Hélio de
Gurzynski Andrade
16/08/2008 21/05/2009

Fábio José Enéas Saulo José Benedito Vitalino
Gomes Marcelo Duarte L. Sobrinho Piaia
01/12/2010 Prestes de (Prov. Santa (Prov. Goiás) 23/02/2010
Ricardo Oliveira Cruz/MG) 21/05/2009
Backes 17/02/2011 23/02/2010 Alex Robson
10/10/2012 Miguel Ferreira Luiz Scudela
Marco da Cruz Jeferson da Silva 23/02/2010
Antonio dos 12/12/2012 Palandi 23/02/2010 Jandir
Santos Broca Pereira
27/11/2014 10/11/2011 Alisson da Luz
Gabriel Zanetti 10/11/2011
Vargas Dias 10/11/2011 Jorge
Alves Laurindo Lázaro
12/12/2012 Lauro da de Souza
Silva Júnior 12/12/2013
Luiz Antenor Ca- 12/12/2013
Iakovacz milo Militão Cristiano | 25 anos | FIMDA | 25
06/03/2015 06/03/2015 Aparecido
Maciel
06/03/2015

ANGOLA

DESPERTA...

C Frei Ermelindo Francisco uma característica importante
ertamente nessas poucas linhas não deste conflito.
será possível expressar tudo sobre um Durante a guerra civil, não
país rico em história, em cultura, em foram poucos os missio-
religiosidade, em recursos naturais. Mas nários e missionarias
procurarei, a partir da minha experiência que doaram a sua vida
pessoal, falar um pouco da situação atual de por amor ao Evange-
Angola. lho. Muitas cidades
Angola é um país grande e belo, situa-se a destruídas e muitas
sudoeste do continente africano. Pela sua famílias separadas;
extensão de 1.248.700 km, é dos maiores muitos sonhos
países de África. Angola conta com 18 pro- frustrados e muitas
víncias, sendo Luanda a Capital. Tem gran- vidas ceifadas pre-
des florestas, onde a luz do sol não penetra, matura e inocen-
savanas imensas cobertas de capim, onde só temente; quantas
há areia e pedras. Seu mar é abundante em mães não cho-
peixes, além de formar lindas e maravilho- raram ao verem
sas praias. seus filhos levados
A guerra civil angolana foi um conflito ar- para a guerra sem
mado que teve início em 1975, e continuou, qualquer prepa-
com alguns intervalos, até 2002. A guerra ro! Quantas famí-
começou imediatamente após Angola se lias não viram seus
tornar independente do domínio de Portu- membros sendo exe-
gal, em 11 de novembro de 1975. Antes des- cutados à sua frente
sa guerra interna, houve o conflito de desco- pelo fato de resistirem
lonização e a guerra pela independência do em ir para a frente do
país (1961-1974). combate ou por ter em
A guerra civil angolana foi essencialmen- sua posse algum símbo-
te uma luta pelo poder entre três antigos lo do partido adversário!
movimentos de libertação: o Movimento Quantas vezes a população -
Popular de Libertação de Angola (MPLA), e isso eu pude constatar - ficava
União Nacional para a Independência Total durante o dia inteiro na praça ou-
de Angola (UNITA) e Frente Nacional de vindo (obrigatoriamente) um comí-
Libertação de Angola (FNLA). Ao mesmo cio (espécie de assembleia) que, geral-
tempo, a guerra serviu como um campo de mente, terminava com execução pública.
batalha para a Guerra Fria e o forte envolvi- Foi num cenário como esse que a Província
mento internacional, direta e indiretamen- Franciscana da Imaculada Conceição do Brasil
te, de forças opostas como União Soviética, abriu a Missão em Angola, que está celebrando 25
Cuba, África do Sul e Estados Unidos. Foi anos. Aqui vale ressaltar a coragem do Governo
Provincial da época e dos primeiros três missio-
nários que se apresentaram - Frei Plínio Gande da

26 | FIMDA | 25 anos |

| 25 anos | FIMDA | 27

Silva, Frei Pedro Caron e Frei José Zanchet - e 2002, nota-se um acelerado crescimento econô-
dos outros que vieram em seguida. O testemu- mico, social, político, tecnológico... Muitas in-
nho de muitos missionários, e não apenas dos fraestruturas destruídas pela guerra estão sendo
nossos confrades, era a alegria e a esperança que reformadas; muitas famílias estão se reestrutu-
o povo carregava dentro de si, mesmo em meio rando; muitos campos voltaram a ser cultivados
às dificuldades. e muitas missões religiosas foram reabertas;
Por conta da guerra, Luanda, por ser a capital, muitas crianças, jovens e adultos, retomaram
era o local mais seguro para se morar. Portan- os estudos; muitos hospitais e escolas foram re-
to, muitas famílias emigraram do interior, o que abilitados e reconstruídos; muitos aeroportos,
faz dessa cidade a mais populosa do país. Para linhas férreas e estradas voltaram a funcionar.
termos uma ideia, a cidade foi projetada para Tudo isso e muito mais, sim, são benefícios da
quinhentos mil habitantes, mas hoje ela conta paz. Mas, em minha humilde compreensão,
com mais de sete milhões de habitantes. Aqui constato que os elevados escândalos de corrup-
dispensamos comentários sobre as turbulências ção fazem com que a dignidade humana esteja
urbanas de Luanda (trânsito, falta de saneamen- em segundo plano. Quando não se promove o
to básico em muitas regiões, marginalidade...). ser humano, compromete-se seriamente o fu-
Depois da conquista da paz, em 4 de abril de turo do país. Portanto, Angola precisa de uma

28 | FINDA | 25 anos |

verdadeira reforma política e social. Isso só será encontramos também um bom número de em-
possível na medida em que cada cidadão tomar presas brasileiras, portuguesas, alemãs, norte-
consciência de que é extensão do país, é parte -americanas ...
do país. Jonas Savimbi, primeiro presidente de Angola, portanto, é menina dos olhos de mui-
UNITA, num dos seus discursos dizia: “... Não tas potências mundiais, pois, não são poucas as
defino o angolano como preto, como mulato multinacionais que operam em terras angola-
ou como branco, mas defino o angolano como nas. Se o país for bem administrado, segundo
aquela que ama e luta por Angola...” a Unicef, em pouco tempo será uma potência
O governo angolano é democrático, mas é uma africana, e por que não mundial?!
democracia que precisa ser bem pensada. A Todos os problemas sociais, políticos, cultu-
economia está centralizada essencialmente no rais…, sejam lá chamados como quiserem, são,
petróleo. Hoje, em Angola, constatamos uma na verdade, problemas teológicos. Portanto as
emigração massiva dos chineses que trabalham Igreja local de Angola tem a grande missão de
nas empresas de construção civil. Se isso é po- dar voz aos sem-voz e vez aos sem-vez. Desse
sitivo ou negativo, não sei, mas é uma questão modo estará promovendo o ser humano e resti-
que deveria ser bem compreendida. Além des- tuindo a dignidade àqueles que a perderam por
tes, ainda no que diz respeito à construção civil, várias circunstâncias da vida.

| 25 anos | FIMDA | 29

30 | FIMDA | 25 anos |

NO CORAÇÃO
DA MISSÃO

N Frei Gustavo Medella
estes 25 anos de história, 52 frades estiveram
em Angola como missionários, sem contar
outros tantos que passaram pela Missão para
um período mais curto de ajuda na formação de frades, lei-
gos e das Irmãs Clarissas e outras atividades. Hoje, compõem a
Fundação Imaculada Mãe de Deus (FIMDA) 17 frades de profis-
são definitiva, sendo dois angolanos e um irmão professo temporá-
rio em período de estágio, divididos em cinco fraternidades.
Os trabalhos realizados pelos frades da FIMDA se distinguem
pela diversidade manifestada no atendimento a paróquias, na for-
mação, no atendimento aos necessitados, na educação escolar, na as-
sistência às Irmãs Clarissas, na produção e apresentação de programas
de rádio, nos trabalhos sociais, no serviço da escuta cristã, nas cele-
brações, nas visitas a aldeias e lugares de difícil acesso, no acompanha-
mento vocacional dos candidatos à Vida Religiosa Franciscana.
Para além de tantas atividades, nota-se um esforço dos frades em cultivar
uma grande proximidade com o povo. Visitando as fraternidades, não é
raro ver o afluxo de pessoas que vêm ao encontro dos irmãos, seja quan-
do estão em casa ou quando andam pelas ruas e vielas das localidades
onde estão presentes. São muitos os cumprimentos, os sorrisos e a de-
monstração de carinho àqueles que abraçaram o seguimento de Cristo ao
modo de Francisco e se esforçam para serem esta presença evangélica e
evangelizadora entre os irmãos e irmãs de Angola.

| 25 anos | FIMDA | 31

Malange
O “PRIMEIRO AMOR”AParóquia

dos Santos

EMártires,

no alto, foi
um antigo

cinema.
Existe um jargão na vida religiosa que iden- dade São Damião, estão a Paróquia dos Santos
tifica o primeiro lugar de transferência de Mártires de Uganda, a Missão em Kangandala e
um religioso que concluiu a formação ini- a assistência às Irmãs Clarissas.
cial como o “primeiro amor”. Aplicando esta A Paróquia dos Santos Mártires tem sua sede
linguagem à presença franciscana em Ango- junto à residência dos frades e a igreja fun-
la, pode-se dizer que Malange foi o “primeiro ciona em um antigo cinema. O pároco é Frei
amor” da Ordem dos Frades Menores em ter- Afonso Katchekele Quessongo, primeiro frade
ras angolanas. Capital da Província de mesmo angolano professo solene da Fundação. Além
nome, localizada na região Centro-Norte do do trabalho na Paróquia, Frei Afonso também
país, com população aproximada de 968 mil ha- é professor no Seminário Monte Alverne e le-
bitantes, (segundo o Censo de 2014) sendo que ciona ainda em algumas escolas da região. Na
486 mil pessoas vivem na região da capital. condução da paróquia, ele conta com a assistên-
cia direta de Frei Luiz Iakovacz, que também é
Em Malange, a presença dos frades se o assistente das Irmãs Clarissas do Mosteiro de
localiza no bairro chamado Katepa, Malange.
onde estão duas fraternidades: São O outro integrante da Fraternidade São Damião
Damião e Seminário Monte é Frei Alisson Luís Zanetti, responsável pela co-
Alverne. Sob os cuidados ordenação dos frades e animador da Missão
da Fraterni-
em Kangandala. Frei Alisson
se reveza entre a presença
na sede da missão e passa
temporadas visitando al-
deias de difícil acesso, às

32 | FIMDA | 25 anos |

Seminário Monte Alverne

JOVENS DE
DIVERSAS REGIÕES

quais consegue chegar de moto ou a pé. Nestas Atualmente com um grupo de 63 seminaristas, di-
idas e vindas, Frei Alisson já colecionou alguns vididos nas três classes que equivalem ao Ensino
tombos. “Por conta das condições do clima, o Médio no Brasil, o Seminário Monte Alverne ini-
trabalho de visita às aldeias é sempre concentra- ciou suas atividades em 2005, num terreno adqui-
do na época de seca”, explica. “É impressionante rido pela Província praticamente ao lado da Mis-
o carinho com que somos acolhidos na aldeia. são em Malange. Ali, os jovens candidatos à vida
Há casos em que a família deixa a própria casa religiosa recebem, além da formação escolar con-
para o missionário e se dividem por outras vencional, a formação própria para a vida religiosa
moradias. Preparam um lugar especial para o franciscana e têm uma rotina de oração, estudo,
banho, às vezes uma tapera construída com ca- trabalho (horta, plantação de mandioca, limpeza
pim. Querem oferecer o melhor para nós”, des- da casa etc.), atividades pastorais e esportes. Na
taca. Este carinho a que se refere Frei Alisson é condução dos trabalhos desta fraternidade estão
expressão da fé viva e atuante do povo angolano, Frei Jeferson Palandi Broca, guardião; Frei Laurindo
o verdadeiro protagonista da evangelização Lauro da Silva Junior, reitor do Seminário; Frei An-
tenor Camilo Militão, que também é responsável
pela orientação dos seminaristas; e Frei Cristiano
Maciel, frade professo temporário que concluiu os
estudos de Filosofia e faz o seu ano de estágio pas-
toral em Angola. No seminário, os frades também
atuam como professores de diferentes disciplinas.

Em Malange, as duas fraternidades trabalham em
profunda sintonia, num espírito de entre ajuda e
proximidade. Destaca-se também a convivência
muito próxima com as diversas congregações reli-
giosas femininas que ali se fazem presentes, como
as Irmãs Franciscanas Missionárias de Maria, as Ir-
mãs Franciscanas de São José e as Irmãs Missioná-
rias da Imaculada Conceição da Mãe de Deus.

| 25 anos | FIMDA | 33

Kibala
O PASSO SEGUINTE DA MISSÃOibala é um município da Província de
Kwanza Sul e conta atualmente com cerca

Kde 135 mil habitantes. Localiza-se a 194
quência, eram encontrados restos de projéteis
deflagrados e também armas abandonadas. O
lugar é montanhoso, rico em belas paisagens, e
Km de Sumbe, a capital da Província e a 323 com muitas grandes pedras que conferem uma
km de Luanda, capital do país. No período da especial beleza à cidade.
No alto, a capela guerra, Kibala, apesar de se localizar no Inte- A ida dos frades para esta localidade se deu logo
do Postulantado rior, era um ponto estratégico, pois por ali pas- no início da Missão por conta do atendimento
sava a ligação entre o Norte e o Sul do país. Por ao Mosteiro de Irmãs Clarissas, de fundação
e, abaixo, Frei este motivo, era alvo de grandes disputas, ora mexicana, que ali se instalara. Devido à guerra,
André mostra
destroços da estando sob o domínio do governo (MPLA), em 1998, quando os frades também interrom-
guerra ora sob o comando da UNITA. Até hoje cha- peram a presença em Kibala, as irmãs clarissas
mam a atenção de quem se transferiram para Lubango, na Província de
anda pelo centro da cidade Huíla, ao Sul de Angola.
alguns prédios em ruínas, Fazem parte da Fraternidade Franciscana Santo
por conta dos bombardeios Antônio: Frei André Gurzynski, guardião; Frei
da época, e também tan- Marco Antônio dos Santos, mestre dos Postulan-
ques e carros de guerra estão tes; Frei Ricardo Backes, vice-mestre; e Frei Ma-
abandonados. No terreno noel Tchincocolo Ramos, frade de profissão tem-
onde se localiza atualmente porária que concluiu o curso de Filosofia e faz o
a Fraternidade Santo Antô- seu período de estágio. O trabalho principal dos
nio, Frei André Gurzynski, frades é acompanhar a formação dos postulantes,
atual guardião da fraterni- jovens formandos provenientes do seminário de
dade, explica que, com fre- Malange. Neste ano, são 13 candidatos que se pre-

34 | FINDA | 25 anos |

param para virem ao Brasil no próximo Presença interrompida
ano, quando ingressarão no Noviciado. pela guerra
O terreno onde a fraternidade se localiza
é extenso e por isso também o espaço é A presença dos frades em onde, imaginava, teria meu encontro
aproveitado para a criação de animais (ca- Kibala tem duas etapas: a com a irmã morte. Imaginei que fosse
bras e porcos), horta, fabricação de tijolos primeira, de 1991 a 1998, e morrer porque à noite não se podia
e outras atividades. Entre as curiosidades a segunda, a partir de 2009 sair. Os caminhos eram todos mina-
da casa, as construções erguidas em con- até os dias atuais. O fato dos”, lembra.
têineres (quartos, sala de aula dos postu- decisivo para a retirada dos
lantes), o abrigo das cabras, um contêiner frades e formandos daque- Frei Valdir resistiu e, no dia seguinte, foi
completamente perfurado por balas, e la localidade foi o atentado levado a Gabela, onde havia um pe-
a famosa “Pedra da Oliva”, localizada na sofrido por Frei Valdir Nunes, queno hospital. Por coincidência, es-
frente do terreno, onde está encravado o no dia 13 de novembro de tava ali um cirurgião colombiano, que
símbolo de uma empresa fabricante de 1998. de tempos em tempos percorria os
máquinas de costura. Na região onde se hospitais para prestar assistência. “Ele
localiza a fraternidade ainda não há rede O clima na cidade estava retirou as faixas que a irmã havia co-
de energia elétrica, havendo a necessida- muito tenso. Ao anoitecer, locado e viu que estava tudo inchado
de de um gerador movido a óleo diesel, Frei Valdir ouviu alguns lati- e infeccionado. Com os poucos meios
chamado “gasóleo” em Angola. dos dos cachorros do lado que tinha, fez uma operação de lim-
Assim como em Malange, a presença de fora da casa e foi verificar peza e fechou o ferimento de forma
em Kibala tem um envolvimento pasto- o que acontecia. Ao sair, en- rudimentar. No dia seguinte, já no do-
ral bastante intenso, pois os frades têm controu um soldado armado, que veio mingo, chegou o helicóptero que me
atuação efetiva na Missão Nossa Se- em sua direção, tomou-lhe a lanterna levou até Luanda, onde passei pelos
nhora das Dores, de responsabilidade e, em seguida, vieram outros três, já procedimentos necessários”, recorda.
dos padres diocesanos. Em comunhão com violência. Pegaram Frei Valdir à
com a Igreja local, os freis de Kibala ce- força e o levaram para o meio da es- FreiValdir destaca que, apesar do ocor-
lebram nos bairros e aldeias e também trada que passava em frente à missão. rido, tem grande apreço pela Missão
os postulantes têm diversas atividades “Levei tapas no rosto e uma coronha- em Angola. Atualmente trabalhando
pastorais. Conquista recente da frater- da tão forte que quase desmaiei. Eles em Curitibanos, SC, como guardião e
nidade do postulantado é a Capela San- queriam dinheiro, que nós não tínha- pároco, sonha em voltar para África, e,
to Antônio, uma construção simples, mos, e também levar os seminaristas “se Deus permitir, gostaria de morrer e
porém bastante expressiva da espiritu- para servirem à tropa. Como nada ser enterrado naquele chão”, comple-
alidade franciscana. conseguiram, disseram-me para ir menta.
embora e quando virei as costas, ouvi
um tiro e percebi que uma bala havia
me acertado”, conta.

Na perspectiva de escapar dos sol-
dados, Frei Valdir jogou-se no chão e
fingiu agonizar. Quando eles foram
embora, dirigiu-se com muito sacrifí-
cio para casa, segurando a perfuração
na barriga, onde se misturavam san-
gue e fezes. Chegou cheio de lama e
com o intestino perfurado em quatro
pontos, o que lhe causou uma grande
infecção no ventre. Uma irmã que era
enfermeira foi chamada e prestou-lhe
os primeiros socorros. “Eu recebi os
sacramentos de Frei Simão Laginski,
deitei-me no chão do meu quarto

| 25 anos | FIMDA | 35

Luanda
A MISSÃO CHEGA À CAPITALuanda é a menor Província de Angola,
mas também a mais populosa, com 6,5

L milhões de habitantes, sendo cerca de 2,1
presença em Luanda. Frei Estêvão Ottenbreit,
que na época era Ministro Provincial, explica
que era frequente a demanda por recursos que
milhões apenas no entorno da capital, segundo só podiam ser obtidos na capital. “Qualquer
o censo de 2014. É um lugar de
intensa movimentação, tanto
de pessoas quanto de veículos.
O trânsito é bastante pesado e
pouco organizado, o que torna
demorados deslocamentos ra-
A sede da zoavelmente curtos. Dentre os
Missão acima principais desafios estão a me-
e a construção lhoria da qualidade dos serviços
públicos, o saneamento básico e
(ao lado) da a coleta de lixo.
nova residência Depois de estarem em Malange
e Kibala, com o caminhar da
para acolher missão, os frades foram perce-
18 frades
estudantes de bendo que também seria ne-
Filosofia cessária a constituição de uma

36 | FINDA | 25 anos |

coisa de que precisávamos, tínhamos Em Palanca, moram seis frades de profissão
que vir a Luanda. Fomos por muito temporária que cursam Filosofia na Universida-
tempo acolhidos de maneira fraterna e de Católica de Angola, situada a cinco minutos
generosa pelos frades capuchinhos em de caminhada da Fraternidade São Francisco.
Luanda. Mas, por outro lado, percebe- Em termos de instalações físicas, está sendo
mos o quanto era necessário termos construído, junto ao Convento do Palanca, uma
também ali uma presença”, contextu- residência para acolher 18 frades estudantes de
aliza Frei Estêvão. Filosofia. Por questões práticas, especialmente
E, desta forma, assim como chegaram pela proximidade com a Faculdade de Filosofia,
a Malange por conta do atendimento a proposta é que todos os frades desta etapa de
às Irmãs Clarissas, em 1990, seis anos formação morem naquele mesmo local. Atual-
mais tarde, acompanhando as Claris- mente, eles estão divididos em dois grupos: os
sas deste mesmo mosteiro, de funda- seis que vivem no Bairro do Palanca e outros
ção espanhola, os frades se instalaram nove que estão na Fraternidade da Porciúncu-
em Luanda e passaram a morar ao lado la, em Viana, município da periferia de Luanda,
do mosteiro construído para as Claris- e que diariamente demoram quase duas horas
sas, no Bairro do Palanca, em Luanda, para fazer um percurso de pouco mais de dez
em terreno cedido pela Arquidiocese quilômetros, por conta do trânsito carregado e
de Luanda. Hoje, a sede da Fundação é a Fra- das más condições das vias.
ternidade São Francisco de Assis, em Luanda,
e ali os frades se dedicam ao atendimento da
Paróquia São Lucas, que tem como pároco Frei
Sebastião Kremer, o acompanhamento forma-
tivo dos frades professos temporários, o aten-
dimento ao Quimbo São Francisco, o Projeto
Nossos Miúdos, que se ocupa da acolhida de
meninos que foram abandonados pela família.
Além de Frei Sebastião, compõem a fraternida-
de Frei José Antônio dos Santos, presidente da
Fundação Imaculada Mãe de Deus (FIMDA) e
mestre dos professos temporários do tempo da
Filosofia; Frei Márcio de Araújo Terra (Projeto
Nossos Miúdos e Paróquia) e Frei Aloísio Paulo
Agostinho dos Santos (animação vocacional e
outros trabalhos). Também faz parte da missão
da fraternidade a assistência espiritual ao Mos-
teiro das Irmãs Clarissas de Luanda.

No alto, a sede
da Paróquia São
Lucas e, ao lado,
o Mosteiro das
Irmãs Clarissas
de Luanda.

| 25 anos | FIMDA | 37

Quimbo São Francisco

SANTUÁRIO A CÉU ABERTO
Chão de terra batida a céu aberto. Árvo-
res sob as quais as pessoas se abrigam tar, algumas mammás (termo típico angolano
à sombra. Muita gente! Mulheres com para designar mulher) rezam, cantam, lou-
roupas coloridas, grande número delas vam e agradecem, incentivando a multidão a
com crianças, que são trazidas junto às cos- fazer o mesmo. Isso desde o começo da ma-
tas, amarradas por um tecido também de cor nhã, totalmente dedicada à oração e, com a
bem marcante. Crianças muito pequenas dei- fidelidade ao modo angolano de se expressar,
tadas no chão, sobre um lençol e sob o olhar também na fé, com cantos e danças que dão
cuidadoso da mãe. Para sentar, uma pedra, a som e movimentos a pedidos, agradecimen-
poeira do chão ou um banquinho colorido, tos, súplicas, dúvidas, medos, alegrias e todos
de plástico, simples, leve e fácil de carregar. À os outros sentimentos e atitudes que povoam
frente, num pequeno palco, que também é al- o coração humano.
Esta seria, em breves palavras, a descrição da

38 | FINDA | 25 anos |

manhã de uma quinta-feira no Projeto Nossos Miúdos
chamado Quimbo São Francis-
co. O lugar, localizado no ter- SONHOS A JOVENS
reno da Fraternidade São Fran- ABANDONADOS
cisco, em Luanda, se firmou
como um verdadeiro santuá- Na cultura angolana, aparece de forma bastante forte a crença em
rio, para onde grande número torno do que se denomina “feitiço”. Sempre que alguém morre de
de fiéis acorre semanalmente maneira inesperada ou repentina, ou algo de ruim acontece de uma
em busca de um momento de hora para outra, acredita-se que o ocorrido foi obra de um“feiticeiro”,
oração, reflexão, louvor e cele- quase sempre alguém próximo ou conhecido da vítima, com frequ-
bração. ência alguém de sua própria família. Uma vez acusada de feiticeira, a
O espaço surgiu a partir de um pessoa passa a correr risco de morte, pois acredita-se que, uma vez
pedido do cardeal arcebispo eliminado aquele que causou o mal, a justiça terá sido feita.
de Luanda na época da chega- Esta breve e superficial explicação de um dos elementos da cultura
da dos frades, Dom Alexandre em Angola serve para contextualizar o surgimento do Projeto Nos-
Nascimento. Preocupado com sos Miúdos, iniciado há vários anos por Frei Márcio de Araújo Terra
a movimentada rotina dos re- e que faz parte da Fraternidade São Francisco de Assis, em Luanda.
ligiosos por conta dos desafios O trabalho veio como resposta ao drama de meninos que eram ex-
da guerra e com medo que ca- pulsos da família por serem acusados de feitiçaria. Sensível a este
íssem num ativismo exagerado, drama, Frei Márcio passou a acolher alguns destes jovens, e esta ini-
o cardeal pediu aos frades que ciativa deu origem ao trabalho.
criassem naquele espaço, jun- Hoje, a casa acolhe 13 meninos que estão entre a adolescência e a
to à fraternidade, um lugar de juventude. Além de oferecer todo o apoio material, o Projeto tam-
cultivo espiritual, onde o reli- bém tem a preocupação de possibilitar uma formação profissional a
gioso ou a religiosa que dese- estes jovens, com o treinamento para a profissão de padeiro. Na pa-
jasse pudesse ter um momento daria, além de aprender as habilidades próprias do ofício, os jovens
de recolhimento, meditação, conseguem gerar renda, pois a produção é vendida na vizinhança,
leitura da Palavra de Deus, en- e ajuda na manutenção da casa. Ao comentar os resultados do Pro-
fim, de oração pessoal. E foi jeto Nossos Miúdos, Frei Márcio não esconde a satisfação: “Fico mui-
nesta perspectiva que surgiu o to feliz quando, por exemplo, um jovem que passou por aqui me
Quimbo São Francisco. procura anos depois para contar de sua vida, para me apresentar a
Hoje em dia, a utilização do es- família e os filhos e me dizer que está bem encaminhado na vida”,
paço foi além daquela sugerida comemora o Frei.
pelo arcebispo e pensada pelos
frades e, também com a aproximação da Re- | 25 anos | FIMDA | 39
novação Carismática Católica, o Quimbo se
tornou um lugar de peregrinação em massa.
Ali as pessoas chegam de manhã para partici-
par de orações, pregações, momentos de lou-
vor, novenas. Às 11 horas, celebra-se a Missa,
sempre com a presidência de um dos frades e
animada com canto e dança.
Para quem deseja, existe ainda no Quimbo
São Francisco um serviço de escuta cristã,
onde um voluntário e também algum dos
frades estão à disposição para uma conver-
sa pessoal e particular. E assim mais uma
quinta-feira se vai... Embora seja este o dia de
maior movimento, sempre há naquele espa-
ço pessoas em oração, sozinhas ou em grupo,
revelando que o Quimbo São Francisco mora
no coração do povo e pertence ao povo de
Angola.

Viana
A FRATERNIDADE MAIS JOVEMianaéummunicípiopertencenteàPro-
víncia de Luanda. Tem 1,5 milhão de

V habitantes. Os frades estão aí instalados
dos frades também é muito movimentada. As
crianças desejam entrar no terreno para colher
as pequenas frutas, as quais elas chama de figos.
desde 2000. Moram ali Frei António Há também muitos meninos que vêm treinar
No bairro da Boaventura Zovo Baza, guardião e pároco da futebol no Projeto Bola da Paz, que busca a so-
Estalagem está Paróquia Nossa Senhora de Fátima, Frei Ivair cialização através do esporte. Responsável pelo
a residência dos Bueno de Carvalho, vice-mestre dos frades em trabalho social da casa, que também oferece um
frades. Abaixo, formação e responsável pelos projetos sociais, projeto de inclusão digital, Frei Ivair Bueno se
e Frei José Zanchet, com quase oitenta anos e sente muito à vontade entre o povo e trata as
a Paróquia membro do primeiro grupo de missionários, pessoas de modo muito próximo, sempre com
Nossa Senhora que atua como vigário paroquial. Compõem sorrisos e brincadeiras.
também a fraternidade seis frades professos Devido à superpopulação do bairro, a Paróquia
de Fátima.

temporários do tempo da Filosofia. Nossa Senhora de Fátima também tem movi-
O bairro da Estalagem, onde se localiza a Fra- mentação intensa. Para se ter uma ideia, são três
ternidade, é muito populoso, e por isso a casa mil crianças na catequese, que se reúnem no en-
torno da igreja matriz, sentadas sobre banqui-
nhos coloridos de plástico e sob a sombra das
árvores. O grande empenho da comunidade
paroquial agora é a construção da igreja matriz
sob a coordenação do pároco, Frei António. Li-
deranças e todos na comunidade estão bem fo-
cados nesta missão.
Em Viana, os frades mantêm também convi-
vência muito próxima com as Irmãs Francisca-
nas Hospitaleiras, de quem são vizinhos de ter-
reno. Num espírito de integração e interajuda, a
celebração da Eucaristia diária, com a presença
dos frades e das irmãs, se reveza semanalmente
entre as duas casas: ora os freis vão até as irmãs
e vice-versa.

40 | FINDA | 25 anos |

os frutos da missão
Quando completou dez anos da presen-
ça franciscana em Angola, Frei Atílio A Missão de Angola, que foi elevada à condição No alto, os
Abati, de saudosa memória, era o Co- de Fundação, com o nome de Imaculada Mãe de primeiros
ordenador do Departamento de Evan- Deus no dia 3 de julho de 2008, viu a profissão professos solenes,
gelização Missionária e lançou um livreto de 34 solene de Frei Carlos Guimarães e Frei Aloísio Frei Afonso e
páginas sobre a Missão, onde imprimia seu oti- Paulo dos Santos; a ordenação sacerdotal de Frei Frei António,
mismo sobre o futuro. “Há sinais de vida e espe- José Antônio dos Santos, em abril de 2001; e a e, abaixo, os
rança, também para o futuro da Missão e algu- ordenação diaconal de Frei Alexandre Magno, noviços de 2015
mas coisas vão se clareando e ganhando corpo. em julho de 2006. Ele foi ordenado sacerdote no
Por exemplo, as muitas vocações e as duas casas Brasil, em janeiro de 2007.
de formação em Malange e Kibala são os frutos
da cruz plantada que vai virando árvore da vida.
A cruz de Cristo vai se apresentando como forte
símbolo da nossa Missão em Angola, que apon-
ta para o Ressuscitado e garante que o sentido
último é a vida”.
A Missão deu os primeiros passos na formação
franciscana com a abertura do Aspirantado em
1996, admitindo quatro jovens: Domingos, Nél-
son, Cândido e Adão. Em 27 de junho de 1996,
Frei Samuel Ferreira de Lima, o atual mestre de
noviços da Província da Imaculada, foi tranferi-
do para Malange como formador dos primeiros
aspirantes. Ficou nove anos em Luanda e cinco
meses em Malange até retornar em 2006.
Outro momento importante aconteceu em
1997, no dia de São Francisco de Assis, com a
abertura do Postulantado em Kibala.
Os primeiros noviços da Missão - Adão Gil de
Melo, Cândido Gabriel F. Manuel e Nelson Jai-
me Cristóvão - vieram para Rodeio no dia 20
de janeiro de 2000. Os três, contudo, não per-
severaram.
No dia 30 de junho de 2007, Frei Afonso Ka-
chekele Quessongo se tornava o primeiro ango-
lano da Missão a professar na Ordem dos Fra-
des Menores. No dia 23 de janeiro de 2011, ele
se tornou o primeiro presbítero angolano nesta
frente missionária.
O segundo professo solene foi António Boaven-
tura Zovo Baza, no dia 30 de agosto de 2009. Ele
se tornaria também o segundo sacerdote desta
frente no dia 15 de janeiro de 2012.
Em 2013 chegaram ao Noviciado São José de
Rodeio oito angolanos, o maior grupo até então.
Desde então, o Noviciado tem acolhido bom
número de angolanos e a perspectiva é de ter
treze noviços em 2016.

| 25 anos | FIMDA | 41

Frei Afonso Frei António
K. Quessongo Boaventura Z. Baza

Nascimento: Nascimento:
03/04/1975 25/09/1976

Naturalidade: Naturalidade:
Huambo Cabinda

Frei João Batista Frei Gaudêncio
C. Canjenjenga C. Choputo Numa
Nascimento:
03/01/1986 Nascimento:
Naturalidade: 28/02/1983
Huambo
Naturalidade:
Luanda

Frei José Frei Manuel
M. Cambolo T. Ramos
Nascimento:
Nascimento:
26/01/1989 07/12/1985
Naturalidade:
Naturalidade:
Luanda Cabinda

Frei Ermelindo Frei João
Francisco Bambi Alberto Bunga

Nascimento: Nascimento:
01/03/1987 05/04/1988

Naturalidade: Naturalidade:
Ingombota Kilamba Kiaxi

Frei Ananias Frei Canga
P. M. Cauanda Manuel Mazoa

Nascimento: Nascimento:
11/02/1990 23/03/1993

Naturalidade: Naturalidade:
Ambaca Cazengo

Frei João Frei Mário
Candongo Muhala Sampaio Pelu

Nascimento: Nascimento:
02/05/1992 20/08/1988

Naturalidade: Naturalidade:
Benguela Benguela

Frei Mateus M. Frei Siro Armando
Ukwahamba J. Luamba
Nascimento:
20/03/1991 Nascimento:
Naturalidade: 25/11/1989
Cubal
Naturalidade:
Frei Alberto Ambaca
André António

Nascimento:
17/04/1987

Naturalidade:
Cazenga

42 | FIMDA | 25 anos |

Frei Alfredo Frei Crisóstomo
Epalanga Prego Pinto Ngala
Nascimento: Nascimento:
10/06/1990 05/09/1992
Naturalidade: Naturalidade:
Benguela Cubal, Benguela

Frei Diogo Frei Gabriel
da Silva Filipe Sapalo Chico
Nascimento: Nascimento:
28/03/1985 16/05/1992
Naturalidade: Naturalidade:
Cazengo, K.Norte Cubal, Benguela

Frei Honorato Frei Mvula
S. Gaspar Gabriel Nzaje André
Nascimento: Nascimento:
26/11/1990 25/01/1978
Naturalidade: Naturalidade:
Malange Marimba

Frei Paulino Kamus- Frei Santana
samba Sopindi S. Cafunda
Nascimento: Nascimento:
21/05/1987 11/03/1990
Naturalidade: Naturalidade:
Cabinda Malange

Frei Victorino Frei Alberto
Chico Tchimuku Victorino
Nascimento: Nascimento:
28/12/1992 09/07/1987
Naturalidade: Naturalidade:
Cubal, Benguela Ganda, Benguela

Frei André dos San- Frei Flaviano
tos Sungo Mingas José Fernando
Nascimento: Nascimento:
02/01/1986 26/05/1994
Naturalidade: Naturalidade:
Cabinda Catete Icolo e Bengo

Frei José Frei José
Filipe Muyeye João Ganga
Nascimento: Nascimento:
02/09/1990 13/11/1990
Naturalidade: Naturalidade:
Benguela Caconda, Huíla

Frei Miguel
Tchiteculo T. Filipe
Nascimento:
13/01/1990
Naturalidade:
Lobitol, Benguela

| 25 anos | FIMDA | 43

entrevista Frei João Baptista Chilunda Canjenjenga

O PROFESSO DO JUBILEU

Agradeço a Deus por este grande momento
em que elevei à plenitude minha consagração
batismal dando o sim definitivo ao chamado
Deus. Louvo mais ainda por ser justamente no
dia em que a Fundação Imaculada Mãe de Deus
de Angola (FIMDA) celebrou o seu jubileu.
Também é muito bom para a nova geração
vivenciar esse momento celebrativo que, de uma
forma, contribui para a motivação vocacional.

U Moacir Beggo Como se deu seu discernimento vocacional?
m dos momentos marcantes das celebra- Frei João Baptista - O meu discernimento voca-
ções neste ano jubilar da Fundação Ima- cional começou desde pequeno, quando comecei
culada Mãe de Deus foi a profissão solene a sentir o chamado de Deus em meu coração. Ao
de Frei João Baptista Chilunda Canjenjenga. longo dos anos fui alimentando o meu sim a este
Aos 29 anos, ele é o terceiro frade angolano a chamado em meu coração todos os dias, mas não
professar na Ordem dos Frades Menores. Co- manifestava publicamente. Certo dia, a convite
nheça um pouco o novo professo da Missão de de um amigo meu, comecei a frequentar as reu-
Angola e sua caminhada vocacional francisca- niões do grupo vocacional da paróquia. Passados
na até dizer o ‘sim’ definitivo a Deus e à Ordem alguns anos, tive que mudar de um Estado para
Franciscana. outro, isto é, de Huambo, terra que me viu nas-
cer, para Luanda, com o propósito de morar com
Como é fazer a profissão solene na terra natal as minhas irmãs. Procurando dar continuidade
exatamente no ano do Jubileu da Missão? à minha participação nas reuniões do grupo vo-
Frei João Baptista - Fazer profissão solene na cacional, isto no Estado de Luanda, foi quando
terra natal foi motivo de grande júbilo, pois conversei com a minha irmã mais velha que já
tem grande significado na minha caminhada era ‘expert’ em assuntos de Igreja na Paróquia
vocacional. Para os meus familiares, acredito São Pedro Apóstolo. Por sua vez, ela dirigiu-me
que também foi motivo de muita alegria porque a um vizinho nosso que já frequentava encontros
tiveram a oportunidade de testemunhar o de direção vocacional com os Frades Menores
momento em que dei o meu sim definitivo no Palanca, Quimbo São Francisco. No terceiro
a Deus, visto que não tiveram a graça de domingo do mês, dia em que aconteciam as reu-
participar na primeira profissão. Também niões, o vizinho levou-me à reunião, onde pela
não deixou de ser momento importantíssimo primeira vez ouvi a história de Francisco de As-
para a Fundação Imaculada Mãe de Deus sis. Com o passar do tempo fui me identifican-
(FIMDA), que celebrou o jubileu de 25 anos do com o carisma franciscano e, com ajuda do
de presença missionária e evangelizadora promotor vocacional, fui amadurecendo o meu
dos Frades Menores junto ao povo angolano
num momento de reflorescimento vocacional. Dados pessoais e formação

44 | FINDA | 25 anos | Nome: João Baptista Chilunda Canjenjenga
Nascimento: 03 de Janeiro de 1986
Natural de Huambo, província do Huambo
Pais: José Pedro Canjenjenga e Ana Maria Chitula
Irmãos: Penúltimo filho de treze (13) irmãos
Aspirantado: Monte Alverne, Malange, em 2005
Postulantado: Malange, 2008
Noviciado: Rodeio (SC), em 2009
Primeira Profissão: 3 de Janeiro de 2010, em Rodeio
Filosofia: de 2010 a 2013, em Luanda
Teologia: 2º ano, cursando no ITF

discernimento vocacional. Imaginei ser vontade ingresso no aspirantado não davam muito cré-
de Deus, pois até então não me havia decidido dito na minha perseverança. Somente no final
em que congregação serviria o povo de Deus. Daí do postulando, quando me preparava para ir ao
continuei a participar dos encontros vocacionais noviciado, é que todos os membros da família
no Palanca com os frades. No momento ,posso começaram a aceitar e a respeitar a minha op-
afirmar que, com ajuda de Deus e dos confrades, ção vocacional. Atualmente é unânime. Todos
tenho sido perseverante e persistente neste sim os membros da minha família aceitam e apoiam
a Deus e ao seguimento de Cristo Jesus pobre e a minha opção vocacional, e sempre mandam
crucificado. uma mensagem de incentivo vocacional. Para
E sua família, como recebeu a notícia? mim, isso é mais um sinal de que Deus, para
Frei João Baptista - Quando entrei no grupo de além de capacitar os seus chamados, também
vocacionados, os meus parentes pensavam que provê, cuida, protege e conduz.
tudo fazia parte do meu lazer quando ia para as
reuniões nos primeiros e terceiros domingos de Por que ser franciscano hoje?
cada mês. Passados alguns anos, quando infor- Frei João Baptista - Para observar o santo
mei a eles que precisava do termo de reponsa- Evangelho de nosso Senhor Jesus Cristo, viven-
bilidade para ingressar no aspirantado, a famí- do em obediência, sem nada de próprio e em
lia ficou dividida: alguns eram a favor, outros castidade, evangelizando como irmão e menor
contra. Apareceu até a ideia de que, como gosto no nosso tempo.
muito da Igreja, poderia me tornar um bom
catequista ou ministro da comunhão e não ser Deixe uma mensagem para
frade menor ou padre. os vocacionados angolanos e brasileiros?
Como meus pais sempre foram a favor, o meu Frei João Baptista - A mensagem que deixo
pai ordenou que os meus irmãos mais velhos es- para os vocacionados angolanos e brasileiros é
crevessem o termo de responsabilidade. Ele não a de não terem medo de dizer sim ao chamado
o fez porque morava em Huambo e, naquela de Deus, não ignorar os sinais do chamado de
época, os correios de Angola não funcionavam Deus. Quando Deus chama, também capacita
bem. Assim sendo, acabei indo ao aspirantado. os seus chamados. É preciso dizer como São
Os irmãos e as irmãs que eram contra o meu Francisco de Assis: “É isso que eu quero, é isso
que desejo de todo o meu ser”.

SEMINÁRIO MONTE ALVERNE: Nos últimos anos, está de casa cheia.
Está com 63 seminaristas, divididos em três classes que equivalem ao Ensino Médio no Brasil.

| 25 anos | FIMDA | 45

POSTULANTADO: Abaixo, treze jovens se preparam em 2015, com a orientação
do mestre Frei Marco Antonio dos Santos e da Fraternidade, para o ingresso no Noviciado.

Presença dos leigos:

fermento que fez crescer a missão

Catequistas
no trabalho de
evangelização de

Angola.

46 | FIMDA | 25 anos |

lém dos muitos frades que passaram por tras províncias. De acordo com dados de 2012, No alto, o irmão
Angola, a missão também contou com em entrevista concedida pelo então Ministro leigo Adávio
Nacional, Domingos António da Silva, ao site Ribeiro e,
Aa força da presença leiga. Muitos são até Franciscanos, a OFS angolana conta com 768 abaixo, o irmão
hoje os benfeitores que ajudam com sua con- irmãos, presentes em 14 fraternidades erigidas leigo Domingos
tribuição para a manutenção desta frente mis- canonicamente, cinco fraternidades emergentes António.
sionária. Além destes, houve também a parti- e seis núcleos de formação.
cipação direta de voluntários que estiveram em
Angola, oferecendo seu trabalho em prol da Catequistas: fundamentais para
missão. O cearense Adávio Afonso Ribeiro, ir- a garantia da fé em tempos de guerra
mão da Ordem Franciscana Secular, de 62 anos, Nas aldeias e lugares isolados por conta das di-
esteve na missão por três ocasiões, totalizando ficuldades de acesso e dos problemas da guerra,
um período de quatro anos em Angola. os catequistas, líderes leigos que garantiam a
O convite foi feito em 2007, por Frei André vivência e a manutenção da fé, tiveram partici-
Gurzynski, atual guardião da Fraternidade San- pação fundamental. Assumiam todo o trabalho
to Antônio em Kibala, no ano de 2007. Adávio, pastoral, conduzindo as celebrações, instruindo
que já tinha sido missionário na região do To- as crianças, fazendo a ponte entre o missionário
cantins e do Norte de Goiás, animou-se dian- e a comunidade. Andavam centenas de quilô-
te da possibilidade de partir em missão para a metros a pé para participar de formações e de
África. Vendeu um carro para pagar as despe- momentos celebrativos. Também a esta presença
sas da viagem e se preparar com as vacinas e a leiga se deve um agradecimento sincero nestes
documentação e, em 2010, embarcou. Ele tinha 25 anos da Missão Franciscana em Angola.
conhecimentos de mecânica e, por isso, logo
que chegou, a ideia era que ficasse em Malange,
onde os frades possuíam um caminhão que pre-
cisava de reparos.
No entanto, por conta de uma mudança nos
planos, ele acabou sendo enviado para Kibala,
que na época iria acolher a etapa formativa do
postulantado. E, nesta fraternidade, o missioná-
rio leigo se instalou, passando a conviver com
Frei Laerte Farias dos Santos e Frei Valdir Nu-
nes Ribeiro. Para descrever os trabalhos que re-
alizava, Adávio lança mão de uma brincadeira:
“Só não celebrava missa”, diz, com bom humor.
Com bastante aptidão para serviços práticos,
dedicava-se a dirigir os veículos, a cuidar dos
geradores, a auxiliar nas compras e também a
acompanhar as obras de melhorias e ampliação
que estavam sendo realizadas na fraternidade.
Para ele, a experiência em terras angolanas foi
tão significativa que, até hoje, Adávio sonha em
voltar para lá, projeto que tem sido adiado por
conta de alguns problemas de saúde recente-
mente enfrentados.

OFS está presente no país há 44 anos
Outra parceria fundamental na história da
Fundação Imaculada Mãe de Deus de Ango-
la é com a Ordem Franciscana Secular (OFS).
Presente no país há 44 anos, a OFS foi instau-
rada pelos frades capuchinhos (OFMCap), que
mantêm até hoje presença em Luanda e em ou-

| 25 anos | FIMDA | 47

Missão é sempre partir...

Missão é partir, A humanidade é maior.
caminhar, Missão é sempre partir,
deixar tudo, mas não devorar quilômetros.
sair de si, É sobretudo abrir-nos
quebrar a crosta aos outros como irmãos,
do egoísmo descobri-los e
que nos fecha no encontrá-los.
nosso Eu. E, se para descobri-los
É parar de dar volta e amá-los,
ao redor de nós mesmos é preciso atravessar
como se fôssemos os mares
o centro do mundo e voar lá nos céus,
e da vida. então missão é partir até os
É não se deixar bloquear confins do mundo.
nos problemas do pequeno
mundo a que pertencemos: Dom Hélder Câmara

Até o próximo jubileu!


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