Território: desenvolvimento e
caminhos para alcançar as ODS
Paulo Vitor Siffert
Grupo Multidisciplinar de Pesquisa em Territórios Minerados (PUC Minas)
1. Território: dimensões sociais,
econômicas, ambientais e político-
institucionais
As visões do território Idealistas
Materialistas ● perspectiva simbólico-cultural
● naturalista
● socioeconômica
A busca seria por uma concepção integrada
Perspectivas Materialistas
1) Naturalista
● Perspectiva calcada na Etologia - estudo dos comportamentos animais
○ Concepção mais primitiva do território: “espaço defendido por todo animal confrontado com a
necessidade de se proteger” (Di Méo, 1998, p. 42)
● Território como refúgio e segurança… mas também fonte de recursos
necessários à sobrevivência
● Controle do espaço e do tempo - distintas atividades podem ocorrer ao mesmo
tempo em um determinado território
● Duas armadilhas: (1) “determinismo ambiental” x (2) “antropocentrismo
exacerbado”
○ (1)Risco de uma excessiva naturalização (passividade perante aos rumos do território)
○ (2)Necessário reconhecimento de que o homem não domina inúmeros processos naturais
● Dificuldade de entender o homem como parte da natureza:
○ Separação artificial entre espaços “humanos” e espaços “naturais”
○ Espaços enclausurados: áreas protegidas em que todo tipo de atividade humana é
rechaçada/proibida → necessidade de repensar a forma como o homem lida com o seu entorno
de maneira mais ampla
● Conclusão:
○ Necessário conceber esses espaços como “híbridos” (Latour, 1991): sistemas sociedade-natureza
○ “A questão central, portanto, não é questionar a existência de visões naturalistas (...), mas como
desenvolver instrumentos conceituais para repensá-las dentro desse complexo hibridismo em
que cada vez mais estão se transformando” (Haesbaert, 2004, p. 55).
Perspectivas Materialistas
2) Socioeconômica
● Perspectiva entende o território a partir dos processos de controle e usufruto
dos recursos - naturais, econômicos, sociais
● Território como área “defendida” em função da disponibilidade e garantia de
recursos necessários à reprodução material de um grupo
● Agravamento de questões ambientais: pressão cada vez maior sobre recursos
naturais (água, solo agricultável, recursos minerais…) → iminência de novos
conflitos pelo domínio territorial
● “Território como recurso” x “Território como abrigo” (M. Santos, 2000)
○ Atores hegemônicos: território usado/concebido como meio para realização de seus interesses
○ Atores hegemonizados: território concebido como abrigo - busca constante de adaptação ao
espaço concebido por atores hegemônicos → (re)criação de estratégias de sobrevivência
Inserção do Território no mundo globalizado:
● Informação como nova “commodity”
● Territórios em rede: informações distantes (universais, globais) circulam
concomitantes a informações próximas (específicas, locais)
● Desdobramentos: mudança na escala de controle econômico e político dos
territórios - a organização dos territórios próximos tende a ser cada vez mais
definida em territórios distantes
“O solo [território] favorece ou entrava o crescimento dos Estados, segundo o modo
com que ele favorece ou entrava os deslocamentos dos indivíduos e das famílias [...].
O homem não é concebível sem o solo terrestre, assim como a principal obra humana:
o Estado. [...] O Estado vive necessariamente do solo” (Ratzel, 1988, p. 13)
Perspectiva Idealista
● Dimensão cultural-simbólica do território e das relações ali estabelecidas -
entre indivíduos e grupos sociais entre si… mas também entre esses
indivíduos/grupos e o próprio território → origem de movimentos separatistas
(nacionais, subnacionais), de reconhecimento (p. ex.: quilombolas, indígenas)
● Nesta perspectiva…:
“[...] o pertencimento ao território implica a representação da identidade cultural e
não mais a posição num polígono. Ela supõe redes múltiplas, refere-se a
geossímbolos mais que a fronteiras, inscreve-se nos lugares e caminhos que
ultrapassam os blocos de espaço homogêneo e contínuo da ‘ideologia geográfica’”
(Haesbaert, 2004, p. 71).
● Território estático → Território em movimento/evolução
● Lógica funcional estatal moderna → Lógica identitária pós-moderna
Em direção a uma perspectiva integrada
● Território como um espaço que não é estritamente natural, econômico, político
ou cultural: articular/conectar as diferentes concepções
● Concepção integrada do território:
○ É multiescalar: nele, se dá a relação dos macropoderes (políticos, institucionalizados) e dos
micropoderes (individuais/grupais, simbólicos e cotidianos)
○ Território é híbrido: reinterpretar as relações material x ideal; natureza x sociedade; esferas
econômica x política x cultural
○ Concepção aberta: não reivindica a primazia de nenhuma concepção de território sobre as outras
● Território concebido a partir da “[...] imbricação de múltiplas relações de poder,
do poder mais material das relações econômico-políticas ao poder mais simbólico
das relações de ordem mais estritamente cultural” (Haesbaert, 2004, p. 79)
2. Desenvolvimento territorial:
sustentável e endógeno
Concepções do desenvolvimento territorial
Desenvolvimento Sustentável Desenvolvimento Endógeno
● conecta a ideia de desenvolvimento ● estruturado ‘de baixo para cima’
socioeconômico ao conceito de (bottom-up)
sustentabilidade
● pressupõe a participação democrática
● preceito básico: a vida, hoje, na Terra e equânime dos diversos atores sociais
não deve comprometer as condições de do território
vida digna das gerações futuras
Sustentabilidade
Debate sobre a sustentabilidade: desde os anos 1970 - inúmeras correntes de
pensamento
Duas principais abordagens:
Economia
Sustentabilidade Meio Ambiente
Sociedade
Meio Sociedade Economia
Ambiente
Abordagem Ecológica
Abordagem Convencional
Abordagens da sustentabilidade
Abordagem Convencional ● Opera de acordo com as normas do
Abordagem Ecológica capitalismo de mercado
● Esferas econômica, social e ambiental
como distintas
● Separação conceitual entre as esferas
humana e ambiental
● Aceitação de trade-offs entre esferas
● Dimensões humanas e ambiental
integradas
● Fim de posições binárias, trade-offs
● ‘Caminho intermediário’: globalização
sustentável
Fonte: elaborado a partir de Bandarage (2013)
Abordagem Ecológica - o ‘caminho intermediário’
A ‘abordagem ecológica’ [do desenvolvimento sustentável] não desautoriza o crescimento
quantitativo, os papéis das corporações ou do estado. Também não exige desvinculação do
mercado ou da tecnologia global. Não é possível voltar à estagnação que caracterizou
sociedades pré-capitalistas ou abandonar completamente o crescimento econômico e a inovação
tecnológica. No entanto, para restaurar o equilíbrio ecológico e social, a homogeneização e a
globalização extremas precisam ser combatidas com estruturas socioeconômicas e práticas
culturais mais fortes em níveis locais e regionais. Os sistemas econômicos a nível comunitário
são vitais para a sobrevivência de ecossistemas ambientais locais, culturas, grupos étnicos,
comunidades e meios de subsistência. [...] A demanda por biorregionalismo e descentralização
traz consigo uma crítica ao capitalismo monopolista e ao crescimento tecnológico insustentável.
[...] O que é necessário não é uma completa desaceleração da globalização ou do
desenvolvimento econômico, mas uma forma de globalização mais sustentável, ética e
socialmente responsável que permita a diversidade no empreendedorismo e uma relação mais
justa entre os níveis global e local de atividade econômica (Bandarage, 2013, p. 80).
Da abordagem ecológica… para o ‘Modelo do Donut’
SÉCULO XX SÉCULO XXI
Políticas Públicas Políticas Públicas
Redistribuição de Renda Redistribuição das
Fontes de Riqueza
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●cum soPcoiisl.íticas de transferência de renda ●Proin vCelotenlltursonleecdinafetleisrrvoaluetpraet camurest omsolnesattieurais
●cum soCcoiisn. trole da criação de dinheiro
(Ex.: Bolsa Família) ● Propriedade das empresas (foco no
● Investimento em serviços públicos
cooperativismo; funcionários como
(educação, saúde…) proprietários - maior engajamento)
● Políticas essenciais… mas que não ● Propriedade da tecnologia e do
conhecimento (Ex.: softwares open
atacam a raiz do problema source; licenças livres)
Fonte: Raworth (2017)
O ‘Modelo Donut’ da sustentabilidade
Prioridades:
● Prover uma Base Social: necessidades
humanas mais básicas
● Respeitar o Teto Ecológico: os limites da
capacidade da natureza em nos fornecer
recursos
Entre os dois anéis (Base Social; Teto
Ecológico):
● Realização do desenvolvimento
sustentável, resultando num espaço de
justiça social e segurança ambiental
Fonte: Raworth (2017)
3. Empreendedorismo e emancipação
comunitária em direção à realização das
ODS
Empreendedorismo e Desenvolvimento
Quantitativo Qualitativo
Fomento à criatividade
Criação de novos
empregos Impulso à inovação
Geração de conhecimento
Agrega valor à cadeia
produtiva Difusão de tecnologia
Criação e difusão de cultura
Aumento do PIB
empreendedora local
Empreendedorismo Social
Atividade empreendedora que tem como fim
solucionar problemas sociais → motivações
sociais > motivações econômicas
Atividade inovadora, criadora de valor social e que
pode ocorrer dentro ou entre as organizações sem
fins lucrativos, empresariais ou governamentais
Impacto social: Contribui para superar a pobreza,
as mazelas, as desigualdades sociais, a falta de
acesso à saúde, à educação e à habitação
● Preenchimento de lacunas deixadas pelo Estado e
iniciativa privada
O empreendedorismo social não é sobre algumas pessoas extraordinárias salvando o
dia para todo mundo. No seu nível mais profundo, trata-se de revelar possibilidades
que estão atualmente invisíveis e liberar a capacidade dentro de cada pessoa para
remodelar uma parte do mundo. Ele não requer uma educação de elite, o que exige é
uma bagagem. O acervo de conhecimento no empreendedorismo social vem, em
primeira mão, do engajamento com o mundo (Bornstein, 2007, p.19-20).
Empreendedorismo Associativo / Cooperativo
Economia social e solidária:
● Pessoas e meio ambiente em primeiro lugar;
● Objetivo: promover uma vida digna para todos, com acesso universal a bens, recursos e serviços - “modo de
produção que se caracteriza pela igualdade” (Singer, 2002);
● Consumo mais justo e ambientalmente consciente: fomenta trocas, reutilização, reparação, compras justas do
ponto de vista social, ambiental e econômico;
● Pressupõe a autogestão: empresas geridas coletivamente pelos trabalhadores (cooperativas); gestão horizontal.
Fonte: Santos e
Carneiro (2008)
Características do empreendedorismo associativo / cooperativo
01 Cooperação no trabalho ● Flexibilidade do volume de trabalho perante às
demandas momentâneas;
02 Decisões coletivas
● Prestação gratuita de determinados serviços;
● Aportes voluntários à jornada de trabalho regular.
● supervisão e controle do trabalho pelos próprios
trabalhadores;
● incentivos psicológicos derivados do ambiente de equipe;
● redução de conflitos sociais no interior da unidade
econômica.
03 Compartilhamento de ● estímulos à iniciativa, à criatividade e à inovação;
conhecimentos e informações ● menores custos de comunicação e informação.
04 Confiança em torno de um projeto ● estímulos adicionais decorrentes da distribuição
comum equitativa dos benefícios conquistados;
● motivações extras dadas pela satisfação de
necessidades de relacionamento e de convivência;
● pessoas integradas nas várias dimensões de suas vidas,
assim mais ativas e cooperativas.
Fonte: elaborado a partir de Gaiger (2008)
Estudos apontam que… (Gaiger, 2008):
● Os empreendimentos com desempenho mais consistentes conciliam os recursos e
interesses individuais e familiares com o seu processo produtivo.
● Os empreendimentos com melhor desempenho global mantêm práticas de solidariedade e
ajuda mútua entre os seus membros e são mais participativos na gestão e nas decisões
políticas.
● Ações de ajuda à comunidade são mais frequentes entre os empreendimentos que praticam
a ajuda mútua internamente.
● Relações de reciprocidade, sem caráter mercantil ou monetário, têm efeitos sociais e
econômicos e impulsionam os empreendimentos.
Ecossistema Empreendedor Sustentável
Fonte: Siffert (2020), elaborado a partir de Isenberg (2011), Raworth (2017) e Bischoff e
Volkmann (2018)
Os benefícios de um Ecossistema Empreendedor Sustentável
Finalidade / Benefícios
03 Crescimento do número de
empregos, crescimento econômico,
Objetivo melhores condições ambientais,
melhoria da saúde e redução da
pobreza e falta de moradia.
Criar valor social, ambiental e Como?
econômico em uma comunidade
através do desenvolvimento de 01 02 Articulação de atores
interconectado em uma
novos empreendimentos comunidade geográfica local
sustentáveis. comprometida com o
desenvolvimento sustentável por
meio do apoio e facilitação de novos
empreendimentos sustentáveis.
Inclui a disponibilidade de
estruturas que facilitem o
surgimento de empreendedores
sustentáveis.
Fonte: elaborado a partir de Cohen (2006); Bischoff e Volkmann (2018)
Dimensão Econômica das ODS
● Plano Plurianual (PPA) – 2020-2023:
○ Dobrar a renda real por habitante dos
brasileiros
○ Reduzir as desigualdades sociais
○ Desenvolver tecnologias críticas
● Economia 4.0 e o futuro do emprego:
inteligência artificial, internet das coisas,
big data → substituição e precarização
● Como as novas tecnologias irão contribuir
para o enfrentamento da pobreza e da
desigualdade?
● Tecnologias sociais: ODS como guias para
um desenvolvimento tecnológico para
promover a igualdade social
Referências
Bandarage, A. (2013). Sustainability and well-being: The middle path to environment, society and the economy. Basingstoke,
Inglaterra: Palgrave Macmillan.
Bischoff, K., & Volkmann, C. K. (2018). Stakeholder support for sustainable entrepreneurship - a framework of sustainable
entrepreneurial ecosystems. International Journal of Entrepreneurial Venturing, 10(2), 172–201.
Bornstein, D. (2007). How to change the world: Social entrepreneurship and the power of ideas. Oxford: Oxford University
Press.
Cohen, B. (2006). Sustainable Valley Entrepreneurial Ecosystems. Business Strategy and the Environment, 14, 1–14.
Gaiger, L. I. (2008). A dimensão empreendedora da economia solidária: Notas para um debate necessário. Otra Economía -
Revista Latinoamericana de Economía Social y Solidaria, 2(3), 58–72.
Haesbaert, R. (2004). O Mito da Desterritorialização: Do “fim dos territórios” à multiterritorialidade. Rio de Janeiro, RJ:
Bertrand Brasil.
Isenberg, D. J. (2011). The Entrepreneurship Ecosystem Strategy as a New Paradigm for Economic Policy: Principles for
Cultivating Entrepreneurship. The Babson Entrepreneurship Ecosystem Project.
Morais, L. & Bacic, M. (2018). Cooperativas modernas no sistema dos objetivos de desenvolvimento sustentável (ODS): A
importância de ecossistema de empreendimento solidário. In: Anais do Annual Chayanov Meetings, p. 1-25. Moscou,
Rússia: Russian University of Cooperation.
Singer, P. (2002). Introdução à economia solidária. São Paulo, SP: Fundação Perseu Ábramo.
Raworth, K. (2017). Doughnut Economics: Seven Ways to Think Like a 21st-Century Economist. Londres, Inglaterra:
Random House Business.