FUZUÊ / AGOSTO 2014
FUZUÊ / AGOSTO 2014 Editorial Cuiabá é feita de cores e sons, de paladares e gestos, de dança e beleza. Mas não só. Aqui tem sotaques, gírias, trejeitos e credos. Tem ruas estreitas, praças aos montes, construções antigas, pedaço de cimento e tinta que denuncia sua idade e nos diz muito sobre a história. Cuiabá também tem ar seco e muito calor, ainda mais ingratos no inverno. Os quase 40° de agosto e setembro contrastam com a temperatura mais amena e o clima úmido do verão. Vai entender... A despeito dos problemas que a cidade carrega, especialmente de trânsito, poluição e distribuição de renda, a miscelânea cultural da capital matogrossense cativa o forasteiro e orgulha seu povo. Contraditoriamente, esse mosaico de características define a identidade dos que cá nasceram e daqueles que aqui escolheram viver. Contudo, é importante que se diga: os nomes das ruas, bairros e da própria cidade comprovam a concepção indígena de tudo, e é imperativo que se respeite isso. Mas a diversidade cultural cuiabana está expressa em outras manifestações: na gastronomia, de comidas variadas e para todos os gostos; no comércio, de opções para bolsos econômicos e generosos; no esporte, com a bola e o skate nos pés. Cuiabá, como se vê, é um leque que venta pra lá e pra cá. Nada mais saudável, em meio ao predomínio da cultura de massa, estar num reduto de diferenças. E a nós – nascidos ou não aqui, mas que aqui estamos – cabe cuidar. Zelar para que não acabe. Proteger para que melhore. Divulgar para que todos saibam. Os valores desta terra, como os de qualquer outra, merecem ser propagados, denunciados, enaltecidos. Porque em cada canto de Cuiabá tem alguém que compõe o povo, este que é a pedra fundamental de uma cidade que se preze. Enquanto o cuiabano do pé rachado vai virando passado, novas possibilidades de manifestações surgem, mais jovens, menos enraizadas à história. Ao mesmo tempo, há quem resgate o princípio de tudo, ainda que em tentativas escassas. Não há prova mais cabal de que o antigo e o atual podem conviver. Enquanto houver espaço para o alternativo e o corriqueiro dialogarem, bom pra gente. CUIABÁ É, NO MELHOR SENTIDO, UM FUZUÊ Thiago Cury Luiz Foto: Isabela Meyer
FUZUÊ / AGOSTO 2014 3 Expediente ORIENTAÇÃO ALUNOS/REPÓRTERES FUZUÊ Esporte e Cultura em Cuiabá Prof. Javier Eduardo López Prof. Msc. Thiago Cury Luiz Aline Coelho Desirêe Galvão Gabriela Poletto Isabela Mercuri Julia Oviedo Patrícia Dorileo Leandro Nogueira Caio Pimenta Luiz Nogueira Olímpio Vasconcelos
FUZUÊ / AGOSTO 2014 CRÔNICA: PAIXÃO ALVINEGRA REPORTAGEM: FUTEBOL CUIABANO ARTIGO: VIROU BAGUNÇA? REPORTAGEM: OCUPA, RESISTE E PRODUZ REPORTAGEM: 24 DE OUTUBRO CRÔNICA: SILÊNCIO NA PRAÇA REPORTAGEM: CULINÁRIA CUIABANA CRÔNICA: PENSAMENTOS MATUTINOS ARTIGO: ONÇA PINTADA REPORTAGEM: FEIRA-LIVRE CRÔNICA: RASQUEADO CUIABANO REPORTAGEM: NORDESTE EM CUIABÁ ARTIGO: SÃO BENEDITO REPORTAGEM: CIDADE VERDE ARTIGO: TRADIÇÃO AMEAÇADA ARTIGO: CUIABANICES EDITORIAL EXPEDIENTE SUMÁRIO DA REDAÇÃO ESPORTE SUMÁRIO 4 2 3 4 CRÔNICA: O MALABARES CULTURA 5 6 9 10 14 13 17 18 20 21 22 25 26 29 30 32 33
FUZUÊ / AGOSTO 2014 5 Paixão Alvinegra Ninguém acredita quando eu digo que, quando criança, meus pais me vestiam frequentemente com o uniforme completo do Vasco da Gama ou do Mixto Esporte Clube. E isso envolvia da camiseta até o meião, copiando os jogadores dos times profissionais. Uma guriazinha, de fisionomia meiga, vestida do laçinho no cabelo à chuteira nos mini-pés de preto e branco? Só acreditam se eu mostro os álbuns de fotografia. Sempre tive relações estreitas com o futebol, muito por influência do meu pai. Brinco que ele fez uma lavagem cerebral e me deixou sem opção. Convidava-me (com meus poucos cinco, seis anos de idade) para assistir o Vascão pela TV em sua companhia, ensinava-me as regras, levava-me ao estádio aos domingos. Até o quarto, que eu dividia com meu irmão mais novo, tinha uma decoração temática. Quase todo fim de semana havia jogo do Mixto no Verdão. Espera. Deixe-me fazer um adendo antes, amigo leitor: o Verdão para sempre será Verdão. Essa história de Arena Pantanal é Idos dos anos 90... O mixtense comparecia aos jogos sem medo de decepcionar. Achava impressionante a torcida Boca Suja, que nasceu no mesmo ano que eu, conseguir reunir gente nova e gente idosa para incentivar o time – e, é bem verdade, muitas vezes esculhambá-lo também. Achava os desenhos de caveiras das bandeiras um pouco macabros. Coisa de criança. Não entendia uma palavra dos gritos de guerra, às vezes os xingamentos. Mas a chuva de papel higiênico da organizada em direção ao campo era o mais impressionante aos meus olhos infantis. Pode-se dizer que já era meio ecochata, culpa da escola, e pensava que aquilo era um completo desperdício, mas me divertia com a senhorinha que descia ao campo para recolhê-los e colocar numa sacola colorida e larga. Ela estava lá em todos os jogos. Senhores e senhoras ocupavam, aparentemente, o maior espaço no estádio. Quem viu o Mixto nascer, o acompanhava com devoção. Era o verdadeiro torcedor. Eu não entendia muito bem, mas sabia que aquilo era bonito. “A chuva de papel higiênico da organizada em direção ao campo era o mais impressionante aos meus olhos infantis.” ficção. Para o cuiabano legítimo é Verdão, por honra à história. Pois então: quase todo fim de semana, antes de o estádio ser demolido e reconstruído para a Copa do Mundo, havia jogo do Mixto no Verdão. O Dutrinha, como é apelidado carinhosamente o Estádio Presidente Dutra, raramente recebia os jogos devido a sua reduzida capacidade de público. Quase sempre eu ia com meu pai e meu irmão, às vezes tios e primos, torcer pelo alvinegro cuiabano. Ir ao estádio é uma farra, especialmente quando criança. Era preciso encarar uma longa, mas rápida fila para comprar os ingressos. Meu pai nunca os adquiria antecipadamente para poupar seus filhos daquele sol que já rachava as cabeças. Ali na entrada havia uma porção de ambulantes vendendo de pipoca a mini binóculos, de churros a bandeirolas dos times da partida. Nos tempos das vacas gordas (e de quando a pipoca custava um real, não cinco, como agora), meu pai fazia o kit-estádio com tudo o que pudesse. Entrávamos e, para mim, ali era um mundo paralelo. Hoje, ir ao Verdão é um pouco menos grandioso, espetacular, mas emocionante da mesma forma. Perceber que o amor à camisa e honra ao clube superam todos os obstáculos é estimulante. E ver crianças do presente participando e acompanhando os pais, como aconteceu na minha família, coloca um sorriso nos lábios de todo mixtense das antigas. SOU MIXTENSE DESDE QUE NASCI Patrícia Dorileo Mixtense desde criança, tem grande paixão pelo esporte futebol que aprendeu com o pai. É estudante do sexto semestre de jornalismo na Universidade Federal de Mato-Grosso.
6 FUZUÊ / AGOSTO 2014 HISTÓRIA DE COMPROMETIMENTO E DEVOÇÃO Estamos distantes das grandes cidades brasileiras. Dizem que a maioria das coisas chega aqui depois. Perceba, por exemplo, que os quatro grandes clubes do Rio de Janeiro foram fundados entre 1890 e 1905. Os de São Paulo vieram depois de 1905, mas antes de 1930. Houve um tempo em que pipocavam clubes esportivos em Cuiabá. No decorrer das décadas de 20, 30 e 40 do século passado surgiram os três maiores times de Mato Grosso por muitos anos: o Clube Esportivo Dom Bosco, o Mixto Esporte Clube e o Clube Esportivo Operário Várzea-grandense. Respectivamente em 1925, 1934 e 1949. O Dom Bosco é o primogênito do Estado. Nasceu no antigo Lyceu de Artes e Ofícios, hoje o Colégio Salesiano São Gonçalo, em 04 de janeiro de 1925. Há poucos registros de como aconteceu a iniciativa para fundação do clube. Sua sede sempre foi e é até hoje no Morro da Luz, parque tombado em patrimônio histórico municipal. Por isso seu apelido é Leão da Colina. Por um período foi o único clube que mantinha um time de futebol. Quando foi criado o Campeonato Estadual Matogrossense, em 1979, o Dom Bosco já começou disputando. Entretanto, sua história conta com apenas um título estadual, datado de 1991. Em 2006 foi rebaixado para a segunda divisão e em 2007 licenciou-se e deixou de disputar o Campeonato. O hino oficial do dom Bosco canta “[...] Dom Bosco é tradicional / Seu clube não tem rival / Cartão de visita da cidade / E tem autoridade / Para ser o maioral”. Foi filho único por pouco tempo. Nos primeiros dias de maio de 1934, uma reunião convocada pela professora Zulmira Canavarros foi realizada na casa em frente à antiga Igreja Senhor dos Passos na Rua 7 de setembro, pertencente ao Coronel da Guarda Nacional, Avelino de Siqueira, e sua esposa, Maria Luiza Hugueney. Nessa reunião participaram sete pessoas e ali foi fundado um novo clube que refletiria o encontro dos dois sexos: o Mixto Esporte Clube. Não mediram esforços para fazer o clube dar certo. Em 20 de maio, na mesma residência, foi eleita a primeira Diretoria. Adquiriram a sede própria, na Rua Cândido Mariano, com recursos doados pelos primeiros associados A história dos principais clubes de futebol de Mato Grosso é rica. A relação das torcidas com eles é ainda mais valiosa. Olímpio Vasconcelos Patrícia Dorileo
FUZUÊ / AGOSTO 2014 mixtenses. Zulmira, personagem marcante nas manifestações culturais da capital matogrossense, criou o emblema do clube e compôs o hino ao piano. Em menos de um mês inauguravam a quadra de esportes do clube, com palavras de abertura de Maria Alzira Alderett, para desenvolverem suas atividades esportivas. Ranulpho Paes de Barros também é figura importantíssima para o Mixto. Em sua vida foi educador, jornalista, esportista e político. No clube, não apenas fez parte do elenco do time, mas era também moderador, conselheiro dos colegas, substituto do técnico, quando preciso, e o presidente na época. Um verdadeiro pai. O primeiro time de futebol do Mixto foi criado apenas seis anos depois de sua fundação, tendo resultados iniciais frustrantes, com sua organização e profissionais amadores. O futebol em Cuiabá profissionalizouse apenas em 1967, quando os times disputavam as partidas no Dutrinha – oficialmente, o Estádio Presidente Dutra. O “leão da colina” e o “alvinegro cuiabano” fazem o maior derby da capital. O encontro entre os dois é conhecido como ‘Clássico Vovô’, por ser o clássico matogrossense mais antigo. Contemporâneo ao Mixto nasceu o Clube Esportivo Operário Varzeagrandense, em 1949, filho do esportista Rubens Baracat dos Santos. Seu nome justifica-se pela data de sua fundação: 01º de maio. Rubens queria que houvesse um time para enfrentar o Mixto e o Dom Bosco, os únicos na capital até então. Apesar de ter havido algumas mudanças em sua razão social, seu apelido é, desde o princípio, “Chicote da Fronteira”. O Operário foi o primeiro a sagrar-se campeão matogrossense em 1983, 85, 86, 87, 1994, 95, 97, 2002 e 2006 As histórias dos três clubes do Estado aqui retratados coincidem-se em ter períodos de complicações financeiras. Em 2009, o time de Várzea Grande dividiu-se em dois, para escapar das dívidas, e criou outra razão social para disputa da segunda divisão do campeonato estadual: o Operário Futebol Clube Ltda. O torcedor ficou confuso, não sabia para qual torcer. Dificultou também o trabalho de estatísticas realizado durante a competição. A maior torcida do Estado sempre foi e continua sendo a do Mixto Esporte Clube. Entretanto, independentemente dos números, as torcidas pelos times de futebol matogrossenses são todas apaixonadas e fervorosas. Independentemente dos números, as torcidas pelos times de futebol matogrossenses são todas apaixonadas e fervorosas Futebol Cuiabano 7
FUZUÊ / AGOSTO 2014 O mais valioso patrimônio de um clube de futebol é a sua torcida. Cidadãos que carregam o sentimento pelo time de coração, capazes de atos absurdos. Dona Mariana Macedo, torcedora símbolo do Operário de Várzea Grande, explica que começou a torcer por influência de seu marido. Ele era militar, e a cadeia pública ficava em frente ao estádio Eurico Gaspar Dutra. Um dia foi levar almoço para o marido que estava no serviço, e ele lhe disse que aconteceria uma partida. “Fui ao jogo, e desde então comecei a gostar de futebol. Eu passei a ter uma desculpa para levar almoço quando meu marido estava trabalhando”. A entrada era gratuita, pois os times eram amadores. Isso ajudava bastante a presença de público nos jogos em Mato Grosso. “Meu marido torcia para o Mixto, mas quando eu comecei a torcer para o Operário, trouxe ele para o nosso lado”, exclama dona Mariana com graça. Dona Mariana é operariana há muitos anos, não se lembra a data exata de quando começou essa paixão, mas sabe que torce pelo tricolor desde o campeonato amador. Hoje tem 76 anos. Começou a ir ao estádio com 17. Há 59 anos acompanha o Operário. Antes, ela torcia para o Atlético Matogrossense, que possuía as mesmas cores do atual Operário. O time acabou e dona Mariana prometeu a si mesma: “vou torcer para o time que tiver as mesmas cores”. Quando o futebol se profissionalizou no Estado, vieram os anos dourados e o Operário sagrouse o primeiro campeão estadual. Dona Mariana confirma essa ideia: “Quando inaugurou o Verdão, Mixto e Operário colocavam 45 mil pessoas. O estádio ficava lindo, precisava sair cedo de casa”. Nesse tempo existia a rivalidade, mas sem agressão. “Nós íamos cantar, dançar carnaval dentro do estádio, era lindo. O progresso às vezes faz coisas feias”. Junto com o crescimento das torcidas, vieram péssimas administrações. Os três clubes tinham consideráveis sedes construídas nos tempos áureos do futebol daqui. Os ambientes eram usados também para shows, eventos de diversas naturezas, além da área social, com piscinas, quadras, salão de jogos. AjudaAs Torcidas va na renda dos clubes. Mixto e Operário perderam essa riqueza. O Dom Bosco ainda mantém a estrutura, que desde 2007 veio sendo revitalizada. “Cada ano veio melhorando um pouco. Hoje está muito bonita”, afirma Fábio Assis, presidente da Associação Leão da Colina (ALECO). Fábio é neto do principal dirigente que o Dom Bosco teve durante as décadas de 60, 70 e 80, Joaquim Francisco de Assis. Ele revela que aos 13 anos ouvia da própria família comentários ruins sobre o clube, porque o patriarca gastava muito dinheiro com o time profissional. Porém, com o tempo, passou a enxergar tudo o que havia sido construído pelo seu avô. Então, começou a frequentar estádios, tornou-se torcedor assíduo. Também é presidente da ALECO, grupo que conta com 130 membros que auxiliam no marketing, questões jurídicas, financeiras, alimentação, e em tudo o mais que o clube precisar. O time profissional é uma empresa e conta com dois proprietários, que se responsabilizam pelos custos do elenco de jogadores. São torcedores participantes – a nova modalidade de ajuda ao clube do coração. ESPAÇO PARA TEXTO-LEGENDA A maior torcida organizada de Mato Grosso, a Boca Suja, fundada em 05 de maio de 1992, não possui time para torcer. O Mixto, clube com mais conquistas estaduais, está sem calendário para 2014. Não disputa uma partida sequer desde abril, quando perdeu para o Santos pela Copa do Brasil. Além disso, teve seu presidente, Éder Moraes, preso pela Polícia Federal. Por isso, ele renunciou ao cargo e novas eleições estão marcadas. O conselho deliberativo se reunirá para eleger um mandatário para o clube. “Está na hora das próprias pessoas do Mixto assumirem o futebol, e não esperar que apareça um empresário de fora com muito dinheiro. Um salvador da pátria”, diz Fábio Ramirez, Conselheiro do Mixto e membro da Boca Suja. A Torcida Boca Suja (TBS) tem 25 núcleos espalhados pelos principais bairros de Cuiabá. Foi a primeira torcida a trazer o jeito carioca de torcer, criando canções, gritos de guerra, hinos alternativos e talvez o principal: a característica de apoiar o time o tempo todo. É exemplo inclusive fora de campo, reivindicando e cobrando da diretoria. O momento atual é bem diferente de anos gloriosos do futebol matogrossense. Fazia parte da vida do cuiabano e do varzeagrandense ir ao estádio Verdão para acompanhar e vibrar com o time do coração. Era a forma que a torcida colaborava com os clubes. Diferente do que acontece atualmente, em que eles são mais participativos nas decisões e ajudam diretamente. Com a Arena Pantanal à disposição destes clubes, existe uma chance deles tentarem se reerguer. Torcedores apaixonados não faltam. O CENÁRIO ATUAL Futebol Cuiabano 8
FUZUÊ / AGOSTO 2014 9 A bagunça do Campeonato Matogrossense assusta. O amadorismo impera na Federação que administra a principal competição do estado. A falta de público nos estádios, a baixa média de gols, a péssima qualidade dos gramados, os salários atrasados, fórmula de disputa esquisita, mudança constante na tabela de jogos, entre muitas outras lambanças causadas pela falta de carinho com as partidas disputadas pelo Mato Grosso. Dois times desistiram da competição dias antes do seu inicio. Vila Aurora e Sorriso enviaram um ofício se licenciando do campeonato por falta de dinheiro. Vão tomar apenas uma suspensão de dois anos. Isso é fruto da falta de transparência dos contratos firmados com a TV que transmite os jogos, o repasse do Governo Estadual e a desconfiança das empresas em patrocinar um certame caótico. Ronaldo Helal, no capítulo intitulado “A crise do futebol brasileiro: Cultura Brasileira e Modernidade”, do seu livro “Passes e impasses”, destaca que a modernização do futebol ao redor do mundo colocou o Brasil um passo atrás. Ele fez essa análise pegando a cobertura jornalística na década de 70 e 80. O grande problema que Helal viu no início da década de 80 no Brasil foram os campeonatos deficitários, que eram vistos como resultado do predomínio da mentalidade amadora dos dirigentes e da política da troca de favores entre clubes e federações. Temos jogadores profissionais e cartolas amadores, esse é um problema da década de 80 no Brasil e que em Mato Grosso se acentua nos dias atuais. As constantes mudanças das datas e horários das partidas, em razão de acordos entre os clubes ou para adequação da transmissão televisiva, deixam até os torcedores fiéis sem saber quando o seu time vai entrar em campo. Tem que haver um maior rigor nesses detalhes. O Estatuto do Torcedor é ferido a todo o momento. Públicos no Dutrinha sempre divulgados abaixo dos presentes, portões abertos sem policiamento, banheiros inadequados, a falta de transparência financeira da entidade que comanda o futebol, são alguns exemplos de como o torcedor está desprotegido. Para um Estado que está fora dos grandes eixos do futebol, a 14ª posição no ranking das Federações, ter um clube na série B do Campeonato Brasileiro e ter a capital sediando a Copa do Mundo são fatores que colocam em evidência o Mato Grosso. Infelizmente são elementos isolados. Trabalhos desenvolvidos em Lucas do Rio Verde, com o time principal, e no Rondonópolis, com as categorias de base, fazem os amantes do futebol matogrossense acreditarem no crescimento da maior paixão do povo brasileiro. Acontecimentos novos e ideologias ultrapassadas. Quem administra o futebol precisa renovar as ideias. Deixar de ser diletante e se especializar no desenvolvimento do futebol em Mato Grosso. Uma reflexão profunda na forma como é conduzido tudo que envolve o esporte jogado com os pés, mas os dirigentes precisam usar a cabeça para não o deixar a paixão da massa cair no limbo. DESCASO COM O FUTEBOL MATO-GROSSENSE Olímpio Vasconcelos Quem administra o futebol precisa renovar as ideias. Virou Bagunça? Olímpio Vasconcelos é um apaixonado pelo futebol, principalmente pelo mato-grossense, conhece muito sobre essa paixão nacional nas terras pantaneiras. Ele é aluno de jornalismo do sexto semestre na Universidade Federal de Mato-Grosso.
FUZUÊ / AGOSTO 2014 Os skatistas comemoram. Várzea Grande agora tem um espaço para a prática do esporte: o Cristo Rei Skate Park. O nome é pomposo, apesar de dar a impressão de que faz referência a dois dos bairros mais populosos da localidade: o Cristo Rei e o Parque do Lago. Mas, de acordo com o tatuador Santiago do Pântano, de 28 anos, um dos idealizadores do projeto de ocupação do ginásio, o objetivo era apenas passar a ideia de pertencimento aos moradores, para que eles tomassem conta do espaço que estava abandonado há quase uma década pelo poder público. Localizado no bairro Cristo Rei, o ginásio Ferreirão homenageia o cartorário Alibel Ferreira da Silva, falecido em 1986, um ano antes da inauguração da obra pelo ex-prefeito Jaime Veríssimo de Campos. Descendente de família tradicional da cidade, Alibel foi vereador no município de Várzea Grande entre os anos de 1974 e 1977. De acordo com o Subsecretário de esporte e lazer do município, Dino Portes, atualmente, Várzea Grande conta com sete ginásios, mas apenas dois estão em condições de uso: um no Parque do Lago e outro no Jardim Glória. Todos os outros precisam de reformas ou estão fechados, a exemplo do ginásio Fiotão, no Centro. Foram quinze anos de luta pelo skate no bairro. Wagner Santos lembra que os primeiros rolês aconteciam na praça Áurea Brás, na região central do Cristo Rei. Ali, havia também uma tabela com o aro de ferro, onde o pessoal praticava o basquete. Os skatistas lamentaram a desativação da pista mais tradicional da cidade, no bairro Ipase, onde recentemente foi construído o Fórum. Como opção, restou apenas a pista externa do Verdinho, ginásio localizado na região do CPA, inaugurado na capital do estado na gestão do ex-prefeito Roberto França Auad. Eles confessam que sempre estiveram de olho no Ferreirão, preocupados com o desleixo como qual o ginásio vinha sendo administrado. A necessidade impulsionou a vontade de ocupar. Como Várzea Grande não tem pista pública, um grupo de amigos com idade entre 20 e 35 anos se reuniu e resolveu reabrir o ginásio Ferreirão. Não pediram ajuda nem da prefeitura e nem de patrocinadores. Primeiro, foi retirado o entulho que estava na quadra. Como não havia (e ainda não há) água encanada, os caras preciCristo Rei Skate Park tem a primeira pista pública coberta do estado de Mato Grosso DOMINGO NO CRISTO REI SKATE PARK Em Várzea Grande, skatistas reabrem ao público o ginásio Ferreirão que esteve fechado por quase uma década Odair de Morais Caio Pimenta 10
FUZUÊ / AGOSTO 2014 Ocupa, Resiste e Produz saram de dois caminhões-pipa para lavar o piso. No final das contas, eles avaliam que desembolsaram aproximadamente 5 mil reais na construção dos obstáculos que foram colocados na pista. Desde então, realizaram dois campeonatos de skate na nova casa. E de graça. O ginásio chegou a comportar cerca de 400 pessoas nas arquibancadas. “Conseguimos reunir atletas de vários bairros de Várzea Grande, o que significa que a comunidade aprova o nosso trabalho”, avalia Wagner Santos. William Alves da Silva, um senhor de 60 anos que encontrei cochilando na cabine de uma F1000, trabalha há quinze anos com frete no local. Ele conta que o ginásio serviu de almoxarifado da prefeitura durante muito tempo. Ali guardava-se de tudo: cadeiras escolares quebradas, mesas e materiais de construção que sobravam de obras públicas. Em um leilão, a prefeitura vendeu o material que estava guardado no ginásio. “Ficou só entulho e sujeira aí dentro”, relata o motorista. O ginásio continuou fechado. Foram oito anos sem uso. “Aqui tinha zelador, guarda... Todo mundo foi demitido. O lugar ficou abandonado. Coqueiro, iluminação, estacionamento, calçada: acabou tudo. No final, disseram que iam desmanchar (sic) o ginásio, com a promessa de que construiriam outro no bairro Hélio Ponce”. Para William, a política nunca vai mudar: “Política é máfia. Só existe para enriquecimento próprio!” Ele argumenta que atualmente os eleitores não têm opção. “Todo ano aparecem as mesmas caras. Nessa eleição você vai ver a quantidade de voto nulo! Deviam trocar todo mundo, do presidente da república ao presidente de bairro”. Santiago prega horizontalidade e igualdade entre os que frequentam a pista: “Aqui, os únicos proibidos de fazer manobras são os políticos”. Anarquista convicto, sua ideologia é contrária a qualquer tipo de hierarquia. Mas – apesar de todos os argumentos que possam ser utilizados Subsecretário de esportes e lazer do município (à esquerda) vistoria o ginásio, em foto tirada antes da ocupação em sua defesa –, parece impossível não imputar a ele o papel de líder, o qual até mesmo os mais antigos companheiros de skate lhe atribuem. O fato é que, sem ele, provavelmente o projeto não teria andado. Criada no mês de janeiro, a página do grupo no facebook contém postagens e fotos que comprovam que as atividades vêm sendo realizadas no local desde o início do ano. Conforme Santiago, no entanto, no primeiro semestre de 2014 o Cristo Rei Skate Park completou um ano de atividade: “O movimento começou em junho do ano passado. E segue firme e forte, apesar da vigilância dos gestores públicos”. Em uma postagem do dia 26 de janeiro, após convocar os skatistas para o Segundo Campeonato Resistência, o administrador faz o seguinte comentário: “Fazemos o serviço de quem realmente deveria fazer. Ou seja, a prefeitura de Várzea Grande. Com atitude provamos que podemos lutar por algo que amamos. Não espere pelo Estado burguês corrupto e falido!” A pista do Ipase, antes de ser demolida, ficou anos sem reformas. Santiago comenta que, caso não tivessem feito a ocupação, inevitavelmente o Ferreirão teria o mesmo destino. “Os problemas apresentados no local eram reflexo da sociedade: violência, tráfico de drogas e especulação mobiliária. Como em qualquer outra parte da cidade, a burguesia política menospreza os espaços públicos para que o abandono gere insatisfação na sociedade, que acaba decidindo entregar o que era público ao empresariado”. Sempre que possível, Santiago investe no trabalho de politização dos skatistas. Inclusive, boa parte dos que frequentam o Cristo Rei Skate Park estavam presentes na manifestação ocorrida em novembro do ano passado no Terminal de ônibus André Maggi. “Patrimônio público não tem dono. A comunidade precisa zelar e promover atividades nas áreas destinadas ao lazer que são construídas pela prefeitura. Está comprovado: quando a comunidade estende a mão, a parceria dá certo”, declara o Subsecretá- “Aqui, os únicos proibidos de fazer manobras são os políticos”, afirma Santiago. 11
FUZUÊ / AGOSTO 2014 Ocupa, Resiste e Produz rio de esportes e lazer do município, Dino Portes. Mas, em relação ao ginásio de esportes Ferreirão, ele declara que o local é inapropriado para práticas desportivas. “Precisamos devolvê-lo em condições de uso para a sociedade. Há rachaduras e problemas na parte física do prédio. Reformá-lo seria o mesmo que vestir uma camisa nova, mas e o corpo, como está? Tudo indica que o ginásio será demolido. Vamos ter que fazer tudo de novo.” O assunto não é novidade para os skatistas, pois suas aparições na tevê repercutiram positivamente e lhes renderam alguns encontros com os gestores municipais. Foram “descobertos” por uma equipe do Record nos Esportes, da TV Gazeta. Em seguida, logo após a veiculação de uma matéria transmitida pela TV Centro América, afiliada da Rede Globo em Mato Grosso, o Secretário de esportes do município os procurou para uma reunião, em maio deste ano. “Rolaram duas reuniões [com o Secretário] após a ocupação. Na primeira, nos prometeram um espaço que nem existe. Nunca existiu. Ou seja, queriam que a gente vazasse”, conta Santiago. Para o segundo encontro com o político, os skatistas se precaveram e convocaram diversos representantes dos movimentos sociais. “O cara gelou quando viu uma galera com bonés do MST, camisetas do Resistência Popular. Então arriscou uma segunda promessa, dizendo que tinha uma verba de 140 mil que seria destinada para a reforma do Ferreirão. Conversa. Prometeram 500 mil pro Fiotão e nada foi feito”. Enquanto nada acontece, os skatistas continuam promovendo exibições de filmes, apresentações de hip-hop, dança de rua, oficinas de grafite, capoeira e festivais de música alternativa. Ao completar um ano de atuação no ginásio, comemoraram com um ensaio aberto intitulado “Denunciando os ratos”, com a banda anarcopunk “Ruídos do horror”. E ainda: “Conduta do gueto”, banda de rap do Mapim, bairro situado na periferia de Várzea Grande; o rapper Mano Careca; e a banda hardcore “RML”. Durante os eventos, é constante a presença de representantes dos movimentos populares, que, segundo Santiago, são sempre muito bem-vindos. O ginásio fica aberto apenas aos sábados e domingos. “Pra não incentivar a gurizada a deixar de ir à escola”, explica Santiago. Mas, ele avisa que tem a intenção de montar uma biblioteca libertária, que, caso consiga um local adequado, funcionará também durante a semana. “Matar aula pra estudar é válido!” Cartazes que divulgam a atuação política do “Cristo Rei Skate Park: coletivo de ação esportiva, cultural e social” Santiago do Pântano “demarcando o território” Dino Portes: “Está c o m p r o v a d o : quando a comunidade estende a mão ao poder público, a parceria dá certo!” 12
FUZUÊ / AGOSTO 2014 13 Diante do farol, vejo que o malabarista fez da faixa de pedestre o seu picadeiro improvisado. (Certa vez um conhecido quis repetir um truque que vira num farol na cidade em que morava, e desastradamente acabou engolindo um bocado de álcool.) Atira para o alto suas coloridas clavas no intuito de que sejam vistas pelo maior número de condutores. Recém libertas, como se saíssem de um alçapão, elas voam suaves e obedientes aos lentos e repetitivos movimentos do andrajoso mago do farol. Na falta de um traje convencional, ele resolveu cobrir-se de trapos. É a beleza gratuita do sinal semafórico. E representa agora na capital do estado o declínio, a falência e a queda do circo. Me fez lembrar de uma matéria que li, tempos atrás, sobre os decrépitos leões abandonados nas estradas pelos impassíveis donos de circo. Enquanto o malabares se apresenta, imagino ouvir os divertidos acordes de uma orquestra circense. Ele aparenta entusiasmo. Ainda que alguma coisa venha a dar errado, ele sabe como agir. Tem tudo sob o controle. Gargalhará como um legítimo palhaço e recomeçará sem o menor constrangimento. Sob a velha cartola, seus cabelos estão em completo desalinho e empapados de suor. Circo do céu ou do sol escaldante?, me pergunto. Atravessamos o deserto do Saara, em pleno carnaval. No cruzamento das avenidas Mato Grosso com a Tenente Coronel Duarte, com extrema agilidade e destreza, o maestro mal -ajambrado sincroniza os objetos que atira pro ar de instante a instante. Grudou um sorriso na cara, bem embaixo do nariz de palhaço. Exagerado como a própria maquiagem. Misero mago malabarista mal -ajambrado, como pode saber o momento exato de interromper as acrobacias? Rufam-se os tambores! A qualquer momento, o sinal vai se abrir. Ele se apressa. Tenta, a qualquer preço, sensibilizar os motoristas. Caminha agora com humildade entre o desprezo de uns e a caridade de poucos. Todo encanto e magia desapareceram subitamente de seu magro semblante. Acaba de incorporar um pedinte humilhado. Não tivesse visto o seu desempenho, acreditaria que fosse um qualquer com a mão estendida rente ao vidro que o separa de seu respeitável público... Desce uma escura lona sobre sua alma circense. O sinal fica verde novamente. O circo improvisado é desfeito às pressas. Seu rosto foi de lívido a trágico em menos de sessenta segundos. Sua maquiagem, neste momento, lembra uma antiga máscara grega. Corre pra calçada. Tudo o que ele menos quer é ser atropelado. Se pudéssemos nos aproximar um pouco mais, num close poderíamos perceber todos os tiques que ele apresenta. Inclusive, acompanharíamos o rastro úmido que uma translúcida gota vai deixando para trás ao escorrer agora pela sua carranca ressecada. Junto à faixa de pedestres, diante do farol, ele se prepara. fluxo de automóveis, feito um novo Moisés. O MALABARES Odair de Morais Odair de Moraes é formado em Letras pela UFMT e dá aula de língua portuguesa em uma escola pública de Várzea Grande. Ele está no sexto semestre de jornalismo pela Universidade Federal de Mato-Grosso. Grudou um sorriso na cara, bem embaixo do nariz de palhaço. Exagerado como a própria maquiagem. Artista de Rua
FUZUÊ / AGOSTO 2014 Ali mesmo, entre duas avenidas arteriais de Cuiabá: Getúlio Vargas e Isaac Povoas. Desça a rua vinte e quatro de outubro a pé. Na contramão, mesmo. Não é difícil achar. É colorida, charmosa, enfeitada com bandeirinhas penduradas sobre o caminho. Passe por um restaurante árabe, uma lojinha de cupcakes. Encontre a Tapiocaria. Aquele início de rua tem “quê” de anos 60 e feiras tradicionais. Continue seguindo pela calçada estreita. Mas se você estiver por lá aos finais de semana, esteja tranquilo para andar no meio da rua. Não muitos passos à frente, na primeira quadra mesmo, mora um jardim: o jardim do Espaço Magnólia. Três lojas lindas, estilo europeu. Não menos providencial, uma delas serve chás e produtos finos para banho. Seguindo pelo jardim, mais ao fundo, o Armazém da Creuza. Uma loja de decoração e artesanato requintada. Investe nas peças únicas. Parece o relicário de Creuza Medeiros, proprietária do Espaço Magnólia. Lá é o cantinho encantado onde ela deixa seus tesouros e artes, que, por um acaso, estão à venda. Mais um entre tantos charmes da Rua 24 de outubro. O jardim fica em uma posição estratégica. O sol, que em Cuiabá não tem vergonha nenhuma em se exibir, não torna as tardes do espaço quentes demais, para que não se possa passear. Andar entre e embaixo das plantas torna o clima romântico, artístico. Certamente um oásis em Cuiabá. Eis que há seis meses Bianca Poppi e Alexandre Cervi, que estavam mudando de casa e precisavam de uns trocados, decidiram fazer um bazar das roupas usadas. “Vi que tinha muita coisa, as pessoas já gostam do que eu visto e eu estava precisando de dinheiro também”, relembra Poppi. Junto a Creuza, proprietária do Espaço, eles deram início à mensal “Feirinha da 24”, que recebe, em média, por edição, 800 pessoas. E tem um conceito ainda peculiar na capital: o desapego. UMA FEIRA QUE MORA EM UM JARDIM. UM JARDIM QUE MORA NA RUA 24 DE OUTUBRO Desirêe Galvão Escambo Para além de uma feira em que pode encontrar produtos de bom gosto por preços justos - diria até, baratos –, a Feirinha da 24 propõe o consumo consciente e sustentável. A feira é uma oportunidade para compra, troca e venda de produtos novos e usados. Nos tempos modernos, o consumo pelo consumo começa a ser uma ideia errada. Roupas, objetos de decoração, assessórios, livros, cd’s, vinis... Há muito nos nossos armários em casa que já não tem serventia alguma. Só estão lá, esquecidos, jogados em um canto. “Arrisque desapegar e quem sabe não volta pra casa com produtos novos, ou "novos" (será novo pra você)!”, convida a Feirinha nas redes sociais. Cuiabá conta com apenas três Brechós, que são aquelas lojas em que se pode comprar roupas, sapatos e assessórios usados, semi-novos e novos por um preço bem camarada. Apesar de estarem presentes em toda grande cidade do mundo ocidental, não existem por aqui os chamados Mercados de Pulgas, que vendem ao ar livre bens antigos. A Feirinha da 24 é uma mistura dos dois. Funciona assim: existem os expositores fixos e o cantinho do desapego para o público em geral. “O que achar que pode ser útil para os outros, a gente separa essa mesa e a pessoa traz as coisas pra expor aqui. Vende pelo preço que quiser e troca também”, explica Poppi. Ok, mas sem pressão. É trabalho do visitante propor a troca, caso se interesse. É ele quem vai trazer suas peças de casa e, de preferencia, em uma sacola biodegradável, chegar em uma barraquinha e dizer: Oi, eu tenho umas peças aqui e amei aquela sua blusa, vamos negociar?! Poppi revela que “as pessoas ainda têm um pouco de vergonha de propor a troca. Nós deixamos à vontade, mas acho que essa cultura do escambo está em processo de construção aqui na cidade. A procura aumentou desde a primeira edição da Feira”. O ambiente propõe o escambo de objetos, roupas, arte e cultura. Na Feirinha da 24 sempre há uma 14
FUZUÊ / AGOSTO 2014 24 de Outubro atração musical. Uma bandinha aqui, um voz e violão ali, sempre artistas regionais acrescentando o toque de encanto final ao evento. “Na edição passada nós trouxemos o karaokê e até nos surpreendemos, as pessoas cantaram mesmo, a participação foi boa”, diz Bianca. BIANCA POPPI Cuiabana baixinha, magrinha, rosto de modelo que se destaca atrás dos óculos grandes e entre os cabelos cor de abóbora. Bianca Poppi é apaixonada por moda. Designer, jornalista e ilustradora. Produz ao lado de Alexandre Cervi e Lauro Justino a revista online (e-mag) ETC... Também foi criadora do extinto Stúdio Crisalida. Na foto, coisinhas do seu brechó. Se apegue à Feirinha da 24 Ela está ali: em um ambiente tão caprichoso, logo no cento de Cuiabá, próximo a boutiques finas. Na fronteira com bairros de elite, praticamente ao lado da praça popular – que de popular não tem nada. As pessoas têm o receio de frequentar a feirinha por achar que não irão ter dinheiro para comprar nada, que o espaço pertence à sociedade rica da cidade, o que não é verdade. Em um sábado de cada mês, ao entrar no Espaço Magnólia você começará a ouvir músicas charmosas: jazz, mpb, blues, musicas com um ar meio vintage tocadas em um equipamento que parece uma vitrola antiga. Logo na calçada verá a barraquinha de drinks de Alexandre Cervi, que possui preços super convidativos. Em frente, Yasmim Souza, que gosta muito – muito mesmo! – de ler e de seus livros. O sebo dela conta apenas com os livros pessoais. “Livro é uma coisa que você lê, lê, se apega, desgasta, mas é bom vender mesmo, pois pode servir melhor para outras pessoas”, diz Yasmim. Passos à frente, é possível encontrar Bianca Poppi sentada, em um banquinho, fazendo tricô ao lado de uma mala antiga, aberta, que expõe suas peças feitas à mão entre outros anéis, brincos e colares. Uma arara bem colorida e sapatos interessantes. Lá está o charmoso Brechó da Poppi. Depois, ainda, está Katyanne Menevides expondo as armações usadas de óculos de sua marca, Minna Loushe, por preços Plaquinhas da barraca de drinks de Alexandre Cervi Loja de camisetas e acessórios Boneco de Osso 15
FUZUÊ / AGOSTO 2014 24 de Outubro que variam de 20 a 50 reais. E, também, a loja de camisetas e acessórios Boneco de Osso. Artigos em couro de Carlos Duarte. Artesanato em patwork, bijuterias, brigadeiros gourmet e comidinhas. Ao final do jardim, o Ateliê da Fazenda chama a atenção por oferecer produtos caseiros. É tudo produzido por cinco famílias que moram na fazenda Àgape. Eles consomem e vendem o que cultivam. O mais chegado em orgânicos – queijo minas, cookies, brownie, mussarela de nozinho, iogurte natural, leite, entre outros artesanatos – é surpreendido pelo baixo custo em relação aos encontrados no mercado. Um boom de Cultura A rua 24 de outubro sempre teve esse apelo de refúgio em Cuiabá. Ela nasceu como opção para quem não mais queria morar num centro conturbado. Era bem localizada, fácil de se encontrar e, mesmo assim, calma. Apesar de hoje ser um dos ícones do comércio na capital, em alguns pontos ainda é possível encontrar esse clima de interior. Creuza Medeiros é uma confessa amante da rua 24 de outubro há mais de 20 anos. Três anos atrás, comprou uma casa no local, e, de cliente, passou a comerciante. “O dia que eu coloquei os pés aqui, eu tive a certeza de que ela (a casa) seria o que acontece aqui hoje: esse movimento cultural e de economia criativa. É isso que eu desejei pra cá”, conta Creuza. Os desejos de Creuza foram atendidos. A Feirinha da 24, que tinha uma proposta simples, com barraquinhas para troca e venda de objetos, tornou-se ponto de encontro para pessoas interessantes. Ganhou o conceito de passeio no jardim e happy hour. Lugar onde produtos feitos à mão e comidinhas delicadamente florescem e ficam ali expostos para o deleite do público. Na verdade, a iniciativa impulsiona a sociedade cuiabana para um despertar criativo. É uma visão feliz observar a cidade ganhando mais um entre poucos locais de encontro para a cultura. A MUDANÇA DO NOME DA RUA 24 De refúgio do centro para polo comercial. Não somente o aspecto social da rua mudou. Antigamente, levava o nome do governante do estado e empresário industrial, Francisco Azeredo, que também foi presidente do Senado. Azevedo foi destituído do poder quando aconteceu a Revolução de 30. E teve até que se exilar na França. Seus inimigos políticos não deixaram por menos. Por vingança, trocaram o nome da rua para 24 de Outubro, que é também a data de início da Era Vargas. Abaixo: Venda e troca de Livros, CD’s, e discos
FUZUÊ / AGOSTO 2014 17 No último dia 31 de maio o músico Ricardo Moraes teve que sair da Praça Alencastro, onde tocava seus instrumentos de percussão sentado no chão. Uma capa de pandeiro era o lugar em que as pessoas que passavam jogavam moedas em sinal de apreciação e respeito por seu trabalho, o que não foi o caso da Prefeitura de Cuiabá. Desde a data em que Ricardo foi varrido dali para deixar o piso brilhando aos gringos que viriam para a Copa, eu não soube mais dele. Só o vi um dia almoçando no Restaurante Universitário da UFMT. A pressa não me deixou perguntar qual foi o desfecho da história. O que sei, apenas, é que Ricardo é formado pelo Conservatório de Música de Tatuí, um dos lugares que formam os melhores artistas do Brasil. Foi sonoplasta de peças de teatro e decidiu tocar na rua por amá-la. O amor que esse artista sente pela liberdade foi cortado pela raiz em Cuiabá, uma cidade que acha feio que exista arte “poluindo” suas praças. Se ao menos o governo pesquisasse a realidade dos outros países, veria que os gringos se assustariam mais ao chegar aqui e não se deparar com nenhuma manifestação de arte de rua. No Canadá, país onde morei e que não se classificou para o Mundial de futebol, os cantores de rua são extremamente numerosos. Assisti por ali homens cantando blues, outros fazendo beat box, alguns tocando saxofone e até mesmo uma garota da voz mais doce que já ouvi, Sharon Small. Sharon era outra apaixonada pelas ruas. Ela dizia que ao invés de tocarem um show, onde as pessoas estariam esperando por seu talento, ela preferia a alegria de ver alguém parar sua rotina diária e perceber o quanto ela é boa. Talvez por aqui Sharon não tivesse nem essa chance. O medo que a prefeitura de Cuiabá tem de deixar a cidade suja está tornando-a, na verdade, monótona. Nem só de verde, de violas de cocho em programas de TV e de shows nacionais vive uma capital. É preciso – urgentemente – apoiar os artistas locais, os percussionistas, os artesãos sem recursos, os atores, os pintores e também (e mais ainda, talvez) os apaixonados pela liberdade, que buscam roubar segundos do tempo de cada cidadão para mostrar que arte não é apenas o que está em grandes museus e teatros, mas sim tudo o que vem do coração. A MONOTONIA DE UMA CIDADE ARROGANTE Silêncio na praça Isabela Mercuri Isabela Mercuri é, filha de jornalista mas escolheu a carreira por amor. Veio de São Paulo para cursar Jornalismo da Universidade Federal do Mato Grosso, em Cuiabá.
FUZUÊ / AGOSTO 2014 Meio litro de óleo, uma cebola, três dedos de banana da terra, meio quilo de farinha de mandioca, alho e sal a gosto. Essa é base da receita agridoce que agrada dez entre onze cuiabanos e paus rodados – maneira antes jocosa e hoje carinhosa da chamar os migrantes –, a farofa de banana. Criada para ser uma boa dona de casa, nos idos dos anos de 1960, Carmem Martins de Almeida, cuiabana do pé rachado, aprendeu a cozinhar a tradicional farofa, ainda aos 10 anos, com a mãe e a avó materna. "O segredo para uma boa farofa de banana é o ingrediente: as bananas precisam estar bem macias e o alho e a cebola devem ser fritos no resto do óleo usado pra fritar as bananas, dando sabor à farinha", confessa a dona de casa. Com a mãe e a avó, Carmem começou pelo básico: arroz e feijão e a farofa, e aprendeu também a cozinha pela intuição, “no olho”. Hoje, a cozinheira ensina as receitas, mas não as inventa, como tampouco se preoDA FAROFA DE BANANA A UMA PAIXÃO QUE CRIOU RAÍZES Aline Coelho Julia Oviedo cupa em seguir as já criadas. O mais simples, para ela, é também o que conquista os visitantes, a Maria Isabel (carne seca com arroz), a farofa de banana da terra e o feijão empamonado. Dentre as comidas mais diferentes da culinária cuiabana, Carmen considera a moqueca de pintado e outros peixes de água doce. A mistura dos pescados com temperos baianos, como dendê e leite de coco. Tal ligação com a culinária de sua terra fez com que dona Carmen já tivesse uma marmitaria e, além disso, resolvesse ensinar seus segredos ministrando cursos profissionalizantes. “Nunca tive problema ao trabalhar com pessoas jovens, ou com alguma formação acadêmica para cozinhar. O único problema é que sempre reclamam da minha comida ser pouca (risos)”, brinca. Carmem ainda afirma que cozinhar é uma terapia quando se gosta do que faz. E ela não nega: é apaixonada pelos segredos e descobertas da culinária. Culinária Cuiabana
FUZUÊ / AGOSTO 2014 Do lado de lá do Atlântico, o italiano Paride Barban ingressou no universo gastronômico em 1995. Os sabores, aromas e temperos dos alimentos sempre chamaram sua atenção, e, por isso, resolveu estudar uma espécie de ensino técnico especializado no ramo de alimentos. Diferente de Carmem, na cozinha de Paride, tudo é medido, pesado e analisado antes de “ir pra panela”. Sua ligação com a culinária cuiabana teve início no ano de 2007, quando veio junto com sua ex-esposa para Cuiabá, para desbravar novas oportunidades. Foi aqui que trabalhou pela primeira vez com doces, atuando como confeiteiro. E assim, descobriu sua paixão pelas delícias, entre elas o furrundú, iguaria típica feita com mamão verde ralado. “Gostei tanto que mandei uma remessa para meus parentes na Itália”, lembra Paride. As diferenças entre a culinária italiana e cuiabana não foram empecilho para o chef de cozinha. Pois uma das coisas que os alunos aprendem no curso de culinária é ter a mente aberta para novas descobertas. Contudo, como em toda mudança, essa não foi fácil. Alguns alimentos que ele já havia provado na Itália – e não havia gostado – voltaram a aparecer em seu prato, como é o caso das frutas. “Na Itália, algumas frutas são importadas de países tropicais e geralmente chegam verdes, o que muda totalmente o sabor. Quando percebi que aqui em Cuiabá as pessoas pegam a manga direto do pé, me lembrei daquela manga verde e fibrosa da Itália”. Mas não demorou muito tempo para que o italiano deixasse de lado suas primeiras impressões e redescobrisse o que Cuiabá poderia lhe oferecer de melhor. Assim, descobriu que a banana poderia ser uma ótima opção se combinada com a comida. E não é por menos. Paride nunca imaginou que a farofa de banana cairia tanto no seu gosto. Hoje o arroz com feijão leva a banana. Frita ou a milanesa. Até a palavra pode ser encontrada nas duas línguas: português e italiano. Acostumado aos pescados, pois seu país possui 90% de extensão territorial banhado por mar, além dos rios, Paride teve mais facilidade em saborear os peixes de água doce da baixada cuiabana. Tal foi a identificação do confeiteiro italiano, que ele se arriscou a criar um prato com elementos de seus país de origem e da cidade que tanto o envolveu. “Fiz uma adaptação de risoto com pintado, limão e alho poró. Misturei o risoto, prato típico italiano, com um dos peixes mais tradicionais daqui”, comenta orgulhoso. Apesar da formação de Paride, isso não o distancia de dona Carmen, que aprendeu com o dia-adia os segredos de uma boa culinária. Cozinheira ou chef, o amor de cuiabana e italiano pela cozinha tem a mesma medida e resulta nas mesmas paixões, receitas e ingredientes. “A culinária é uma arte muito ousada, mas ao mesmo tempo é uma brincadeira muito gostosa. Bom apetite!” Paride Barban CONSELHOS DA VOVÓ: - Para substituir a massa de tomate, a avó de Carmem ensinou a fritar a cebola no óleo quente para dourar a carne. - Para um arroz branco e solto, Carmem aconselha colocar duas colheres de vinagre branco depois que colocar a água quente. - Outra dica é sempre ter um pouco de mandioca na geladeira. A raiz pode ser usada para engrossar os molhos e caldos. - Por último, a dica de Carmem é o tempero do bife. Como de costume, conquista pela simplicidade. O tempero é sal e alho e a suculência acontece quando a carne é frita em óleo bem quente. NOME: Paride Barban CIDADE NATAL: San Martino di Lupari, Itália PRATO PREFERIDO: Farofa de banana INVENÇÃO GASTRONÔMICA: Risoto de pintado com limão e alho poró SEGREDO CULINÁRIO: A cremosidade do risoto também está no simples ato de mexer o arroz. Assim, ele solta um amido que contribui na consistência cremosa do prato. NOME: Carmen Martins de Almeida CIDADE NATAL: Cuiabá, MT, Brasil PRATO PREFERIDO: Farofa de banana INVENÇÃO GASTRONÔMICA: Moqueca de pintado SEGREDO CULINÁRIO: Para um arroz soltinho, você pode usar duas colheres de vinagre branco depois que colocar a água quente. Culinária Cuiabana 19
20 FUZUÊ / AGOSTO 2014 Toca o despertador, seus dedos procuram o objeto retangular de cor escura. Clica em sua tela onde está escrito ‘cancelar’, e o alarme para. O rapaz de 20 anos separa sua roupa, camiseta básica azul clara, uma calça jeans e seu chinelo havaianas. Seu pensamento não está em sua aparência, mas na aula que terá nessa manhã quente, diferente do clima de onde nasceu, São Paulo. Já caminhando pelas ruas, sol irritando seu pequeno olhar, anda observando tudo e todos. Gosta disso. Lembra-se de situações que cria para observar as reações de cada um. Avista alguém com cabelo azul, vermelho. Não se importa com a maneira que as pessoas se vestem, acha interessante. Enfim, já está no saguão da universidade, olha ao seu redor e não vê nenhum de seus amigos. Decide, então, pegar uma folha e começa a dobrar de todos os lados. Dobra um pedaço para direita, dobra para esquerda, quando menos se espera uma forma começa a surgir. Enquanto mais pessoas passam ao seu redor, ao vê-lo, não acham estranha a cena, pois se trata de um “japonês”. Isso não é anormal. Alguns minutos depois um cabelo ruivo lhe é familiar, alguém que admira demais, sua amiga. Alguém que se fosse possível daria um prêmio pela “incrível perseverança”. - Olá, Elisa, bom dia! Diz alegre de não estar mais só. Conversa vem, conversa vai. Mais amigos, rostos conhecidos estão ao seu redor. Seu medo de estar só começa a abandoná-lo. “Não estou só”, pensa! - Dani, diz sorrindo, você não tem uma aula agora? Lembra-o com um grande sorriso. Não gostaria de sair dali, do seu conforto. Mas logo está a caminho de sua sala. Novamente, se pega observando cada um no corredor. Suas ações, modo de falar. Gosta de fazer isso. Se lembra da experiência do auge de “suas observações” quando teve contato com pessoas de outras culturas, de outras formas. Aquilo mudou sua vida. Um pequeno tempo, que passou em uma pequena cidade dos Estados Unidos, transformou-o. De repente sente um cheio de cigarro no ar. Sua sala está próxima. Enquanto está indo à sua cadeira, a classe está conversando, ao se ver, coisas fúteis. Pensa: “poderiam ter mais interesse na aula”. Se tem algo que o tira do sério são esses momentos em que as pessoas não valorizam coisas importantes, ou pelo menos importantes para ele. Ao sentar, abre sua mochila, pega seu bloco que usa para anotações, sua caneta e escreve. Presta muita atenção em cada palavra, cada explicação. Anota, assimila, ama o que estuda. O que escolheu, pois antes largou três universidades renomadas no país para fazer o que gosta de verdade. Ao final de sua aula, olha para seu celular: um convite em seu Facebook o anima. É o grupo de oração a que tem ido há algum tempo. Tem resolvido dar uma chance ao seu lado religioso. Já foi mais ávido há alguns anos, mas por motivos que não gosta de lembrar deixou isso de lado, até que começou a namorar uma garota que conheceu na fila do restaurante de sua universidade e a acompanha em sua igreja e grupo de oração. MANHÃ! Se tem algo que o tira do sério são esses momentos em que as pessoas não valorizam coisas importantes, ou pelo menos importantes para ele. Luiz Henrique Neves Luiz Nogueira é cuiabano, está no sexto semestre de jornalismo pela Universidade Federal de Mato-Grosso e também estuda Teologia. Pensamentos Matutinos
FUZUÊ / AGOSTO 2014 21 Lembro-me de perguntar, algum tempo atrás, ao amigo Luiz de Lima o porquê de ele ter escolhido a Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT) para estudar Veterinária. Luiz é natural do Estado de São Paulo, e passou no vestibular em 2009. Não fez parte deste sistema único de universidades que espalha alunos de todo o Brasil por todo o Brasil. A resposta foi breve: “A UFMT é a única universidade pública do país que possui seu próprio zoológico”. Confesso que nunca fui fã de zoológicos. Ver os bichos presos não chama tanto a atenção. Tenho dó, acho entediante. Houve ocasiões que não escapei do passeio clichê. Para ver um urso panda chinês, por exemplo, ou para mostrar uma onça pintada para um amigo estrangeiro. Zoológicos são interessantes nesse sentido, são pontos turísticos e de entretenimento. São uma forma cômoda para conhecer a fauna local. Há seis meses estavam ocorrendo às eleições para o Centro Acadêmico de Comunicação Social (CACOS), na qual eu participava como membro de chapa. Concomitante à organização da campanha, recebia a visita de um amigo alemão. Em um sábado de reuniões, o trouxe comigo para mostrar o campus. Almoçamos no Restaurante Universitário (RU) e descemos caminhando até o zoológico. É bem pertinho, seis minutinhos a pé. Perto até demais, considerando que a cozinha fica ao lado da lagoa e de várias espécies de bichos. E se isso não é anti-higiênico, chamaria talvez de desagradável. Logo no caminho já começamos a perceber a superpopulação de jacarés. Os animais andam uns por cima dos outros. Pareciam estar de saco cheio daquilo. Vimos uma raposa que andava de um lado para o outro, sem parar, em uma jaula minúscula. Paramos em frente às onças e elas estavam magras e infelizes. O espaço para as onças não parece justo ao tamanho delas. O alemão ficou perplexo. “Quando você ganhar as eleições da sua chapa, você deve fazer algo pelos tigres (onças)”. Confesso que, como discente da universidade, tive certa relutância em escrever sobre o zoológico. É daqueles tipos de pauta que todo mundo já fez alguma coisa. Mas é que a novela é extensa. A todo o momento surgem denuncias, a instituição recebe multas. Tentam fazer parcerias para realocar os animais. Com a Copa, vieram propostas de melhorias e verbas, mas os turistas chegaram, foram embora e nenhuma mudança significativa foi observada. Para piorar a situação, Luiz ainda me contou que, na verdade, nem os alunos de veterinária, tampouco os de biologia, utilizam o zoológico como extensão de estudo. Ora, se os bichos estão sofrendo e a universidade não tira proveito acadêmico, qual a utilidade em manter o zoológico aberto? Na verdade, o zoológico é apenas um grande problema que ninguém tem interesse em resolver. Está lá esquecido pela instituição e pelos órgãos governamentais. Deixado ao cuidado das moscas. Façamos algo pelas onças, pelos jacarés pela raposa. De repente, as moscas que também perturbam o nosso RU mudem de lugar. SALVEM OS TIGRES Desirêe Galvão Ora, se os bichos estão sofrendo e a universidade não tira proveito acadêmico, qual a utilidade em manter o zoológico aberto? Desirêe Galvão é modelo e já viajou para vários países pelo mundo. Ela é aluna do sexto semestre de Jornalismo pela Universidade Federal de Mato-Grosso. Onça Pintada
FUZUÊ / AGOSTO 2014 Quem quiser visitar alguma feira em Cuiabá pode escolher entre 53 delas que são realizadas em ruas e praças de vários bairros da cidade. Essas feiras de rua se repetem semanalmente em seus respectivos bairros e têm fregueses fieis. Quarta-feira é dia de feira no bairro Poção, próximo à Avenida Fernando Correa da Costa. O espaço utilizado é da Associação de Moradores do Poção, que existe há 30 anos e fica localizada na Travessa Celso Luiz Moraes de Almeida. Quem chega ao pátio onde a feira acontece, depara-se com um corredor de 50 metros com comidas e mercadorias dos dois lados. Os cheiros das comidas toma conta do lugar, que também tem como característica aquele burburinho de pessoas negociando produtos e se divertindo em papos descontraídos. Entrando pela Travessa, as primeiras coisas que se avistam são as comidas prontas variadas: tapioca, milho cozido, pamonha, cural, suco, caldo de cana e até comidas típicas cuiabanas (como Maria Isabel e Mujica), pães caseiros e as bolas de praia coloridas e estampadas na barraca dos brinquedos e acessórios, que fica ao lado da banca dos produtos pirateados. Mais à frente estão o disputado carrinho do pastel e a cama elástica para as crianças (perto dela ficam alguns pares de mesas e cadeiras e a maior concentração de pessoas). Também tem as várias bancas de frutas e verduras frescas que só se encontram em feira e o Rei do Salame. Ao fundo, perto do final da quadra, estão o “tio do espetinho”, como chamam alguns doe estudantes que frequentam ali, o balcão das carnes e peixes e mais produtos piratas. Em toda a cidade, conforme a Associação dos Feirantes de Cuiabá, são aproximadamente 1200 micro e FEIRAS: UM MARCO DA HISTÓRIA E CULTURA DO POVO DE CUIABÁ Elas não apenas sobrevivem na capital, mas crescem e conquistam novos públicos Feira-Livre Gabriela Poletto Quem chega na feirinha já se depara com as cores e os cheiros do lugar 22
FUZUÊ / AGOSTO 2014 Feira-Livre pequenos empresários trabalhando com venda de produtos em feiras livres, atendendo em torno de 300 mil pessoas por mês. A maioria deles se dedica inteiramente ao comércio nas feiras, chegando a trabalhar todos os dias da semana em feiras diferentes. É o caso de Silvânia e seu esposo André Silva, que vendem carne, frango e peixe em feiras há 27 anos. Além das 5 feiras de bairro (Poção, Araés, Campo Velho, Paiaguás e Pedregal), também atendem na banca que têm no Mercado do Porto pela manhã e no começo da tarde. A rotina é agitada. Nos dias de feira de bairro, eles saem do Porto logo depois do almoço, e às 16h30 já estão organizando seus apetrechos e dispondo suas carnes no balcão refrigerado. Costumam ir embora só às 21h. Silvânia conta que, depois de tantos anos, já ganharam a confiança e amizade de muitos fregueses, o que torna seu trabalho mais gratificante e alegre. Aqueles que desejam ter seu espaço em alguma feira da capital podem fazer uma experiência no local por uma ou duas semanas. “Caso o produto tenha boa saída e a decisão seja de manter o lugar, é preciso fazer um cadastro na Associação dos Feirantes e pagar uma taxa de serviços de R$4,00 por dia de feira”, explica Márcio Aparecido que, há 9 anos, trabalha como coordenador da Feira do Araés e de outras quatro: Sol Nascente, Jardim Imperial, Campo Velho e Nova Canaã. A feira do bairro Araés, próximo à Avenida Mato Grosso, é realizada toda sexta-feira, na mesma rua, há mais de 20 anos. Dos feirantes que estão lá hoje, nenhum participa da feira desde os seus primórdios. Mas alguns montam suas barracas na Rua Togo Pereira há mais de uma década. Em contrapartida, a feira Nova Canaã, na região do CPA tem apenas algumas semanas de existência. Há aqueles pessimistas que imaginavam o fim próximo deste tipo de comércio informal muito apreciado pelos nossos avós. Mas o surgimento de novas feiras vai na contramão deste pensamento, apesar de ser visto como um hábito de adultos, famílias e pessoas idosas, cada vez mais os jovens tem se interessado. É cada vez mais comum nos depararmos com grupos de amigos que se reúnem para comer pastel e confraternizar nas feiras. Em uma dessas mesas com seis estudantes, na feira do Poção, estava Lucas, de 17 anos. Ele conta que frequenta a feira regularmente e quando questionado sobre suas intenções lá, confessa: “Eu venho pra comer pastel, de preferência”. E depois acrescenta: “mas claro que também tem a vantagem de reunir com a galera, com os amigos, e botar o papo em dia”. Mas os jovens não estão sendo atraídos apenas pelas comidas prontas. Alguns deles estão descobrindo agora o que seus avós já sabem há muito tempo: as vantagens e os pequenos prazeres da feira, e começam a criar o hábito de comprar os produtos frescos. Vitória, de 18 anos, amiga de Lucas, diz: “as frutas daqui são muito melhores que as do mercado. O espetinho daqui também está ótimo e tem o ‘tio do algodão doce’. O algodão doce dele é muito grande”. Além destas vantagens dos produtos frescos, do pastel, do caldo de cana e de outras comidas feitas na hora, as feiras são um prato cheio para quem procura personagens interessantes. Têm se tornado, cada vez mais, um lugar para se encontrar com amigos, conhecer pessoas e também se divertir entre uma conversa e outra com os vendedores e fregueses. Um pouco de História As feiras livres de Cuiabá têm uma história que se mistura com a da própria cidade. A primeira feira livre surgiu quando o córrego da Prainha ainda corria no centro da cidade, em meados do século XVIII. Era por ele que chegavam as mercadorias, frutas, verduras e legumes cultivados pelas comunidades ribeirinhas do Rio Cuiabá, em sítios e chácaras de agricultura familiar. Também chegavam à feira os pescados dos ribeirinhos, comercializados ainda muito frescos no antigo Largo Cruz das Almas, onde hoje é a Praça Ipiranga, no encontro da Avenida Isaac Póvoas com a avenida Maria Rosa trabalha com feiras há 17 anos e garante que ali as frutas são sempre mais frescas do que nos mercados. 23
FUZUÊ / AGOSTO 2014 da Prainha. Quem acha as feiras de hoje barulhentas e bagunçadas nem pode imaginar como eram há mais de 200 anos. Com o crescimento das vendas e do público, todo aquele improviso e informalidade preocupou a administração pública que decidiu criar um mercado público que foi inaugurado em 1852. Hoje, o antigo casarão serve de sede para o Ganha Tempo, órgão público. Com a navegação no córrego da Prainha desativada devido ao seu assoreamento, as mulas faziam o trabalho pesado de puxar as carroças abarrotadas de mercadorias das cidades vizinhas (Nossa Senhora do Livramento, Poconé, Aricá e outras) até o Mercado Popular de Cuiabá, mantendo-o ativo e a cidade abastecida. Com o encerramento das atividades na Prainha, os feirantes foram transferidos para o Mercado Municipal, mas muitos também migraram para a Avenida General Ponce onde estabeleceu-se mais uma feira tradicional em Cuiabá. Posteriormente, foram se espalhando para outros bairros da cidade. Assim, umas das feiras de bairro que se estabeleceu no começo do século XX foi a Feira do Porto que, em 1995 ganhou um espaço próprio, que hoje conhecemos como o Mercado do Porto. Hoje, o abastecimento das feiras de Cuiabá é garantido pela Central de Abastecimento de Hortifrutigranjeiros do Verdão (ou apenas Mercado do Verdão). A maior mudança nestes 200 anos de história das feiras em Cuiabá talvez seja a procedência destes alimentos. A melancia vendida hoje no Mercado do Verdão pode ter de origem aqui mesmo em Mato Grosso, Goiana ou até mesmo Rio Grande do Sul. Tem também cebola importada da Argentina, tomates de São Paulo, bananas da Bahia e até mesmo mangas (nossa fruta típica) da Bahia, Pernambuco e de São Paulo. Os feirantes que ainda cultivam seus produtos são, geralmente, os que trabalham com verduras e legumes produzidas em hortas familiares. Ainda assim, hoje eles são minoria. Apesar de chegarem de todos os lugares do país, por serem comprados e revendidos no mesmo dia, na feira estão sempre mais frescos e bonitos do que os de mercado. DE PAI PARA FILHAS Márcia, 38, e Marcela, 40, são irmãs e moram em Várzea Grande. As duas são casadas: Márcia tem dois filhos e Marcela, três. Cinco vezes por semana elas trazem todas as suas verduras e legumes até Cuiabá para vender nas feiras de bairro. Há mais de 17 anos elas vendem em feiras, e herdaram o trabalho do pai, que sustentou a família com suas verduras por mais de 30 anos. O legado de família inclui também a produção da maioria dos produtos que estão na sua banca, entre eles, couve-flor, brócolis, repolho, cheiro verde, limão, cebolas, entre outros. Marcela conta que para cativar o cliente elas oferecem preços baixos e, sempre que o freguês quiser, uma prova das verduras antes de levar, mas que, além disso, é preciso tratá-lo bem, com simpatia e atenção. O REI DO SALAME Esta é uma figura que vale a pena conhecer na feira do Poção. Com simpatia ímpar, uma propaganda intrigante e divertida, ele ganha a atenção dos que estão passando enquanto anuncia em alto e bom som os benefícios do seu produto diferenciado. “Ó o salaminho light. Light devido ao baixo teor de gordura, ideal para as pessoas debilitadas com hipertensão, diabetes, colesterol, triglicérides, unha encravada e todos os demais males existentes na face da terra”. Ethienne produz salame e queijo provolone com redução de gordura e sal. Há três anos ele decidiu fazer um curso onde aprendeu as técnicas necessárias e hoje trabalha em quatro feiras diferentes vendendo seu produto. Com o objetivo de manter seu produto a um preço acessível, ele não vende para supermercados, apenas direto ao cliente. Antes de se tornar o rei do salame, ele trabalhava em uma lanchonete. Sua curiosidade o levou a buscar nos livros e na internet informações sobre alimentação saudável que ele estava sempre compartilhando com seus fregueses da e que agora aplica ao seu produto. A feira tem dessas oportunidades inesperadas de trocas de conhecimento, muito além de um ambiente comercial. Márcia e sua família produzem as verduras Feira-Livre
FUZUÊ / AGOSTO 2014 25 "Eu vim, eu vim, eu vim, eu vim de lá pra cá, eu sou, eu sou, eu sou, eu sou de Cuiabá. Terra de Dom Aquino, me lembra os tempos de menino, jogava peteca, soltava io-io, brincava com Zé Bolofô..." É provável que o compositor Roberto Luacialdo jamais tenha imaginado que um trocadilho com palavras do folclore regional se tornasse praticamente um hino de saudação à cultura cuiabana. O rasqueado é para o cuiabano o que o frevo é para o pernambucano, o vanerão para o gaúcho e o tango para o argentino. Está arraigado na cultura de tal forma que, quando tocado, atinge a alma do morador nascido aqui. “Ninguém fica parado!”. Essa exclamação é inclusive refrão de outro rasqueado. O estilo musical que conheceu o ápice na Cuiabá do fim dos anos 1980 e início de 1990 recebeu o carinhoso apelido de "limpa banco". Pois, de acordo com a sabedoria popular, quando toca o rasqueado os casais se levantam e bailam, esvaziando os assentos. Bailes inclusive aconteciam noite a dentro, dos bairros mais abastados aos periféricos (onde nasceu o estilo). Os passos arrastados e rápidos, dois pra lá, dois pra cá, combinados com giros e outras acrobacias, eram reproduzidos até o esgotamento por dançarinos mais animados. Contudo, diferente de comunidades de outras regiões desse imenso país, os cuiabanos não desenvolveram centros de tradições que incorporem e massifiquem e, em verdade, não deixem que essa parte da história seja esquecida. Por isso, é provável que eu não viva para cantar o refrão de outro hino da cuiabania, "quero viver para ver meu neto, com a boca suja de ‘pixé’" (doce de amendoim). Até lá as pessoas talvez não saibam mais o que é pixé. "QUERO VIVER PARA VER MEU NETO, COM A BOCA SUJA DE ‘PIXÉ’" O "LIMPA BANCO" CUIABANO Aline Coelho Rasqueado Cuiabano Aline Coelho mora em Várzea Grande e estuda na Universidade Federal do Mato Grosso. Está a um semestre de concluir seu curso de Jornalismo. Fonte: http://fotografopedroaugusto.blogspot.com.br
FUZUÊ / AGOSTO 2014 É entre duas grandes Avenidas da cidade de Cuiabá que está a Rua 24 de Outubro. Sua calmaria espanta quem sobe a Getúlio Vargas ou desce a Isaac Póvoas. Mão única, cheia de lojas de artesanato, feiras, construções antigas e restaurantes, a 24 tem um ar diferente. Diferente dos outros cantos da cidade, hoje, mas também diferente do que era no passado. Foi por isso que Irapuã e Janaína Carvalho decidiram construir seu empreendimento ali. O local cheio de história, que acalma quem passa por lá, seria perfeito para um restaurante gourmet com toque simples e praiano. Setenta anos antes da instauração desse restaurante, nascia, do outro lado da rua, uma garota chamada Maria Natividade. Seu pai era dono de todo o quarteirão, onde criava gado leiteiro para sobreviver. De sua infância e juventude, Maria lembra das tardes sentada na calçada com as amigas. Hoje em dia já não pode mais. A rua que era tão sua já se tornou patrimônio dos outros, colocando-a portão adentro. Uma das reclamações de Maria é que os restaurantes e lojas que se instalaram ali são muito caros para seu bolso humilde. As terras de seu pai foram divididas entre mais de dez filhos, e o que sobrou não lhe permite visitar sempre as lojas de esfiha, CupCake, chás, ou mesmo a tapiocaria amarela que é bem em frente ao que sobrou de sua propriedade. Irapuã e Janaína não são cuiabanos. Conhecem a rua há menos tempo que Maria, mas hoje é como se conhecessem há mil anos. Em 2002 os irmãos vieram do Maranhão e se instalaram na capital matogrossense, na casa de um tio. Irapuã se formou em Administração, mas sempre gostou de cozinhar e sentia falta das tapiocas que comia em sua terra natal. Tapiocas, estas, que aprendeu a fazer observando o trabalho de suas tias. Depois de trabalhar durante anos em um banco e ser assaltado algumas vezes, ele decidiu deixar o amor pela gastronomia falar mais alto e chamou Janaína para, em sociedade, abrir uma tapiocaria. Em julho de 2012, então, um pequeno salão com apenas vinte lugares abrigou o sonho dos dois. “Era difícil porque ninguém sabia fazer a tapioca. Eu [Irapuã] tive que ensinar todos os funcioUM PEDAÇO DO NORDESTE NO CORAÇÃO DE CUIABÁ E a história de como Maria Natividade ganhou sua rua de volta nários, e no começo, às vezes, passava um dia todo com apenas dois clientes”, comentou o empresário. Foi então que uma jornalista do Diário de Cuiabá visitou o restaurante e fez uma crítica positiva no jornal. A partir daí e do boca a boca, o sucesso chegou e as filas na porta começaram a crescer. Irapuã e Janaína perceberam que era preciso expandir o local, e em 2013 alugaram o ponto ao lado, contando com muito mais espaço. A preocupação dos donos não era só com a qualidade da comida. O design interior que, segundo Irapuã, é inspirado em lugares que conheceu durante suas viagens a Jericoacoara, Buenos Aires, Bahia, São Paulo e Pará, também faz a diferença. A sofisticação, no entanto, pode ser notada por qualquer um que entra naquele espaço na 24 de Outubro, em Cuiabá mesmo. A fachada é amarela, e a porta vermelha traz os dizeres “A alma é o segredo do negócio”. O quadrinho fica do lado de fora, convidando todos a entrar Isabela Mercuri Leandro Nogueira A preocupação dos donos não era só com a qualidade da comida. O design interior também faz a diferença. Nordeste em Cuiabá 26
FUZUÊ / AGOSTO 2014 Se tivéssemos que definir a Tapiocaria em uma frase, a frase seria a seguinte: é um pedacinho do nordeste no coração de Mato Grosso. Com mais ou menos uns 36 metros quadrados, uma temperatura média de 24ºC e uma iluminação leve, a decoração traz canecas esmaltadas dependuradas no teto, uma parede de tijolos a vista, nichos com bonecas de argilas e tigelas. As mesas são de madeira, cobertas com trilhos de oxford nas cores vermelho e amarelo. Os arranjos são vasos de pimentas e garrafinhas com flores artificiais. As cadeiras, todas feitas de madeira rústica, e uma diferente da outra, parecem ser peças únicas, sem nenhum tipo de acabamento como lixa ou verniz. Existe um balcão que fica do lado oposto à porta de entrada. Uma parede branca separa o primeiro cômodo do seguinte, onde se encontra, do lado esquerdo, atrás de uma janela de vidro, um jardim de inverno. Do lado direito de quem entra, uma parede tem treze quadros que fazem referência a paisagens e símbolos da cultura nordestina. As mesas, cadeiras e balcões continuam com o mesmo estilo rústico. No final do restaurante, já atrás do balcão, uma sala com uma mesa comprida e mais elementos de decoração nordestinos pode ser alugada para eventos especiais. Ainda sobre as mesas estão um cestinho com guardanapos de papel, palitos, sachês de maionese e As canecas esmaltadas chamam a atenção de todos ketchup e uma pequena tesoura para cortar os sachês. A tesoura também pode ser encontrada em lanchonetes tradicionais, mas o que não encontramos em outro lugar é o carisma no atendimento, o ambiente acolhedor e a infinidade de cores, aromas e sabores dali. Em formato espiral, com uma capa bem nordestina - onde não poderia faltar a figura do mandacaru e do rei do cangaço lampião - o cardápio guarda as opções da casa. São 27 tapiocas salgadas e 25 doces. Os pratos são bem servidos. As tapiocas salgadas são altas e gorduchas de tanto recheio, e as doces transbordam os cremes para fora da goma, deixando o prato inteiro encharcado de brigadeiro, beijinho, cocada ou qual for o sabor escolhido. Outra peculiaridade do local é o bolo “Santa Ignorância”. O nome remete-se ao tamanho da fatia, que é servida em duas porções: a “Fatia Ignorante” e a “Fatia modesta”. Para beber, estão disponíveis chás gelados, soda cuiabana (extrato de guaraná, água com gás e limão), cafés, sucos, refrigerantes e bebidas alcoólicas. Ao entrar, os clientes são recebidos com um sorriso no rosto, e um “sejam bem-vindos” da jovem empresária Janaína. O cheiro que vem da cozinha é uma mistura de queijo, frango, carne seca, calabresa e até ovo frito. Embalados pelo som de Cássia Eller e outros clássicos da música brasileira, todos esperam ansiosos para comer. “Frequento aqui desde quando abriu. Minha tapioca preferida salgada é de manteiga de garrafa e a de pizza. A doce é de coco ralado com leite condensado. São deliciosas e valem por uma refeição”, comenta a publicitária Laura, de 26 anos, que está acompanhada de sua amiga Beatriz e de seu amigo Ian, que visita a casa pela primeira vez. Ian se delicia ao comer uma tapioca de quatro queijos, “Gostei muito! É um pouco mais caro, mas vale a pena pelo conforto e pelas opções de sabores”. A casa não fica nem vazia, nem muito cheia. A todo momento entra e sai gente. A garçonete Gislei está sempre com um Tapioca nordestina: carne seca e manteiga de garrafa Tapioca de morango com chocolate ganache Nordeste em Cuiabá 27
FUZUÊ / AGOSTO 2014 sorriso estampado no rosto. Ela anota o pedido. A campainha toca. Ela corre até a pequena janela que fica entre a cozinha e o espaço das mesas, pega o prato e leva até o cliente. É impressionante como os gostos são diferentes. Cada pedido parece ser único, e os pratos vêm com detalhes especiais. A carioca Isaura, de 47 anos, está no Mato Grosso há 29 e conta que conheceu a tapioca em Cuiabá, e se tornou uma apreciadora: “Frequento aqui há muitos anos. Vim uma vez para experimentar e, daí em diante, nunca mais deixei de vir. Criaram até um sabor pra mim! Sempre peço a tapioca simples com ovo frito. É uma delícia!” Apesar de só ter conhecido a iguaria por aqui, Isaura conta que é filha de nordestino, e acredita que o gosto está no sangue. “Até já aprendi a fazer! Sempre que venho aqui levo a massa e faço em casa, onde crio vários sabores”, conta a cliente animada, que encontrou uma forma de manter o peso sem deixar de comer sua paixão. “A tramontina criou até uma panela própria para fazer tapioca! As minhas saem iguais às daqui, é uma delícia! E não contém glúten!”, explica. Apesar da sofisticação do local, o preço varia de R$3 a R$18. A tapioca que custa R$3 leva apenas manteiga, e as mais sofisticadas podem conter receitas de nachos mexicanos a costelinha de porco com barbecue. Irapuã, quando inaugurou seu estabelecimento, queria criar um lugar em Cuiabá onde as pessoas pudessem ir sem se arrumar. Ele queria que todos, inclusive Maria Natalidade, se sentissem a vontade ali. Agora é só avisá-la que a Rua 24 ainda pode ser sua. As paredes trazem relíquias da cultura nordestina O cardápio traz, além de tapiocas, escondidinhos e caldos Chá de camomila com maçã verde e, ao fundo, soda italiana de frutas vermelhas 28
FUZUÊ / AGOSTO 2014 29 Não sou católico, mas confesso que sou um apaixonado pela festa de São Bendito em Cuiabá. Essa paixão não é pelo fator religioso, mas sim pela riqueza cultural e gastronômica que o evento oferece. São quatro noites de festa onde reúne cerca de 10 mil pessoas em volta do sagrado e do profano. A primeira vez que participei da festa me deparei com um mar de gente, uma loucura. Crianças, jovens, e senhores, todos os devotos tem motivos diferentes para estarem ali, mas a finalidade que os une é única, a fé no glorioso São Benedito, assim como o Santo é chamado pelos devotos. Eu juro que fiquei assustado, recuei-me num canto, assim como faz um bicho do mato acuado, e ali no meu canto, lá de longe, fiquei só observando. Todo o evento era rico em detalhes. Por volta das 5 horas da manhã, e uma multidão lotava todo o pátio da igreja, barulhos e fumaça de fogos tomavam conta do céu Cuiabano, começava a alvorada festiva. Como em um filme que troca de cena tão rápido, foi assim naquela manhã, eu estava observando tudo, que nem dei conta de ver essa mudança acontecer, fui despertado pelo bom dia e o viva são benedito, era o convite, a missa vai começar. Alguns minutos o padre já estava celebrando a Santa missa, os fies atentos a cada detalhe, cada reza, cada louvor, a emoção tomava conta da multidão. O que mais me chamou a atenção foi uma senhora negra de pele enrugada, segurando um terço e uma vela, essa vela chorava parafina que escorria sobre seus dedos. Do rosto cansado dessa senhora, brotavam lágrimas, lágrimas de emoção por mais um ano está na presença de São Benedito. Apos o termino da missa é servido para os fies o tradicional chá com bolo. O bolo na verdade, é um biscoitinho feito de polvilho com ovo, leite, açúcar, erva doce, e outros ingredientes, o pulo do gato não está nos ingredientes, mas na forma do preparo, tudo é feito com muito amor, pelas mãos incansadas de homens e mulheres, e nas manhãs são distribuídos para os fies. As noites foram marcadas pela cultura e a gastronomia Cuiabana. Vários grupos musicais da cultura local e regional se apresentaram deixando a festa do Santo um pouco mais badalada. O que eu pude perceber na festa de São Benedito, é aquele velho ditado popular que diz, casa de ferreiro, espeto de pau, aqui esse dito não tem vez. A comida é a vontade, uma infinidade de pratos são preparados por uma legião de trabalhadores voluntários, que fazem os quitutes para todos os gostos, e não poderia ser diferente, afinal de contas o anfitrião é conhecido como o Santo cozinheiro. Último dia de festa, pensava eu encontrar os fies do primeiro dia já cansados, para minha surpresa dei com os burros n'água, ali estavam eles, firmes e fortes, com sorriso estampado no rosto, velas e terços nas mãos, e preparados para percorrerem as ruas de Cuiabá, pois daqui a alguns minutos, São Benedito sairia em procissão abençoando a população. Durante a procissão toda caminhada e marcada por muita emoção, cantos, louvores e rezas. As multidões de pessoas nas calçadas, acenam para o andor do Santo, fazem o sinal da cruz, em forma de respeito e devoção. A todo instante alguém lá frente gritava, viva São Benedito, e a multidão respondia, viva. A um certo ponto, eu já fazia parte desta multidão, e quando diziam viva o glorioso São Benedito, nós respondíamos viva. Naquele mar de gente eu nem sabia mais o que era, católico, espírita, evangélico, há sei lá. Comecei a me perguntar, o que sou? uma gota d'água, ou um grão de areia em meio esse mar de gente, só sei que estava ali, fazendo parte de toda a emoção, sei que vivi uma uma emoção única. Viva são Benedito, Viva o Santo Milagreiro. No final de toda essa experiência, sai de lá com um refrão do Hino de São Benedito, que até hoje não são da minha cabeça. “Protege o povo brasileiro, que vem feliz te agradecer, oh São Benedito a fé não nos deixe perder”. Só me resta a saudade de quatro dias de festa em louvor a São Benedito, o Santo Negro que arrasta multidões de brancos. BENDITO SEJA! Leandro Nogueira São Benedito Leandro Nogueira é baiano e veio para o Mato-Grosso realizar o sonho de estudar jornalismo. Ele é aluno do sexto semestre de Jornalismo pela Universidade Federal de Mato-Grosso.
FUZUÊ / AGOSTO 2014 Cidade Verde Cidade Verde, assim é conhecida a capital de Mato Grosso. O Estado é famoso por suas belezas naturais e pela extensa área dedicada ao agronegócio. Na contra-mão dessa fama, os governantes e moradores da cidade de Cuiabá têm, nos últimos anos, desenvolvido uma ideia de modernização e evolução associada à especulação imobiliária e à construções faraônicas. A Copa do Mundo de futebol, da qual Cuiabá foi uma das sedes, serviu como mais um motivador para essa urbanização desenfreada. Porém, na cidade ainda há um lugar à que a mancha cinza não chegou. Ao entrar no Boa Esperança, você se depara com um bairro fortemente marcado pela vida universitária. O bairro, que abriga a Universidade Federal de Mato Grosso, é constituído principalmente de casas residenciais, sendo a maior parte delas habitada por alunos e professores da instituição de ensino. A área também é cheia de bares e restaurantes para entreter os jovens moradores. No meio desse bairro, está um lugar que ainda faz juz ao nome da cidade. Rua 60, número 468, Bairro Boa Esperança. Esse é o endereço do oásis. Ao entrar em uma rua que aparentemente é só mais uma como tantas outras, com asfalto esburacado, baixa iluminação e desníveis acentuados, o que não se imagina é que, ao final dessa rua, está uma horta. A horta existe desde o início do bairro, e, em abril, comemorou 31 primaveras. O local pertence a Laercio Alves, 53 anos. Ele chegou aqui com a família, após seu pai comprar o terreno e trazer toda sua prole, que vivia em Mato Grosso do Sul. Dos nove irmãos, oito vieram para começar a empreitada. “Abrimos a horta e aos poucos fomos ficando no meio da cidade”, relata. Com o tempo, o pai de Laercio envelheceu, se aposentou e seus irmãos mudaram de cidade. Porém ele manteve o local, e hoje dirige o empreendimento familiar, que conta com uma extensa clientela. “Forneço para mercados, hotéis, ‘buffets’, além das famílias que vêm comprar aqui.” A horta, atualmente, produz apenas hortaliças, mas na lojinha improvisada em baixo de um barracão, o produtor vende frutas, doces, verduras e também farinha que compra de produtores da zona rural. “Antigamente tinha outras hortas na cidade mas com o tempo foram fechando, não sei mais de nenhuma.” Hoje ela está reduzida e se encontra com metade do tamanho de outros tempos, devido principalmente à falta de mão de obra para esse tipo de serviço. “É difícil achar gente na cidade que queira UM OÁSIS EM MEIO À SELVA DE PEDRA No meio do Bairro Boa Esperança, área Verde faz jus ao slogan da capital Flor Costa Elizeu Teixeira, 38. 30
FUZUÊ / AGOSTO 2014 pegar na enxada, trabalhar com a terra. As pessoas têm preconceito”, reclama o vendedor. Felizmente, há na cidade quem goste desse tipo de trabalho, e, por isso, Laercio conta com a ajuda de dois funcionários. Um deles é Elizeu Teixeira, 38. “Comecei aqui por acaso, sempre tive interesse de trabalhar nesse ramo. Moro aqui perto. Um dia vim comprar verduras e acabei ficando”. O jovem trabalha por temporadas, e essa é a terceira vez que está ajudando na colheita. Ele conta que o contato com a natureza e a qualidade do ambiente é um dos principais motivos para ele sempre voltar. “É um trabalho diferente, o ar é mais puro. Aqui eu nem lembro que estou na cidade. Fico na paz.” Apesar de não produzir mais frutas e verduras e ter seu tamanho reduzido, a horta não perdeu sua beleza e qualidade. “Faço de tudo para ser o mais orgânico possível, quase não uso veneno. Minha familia come as verduras, por isso temos que cuidar da procedência. A água que usamos é de poço artesiano”, se orgulha Laercio. Além da proximidade com as casas e um preço menor que o dos supermercados, é essa preocupação com a qualidade dos alimentos que atrai a freguesia. Julio Borges, 26, é formado em Sistema de Informação, e desde 1998 é cliente do local. O jovem conta que gosta de comprar lá devido à qualidade dos produtos e da segurança. “É mais confiável. Você pode ver o plantio e como cuidam das hortaliças que você vai comer”. Laercio, assim como seu funcionário, afirma que a qualidade de vida de morar em uma horta no meio da cidade é bem maior do que a de morar no centro. “O ar aqui é diferente do ar do centrão. O clima é mais fresquinho e a poluição passa longe”. E é nesse microambiente inserido no meio de um bairro residencial de Cuiabá que está a horta urbana do Laércio, local que ele cuida com muito carinho e que, como ele diz, é a fonte de sustento de sua família há mais de três décadas. “Me sinto realizado, tudo o que eu tenho foi graças às hortaliças. Graças a ela eu pago minhas contas e estudei todos os meus meninos”. O dia vai escurecendo. Enquanto dá adeus, depois de comprar suas hortaliças, você sobe a ladeira, e já, mais uma vez, se encontra no meio de um bairro cheio de casas e asfalto. Fica até difícil acreditar no local que estava há alguns minutos. Mas essa sensação de afastamento é um dos charmes dessa horta, atípica na cidade, que em alguns lugares ainda continua verde. 31
32 FUZUÊ / AGOSTO 2014 As praças são parte importante da história de um povo e de uma cidade, e Cuiabá tem várias delas. Elas são também um marco cultural de seu povo. Ainda hoje, os mais antigos, cuiabanos de chapa e cruz, gostam de se sentar sob a sombra de alguma árvore na praça para um bom papo de final de tarde e, quem sabe, uma partida de bozó ou dominó. Mas este costume de frequentar praças tem sido ameaçado, não só pelo desdém dos mais jovens pelas tradições do antigo povo cuiabano, mas também pelos altos índices de violência, o descaso de órgãos públicos e também da própria população. Algumas das praças da capital são centenárias. É o caso da Alencastro, que fica em frente ao atual prédio da prefeitura de Cuiabá e também da Praça Ipiranga, no encontro da Avenida Prainha com a Isaac Póvoas. Esses lugares já foram palco para muitas apresentações musicais e teatrais e até mesmo touradas, no século XIX, e hoje sofrem com a falta de cuidado dos cidadãos que por ali passam diariamente e, descaradamente, sujam e depredam a praça, jogando lixo no chão e nos jardins. Em contrapartida, as gestões municipais têm se esforçado pouco em preservar e melhorar as praças da cidade (e também as outras construções histórias do centro de Cuiabá). Ai daqueles que se arriscam a cruzar praças como a Santos Dumont, na avenida Getúlio Vargas, e mesmo a Ipiranga no final do dia. A pouca iluminação (que às vezes fica por cima das árvores, produzindo mais sombras que luz) assusta e aumenta a sensação de insegurança. No entanto, é preciso reconhecer que todos os dias funcionários públicos são mobilizados para a limpeza destes locais que, raramente, permanecem limpos até o final do dia. Quando ficou decidido que Cuiabá seria uma das sedes de jogos da Copa do Mundo de futebol deste ano, a prefeitura se engajou em projetos de restauração de alguns espaços públicos, o que incluiu algumas das praças da capital. As mudanças foram bastante visíveis: restauração de bancos e jardins, a retirada dos moradores de rua e vendedores ambulantes do espaço e melhorias na iluminação. Não ouso dizer que foram mudanças ruins ou mal-executadas (apesar de quase todas terem sido concluídas quando a Copa já havia começado). O engraçado é que elas foram revitalizadas por causa dos turistas. Como se aqueles que mais usufruem desses espaços merecessem menos do que os que vem de fora para ficar apenas alguns dias. E assim foi por toda a cidade. Obras tão essenciais à vida dos cuiabanos (e dos agregados que escolheram essa calorosa cidade para morar) que só aconteceram por causa da visibilidade internacional que a cidade ganharia durante o período da Copa. Enquanto a ajuda de cima não vem, moradores e Associações independentes de artesãos e feirantes se esforçam para manter esses espaços vivos. É o caso das praças da Mandioca e Santos Dumont, por exemplo, que se enchem de música e cheiros de comidas gostosas em pelo menos dois dias da semana. HISTÓRIA E TRADIÇÃO ESQUECIDAS NAS PRAÇAS DE CUIABÁ Gabriela Poletto Gabriela Poletto veio de Primavera do Leste para estudar jornalismo na capital de Mato-Grosso. Ela está no sexto semestre de Jornalismo pela Universidade Federal de Mato-Grosso. Tradição Ameaçada
FUZUÊ / AGOSTO 2014 33 Há quatro anos, a capital do Pantanal entrava em minha vida como única opção de lugar para morar. Um lugar com menos de 1 milhão de habitantes, com clima muito próximo ao insuportável (em especial na época de seca) e um linguajar muito peculiar. O sol que já está a pino em plena 8h da manhã é o mesmo que ilumina e contagia o cuiabano. Povo acolhedor, simpático e que adora uma conversa boa! Mesmo sabendo que a temperatura pode chegar aos 40°C na sombra, o assunto é sempre tema de discussão nos pontos de ônibus, filas de banco, do supermercado e em outros lugares. Parece que mesmo tendo nascido e vivido nessa terra tão quente e seca, o próprio cuiabano tem dificuldade de se adaptar ao clima. Imagine quem vem de fora, como é o meu caso... Se a adaptação com o clima não é assim tão simples, não podemos falar assim da culinária. Farofa de banana, pacu assado, mujica de pintado, bolo de arroz, bananinha frita. Somos muito bem servidos! Há quem diga que se você procura um estrangeiro em terras mato-grossenses é só gritar “farofa de banana” e ele aparece! Nunca fui fã de banana com a comida e muito menos de misturar o doce com o salgado. Por eu ter vindo de uma região onde o churrasco está presente na mesa de 10 entre 10 gaúchos, foi muito difícil nos primeiros dias degustar um peixe e me sentir satisfeita. Mas o tempero que o cuiabano utiliza em um prato típico não está apenas nos segredinhos culinários, mas também na tradição e no amor pelos alimentos. A relação desse povo com o frio também é engraçada. Primeiro porque cuiabano não costuma ter muitas roupas para esse tipo de ocasião. Também, pudera, os dias frios de Cuiabá não duram mais do que três, em no máximo cinco vezes no ano. Mas mesmo assim o frio espanta os cuiabanos. MÁX QUE DGÉLO, CREANÇA! As ruas ficam vazias, os bares com meia dúzia de pessoas. Mas é no tradicional <?>Choppão que você encontra os corajosos que preferem trocar o conforto do edredom pela tradição do escaldado cuiabano para espantar o frio. Em algumas ocasiões, até fila desanima! Aliás, fila é quase um elemento incorporado na cultura cuiabana. Abriu uma nova franquia de uma rede de fast food: o cuiabano está lá. Uma casa noturna acabou de abrir as portas: o cuiabano está lá. Um show de sertanejo promete grandes emoções: cuiabano também está lá! Fala que não gosta de fila, mas em todo lugar que vai enfrenta uma longa espera. Mas a forma como esse povo encara a vida é uma lição para nós, que viemos de outros lugares. Um sorriso, um bom humor e uma vontade de viver a vida, que dá inveja a qualquer um. É cuiabano, você tem mais valor do que imagina! Muito mais do que admiração, você nos encanta! TRADIÇÃO QUE ENCANTA Julia Oviedo Julia Oviedo é uma gaúcha que já se acostumou com o calor cuiabano. Ela é aluna do sexto semestre de jornalismo na Universidade Federal de Mato-Grosso. Mas a forma como esse povo encara a vida é uma lição para nós, que viemos de outros lugares. Cuiabanices
FUZUÊ / AGOSTO 2014
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