Habilismo
Rita Ferraz da Costa
HABILISMO
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Rita Ferraz da Costa
Habilismo
por Rita Ferraz da Costa
(2021, oficina do conto: projecto final, 11 páginas)
Formadora: Carlota Gonçalves
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Abílio é um homem de meia-idade,
estatura média, cabelo grisalho, olhar
profundo e sorriso expressivo. Desde
pequeno que ali vive na modesta aldeia e
sempre a trabalhar na sua mercearia, a
mercearia Central. Conhece aquela gente
toda, fregueses, mães, pais, avós, bisavós,
sobrinhos, enteados, cunhados, primos,
empregados, amantes e bastardos de
fregueses. Padres, acólitos, diáconos, sei lá.
Conhece-os a todos, embora alguns apenas
por entreposta pessoa; muito melhor do que
o que queria! Tem dias em que diz mal à sua
vida, – “porque será que se me
confessam?!”, “Terei eu cara de quê?!” Bate
burros indignado, – “então não é que...” e
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cala-se muito bem calado. Fica desnorteado,
começa logo a andar de um lado para o outro,
parece doido, arruma as frutas, ajeita os
legumes, pendura as bananas, as cebolas, os
alhos, alinha as caixas, ajusta o toldo à
medida do sol, entra, sai, entra e fica. Sente-
se incomodado, arruma as prateleiras das
drogarias, indigna-se, fala sozinho, fala para
ele, com ele, – “isto, a vida, é um vale de
lágrimas!”, “quem me havia de dizer ?!”,
“parvo sou eu, para que fui fiar ?!”, “isto só
visto, contado não se acredita!”, “mas como
é que é possível”, “olha esta!”, “soubera
eu!”, “mas quem me mandou a mim
perguntar!”, “está quieto!”, “isto não há
fome que não dê em fartura!” , “ninguém
merece!”, “quem havia de me dizer ?!”,
“Onde irá ela buscar forças ?!”, “pobre
criança!”, “quem não tem saúde não tem
nada!”, “como é que se resiste ?!”.
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Chegam os fregueses, sentem-no
atrapalhado, escutam-no a bater burros,
observam-no nas limpezas e arrumações e
começam às compras: “duzentas e cinquenta
gramas de fiambre, só lhe digo, senhor
Abílio que a Josefina se apaixonou pelo
irmão do marido, dois litros de leite, que o
Estevão estourou com o pouco dinheiro que
restava à desgraçada da mãe, quatro maçãs,
que o Zequinha afinal é só meio irmão da
Belita, uma manteiga, que o senhor padre se
encontra com a Ausinda na garagem da tia
Gertrudes que está quase cega, meia dúzia de
ovos, que diagnosticaram um cancro à filha
do Tó Zé, seis tomates, que o marido da
Maria José se enrolou com a filha do
Antunes, duas latas de atum, que o
Rodrigues está com Alzheimer e os filhos
não querem saber dele, um alho francês, que
a Antónia foi despedida da farmácia com
aquela filharada toda, um quilograma de
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arroz, que o filho do sacristão foi de charola
para as urgências com uma overdose, duas
curgetes, que o Raposo enganou as irmãs
com a valor da venda da terra, um
quilograma de cenouras, que a Florinda da
paróquia anda metida com a filha da Elisa,
uma couve flor, que a Suzete anda a chamar
pai a outro, meia abóbora, que Andreia e o
Hugo já se divorciaram e ainda ontem
casaram, um quarto de queijo flamengo, que
a Laurinha fez outro aborto, uma garrafa de
azeite, que a menina da Julinha nasceu com
a espinha bífida, um detergente para a louça,
que o enteado da Glória se apaixonou por
ela, uma embalagem de cereais integrais,
que o miserável do Delfim dá sovas na
mulher, um quilograma de farinha, que a
mãe da Henriqueta entrou em coma
alcoólico, um quilograma de açúcar, que
afinal o Fonseca é o pai do Nuninho, um
quilograma de cereais de aveia, que a
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Marieta já está outra vez com a água e a luz
cortadas, seis garrafas de água das pedras,
que o filho da Albertina voltou, uma garrafa
de vinho tinto, que o marido da Silvina
morreu atropelado pela camioneta da
carreira, seis minis, que a sobrinha do padre
fica com o dinheiro do ofertório, um lava
tudo, que a mãe da Ivone se meteu com o
sogro, um esfregão bravo, que a tia do Júlio
tem uma casa de alterne em poiares de baixo,
um rolo de papel de cozinha, que o marido
da Genoveva está com um cancro na
próstata, e ainda um pano Vileda e uma
esfregona, por favor.”
Abílio, pousa os braços no balcão,
suspira e diz à Belmira e ao Ferreira, se eu
quisesse enlouquecia, sei uma quantidade de
histórias horríveis...
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Sem título
Era a última terça-feira do mês de maio, dia
do mercado dos agricultores, na praça
Central eram dias mais calmos na mercearia,
dias em que Abílio se empenhava numa mais
minuciosa limpeza e arrumação. Apesar da
calmaria uma freguesa, a freguesa, a Maria
das Dores, das dores que lhe atormentam a
alma, das dores que lhe trespassam o
coração, das dores que lhe encurvam os
ombros, das dores que lhe ofuscam o brilho
dos seus enormes olhos, das dores que lhe
levam o sorriso, das dores que lhe
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entorpecem o andar, a quem dedica
imediatamente a sua cuidada atenção.
Passam-se longos e dolorosos minutos, a
freguesa sai, Abílio agarra num cartão mal-
amanhado, tira a esferográfica da orelha e
com letra bem grande e bem desenhada
escreve, «Trespasso-me». Sai, dá duas voltas
à fechadura, cola o cartão do lado de fora da
porta, enche-se de coragem, dirige-se ao
centro da praça, sobe ao coreto, entrega-se,
abstrai-se, envolve-se em agonia e com
determinação tudo rola, flui, abre-se, sem
nunca hesitar. Todo o sofrimento na sua
memória bendita, prodigiosa, maldita,
homem hábil lança-se em corpo que dá voz:
“Ai, pudesse eu dar esta história a
conhecer a toda a gente.” E começa: “Um
rapaz estava sentado numa poltrona com o
rosto escondido nas mãos.”
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Tudo se anunciava há muito. Ambos
sensíveis, difíceis, já frágeis, já sofridos,
contagiavam-se um ao outro. A proximidade
intensa levava-os ao abismo, à escuridão, à
angústia, a uma depressão já maior e
profunda.
Achou-se por bem que se separassem,
que habitassem espaços diferentes, que
procurassem outra vida, que se
desenleassem, que tomassem outro caminho,
que fugissem daquele inferno, onde já só se
aguentavam ou quase sedados ou já
algemados e já desprovidos de autonomia.
A separação foi cruel, terrível, quase
sangrenta, tal qual como o corte de um
cordão umbilical.
Lá foram vivendo, resistindo, andando,
cambaleando, cada um para seu lado,
sobrevivendo, nem pior, nem melhor. A
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única diferença era a distância física, que de
coisa nenhuma lhes valia, os olhos não se
viam, mas o coração tudo sentia.
Perturbavam-se, inquietavam-se mesmo a
léguas, sofriam as dores um do outro, as
dores de cada um, as dores dos dois
empoladas de tanto amor, de tanto dissabor,
de tanto horror.
Sucediam-se dias enormes,
infindáveis, carregados de silêncio, de medo,
de um pavor absolutamente avassalador.
Nalguns desses dias falavam-se, quase
deliravam, atacavam-se, queixavam-se de
saudades, como uma privação quase
insuportável, condenavam-se, culpavam-se,
desculpavam-se, justificavam-se,
perdoavam-se, pediam contas um ao outro,
bloqueavam, emudeciam, desligavam e
escondiam o rosto nas mãos, horas e horas a
fio, só queriam, fugir, desaparecer e fizeram-
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no mais do que uma vez e era tão, tão difícil,
lá chegar, impenetráveis, tão fora do alcance
das limitadas capacidades humanas de
tantos, de todos, deles próprios, da vida que
poderia ter ajudado mas também não o fazia.
O pouco tempo que passou, passou e varreu
a última e já insignificante esperança de uma
vida em paz, em que ainda assim, muito
raramente, acreditavam. Houve um dia em
que para um dos dois tudo acabou num
instante, numa brutalidade inesquecível,
desgraça irremediável, uma tragédia. Ele
pôs, por fim, fim à vida, talvez sem saber que
dessa vez o fazia para sempre. Ficou apenas
a poltrona, enxertada de dor e forrada de
sofrimento, onde a sombra dela, todos os
dias se senta a conversar com ele.
Abílio já oco, absolutamente vazio,
termina. Não se ouve um som, reina um
silencio cortante. Abílio desce do coreto,
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abandona a praça sem nunca olhar para trás
e caminha para longe. Hoje, bem distante,
não fala com ninguém, conversa com o seu
rebanho e com os seus dois cães.
De manhã à noite de roda das cabras,
dos esconderijos de cogumelos comestíveis,
venenosos, selvagens, de roda da
sobrevivência, da sua sapiência e dos cães,
batizados por ele do “já te disse” e “não sei”.
Dizem.
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