Branco
Carla Patrícia Marques
BRANCO
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Carla Patrícia Marques
Branco
por Carla Patrícia Marques
(2021, oficina do conto / short story: projecto final, 22 páginas)
Formadora: Carlota Gonçalves
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Vestido de noiva
Neve
Móveis da cozinha
Folha em branco
Farinha
Camisa
Rosa
Lençóis
Panos de cozinha
Albino
Casa
Dourada
Vazio
Vestido de primeira comunhão
Malmequer
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E se os malmequeres deixarem de existir?
E se o vestido de noiva se sujar com base?
E se o copo de vinho se entornar na camisa branca?
E se a lixívia não tirar as nódoas dos panos da loiça?
E se a farinha apanhar mosquitos?
E se o vestido da primeira comunhão da Maria não servir?
E se as sapatilhas brancas se sujarem?
E se desenhar com força na folha branca?
E se acabar a tinta branca, de que cor será a casa?
E se ele nascer albino, matamo-lo?
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Micro-contos
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Gilete
Cortou-se a fazer a barba com a gilete.
Era nova.
Corta-se todas as vezes.
E todas as vezes cola um pedaço
minúsculo de papel higiénico para estancar o
sangue.
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Folha
Cortei o dedo na folha que a professora
me deu.
Não me lembro como agarrei a folha.
A professora não deve gostar de mim e
atacou-me com ela.
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Religião
Quando fiz a primeira comunhão, a
comunhão de fé e no dia do meu casamento
levei um vestido branco.
No crisma levei uma camisola
vermelha.
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Short Stories
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Mãe
O sonho dela era ter uma folha em
branco.
Pode-se fazer tanta coisa com uma
folha em branco. Escrever uma carta de
amor, pintar uma árvore perdida numa
floresta virgem, amassá-la muito bem para
jogar futebol com o amigo ou simplesmente
olhar para ela e agradecer a todas as árvores
que contribuíram para aquela obra de arte.
Tão pura, tão vazia, tão simples.
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Foi à loja de pinturas que fica na rua
mais escondida da vila, só os estudantes de
arte e os pintores a conhecem. Foi a Dona
Ermelinda que lhe falou dela. Apontou a
morada no lenço de papel, já usado,
guardado no casaco de malha com alguns
buracos da traça.
Entrou com medo. Ela era uma
impostora. Estava ali para se munir de armas
para a guerra que se aproximava. Tinha que
sair vencedora, outro resultado não seria
possível.
Escolheu uma caixa de 12 cores, vivas,
alegres, bem diferentes das cores da sua
vida. Doze aguarelas. Da melhor marca.
Guardou-as no seu saco de pano e saiu
a correr. Naquele momento queria ser
transparente. Na verdade, ela queria ser
transparente para sempre.
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Entrou em casa, fechou a porta depois
de ter a certeza que não fora seguida.
A sua casa, de formato redondo de
telhado de colmo, era escura, apenas existia
uma janela pequenina. Não conseguia ter
plantas no interior.
Lupi, o seu filho, estava escondido
debaixo da banca da loiça. Alegrou-se
quando a viu. A sua salvadora. Aquela
mulher, pequena, magríssima, com o olhar
mais triste do mundo, sorria cada vez que o
via, afogava-o de abraços e baixinho
murmurava-lhe ao ouvido que o amava, que
era o menino mais bonito do mundo. Fazia-
o com a esperança que aquelas palavras, com
significado, entrassem no inconsciente e lá
ficassem gravadas perpetuamente.
- Lupi! Tenho um plano. Vou pintar-te
com estas cores. Gostas?
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Olha para ela, com pena. Não
acreditava que aquelas cores fossem a sua
salvação. Mas não a contrariou.
- Muito.
Pegou no pincel, com a mão a tremer.
Olhou para o teto, imaginou o céu e pediu a
todos os deuses que a ajudassem, que lhe
dessem o dom de pintar, apenas por umas
horas.
Pintou o cabelo de castanho-escuro. A
seguir foi o rosto, os braços, as pernas, com
castanho e uma pitada de amarelo para
clarear um pouco.
O seu filho estava tão lindo! Negro
como ela, mas com os olhos mais claros que
as águas cristalinas do rio Zambeze.
Lupi saltava, na pequena divisão, de
felicidade. Nunca mais seria ameaçado pelos
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colegas de escola nem pelos comerciantes de
órgãos.
Foi uma semana alegre, pacífica. As
histórias contadas antes de dormir eram
alegres. Lupi falava dos jogos que fez com
os seus amigos. Já não eram colegas, mas
amigos.
Lupi nunca teve amigos. Ninguém se
aproximava deles. Sonhava ser transparente,
nessa altura.
Não se esquecerá do dia que o menino
mais velho da sala decidiu picá-lo com uma
agulha para verificar qual a cor do seu
sangue. Ficou aborrecido quando
começaram a sair gotas de sangue vermelho.
Afinal era da mesma cor.
No sábado a aldeia foi fustigada por
chuvas fortes. Lupi não conseguiu chegar a
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casa sem ter sido atacado por gotas gordas,
poeirentas das primeiras chuvas.
- Mãe! Mãe! Já cheguei.
- Oh, Oh não. Não pode ser. O que
aconteceu? Como fui enganada? A menina
da loja disse que eram as melhores tintas.
Os vários tons de castanho deram lugar
ao branco, tão puro como o algodão, como a
farinha de trigo acabada de ser moída.
- Mãe, não te preocupes. De certeza
que haverá tintas resistentes à água. – Lupi
sussurrava-lhe ao ouvido, baixinho,
enquanto a abraçava para que ela acalmasse,
repetia devagarinho para que entrasse no
inconsciente e ali ficasse para todo o sempre.
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“O que significa a Cor Branca:
A cor branca significa paz, pureza e
limpeza. É também chamada de "cor da luz"
porque reflete todas as cores do espectro. A
cor branca reflete todos os raios luminosos
proporcionando uma clareza total.
O branco é símbolo da paz, da
espiritualidade, da inocência e da
virgindade. Na cultura ocidental a cor branca
está associada à alegria, enquanto no oriente
está associada à morte, ao luto e à tristeza.
A cor branca também simboliza a
virtude e o amor a Deus. É uma cor que
sugere libertação, que ilumina o lado
espiritual e restabelece o equilíbrio
interior.”1
1. _____________
2.
3. 1 Retirado da Wikipedia (“Significado da cor branca”).
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Para Lupi e sua mãe o branco
significava morte e ao mesmo tempo amor.
Para os outros significava maldição. Para os
Zulo2, macaco.
Fim
4. _____________
5.
2 Os zulus ou zulos são um povo do sul da África que vive em territórios
correspondentes à África do Sul, Lesoto, Essuatini, Zimbábue e
Moçambique (retirado da Wikipedia).
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Estão a partir
Cada vez mais pobre. Não era só ela,
mas a humanidade.
Hoje um, ontem outro. Já não era
devagarinho.
Triste. Tão triste que o peito a apertava
tanto que a sufocava. Era difícil respirar
naquele lugar, mas nos últimos dias esse
simples ato que se aprende desde que se é
gerado tornou-se um martírio.
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Triste, mas ela continuava ali. Podia
despedir-se. A sua casa era naquele lugar.
Sentia-se segura, não havia discursos por
obrigação, palavras guardadas para não
ofender ninguém. Só precisava de acordar e
respirar.
Sabia que teria de partir em breve, a
sua casa estava ameaçada como as casas de
todos.
Não valia a pena elaborar relatórios
científicos de 10 páginas, nem de uma
página. Ninguém lia, ninguém compreendia
a ameaça que estava à frente dos olhos de
todos.
Com o seu Iphone 4S, ecrã partido,
como a maioria dos ecrãs, armava-se em
realizadora e captava imagens, lutas de
focas, ursos famintos, cansados, cada vez
mais magros.
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Pela noite fora cortava, colava,
acrescentava música de fundo, legendas
curtas, para as pessoas não se cansarem.
Publicava-os de madrugada e as horas
seguintes eram passadas a contar os likes,
partilhas. Meia dúzia. Sempre os mesmos.
Que trabalho tão inglório.
Desde que se mudou para ali, a sua pele
envelheceu 20 anos, as frieiras tornaram-se
habitantes permanentes nos dedos dos pés e
das mãos. Claro que fez xixi para cima delas,
mas não resultou.
O protetor solar está a acabar. Há dois
meses que usa a quantidade de uma ervilha
raquítica, só dá para uma parte do rosto.
Desistiu da testa, a franja e o gorro
vermelho, com um pompom laranja, uma
bela combinação de cores, que a sua mãe lhe
deu na festa de despedia, organizada sem ter
o cuidado de avisar a anfitriã, escondem-na.
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Ela odeia festas. Ela odeia multidões.
Esperava que a mãe soubesse disso, depois
de a conhecer há 30 anos.
O que ela tem mais saudades são dos
passeios de sexta-feira pelas bancas da feira
de livros usados. Já leu e releu todos os livros
que trouxe. Pagou excesso de peso pela
mala, mas não foram suficientes e eles não
estão à distância de um clique. Adora livros
usados, principalmente aqueles que têm
anotações, dedicatórias.
Uma vez comprou um livro erótico, na
altura que terminou a relação de longa data
que se encontrava em hibernação há dois
anos. A mãe adorava-o.
Na página 120 estava escrito “já
experimentei esta posição com o José, dei-
lhe nota 20”. Teve de ir tomar banho de água
bem gelada para arrefecer o corpo.
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Uma posição complicada, semelhante
aos livros de instruções para montar móveis
do IKEA. Durante várias noites dormiu
acompanhada, com a imagem de um José e
de uma Maria (foi ela mesma que lhe deu
esse nome. No livro não encontrou nenhuma
pista).
Não tem nenhum José na sua vida, não
tem livros, não tem protetor solar. Não tem
nada.
Até os Icebergs estão a partir. Não
olham para trás.
Se o fizessem viam uma pessoa. (Não
se consegue perceber se é um homem ou
uma mulher, com o fato da neve, um gorro
parolo, sentada numa cadeira desmontável a
olhar para eles). A implorar que fiquem. Ela
tomará conta deles.
Ela ama-os.
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São teimosos. Pensam que serão
felizes noutro lugar.
Enganam-se.
Fim
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Ontem (dia 19/05)3, depois das 21
Horas, sentei-me no sofá, após uma batalha
de almofadas com o meu filho que teimava
que eu lhe pertencia e por isso não tinha o
direito de me sentar.
Ganhei a batalha. Sento-me. A minha
filha está ao meu lado a tentar roubar-me a
atenção. Olho para ela com o olho esquerdo
e com o direito tento ver um pouco de
televisão. Não está a dar nenhuma série
coreana que tanto amo. só depois das 22:30
é que tenho esse direito.
6. _____________
7.
3 Nota da autora: Este texto foi escrito na semana de 10-15 de maio.
Iceberg porque é branco, gelado como a neve que tanto amo. Uma
preocupação que me acompanha já há algum tempo. Aquecimento
global.
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Está a dar o telejornal, na Sic notícias.
Aparece uma notícia no rodapé: A minha
respiração congela por segundos.
“Maior iceberg do mundo soltou-se de
plataforma de gelo na Antártida”.
Mais um que partiu. A família está a
ficar reduzida.
Volto a respirar. A minha vida
continua igual, mas o mundo não. E ninguém
faz nada.1
1 Nota da autora: Este texto foi escrito na semana de 10-15 de maio.
Iceberg porque é branco, gelado como a neve que tanto amo. Uma
preocupação que me acompanha já há algum tempo. Aquecimento
global.
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todos temos páginas em branco
resta-nos preenchê-las de cor e de histórias
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