Curadoria de trabalhos de artistas da comunidade LGBTQIAPN+ DESCAMINHOS
PUBLICAÇÃO INDEPENDENTE PRODUÇÃO Ana Beatriz Casagrande Jeandro Machado João Pedro Karas Butka Lucas Azevedo Magnabosco Nicolly Pereira Ryan Henrique Minela Sofia Leite Delgado PREPARAÇÃO DE TEXTO Ana Beatriz Casagrande Daniel Pala Abeche Jeandro Machado João Pedro Karas Butka Lucas Azevedo Magnabosco Nicolly Pereira Ryan Henrique Minela Sofia Leite Delgado REVISÃO DE TEXTO Ana Beatriz Casagrande Jeandro Machado Carlos Delgado DIAGRAMAÇÃO Jeandro Machado FORMATAÇÃO Jeandro Machado Todos os direitos reservados. Nenhuma parte desta obra pode ser reproduzida ou transmitida por quaisquer meios (eletrônico ou mecânico, incluindo fotocópia e gravação) sem permissão dos envolvidos no projeto.
Para todos os artistas da comunidade LGBTQIAPN+ que deram vida a esse projeto.
SUMÁRIO INTRODUÇÃO I - DESCAMINHOS SOBRE O PROJETO 10 Prefácio II - ARTISTAS E SUAS ARTES Samantha Rose/Ash Rose 14 Drag Queen & Drag King Gabriela Eduarda Cruz Richter 16 Errada Karina Melo 18 Aquarela Mateus Bucioli 20 Arte em Serigrafia Gabriel de Almeida Sales Evaristo 22 Fragmentação Juliana Henrique da Silva 24 Prosa poética Max Carlesso 26 Pintura e colagem sobre tela
Arthur Franco 28 Quebra Werner Kruger 30 Fragmentada André Coelho Fernandes Castro 32 Sequência de autoretratos e poesia Cadu Cinelli 38 Autorretrato bordado III - AGRADECIMENTO ESPECIAL 40
Sobre o projeto 10
Descaminhos é um projeto artístico e cultural com o propósito de dar visibilidade a artistas da comunidade LGBTQIAPN+ em Curitiba e região, fornecendo uma plataforma para expressarem suas experiências de vida e identidades por meio da arte. O projeto consiste em uma curadoria que seleciona diversas formas de expressão artística, incluindo pinturas, fotografias, esculturas, escrita criativa, performances, e muito mais, todas criadas por artistas LGBTQIAPN+. O tema central do projeto é “Experiências na Vida de uma pessoa LGBTQIAPN+”, que incentiva os artistas a explorar e compartilhar suas vivências, desafios, alegrias, tristezas e triunfos como membros da comunidade LGBTQIAPN+. Este tema permite uma ampla gama de interpretações e criações artísticas, e é projetado para refletir a diversidade e complexidade das experiências LGBTQIAPN+. O resultado desse projeto é a criação de um livro de exposição de arte que reúne todas as obras selecionadas pela curadoria. Este livro é uma coleção de testemunhos artísticos que captura as narrativas únicas e as perspectivas dos artistas em relação às suas identidades de gênero e orientações sexuais. É uma oportunidade para que as vozes da comunidade LGBTQIAPN+ sejam ouvidas, compreendidas e celebradas. Além de proporcionar uma plataforma para os artistas LGBTQIAPN+, o e-book “Descaminhos” também visa educar o público sobre as questões relacionadas à diversidade de gênero e sexualidade, promovendo a empatia e a compreensão. Isso contribui para a construção de uma sociedade mais inclusiva e respeitosa. Com o tempo, o projeto “Descaminhos” pode se tornar uma importante ferramenta para a promoção da diversidade e da igualdade, ajudando a quebrar estereótipos e preconceitos e fortalecendo a visibilidade e a aceitação da comunidade LGBTQIAPN+ na sociedade. 11
Prefácio 10
A arte existe para que a realidade não nos destrua. Essa frase célebre do filósofo Nietzsche condensa toda a importância que as expressões artísticas têm em nossas existências. Alguns subestimam o impacto estético e se esquecem que quando mais precisam, há um livro, uma música, um filme, uma série, uma peça de teatro, uma pintura para ampará-los e trazerem um pouco de alento para a vida. A arte, ao fim, tem um papel terapêutico em nossas jornadas, e isso não significa simplesmente nos amparar passivamente, de forma alguma. Ela nos provoca a questionar, a ressignificar, nos abraça algumas vezes, nos tira do eixo tantas outras, nos eleva, nos derruba, nos leva a lugares desconhecidos, algumas vezes inóspitos, outras tantas, acolhedores. Mas há algo que não podemos afirmar, certamente: que passamos impunemente quando nos deparamos com ela, a arte. A presente obra, idealizada e organizada por estudantes de Comunicação da PUCPR, engajados em dar visibilidade à arte de quem muitas vezes está invisível, é uma iniciativa extremamente necessária em um país que ainda discute legalmente a união entre pessoas do mesmo sexo, enquanto praticamente rasga a Constituição. O país que ainda é recordista em assassinato às pessoas trans, que escancara a todo momento a homofobia e a misoginia. Embora a arte possua todos adjetivos possíveis, ser artista no Brasil é um ato de resistência, pois somos impactados abundantemente pela dinâmica neoliberal que basicamente é a antítese da criação estética. Ser artista LGBTQIA+, então, é um ato de resistência exponencial. E a voz a esses artistas é o mote dessa obra, cujo nome Descaminhos (que tive a honra de batizar), nos tira do eixo, do prumo e a única possibilidade é a incerteza. A quebra do monopólio, da unidade do caminho assertivo é imprescindível, em detrimento de outras saídas, outras trajetórias, que muitas vezes são justamente o oposto de qualquer mapa. Contemple, mergulhe, dê voz e compartilhe as manifestações estéticas destes artistas que encarnam a profundeza daquilo que realmente importa e que, em detrimento do processo civilizatório, de algorítimos, investimentos, dinheiro, sucesso e métricas, nos parece, muitas vezes, esquecida: a própria vida. Daniel Pala Abeche Professor da Escola de Belas Artes (PUCPR), pesquisador, poeta e músico. 11
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Artistas e suas artes 13
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Nicolas Patias, de 23 anos, tem outros dois nomes/personas. Nascido em Santa Rosa, RS, veio para Curitiba para fazer drag. Como drag queen, é Samantha Rose e, como drag king, Ash Rose. Aos 13 anos, descobriu-se parte da comunidade LGBTQIAPN+. Já tinha consciência de que não era uma pessoa heterossexual. Identificava-se, nas séries e filmes que assistia, com a bissexualidade. E, quando completou 21 anos, se assumiu como uma pessoa transgênero. Para ele, aceitar sua identidade foi um processo confuso, uma reviravolta. Havia encontrado em si “algo que estava ignorando há muito tempo”. O pai nunca aceitou a sexualidade do filho e prefere não falar sobre o assunto. A mãe teve uma recusa inicial, mas, com o tempo, aprendeu a aceitar e, hoje, os dois mantêm uma ótima relação. Nicolas assegura que é uma pessoa “genuinamente artista”. Não é “bom em nada que não seja arte”. Nela, ele descobriu uma perspectiva libertadora, um espaço onde poderia ser ele mesmo, onde poderia se expressar genuinamente. Convicto, afirma que quer aprimorar sua arte, se “jogar de cabeça nela”. E o que começou como um hobby para escapar das pressões e opressões se tornou, aos poucos, uma profissão. Como drag, ele atua principalmente em festas de k-pop, festivais e palcos abertos, como o Café do Teatro. K-pop, aliás, é uma grande fonte de inspiração para a sua construção como artista. Do gênero coreano, extraí muitas referências para as performances que desenvolve. Inclusive, o sobrenome Rose de suas personas drags foi inspirado numa banda de K-pop chamada The Rose. Além do grupo, tem como fortes influências as drags de Curitiba e a cantora Gloria Groove. Nicolas, no entanto, não se limita às performances drag. Também faz incursões no mundo do teatro, da dança e do burlesco. Sonha em ganhar concursos e, um dia, viver cem por cento de sua arte. Deseja chegar aos 60 anos com o mesmo brilho no olhar que cultiva agora. Samantha Rose/Ash Rose (@samrose.ashrose) 15
Sinceramente, eu cansei de me sentir errada o tempo todo. Já chorei, já me martirizei, já me odiei (ainda acontece) mas resolvi respirar e tentar pelo menos me suportar, até porque, tem coisas que não tenho o motivo certo pra mudar. Pode parecer discurso inspirador, mas não sei nem como fazer isso. Depois de tanto tempo me sentindo uma estranha no ninho, deslocada, ou só mal por ser do jeito que sou resolvi deixar rolar. Querendo ou não, na jornada que temos no mundo, vamos nos sentir assim diversas vezes, em diversos lugares e com diversas pessoas. Mas na realidade o que nos resta é respeitar cada um do jeito que se é, todos tem suas inseguranças mas às vezes pode ser difícil perceber isso quando você se compara demais. Não tô dizendo que todos os dias vão ser bons, que vou me “amar” em todos eles. Só que se em pelo menos alguns eu conseguir levantar a cabeça e seguir em frente, já vai ser uma grande vitória. As vezes sinto que tudo em minha volta diz que sou errada. Que não deveria ser assim. Mas na realidade, quem tem que dizer como tenho que ser sou eu. Só eu sei o que carrego, a força que carrego por todos esses anos simplesmente ser assim. As inseguranças presas na minha cabeça. Na real, o que classifica uma pessoa como “errada”? Porque as vozes de outras pessoas sobre algo em você são mais fortes do que o barulho de uma multidão? Não deveria ser assim. Mas dá pra seguir em frente. Nenhuma dessas vozes te conhece o suficiente e verdadeiramente pra dizer como deve ou não ser, agir, se portar, se vestir. Em algum momento, a gente tem que tentar ouvir o silêncio. Texto presente em “Melancolia” 16
Gabriela Richder, de 19 anos, concilia a faculdade de cinema na PUC-PR com o trabalho de contabilidade na Associação Frei Tito de Alencar. Hoje, considera-se pansexual. Mas, desde os 15 anos, já suspeitava ser diferente. Gostava tanto de meninos quanto de meninas. Por isso, imaginava se enquadrar na bissexualidade. Motivada pela curiosidade, foi pesquisar mais a fundo sobre o tema, até que enfim deixou de esconder seu verdadeiro eu e assumiu sua sexualidade para si mesma. A família, no entanto, não lida bem com o fato. Alheia, a mãe finge ignorar o assunto. E para o pai, homofóbico, a sexualidade da filha continua um segredo. Nas paradas gays de Curitiba e na relação com os amigos, Gabriela encontrou uma válvula de escape para as tensões domésticas. E, na arte, descobriu um refúgio. Desde nova, já participava de orquestras, tocando flauta transversal. Mas foi na literatura que Gabriela viu uma ferramenta poderosa para falar de seus sentimentos e expressar suas emoções. Com seus trabalhos, ela espera transformar a vida de outras pessoas, ajudando lgbts a se entenderem e a se sentirem representados. Sem grandes pretensões, Gabriela começou na literatura pelo universo das fanfics. Hoje, no entanto, deseja levar a escrita mais a sério. Com fortes influências de músicos como Lil Nas X e Melanie Martinez, e livros como Heartstopper e Com Amor, Simon, ela afirma que sua obra é um enorme desabafo. Compondo um leque variado de narrativas, os assuntos que aborda giram em torno principalmente do sentimento de não se sentir parte do mundo, de não pertencer a algo. Atualmente, publica seus textos na conta do wattpad Gabriela_ecr1 e sonha um dia materializar suas histórias, publicando-as em formato físico. Gabriela E. C. Richter (@ Gabriela_ecr) 17
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Karina Pereira Melo, ou Kamelo, o nome com o qual assina suas obras, tem 38 anos, é artista e professora de artes visuais. Descobriu-se membro da comunidade tardiamente. Durante a maior parte da vida teve relações heterossexuais. Até que, com 34 anos, isso mudou. De início assustada, começou aos poucos, e com ajuda da terapia, a aceitar que sentia atração por mulheres. E esse processo representou uma transformação radical. Diz que mudou o jeito que ela se enxerga como indivíduo. Avessa a rótulos, entende-se, hoje, como não binário. Foi difícil explicar isso para a família evangélica, em que existia uma forte presença do machismo e da homofobia. “Minha família fala de cura gay”, conta, barbarizada. Em parte devido a isso, a arte foi essencial em sua vida desde a adolescência, quando vivia fazendo desenhos, principalmente retratos. Afirma que sempre sentiu grande fascínio pela figura humana e sempre gostou muito de representá-la em suas criações. Inspirada em artistas como Amedeo Modigliani e Egon Schiele, para ela a arte é um processo de liberar o que está preso, sejam pensamentos ou emoções. “A arte é parte da minha vida, parte de quem eu sou”. Quando fica muito tempo sem produzir, se sente “sufocada”, diz que precisa botar para fora alguma coisa. Encontrou-se na aquarela, porque quem aplica essa técnica de pintura não tem muito controle de para onde a cor vai fluir. As tintas se misturam de forma imprevista. Como artista, exibe suas obras no instagram e as descreve como retorcidas, produtoras de incômodos. Aborda com frequência o mundo dos segredos, gostando de “falar do que você esconde, do que tem dentro de você, do que você não quer que o outro saiba”. Kamelo se dedicou durante muito tempo à docência, o que fez o lado artista ficar meio adormecido. Hoje, deseja reservar um tempo maior para focar mais na produção artística. Karina Melo (@kzmelo) 19
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Mateus Alonço Bucioli, um jovem de 27 anos de Altônia, interior do Paraná, cresceu em uma família religiosa, o que tornou a compreensão de sua orientação sexual desafiadora. Durante a adolescência, ele começou a entender melhor seus desejos afetivos e eróticos, mas só aos 17 anos, após se mudar para Curitiba e ganhar independência, pôde compreender sua orientação sexual como gay, algo inaceitável para sua família religiosa. Essa dualidade o levou a viver como dois “personagens” diferentes, um quando visita sua família e outro em seu ambiente mais liberal. Além de sua jornada de autodescoberta, Mateus sempre teve uma afinidade com as artes, especialmente o desenho, e considerou estudar moda inspirado por Lady Gaga. No entanto, depois de se mudar para Curitiba, concentrou-se na pintura, especialmente na aquarela, e atualmente explora gravuras e serigrafia. Suas obras mais recentes são inspiradas no livro “A Menina Submersa” da autora Caitlín R. Kiernan, que narra a história de uma garota esquizofrênica que se apaixona por um quadro, criando um personagem que se torna real para ela. A arte é um processo de desenvolvimento e expressão para Mateus, permitindo-lhe explorar sua identidade e criatividade de maneiras significativas. Mateus Bucioli (@_linoarte_) 21
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abriel de Almeida Sales, uma jovem de 25 anos de Londrina, Paraná, sempre teve um amor por desenhar, particularmente inspirado pelos famosos desenhos da Disney e pelas produções do Estúdio Ghibli. Seu sonho era trabalhar na criação de animações semelhantes às que o inspiraram. No entanto, sua família não apoiou essa escolha e ela acabou ingressando no curso de Ciência da Computação na UFPR. Durante seus estudos na universidade, Gabriel começou a produzir projetos que o aproximaram de sua paixão pela animação. Ela teve a oportunidade de criar animações, algo que sempre quis fazer. Simultaneamente, Gabriel estava em um processo de autodescoberta de sua identidade não-binária. Cresceu em uma família religiosa e se sentiu por muito tempo que havia algo de errado com sua identidade de gênero. No entanto, ao encontrar estudantes LGBTQIAPN+ na universidade, ela começou a entender e aceitar sua verdadeira identidade. Esse processo de autodescoberta infl uenciou suas produções artísticas, que frequentemente exploram o “body horror,” um subgênero do cinema de terror que aborda a transformação do corpo humano e a coexistência de dois seres no mesmo corpo, cada um com desejos, pensamentos e comportamentos diferentes, modifi cando a aparência do corpo. Gabriel de Almeida Sales (@cambeh) 23
MAMÃE, ESTOU COM MEDO Mamãe, estou com medo! Algo está errado. Minha autenticidade está sendo destruída. Estou sendo castrada. São tantas correções, risos e críticas. O que há de errado com você? Por que você não se parece com as outras meninas? Você não é normal. Estou com vergonha, eu não devia ser assim. Mamãe, estou sofrendo! Sinto um peso enorme em cima de mim. Eu só queria me parecer com você. Só queria me sentir pertencida. Só queria me sentir acolhida. Só queria ser amparada. Mamãe, sinto um sofrimento sem fim. Silencioso como o barulho do vento. Não consigo aceitar isso. Mamãe, apesar de não querer, continuo com medo! 24
Juliana Henrique da Silva, uma mulher de 28 anos nascida em Cornélio Procópio, no Norte do Paraná, é formada em Economia pela UENP (Universidade Estadual do Norte do Paraná). Atualmente, ela divide seu tempo entre o trabalho como babá e sua dedicação à escrita. Desde a infância, Juliana sabia “inconscientemente” que era lésbica, mas enfrentou um processo complicado de aceitação, negando sua verdadeira sexualidade por muito tempo. Sua família reagiu de forma negativa, optando por silenciar o assunto. Juliana tem sido uma escritora desde os dezesseis anos, com foco em poesia e relatos autobiográficos. Ela vê a escrita como uma forma de terapia e suas palavras carregam um forte apelo emocional, abordando principalmente suas experiências pessoais. Sua escrita é altamente confessional e intimista, com ênfase na subjetividade como componente essencial da arte. Ela vê a arte como algo onipresente em sua vida, uma maneira de transformar suas dores e alegrias em expressão artística. Influenciada por Beyoncé e o escritor contemporâneo Victor Heringer, Juliana inicialmente escrevia apenas para sua psicóloga e para si mesma. No entanto, ao longo do tempo, cultivou ambições maiores e agora deseja ver seus textos impressos, considerando cursar Letras e sonhando em seguir uma carreira profissional na escrita. Juliana Henrique da Silva (@_julianasilva.m) 25
Everson Maximiliano Carlesso, de 35 anos, é formado em administração, pós-graduado em Artes e Ensino das Artes. Também é ator e artista plástico. Com aproximadamente 20 anos, durante um intercâmbio na Argentina, descobriu que sentia atração por pessoas do mesmo sexo ao se aproximar de um colega da comunidade LGBT. Como muitos membros da comunidade, Everson se sentia sozinho e preso ao medo, medo de ser quem é, pressionado por uma sociedade e uma família extremamente machista do Rio Grande do Sul. Somente quando esteve longe das suas origens que conseguiu se libertar do medo e passou a se sentir acolhido pelas pessoas que fazem parte da comunidade LGBTQIAPN+. Suas obras estão relacionadas diretamente com os sentimentos que tinha antes de ocorrer sua libertação. Elas têm uma finalidade: passar uma mensagem para outras pessoas que estejam se sentindo como ele. Medo, insegurança, tristeza, são alguns dos sentimentos que ele aborda, de forma a evitar que se manifestem na vida de outras pessoas. Atualmente, Everson tem trabalhado em um novo projeto que apresenta uma coletânea de imagens. Nelas, o artista utiliza a simbologia do urso de pelúcia como um presente que muitas crianças recebem para servir como uma espécie de melhor amigo, para que a criança não se sinta sozinha. Pintado em diversas cores, num teor carnavalesco, os animais de brinquedo exibem muito brilho e contam com a presença de objetos que fazem parte de roupas relacionadas ao universo LGBT. A imagem construída traz alguns sentimentos do artista, mais especificamente a solidão e solitude, sentimentos que vêm se intensificando com o passar do tempo, no qual outras pessoas podem se identificar “Nesse rolê, nesse nosso meio, é muito comum né? Não só no nosso meio, mas na nossa sociedade, uma prova disso é que nós somos os maiores consumidores de antidepressivos, anti sifilíticos e remédios para dormir “, diz Everson. Max Carlesso (@carlessomax) 27
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Arthur Carlos Franco Oliveira, de trinta e três anos, formado em Jornalismo e Publicidade e Propaganda, Mestre em Comunicação, trabalhou como confeiteiro, mas exerce atualmente a profissão de fotógrafo e ministra aulas para cursos de Publicidade e Jornalismo, com foco na fotografia. Desde criança, Arthur tinha conhecimento que era diferente, mas somente aos 14 anos que realmente saiu do armário. Sua mãe, porém, não aceitou muito bem. Ao longo dos anos, ela começou a entendê-lo melhor. “Quando fiz dezenove anos, comecei a namorar e eu falei “”estou namorando e as coisas vão ser assim””. A gente começou a se acertar e hoje em dia eu sou casado e minha mãe tem uma relação boa comigo e com meu marido”, fala Arthur. O processo de processo de compreensão de Arthur foi longo e gradativo. Primeiro, Arthur percebeu que sua paixão pela confeitaria estava relacionada não com o sabor do bolo, mas como ele ficaria no final, como seria sua aparência. “Eu quena fazer um bolo bonito, era sobre como a comida ficava no final” diz Arthur. Depois, já na faculdade, quando teve aulas de fotojornalismo, começou a entender melhor sobre imagem. Em 2014, durante o período em que morava em Dublin, Irlanda, Arthur desenvolveu um projeto para o curso de fotografia, no qual se envolveu bastante com a fotografia. Mas quando volta ao Brasil, se afasta um pouco da fotografia e começa a focar somente na confeitaria. Em 2020, quando termina o Mestrado e começa a dar aula de fotojornalismo. ele volta a se interessar pela fotografia, assim como pelas artes visuais. Durante a pandemia, Arthur começa a desabrochar mais seu lado artista, ou melhor, a compreender que, na verdade, seu lado artístico sempre esteve com ele, mas que pelo medo de não alcançar sucesso financeiro, vivendo da arte, evitou se aproximar desse cenário por muito tempo, o que já não é mais sua realidade. Atualmente, ele se concentra mais no que a imagem representa, qual o significado que ela passa. Mas, para isso, ele explica que é preciso entender a representação e o contexto, ou a ideia do pintor, pensando que a arte não se resume a aparência, mas também ao conteúdo, “Por isso, gosto muito de trabalhar com a ideia do sonho, de ambientes oníricos, da ideia do não real, do impossível na concretude, por exemplo, estar em um lugar, um local, mas em questão de segundos estar em outro”, conta Arthur. Arthur Franco (@arthurfrancofoto) 29
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Werner Krüger tem 40 anos e concilia a função de administrador escolar com a de artista. Nasceu em Joinville e vive há 7 anos em Curitiba. Desde que se recorda, Werner se sentia diferente e, com 7 anos, já havia se descoberto gay. Na adolescência, tinha a voz mais fina e era mais “afeminado” que os demais, o que o levou a sentir frontalmente as opressões dos colegas manifestadas na forma de bullying. Com 14 anos, assumiu-se para a família. A mãe, que era educadora, lidou relativamente bem com a revelação. Já o pai, preocupado mas alérgico ao diálogo, tardou a aceitar a sexualidade do filho. Ao sair do armário, foi a primeira vez que Werner viu o pai chorar. No seu trabalho como artista, o Joinvilense gosta muito de falar sobre suas subjetividades e, sempre de olho em tudo ao seu redor, utiliza objetos e cenas do cotidiano como matériaprima para o fazer artístico: sejam imagens, pessoas ou arquiteturas — sejam os matizes e os “incômodos” da própria sexualidade. A primeira formação de Werner foi em administração. Durante o curso, ele já começou a demonstrar interesse pelo mundo das artes, o que o levou a, mais tarde, fazer bacharelado em escultura na UNESPAR. Mas a escultura não é o único campo de relevância para ele. O artista tardio — “só me toquei que eu era artista com 22 anos” — também nutre interesse por gravura, colagem e, inspirado pela avó, costura e bordado. Fortemente influenciado por artistas de Joinville, como Juarez Machado e Luiz Henrique Schwanke, Werner traça as diretrizes de suas obras enormemente pautado na luta pelos direitos da comunidade LGBTQIAPN+ e confere a seus trabalhos o aspecto de manifesto de resistência contra as injustificáveis violências que essa mesma comunidade sofre todos os dias. Hoje, os maiores sonhos de Werner são passar no mestrado para poder seguir no ramo da docência e produzir gravuras em espaços cada vez maiores. Werner Miguel (@werner.msk) 31
Desafogar minha fluidez Água mole, carne igualmente não dura Faz tanto tempo que bate O que não fura, afunda E vida que não espera Evoluiu difusa Seres da terra que lutem Penso eu ao engolir mais uma salgada porção No meu oceano interno sou um afogado em ação... Fluidez de consequência Nessa nadadora madura Total consciência de mim E que a maré muda Se esse mar não me desenha Não faz jus a minha curva Eu terraformo uma bacia Estruturo os reflexos de mulher viva Espero a tempestade que via Quando nadava pela vida e pela vida... 35
Drowing is filling the lungs with a fluid Something that land creatures are unable to reach oxygen in Despite how it happens you cannot say The liquid it self is maleficent The ocean we all craweled from The rains, the storm formed life In the same instance that takes it Without ever wanting anything I feel the ones who make trught it fine And the ones who struggle But I’m also bound with limitation Complety fluid by birth Depleted of pscicological oxygen for land nature But vital to all life that dwells Where I cant reach yet André Coelho, Taylor e Jack 36
André Coelho Fernandes Castro tem 30 anos, nasceu em São Paulo, SP, é artista plástico e poeta. Com 25 anos, descobriu-se Não-binário e Gênero fluído. Foi um processo complexo, marcado por muitos questionamentos e dúvidas e permeado por “ataques de pânico e outras crises”. A terapia o ajudou a enfrentar as dificuldades e a se aceitar. No entanto, com sua família com a mente um pouco fechada, a história foi outra. Uma “guerra fria” instaurou-se no ambiente doméstico. Até que o pai tomou uma decisão extrema e expulsou André de casa durante a pandemia. Nesse clima de tormenta, a arte teve papel fundamental em sua trajetória, tornou-se símbolo de resistência. Desde pequeno, já desenhava, principalmente dinossauros e animais marinhos, figuras que vão perdurar até sua obra madura. No ensino fundamental, estudou em uma escola onde era constantemente incentivado a desenvolver os seus dotes artísticos e a aprimorar as suas habilidades criativas. Começou a cursar Design, mas viu, nos limites que o curso impunha, obstáculos danosos ao desenvolvimento da arte que desejava de fato elaborar. Com tintas carregadas de influências surrealistas, como Salvador Dali e Frida Khalo, André não hesita em definir o ponto central de suas obras: o caos. Seguindo essa linha de pensar a produção artística como corpo caótico, ele acredita que a arte não tem propósitos claros ou estanques, mas que, como subproduto de vivências, pode servir, terapeuticamente, como um organizador de sentimentos e pensamentos. E, para André, às vezes sua produção não se harmoniza com o apelo mercadológico, a arte também é trabalho. Em feirinhas, como a de domingo no Largo da Ordem, ele vende produtos, como camisetas e quadros. A partir de uma necessidade imposta pelo capitalismo, ele sonha em encontrar uma confluência entre sua sincera expressão artística e a demanda dos consumidores. André Coelho Fernandes Castro (@redco_art) 37
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Carlos Eduardo Cinelli Oliveira de Campos, mais conhecido como Cadu Cinelli, tem quarenta e três anos, formado em artes cênica, doutorando no programa de pós-graduação em geografia pela UFPR(Universidade Federal do Paraná), atualmente trabalha como ator, contador de histórias e desenvolve trabalhos dentro da arte têxtil. Com 8 anos, Cadu já começou a se ver um pouco como uma pessoa LGBT. “Já me entendia como alguém que não estivesse numa certa norma e depois eu acho que isso ficou mais claro” diz Cadu. Mas foi a partir dos onze anos que isso definitivamente ficou evidente. Entre 14 e 15 anos, começou a se entender nesse lugar, logo após ter suas primeiras relações sexuais. Mas durante os anos 90, quando teve entendimento que fazia parte da comunidade LGBTQIAPN+, se falava muito sobre homossexualismo ser uma doença, o que não foi fácil de lidar. Com a família, Cadu demorou para se assumir, somente aos vinte e sete anos, quando estava se separando de um relacionamento longo com outro cara que conversou com sua família, isso porque, o que para a família era um amigo íntimo de Cadu, passou a não ser quando ele se debruçou em lágrimas contando do término do relacionamento para mãe de Cadu, a ex-sogra. Além de trabalhar há vinte e cinco anos como contador de histórias de um grupo sediado no Rio de Janeiro, chamado Os Tapetes Contadores de Histórias, Cadu desenvolve instalações, projetos em que borda e costura, no qual ele procura trazer a arte em tecido como um lugar de representação de imagens narrativas. Um lugar onde conta histórias e associa a produção de narrativa com o processo de escrita. Sua relação artística com o estudo da geografia também está presente em suas obras, onde às vezes desenvolve projetos que trazem uma relação de contar histórias que remetem a paisagens urbanas, tudo que compõem diferentes paisagens. “PERCURSOS AFETIVOS” é um dos projetos que o artista destaca. Além disso, Cadu traz em algumas de suas obras uma espécie de conteúdo mais místico. Atualmente tem focado em narrativas que contam sobre o universo LGBTQIAPN+, desde as perseguições da sociedade, até histórias de superação, com o intuito de incentivar e inspirar novas pessoas da comunidade a correr atrás de seus sonhos, e não deixar que o preconceito e a opressão social os impossibilite. Cadu Cinelli (@caducinelli) 39
Agradecimento especial 40
Você chegou até aqui, caro leitor. Nosso e-book reuniu, desde sua essência até sua execução, uma coletânea de projetos em forma de arte, e você foi de extrema importância para a disseminação dessa arte. Acreditamos que toda arte deve ser vista e compartilhada. E você, ao dedicar seu tempo a folhear estas páginas, não apenas apreciou as expressões e vivências de nossa comunidade LGBTQIAPN+, mas também tornou-se parte fundamental deste projeto. Com cada obra de arte, cada palavra e cada imagem, você se conectou às experiências, às lutas e às alegrias daqueles que escolheram compartilhar sua autenticidade conosco. Sua dedicação e interesse em aprender, crescer e apoiar não só enriquecem nossas vidas, mas também contribuem para um mundo mais inclusivo e compassivo. Assim, em nome de todos os artistas e envolvidos neste projeto, queremos agradecer você com muita felicidade. Sua presença aqui não é apenas uma leitura, mas um ato de solidariedade e amor. Amor. Esse projeto nunca acabará. Ele continuavá vivo, pois, a arte nunca morre. Obrigado. - Equipe Descaminhos. 41