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Lei um trecho do livro: A Família do Cristão

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Published by Editora Betania, 2019-10-02 10:58:00

A Família do Cristão

Lei um trecho do livro: A Família do Cristão

BELO HORIZONTE
2013

Do Original
The Christian Family
© 1970 by Bethany Fellowship, Inc.
© 2006 by Editora Betânia

Tradução
1.ª parte - Hélio Delvo Vilela
2.ª parte - Myrian Talitha Lins

Diagramação e Capa
Inventus Criação e Comunicação

Impressão
Editora Betânia

1.ª edição, 1976 • 2.ª edição, 2006

É proibida a reprodução total ou parcial deste livro, sejam quais forem os meios empregados:
eletrônicos, mecânicos, fotográficos, gravação ou quaisquer outros, sem permissão por
escrito dos editores.

Todos os direitos reservados pela
Editora Betânia
Av. Iguaçu, 1700 B, Curitiba, PR
80240-030
www.editorabetania.com.br

Sumário

Prefácio. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 5
Uma palavra de reconhecimento. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 7
Introdução.. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 9

PRIMEIRA PARTE

O padrão divino para a família. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 15
1. O padrão divino para os cônjuges.. . . . . . . . . . . . . . . . . . 17
2. O padrão divino para a esposa. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 30
3. O padrão divino para os filhos. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 53
4. O padrão divino para os pais.. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 61
5. O padrão divino para os maridos.. . . . . . . . . . . . . . . . . . 124

SEGUNDA PARTE

Cultivando a presença de Jesus.. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 137
6. Jesus, o Salvador e Senhor da família. . . . . . . . . . . . . . 145
7. O sacerdócio dos pais. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 153
8. A família − Uma testemunha de Jesus. . . . . . . . . . . . 191



Prefácio

Eis uma obra que, por muitos anos, esperei. É grande a nossa
necessidade de um livro que trate de uma ampla variedade de
problemas da vida em família, do ponto de vista bíblico.

Neste livro, Larry Christenson expressa muitas das ideias
a respeito da família cristã, que também a mim me ocorreram.

Nestes dias há grandes deficiências na maioria das famílias.
Sei disso porque muitos dos milhares de adolescentes com
quem tenho contato em meu ministério têm se metido em
enrascadas por causa de alguma deficiência em sua família, seja
ela cristã, ou não.

Gostaria de ver este livro largamente lido e difundido
entre pastores, professores, estudantes, e, de maneira especial,
entre os pais! Creio que, se a mensagem aqui apresentada
fosse aplicada em grande escala, a maré da delinquência seria
contida em nossa terra, e ela traria também uma grande ajuda
para a salvação desta geração.

Creio na mensagem deste livro porque creio no homem
que o escreveu. Ele pratica o que prega. Além do mais, o livro
apela para o meu senso prático. Todos os jovens precisam ler
este livro. É o melhor que já li sobre o assunto.

− David Wilkerson



Uma palavra de
reconhecimento

Folheando alguns livros de publicação já esgotada, quando
de uma viagem à Inglaterra, deparei-me com uma pequena
obra de autoria do Dr. H. W. J. Thiersch intitulada Christian
Family Life (A vida familiar cristã).

Tratava-se de uma tradução do alemão, feita por S. R.
Gardiner, publicada em 1856 pela firma Thomas Bosworth.
Por volta de 1880 saíra uma segunda edição. A editora que
lançou o livro não mais existe. Entretanto, embora os direitos
autorais da obra já sejam de domínio público, quero apresentar
minha palavra de reconhecimento a esse pequeno, mas es­
plêndido, trabalho sobre a vida familiar cristã.

Lendo o livro, descobri um notável paralelo entre os pen­
samentos expostos pelo Dr. Thiersch e nossas experiências, na
minha própria família e na congregação. Por isso, penso que
muitos poderão receber grande ajuda, se derem ouvidos a essa
voz que nos vem de uma geração passada.

Ao fazer citação direta ou paráfrase de alguma ideia do Dr.
Thiersch, em vez de colocar notas de rodapé, resolvi colocar
um asterisco no fim de cada parágrafo tirado ou adaptado de
seu livro. Espero que esta forma de “diálogo” com um homem
de uma geração passada possa enriquecer o leitor em sua estima
e compreensão do que é a vida familiar cristã.

Tenha presente o leitor, então, que um asterisco (*) colo­
cado no fim de um parágrafo indica uma contribuição do
pastor Heinrich Thiersch, um alemão que viveu nos meados
do século XIX.



Introdução

Otítulo deste livro, embora pouco atraente, foi escolhido
de propósito. Não produz impacto. Demonstra solidez,
inspira respeito, e talvez tenha até mesmo um quê de maçante.
É simples e modesto. Indica apenas o tipo de pessoas para
quem foi escrito (cristãos) e o assunto discutido (a família).

É bem provável que um título mais vistoso atraísse mais
leitores. Poderia ser, por exemplo:

O Segredo do Sucesso no Casamento
A Empolgante Aventura da Vida em Família
O Potencial Oculto de Uma Família Bem Ajustada
Nova Esperança Para Pais Aflitos
Mas o nosso interesse não é atrair a atenção de “qualquer”
leitor. Aqueles que desejam apenas uma simples receita para
um alívio temporário dos males de um lar enfermo não devem
perder tempo lendo este livro. Isto só resultará em frustração
ainda maior.
A não ser que o leitor esteja disposto a reconsiderar alguns
dos seus mais arraigados hábitos e convicções quanto à vida
familiar, não deve dar-se ao trabalho de ler este livro. Seu
alcance é profundo demais. Jamais chegará ao fim da leitura, e
muito menos o porá em prática.
Quando Dietrich Bonhoeffer estava encerrado na prisão
nazista, escreveu um sermão para o casamento de uma so­bri­
nha sua. Disse ele: “O casamento é maior do que o amor que
vocês têm um pelo outro. Ele tem em si grande dignidade e
força por ser a ordenança santa através da qual Deus planejou
a perpetuação da raça humana, até o fim dos tempos. No amor
que os une, vocês veem apenas a si mesmos no mundo, mas

10 A f a m í l i a d o c r i s t ã o

ao se casarem tornam-se um elo na cadeia das gerações que
Deus faz aparecer e partir para sua glória, chamando-as para
o seu reino. Em seu amor, vocês veem apenas o ‘sétimo céu’
da sua felicidade, mas no casamento recebem uma posição de
responsabilidade perante o mundo e a raça humana. Seu amor é
propriedade particular, mas o casamento não pertence apenas a
vocês: é um símbolo social, uma função de responsabilidade”.

Com o advento do cristianismo, o casamento alcançou
santidade e significação tais como nunca se ouviu falar nos
tempos antigos. A dignidade da mulher, de há muito esquecida,
foi como que redescoberta e seu valor, reconhecido. Nem
mesmo a lei romana ou a mosaica concediam à mulher direitos
em pé de igualdade com os do homem, em importância e
santidade. No cristianismo, a esposa, tanto quanto o marido,
tem direitos à total fidelidade do companheiro. A esposa deixa
de ser meramente a ajudadora do marido na vida presente,
para ser coerdeira com ele da vida eterna. (1 Pe 3.7.)*

Acima de tudo, o exemplo mais sublime do amor de
Deus pelo homem foi dado no sacrifício de Cristo. A esse
sacrifício a Igreja deve sua existência. Entre Cristo e a Igreja
há um laço de amor mais terno, firme e santo que quaisquer
outros laços que porventura tenham existido entre Deus e o
homem. No cristianismo, o homem e a mulher têm diante
de si a tarefa de representar, perante o mundo, essa união que
existe entre Cristo e a Igreja – uma imagem de altruísmo,
devoção e fidelidade. A mais elevada concepção de casamento,
nos tempos antigos, era a de um relacionamento moral. O
casamento cristão é algo ainda mais sublime – um mistério
(Ef 5.32).*

Os filósofos neoplatônicos encaravam o casamento com
uma dureza sombria, como sendo contrário à natureza espiritual
do homem. No tempo de Jesus, os essênios, membros da seita
religiosa mais rigorosa de então, viam o casamento como um
empecilho na preparação do indivíduo para o reino de Deus.
A família cristã, porém, é formada para ser a imagem exata do
futuro reino de Deus, quando a vontade divina será feita na terra
assim como é no céu. Não é apenas uma escola preparatória
para o céu; é uma amostra do que será o reino de Deus.*

Embora em pequena escala, deveríamos ver na família cristã

I n t r o d u ç ã o 11

a sabedoria, a brandura de liderança, a disposição de obedecer
e a unidade e firmeza da confiança mútua que caracterizarão
o reino de Deus consumado. No sentido mais puro, isso só
pode ser dito da Igreja, porque está em um plano superior
ao da família. No entanto, não haverá crescimento espiritual
na Igreja se não houver edificação na família. Os chefes de
famílias cristãs deveriam reconhecer com alegria as muitas
bênçãos que Deus derrama sobre eles através da Igreja. Por
outro lado, é nas famílias cristãs que está a força e o potencial
da Igreja. A ordem e o desenvolvimento da exposição seguidos
por Paulo em sua carta aos efésios não foram obra do acaso.
Ele começa apresentando o mais elevado conceito acerca de
Deus e da Igreja, que encontramos no Novo Testamento.
Continua, depois, expondo a ordem dos diversos aspectos
da vida familiar, pois é através da vida cristã da família que se
processa o crescimento e o aperfeiçoamento da Igreja.*

A família cristã, portanto, não existe para seu próprio pro­
veito e, sim, para trazer honra e glória a Deus. O fato de ela
ser também uma bênção para o homem é uma derivação do
propósito principal, um produto secundário. Aqueles que,
obstinadamente, consideram os seus próprios interesses e
felicidade como sendo o objetivo principal da vida familiar,
nunca compreenderão o plano divino para o casamento e
para a família, pois não conseguem apreender sua estrutura
fundamental e seu princípio básico.

A maioria dos livros sobre o assunto começa com o homem
e depois procura incluir Deus como se ele fora “algo extra”,
uma espécie de aditivo celestial que tem a finalidade de animar
uma vida familiar imersa em tédio.

Esta obra aborda o assunto do ponto de vista oposto.
A família pertence a Deus, que a criou e lhe determinou a
estrutura interna, dando-lhe também um propósito e um alvo.
Deus permite que um homem e uma mulher cooperem com
seu propósito e se tornem parte deste, mas o lar que, juntos, os
dois estabelecem continua pertencendo a Deus. “Se o Senhor
não edificar a casa, em vão trabalham os que a edificam.” (Sl
127.1.) Os filhos tomam sua posição dentro da família por um
ato divino. “Deus faz que o solitário more em família.” (Sl 68.6.)

Assim, não se trata de um casamento nosso, mas dele;

12 A f a m í l i a d o c r i s t ã o

não de um lar, filhos, ou família nossos, mas dele. É possível
que isso pareça apenas retórica religiosa, mas é muito real na
prática. Se Cristo, em verdade, é o Senhor de uma família, isso
irá influenciar toda a vida de seus membros, desde a maneira
de se decorar a casa, até mesmo às preferências sobre o que
fazer nas férias.

Consideraremos, então, a família cristã, sem o benefício
publicitário de um título sensacional, e sem fazer promessas do
tipo: “Sua vida transformada em poucos dias... ou seu dinheiro
será devolvido”. Em vez disso, examinaremos cuidadosamente
o que o Criador da vida familiar diz sobre ela. Agiremos
baseados no fato de que aquele que criou a família sabe tudo a
respeito dela e pode, portanto, oferecer os melhores conselhos.

Se alguém pensa que o casamento é meramente um
contrato social entre dois indivíduos – e nada mais – a leitura
deste livro não lhe será do menor interesse. Por outro lado,
se está disposto a aceitar a verdade de que o casamento é mais
que isso, que em seu âmago há um mistério maravilhoso,
que ele é uma criação de Deus e que, por isso, só alcança o
mais elevado potencial e propósito se formulado dentro da
estrutura estabelecida por Deus, então achará nestas páginas
alguns princípios sobre os quais vale a pena meditar.

Os pontos de vista aqui apresentados são baseados, não
me acanho em dizer, em certos princípios e passagens da
Bíblia. Cremos que são tão válidos e verdadeiros em nossos
dias quanto na ocasião em que foram escritos – coisa que
nossa época acha bem difícil de aceitar. Elton Trueblood
disse certa vez: “Um dos conceitos marcantes de nossa época
é a crendice extrema de que todos os nossos problemas são
novidade. A isso eu chamaria ‘doença da era contemporânea’...
à qual se associa uma presunção desmedida – essa ideia de
que vivemos numa época totalmente nova, que a sabedoria
nasceu conosco, que ninguém jamais a possuiu antes. Para
mim, isso tudo é uma presunção absolutamente intolerável”.

Diz-se de Erwin Rommell, o grande general alemão da
Segunda Grande Guerra, que era um estudioso incansável das
táticas de batalha do general americano Robert E. Lee. Para
guerrear, este contava com cavalos, e aquele com tanques. Um
realizou suas campanhas militares nas planícies ondulantes e nas

I n t r o d u ç ã o 13

colinas do Este dos Estados Unidos; o outro, nas areias desérticas
da África do Norte. No entanto, os princípios de estratégia militar
formaram uma base em que ambos estavam de acordo, embora
separados pelo tempo e pela herança cultural.

As situações e circunstâncias podem mudar, mas os prin­
cípios básicos, se verdadeiros, têm uma validez perdurável.

Os princípios aqui apresentados enfrentaram a prova do
tempo (estão dando bons resultados há séculos) e a prova
de nossa própria experiência. Alguns anos atrás, algumas fa­
mílias de nossa igreja saíram para um retiro. O tema para os
estudos foi: “O plano divino para os pais”. Nossa única fonte
de material sobre o assunto era um pequeno folheto que,
por sua vez, era pouco mais que uma breve lista de versos
bíblicos relacionados com o tema escolhido. Mas foi mais que
suficiente! Como resultado daquele retiro, algumas famílias
começaram a examinar seriamente a estrutura da vida familiar.
Descobrimos que tínhamos algumas interrogações quanto a
várias atitudes e práticas que são comuns na conjuntura cultural
em que vivemos. Em contraste com o padrão predominante,
de relativismo e de tolerância moral, começamos a enxergar
o conceito bíblico de ordem e autoridade. À medida que os
princípios bíblicos iam sendo postos em prática, começamos
a notar a transformação que ocorria em diversas famílias.
Por razões que mais adiante explicaremos, experimentamos,
da noite para o dia, em nossa própria família, uma mudança
dramática na atmosfera do lar. O estudo e a prática dos prin­
cípios bíblicos que regem a vida familiar ainda continuam,
porque são uma aventura emocionante e desafiante, e há
sempre algo a se aprender e pôr em prática. Não oferecemos
soluções absolutas para as inúmeras facetas dos problemas
que a família enfrenta hoje em dia. Queremos somente
apresentar alguns dos princípios básicos que revolucionaram
estas famílias, e convidar o leitor a tomar parte nessa grande
aventura que é descobrir um novo sentido de orientação, uma
nova harmonia e alegria em sua vida familiar:

Demos a esta obra o título de A Família do Cristão. O cristão,
por definição, é “alguém que vive junto com Jesus Cristo”.
Essa definição não é teológica, mas pessoal; não descreve o
cristão em termos de princípios metafísicos abstratos; em vez

14 A f a m í l i a d o c r i s t ã o

disso, caracteriza-o em termos de experiência diária. É justamente
essa a direção que queremos tomar em nossa investigação do
que seja a vida familiar. E assim poderíamos ampliar aque­
la definição e dizer que “uma família cristã é aquela que
vive junto com Cristo”.

O segredo da boa vida familiar é surpreendentemente sim­
ples: cultivar o relacionamento da família com Jesus Cristo. Todos os
aspectos da vida familiar estão incluídos nesse relacionamento.
Não há problema que a família possa vir a enfrentar cuja solução
não esteja dentro do escopo deste objetivo.

De que maneira pode a família cultivar seu relacionamento
com Jesus Cristo? Afinal de contas, não seria a mesma coisa
que receber um hóspede em casa... ou seria? Mas não podemos
ver ou falar com Jesus, nem comunicar com ele... ou será que
podemos, se nos dispusermos a empregar o tempo necessário
à tarefa de aprender a fazê-lo? Este é o propósito deste livro:
sugerir algumas maneiras pelas quais a família pode cultivar
seu relacionamento com Jesus Cristo, pois o fato básico da
religião cristã é simplesmente este: o seu Senhor está VIVO.

Em sua essência, o cultivo do relacionamento da família
com Cristo apresenta dois aspectos:

O primeiro consiste no estabelecimento, no lar, do padrão
divino para a família. Isto se refere ao relacionamento entre os
membros da família, quanto à ordem e à autoridade.

O segundo aspecto é cultivar a presença de Deus. Consiste
em procurarmos nos tornar sensíveis à presença invisível de
Jesus no lar, criando meios práticos pelos quais podemos
intensificar nossa consciência de sua orientação e de sua
vontade para nossa família.

Dos dois aspectos, o último é o mais importante. É so­
mente através do cultivo da presença de Jesus que nossos
lares se tornam genuinamente cristãos. Entretanto, a aplicação
do padrão divino à família tem uma certa prioridade prática
porque ajuda a criar a atmosfera na qual nos tornamos capazes
de cultivar a presença de Jesus. Quando estabelecemos o pa­
drão divino em nosso lar, criamos uma atmosfera na qual
Jesus se sente “em casa”. O Espírito Santo pode, então, nos
ensinar e guiar em direção ao tipo de vida familiar para o qual
Deus nos criou.

PRIMEIRA PARTE

O padrão divino
para a família

Opadrão divino institui uma ordem de autoridade e respon­
sabilidade, que nos é revelada pela Bíblia.
“Saibais ser Cristo o cabeça de todo homem, e o homem, o
cabeça da mulher, e Deus, o cabeça de Cristo.” (1 Co 11.3.)

“Filhos, em tudo obedecei a vossos pais; pois fazê-lo é grato
diante do Senhor.” (Cl 3.20.)

Deus organizou a família de acordo com um princípio
de chefia. Todos os membros da família se encontram sob a
autoridade do cabeça apontado por Deus.

CRISTO
O “cabeça do marido
– Senhor da família

MARIDO
O “cabeça da mulher e autoridade

principal sobre os filhos
ESPOSA
Ajudadora do marido (Gn 2.18)
– Autoridade secundária
sobre os filhos

FILHOS
Obedientes aos pais

16 A f a m í l i a d o c r i s t ã o

O marido está diretamente sob a autoridade de Cristo, e
é responsável perante ele pela liderança e cuidado da família.
A esposa está sob a autoridade do marido e é responsável
perante ele pelo modo como cuida da casa e dos filhos. Estes
vivem sob a autoridade do pai e da mãe; todavia, a autoridade
sobre os filhos é essencialmente uma. A linha pontilhada
indica que a autoridade da mãe é delegada. Ela a exerce
sobre os filhos em nome e no lugar do marido, em sua ausência.
Isso tem grande significado prático no relacionamento entre a
mãe e os filhos, como veremos mais adiante.

Assim, Deus estruturou a família de acordo com preceitos
definidos de autoridade e responsabilidade. É muito importante
que reconheçamos essa estrutura logo de início, porque bem
poucos a compreendem, e menos pessoas ainda a põem em
prática nos nossos dias. No entanto, Deus condicionou à
observância desse padrão divino tanto o bem-estar quanto a
felicidade da família.

Qualquer desvio daquilo que Deus determinou só pode
resultar em uma estrutura defeituosa, para a qual não há outro
remédio senão o retorno ao padrão divino.*

1

O padrão divino
para os cônjuges

Em nenhum outro lugar encontramos o padrão divino para
o casal expresso de maneira mais clara e simples que no
primeiro comentário bíblico a respeito do relacionamento en­
tre o homem e a mulher. “Por isso, deixa o homem pai e mãe
e se une à sua mulher, tornando-se os dois uma só carne.”
(Gn 2.24.) “Unir-se ao cônjuge” é uma expressão que abrange
todos os aspectos do relacionamento entre marido e mulher.
Não há problema que surja entre os dois cuja solução não
possa ser encontrada numa compreensão mais profunda do
que seja “unir-se um ao outro” e tornar-se “uma só carne”
com o companheiro.

Deus nos fez macho e fêmea como parte de sua criação,
como parte da mais profunda expressão pessoal de si mesmo.
Quando criou a raça humana à sua imagem, não criou somente
o homem. Algo estava faltando. Por isso disse Deus: “Far-lhe-ei
uma auxiliadora que lhe seja idônea” (Gn 2.18). E criou a mulher.
Agora o quadro estava completo. Homem e mulher se uniram
em casamento, tornando manifesto o ideal divino de uma obra
completa.

Podemos afirmar, como regra geral, que o propósito de
Deus é que cada homem encontre uma companheira. Esse
fato é confirmado até pelas estatísticas. Nasce no mundo, apro­
ximadamente, o mesmo número de homens e de mulheres.
Após uma guerra, quando a população masculina é dizimada,
algo maravilhoso acontece: na geração seguinte haverá uma
percentagem elevada de homens entre os bebês nascidos. Isso
aconteceu na Europa, logo após a guerra; em uma geração o
equilíbrio da população foi restaurado.

18 A f a m í l i a d o c r i s t ã o

O papel do sexo

“Para obter melhores resultados, siga as instruções do
fabricante.” Tal era a recomendação da bula de um remédio
para resfriados. Se uma recomendação assim é necessária para
a cura de uma simples enfermidade física, quanto mais não
o seria para solucionar o problema de um relacionamento
conjugal enfermo? O cinema, a TV, as novelas, as revistas e
os cartazes publicitários – tudo isto está a nos bombardear
constantemente com ideias errôneas sobre o sexo. O sexo não
é uma invenção da Hollywood do século XX. Foi criado pelo
Deus santo e eterno, o qual nos deu instruções bem definidas
para sua expressão correta no casamento. A união sexual no
matrimônio é um maravilhoso mistério divino. Ocupa um
lugar bem pequeno na vida do casal, mesmo em se tratando
de jovens recém-casados, pois o tempo total gasto nesta ati­
vidade é relativamente mínimo. Entretanto, sem essa união,
o casamento não seria casamento. É como a vela de ignição
de um carro: pequena, mas necessária, pois coloca todo o
mecanismo em ação.

A união sexual é um mistério porque nenhum raciocínio
consegue explicar satisfatoriamente a sua influência forte
e penetrante no casamento e na vida em seu todo. Embora
seja, em essência, um ato físico, implica muito mais do que
simples sensações de prazer físico.

Muito embora seu propósito primordial seja a procriação,
esse não é, na maioria das vezes, seu objetivo imediato. Pelo
contrário, é possível até que a procriação não seja desejada,
sem que isso diminua o desejo pela realização do ato. A união
sexual une e funde de tal maneira dois seres humanos que a
Bíblia os considera “uma só carne”. Por outro lado, nenhum
outro ato praticado pelo homem acentua tanto seu sentimento
de individualidade e identidade pessoal, em nível tão básico. É
um dar de si mesmo profundo, fundamental; uma entrega da
capacidade de procriação de um ao outro. No entanto, quanto
mais perfeita for a relação, maior prazer pessoal resultará daí
para ambos.

Há entre os cristãos uma tendência muito comum de in­
correr em dois erros básicos em sua atitude para com o sexo.

O p a d r ã o d i v i n o p a r a o s c ô n j u g e s 19

O primeiro é considerá-lo uma espécie de mal necessário. Isto
resulta da antiga ideia grega de que o corpo é essencialmente
mau. A maneira de se alcançar a verdadeira espiritualidade
seria dominar e suprimir, o mais possível, os desejos do corpo.

Tal ideia não se encontra totalmente ausente do Novo
Testamento. Escrevendo aos coríntios, Paulo apresenta uma
veemente defesa do celibato, mas depois admite que: “Caso,
porém, não se dominem, que se casem; porque é melhor casar
do que viver abrasado” (1 Co 7.9). Como no caso de muitas
ideias erradas, há, sem dúvida, um quê de verdade na crença de
que o mal tem uma ligação especial com o corpo.

É necessário que reconheçamos o enorme potencial para o
mau uso dos apetites sexuais, que é inerente a eles. A verdade
é que nosso corpo é facilmente excitado até o nível da lascívia,
razão por que precisamos ficar de sobreaviso, por toda a vida,
quanto a essa tendência. Mas isso não deve lançar um estigma
sobre o relacionamento sexual entre marido e mulher. Deus
criou o homem e a mulher, e lhes deu capacidade para gozar
os prazeres sexuais com a intenção de que desfrutassem deles
no casamento.

Essa primeira ideia errônea – que encara o sexo como
algo maligno, baixo e vergonhoso – tem poucos defensores
na atualidade. Nem mesmo os pastores mais conservadores
se deixariam apanhar advogando um moralismo antiquado.
Mesmo assim era necessário que essa ideia fosse mencionada
porque ainda domina, de certa forma, o subconsciente de
alguns cristãos. É relativamente fácil mudarmos uma atitude
consciente, mas nosso subconsciente costuma, teimosamente,
prender-se a padrões e conceitos antigos.

Reagindo contra esse ponto de vista errado, os cristãos
tendem a incorrer num outro ainda mais sutil; trata-se da
inclinação para espiritualizar exageradamente o assunto.

É claro que jamais pensaríamos em abordar o assunto
na base do “Pssssiu... fale baixo... isto não se comenta em
voz alta”. Não; somos suficientemente esclarecidos para não
chegar a tanto. “O sexo é belo”; “O sexo é maravilhoso”; “Sexo
é a fusão perfeita de duas personalidades, uma expressão de
amor que envolve o ser humano total – uma união física,
intelectual e espiritual a um só tempo”; “O sexo é um ato de

20 A f a m í l i a d o c r i s t ã o

entrega total”; “O ato sexual é profundamente espiritual”; “Na
relação sexual, homem e mulher expressam a união essencial
que preenche o vácuo que os separa como indivíduos”. Tudo
isso pode ser verdadeiro, em parte, se nosso propósito é fazer
uma dissecção intelectual do que venha a ser sexo. Mas,
qual é o marido que, ao abraçar a esposa, o faz com elevados
pensamentos de “superar o vácuo entre os seres, num ato de
fixação da sua unidade”? Tal pessoa não seria um homem,
mas um personagem criado pelos apologistas do sexo, que
julgam ser sua missão elevar o sexo do nível terreno que ele
inapelavelmente parece ocupar. Será que não há ninguém para
dizer que o sexo é agradável?

Certa vez, uma senhora teve a coragem de dizer isso
abertamente, numa daquelas tradicionais palestras sobre o
namoro e casamento, que não podem faltar na programação de
um acampamento de jovens. A reação foi um olhar carrancudo
por parte de alguns adultos, como se algum segredo perigoso
tivesse sido revelado. Mas, depois, uma das jovens disse àquela
senhora:

“Gostei muito de a senhora ter dito que o sexo é agradável.
Dizem sempre que é tão maravilhoso, mas eu ficava com a
ideia de que não se podia aproveitar bastante, porque ele era
santo demais.”

Aparentemente, os filósofos do sexo não conseguem aceitar
a ideia de que o prazer físico e emocional é a característica
predominante da relação sexual. “Isso diminuiria a dignidade
do ato.” De modo que, com suas palavras, eles procuram elevar
o sexo ao que lhes parece um plano superior, descrevendo-o
em termos quase transcendentais. Esta espiritualização do
sexo, todavia, não o torna mais espiritual. Ela não passa, se
tanto, de uma fraca tentativa de regressão aos ritos pagãos da
fertilidade, que emprestavam um significado místico ao sexo.

A Bíblia não dá margem a tais filosofias. O casamento, em
seu todo, é apontado como um símbolo do relacionamento
entre Cristo e a Igreja (Ef 5.32). Mas, quando a relação sexual
propriamente dita está em pauta, é tratada pelo que realmente é –
um ato físico acompanhado de um impulso emocional intenso.

Seria difícil achar-se um modo menos espiritual de tratar
o assunto do sexo que o encontrado em 1 Coríntios, capítulo

O p a d r ã o d i v i n o p a r a o s c ô n j u g e s 21

7: “O marido conceda à esposa o que lhe é devido e também
semelhantemente a esposa ao marido. Não vos priveis
um ao outro... para que Satanás não vos tente por causa da
incontinência”. E este é o único capítulo do Novo Testamento
que dá orientação específica quanto ao relacionamento sexual
no casamento!

O sexo é apenas um dos aspectos do casamento, e como
qualquer outra parte dele, deve ser conduzido da melhor
maneira possível; porém, não se deve permitir que estenda
sua influência sobre todas as outras áreas. Ilustrando: quando
a família se assenta à mesa para a refeição, o marido só pensa
na refeição preparada pela esposa, e em sua capacidade de
prepará-la. É o pensamento mais apropriado para aquela
ocasião. Quando as crianças não se comportam bem, a esposa
deseja que o marido seja eficiente na disciplina. Mas, se ele
não é, não faz sentido que ela resmungue: “É; você bem que
gosta da minha torta de maçã, mas na hora de disciplinar as
crianças você não ajuda”. O fato de ele gostar da torta de
maçã que ela faz é perfeitamente normal e certo. Não é nisso
que reside o problema da disciplina dos filhos, nem a sua
solução. No entanto, o relacionamento sexual acaba levando a
culpa de coisas tão absurdas como esta: “Você só quer saber
de sexo! Será que não pode desligar a TV de vez em quando
para a gente conversar um pouquinho?” Também neste caso,
o fato de ele ter prazer na relação sexual é perfeitamente
normal. O problema de o marido não encontrar tempo para
conversar com a esposa é outra coisa, e deve ser tratado em seu
contexto próprio.

O marido e a esposa devem esperar que suas relações
sexuais proporcionem um período intensamente agradável a
ambos. Entretanto, embora seja um paradoxo, o segredo da
coisa é a aceitação total do relacionamento tal como é – mesmo
com algumas falhas e decepções. Nem sempre se consegue
um bom relacionamento sexual automaticamente. Às vezes
leva tempo, e exige uma adaptação racional de nossas atitudes.

As reações de uma pessoa ao relacionamento sexual
no matrimônio, assim como o próprio amor, são bem mais
subordinadas à sua vontade do que supomos. Não é necessário
que primeiro haja sensações de arrebatamento passional.

22 A f a m í l i a d o c r i s t ã o

Mesmo quando um dos dois participa por dever, um bom
relacionamento pode surgir e ser cultivado. Na verdade, há
ocasiões na vida de um casal quando um ou outro participa
de um ato sexual mais por dever do que por interesse pessoal.
Tal modo de encarar o sexo não é indigno, nem do ato em si
mesmo nem dos participantes.

Uma senhora que gozava de um relacionamento sexual
bem ajustado, conversava, certa ocasião, com algumas amigas
que reclamavam que seus maridos “só queriam saber de sexo”.

“O que vocês precisam”, disse ela, “é de uma boa dose
da atitude típica das moradoras da antiga Boêmia (atual
Tchecoslováquia): ‘Aqui estou; use e abuse’.”

Na aparência, essa atitude é um tanto vulgar, mas oferece
maior potencial para se chegar à felicidade do que a ideia
pouco realista que deixa tudo por conta dos sentimentos. Além
disso, ela está plenamente de acordo com o ensino bíblico de
que “A mulher não tem poder sobre o seu próprio corpo, e
sim o marido; e também, semelhantemente, o marido não tem
poder sobre o seu próprio corpo, e sim a mulher” (1 Co 7.4.) Em
linguagem clara, isso significa que, quando um dos cônjuges
deseja ter um contato sexual, o outro deve corresponder àquele
desejo. Adotando esse modo prático de encarar o sexo, marido
e esposa descobrirão ser ele um aspecto maravilhoso de seu
casamento, e que é capaz de produzir grande satisfação, pela
simples razão de ser fundamentado na realidade e não em um
ideal artificial ou impossível de ser alcançado.

Separação e divórcio

A sociedade do mundo de hoje considera o casamento
como um contrato firmado entre dois indivíduos, que pode,
caso haja motivos suficientes, ser anulado. É natural que, com
uma visão tão limitada do que seja o casamento, a sociedade
encontre todo tipo de desculpas para dissolver essa união e até
mesmo para encará-la em termos de experiência – “para ver se
dará certo”.

Quando os fariseus colocaram Jesus à prova na questão
do divórcio, sua resposta foi: “Não tendes lido que o Criador,
desde o princípio, os fez homem e mulher e que disse: Por

O p a d r ã o d i v i n o p a r a o s c ô n j u g e s 23

esta causa deixará o homem pai e mãe e se unirá a sua mulher,
tornando-se os dois uma só carne? De modo que já não são
mais dois, porém uma só carne. Portanto, o que Deus ajuntou
não o separe o homem” (Mt 19.4-6.)

No segundo capítulo de Malaquias, o profeta nos diz que
Deus odeia o divórcio. A Bíblia afirma com certeza que o
casamento é para toda a vida, sendo a separação e o divórcio
contrários ao padrão estabelecido por Deus.

Vamos aceitar esta declaração como sendo dogmática,
mesmo reconhecendo a exceção que Jesus mencionou e
também aquela que foi reconhecida por Paulo (Mt 5.32; 1 Co
7.15). Os casamentos que se desfazem baseados unicamente
nas exceções admitidas pelas Escrituras são pouquíssimos, e
isso por uma excelente razão: quando pelo menos um dos
cônjuges está resolvido a viver de acordo com as Escrituras,
raramente o casamento chegará ao ponto de separação. Como
disse Bonhoeffer: “Deus mesmo faz com que o casamento
seja indissolúvel. Ele o protege contra todos os perigos que o
ameaçam, tanto os de dentro quanto os de fora. O próprio Deus
garante a indissolubilidade do casamento. Não há tentação ou
fraqueza humana que consiga separar aquilo que Deus uniu.
Realmente, os que sabem disso podem dizer com confiança:
‘O que Deus ajuntou, o homem não consegue separar’.”

Os cristãos precisam compreender que, ao tomarem o
nome de Cristo, aceitaram também uma regulamentação
para o casamento que é diferente da que é reconhecida pe­
las autoridades civis. Martinho Lutero reconhecia que as
autoridades civis podiam conceder o divórcio; não obstante,
deixou claras as implicações que isso teria para o cristão: “Onde
não há cristãos, ou há apenas cristãos falsos e perversos, seria
bom que as autoridades lhes permitissem, como aos pagãos,
que deixassem suas esposas e tomassem outras para que, pela
desarmonia de suas vidas, não vivam em dois infernos – um
aqui e outro no além. Mas saibam eles que, pelo divórcio, deixam de
ser cristãos, transformando-se em pagãos e colocando-se sob condenação”
(Luther’s Werke. Ed. Erlangen, vol. 51, p. 37).

Há uma objeção que pode ser levantada, que é realmente
óbvia e não surpreende a ninguém: “Se o casamento é indis­
solúvel e se, por causa disso, marido e mulher estão presos

24 A f a m í l i a d o c r i s t ã o

um ao outro para a vida inteira, então um casamento infeliz
é um mal de indizíveis proporções”. Sim; de fato o é – e
assim deve ser. E não se diga que tal castigo é duro demais
para a leviandade inconsequente que motivou a escolha. Essa
leviandade deve ser alvo do mais severo castigo, pois faz do
relacionamento humano mais solene e santo, um motivo de
pouco caso, um passatempo e um objeto para a satisfação de
desejos sensuais.*

Se alguém, sem ter sido o culpado, tem de carregar o fardo
de um casamento infeliz, até no sofrimento há esperança para
ele, pois o sofrimento, para o homem totalmente entregue a
Deus, constitui a mais proveitosa escola de purificação, dis­
ciplina e virtude. Os anos perdidos de felicidade terrena pas­
sam a ser anos ganhos para a eternidade.*

Aqueles para quem o alvo mais importante no casamento
é a felicidade pessoal acharão esse conceito insuportavelmente
severo. A questão, no entanto, é: será que Deus o considera
severo demais? Deus não se acanha de pedir ao seu povo que
suporte provações, se esse for o melhor meio de ele realizar
seus propósitos. É bem possível que, para preservar a esta­bi­
lidade do casamento como instituição divina, alguns tenham
de tolerar um casamento infeliz. Mas este é um mal bem
menor que o desmoronamento em massa de lares, que es­
tamos presenciando hoje em dia. Talvez não nos seja possível
conter essa maré, no que se refere à sociedade em geral, mas os
cristãos podem se decidir a viver de acordo com as leis de
Deus, a despeito dos padrões em voga no mundo à sua volta.

De igual forma, pastores e conselheiros cristãos não devem
procurar abrandar a lei de Deus por causa de uma suposta
compaixão e preocupação por aqueles que se acham presos a
um casamento infeliz. Há ocasiões em que é preciso que se
diga ao crente que ele deve suportar provações por amor a
Cristo – e essa é uma delas. Os males advindos do divórcio
já são muito grandes, mesmo considerando-se apenas o in­
divíduo. As estatísticas mostram que, na Califórnia (onde a
porcentagem de divórcios é duas vezes maior que a média do
resto dos Estados Unidos), as doenças em geral, o alcoolismo,
as doenças mentais, os problemas de saúde de mães e filhos,
e o suicídio são marcadamente mais frequentes entre pessoas

O p a d r ã o d i v i n o p a r a o s c ô n j u g e s 25

divorciadas. O mal cometido contra a sociedade em seu todo é
ainda maior que o sofrido pelo indivíduo.

As leis a favor do divórcio foram formuladas, prova­vel­
mente, tendo em vista fins humanitários. Todavia, elas foram
inspiradas pelo espírito desta nossa época e não pelo espírito
do amor. Já que o casamento é o alicerce e a pedra angular de
toda a sociedade, o espírito destruidor que impera em nos­
sa época se revela mais fortemente nas leis do divórcio. Não
há insensatez maior, nem mais perigosa, do que pensar que é
possível desprezar a moralidade e ainda conservar a religião;
afrouxar os laços matrimoniais e, ao mesmo tempo, tornar mais
coesas as forças governamentais; crer que se pode entregar à
destruição aquilo que é a base indicada por Deus para o bem-es­
tar da humanidade, desde que se garantam ao Estado escoras
de sua própria invenção: uma opressão férrea e um engenhoso
sistema de espionagem.*

Porém, o maior mal de todos é o que se comete contra a
autoridade e senhorio de Cristo, pois a ideia de divórcio não
resiste ao impacto de sua palavra: “Portanto, o que Deus ajuntou
não o separe o homem” (Mt 19.6). Cristo fez essa afirmação
baseado em seu profundo conhecimento do fato de que o ca­
samento ocupa um lugar central no plano eterno de Deus para
a humanidade. Aqueles que ousam alterar tão solene declaração
de Cristo, fazem-no às custas de grande risco espiritual. Os
apóstolos não hesitaram em exortar os crentes a sacrificarem a
felicidade material em troca de maior proveito eterno. Devemos
fazer o mesmo. É melhor viver uma vida inteira de solidão e
infortúnio do que uma eternidade de remorso.

Consideração mútua

Uma consideração mútua e uma compreensão correta
da posição em que Deus colocou a ambos são as exigências
principais para a felicidade no casamento.*

Ter consideração pelo companheiro é reconhecer nele mais
que um indivíduo – é ver nele alguém colocado por Deus numa
posição sagrada. Temos consideração por alguém que ocupa
um alto cargo público, porque respeitamos seu cargo. Quanto
mais, então, não deveríamos respeitar a pessoa colocada lado a

26 A f a m í l i a d o c r i s t ã o

lado conosco no casamento, pois ser apontado por Deus como
“marido” ou “esposa” é ser elevado a uma posição da mais alta
dignidade e confiança em seu reino.

A consideração é um elemento essencial no amor. Se esta
faltar, o amor deixa de ser amor, tornando-se apenas uma mera
paixão. A consideração mútua protege o casamento do perigo
de tornar-se vítima dos inevitáveis “altos e baixos” que terá de
enfrentar. Se a ternura e o cuidado que o marido tem por sua
esposa dependem da aparência dela ou dos sentimentos dele
no momento; e se o respeito da esposa pelo marido varia com
o estado de ânimo dela ou com o juízo que ela faz da maneira
com que ele se enquadra nos padrões por ela formulados ou
do modo como corresponde às suas expectativas, o casamento
está fundado sobre areia movediça. O amor é deixado ao sabor
de humores e de sentimentos efêmeros. Deus quer que o
amor conjugal seja edificado sobre um alicerce mais estável,
que é a consideração pela posição em que Deus colocou o
outro cônjuge.

Deus nunca ordena que duas pessoas se amem com ín­
tima afeição baseando-se na simples atração natural que sen­
tem uma pela outra. Não aproxima homem e mulher para
lhes dizer: “Amem-se um ao outro. Quando o seu amor es­
tiver bastante forte, darei minha bênção de aprovação ao
‘casamento’”. A experiência de apaixonar-se é maravilhosa.
Quando ela é cercada de recato e reserva, Deus compartilha
das alegrias dela advindas. Esse pode muito bem ser o fator
que dirija duas pessoas para o matrimônio, mas Deus não
constrói um casamento com base em uma simples atração
natural. No sermão que escreveu para o casamento de sua
sobrinha, Dietrich Bonhoeffer disse: “Assim como é a posse
da coroa, e não apenas a vontade de reinar, que faz um rei, da
mesma forma, no casamento, não é somente o seu amor mútuo
que os une perante Deus e os homens. Assim como Deus está
acima do homem, assim também estão a santidade, os direitos
e as promessas do casamento acima da santidade, dos direitos e
das promessas do amor. Não é o seu amor que susterá o casamento,
mas, doravante, é o casamento que susterá o seu amor”.

“O amor romântico como única base para o casamento” é
um dos axiomas de nossa cultura que, por não ser examinado

O p a d r ã o d i v i n o p a r a o s c ô n j u g e s 27

detidamente, é seguido cegamente. E nós, de bom grado,
aceitamos como certo que essa é a única base para o casamento,
em harmonia com a liberdade e dignidade humanas, e, além
disso, como o AMOR aparece na fórmula, achamos que tam­
bém deve ser uma base cristã.

Em muitas culturas o casamento é arranjado pelas famílias
do noivo e da noiva, o que seria uma prática inaceitável para
nós. Achamos inconcebível que um casamento contraído nessa
base possa ser feliz. E se fosse, diríamos que foi pura sorte.
No entanto, os casamentos felizes não são uma característica
de nossa cultura. O que realmente é uma criação de nossa
cultura é a concepção errada de que a única base firme para
o casamento é o amor romântico. Alguém bem que poderia
perguntar se a nossa cultura tem produzido menos casamentos
infelizes, como resultado de seguir essa ideia. O atual índice de
divórcios leva-nos a duvidar pelo menos de que a resposta a
essa pergunta seja afirmativa.

Ao se considerar a estrutura do casamento cristão, o lugar
e a natureza do amor romântico precisam ser reexaminados.
Nossa tendência é atribuir-lhe uma posição de autoridade
autônoma sobre o casamento. O amor é algo que simplesmente
“existe”; tem-se ou não se tem amor, e não há muita coisa que
se possa fazer neste terreno. Se um jovem casal, desiludido,
descobre que “já não nos amamos mais”, conclui entre lágrimas
que o casamento perdeu a base indispensável à sua existência.

O amor é um ingrediente essencial no casamento. Todavia,
o casamento não depende do amor para continuar existindo.
Pelo contrário, é do casamento que depende a continuação do
amor. O casamento dá ao amor as condições de permanência
e estabilidade de que necessita para crescer e amadurecer. O
casamento liberta o amor da tirania de sentimentos intensos,
porém imaturos. Força a pessoa a passar por dificuldades e
vencê-las para prosseguir em direção a novas dimensões de
amor e entendimento.

Nunca se deveria permitir que o amor fosse um tirano
no casamento, a ponto de ameaçar com sua dissolução. Os
casais que chegam à desesperadora conclusão de que “não nos
amamos mais” deviam simplesmente ouvir a exortação: “Bem,
comecem a aprender”. Quando contraímos matrimônio, Deus

28 A f a m í l i a d o c r i s t ã o

ordena que nos amemos um ao outro. O amor, do ponto de
vista de Deus, não é o alicerce do casamento, mas o resultado
de um casamento bem-sucedido. Nós só ajudamos a cultivá-lo e
desenvolvê-lo quando resolvemos, firmemente, alcançar esse
objetivo. No casamento, o homem e a mulher não se tornam
bonecos indefesos nas mãos do amor. Pelo contrário, nós o
podemos moldar para que se torne, de bom grado, um servo
do casamento.

Esse tipo de amor não cresce no solo arenoso de nossos
sentimentos superficiais, mas firma suas raízes no solo rico e
profundo da consideração mútua. A mulher dedica grande estima
ao homem por causa da posição que Deus lhe conferiu, ao lhe
dar o título de “marido”; de igual forma, o homem trata com
carinho a mulher a quem Deus honrou com o título de “esposa”.

O respeito para com a dignidade e a honra conferidas por
Deus ao outro cônjuge fundamenta o amor conjugal sobre um
alicerce duradouro, sobre o qual pode ser edificado o tipo de
amor descrito por Paulo em 1 Coríntios 13.

O amor é paciente e bondoso; não arde em ciúmes, não
é presunçoso e não se porta mal; não é egoísta e não se irrita
facilmente. O amor não guarda consigo erros passados, não
se alegra com o mal, mas sim com a verdade. O amor nunca
desiste; sua fé, esperança e paciência nunca falham. O amor
é eterno.
O casamento − Um mistério
A Bíblia não encara o casamento como um contrato social
entre dois indivíduos, que pode ser desfeito à vontade. Em vez
disso, vê-o como um mistério. Escrevendo aos efésios, Paulo
afirma: “Eis por que deixará o homem a seu pai e a sua mãe
e se unirá à sua mulher, e se tornarão os dois uma só carne”.
Continuando, ele declara: “Grande é este mistério, mas eu
me refiro a Cristo e à igreja” (Ef 5.31,32). Em outras palavras,
cada casamento cristão – inclusive o seu, amigo leitor – tem o
propósito de ser um reflexo da relação entre Cristo e sua Igreja.
Assim é que, embora isto seja contrário ao raciocínio na­
tural, uma boa parte da felicidade real no casamento vem do
“dar” e não do “receber”. Isso é verdade porque o casamento

O p a d r ã o d i v i n o p a r a o s c ô n j u g e s 29

é moldado pelo relacionamento entre Cristo e a Igreja. O
mundo deveria poder perceber, em cada casamento cristão, a
atitude mútua de dar e de dar-se a si mesmo, que caracteriza a
união entre Cristo e a Igreja.

Quantas oportunidades um homem tem de expressar à
esposa um amor igual ao daquele que deu a própria vida por
sua Noiva! E quantas oportunidades de se dar se apresentam
diariamente à mulher – oportunidades de expressar a mesma
fidelidade da Igreja a qual é descrita em Efésios 5.24,27: “...
sujeita a Cristo... gloriosa, sem mácula, nem ruga... porém
santa e sem defeito”! Isto não é apenas um ideal, mas a meta
proposta pelo Espírito Santo para cada casal cristão.

2

O padrão divino
para a esposa

“Primeiro as damas” é uma norma de etiqueta social bas­
tante conhecida. A Bíblia segue essa mesma norma
ao falar do padrão divino para a família, e isso não deve ter
sido obra do acaso. Na família, a mulher é o elo de união
entre o marido e os filhos. Quando ela vive de acordo com
o padrão divino, o marido, e os filhos serão mais propensos a
se enquadrar nele também. Assim é que, ao tratar do padrão
divino para a família, as Escrituras se dirigem, em primeiro
lugar, à esposa.

“As mulheres sejam submissas ao seu próprio marido,
como ao Senhor; porque o marido é o cabeça da mulher, co­
mo também Cristo é o cabeça da igreja, sendo este mesmo o
salvador do corpo. Como, porém, a igreja está sujeita a Cristo,
assim também as mulheres sejam em tudo submissas ao seu
marido.” (Efésios 5.22-24.) A simples ideia de “se submeter”
ou de “viver em submissão” provoca, em muitas mulheres
inteligentes e capazes, uma verdadeira onda de negativismo,
pois, para elas, “ser submissa” equivale a ser um capacho inerte
e destituído de significado ou valor.

Para Deus, no entanto, a submissão tem outro significado:
é render obediência humilde e inteligente a uma pessoa que foi
investida de poder ou autoridade. Deus nos dá um exemplo:
a Igreja e sua submissão ao governo de Cristo. Longe de ser
degradante, esse relacionamento é a glória da Igreja! Não foi
por ter alguma coisa contra as mulheres que Deus ordenou
que fossem submissas a seus maridos; pelo contrário, esse
padrão foi estabelecido para proteção da mulher e para que houvesse
harmonia no lar. Seu propósito foi poupar a mulher de muitos


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