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O tema desta edição remete à nossa essência enquanto indivíduos. Reflete a complexidade humana e como isso pode ser positivo. Debatendo diversidade, questões de gênero, orientação sexual, trazendo à tona a luta, a resistência e promovendo reparação histórica da comunidade LGBTQIAPN+. É o diferente que nos permite enxergar o mundo de diversas maneiras. Adivergência promove inovação. Somos contrastes.

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Published by Revista JuMtos, 2023-11-17 23:20:23

Revista JuMtos - Contraste

O tema desta edição remete à nossa essência enquanto indivíduos. Reflete a complexidade humana e como isso pode ser positivo. Debatendo diversidade, questões de gênero, orientação sexual, trazendo à tona a luta, a resistência e promovendo reparação histórica da comunidade LGBTQIAPN+. É o diferente que nos permite enxergar o mundo de diversas maneiras. Adivergência promove inovação. Somos contrastes.

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EDIÇÃON°5NOVEMBRO/2023uMtos J Contraste. Fotografia: Tadeu Augusto


EDIÇÃO MARCELO COSTA DIREÇÃO CRIATIVA JÚLIA CARVALHO DIREÇÃO DE PRODUÇÃO FABYOLLA RIBEIRO DIREÇÃO DE EVENTOS IVENS NETO RHAFA MELLO REDAÇÃO AMANDA JARDIM AUGUSTA CESÁRIA FRANCELINO DA SILVA CAIO DE BELÉM GABRIELE CRISTINE GIOVANNA FORTES ISADORA MAIA JOSÉ DAVID MARIA JHULLY MARINA BITTENCOURT MALU PIMENTEL PEDRO VITOR RENAN MOREIRA THAY ANDRADE VICTOR AZAMBUJA WELLINGTON OSWALDO ARTISTAS CONVIDADOS LUCIENE CARVALHO MATHENOVÊ PARCERIA REVISTA IKEBANA APOIO PRAE - UFMT ASSEMBLEIA SOCIAL EDIÇÃO N° 5 - CONTRASTE CAPA AUGUSTA CÉSARIA FRANCELINO DA SILVA BEATRIZ BATISTA KSSIA ELVIS DULTRA GIH GERSON SANTOS NATHALIA VIANA PEDRO SILVA TADEU AUGUSTO GEO RODRIGUES - MAQUIAGEM JOÃO VITOR LIRA - PICUMÃ (CABELO) EINSTEIN HALKING - LOOK COMUNICAÇÃO E MÍDIA KAUÊ BLENO MARIA LUIZA MOURA CAIO DE BELÉM CARLOS EDUARDO GONÇALVES DANILO FERNANDES IZZY RENATO NEPONOCENO THAINARA MONTEIRO VICTOR HUGO MORAIS SANTANA AUDIO E VISUAL ANDRESSA SERRA GUSTAVO BERALDO AIK MOURETT CAROL MARTINS LUANA F. MOREIRA MARCELO SOUZA ARTE E DESENHO AUGUSTA CÉSARIA FRANCELINO DA SILVA ALEJANDRO RODRIGUEZ MATHENOVÊ LUCAS GERTZ MONTEIRO 2


A Revista Digital , publicada semestralmente, é uma iniciativa de uma equipe de jovens artistas matogrossenses, estudantes de renda baixa, LGBTQIAPN+ e periféricos. Tem a finalidade de publicar e divulgar as atuações de diversos setores sociais, fomentar leitura nos tempos atuais e estimular o protagonismo, buscando enriquecer culturalmente, atualizar e complementar a formação de todos os leitores. uMtos J ESCOPO 3


EM MEMÓRIA DE LIDIANE BARROS DE SOUZA


Dedico com um misto de gratidão e admiração esta publicação aos jornais Chanacomchana e Lampião da Esquina, verdadeiras joias da imprensa alternativa que resistiram e brilharam no processo de abertura política no final dos anos 1970. Sobrevivendo aos anos de censura da Ditadura Militar Brasileira, esses jornais não apenas inspiraram, mas também desafiaram os limites da expressão. A 'Contraste' é uma reverência vibrante à ousadia e à resistência dessas publicações que, em tempos desafiadores, plantaram as sementes para uma imprensa mais livre e autêntica. Que este tributo ecoe como um agradecimento eterno pela coragem que moldou os alicerces da nossa liberdade editorial. Nov 10, 2023, 9:05pm NOTA DO EDITOR -Marcelo Costa 5


SAB 07/10 2023 B A S T IDO RE S CARINHA QUE TIROU FOTO DA CAPA @CARVALHO.JS @MARCELOCOSTAQ @__KSSIA__ @AUGUSTACEZARIA @ELVISDUTRAA @GIO_GIH_GIO @PEDROSTICH @NATHALIAVIAANNA @CURLY_BOOYY POVO BONITO DA CAPA


Nascido em Canarana-MT, Tadeu Augusto mudou-se para Chapada dos Guimarães ainda na infância, iniciando seu envolvimento com a arte aos 8 anos, quando ingressou no Colégio Particular Tales de Mileto. Participou de projetos culturais como "Poesiar e Sonhar" e "Folque Tales" , onde descobriu sua paixão por teatro, fotografia e cinematografia. Aos 11 anos, seu interesse pela fotografia cresceu, utilizando o celular para capturar paisagens; aos 12, adquiriu sua primeira câmera e flash. Desde então, aprimora seus conhecimentos, realizando ensaios fotográficos em Chapada dos Guimarães. Colaborou na 4ª Edição da Revista JuMtos em abril de 2023. Atualmente, reside em Chapada dos Guimarães e cursa o ensino médio no Colégio Tales de Mileto. Nascida em Cuiabá-MT, Beatriz Batista é formada em Técnica em Meio Ambiente pelo IFMT-Bela Vista, cursando História na UFMTCuiabá. Criada por uma mãe pedagoga sempre fazendo trabalhos de arte e um pai que trabalhava editando videos e gravando comerciais, cresceu amando criar coisas novas e escrevendo, mas foi aos 17 anos quando adquiriu uma câmera que se apaixonou pela fotografia. Juntou-se a equipe da revista JuMtos agosto de 2023. Passa seus dias lendo, escrevendo ou fotografando. 8


Amar é um ato político Amar é um ato político Amar é um ato político


Fotografia: Beatriz Batista


ATÉ QUANDO ELES IRÃO NOS MATAR? 20/10/2023 Gabriele Cristine Extra, extra!! Notícia urgente. Morre mais uma pessoa homossexual no Brasil. Onde é que isso vai parar? Até quando eles irão nos matar? Viver em um mundo com pessoas desse jeito É o mesmo que dormir e acordar com sono. Até quando eles irão nos matar? Eles te julgam doente por propagar o amor Te tratam com preconceito e desigualdade Não querem respeitar o LGBT E se respeitam, é na base da ruindade. Até quando eles irão nos matar? Agora olhem para mim Mulher, preta, lgbt, estudante e favelada Diz se eu mereço ser espancada? Diz se eu mereço ser estuprada para provar pra humanidade que eu só preciso de um homem para ser mais mulher ? Até quando eles irão nos matar? A arma que vocês anuncia É o maior medo das minorias Vocês dizem “Somos pró – vida” Mas não que tinha preferida Até quando eles irão nos matar? Vai lá, critica as nossas lutas Você jamais entenderão O medo de andar na rua e ser morta por apenas escolher amar alguém do mesmo sexo Até quando irão nos matar? É tão difícil aceitar que o amor é para todos? Deixem a gente viver Não nos importa sua opinião Continuaremos firmes por aí Mesmo com o seu não. Revista JuMtos Contraste


Curto Circuito WELLINGTON OSWALDO oje foi um dia que eu sentei na cadeira da minha escrivaninha e abri o notebook em busca de escrever uma carta para você, Helen. Você sabe que eu, mais do que gosto, eu amo você, e ter que falar, ou até pensar isso, os arrepios sobem à superfície da minha pele: nunca disse isso a ninguém. Você é a única que conseguiu causar isso em mim. E isso é tão insano. Faz um tempo que eu estou tentando escrever uma carta para você, mas eu sempre tenho medo de chorar. O que não seria uma má ideia: apesar de fazer isso todas as noites pensando em você. Não quero ter medo quando escrever para você, muito pelo contrário, quero ser forte e estar muito bem para isso. Acredito muito em atrações e não quero passar uma energia negativa na carta, longe de mim. Por isso, coloquei minha banda favorita para tocar no spotify, sim The Smiths, você conhece, não é? Para você saber, acabei de olhar para o teto e ver o poster. Toca aquela chamada There is a light that never goes out, uma das suas músicas favoritas deles: espero que você se lembre do título, sei que não é boa com isso. Lembro que escutamos pela primeira vez no barzinho que fomos há uns 6 meses: nossa última saída juntas. H 12


O pontinho não para de saltar no papel do word. Sempre quando penso em você, as palavras simplesmente voam. Será que gosto tanto de você a ponto de não ter palavras para te descrever ou sei lá? Hoje, vou me esforçar. Você precisa saber de uma vez por todas o sentimento que tenho por você. Eu preciso que você saiba. Talvez nem pensasse nas consequências disso, mas estou certa de que não quero pensar nesses emaranhados ruins que costumam surgir nessa caixa que guardam todos os sentimentos, todas as emoções boas e idiotas. Certifico se tudo está certo: cabos, internet, mãos, pensamentos… finalmente! Oi, Helen. Faz um tempo que não nos falamos nem nos vimos, espero que esteja bem. Pode parecer pretensioso o que vou falar aqui, mas eu estou mergulhada em pensamentos românticos, sensíveis… e gostaria que você estivesse por aqui ouvindo isso das minhas cordas vocais. Como isso não é possível, gostaria que recebesse essa carta com carinho e respondesse independente da resposta. O que vou fazer aqui é a coisa mais corajosa que eu fiz na vida e não me arrependo disso, porque acredito no que estou sentindo. A primeira coisa que eu vi em você e que mexeu muito com aquele senhorzinho vermelho cheio de palpitação, que sofre de sérios impulsos foi o seu grande e admirável sorriso. E não é um clichê, é realmente verdade! O seu sorriso foi e, desde a última vez, a causa dos meus arrepios inconstantes e quase incontroláveis. Quando sorria, os seus lábios se contraiam, mas ainda era possível ver o desenho perfeito alinhado aos dentes cristalizados, que sempre correspondiam à gargalhada… as mãos leves que vão à boca quando isso acontece… Inclusive, você está sempre rindo, e eu adoro isso. Adoro ver sua felicidade! Como isso é genuíno e inatingível. É uma coisa que não tenho, mas hoje eu entendo como isso é significativo. Deve ser por isso que você sempre estava inigualável quando a via: corpo excelente, cabelos sedosos, pele deslumbrante… 13


Quando você entrelaça seus braços junto ao meu corpo e os meus ao seu é como se eu conseguisse sentir ondas de energia se conectando a todo instante, quase como o Flash quando ele corre nas ruas. É uma eletricidade tamanha que meus pés, joelhos e coração param e eu tenho a sensação que vou cair dura no concreto maciço, a casa dos pés. Eu não suporto essa eletricidade e quero transbordar ele para fora de mim, porque eu não aguento. Por isso te escrevo. Contudo, não busco fazer de você um grande acervo das minhas emoções, quero que você compreenda como existe alguém que te admira e que sente uma estima pela sua pessoa. Frisando aqui, uma estima capaz de passar dos limites amigáveis. Até aqui você já deve ter entendido o que eu quis expor. Seria um sonho se você sentisse essa energia também. Me abrir assim é tão novo que essa mesma eletricidade corre em minhas mãos nesse exato momento, fazendo com que eu nem consiga escrever devidamente. Preciso o tempo todo parar, respirar fundo, pensar, aquecer as mãos e afirmar que está tudo bem. É só uma carta. Está tudo bem, é só uma carta… está tudo bem, é só uma carta. 1, 2, 3… Quando penso em você, lembro das nossas longas conversas aleatórias. Como eu amo sentir essa vibração contínua em meu corpo, que invade minha mente, transformando-a em cenas, janelas… que montam e remontam blocos que ficaram eternizados em minha cabeça, como estão agora. Essas conversas borbulham em meu subconsciente agora, que, às vezes, nem consigo relacionar, entender, interpretar… só quero revivê-los novamente, nem sei se isso será possível depois dessa intrigante revelação? não sei se isso seria, devido ao meu possível encantamento desequilibrado. Sou péssima em esconder minhas feições, então, talvez não seja uma surpresa. Mas como eu queria ter esse prazer de ter conversas aleatórias, desde amores, erotismos, a games e reflexões. Tudo isso é capaz de me fazer livre e entender essa eletricidade que me inunda toda vez que ouço sua voz, risada… 14


Inclusive, nossa última conversa assim foi no dia desse barzinho. Lembro que estávamos felizes e com amigos, mas eu prestava atenção somente em você: o seu olhar sagaz e, ao mesmo tempo, doce; o jeito que o seu cabelo caia em seus olhos de maneira involuntária e você pegava com suas delicadas mãos e afastava para trás, a fim de deixar evidente os seus olhos negros e sutis. Então, cantamos naquele karaokê. Você queria cantar apenas músicas nacionais, mesmo sendo fluente naquela língua em que todos correm para aprender. Você sabia disso maravilhosamente bem. Até sua timidez era ligeiramente afetuosa, para não dizer outra coisa. Você me perguntava se estava tudo bem. Eu respondia que sim. Você era tão cuidadosa comigo, sabia que eu era tímida demais para cantar na frente de pessoas envolventes, que nem ligavam para o fato de estar certo ou não a letra da música, muito menos se a sua voz era feia ou bonita. Eu vivi tanto aquele karaokê, que parecia uma despedida sem saber. E é aí que eu não me arrependo, porque eu estava com você. Alguém que eu realmente amava e me sentia inteira. Pela primeira vez, eu me sentia alguém. E dizem que, quando isso acontece, quando percebemos algo bom em nós a partir do momento em que estamos com alguém ou que esse alguém tem uma afinidade por nós, é porque realmente o amor que sentimos é, além de recíproco, genuíno e ardente. Minha mãe bate a porta nesse momento e me vê um pouco reflexiva na frente da tela do computador. Uma lágrima escorreu do lado do meu rosto, mas ela não conseguiu ver. Limpei rapidamente. Ela me informa uma coisa e eu levanto. Vou até a porta de entrada e… ⼀ Helen? ⼀ Eu não paro de pensar em você. Consegue sentir o cheiro da fumaça do curto circuito? 15


Gabriele Cristine é brasileira natural de Cáceres - MT e estudante de Ciências Biológicas na UFMT de Cuiabá. Gabi escreve poesias, textos e contos desde dos seus 12 anos. Apaixonada pela arte atualmente com 18 anos, faz parte da Revista JuMtos, onde pela primeira vez publicará uma poesia de sua autoria. Wellington Oswaldo de Oliveira nasceu em 1999 na cidade de Várzea Grande - MT. Tem 24 anos e escreve desde os 13. Estuda Letras Literatura na UFMT e trabalha na área de correção de textos. Tem um livro publicado pela UICLAP em 2020 chamado Sente-se e Leia um conto. Produz poesias no tempo livre e publicou algumas delas nas redes sociais. Instagram @oswaldowellington 16


Por: Augusta Césaria Francelino da Silva As faces que contemplam o rio da saudade e as raízes dos temperos, cores e sabores. 2019


- Luciene Carvalho Entre a falácia da libertação e o delineio do modo ocupação, somos neurose; somos defensivos, somos reconstrução. Nosso anseio é encontrar nosso lugar mais do que caber na sociedade. Queremos desenhar outra sociedade que não nos dê tiro, onde haja respiro sem demonização racial. Não temos dono. Faz-se necessário que saiba, quem ainda pensa que senta no trono, que estamos acordados para as cem mil fechadas do poder hegemônico que ainda nos vê como fonte de lucro econômico.


Luciene Carvalho é poeta. Nascida em Corumbá-MS. A difusão e pesquisa de seu trabalho tem eco nacional e internacional, sua obra poética foi apresentado em Londres, em 2014. O livro Dona, de sua autoria, consta na relação de obras literárias exigidas para quem vai se candidatar a uma vaga na Universidade Estadual de Mato Grosso. Presidenta da Academia MatoGrossense de Letras. Dentre suas obras: Conta-gotas; Sumo da lascívia; Aquelarre ou o livro de Madalena; Porto; Cururu e Siriri do Rio Abaixo (Instituto Usina); Caderno de caligrafia (Cathedral); Teia (Teia 33); Devaneios poéticos: coletânea (EdUFMT); Insânia (Entrelinhas), Ladra de flores e Na Pele (Carlini & Caniato). Augusta Césaria Francelino da Silva é filha da "Matagrossa" onde se encontram o Cerrado, a Amazônia, e o Pantanal. Nascida no interior, da cidade de Dom Aquino - MT, em 1998, Augusta Césaria se mudou para Lucas do Rio Verde na Infância, onde foi presidente do COMJUVE (Conselho Municipal de Juventude) e onde viveu até parte do começo da vida adulta, trabalhando como professora, atualmente mora em Cuiabá onde estuda Filosofia na UFMT, e compõe a gestão do DCE, (Diretório Central de Estudantes) CAFIL, (Centro Acadêmico de Filosofia) e o Coletivo LGBTIQAPN+ Hend Santana, ela é travesty, pedagoga, escritora, artivista, militante da UJS, (União da Juventude Socialista), e Princess da House Of Sagrada! 19


omo disse o cantor e compositor Erasmo Carlos em sua música Gente Aberta: “ Se o amor me chamar, eu vou”. Nos faz pensar que infelizmente estar disponível para o amor ainda pode ser um sinônimo de sofrimento e dor, principalmente pertencendo a uma sociedade marcada pela homofobia. Na medida em que fomos crescendo, parece que as coisas começaram a ficar um pouco mais nítidas. Isso nos atingiu de uma forma tão intensa, que quando mais novas o nosso refúgio era a escrita, para tentar me aliviar, me reconhecer e entender o que estava acontecendo. Não havia representatividade, o famoso “Na minha época isso não existia” quando na verdade sempre esteve acontecendo, muitas vezes de forma minuciosas, escondidas e reprimidas. As produções audiovisuais deixaram muito a desejar, pois construíram um padrão inalcançável de casal e de família tradicional. Todavia, esse cenário em passos lentos vem se inovando, principalmente com os avanços das tecnologias e das plataforma sociais, pois agora as pessoas se sentem de certa forma mais confortáveis para compartilhar suas particularidades e assim criam uma rede de identificação e apoio. Apesar disso, no ano de 2018, durante período eleitoral no Brasil, um candidato à presidência chamado Jair Messias Bolsonaro, mais conhecido como Bolsonaro, utilizou de pautas homofóbicas e elevou os discursos de ódio e violência contra a comunidade LGBTQIAPN+. Durante essa época, notamos o quanto esse discurso ainda está enraizado em muitas camadas da sociedade brasileira, principalmente quando começamos a observar pessoas próximas da nossa bolha utilizando desses discursos para evidenciar o seu preconceito. Toda forma de amar Amanda Jardim e Giovanna Fortes C


Infelizmente, ele venceu as eleições. Estatísticas e dados dos crimes cometidos contra os LGBTQIAPN+ evidenciam que para muitos somos apenas um número, uma mera porcentagem, negando assim toda a existência. Sendo assim um período de turbulência, onde tivemos medo de sair na rua e mostrar quem somos. Então quando pensamos que estamos saindo desse cenário, vemos que em pleno setembro de 2023, a Câmara dos Deputados está votando em um projeto de lei. Projeto esse pautado por representantes da direita, para vetar o casamento civil entre a comunidade LGBTQIAPN+, sendo que sua legalidade foi declarada pelo Supremo Tribunal Federal no ano de 2011 (Por unanimidade, 11 votos). Como o amor pode causar tanto ódio e desconforto? Como podemos ter perspectivas sobre o futuro se estamos sempre sendo reprimidos? Como a nossa existência fere alguém? São algumas das perguntas que surgem em nossa vivência no dia a dia. Para quem faz parte da comunidade, sabe que viver é extremamente doloroso. Entretanto, conforme os anos se passaram e a gente vem se sentindo um pouco mais livre, não por completo, toda essa situação no contexto político nos deixa ansiosos e angustiados. A todo tempo tentam tirar um pouco que da liberdade que nós temos. Devemos então mostrar nossa resiliência, usar da nossa voz e força para mostrarmos que jumtos somos mais forte e revidar todos comentários e abusos que vivenciamos diariamente, comentários que por vezes são ditos não somente por familiares e amigos; como também por políticos e pessoas que deveriam em teoria nos representar; e por outras vezes também são ditos por completos desconhecidos na rua, pessoas que acreditam que devem opinar, mas não.


Nascida e criada na baixada cuiabana em MT, Amanda Gabrielly Jardim é estudante de História estando no 6º período na UFMT, construindo uma pesquisa sobre a bruxaria no Brasil. Capricorniana, fã de livros de romance e fantasia, gosta de viajar para a praia e tomar uma boa caipirinha. O processo de escrita sempre se mostrou natural para ela, e agora se encontra ansiosa para escrever para a JuMtos. Instagram: _amanda.jardim Graduanda em História, amante do café, entusiasta da leitura, escrita, música e arte no geral, Giovanna Fortes nasce em Várzea Grande (Mato Grosso). Ela que escreve desde criança, de maneira linear, conta que os grandes gatilhos para escrita são os sentimentos, o cotidiano e o sofrimento, e vem sendo assim desde então. É difícil escrever sobre a sua pluralidade, talvez se estenderia por umas 20 páginas. E agora que é integrante da JuMtos, se sente feliz por conseguir compartilhar um pouco mais sobre a sua escrita. 22


Tenho raiva de quem já fui e não sou mais Tenho vontade de rasgar minha pele à procura de encontrar meu antigo eu na escuridão dos meus órgãos Quero romper minhas veias para voltar a pulsar aquilo que já não é mais novo Quero descobrir o mundo outra vez, mas ainda como a primeira Quero fugir da monotonia e do medo de errar Quero beijar pela primeira vez depois de tanto namorar Quero o eu antigo que se perdeu no tempo ou o tempo de volta? Estou em apuros Internaram-me para enlouquecer dentro de mim Quero respirar outra vez Quero rasgar meu ventre e tentar fazer com que eu renasça de mim Quero morrer Não para sempre Quero morrer lentamente de volta para o passado Não quero renascer em outro ser Quero voltar àquele ingênuo espírito que se permitia machucar tantas e tantas vezes porque só queria viver Malu Pimentel 23


Malu Pimentel é graduanda do curso de Letras - Literatura na UFMT e sempre gostou de licenciar. É natural de Cuiabá e, atualmente, possui 21 anos de idade. Malu escreve desde os 12 anos, mas foi no IFMT, em 2018, que se aproximou do gênero poema. Nascida em Cuiabá - MT, Isadora Maia Aldave desde a infância desenvolveu gosto pelas diversas formas de artes, chegando até escrever de poesias de autoria própria. Oriunda de escola pública, descobriu que em meio as maiores dificuldades que a poesia brilha, escrevendo sobre tudo e todos. Fez parte de um grupo de danças elaborados por amigas, o Cherry Bomb, onde vivenciou o fenômeno do "K-Pop" através da cultura da dança em grupo. Atualmente, é aluna do Terceiro Ano da Escola Estadual Liceu Cuiabano. Acompanhando a Revista JuMtos desde seu início, hoje integra a Equipe de Núcleo de Texto e Poesia contribuindo através de sua escrita a disseminar a arte da palavra. 24


Mirando a miragem do meu ser À beira de um riacho As margens do meu querer Contemplei àquilo que sempre quis ver Deixei de odiar este corpo, Cujo nunca quis pertencer E passei a rejeitar que a aversão persista Para aceitar a grande mulher que em mim habita De fato, Beauvoir estava certa ao dizer: "Não se nasce mulher, torna-se" Levei um meio tempo para isso perceber À partir de hoje, preparem-se Pois aceitei-me, eis-me dizer: mulher! e com total ousadia irei prevalecer. Não se nasce mulher, torna-se Isadora M. Aldave 25


Fotografia: Tadeu Augusto


Meu amor é pioneiro Amanhece em mansidão Na liberdade do mês de maio Meu amor não tá ao contrário É normal amar como amo É vital a sensação das mãos dadas É a verdade das bocas seladas Meu desejo é ser Quem sou, eu vou Eu defendo, eu enfrento a luta Eu sou a causa, tô nessa busca E sem medo da sua opressão Da sua farsa, opinião... Eu repito: não me iludo Feliz antes de tudo! Se assim já me gosto... Te convido pra dançar Sou movido a amor Agora mate o seu rancor, pra ele não te matar Eu resisto no sistema Sou gay e faço poema Eu me arrisco a dizer meu viver é rebeldia Pra lembrar que hoje há lei contra a homofobia Nascido em Pontes e Lacerda (Mato Grosso), vive em Cuiabá há 3 anos, onde cursa História e trabalha com artes diversas. É poeta e escritor, tendo publicando o livro "No Fundo do Eco" (2022), em formato digital e independente. Teve poemas publicados na revista de literatura Ruído Manifesto (2022), participou da Antologia Poética 1001 Poetas (2022). Realizou shows de declamação de poemas em eventos como sarau de poesia. Integra o núcleo de artistas da Revista JuMtos, publicando textos na revista nas edições II, III e IV (2022-2023). Atua também como fotógrafo, filmmaker, ator e assistente de produção no grupo de teatro Kyvaverá, sediado em Várzea Grande (MT). Na área da fotografia e filmagem, atuou em projetos socioculturais que promoveram a cultura Hip Hop destinada a dependentes químicas e pessoas em situação de rua na cidade de Cuiabá. -Victor Azambuja 27


A SOLIDÃO AFETIVA DA MULHER LÉSBICA ISTORICAMENTE OS HOMENS (BRANCOS) SEMPRE TIVERAM MAIS LIBERDADE INDIVIDUAL E CIVIL QUE AS MULHERES, DE FATO, ISSO É FACILMENTE COMPROVÁVEL COM O MACHISMO, O SEXISMO, TRANSFOBIA OS ALTÍSSIMOS INDICIES DE FEMINICÍDIO. NA GRÉCIA O CASAMENTO ENTRE HOMENS ERA CONSIDERADO, SEGUNDO A CULTURA HELÊNICA UMA EXPERIENCIA PEDAGÓGICA: H EM CONTRA PARTIDA, AS MULHERES TINHAM UM PAPEL MUITO SIMILAR AO DAS SOCIEDADES OCIDENTAIS, SEU PAPEL ERA EXCLUSIVO DE SER MÃE E ESPOSA: “GYNAIKEION ERA O NOME DA PARTE DE UMA RESIDÊNCIA GREGA QUE ERA RESERVADA ÀS MULHERES, ONDE ELAS CIRCULAVAM A MAIOR PARTE DO TEMPO. NA ADOLESCÊNCIA, AS MENINAS GREGAS ERAM SEPARADAS DOS IRMÃOS E CRIADAS ISOLADAS. SÓ RECEBIAM VISITAS DE OUTRAS MULHERES OU PARENTES MAIS CHEGADOS. SE SAÍSSEM, ESTAVAM SEMPRE ACOMPANHADAS DO MARIDO OU DOS PAIS E VESTIDAS DA CABEÇA AOS PÉS, E AGIAM COM A MÁXIMA DISCRIÇÃO. DURANTE TODA A VIDA, AS MULHERES FICAVAM SOB A TUTORIA DE ALGUÉM: DO PAI, DO MARIDO OU DO FILHO, CASO SE TORNASSEM VIÚVAS. “ É GRITANTE VER QUE NÃO IMPORTA DE QUAL SOCIEDADE OU CULTURA ESTAMOS ESTUDANDO, TODAS VÃO CHEGAR NO MESMO RESULTADO, HOMENS USUFRUINDO DE SEU PRIVILEGIO DE LIBERDADE, QUE NESTE CASO É, ESCOLHER COM QUEM VAI DIVIDIR SEU AMOR. ESSE PRIVILEGIO HISTÓRICO COM O DECORRER DO TEMPO FOI SE MODIFICANDO, É CLARO, MAS ATÉ NOS DIAS ATUAIS CRIANÇAS DO SEXO MASCULINO AINDA POSSUEM MAIOR LIBERDADE DE EXPRESSAR SEUS TREJEITOS, MESMO EM AMBIENTES MUITOS CONSERVADORES, ISSO VOLTA A ACONTECER EM ALGUNS CASOS. NÃO ESTOU A DIZER QUE MULHERES LÉSBICAS SOFREM OU NÃO MAIS HOMOFOBIA QUE OS HOMENS GAYS, MAS PRECISAMOS RECONHECER QUE O MACHISMO PODE SER MUITO MINUCIOSO, COMO NESSE CASO EM QUE SOCIALMENTE MULHERES LÉSBICAS POSSUEM MAIS RECEIO EM SE REIVINDICAR LÉSBICA POR MEDO DE SEREM MAL ACOLHIDA, COMO POR EXEMPLO AO SENTIR RECEIO EM DEMOSTRAR SEUS TREJEITOS NA INFÂNCIA. “NA GRÉCIA ANTIGA, O RELACIONAMENTO HOMOERÓTICO ENTRE UM HOMEM MAIS VELHO (ERASTES) E UM JOVEM (EROMENOS) ERA CONSIDERADO, SEGUNDO AS LEIS DA SOCIEDADE HELÊNICA, UMA PRÁTICA PEDAGÓGICA. A REFERIDA PRÁTICA TINHA O OBJETIVO DE TRANSFERIR CONHECIMENTOS DE ORDEM FILOSÓFICA, POLÍTICA, MILITAR E ATÉ MESMO SEXUAL. “ Maria Jhully


EM UMA RECENTE CONVERSA COM UMA AMIGA PRÓXIMA, ESTÁVAMOS CONVERSANDO SOBRE O MOMENTO EM QUE NÓS ASSUMIMOS LÉSBICA, ELA ME TROUXE UM QUESTIONAMENTO QUE EU NUNCA HAVIA TIDO ANTES. O POR QUE NO IMAGINÁRIO COMUM, É MAIS FÁCIL PRONUNCIAR VERBALMENTE QUE, SE É BISSEXUAL, DO QUE SE AUTO AFIRMAR LÉSBICA? AO ME DEPARAR COM ESSE QUESTIONAMENTO, PENSO NAS DIVERSAS MANEIRAS QUE A SOCIEDADE TENTA IMPOR SEUS COMPORTAMENTOS HETEROAFETIVOS E MONOGÂMICOS, ATRELANDO O AMOR DA MULHER COM A FIGURA MASCULINA, QUE ALÉM DE REFORÇAR UMA IDEOLOGIA DE GÊNERO, TAMBÉM ALTERA AS CONCEPÇÕES INDIVIDUAL DA MULHER COMO SUJEITO DAS SUAS PRÓPRIAS ESCOLHAS. MAS UMA VEZ, NÃO ESTOU INVALIDANDO AS VIOLÊNCIAS QUE PESSOAS BISSEXUAIS SOFREM, MAS NÃO PODEMOS NEGAR QUE DE FATO EXISTE UMA DIFICULDADE MAIOR DE MULHERES LÉSBICAS SE AUTOAFIRMAREM LÉSBICA, DIGO ISSO, ATÉ POR EXPERIENCIA PRÓPRIA, POSSO DIZER QUE FOI UM PROCESSO ATÉ CONSEGUIR PRONUNCIAR VERBALMENTE NA HORA DE ME APRESENTAR, QUE SOU UMA MULHER LÉSBICA. UMA PESQUISA REALIZADA PELO IBGE ( INSTITUTO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA E ESTATÍSTICA ) EM 2018 ENTREVISTOU CERCA DE 6 MIL PARTICIPANTES MAIORES DE 18 ANOS , EM CINCO REGIÕES DO PAÍS E EM 129 CIDADES, O ESTUDO MOSTRA QUE 2,12% SÃO BISSEXUAIS, 1,37% SÃO GAYS, E APENAS 0,93% SÃO LÉSBICAS. SERÁ MESMO, QUE, DE FATO ESSES NÚMEROS COMPARTILHAM COM A REALIDADE, OU MAIS UMA VEZ O ELEMENTO DO MEDO DA SOLIDÃO PODE SER UM IMPASSE PARA UMA AUTO DESCOBERTA MAIS PROFUNDA DO QUE É SER UMA MULHER LÉSBICA. POR FIM, PARA FINALIZAR, QUERO REFORÇAR OS DOIS FATORES QUE PODEM LEVAR A SOLIDÃO AFETIVA DA MULHER LÉSBICA. O PRIMEIRO DELES É, A FALTA DE LIBERDADE INDIVIDUAL E SEXUAL DAS MULHERES AO LONGO DOS SÉCULOS; O SEGUNDO É ATRELAR O AMOR FEMININO A PRESENÇA DE UMA FIGURA MASCULINA. MESMO NA SOCIEDADE MODERNA ATUAL, ONDE VÁRIOS DIREITOS CIVIS JÁ FORAM CONQUISTADOS SOCIALMENTE A MULHERES LÉSBICAS NAS SUAS AMPLITUDES, ESSAS AINDA SÃO PRIVADOS DE SE REAFIRMAREM E RATIFICAR SUAS ESCOLHAS AMOROSAS E SEXUAL, POR DECORRÊNCIA DO MEDO DA EXCLUSÃO SOCIAL E DA SOLIDÃO. É ENTÃO QUE UM ELEMENTO PODE ENTRAR COMO CONSOLIDADOR PARA ESSAS MULHERES, O CASAMENTO, QUE PODE SER UMA FERRAMENTA PARA VALIDAR SEU AMOR PARA A SOCIEDADE E DE GARANTIR SUA LIBERDADE CIVIL, MAS ACIMA DE TUDO, SOCIAL. DE ACORDO COM UMA PESQUISA DE 2019 FEITA PELO INSTITUTO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA E ESTATÍSTICA ( IBGE ), MOSTRA QUE ENTRE OS MESES DE 2018 O NUMERO DE CASAMENTO HOMOAFETIVO TEVE UM SIGNIFICANTE AUMENTO, COM UM TOTAL DE 3.958 ENTRE HOMENS 29,6% E DE 5.562 ENTRE LÉSBICAS 34%, E SEGUNDO A PESQUISADORA E GERENTE KLÍVIA OLIVEIRA, O CASAMENTO ENTRE MULHERES LÉSBICAS FOI O QUE MAIS CONTRIBUIU PARA O AUMENTO DE CASAMENTOS HOMOAFETIVOS, QUE TIVERAM O CRESCIMENTO DE 64,2% ENTRE LÉSBICAS E 58,3% ENTRE OS HOMENS. 29


O CASAMENTO AINDA QUE SEJA UMA FORMA DE REFORÇAR A IDEOLOGIA DA MONOGAMIA, PODE SER PARA ALGUMAS MULHERES UM GESTO DE LIBERDADE. IMPORTANTE RESSALTAR QUE OS RECORTES AQUI SÃO APENAS DE GÊNERO, DE FATO CHEGARÍAMOS A OUTROS QUESTIONAMENTOS SE COLOCÁSSEMOS O ELEMENTO RAÇA. É IMPORTANTE DESTACAR QUE PARA ALÉM DE SEREM ATRAVESSADAS PELO MACHISMO QUE VIMOS ANTERIORMENTE, AS MULHERES NEGRAS LÉSBICAS TAMBÉM SÃO AFETADAS PELO RACISMO QUE É UM POTENCIALIZADOR DE VIOLÊNCIA QUE A MULHER NEGRA SOFREM HISTORICAMENTE. MARIA JHULLY, DA ZONA NORTE DE SÃO PAULO, ESTÁ NO QUARTO SEMESTRE DE CIÊNCIAS SOCIAIS NA UFMT. IDENTIFICA-SE COMO UMA MULHER NEGRA, LÉSBICA E CISGÊNERO. ALÉM DISSO, ESCREVE TEXTOS E POESIAS, TEM UMA PAIXÃO POR FOTOGRAFIA E OCASIONALMENTE SE AVENTURA NA COSTURA DE SUAS PRÓPRIAS ROUPAS. ELA É UM REFLEXO DE TUDO QUE JÁ VIVENCIOU. 30


Por: Lucas Gertz Monteiro


Filho de pai paulista e mãe cuiabana, e originalmente paraense de Belém do Pará, Caio de Belém tem 23 anos e está na reta final da graduação em Saúde Coletiva pela UFMT. Meu maior sonho é criar a cura para alguma doença e assim ajudar a humanidade. Saí da minha cidade para estudar fora, por conta própria, em um estado diferente e longe de minha família. E, através do investimento na educação, esse sonho fica mais próximo de se concretizar. Gosto muito de arte, gastronomia, moda, esportes em geral, aprender algo novo e obter conhecimento. Invista nos seus estudos, acredite em você e nos seus sonhos. Afinal, a vida é um eterno aprendizado. Lucas Gertz Monteiro é militante do Levante Popular da Juventude, LGBT, formado em Serviço Social e artista popular. 32


Ei você tá sabendo? Aparentemente existem demônios por toda parte Não faço ideia de como são os demônios Podem ser de Constantine e serem constantes Ou Winchester, olho escuro, maldade e atitude Obviamente, eles são maus, são demônios afinal Provavelmente são terríveis, são demônios afinal Roubam, destroem, matam e assaltam Ganham dinheiro de forma errada normal Você é o demônio? O demônio sou eu? Você pode ser roubado, se abaixar a guarda Você pode ser acertado por uma bala Como aconteceu infelizmente com Vinicius, João, Claudia, Valdo e Marielle Infelizmente, parece que a bala Tem como alvo o tom da pele Caras assustados compram armas e matam aos outros, A maioria deles não possui medo e está desarmada O uso da arma é um erro fatal, começa pelas pessoas Menos decentes e as mais decentes sendo mortas Ninguém saberia quem é o amigo ou inimigo, É um teste como deveríamos ser para sermos mais humanos Usar a palavra com sabedoria, é bem melhor que atirar. Cresça e evolua com os anos e danos. À mão armada Caio de Belém 33


Antes do sim, devaneios! á estou eu, com um lindo terno branco, só esperando o momento de entrar naquela igreja e ver o amor de minha vida. Disseram-me, agora a pouco, que a decoração do local está linda, que as flores estão tão coloridas quando o arco-íris e tão perfumadas quanto o perfume mais perfumado do mundo. Não vejo meu príncipe desde o café da manhã, que foi quando nos despedimos com um beijo bem gostoso e, após isso, cada um foi para o seu lado se arrumar para esse momento lindo. Analisar esse dia me traz breve lembranças sobre a época que nos conhecemos e, também, os momentos bons que já vivemos. De repente, pego-me nervoso e vou mais uma vez me olhar no espelho e conferir se está tudo bem comigo e com minha roupa. Olhando-me no espelho e finalizando minha gravata borboleta, ouço um barulho de sapato vindo em minha direção. Então olho através do reflexo e vejo que Vitor está vindo, todo elegante, com seu terno bege, exalando um perfume amadeirado e com um sorriso que, além de lindo, demonstra uma certa insegurança. Acho que deve ser a ansiedade pelo casamento também. Sem tempo para me virar à ele, escuto uma simples pergunta: - O que você está fazendo parado aí, meu bem? (Noivo) C Pedro Vitor


- Estou andando de um lado para o outro, mega nervoso, mas estou híper hidratado, pois pela quantidade de água que já bebi... Mas e você, não devia estar no altar já? (Eu) - Eu vim aqui pois preciso de um abraço apenas. *diz ele se aproximando e me dando um abraço super confortável* (noivo) - Obrigado pelo abraço, príncipe! Não acredito que estamos prestes a nos casar. Parece que foi ontem que nos conhecemos. (Eu) - Sim, parece... Mas foi algo que aconteceu do nada, né? Eu era do 3° ano do ensino médio e você era do 2°, então nos conhecemos por acaso mesmo. Nosso primeiro encontro foi um dia que gostei bastante, principalmente pelo fato daquela promoção incrível de "Dois baguncinhas pelo valor de um". (Noivo) - E depois do nosso 1° encontro, demorou meses até o primeiro beijo sair também. Depois desse "evento" que demorou meses, logo veio o pedido de namoro. (Eu) - E você se lembra do nosso noivado? Foi um trabalho reunir toda a família e amigos para aquela data. A sua amiga folgada trouxe uma bebida quente e com ruim, um tio meu, sem noção, trouxe pouca carne; mas enfim, deu tudo certo no final. (Noivo) - Mas naquele dia eu estava tão aflito com umas coisas, que aquele noivado veio numa hora boa. Eu amei tudo! O problema foi o que rolou depois, né? Aquela palhaçada de quererem proibir o casamento homoafetivo. Que merda! (Eu) 35


- É, meu amor, nós não temos 1 segundo de paz! Tinha dias que eu achava que teria de fugir contigo para nos casarmos em outro lugar, já chorei em algumas noites, já tive vontade de desistir de tudo... (Noivo) - Eu tive muito medo de lhe perder! *digo me aproximando e fazendo carinho no rosto dele* (eu) - Mas não perdeu! Somos fortes e conseguimos passar por cima daquele problema. Ainda bem que não foi aprovado, mesmo com muita luta e muito lacre daquela moça que diz "não tolerarei...". (Noivo) —neste instante a cerimonialista chega e prepara os noivos para entrarem no salão da cerimônia - Meu bem, vamos! —diz o meu bem com um grande sorriso no rosto - Vamos, mas antes eu gostaria de enfatizar a felicidade que estou sentindo! Enfrentamos muitas coisas até aqui e sei que enfrentaremos mais coisas ainda, mas sei que nosso amor é forte e estamos aqui para nos apoiar, para nos amar e sermos feliz! Quero que a partir de hoje, mais que nunca, nós não abaixaremos a cabeça para o preconceito e que teremos sim garrafa e força para enfrentar todos e tudo de cabeça erguida. —ele me beija e vai para o altar. 36


De repente a música começa a tocar e, ao entrar rumo ao altar, vejo as pessoas com seus celulares nas mãos para registrarem o momento, sinto o cheiro delicioso das flores, vejo o sorriso no rosto das pessoas e, também, vejo meu noivo suando frio de nervosismo. Após do "Sim, aceito!", apenas aplausos, choros e felicidade pairando no ar. A festa foi maravilhosa! Agora estamos rumo à lua-de-mel e eu me sinto simplesmente nas nuvens! Viva a liberdade!!! Pedro Vitor, homem preto, gay, 21 anos e taurino. Estudante de Letras PT/Inglês desde 2021, na UFMT. Ator de audiovisual e teatro, desde 2022. Já atuou em três curta-metragens e em dois espetáculos teatrais. Escreve poesias desde junho de 2022 e, em 2023, escreveu um roteiro para curtametragem. 37


Fotografia: Beatriz Batista


Por: Mathenovê


A cor, Senão, O branco Que ofusca a alma. O verdefloresta,então Fará lembrar Queascores São cheias desaudades E queachuva lava, Com cores infinitas, Felicidadesclandestinas. Para que o rio Deságue, Banhe E devolva o queantes tanto contrastava. MATHENOVÊ CORES CHEIAS DE SAUDADES 40


Natural de Caruaru, Pernambuco, Matheus Fernando Gomes de Azevedo (Mathenovê), é artista visual, escritor, professor estagiário (CIDA), mercadólogo (ETEMFL), socorrista, pesquisador em Neurobiologia do TEA pela UNINASSAU-Caruaru, estudante de enfermagem (bolsista UNINASSAU) e de administração (ETEPAC). É colunista das revistas Brasilis e Ikebana. Editor da revista Brasilis. Em 2019 criou o projeto “Escrito&Descrito” para divulgar seus trabalhos artísticos de pintura, escrita, fotografia e escultura. Com publicações nas revistas, Clandestina, Brasilis, Impérios sagrados, Grifo, Ikebana, Sucuru e Fruta Bruta, o artista procura explorar filosofias cotidianas e psicanalíticas, mesclando lirismo esurrealismo em suasproduções. Instagram: @escritodescrito Renan foi nascido e criado aqui mesmo, em Cuiabá – Mato Grosso, ao longo desses seus vinte anos de idade nunca havia saído desse lugar para conhecer as várias culturas do Brasil. Apesar disso, ele nunca deixou de buscar e apreciar as várias formas de arte. Renan é um jovem adulto com algumas experiências com a música, tocou flauta transversal por dez anos em orquestras e se apresentando em diversos lugares. Dentre todas as coisas, vale destacar que o jovem é muito fã da cantora Lana Del Rey que é basicamente uma de suas motivações. Em sua vida acadêmica, está fazendo graduação em ciências biológicas, lugar no qual conheceu a Revista JuMtos e a mesma proporcionou uma experiência única e hoje está participando da 5ª edição dessa revista que tem um grande potencial para levar essas artes inspirando e motivando os demais jovens artistas.


SAYYESTO HEAVEN Por que eu não consigo ser feliz? Por que eu me sinto tão sozinho? Por que eu me sinto assim? Na verdade, por que eu sou assim? Eu nem sempre fui desse jeito, até que um dia alguém mudou. Eu admito que sou (in)dependente de você, Porém permaneço Fazendo as mesmas coisas até me sentir bem E me contentar com esse paraíso. Apesar de cansativo eu permaneço aqui E sei que você nunca vai voltar. Não esqueça de mim. Terei que te ver apenas de longe dançando e seguindo a vida. Já ouvi muito "se esforce mais um pouco, tenta de novo", Mas eles vão embora aproveitar seus amores e... Quanto a mim? Tenho que lidar sozinho com MINHA própria solidão E depressão, É tudo o que me resta e... NADA Preenche esse meu vazio interno. Esse "Mundo" é cruel, Uns tentam dizer que Deus criou tudo Para aliviar o fardo que é estar só, Quem tem a ciência da solidão não é fraco, é forte! Neste mundo cruel, só os fortes choram, Só os fortes desistem, Só os fortes se frustram, Só os fortes... Têm que passar por tudo sozinho? Quem sabe tudo isso não passa de um sonho, Eu certamente acordarei rindo, Seja lá aonde for que eu acordar. Não faz sentido seguir o nada, Nosso destino sempre vai ser desaparecer, Só não esqueçam de mim... Estou tentando. - "Diga sim ao paraíso. Permita-se ser feliz novamente. Eu mereço!!" -RenanMoreira 42


SOMOS CONTRASTES SOMOS CONTRASTES SOMOS CONTRASTES


Brasil possui um dos sistemas de saúde pública mais aclamados e elogiados no mundo, o SistemaÚnico de Saúde – SUS, sistema esse que tem como um de seus princípios a universalização, que considera a saúde como um direito de todas as pessoas que deve ser assegurado pelo Estado, devendo este garantir o acesso a saúde a todas as pessoas, independentemente de sexo, raça, ou outras características sociais ou pessoais. Porém, apesar dos princípios do SUS, que colocam a saúde como um direito de cidadania, reforçando a importância do respeito e dignidade daqueles que procuram garantir sua saúde, o que ainda observamos em publicações científicas e reportagens jornalísticas, é que – apesar das políticas públicas direcionadas às pessoas LGBTQIAPN+, e as tantas outras direcionadas a população - o profissional de saúde ainda está despreparado para atende-las/los, agindo com preconceito e desrespeito, o que acaba por diminuir a presença dessas pessoas nas redes de atenção à saúde, especialmente na atenção primária, que é a principal porta de entrada do sistema. Por mais respeito à diversidade nos serviços de saúde Marina Bitterncourt O 44


Vale ressaltar que na Política Nacional de Saúde Integral de lésbicas, gays, bissexuais, travestis e transexuais, de 2013, tem como um dos seus objetivos fortalecer e melhorar o acesso à Atenção Integral à Saúde, para promoção da equidade à saúde, pois essa população tem acesso a todos os demais serviços garantidos, especialmente na atenção primária, como aconselhamento familiar, pré-natal, testes rápidos e tratamento para IST, atividades de educação em saúde, tratamento para uso de álcool, tabaco e outras drogas, entre outros diversos serviços que estão de porta aberta para atender à população. Para tanto, é importante levarmos essa reflexão para a formação, como estamos formando os profissionais de saúde para atuarem com o respeito, olhando para subjetividade do ser humano? Em qual momento perdemos a sensibilidade no cuidar em saúde? A importância de, enfim, nós profissionais de saúde aturamos frente as necessidades que nos são trazidas, olhando para as subjetividades com empatia, é crucial para que o SUS se fortaleça, de fato, como o maior e mais democrático sistema de saúde do mundo. Marina Bittencourt: Enfermeira. Doutora em Ciências pela Escola de Enfermagem da USP com sanduíche na New York University. Professora da Faculdade de Enfermagem da UFMT. Desenvolve pesquisas na área de Saúde Mental Infantojuvenil, com foco na promoção da saúde mental e sócio emocional e nos determinantes que envolvem o de álcool e outras drogas em crianças e jovens. 45


O SAE (Serviço de Atendimento Especializado) atende agravos em HIV/AIDS e Hepatites Virais e possui equipe multiprofissional como médico infectologista (adulto e infantil), médico ginecologista/obstetra, enfermeiros, farmacêuticos, psicólogos, nutricionistas e assistentes sociais. Unidades SAE na Baixada Cuiabana SAECPA1 SAE GrandeTerceiro SAE/CTAVárzea Grande Endereço: R. Óbidos , S/N -Cpa 1 -Cuiabá - MT, 78055-205 Telefone: (65) 3634-0593 Endereço:Av.RioPirain, 313 - GrandeTerceiro -Cuiabá-MT, 78065-470 Endereço: Av. Eduardo Gomes, 1556-1656 - Jardim Costa Verde, Várzea Grande - MT, 78128-193 Telefone: (65) 3688-3646 Telefones úteis 100-DisqueDireitos Humanos 180-Central deAtendimento à Mulher 188 -Centro deValorização daVida (CVV) 190-Polícia Militar Emcaso de violações contra a população LGBTQIAPN+, denuncie! INFORMATIVO 46


Fotografia: Tadeu Augusto


A divergência promove inovação A divergência promove inovação A divergência promove inovação


s diversos amores se expressam em todas as formas, as cores que carregamos em nossa bandeira refletem a complexidade da vastidão cósmica, até mesmo em seus aspectos que não podem ser enxergados pelo olho humano. Minha forma de amar foi caçada e julgada, mas eles não conseguiram extingui-lá. Nossos sentimentos, nossos gestos e nossas interações, por um momento só queria ser eu mesmo, só queria chamar quem eu amo de meu. Meu amado foi ameaçado, quiseram matá-lo. Só queria voltar a noite em que sem saber me despedi dele. Ontem me senti tão triste, me senti sozinho, senti que tudo que eu estava vivendo estava pesado, foi quando eu me lembrei da primeira vez que estive com ele, também lembrei da última noite que nossas almas entrelaçadas cantavam melodias tão complexas que somente os apaixonados podiam ouvir. Sinto que nela uma parte da minha alma se desprendeu de mim, a noite em que meu olhar falava com ele. Minhas pernas tremiam, eu mal conseguia beijá-lo, aquilo foi tão caótico e engraçado, mas foi tão bom... por um momento essa ansiedade que me corrói foi embora, isso me trouxe tanta calmaria. Confinado a Sonhar José David Batista Sena O


Se o universo me perguntasse hoje qual foi o momento mais especial da minha vida, eu provavelmente diria que eu moraria naquela noite, eu facilmente me perderia no sorriso dele, eu facilmente me perderia naquele olhar, eu moraria naqueles gestos, naquele toque... eu provavelmente me afogaria naqueles beijos e também facilmente iria embora naquele abraço. Depois de perdê-lo minha única consolação, minha única esperança, é teimar em acreditar que a matéria de nossos corpos se funda, talvez em um pós vida, eu acho improvável. Mas talvez em algum fim cíclico do cosmos, nossos átomos se fundam e formem uma constelação, essa matéria já compôs estrelas. Pensando bem, somos gays, se o universo julgar esses átomos não passarão de poeira estelar. José David Batista Sena, nascido no interior de Alagoas, mudou-se para Mato Grosso aos 5 anos, morou em algumas cidades do estado, mas desde criança teve uma certa paixão e intimidade com a arte especialmente com textos, sempre foi alguém que gostou de falar sobre sentimentos, além de enxergar a arte e suas comunicações como forma primordial do desenvolvimento do homem enquanto humano. Atualmente mora em Cuiabá, é Um jovem de 19 anos, estudante de Ciências Biológicas na UFMT e completamente apaixonado pela natureza e pelas interações humanas com o meio.


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