Biblioteca da Escola Secundária de Caneças
Das epidemias
Textos e imagens
Domenico Gargiulo dito Micco Spadaro, Largo Mercatello em Nápoles durante a peste de 1656, 1656, in
https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Piazza_Mercatello_durante_la_peste_del_1656_-_Spadaro.jpg
(consultado em 17.04.2020)
1
Durante o mês de abril de 2020, a biblioteca da Escola Secundária de Caneças recolheu
textos históricos e literários, ensaios e imagens, que publicou no blogue Leituras
Acordadas http://leiturasacordadas.blogspot.com/2020/04/. A organização desta pequena
antologia naturalmente incompleta (acrescida com mais um texto não publicado no blogue)
apresenta-se noutro formato e com outra organização de modo a permitir uma melhor
leitura.
Com a dimensão que a pandemia tem, com a perplexidade que nos provoca por não
termos vivido nada assim, procurámos as lições do tempo e descobrimos como tudo, por
vezes, está tão próximo de nós.
Estes textos e imagens que partilhamos falam-nos de como se viveram e sentiram as
pandemias, como se representam, como se imaginam.
João Nuno Machado
Setembro de 2020
2
Vítor Bastos, Cólera Morbus, 1856, baixo-relevo, gesso patinado 128,5 × 102 cm
in http://www.museuartecontemporanea.gov.pt/ArtistPieces/view/11/artist (consultado em abril, 2020)
da epidemia na cidade (Cesário Verde)
I
Foi quando em dois Verões, seguidamente, a Febre
E o Cólera também andaram na cidade,
Que esta população, com um terror de lebre,
Fugiu da capital como da tempestade.
Ora, meu pai, depois das nossas vidas salvas,
(Até então nós só tivéramos sarampo),
Tanto nos viu crescer entre os montões das malvas
Que ele ganhou por isso um grande amor ao campo!
Se acaso o conta, ainda a fronte se lhe enruga:
O que se ouvia sempre era o dobrar dos sinos;
Mesmo no nosso prédio, os outros inquilinos
Morreram todos. Nós salvámo-nos na fuga.
Na parte mercantil, foco da epidemia,
Um pânico! Nem um navio entrava a barra,
A alfândega parou, nenhuma loja abria,
E os turbulentos cais cessaram a algazarra.
3
Pela manhã, em vez dos trens dos batizados,
Rodavam sem cessar as seges dos enterros.
Que triste a sucessão dos armazéns fechados!
Como um domingo inglês na «city», que desterros!
Sem canalização, em muitos burgos ermos,
Secavam dejeções cobertas de mosqueiros.
E os médicos, ao pé dos padres e coveiros,
Os últimos fiéis, tremiam dos enfermos!
Uma iluminação a azeite de purgueira,
De noite, amarelava os prédios macilentos.
Barricas de alcatrão ardiam; de maneira
Que tinham tons de inferno outros arruamentos.
Porém, lá fora, à solta, exageradamente,
Enquanto acontecia essa calamidade,
Toda a vegetação, pletórica, potente,
Ganhava imenso com a enorme mortandade!
Num ímpeto de seiva os arvoredos fartos,
Numa opulenta fúria as novidades todas,
Como uma universal celebração de bodas,
Amaram-se! E depois houve soberbos partos.
Por isso, o chefe antigo e bom da nossa casa,
Triste de ouvir falar em órfãos e em viúvas,
E em permanência olhando o horizonte em brasa,
Não quis voltar senão depois das grandes chuvas.
Ele, dum lado, via os filhos achacados,
Um lívido flagelo e uma moléstia horrenda!
E via, do outro lado, eiras, lezírias, prados,
E um salutar refúgio e um lucro na vivenda!
E o campo, desde então, segundo o que me lembro,
É todo o meu amor de todos estes anos!
Nós vamos para lá; somos provincianos,
Desde o calor de Maio aos frios de Novembro!
Cesário Verde, «Nós», Poesia completa 1855-1886, Lisboa, Dom Quixote, pp.139-141
4
dos efeitos da peste
As consequências das epidemias não podem ser estudadas independentemente da
conjuntura geral da época. […] Seria particularmente muito superficial imputar unicamente
à peste negra a responsabilidade pela grande recessão do fim da Idade Média; essa
recessão começou mais cedo e integra-se no quadro geral da crise da economia senhorial.
O impacto da peste foi mais específico no domínio mental. Os acessos mortais que
provocava (súbitos, inexplicáveis, angustiantes) perturbaram profundamente o clima
psicológico da época. Em primeiro lugar, intensificaram fortemente as tensões sociais: a
exacerbação do «ódio de classe em tempo de epidemia» é um fenómeno bem conhecido e
verificado em outras épocas. Cólera contra os ricos, portanto; mas também (e ainda mais
violenta) contra as minorias: Judeus ou leprosos, suspeitos de terem atraído a vingança de
Deus, ou ainda mais concretamente acusados de propagarem a epidemia envenenando os
poços. Daí as matanças generalizadas, os massacres…
Outro grande escape para o reflexo da agressividade provocado pela angústia foi a
multiplicação de seitas de flagelantes, que pela mortificação pública procuravam conter o
castigo divino. Movimento de histeria coletiva que se propaga através de toda a Europa e
atinge os mais graves excessos.
Pierre Bonnassie, Dicionário de História Medieval, Lisboa: Publicações Dom Quixote, 1985, p.171
5
dos culpados
Os culpados potenciais, sobre os quais pode voltar-se a agressividade coletiva, são em
primeiro lugar os estrangeiros, os viajantes, os marginais e todos aqueles que não estão
bem integrados a uma comunidade, seja porque não querem aceitar suas crenças – é o
caso dos judeus –, seja porque foi preciso, por evidentes razões, isolá-los para a periferia
do grupo – como os leprosos –, seja simplesmente porque vêm de outros lugares e por
esse motivo são em alguma medida suspeitos.
[…]
Não podendo os judeus constituir-se nos únicos bodes expiatórios, foi preciso, como indica
Jean de Venette, procurar outros culpados, de preferência os estrangeiros. Em 1596-1599,
os espanhóis do norte da Península Ibérica estão convencidos da origem flamenga da
epidemia que os acomete. Ela foi trazida, acredita-se, pelos navios vindos dos Países
Baixos. Na Lorena, em 1627, a peste é qualificada de “húngara” e em 1636, de “sueca”,
em Toulouse, em 1630, fala-se da “peste de Milão”.
Jean Delumeau; História do medo no Ocidente: 1300-1800, uma cidade sitiada, São Paulo:
Companhia das Letras, 1990: pp.140-141
6
da vontade de Deus (Gil Vicente)
Depois de dois anos de ausência, devido ao surto de peste na cidade, Dom João III, no final
de janeiro de 1527, regressa a Lisboa, acompanhado pela sua mulher, a rainha Caterina, com
quem casara havia pouco.
Gil Vicente faz um auto que celebra a entrada dos Reis – a tragicomédia da Nau d’Amores –
que começa com uma princesa em figura da Cidade de Lixboa a fazer um discurso de boas-
vindas. Na fala desta alegoria de Lisboa a epidemia está presente, no que era uma constante
na vida daquele tempo. A Cidade parece resignada. Nos valores mais altos do autor e da
corte pior que a peste seria a descrença:
Assi que mui alta e esclarecida 80
ainda que peste me dê muita guerra 85
Deos seja louvado nos céus e na terra
conheço as causas por que sam ferida.
É que de viçosa
de doce de linda de mui abondosa [abundante]
se peste nam fosse todos meus heréus [herdeiros]
nam conheceriam que i havia Deos
que seria peste muito mais perigosa.
Por isso me calo e nam desvario 90
mas antes estimo que Deos é comigo
adoro a ele e recebo o castigo
per onde me mostra o seu poderio.
Porque na verdade
nam me tira nada de minha bondade
mas como cidade que quer pera si
mostra-me a morte mil vezes aqui
por que me nam saia de sua vontade.
Gil Vicente, Nau d’Amores, 146II, vv.77-94, in Centro de Estudos de Teatro, Teatro de Autores Portugueses do
Séc. XVI - Base de dados textual [on-line].
<http://www.cet-e-quinhentos.com/> [07 / 04 / 2020]
7
do castigo de Deus
Martin Schaffner, díptico de retábulo do Mosteiro
zu den Wengen, Ulm, c.1513-1514 in
https://commons.wikimedia.org/wiki/File:1513_Schaffner
(consultado em 14.04.20)
À esquerda, do alto de um céu tempestuoso [à ordem de um Deus Pai zangado] os anjos
atiram flechas sobre a humanidade pecadora, mas que se arrepende e implora. À direita,
Cristo, [por intercessão de Maria] à prece dos santos antipestilentos [Roque e Sebastião],
detém a punição com a mão. As flechas desviadas de sua trajetória inicial afastam-se da
cidade ameaçada e vão perder-se alhures. [...]
Para os homens de Igreja e para os artistas que trabalhavam graças às suas encomendas, a
peste era [além da comparação com o fogo] também e sobretudo uma chuva de flechas
abatendo-se de súbito sobre os homens pela vontade de um Deus encolerizado. Certamente,
a imagem é anterior ao cristianismo. O canto I da IIíada evoca o “arqueiro” Apolo que desce,
“com o coração irritado, dos cimos do Olimpo, tendo ao ombro seu arco e sua aljava bem
fechada. […]
O que os artistas queriam também acentuar, ao lado do aspeto punição divina, era a
instantaneidade do ataque do mal e o facto de que, rico ou pobre, jovem ou velho, ninguém
podia vangloriar-se de a ele escapar – dois aspetos das epidemias que impressionaram todos
aqueles que viveram em período de peste.
Jean Delumeau; História do medo no Ocidente: 1300-1800, uma cidade sitiada, São Paulo: Companhia das
Letras, 1990: pp.113-114 (adaptado)
8
dos santos protetores - São Sebastião
Gregório Lopes, Martírio de São Sebastião, c.1536-1538 in
https://commons.wikimedia.org/w/index.php?curid=1476087 consultado em 14.04.2020
Em suma, se não se fugira a tempo, rico ou pobre, jovem ou velho, estava-se ao alcance
da flecha do horrível arqueiro. Imaginada pelos meios eclesiásticos leitores do Apocalipse
e sensíveis ao aspeto punitivo das epidemias, a comparação entre o ataque da peste e o
das flechas que se abatem de improviso sobre as vítimas teve por resultado a promoção
de São Sebastião na piedade popular. Atuou aqui uma das leis que domina o universo do
magismo, a lei de contraste que muitas vezes não é senão um caso particular da lei da
similaridade: o semelhante afasta o semelhante para suscitar o contrário. Porque São
Sebastião morrera crivado de flechas, as pessoas convenceram-se de que ele afastava de
seus protegidos as da peste. Desde o século VII, ele foi invocado contra as epidemias.
Mas foi depois de 1348 que seu culto ganhou um grande impulso. E desde então, no
universo católico até ao século XVIII inclusive, quase não houve igreja rural ou urbana sem
uma representação de São Sebastião crivado de flechas.
Jean Delumeau; História do medo no Ocidente: 1300-1800, uma cidade sitiada, São Paulo:
Companhia das Letras, 1990: p.116
9
dos santos protetores - São Roque
Gaspar Dias, Aparição do Anjo a São Roque, c.1584
in https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Apari%C (consultado em 14.04.20)
O outro santo protetor das epidemias é São Roque. Nascido nos tempos da Peste Negra
(c.1348) a história de Roch, francês de Montpellier, associa-se às epidemias e à dedicação
que devotou aos enfermos que padeciam de peste quando, enquanto peregrino, se dirigia
a Roma, onde foi reconhecida a sua ação. Anos mais tarde (1370-1371), de volta a França,
e «perante os sintomas da peste (demonstrados pela linfadenite inguinal – bubão –
próximo do local da picada), Roque decidiu isolar-se e refugiou-se num bosque perto de
Sarmato, onde foi milagrosamente alimentado por um cão que retirava todos os dias um
pão da mesa do dono, Gotardo, para lho levar.»
In https://www.irmandadesaoroque.pt/actividades/oracao/celebracao-de-sao-roque/121-historia-de-
sao-roque (consultado em 14.04.2020)
10
das medidas contra a epidemia
Em 1490, preparavam-se em Évora as festas nupciais do príncipe Afonso, filho de Dom
João II, quando, na cidade, surgiu a epidemia que grassava pelo país. Garcia de Resende
narra as medidas tomadas pelo rei:
De como el-rei despejou a cidade e mandou meter nela muito gado
E sendo já feitas muitas e grandes despesas para as ditas festas e as mais principais, por
a muita gente que vinha de muitas partes e de Lisboa onde morriam, em Évora houve
rebates de peste.
De que el-rei foi muito triste porque se mais mal fosse, as festas se não poderiam fazer
com aquela perfeição que ele tinha ordenado. E por ver se poderia atalhar isto com que a
todos tanto pesava, acordou com conselho dos físicos, que antes do antrelunho de
Setembro, em que os ares corruptos tinham mais força, toda a gente da cidade e da corte
se saísse dela, como logo saiu por espaço de quinze dias. Nos quais el-rei andou fora
pelas Alcáçovas e Viana, e esteve na quintã da Oliveira, onde a primeira vez justou, e a
gente toda por quintas, herdades, e hortas, e em tendas no campo.
E a cidade foi cheia de infindo gado vacum sem conto, que de toda a comarca veio e por
mandado d' el-rei aí foi trazido, e nela dormia de noite e o metiam ao sol-posto, e já bem
de dia o levavam seus donos a comer fora. E porque todas as fazendas dos cortesãos e
moradores ficavam dentro na cidade em suas casas e pousadas sem levarem mais que
camas e mesas, houve aí grandes guardas, homens de fiança e recado na cidade
repartidos pelas ruas, e assim fora dos muros, para que ninguém pudesse entrar nem sair,
muitos cavaleiros da guarda que a roldava com que tudo esteve tão seguro, que se não
achou menos cousa alguma de quanto na cidade ficou, nem somente fechadura de porta
com que se bulisse.
E acabados os quinze dias o gado todo se levou e a cidade foi toda muito limpa e todas as
ruas e casas defumadas e caiadas antes d' el-rei entrar nela. E assim no antrelunho de
Outubro depois da gente estar dentro, el-rei mandou que todo os escravos e negros que na
cidade havia, se saíssem fora por dez dias sob pena de se perderem e assim se fez. E por
estas grandes diligências, e principalmente pela piedade de Deus a quem se fizeram
juntamente com isso muitas devações e esmolas, a cidade ficou de todo sã, de que el-rei e
todos foram muito alegres por se poder fazer nela o que estava ordenado.
Garcia de Resende, Vida e feitos d' el-rey dom João Segundo, Capítulo CXIX
Texto da edição crítica preparada por Evelina Verdelho, Centro de Estudos de Linguística Geral e
Aplicada (CELGA) Faculdade de Letras Universidade de Coimbra 2007, in
https://www.uc.pt/uid/celga/recursosonline/cecppc/textosempdf/01vidaefeitos (consultado em
02.04.2020), adaptado, ortografia atualizada.
11
do que dizem os governos (José Saramago)
O Governo lamenta ter sido forçado a exercer energicamente o que considera ser seu
direito e seu dever, proteger por todos os meios as populações na crise que estamos a
atravessar, quando parece verificar-se algo de semelhante a um surto epidémico de
cegueira, provisoriamente designado por mal-branco, e desejaria poder contar com o
civismo e a colaboração de todos os cidadãos para estancar a propagação do contágio,
supondo que de contágio se trata, supondo que não estamos apenas perante uma série de
coincidências por enquanto inexplicáveis. A decisão de reunir num mesmo local as
pessoas afetadas, e, em local próximo, mas separado, as que com elas tiveram algum
contacto não foi tomada sem séria ponderação. O Governo está perfeitamente consciente
das suas responsabilidades e espera que aqueles a quem esta mensagem se dirige
assumam, como cumpridores cidadãos que devem de ser, as responsabilidades que lhes
competem, pensando também que o isolamento em que agora se encontram representará,
acima de quaisquer outras considerações, um ato de solidariedade para com o resto da
comunidade nacional.
José Saramago, Ensaio sobre a cegueira, (19.ª ed) Lisboa: Caminho, 2011 pp.258-259
12
do segredo sobre a epidemia (Thomas Mann)
E, durante todo esse tempo, seguia a pista do vergonhoso segredo que a cidade guardava
cuidadosamente no seu seio tal como ele guardava o seu próprio segredo – e tudo o que
conseguia saber alimentava a sua paixão com esperanças vagas e ilegais. Folheava
jornais pelos cafés tentando encontrar uma reportagem do progresso da doença, e nas
folhas alemãs, que tinham deixado de aparecer no hotel, encontro séries de relatórios
contraditórios. As mortes variavam entre vinte, quarenta, cem, ou mais: e no jornal do dia
seguinte a existência da peste era, se não rotundamente negada, pelo menos reduzida a
alguns casos esporádicos que num porto de mar se justificavam. Depois disso, as
prevenções vociferavam de novo, assim como os protestos contra o jogo pouco
escrupuloso das autoridades.
E o nosso solitário sentiu que era uma espécie de cúmplice desse segredo; sentia uma
fantástica satisfação em fazer perguntas a pessoas interessadas nele e em as obrigar a
mentir descaradamente, negando tudo. Um dia atacou o gerente, esse homenzinho de
passos ligeiros e sobrecasaca francesa, que se movia por entre os hóspedes durante o
almoço supervisando o serviço e fazendo-se socialmente agradável. Ele parou junto da
mesa de Aschenbach para trocar uma saudação, e o hóspede perguntou-lhe, com um ar
negligente e casual: – Por que razão estão sempre a desinfetar a cidade de Veneza? –
Uma ordem da Polícia – respondeu ele habilmente – como medida de precaução para
proteger a saúde pública durante este tempo ardente. – Muito digna de louvor a Polícia –
respondeu Aschenbach gravemente.
Thomas Mann, «Morte em Veneza», Os melhores contos de Thomas Mann, Lisboa; Arcádia, 1966,
pp.74-75
13
do distanciamento físico
Cortados do resto do mundo, os habitantes afastam-se uns dos outros no próprio interior
da cidade maldita, temendo contaminar-se mutuamente. Evita-se abrir as janelas da casa e
descer à rua. As pessoas esforçam-se em resistir, fechadas em casa, com as reservas que
se pôde acumular. Se assim mesmo é preciso sair para comprar o indispensável, impõem-
se precauções. Fregueses e vendedores de artigos de primeira necessidade só se
cumprimentam a distância e colocam entre si o espaço de um largo balcão. Em Milão, em
1630, alguns só se aventuram na rua armados de uma pistola graças à qual manterão a
distância qualquer pessoa suscetível de ser contagiosa. Os sequestros forçados
acrescentam-se ao encerramento voluntário para reforçar o vazio e o silêncio da cidade.
Jean Delumeau; História do medo no Ocidente: 1300-1800, uma cidade sitiada, São Paulo:
Companhia das Letras, 1990: p.122
das diferenças entre ricos e pobres
Logo que o mal aparece, os ricos mudam-se, se podem, para as suas casas de campo,
numa fuga precipitada; cada qual só pensa em si: «Esta doença torna-nos mais cruéis uns
para os outros do que se fôssemos cães», observa Samuel Pepys em setembro de 1665.
E Montaigne conta como, tendo a sua terra sido atingida pela epidemia, ele «serviu
durante seis meses miseravelmente de guia» à sua família que errava em busca de um
teto «uma família perdida, que metia medo tanto aos amigos como a si própria e horror
onde quer que tentasse instalar-se». Quanto aos pobres, ficam sós, imobilizados na cidade
contaminada onde o Estado os alimenta, os isola, os bloqueia, os vigia.
Fernand Braudel, Civilização material, economia e capitalismo, séculos XV-XVIII Tomo I As
estruturas do quotidiano: o possível e o impossível. Lisboa: Teorema, 1992, p.65
14
do amor na quarentena (Boccaccio)
Graciosas Senhoras, quanto mais penso cá comigo e contemplo como são as senhoras
naturalmente piedosas, mais concluo que esta obra lhes parecerá austera e pesada no
princípio, assim como o é a dolorosa lembrança da última peste, com que ela se inicia,
para todos os que a viram ou que de algum outro modo souberam de seus estragos. Mas
não quero que isso as assuste e impeça de prosseguir, como se, lendo, houvessem de
estar sempre entre suspiros e lágrimas. Este horripilante início não deve ser diferente do
que é para o caminhante a montanha acidentada e íngreme, atrás da qual se encontre
uma planície belíssima e amena, que lhe parecerá tanto mais agradável quanto maior tiver
sido o padecimento da subida e da descida. E, assim como os confins da alegria são
ocupados pela dor, as misérias têm seus limites no contentamento que sobrevém.
A este breve aborrecimento (digo breve porque contido em poucas linhas) seguem-se logo
o deleite e o prazer já prometidos, que talvez não fossem esperados de tal início, caso isto
não fosse dito.
Bocaccio, Decameron, in https://www1.folha.uol.com.br/livrariadafolha/2013/09/1340037-leia-trecho-
de-decameron-obra-prima-de-boccaccio.shtml (acedido em 05.04.2020)
[Assim começa a primeira jornada do livro que Giovanni Boccaccio escreveu no seguimento da
Peste Negra que se declarou em Florença em 1348. O Decameron, cuja tradução de Urbano
Tavares Rodrigues para a editora Relógio d’Água pode ser consultado na nossa biblioteca. A obra
constitui-se num conjunto de contos de amor narrados durante dez dias por dez jovens (sete
raparigas e três rapazes) refugiados da epidemia numa espécie de quarentena dedicada ao amor.
Em 1971, Pasolini realizou um filme a partir da obra, com título homónimo.]
15
da vitória da literatura (Mario Vargas Llosa)
Duque Ugolino O que é este bulício? O que estamos a celebrar, amigos?
Boccaccio (Radiante) Esta manhã, Pânfilo saiu como sempre para dar o seu passeio matinal
e teve a maior surpresa da sua vida.
Pânfilo (Fazendo um passe de magia) Os pistoianos, os pratenses, os milaneses, os
sieneses, todos os que rodeavam Florença para que apodrecêssemos com a pestilência,
foram-se embora. Desapareceram, sim. Sim, sim, vossa senhoria, é como ouvis: retiraram-se.
Boccaccio Já não há mais cerco, levantaram-no. Foram-se embora. Estamos livres.
Pânfilo O que pode significar isso a não ser que terminou a peste?
Filomena Salvámo-nos, senhor duque! O que esperais? Vinde cantar e bailar connosco.
Pânfilo Dai-me a mão, juntai-vos à ronda da alegria.
O duque Ugolino, de má vontade, junta-se à celebração e canta e baila também, enquanto a
condessa de Santa Cruz se mantém a certa distância do grupo, observando-o com aquela
expressão indefinível em que se misturam o ceticismo e a troça. Um momento depois, o
duque Ugolino fica quieto. A forçada expressão de contentamento que tinha vai-se
evaporando do seu rosto.
Duque Ugolino Ser levantado o cerco também poderia significar que já não haja florentinos
que queiram ou possam fugir. Que a peste levou toda a cidade para o outro mundo e que
Florença é agora um cemitério.
Boccaccio Sois como São Tomás, Ugolino: ver para crer. Pânfilo já o fez: aproximou-se da
cidade e ele que vos conte o que viu.
Pânfilo (Louco de felicidade, ouvindo o distante tocar dos sinos) A vida renasce por todo o
lado, senhor duque. As pessoas limpam as ruas, enterram os seus mortos, lavam os pátios,
desinfetam as paredes, em todas as igrejas há missas e em todos os bairros se organizam
procissões de ação de graças. A cidade revive e esquece a tragédia.
Filomena Não ouvis o repicar dos sinos que ensurdece a manhã, duque Ugolino?
Boccaccio (Refletindo) Era um ato de puro desespero, um esbracejar de afogado e, no
entanto, funcionou.
16
Como todos os seus companheiros o olham intrigados, esclarece-os.
Boccaccio A minha receita dos contos e as mentiras. Aconteceu como eu disse, embora
nem vocês nem eu mesmo acreditássemos. Enganámos a peste, contando contos livrámo-
nos da morte.
Duque Ugolino Pois, se é assim, terminou a vida de mentiras em que temos estado a
viver. Temos de voltar à verdade. Tendes a certeza que o devamos festejar?
Mario Vargas Llosa, Os contos da peste, Alfragide: Publicações Dom Quixote, 2016, pp.185-188
de diferentes pontos de vista (Machado de Assis)
Vejam agora a que excessos pode levar uma inadvertência; doeu-me um pouco a cegueira da
epidemia que, matando à direita e à esquerda, levou também uma jovem dama, que tinha de
ser minha mulher; não cheguei a entender a necessidade da epidemia, menos ainda daquela
morte. Creio até que esta me pareceu ainda mais absurda que todas as outras mortes.
Quincas Borba, porém, explicou-me que epidemias eram úteis à espécie, embora desastrosas
para uma certa porção de indivíduos; fez-me notar que, por mais horrendo que fosse o
espetáculo, havia uma vantagem de muito peso: a sobrevivência do maior número. Chegou a
perguntar-me se, no meio do luto geral, não sentia eu algum secreto encanto em ter
escapado às garras da peste; mas esta pergunta era tão insensata, que ficou sem resposta.
Machado de Assis, Memórias Póstumas de Brás Cubas, Obra Completa, Machado de Assis,
Rio de Janeiro: Editora Nova Aguilar, 1994, capítulo 126
in http://machado.mec.gov.br/obra-completa-lista/item/download/16
(consultado em 13.04.2020)
17
de canhão contra a peste (Gabriel Garcia Márquez)
A cólera tornou-se numa obsessão. Dela não sabia muito mais do que aprendera na rotina de
algum curso marginal, e parecia-lhe inverosímil que apenas trinta anos antes tivesse causado
em França, inclusive em Paris, mais de cento e quarenta mil mortos. Mas depois da morte do
pai aprendeu tudo quanto se devia aprender sobre os diversos tipos de cólera, quase como
uma penitência para apaziguar a sua memória, e foi aluno do epidemiólogo mais destacado
do seu tempo e criador dos cordões sanitários, o professor Adrien Proust, pai do grande
escritor. De modo que quando regressou à sua terra e sentiu, ainda no mar, a pestilência do
mercado e viu as ratazanas nos esgotos e os garotos nus a chapinhar nos charcos das ruas,
não só compreendeu que a desgraça tivesse ocorrido como teve a certeza de que se repetiria
a qualquer momento.
Não passou muito tempo. Em menos de um ano os seus alunos do Hospital da Misericórdia
pediram-lhe que os ajudasse com um doente, recolhido por esmola, que tinha uma estranha
coloração azul em todo o corpo. Ao doutor Juvenal Urbino bastou vê-lo da porta para
reconhecer o inimigo. Mas teve sorte: o doente tinha chegado três dias antes numa escuna de
Curaçau e tinha ido à consulta externa do hospital pelos seus próprios meios, não parecendo
provável que tivesse contagiado alguém. Em todo o caso, o doutor Juvenal Urbino preveniu
os seus colegas, conseguiu que as autoridades dessem o alarme nos portos vizinhos para
que localizassem a escuna contaminada e a pusessem de quarentena, e teve que moderar o
chefe militar da praça que queria decretar a lei marcial e aplicar imediatamente a terapêutica
dos tiros de canhão de quarto em quarto de hora.
– Economize a sua pólvora para quando vierem os liberais – disse-lhe de bom humor. – Já
não estamos na Idade Média.
Gabriel Garcia Márquez, O amor nos tempos de cólera, Lisboa: Publicações Dom Quixote, 1987,
pp.126-127
18
da fadiga que a epidemia provoca (Albert Camus)
Rieux e os seus amigos descobriram então a que ponto estavam fatigados. Com efeito, os
homens das formações sanitárias já não conseguiam digerir esta fadiga. O doutor Rieux
apercebia-se disso, observando nos seus amigos e em si próprio os progressos de uma
curiosa indiferença. Por exemplo, estes homens que até aqui tinham mostrado um
interesse tão vivo por todas as notícias que diziam respeito à peste já não lhes ligavam a
menor importância. Rambert, a quem tinham encarregado provisoriamente de dirigir uma
das casas de quarentena, instalada havia pouco no seu hotel, conhecia perfeitamente o
número daqueles que tinha em observação e estava ao corrente dos mínimos pormenores
do sistema de evacuação imediata que tinha organizado para aqueles que mostravam
subitamente sinais da doença. A estatística dos efeitos do soro sobre os internados estava
gravada na sua memória. Mas era incapaz de dizer o número semanal das vítimas da
peste, ignorava se ela progredia ou recuava. E, apesar de tudo, mantinha a esperança de
uma evasão próxima.
Albert Camus, A Peste, Lisboa: Livros do Brasil, pp.207-208
19
quando a peste salva Lisboa
Lisboa, em 1384, cercada pelos castelhanos, padece de grande carência de alimentos que a
poderiam conduzir à derrota. Dessa fome, «das tribulações que Lisboa padecia per mingua de
mantimento», dá Fernão Lopes notícia na Crónica de Dom João I.
Mas, quando tudo parecia estar perdido, é a epidemia que grassa junto das tropas sitiantes
castelhanas (as de terra, no «arraial» e as dos navios no rio) que salva o Mestre de Avis e a
cidade de Lisboa:
«Não curando agora de falar das coisas que aos da cidade no cerco aconteceram, principiou
a triste morte de mostrar a sua sanha mais asperamente contra os do arraial, e igualmente
contra os da frota, e matou não somente escudeiros e fidalgos, e dos outros de pequena
condição tantos que era estranha coisa de ver, como ainda começou a encetar nos senhores
de grande estado, de guisa que pôs grande espanto em todos.
Os castelhanos, vendo-se assim afincados pela pestilência que cada vez mais se ateava
neles, bem entenderam que a sua estada não podia aí ser por muito tempo, e que teriam por
força de descercar a cidade e de se partir dali cedo».
Fernão Lopes, Crónica de Dom João I,
in http://azpmedia.com/espacohistoria/index.php/cronica-de-d-joao-i/capitulo-xix
(consultado em 03.04.2020)
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um desvio tão grande nas condições normais de vida
Quando descreve a Guerra do Peloponeso (431 a.C.– 404 a.C.), que opõe Atenas a Esparta,
Tucídides apresenta com grande pormenor a epidemia que se abateu sobre Atenas, que
vitimou Péricles, bem como a ele próprio pois, como diz aquele historiador grego, «eu mesmo
contraí o mal e vi outros sofrendo dele».
Escolhemos a notícia da epidemia feita por Tucídides e deixamos para a vossa pesquisa na
fonte citada a descrição dos pormenores:
«Poucos dias após a entrada deles [dos Espartanos] na Ática manifestou-se a peste pela
primeira vez entre os Atenienses. Dizem que ela apareceu anteriormente em vários lugares
(em Lemnos e outras cidades), mas em parte alguma se tinha lembrança de nada comparável
como calamidade ou em termos de destruição de vidas. Nem os médicos eram capazes de
enfrentar a doença, já que de início tinham de tratá-la sem lhe conhecer a natureza e que a
mortalidade entre eles era maior, por estarem mais expostos a ela, nem qualquer outro
recurso humano era da menor valia. As preces feitas nos santuários, ou os apelos aos
oráculos e atitudes semelhantes foram todas inúteis, e afinal a população desistiu delas,
vencida pelo flagelo.
Dizem que a doença começou na Etiópia, além do Egito, e depois desceu para o Egito e para
a Líbia, alastrando-se pelos outros territórios do Rei. Subitamente ela caiu sobre a cidade de
Atenas, atacando primeiro os habitantes do Pireu, de tal forma que a população local chegou
a acusar os peloponésios de haverem posto veneno em suas cisternas (não havia ainda
fontes públicas lá). Depois atingiu também a cidade alta e a partir daí a mortandade se tornou
muito maior. Médicos e leigos, cada um de acordo com sua opinião pessoal, todos falavam
sobre sua origem provável e apontavam causas que, segundo pensavam, teriam podido
produzir um desvio tão grande nas condições normais de vida».
Tucídides, História da Guerra do Peloponeso, Tradução do grego: Mário da Gama Kury, Brasília; Editora
Universidade de Brasília, Instituto de Pesquisa de Relações Internacionais (IPRI/FUNAG) 2001, pp.114-115
in http://funag.gov.br/biblioteca/download/0041-historia_da_guerra_do_peloponeso.pdf
(adaptado) (consultado em 03.04.2020)
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do fim da peste (a partir de Daniel Defoe)
Nos últimos parágrafos da obra, H.F. [o narrador da obra de Daniel Defoe, Diário da Peste de
Londres] diz o que tem a dizer sobre a regeneração da cidade de Londres. As multidões
regressam, o silêncio e o medo desaparecem, muitos dos que se portaram indignamente durante
a epidemia podem agora ser punidos, os médicos que fugiram da cidade veem agora a sua
reputação manchada. A cidade reconstrói-se do seu trauma e como ponto negativo destaque-se,
contudo, o receio manifestado pelo narrador de que a população depressa esqueça, ingrata, o
temor a Deus que lhes fora incutido. Em todo o caso, a ideia que prevalece é a de uma fé nas
capacidades regenerativas da cidade, um optimismo que ajuda a explicar porque foi tão difícil
encontrar uma categoria de Pathos nesta obra: apesar de ele existir, o objetivo principal é que
ele seja suplantado. Difere Defoe de Tucídides ou Boccaccio: no autor grego à cidade, apanhada
a meio de uma guerra, não são dadas hipóteses de reconstrução; em Boccaccio esta
reconstrução é feita fora da cidade; aqui é a própria cidade que se reconstrói a si mesma,
voltando a ser o que era antes da peste para o melhor e para o pior: o único ambiente em que
Defoe apreciava viver, uma grande cidade cheia de vida e movimento.
O final do livro é de esperança na sobrevivência e de fé em deus. Contrastando com a inscrição
que servia de epitáfio a uma vítima da peste que foi mostrada atrás, surgem os versos finais
atribuídos a H.F.:
A dreadful plague in London was
In the year sixty-five,
Which swept an hundred thousand souls
Away: Yet I alive.
“Uma terrível peste em Londres esteve
No ano de sessenta e cinco,
Que levou cem mil almas
Contudo, eu vivo.”
Carlos Manuel Martins, Peste E Literatura: A construção narrativa de uma catástrofe, Dissertação de
Mestrado em Estudos Anglo-Americanos, apresentada à Faculdade de Letras da Universidade de
Coimbra, p.81, in https://estudogeral.sib.uc.pt/bitstream/10316/19317/1/Tese%20da%20Peste.pdf
(consultado em abril de 2020)
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