vizinhança, aí... Nem por sombra imaginou que era a cegueira irremediável que principiava. Também a galinha, coitada, não compreendia nada, absolutamente nada daquilo. Por que não vinham mais os dias luminosos em que procurava a sombra das pitangueiras? Sentia ainda o calor do sol, mas tudo quase sempre tão escuro. Quase que já não sabia onde é que estava a luz, onde é que estava a sombra. GUIMARAENS, J. A. Contos e novelas. Rio de Janeiro: Imago, 1976 (fragmento). Ao apresentar uma cena em que um menino atira milho às galinhas e observa com atenção uma delas, o narrador explora um recurso que conduz a uma expressividade fundamentada na (a) captura de elementos da vida rural, de feições peculiares. (b) caracterização de um quintal de sítio, espaço de descobertas. (c) confusão intencional da marcação do tempo, centrado na infância. (d) apropriação de diferentes pontos de vista, incorporados afetivamente. (e) fragmentação do conflito gerador, distendido como apoio à emotividade. Ex. 39 (Enem 2014) Texto I João Guedes, um dos assíduos frequentadores do boliche do capitão, mudara-se da campanha havia três anos. Três anos de pobreza na cidade bastaram para o degradar. Ao morrer, não tinha um vintém nos bolsos e fazia dois meses que saíra da cadeia, onde estivera preso por roubo de ovelha. A história de sua desgraça se confunde com a da maioria dos que povoam a aldeia de Boa Ventura, uma cidadezinha distante, triste e precocemente envelhecida, situada nos confins da fronteira do Brasil com o Uruguai. MARTINS, C. Porteira fechada. Porto Alegre: Movimento, 2001 (fragmento). Texto II Comecei a procurar emprego, já topando o que desse e viesse, menos complicação com os homens, mas não tava fácil. Fui na feira, fui nos bancos de sangue, fui nesses lugares que sempre dão para descolar algum, fui de porta em porta me oferecendo de faxineiro, mas tava todo mundo escabreado pedindo referências, e referências eu só tinha do diretor do presídio. FONSECA, R. Feliz Ano Novo. São Paulo: Cia. das Letras, 1989 (fragmento). A oposição entre campo e cidade esteve entre as temáticas tradicionais da literatura brasileira. Nos fragmentos dos dois autores contemporâneos, esse embate incorpora um elemento novo: a questão da violência e do desemprego. As narrativas apresentam confluência, pois nelas o(a) (a) criminalidade é algo inerente ao ser humano, que sucumbe a suas manifestações. (b) meio urbano, especialmente o das grandes cidades, estimula uma vida mais violenta. (c) falta de oportunidades na cidade dialoga com a pobreza do campo rumo à criminalidade. (d) êxodo rural e a falta de escolaridade são causas da violência nas grandes cidades. (e) complacência das leis e a inércia das personagens são estímulos à prática criminosa. Ex. 40 (Enem 2011) Quem é pobre, pouco se apega, é um giro-o-giro no vago dos gerais, que nem os pássaros de rios e lagoas. O senhor vê: o Zé-Zim, o melhor meeiro meu aqui, risonho e habilidoso. Pergunto: – Zé-Zim, por que é que você não cria galinhasd’angola, como todo o mundo faz? – Quero criar nada não ... – me deu resposta: – Eu gosto muito de mudar ... [...] Belo um dia, ele tora. Ninguém discrepa. Eu, tantas, mesmo digo. Eu dou proteção. [...] Essa não faltou também à minha mãe, quando eu era menino, no sertãozinho de minha terra. [...] Gente melhor do lugar eram todos dessa familia Guedes, Jidião Guedes; quando saíram de lá, nos trouxeram junto, minha mãe e eu. Ficamos existindo em território baixio da Sirga, da outra banda, ali onde o de-Janeiro vai no São Francisco, o senhor sabe. J. G. Rosa. Grande Sertão: Veredas. Rio de Janeiro: José Olympio. (Fragmento) Na passagem citada, Riobaldo expõe uma situação decorrente de uma desigualdade social típica das áreas rurais brasileiras marcadas pela concentração de terras e pela relação de dependência entre agregados e fazendeiros. No texto, destaca-se essa relação porque o personagem-narrador: (a) relata a seu interlocutor a história de Zé-Zim, demonstrando sua pouca disposição em ajudar seus agregados, uma vez que superou essa condição graças à sua força de trabalho. (b) descreve o processo de transformação de um meeiro – espécie de agregado – em proprietário de terra. (c) denuncia a falta de compromisso e a desocupação dos moradores, que pouco se envolvem no trabalho da terra. (d) mostra como a condição material da vida do sertanejo é dificultada pela sua dupla condição de homem livre e, ao mesmo tempo, dependente. (e) mantém o distanciamento narrativo condizente com sua posição social, de proprietário de terras. Ex. 41 (Fuvest 2014 No poema “Sentimento do mundo”, que abre o livro homônimo de Carlos Drummond de Andrade, dizem os versos iniciais: Tenho apenas duas mãos e o sentimento do mundo, Considerando esses versos no contexto da obra a que pertencem, responda ao que se pede. (a) Que desejo do poeta fica pressuposto no verso “Tenho apenas duas mãos”?
(b) No poema de abertura do primeiro livro de Carlos Drummond de Andrade – Alguma poesia (1930) – apareciam os conhecidos versos Mundo mundo vasto mundo mais vasto é meu coração. Quando, anos depois, o poeta afirma ter “o sentimento do mundo”, ele ratifica ou altera o ponto de vista que expressara nos citados versos de seu livro de estreia? Explique sucintamente. Ex. 42 (Enem 2014) O negócio Grande sorriso do canino de ouro, o velho Abílio propõe às donas que se abastecem de pão e banana: – Como é o negócio? De cada três dá certo com uma. Ela sorri, não responde ou é uma promessa à recusa: – Deus me livre, não! Hoje não... Abílio interpelou a velha: – Como é o negócio? Ela concordou e, o que foi melhor, a filha também aceitou o trato. Com a dona Julietinha foi assim. Ele se chegou: – Como é o negócio? Ela sorriu, olhinho baixo. Abílio espreitou o cometa partir. Manhã cedinho saltou a cerca. Sinal combinado, duas batidas na porta da cozinha. A dona saiu para o quintal, cuidadosa de não acordar os filhos. Ele trazia a capa de viagem, estendida na grama orvalhada. O vizinho espionou os dois, aprendeu o sinal. Decidiu imitar a proeza. No crepúsculo, pum-pum, duas pancadas fortes na porta. O marido em viagem, mas não era dia do Abílio. Desconfiada, a moça surgiu à janela e o vizinho repetiu: – Como é o negócio? Diante da recusa, ele ameaçou: – Então você quer o velho e não quer o moço? Olhe que eu conto! TREVISAN, D. Mistérios de Curitiba. Rio de Janeiro: Record, 1979 (fragmento). Quanto à abordagem do tema e aos recursos expressivos, essa crônica tem um caráter (a) filosófico, pois reflete sobre as mazelas sofridas pelos vizinhos. (b) lírico, pois relata com nostalgia o relacionamento da vizinhança. (c) irônico, pois apresenta com malícia a convivência entre vizinhos. (d) crítico, pois deprecia o que acontece nas relações de vizinhança. (e) didático, pois expõe uma conduta a ser evitada na relação entre vizinhos. Ex. 43 (Unifesp 2017) Enquanto fugia de caçadores, uma raposa viu um lenhador e lhe pediu que a escondesse. Ele sugeriu que ela entrasse em sua cabana e se ocultasse lá dentro. Não muito tempo depois, vieram os caçadores e perguntaram ao lenhador se ele tinha visto uma raposa passar por ali. Em voz alta ele negou tê-la visto, mas com a mão fez gestos indicando onde ela estava escondida. Entretanto, como eles não prestaram atenção nos seus gestos, deram crédito às suas palavras. Ao constatar que eles já estavam longe, a raposa saiu em silêncio e foi indo embora. E o lenhador se pôs a repreendê-la, pois ela, salva por ele, não lhe dera nem uma palavra de gratidão. A raposa respondeu: “Mas eu seria grata, se os gestos de sua mão fossem condizentes com suas palavras.” Fábulas completas, 2013. A moral mais apropriada para fechar a fábula seria: (a) Esta fábula pode ser dita a propósito de homens desventurados que, quando estão em situações embaraçosas, rezam para encontrar uma saída, mas assim que encontram procuram evitá-las. (b) Desta fábula pode servir-se uma pessoa a propósito daqueles homens que nitidamente proclamam ações nobres, mas na prática realizam atos vis. (c) Esta fábula mostra que os homens desatentos prestam atenção nas coisas de que esperam tirar proveito, mas permanecem apáticos em relação àquelas que não lhes agradam. (d) Assim, alguns homens se entregam a tarefas arriscadas, na esperança de obter ganhos, mas se arruínam antes mesmo de chegar perto do que almejam. (e) Desta fábula pode servir-se uma pessoa a propósito de um homem frouxo que reclama de ínfimas desgraças, enquanto ela própria suporta, sem dificuldade, desgraças enormes. As questões de números 44 e 45 tomam por base um poema de Luiz Gama (1830-1882), poeta, jornalista e líder abolicionista brasileiro, nascido livre e vendido como escravo pelo próprio pai, e um excerto da narrativa Doze anos de escravidão, de Solomon Northup (1808-1863), homem livre sequestrado em Washington em 1841 e submetido à escravidão em fazendas da Louisiana, livro que serviu de base ao roteiro do filme 12 anos de escravidão, dirigido por Steve McQueen. No cemitério de S. Benedito Em lúgubre recinto escuro e frio, Onde reina o silêncio aos mortos dado, Entre quatro paredes descoradas, Que o caprichoso luxo não adorna, Jaz da terra coberto humano corpo, que escravo sucumbiu, livre nascendo! Das hórridas cadeias desprendido, Que só forjam sacrílegos tiranos, Dorme o sono feliz da eternidade. Não cercam a morada lutuosa Os salgueiros, os fúnebres ciprestes, Nem lhe guarda os umbrais da sepultura Pesada laje de espartano mármore, Somente levantado em quadro negro Epitáfio se lê, que impõe silêncio! — Descansam n’este lar caliginoso O mísero cativo, o desgraçado!...
Aqui não vem rasteira a vil lisonja Os feitos decantar da tirania, Nem ofuscando a luz da sã verdade Eleva o crime, perpetua a infâmia. Aqui não se ergue altar ou trono d’ouro Ao torpe mercador de carne humana. Aqui se curva o filho respeitoso Ante a lousa materna, e o pranto em fio Cai-lhe dos olhos revelando mudo A história do passado. Aqui nas sombras Da funda escuridão do horror eterno, Dos braços de uma cruz pende o mistério, Faz-se o cetro bor, andrajo a túnica, Mendigo o rei, o potentado escravo! Primeiras trovas burlescas e outros poemas, 2000. caliginoso: muito escuro, tenebroso; cetro: bastão de comando usado pelos reis; bordão: cajado grosso usado como apoio ao caminhar; potentado: pessoa muito rica e poderosa. Doze anos de escravidão Houvera momentos em minha infeliz vida, muitos, em que o vislumbre da morte como o fim de sofrimentos terrenos – do túmulo como um local de descanso para um corpo cansado e alquebrado – tinha sido agradável de imaginar. Mas tal contemplação desaparece na hora do perigo. Nenhum homem, em posse de suas forças, consegue ficar imperturbável na presença do “rei dos horrores”. A vida é cara a qualquer coisa viva; o verme rastejante lutará por ela. Naquele momento, era cara para mim, escravizado e tratado tal como eu era. Sem conseguir livrar a mão dele, novamente o peguei pelo pescoço e dessa vez com uma empunhadura medonha que logo o fez afrouxar a mão. Tibeats ficou enfraquecido e desmobilizado. Seu rosto, que estivera branco de paixão, estava agora preto de asfixia. Aqueles olhos miúdos de serpente que exalavam tanto veneno estavam agora cheios de horror – duas órbitas brancas precipitando-se para fora. Havia um “demônio à espreita” em meu coração que me instava a matar o maldito cão naquele instante – a manter a pressão em seu odioso pescoço até que o sopro de vida se fosse! Não ousava assassiná-lo, mas não ousava deixá-lo viver. Se eu o matasse, minha vida teria de pagar pelo crime – se ele vivesse, apenas minha vida satisfaria sua sede de vingança. Uma voz lá dentro me dizia para fugir. Ser um andarilho nos pântanos, um fugitivo e um vagabundo sobre a Terra, era preferível à vida que eu estava levando. Doze anos de escravidão, 2014. Ex. 44 (Unesp 2015) Tanto no poema de Luiz Gama quanto no excerto de Solomon Northup se verifica uma mesma concepção de morte para os escravos. Explique essa concepção comum aos dois textos e, a seguir, transcreva um verso da primeira estrofe do poema e a frase do primeiro parágrafo do excerto que expressam essa concepção. Ex. 45 (Unesp 2015) No último parágrafo do excerto, explique por que o raciocínio de Solomon durante a luta contra Tibeats, um de seus proprietários, corresponde a um dilema. Ex. 46 (Unesp 2015) O filme 12 anos de escravidão, considerado uma excelente obra de arte cinematográfica pela crítica, tem seu roteiro baseado na narrativa Doze anos de escravidão. Assistindo-se ao filme e lendo a narrativa, percebe-se, por exemplo, a ausência no filme de algumas cenas presentes na narrativa. Esse fato deve ser considerado uma falha do filme? Justifique sua resposta. As questões de números 47 a 48 focalizam uma passagem do romance Água-Mãe, de José Lins do Rego (1901-1957). Água-Mãe Jogava com toda a alma, não podia compreender como um jogador se encostava, não se entusiasmava com a bola nos pés. Atirava-se, não temia a violência e com a sua agilidade espantosa, fugia das entradas, dos pontapés. Quando aquele back, num jogo de subúrbio, atirou-se contra ele, recuou para derrubá-lo, e com tamanha sorte que o bruto se estendeu no chão, como um fardo. E foi assim crescendo a sua fama. Aos poucos se foi adaptando ao novo Joca que se formara nos campos do Rio. Dormia no clube, mas a sua vida era cada vez mais agitada. Onde quer que estivesse, era reconhecido e aplaudido. Os garçons não queriam cobrar as despesas que ele fazia e até mesmo nos ônibus, quando ia descer, o motorista lhe dizia sempre: – Joca, você aqui não paga. Quando entrava no cinema era reconhecido. Vinham logo meninos para perto dele. Sabia que agradava muito. No clube tinha amigos. Havia porém o antigo center-forward que se sentiu roubado com a sua chegada. Não tinha razão. Ele fora chamado. Não se oferecera. E o homem se enfureceu com Joca. Era um jogador de fama, que fora grande nos campos da Europa e por isso pouco ligava aos que não tinham o seu cartaz. A entrada de Joca, o sucesso rápido, a maravilha de agilidade e de oportunismo, que caracterizava o jogo do novato, irritava-o até ao ódio. No dia em que tivera que ceder a posição, a um menino do Cabo Frio, fora para ele como se tivesse perdido as duas pernas. Viram-no chorando, e por isso concentrou em Joca toda a sua raiva. No entanto, Joca sempre o procurava. Tinha sido a sua admiração, o seu herói. (Água-Mãe, 1974) back: beque, ou seja, o zagueiro de hoje; center-forward: centroavante. Ex. 47 (Unesp 2014) Com a expressão “fugia das entradas”, no primeiro parágrafo, o narrador sugere que o jogador Joca manifestava em campo: (a) preguiça. (b) covardia. (c) despreparo. (d) esperteza. (e) ingenuidade.
Ex. 48 (Unesp 2014 Atitude que, no último parágrafo, melhor sintetiza a reação do antigo center-forward ao sucesso de Joca: (a) rancor. . (b) colaboração. (c) admiração. (d) indiferença. Ex. 49 (Unesp 2014) No dia em que tivera que ceder a posição, a um menino do Cabo Frio, fora para ele como se tivesse perdido as duas pernas. Segundo o contexto, a imagem como se tivesse perdido as duas pernas revela, com grande expressividade e força emocional, (a) sensação de estar sendo injustiçado pela torcida. (b) certeza de que ainda era melhor jogador que o novato. (c) sentimento de impotência ante a situação. (d) vontade de trocar o futebol por outra profissão. (e) receio de sofrer novas contusões e ficar incapacitado. As questões de números 50 a 51 tomam por base uma crônica de Clarice Lispector (1925-1977) e uma passagem do Manual do Roteiro, do professor de Técnica do roteiro, consultor e conferencista Syd Field. Escrever Eu disse uma vez que escrever é uma maldição. Não me lembro por que exatamente eu o disse, e com sinceridade. Hoje repito: é uma maldição, mas uma maldição que salva. Não estou me referindo muito a escrever para jornal. Mas escrever aquilo que eventualmente pode se transformar num conto ou num romance. É uma maldição porque obriga e arrasta como um vício penoso do qual é quase impossível se livrar, pois nada o substitui. E é uma salvação. Salva a alma presa, salva a pessoa que se sente inútil, salva o dia que se vive e que nunca se entende a menos que se escreva. Escrever é procurar entender, é procurar reproduzir o irreproduzível, é sentir até o último fim o sentimento que permaneceria apenas vago e sufocador. Escrever é também abençoar uma vida que não foi abençoada. Que pena que só sei escrever quando espontaneamente a “coisa” vem. Fico assim à mercê do tempo. E, entre um verdadeiro escrever e outro, podem-se passar anos. Lembro-me agora com saudade da dor de escrever livros. Clarice Lispector. A descoberta do mundo, 1999. Escrevendo o roteiro Escrever um roteiro é um fenômeno espantoso, quase misterioso. Num dia você está com as coisas sob controle, no dia seguinte sob o controle delas, perdido em confusão e incerteza. Num dia tudo funciona, no outro não; ninguém sabe como ou por quê. É o processo criativo; que desafia análises; é mágica e maravilha. Tudo o que foi dito ou registrado sobre a experiência de escrever desde o início dos tempos resume-se a uma coisa – escrever é sua experiência particular, pessoal. De ninguém mais. Muita gente contribui para a feitura de um filme, mas o roteirista é a única pessoa que se senta e encara a folha de papel em branco. Escrever é trabalho duro, uma tarefa cotidiana, de sentarse diariamente diante de seu bloco de notas, máquina de escrever ou computador, colocando palavras no papel. Você tem que investir tempo. Antes de começar a escrever, você tem que achar tempo para escrever. Quantas horas por dia você precisa dedicar-se a escrever? Depende de você. Eu trabalho cerca de quatro horas por dia, cinco dias por semana. John Millius escreve uma hora por dia, sete dias por semana, entre 5 e 6 da tarde. Stirling Silliphant, que escreveu The Towering Inferno (Inferno na Torre), às vezes escreve 12 horas por dia. Paul Schrader trabalha com a história na cabeça por meses, contando-a para as pessoas até que ele a conheça completamente; então ele “pula na máquina” e a escreve em cerca de duas semanas. Depois ele gastará semanas polindo e consertando a história. Você precisa de duas a três horas por dia para escrever um roteiro. Olhe para a sua agenda diária. Examine o seu tempo. Se você trabalha em horário integral, ou cuidando da casa e da família, seu tempo é limitado. Você terá que achar o melhor horário para escrever. Você é o tipo de pessoa que trabalha melhor pela manhã? Ou só vai acordar e ficar alerta no final da tarde? Tarde da noite pode ser um bom horário. Descubra. Syd Field. Manual do roteiro, 1995. Ex. 50 (Unesp 2013) Clarice Lispector coloca inicialmente o processo da criação literária como uma maldição. Em seguida, ressalva que é também uma salvação. Com base no texto da crônica, explique como a autora resolve essa diferença de conceitos sobre a criação literária. Ex. 51 (Unesp 2013) Que pena que só sei escrever quando espontaneamente a “coisa” vem. Explique, com base no primeiro parágrafo do texto Escrevendo o roteiro, se Syd Field concorda com esta afirmação de Clarice Lispector. Ex. 52 (Unesp 2013) Mas escrever aquilo que eventualmente pode se transformar num conto ou num romance. Ao empregar na frase apresentada o advérbio eventualmente, o que revela Clarice Lispector sobre a criação de um conto ou romance? Ex. 53 (Unesp 2013) No sétimo parágrafo do texto de Syd Field, que informação o autor passa ao aprendiz de roteirista com os diversos exemplos que apresenta? Texto para as questões 54 e 55. Sonetilho do falso Fernando Pessoa
Onde nasci, morri. Onde morri, existo. E das peles que visto muitas há que não vi. Sem mim como sem ti posso durar. Desisto de tudo quanto é misto e que odiei ou senti. Nem Fausto nem Mefisto, à deusa que se ri deste nosso oaristo*, eis-me a dizer: assisto além, nenhum, aqui, mas não sou eu, nem isto Carlos Drummond de Andrade. Claro Enigma. Ulisses O mito é o nada que é tudo. O mesmo sol que abre os céus É um mito brilhante e mudo O corpo morto de Deus, Vivo e desnudo. Este, que aqui aportou, Foi por não ser existindo. Sem existir nos bastou. Por não ter vindo foi vindo E nos criou. Assim a lenda se escorre A entrar na realidade, E a fecundá-la decorre. Em baixo, a vida, metade De nada, morre. Fernando Pessoa. Mensagem. *conversa íntima entre casais. Ex. 54 (Fuvest 2019) Considerando os poemas, assinale a alternativa correta. (a) As noções de que a identidade do poeta independe de sua existência biográfica, no “Sonetilho”, e de que o mito se perpetua para além da vida, em “Ulisses”, produzem uma analogia entre os poemas. (b) As referências a Mefisto (“diabo”, na lenda alemã de Fausto) e a Deus no “Sonetilho” e em “Ulisses”, respectivamente, associadas ao polo de opostos “morte” e “vida”, revelam uma perspectiva cristã comum aos poemas. (c) O resgate da forma clássica, no “Sonetilho”, e a referência à primeira pessoa do plural, em “Ulisses”, denotam um mesmo espírito agregador e (d) O eu lírico de cada poema se identifica, respectivamente, com seus títulos. No poema de Drummond, trata-se de alguém referido como “falso Fernando Pessoa”, já no poema de Pessoa, o eu lírico é “Ulisses”. (e) Os versos “As coisas tangíveis / tornam-se insensíveis / à palma da mão. // Mas as coisas findas, / muito mais que lindas, / essas ficarão”, de outro poema de Claro Enigma, sugerem uma relação de contraste com os poemas citados. comunitário. Ex. 55 (Fuvest 2019) O oxímoro é uma “figura em que se combinam palavras de sentido oposto que parecem excluir-se mutuamente, mas que, no contexto, reforçam a expressão” (HOUAISS, 2001). No poema “Sonetilho do falso Fernando Pessoa”, o emprego dessa figura de linguagem ocorre em: (a) “Onde morri, existo” (L. 2). (b) “E das peles que visto / muitas há que não vi” (L. 3-4). (c) “Desisto / de tudo quanto é misto / e que odiei ou senti” (L. 6-8). (d) “à deusa que se ri / deste nosso oaristo” (L. 10-11). (e) “mas não sou eu, nem isto” (L. 14). Ex. 56 (Unicamp 2017) Em depoimento, Paulo Freire fala da necessidade de uma tarefa educativa: “trabalhar no sentido de ajudar os homens e as mulheres brasileiras a exercer o direito de poder estar de pé no chão, cavando o chão, fazendo com que o chão produza melhor é um direito e um dever nosso. A educação é uma das chaves para abrir essas portas. Eu nunca me esqueço de uma frase linda que eu ouvi de um educador, camponês de um grupo de Sem Terra: pela força do nosso trabalho, pela nossa luta, cortamos o arame farpado do latifúndio e entramos nele, mas quando nele chegamos, vimos que havia outros arames farpados, como o arame da nossa ignorância. Então eu percebi que quanto mais inocentes, tanto melhor somos para os donos do mundo. (...) Eu acho que essa é uma tarefa que não é só política, mas também pedagógica. Não há Reforma Agrária sem isso.” Adaptado de Roseli Salete Galdart, Pedagogia do Movimento Sem Terra: escola é mais que escola. São Paulo: Expressão Popular, 2008, p. 172. No excerto adaptado que você leu, há menção a arames farpados, como “o arame da nossa ignorância”. Trata-se de uma figura de linguagem para (a) a conquista do direito às terras e à educação que são negadas a todos os trabalhadores. (b) a obtenção da chave que abre as portas da educação a todos os brasileiros que não têm terras. (c) a promoção de uma conquista da educação que tenha como base a propriedade fundiária. (d) a descoberta de que a luta pela posse da terra pressupõe também a conquista da educação. Ex. 57 (Unicamp 2017) Caligrafia (Arnaldo Antunes) Arte do desenho manual das letras e palavras. Território híbrido entre os códigos verbal e visual. A caligrafia está para a escrita como a voz está para a fala. A cor, o comprimento e espessura das linhas, a disposição espacial, a velocidade dos traços da escrita correspondem a timbre, ritmo, tom, cadência, melodia do discurso falado. Entonação gráfica. Assim como a voz apresenta a efetivação física do discurso (o ar nos pulmões, a vibração das cordas vocais, os movimentos da língua), a caligrafia também está intimamente ligada
ao corpo, pois carrega em si os sinais de maior força ou delicadeza, rapidez ou lentidão, brutalidade ou leveza do momento de sua feitura. Adaptado de https://www.arnaldoantunes.com.br. Acessado em 12/07/2016. Em Caligrafia, o autor (a) estabelece uma relação de causa e efeito entre caligrafia e voz. (b) sugere uma relação de oposição entre caligrafia e voz. (c) projeta uma relação de gradação entre caligrafia e voz. (d) apreende uma relação de analogia entre caligrafia e voz. Ex. 58 (Unicamp 2020) este livro Meu filho. Não é automatismo. Juro. É jazz do coração. É prosa que dá prêmio. Um tea for two total, tilintar de verdade que você seduz, charmeur volante, pela pista, a toda Enfie a carapuça. E cante. Puro açúcar branco e blue. (Ana Cristina César, A teus pés. São Paulo: Companhia das Letras, 2019, p. 29.) (a) No poema “este livro” usa-se um recurso poético chamado aliteração. Explique o que é aliteração e identifique um exemplo de aliteração presente nesse texto poético. (b) O poema propõe uma definição do próprio livro e inclui algumas “instruções” para o provável leitor.Identifique dois verbos que instruem o leitor e explique a frase “Não é automatismo”, com base no conjunto do poema. Ex. 59 (Unicamp 2020) era uma vez uma mulher e ela queria falar de gênero era uma vez outra mulher e ela queria falar de coletivos e outra mulher ainda especialista em declinações a união faz a força então as três se juntaram e fundaram o grupo de estudos Celso Pedro Luft (Angélica Freitas, Um útero é do tamanho de um punho. São Paulo: Companhia das Letras, 2017, p. 14.) Considerando o poema e a imagem, resolva as questões. (a) Explique as ambiguidades presentes nas duas primeiras estrofes do poema. (b) Que figura de linguagem é usada nos três últimos versos do poema? Justifique sua resposta. As questões de números 60 e 61 focalizam um excerto de um comentário de Fernando Pessoa (1888-1935) e um poema de Olegário Mariano (1889-1958). Nota preliminar 1 – Em todo o momento de atividade mental acontece em nós um duplo fenômeno de percepção: ao mesmo tempo que temos consciência dum estado de alma, temos diante de nós, impressionando-nos os sentidos que estão virados para o exterior, uma paisagem qualquer, entendendo por paisagem, para conveniência de frases, tudo o que forma o mundo exterior num determinado momento da nossa percepção. 2 – Todo o estado de alma é uma paisagem. Isto é, todo o estado de alma é não só representável por uma paisagem, mas verdadeiramente uma paisagem. Há em nós um espaço interior onde a matéria da nossa vida física se agita. Assim uma tristeza é um lago morto dentro de nós, uma alegria um dia de sol no nosso espírito. E – mesmo que se não queira admitir que todo o estado de alma é uma paisagem – pode ao menos admitir-se que todo o estado de alma se pode representar por uma paisagem. Se eu disser “Há sol nos meus pensamentos”, ninguém compreenderá que os meus pensamentos estão tristes. 3 – Assim tendo nós, ao mesmo tempo, consciência do exterior e do nosso espírito, e sendo o nosso espírito uma paisagem, temos ao mesmo tempo consciência de duas paisagens. Ora essas paisagens fundem-se, interpenetram-se, de modo que o nosso estado de alma, seja ele qual for, sofre um pouco da paisagem que estamos vendo – num dia de sol uma alma triste não pode estar tão triste como num dia de chuva – e, também, a paisagem exterior sofre do nosso estado de alma – é de todos os tempos dizer-se, sobretudo em verso, coisas como que “na ausência da amada o sol não brilha”, e outras coisas assim. Obra poética, 1965. Paisagem holandesa Não me sais da memória. És tu, querida amiga, Uma imagem que eu vi numa aguarela antiga. Era na Holanda. Um fim de tarde. Um céu lavado. Frondes abrindo no ar um pálio recortado... Um moinho à beira d’água e imensa e desconforme A pincelada verde-azul de um barco enorme. A casaria além... Perto o cais refletindo Uma barra de sombra entre as águas bulindo... E, debruçada ao cais, olhando a tarde imensa, Uma rapariguinha olha as águas e pensa... É loira e triste. Nos seus olhos claros anda A mesma paz que envolve a paisagem da Holanda. Paira o silêncio... Uma ave passa, arminho e gaza, À flor d’água, acenando adeus com o lenço da asa... É a saudade de Alguém que anda extasiado, a esmo, Com a paisagem da Holanda escondida em si mesmo, Com aquela rapariga a sofrer e a cismar Num pôr de sol que dá vontade de chorar... Ai não ser eu um moinho isolado e tristonho
Para viver como na paz de um grande sonho, A refletir a minha vida singular Na água dormente, na água azul do teu olhar... Toda uma vida de poesia, 1957. aguarela: aquarela; arminho: pele ou pelo do arminho; muito alvo, muito branco, alvura (sentido figurado); gaza: tecido fino, transparente, feito de seda ou algodão. Ex. 60 (Unesp 2015) O terceiro verso do poema de Olegário Mariano apresenta doze sílabas métricas e é constituído por três segmentos distintos. Transcreva esses três segmentos e, analisando-os um a um, como se fossem versos independentes, aponte o que há de comum e o que há de diferente entre eles, sob os pontos de vista do número de sílabas métricas e das posições dos acentos. Ex. 61 (Unesp 2015) Considerando o que teoriza Fernando Pessoa em sua “Nota preliminar” sobre paisagem interna e paisagem externa, a que conclusão se chega sobre o modo como o eu lírico se expressa no poema “Paisagem holandesa”? Ex. 62 (Fuvest 2019) Leia os textos. – Eu acho que nós, bois, – Dançador diz, com baba – assim como os cachorros, as pedras, as árvores, somos pessoas soltas, com beiradas, começo e fim. O homem, não: o homem pode se ajuntar com as coisas, se encostar nelas, crescer, mudar de forma e de jeito... O homem tem partes mágicas... São as mãos... Eu sei... João Guimarães Rosa, “Conversa de bois”. Sagarana. Um boi vê os homens Tão delicados (mais que um arbusto) e correm e correm de um para o outro lado, sempre esquecidos de alguma coisa. Certamente falta-lhes não sei que atributo essencial, posto se apresentem nobres e graves, por vezes. Ah, espantosamente graves, até sinistros. Coitados, dir-se-ia não escutam nem o canto do ar nem os segredos do feno, como também parecem não enxergar o que é visível e comum a cada um de nós, no espaço. E ficam tristes e no rasto da tristeza chegam à crueldade. [...] Carlos Drummond de Andrade, “Um boi vê os homens”. Claro enigma. (a) Em ambos os textos, o assombro de quem vê decorre das avaliações contrastantes sobre quem é visto. Justifique essa afirmação com base em cada um dos textos. (b) O conto de Rosa e o poema de Drummond valem-se de uma mesma figura de linguagem. Explicite essa figura e justifique sua resposta. Ex. 63 (Unioeste 2018) Com base no poema abaixo, assinale a alternativa INCORRETA. 4o MOTIVO DA ROSA Cecília Meireles Não te aflijas com a pétala que voa: também é ser, deixar de ser assim. Rosas verás, só de cinza franzida, mortas, intactas pelo teu jardim. Eu deixo aroma até nos meus espinhos, ao longe, o vento vai falando em mim. E por perder-me é que me vão lembrando, por desfolhar-me é que não tenho fim. (a) As palavras do poema, na maioria, têm sentido metafórico e, conotativamente, “rosa” simboliza a mulher. (b) O poema enaltece a beleza da juventude – rosa/ mulher que, por não perder suas pétalas atrativos –, sempre será lembrada. (c) As antíteses dos versos 2, 7 e 8 acentuam o dualismo da relação morte e vida, fim e renascimento. (d) Formado por quatro dísticos, o poema se organiza em forma de apóstrofe a um interlocutor não definido. (e) Em termos de ritmo, a segunda estrofe diferencia-se das demais. Ex. 64 (Unifesp 2018) Leia o soneto “Aquela triste e leda madrugada”, do escritor português Luís de Camões (1525?-1580), para responder à questão. Aquela triste e leda madrugada, cheia toda de mágoa e de piedade, enquanto houver no mundo saudade quero que seja sempre celebrada. Ela só, quando amena e marchetada saía, dando ao mundo claridade, viu apartar-se de uma outra vontade, que nunca poderá ver-se apartada. Ela só viu as lágrimas em fio que, de uns e de outros olhos derivadas, se acrescentaram em grande e largo rio. Ela viu as palavras magoadas que puderam tornar o fogo frio, e dar descanso às almas condenadas. (Sonetos, 2001.) A imagem das lágrimas a formarem um “largo rio” (3a estrofe) produz um efeito expressivo que se classifica como (a) paradoxo. (b) pleonasmo. (c) personificação. (d) hipérbole. (e) eufemismo. Ex. 65 (Uece 2018) Retrato do artista quando coisa
A maior riqueza do homem é sua incompletude. Nesse ponto sou abastado. Palavras que me aceitam como sou — eu não aceito. Não aguento ser apenas um sujeito que abre portas, que puxa válvulas, que olha o relógio, que compra pão às 6 da tarde, que vai lá fora, que aponta lápis, que vê a uva etc. etc. Perdoai. Mas eu preciso ser Outros. Eu penso renovar o homem usando borboletas. BARROS, Manoel. O retrato do Artista Quando Coisa. Rio de Janeiro: Record, 1998. A utilização de guras de linguagem ocorre de maneira muito particular na escrita literária. Sobre o uso desse recurso no poema de Manoel de Barros, identifica-se (a) a metáfora no verso “Mas eu preciso ser Outros” (linhas 17-18) relativa à analogia que se faz entre o poeta ser ele mesmo e ser outro. (b) a hipérbole no trecho “Palavras que me aceitam como sou — eu não aceito” (linhas 6-8), em razão de aí haver o desejo do enunciador em engrandecer a verdade dos fatos. (c) a prosopopeia no enunciado “Eu penso renovar o homem usando borboletas” (linhas 19-21), em que há uma atribuição da função humana a um ser não humano. (d) o oximoro em “A maior riqueza do homem é sua incompletude” (linhas 1-3), pela contradição de sentidos presente no enunciado. Ex. 66 (EsPCEx 2018) Leia o trecho abaixo, retirado de I-Juca Pirama, obra de Gonçalves Dias. Da tribo pujante, Que agora anda errante Por fado inconstante, Guerreiros, nasci: Sou bravo, sou forte, sou filho do norte, Meu canto de morte, Guerreiros, ouvi. Trata-se de um: (a) poema lírico (b) poema épico (c) cantiga de amigo (d) novela de cavalaria (e) auto de fundo religioso Ex. 67 (Unesp 2016 Essa questão aborda um poema do português Eugênio de Castro (1869-1944). Mãos Mãos de veludo, mãos de mártir e de santa, o vosso gesto é como um balouçar de palma; o vosso gesto chora, o vosso gesto geme, o vosso [gesto canta! Mãos de veludo, mãos de mártir e de santa, rolas à volta da negra torre da minh’alma. Pálidas mãos, que sois como dois lírios doentes, Caridosas Irmãs do hospício da minh’alma, O vosso gesto é como um balouçar de palma, Pálidas mãos, que sois como dois lírios doentes... Mãos afiladas, mãos de insigne formosura, Mãos de pérola, mãos cor de velho marfim, Sois dois lenços, ao longe, acenando por mim, Duas velas à flor duma baía escura. Mimo de carne, mãos magrinhas e graciosas, Dos meus sonhos de amor, quentes e brandos ninhos, Divinas mãos que me heis coroado de espinhos, Mas que depois me haveis coroado de rosas! Afilhadas do luar, mãos de rainha, Mãos que sois um perpétuo amanhecer, Alegrai, como dois netinhos, o viver Da minha alma, velha avó entrevadinha. (Obras poéticas, 1968.) Verifica-se certa liberdade métrica na construção do poema. Na primeira estrofe, tal liberdade comprova-se pela: (a) construção do hendecassílabo fora dos rígidos modelos clássicos. (b) variedade do verso decassílabo e do verso alexandrino. (c) presença de um verso com número menor de sílabas que os alexandrinos. (d) desobediência aos padrões de pontuação tradicionais do decassílabo. (e) presença de dois versos com número maior de sílabas que os alexandrinos. Ex. 68 (ITA 2016) A adivinha é um gênero da oralidade popular que formula construções como: “O que é, o que é: tem escamas mas não é peixe, tem coroa mas não é rei? O abacaxi!”. Ela consiste num jogo enigmático de perguntas que, por conter dualidades e oposições, leva o ouvinte a pensar. Considerando essa definição, leia o poema abaixo de Orides Fontela.
Considere as seguintes afirmações: I O poema mantém alguns traços formais da adivinha popular. II Como a adivinha popular, a do poema possui uma única resposta, que é um elemento concreto. III A adivinha do poema é uma reinvenção da adivinha popular. Está(ão) correta(s) apenas: (a) I. (b) I e II. (c) I e III. (d) II. (e) II e III. Ex. 69 (Uece 2017) Pedro Américo, pintor brasileiro nascido na Paraíba, foi um grande cultivador da arte acadêmica. Viveu sob a proteção de D. Pedro II, que lhe financiou cursos na Europa. O Imperador Brasileiro foi um verdadeiro Mecenas (indivíduo rico que protege artistas, homens de letras ou de ciências, proporcionando-lhes recursos financeiros para que possam dedicar-se, sem preocupações outras, às artes e às ciências). Foi por encomenda de D. Pedro II que ele pintou, em 1888, o quadro que homenageia D. Pedro I, pelo ato de proclamar a independência política do Brasil. A pintura recebeu o nome de Independência ou Morte, sendo mais conhecida, no entanto, como O Grito do Ipiranga. É um quadro que todo estudante brasileiro reconhece. O grito Um tranquilo riacho suburbano, Uma choupana embaixo de um coqueiro, Uma junta de bois e um carreteiro: Eis o pano de fundo e, contra o pano, Figurantes – cavalos e cavaleiros, Ressaltando o motivo soberano, A quem foi reservado o meio plano Onde avulta solene e sobranceiro. Complete-se a figura mentalmente Com o grito famoso, postergando Qualquer simbologia irreverente. Nem se indague do artista, casto obreiro, Fiel ao mecenato e ao seu comando, Quem o povo, se os bois, se o carreteiro. PAES, José Paulo. Poesia completa. São Paulo: Companhia das Letras, 2008. p. 105. Os poemas podem variar no número de sílabas métricas. Os versos que têm de 1 a 12 sílabas recebem nomes diferentes. A partir de 13 sílabas, deixam de receber nomes específicos. Em relação ao poema “O Grito” é correto afirmar que: (a) foi feito com versos de 5 sílabas métricas chamados pentassílabos ou redondilhas menores. (b) apresenta versos de 7 sílabas métricas, a medida ou o metro das quadras e da poesia popular de maneira geral como ocorre em cantigas de roda e desafios. (c) tem versos de 8 sílabas métricas, denominados octossílabos, usados nas baladas (composições poéticas populares antigas, acompanhadas ou não de música). (d) foi estruturado em versos de 10 sílabas métricas, decassílabos, que são versos longos, de difícil feitura, adequados aos poemas heroicos e épicos. Ex. 70 (ITA 2017) Sobre o poema de Manuel Bandeira, é incorreto afirmar que a relação afetiva entre o sujeito lírico e Irene (a) faz com que a descrição dela seja permeada pela visão carinhosa dele. (b) torna a linguagem mais coloquial, espelhando a ligação afetuosa dos dois. (c) é responsável pelo tratamento informal dado a uma entidade religiosa. (d) é um mero disfarce da desigualdade entre brancos e negros. (e) é, na visão dele, compartilhada até mesmo por São Pedro. As questões de números 71 a 72 abordam um poema de Raul de Leoni (1895-1926). A alma das cousas somos nós... Dentro do eterno giro universal Das cousas, tudo vai e volta à alma da gente, Mas, se nesse vaivém tudo parece igual Nada mais, na verdade, Nunca mais se repete exatamente... Sim, as cousas são sempre as mesmas na corrente Que no-las leva e traz, num círculo fatal; O que varia é o espírito que as sente Que é imperceptivelmente desigual, Que sempre as vive diferentemente, E, assim, a vida é sempre inédita, afinal... Estado de alma em fuga pelas horas, Tons esquivos e trêmulos, nuanças Suscetíveis, sutis, que fogem no Íris Da sensibilidade furta-cor... E a nossa alma é a expressão fugitiva das cousas E a vida somos nós, que sempre somos outros!... Homem inquieto e vão que não repousas! Para e escuta: Se as cousas têm espírito, nós somos Esse espírito efêmero das cousas, Volúvel e diverso, Variando, instante a instante, intimamente, E eternamente, Dentro da indiferença do Universo!... Luz mediterrânea, 1965.
Ex. 71 (Unesp 2017) Uma leitura atenta do poema permite concluir que seu título representa (a) a negação dos argumentos defendidos pelo eu lírico. (b) a confirmação do estado de alma disfórico do eu lírico. (c) a síntese das ideias desenvolvidas pelo eu lírico. (d) o reconhecimento da supremacia do homem no mundo. (e) uma afirmação prévia da incapacidade do homem. Ex. 72 (Unesp 2017 Considerando o eixo temático do poema e o modo como é desenvolvido, verifica-se que nele se faz uma reflexão de fundo (a) estético. (b) político. (c) religioso. (d) filosófico. (e) científico. Ex. 73 (Unesp 2017) Embora pareça constituído de versos livres modernistas, o poema em questão ainda segue a versificação medida, combinando versos de diferentes extensões, com predomínio dos de doze e dez sílabas métricas. Assinale a alternativa que indica na primeira estrofe, pela ordem em que surgem, os versos de dez sílabas métricas, denominados decassílabos. (a) 1 e 5. (b) 3 e 4. (c) 1, 2 e 3. (d) 2 e 3. (e) 1, 3 e 5. Ex. 74 (Unesp 2017) No último verso do poema, o eu lírico conclui que (a) os espíritos mostram-se insensíveis ao volúvel Universo. (b) o Universo acompanha de perto a alma ou espírito. (c) o Universo é indiferente à relação entre o espírito e as coisas. (d) a variação das coisas é indiferente ao espírito que as sente. (e) as coisas têm espírito, mas o Universo não tem. Ex. 75 (ITA 2017) O poema abaixo é de Alcides Villaça PORT1/PORT44.jpg Dada a explícita relação intertextual entre Bach no céu e Irene no céu, é correto afirmar que (a) Bach no céu, por ser um poema dedicado a um grande compositor, se opõe frontalmente ao primeiro poema, dedicado a uma mulher simples. (b) a linguagem, no poema de Villaça, é formal porque ele retrata um grande compositor. (c) inexiste afetividade em Bach no céu, pois o sujeito lírico não conheceu Bach pessoalmente. (d) a admiração do sujeito lírico por Bach não é, na visão dele, compartilhada por São Pedro. (e) Bach no céu homenageia, ao mesmo tempo, Johann Sebastian Bach e Manuel Bandeira. Ex. 76 (ITA 2015) O poema abaixo, de Manuel Bandeira, pertence ao livro Lira dos cinquet’anos. O poema apresenta uma diferença entre I o passado (a infância) e o presente (a velhice) vivido pelo eu lírico. II um espaço puramente natural (o campo) e outro sociofamiliar (a casa). III o que é desfeito pelo tempo (a casa) e o que ele não apaga (a lembrança). IV a chácara (espaço ideal) e a cidade (espaço arrasado pela usura). Estão corretas apenas: (a) I, II e III. (b) I, II e IV. (c) II e III. (d) II, III e IV. (e) III e IV. Ex. 77 (ITA 2015) O poema abaixo, de João Cabral de Melo Neto, integra o livro A escola das facas. Sobre o poema é incorreto afirmar que a descrição (a) compara o som das folhas do canavial com o da cigarra. (b) põe em relevo a rusticidade da plantação de cana-deaçúcar. (c) destaca o som do vento que passa pela plantação.
(d) associa o som do canavial com o amassar das folhas de papel. (e) faz do vento a navalha que corta o canavial. Ex. 78 (ITA 2015) O poema abaixo, de Alice Ruiz, faz parte do livro Jardim de Haijin. No texto, não há (a) sentimento de amor pela natureza, exacerbado e de raiz romântica. (b) emoção estética despertada pela vegetação naquele que passeia. (c) descrição de parte da flora que integra o parque do Ibirapuera. (d) surpresa, durante o passeio pelo parque, causada por uma beleza inesperada. (e) referência a um local específico, o parque situado na cidade de São Paulo. Ex. 79 (ITA 2014) O poema abaixo, sem título, é um haicai de Paulo Leminski: Neste texto, I há contraste entre a imagem natural e o fato histórico. II o contraste entre “lua” e “auschwitz” provoca uma reação emotiva no sujeito lírico. III o caráter interrogativo revela a perplexidade do sujeito lírico. Está(ão) correta(s): (a) apenas I e II. (b) apenas I e III. (c) apenas II e III. (d) apenas III. (e) todas. Ex. 80 (UFSM 2014) O poeta árcade Cláudio Manuel da Costa valeu-se, em alguns momentos, da natureza brasileira para compor sua poesia, fugindo, assim, pelo menos em parte, do convencionalismo neoclássico. A partir dessa ideia, leia o poema a seguir. LVIII Altas serras, que ao Céu estais servindo De muralhas, que o tempo não profana, Se Gigantes não sois, que a forma humana Em duras penhas foram confundindo; Já sobre o vosso cume se está rindo O Monarca da luz, que esta alma engana; Pois na face, que ostenta, soberana, O rosto de meu bem me vai fingindo. Que alegre, que mimoso, que brilhante Ele se me afigura! Ah qual efeito Em minha alma se sente neste instante! Mas ai! a que delírios me sujeito! Se quando no Sol vejo o seu semblante, Em vós descubro ó penhas o seu peito? Acerca do poema, assinale a alternativa INCORRETA. (a) O poema é um soneto composto de versos decassílabos heroicos, com rima intercalada nos quartetos e cruzada nos tercetos. (b) O eu lírico tem como interlocutor de seu poema as “Altas serras” (v. 1), às quais se dirige diretamente também ao final, em “ó penhas” (v. 14), caracterizando assim o uso de apóstrofes. (c) O eu lírico emprega algumas inversões sintáticas no poema, como em “[...] que ao Céu estais servindo! De muralhas” (v. 1 e 2), a que se chama de hipérbatos e que remetem mais ao estilo barroco que ao árcade. (d) O eu lírico compara o Sol, a que chama de “Monarca da luz” (v. 6), ao rosto de sua amada, o que caracteriza uma personificação. (e) Ao olhar o Sol sobre as serras, o eu lírico enxerga uma imagem de sua amada, cujo peito seria composto então pelas penhas, visão essa que enche sua alma de alegria. Para responder às questões de números 81 a 84, leia o poema de Catulo da Paixão Cearense (1863-1946). O Azulão e os tico-ticos Do começo ao fim do dia, um belo Azulão cantava, e o pomar que atento ouvia o seus trilos de harmonia, cada vez mais se enflorava. Se um tico-tico e outras aves vaiavam sua canção... mais doce ainda se ouvia a flauta desse Azulão. Um papagaio, surpreso de ver o grande desprezo, do Azulão, que os desprezava, um dia em que ele cantava e um bando de tico-ticos numa algazarra o vaiava, lhe perguntou: “Azulão, olha, dize-me a razão por que, quando estás cantando e recebes uma vaia desses garotos joviais, tu continuas gorgeando e cada vez canta mais?!” Numas volatas sonoras,
o Azulão lhe respondeu: “Caro Amigo! Eu prezo muito esta garganta sublime e esta voz maravilhosa... este dom que Deus me deu! Quando, há pouco, eu descantava, pensando não ser ouvido nestes matos por ninguém, um Sabiá*, que me escutava, num capoeirão, escondido, gritou de lá: — meu colega, bravos! Bravos... muito bem! Pergunto agora a você: quem foi um dia aplaudido pelo príncipe dos cantos de celestes harmonias, (irmão de Gonçalves Dias, um dos cantores mais ricos...) — que caso pode fazer das vaias dos tico-ticos?” * Nota do editor: simbolicamente, Rui Barbosa está representado neste Sabiá, pois foi a “Águia de Haia” um dos maiores admiradores de Catulo e prefaciador do seu livro Poemas bravios. Poemas escolhidos, s/d. Ex. 81 (Unesp 2015) Tomando por base a leitura do poema, verifica-se que o pomar, mencionado na primeira estrofe, é apresentado como (a) um ser inteiramente insensível ao canto dos pássaros. (b) morada dos tico-ticos invadida pelo Azulão. (c) mero cenário dos acontecimentos. (d) um ser capaz de ouvir e apreciar o canto do Azulão. (e) recanto de uma floresta selvagem. Ex. 82 (Unesp 2015) Ante as vaias dos tico-ticos e outras aves, o Azulão torna ainda mais perfeita sua canção. Com isso, revela uma atitude de (a) autoconfiança. (b) rancor. (c) ingenuidade. (d) ignorância. (e) revolta. Ex. 83 (Unesp 2015) Considerando a nota do editor, que identifica o Sabiá como Rui Barbosa, grande admirador da poesia de Catulo, os tico-ticos representam no poema (a) os outros poetas. (b) os adversários de Rui Barbosa. (c) os músicos e cantores. (d) os admiradores de Gonçalves Dias. (e) os críticos do poeta. Ex. 84 (Unesp 2015) Se, nos versos 32 e 33, as palavras “Sabiá” e “capoeirão” fossem pronunciadas “sa-bi-á” e “ca-po-ei-rão”, tais versos quebrariam o padrão e o ritmo dos demais, pois passariam a ser (a) heptassílabos. (b) octossílabos. (c) eneassílabos. (d) hexassílabos. (e) decassílabos. Ex. 85 (Unifesp 2016) Leia o soneto do poeta Luís Vaz de Camões (1525?-1580) para responder a esta questão. Sete anos de pastor Jacob servia Labão, pai de Raquel, serrana bela; mas não servia ao pai, servia a ela, e a ela só por prêmio pretendia. Os dias, na esperança de um só dia, passava, contentando-se com vê-la; porém o pai, usando de cautela, em lugar de Raquel lhe dava Lia. Vendo o triste pastor que com enganos lhe fora assi negada a sua pastora, como se a não tivera merecida, começa de servir outros sete anos, dizendo: “Mais servira, se não fora para tão longo amor tão curta a vida”. Luís Vaz de Camões. Sonetos, 2001. Do ponto de vista formal, o tipo de verso e o esquema de rimas que caracterizam este soneto camoniano são, respectivamente: (a) dodecassílabo e ABAB ABAB ABC ABC. (b) decassílabo e ABAB ABAB CDC DCD. (c) heptassílabo e ABBA ABBA CDE CDE. (d) decassílabo e ABBA ABBA CDE CDE. (e) dodecassílabo e ABBA ABBA CDE CDE. Ex. 86 (Fuvest 2015) Examine a figura. <http://www.quino.com.ar/>. Os versos de Carlos Drummond de Andrade que mais adequadamente traduzem a principal mensagem da figura acima são: (a) Stop. A vida parou ou foi o automóvel? (b) As casas espiam os homens que correm atrás de mulheres. A tarde talvez fosse azul, não houvesse tantos desejos.
(c) Um silvo breve. Atenção, siga. Dois silvos breves: Pare. Um silvo breve à noite: Acenda a lanterna. Um silvo longo: Diminua a marcha. Um silvo longo e breve: Motoristas a postos. (A este sinal todos os motoristas tomam lugar nos seus veículos para movimentá-los imediatamente.) (d) proibido passear sentimentos ternos ou desesperados nesse museu do pardo indiferente (e) Sim, meu coração é muito pequeno. Só agora vejo que nele não cabem os homens. Os homens estão cá fora, estão na rua. Leia a cena IX da comédia O Juiz de paz na roça, do escritor Martins Pena (1815-1848), para responder às questões 87 e 88. Cena IX Sala em casa do Juiz de paz. Mesa no meio com papéis; cadeiras. Entra o Juiz de paz vestido de calça branca, rodaque de riscado, chinelas verdes e sem gravata. Juiz: Vamo-nos preparando para dar audiência. (arranja os papéis) O escrivão já tarda; sem dúvida está na venda do Manuel do Coqueiro... O último recruta que se fez já vai me fazendo peso. Nada, não gosto de presos em casa. Podem fugir, e depois dizem que o Juiz recebeu algum presente. (batem à porta) Quem é? Pode entrar. (entra um preto com um cacho de bananas e uma carta, que entrega ao Juiz. Juiz, lendo a carta) “Ilmo. Sr. – Muito me alegro de dizer a V. Sa. que a minha ao fazer desta é boa, e que a mesma desejo para V. Sa. pelos circunlóquios com que lhe venero”. (deixando de ler) Circunlóquios... Que nome em breve! O que quererá ele dizer? Continuemos. (lendo)“Tomo a liberdade de mandar a V. Sa. um cacho de bananas-maçãs para V. Sa. comer com a sua boca e dar também a comer à Sra. Juíza e aos Srs. Juizinhos. V. Sa. há de reparar na insignificância do presente; porém, Ilmo. Sr., as reformas da Constituição permitem a cada um fazer o que quiser, e mesmo fazer presentes; ora, mandando assim as ditas reformas, V. Sa. fará o favor de aceitar as ditas bananas, que diz minha Teresa Ova serem muito boas. No mais, receba as ordens de quem é seu venerador e tem a honra de ser – Manuel André de Sapiruruca.” – Bom, tenho bananas para a sobremesa. Ó pai, leva estas bananas para dentro e entrega à senhora. Toma lá um vintém para teu tabaco. (sai o negro) O certo é que é bem bom ser Juiz de paz cá pela roça. De vez em quando temos nossos presentes de galinhas, bananas, ovos, etc., etc. (batem à porta) Quem é? Escrivão (dentro): Sou eu. Juiz: Ah, é o escrivão. Pode entrar. Comédias (1833 1844), 2007. Ex. 87 (Unesp 2017) Nesta cena, verifica-se alguma contradição na conduta do Juiz de paz? Justifique sua resposta, com base no texto. Ex. 88 (Unesp 2017) Quais personagens participam da cena? A que personagem se refere o pronome “teu” em “Toma lá um vintém para teu tabaco.”? Qual a finalidade da carta enviada por Manuel André da Sapiruruca? Ex. 89 (Unesp 2017) Leia o excerto do romance A hora da estrela de Clarice Lispector (1925-1977). Será que eu enriqueceria este relato se usasse alguns difíceis termos técnicos? Mas aí que está: esta história não tem nenhuma técnica, nem estilo, ela é ao deus-dará. Eu que também não mancharia por nada deste mundo com palavras brilhantes e falsas uma vida parca como a da datilógrafa [Macabéa]. Durante o dia eu faço, como todos, gestos despercebidos por mim mesmo. Pois um dos gestos mais despercebidos é esta história de que não tenho culpa e que sai como sair. A datilógrafa vivia numa espécie de atordoado nimbo, entre céu e inferno. Nunca pensara em “eu sou eu”. Acho que julgava não ter direito, ela era um acaso. Um feto jogado na lata de lixo embrulhado em um jornal. Há milhares como ela? Sim, e que são apenas um acaso. Pensando bem: quem não é um acaso na vida? Quanto a mim, só me livro de ser apenas um acaso porque escrevo, oque é um ato que é um fato. É quando entro em contato com forças interiores minhas, encontro através de mim o vosso Deus. Para que escrevo? E eu sei? Sei não. Sim, é verdade, às vezes também penso que eu não sou eu, pareço pertencer a uma galáxia longínqua de tão estranho que sou de mim. Sou eu? Espanto-me com o meu encontro. (A hora da estrela, 1998.) Para o narrador, o emprego de “difíceis termos técnicos” seria adequado para narrar a história de Macabéa? Justique sua resposta. Transcreva a frase que melhor explicita a inconsciência da personagem Macabéa. Justique sua resposta. As questões 90 e 91 focalizam uma passagem da comédia O juiz de paz da roça do escritor Martins Pena (1815-1848). JUIZ (assentando-se): Sr. Escrivão, leia o outro requerimento. ESCRIVÃO (lendo): Diz Francisco Antônio, natural de Portugal, porém brasileiro, que tendo ele casado com Rosa de Jesus, trouxe esta por dote uma égua. “Ora, acontecendo ter a égua de minha mulher um filho, o meu vizinho José da Silva diz que é dele, só porque o dito filho da égua de minha mulher saiu malhado como o seu cavalo. Ora, como os filhos pertencem às mães, e a prova disto é que a minha escrava Maria tem um filho que é meu, peço a V. Sa. mande o dito meu vizinho entregar-me o filho da égua que é de minha mulher”. JUIZ: É verdade que o senhor tem o filho da égua preso? JOSÉ DA SILVA: É verdade; porém o filho me pertence, pois é meu, que é do cavalo. JUIZ: Terá a bondade de entregar o filho a seu dono, pois é aqui da mulher do senhor. JOSÉ DA SILVA: Mas, Sr. Juiz... JUIZ: Nem mais nem meios mais; entregue o filho, senão, cadeia. Martins Pena. Comédias (1833 1844), 2007. Ex. 90
(Unifesp 2016) O efeito cômico produzido pela leitura do requerimento decorre, principalmente, do seguinte fenômeno ou procedimento linguístico: (a) paródia. (b) intertextualidade. (c) ambiguidade. (d) paráfrase. (e) sinonímia. Ex. 91 (Unifesp 2016) O emprego das aspas no interior da fala do escrivão indica que tal trecho (a) reproduz a solicitação de Francisco Antônio. (b) recorre a jargão próprio da área jurídica. (c) reproduz a fala da mulher de Francisco Antônio. (d) é desacreditado pelo próprio escrivão. (e) deve ser interpretado em chave irônica. As questões de 92 a 96 referem-se ao Texto 1, de Manuel Bandeira, publicado em 1937. Texto I Não há hoje no mundo, em qualquer domínio de atividade artística, um artista cuja arte contenha maior universalidade que a de Charles Chaplin. A razão vem de que o tipo de Carlito é uma dessas criações que, salvo idiossincrasias muito raras, interessam e agradam a toda a gente. Como os heróis das lendas populares ou as personagens das velhas farsas de mamulengo. Carlito é popular no sentido mais alto da palavra. Não saiu completo e definitivo da cabeça de Chaplin: foi uma criação em que o artista procedeu por uma sucessão de tentativas e erradas. Chaplin observava sobre o público o efeito de cada detalhe. Um dos traços mais característicos da pessoa física de Carlito foi achado casual. Chaplin certa vez lembrou-se de arremedar a marcha desgovernada de um tabético. O público riu: estava fixado o andar habitual de Carlito. O vestuário da personagem fraquezinho humorístico, calças lambazonas, botinas escarrapachadas, cartolinha também se fixou pelo consenso do público. Certa vez que Carlito trocou por outras as botinas escarrapachadas e a clássica cartolinha, o público não achou graça: estava desapontado. Chaplin eliminou imediatamente a variante. Sentiu com o público que ela destruía a unidade física do tipo. Podia ser jocosa também, mas não era mais Carlito. Note-se que essa indumentária, que vem dos primeiros filmes do artista, não contém nada de especialmente extravagante. Agrada por não sei quê de elegante que há no seu ridículo de miséria. Pode-se dizer que Carlito possui o dandismo do grotesco. Não será exagero afirmar que toda a humanidade viva colaborou nas salas de cinema para a realização da personagem de Carlito, como ela aparece nessas estupendas obras-primas de humour que são O Garoto, Ombro Arma, Em Busca do Ouro e O Circo. Isto por si só atestaria em Chaplin um extraordinário dom de discernimento psicológico. Não obstante, senão houvesse nele profundidade de pensamento, lirismo, ternura, seria levado por esse processo de criação à vulgaridade dos artistas medíocres que condescendem com o fácil gosto do público. Aqui é que começa a genialidade de Chaplin. Descendo até o público, não só não se vulgarizou, mas ao contrário ganhou maior força de emoção e de poesia. A sua originalidade extremou-se. Ele soube isolar em seus dados pessoais, em sua inteligência e em sua sensibilidade de exceção, os elementos de irredutível humanidade. Como se diz em linguagem matemática, pôs em evidência o fator comum de todas as expressões humanas. O olhar de Carlito, no filme O Circo, para a brioche do menino faz rir a criançada como um gesto de gulodice engraçada. Para um adulto pode sugerir da maneira mais dramática todas as categorias do desejo. A sua arte simplificou-se ao mesmo tempo que se aprofundou e alargou. Cada espectador pode encontrar nela o que procura: o riso, a crítica, o lirismo ou ainda o contrário de tudo isso. Essas reflexões me acudiram ao espírito ao ler umas linhas da entrevista fornecida a Florent Fels pelo pintor Pascin, búlgaro naturalizado americano. Pascin não gosta de Carlito e explicou que uma fita de Carlito nos Estados Unidos tem uma significação muito diversa da que lhe dão fora de lá. Nos Estados Unidos Carlito é o sujeito que não sabe fazer as coisas como todo mundo, que não sabe viver como os outros, não se acomoda em meio algum, em suma um inadaptável. O espectador americano ri satisfeito de se sentir tão diferente daquele sonhador ridículo. É isto que faz o sucesso de Chaplin nos Estados Unidos. Carlito com as suas lamentáveis aventuras constitui ali uma lição de moral para educação da mocidade no sentido de preparar uma geração de homens hábeis, práticos e bem quaisquer! Por mais ao par que se esteja do caráter prático do americano, do seu critério de sucesso para julgamento das ações humanas, do seu gosto pela estandardização, não deixa de surpreender aquela interpretação moralista dos filmes de Chaplin. Bem examinadas as coisas, não havia motivo para surpresa. A interpretação cabe perfeitamente dentro do tipo e mais: o americano bem verdadeiramente americano, o que veda a entrada do seu território a doentes e estropiados, o que propõe o pacto contra a guerra e ao mesmo tempo assalta a Nicarágua, não poderia sentir de outro modo. Não importa, não será menos legítima a concepção contrária, tanto é verdade que tudo cabe na humanidade vasta de Carlito. Em vez de um fraco, de um pulha, de um inadaptável, posso eu interpretar Carlito como um herói. Carlito passa por todas as misérias sem lágrimas nem queixas. Não é força isto? Não perde a bondade apesar de todas as experiências, e no meio das maiores privações acha um jeito de amparar a outras criaturas em aperto. Isso é pulhice? Aceita com estoicismo as piores situações, dorme onde é possível ou não dorme, come sola de sapato cozi- da como se se tratasse de alguma língua do Rio Grande. E um inadaptável? Sem dúvida não sabe se adaptar às condições de sucesso na vida. Mas haverá sucesso que valha a força de ânimo do sujeito sem nada neste mundo, sem dinheiro, sem amores, sem teto, quando ele pode agitar a bengalinha como Carlito com um gesto de quem vai tirar a felicidade do nada? Quando um ajuntamento se forma nos filmes, os transeuntes vão parando e acercando-se do grupo com um ar de curiosidade interesseira. Todos têm uma fisionomia preocupada. Carlito é o único que está certo do prazer ingênuo de olhar. Neste sentido Carlito é um verdadeiro professor de heroís mo. Quem vive na solidão das grandes cidades não pode deixar
de sentir intensamente o influxo da sua lição, e uma simpatia enorme nos prende ao boêmio nos seus gestos de aceitação tão simples. Nada mais heroico, mais comovente do que a saída de Carlito no fim de O Circo. Partida a companhia, em cuja troupe seguia a menina que ele ajudara a casar com outro, Carlito por alguns momentos se senta no círculo que ficou como último vestígio do picadeiro, refletindo sobre os dias de barriga cheia e relativa felicidade sentimental que acabava de desfrutar. Agora está de novo sem nada e inteiramente só. Mas os minutos de fraqueza duram pouco. Carlito levanta-se, dá um puxão na casaquinha para recuperar a linha, faz um molinete com a bengalinha e sai campo afora sem olhar para trás. Não tem um vintém, não tem uma afeição, não tem onde dormir nem o que comer. No entanto vai como um conquistador pisando em terra nova. Parece que o Universo é dele. E não tenham dúvida: o Universo é dele. Com efeito, Carlito é poeta. Em: Crônicas da Província do Brasil. 1937. idiossincrasia (linha 5): maneira de ser e de agir própria de cada pessoa. mamulengo (linha 7): fantoche, boneco usado à mão em peças de teatro popular ou infantil. tabético (linha 16): que tem andar desgovernado, sem muita firmeza. dandismo (linha 31): relativo ao indivíduo que se veste e se comporta com elegância. pulhice (linha 94): safadeza, canalhice. estoicismo (linha 95): resignação com dignidade diante do sofrimento, da adversidade, do infortúnio. molinete (linha 123): movimento giratório que se faz com a espada ou outro objeto semelhante. Ex. 92 (ITA 2014) Considerando que o título pode antecipar para o leitor o tema central do texto, assinale a opção que apresenta o título mais adequado. (a) A representatividade de Carlito em O Circo. (b) O heroísmo de Carlito. (c) As representações da vida real por Chaplin. (d) A recepção dos filmes de Chaplin. (e) A dualidade no personagem Carlito. Ex. 93 (ITA 2014) Considere o enunciado “Carlito é popular no sentido mais alto da palavra” (linha 8) e as informações de todo o texto. Na visão de Bandeira, a popularidade pode ser explicada pelo fato de Carlito I ser apresentado com indumentária elegante. II ser responsável por atrair grande público para os cinemas. III retratar o tipo heroico americano, que não quer ser considerado malsucedido. IV ter sido ajustado a partir das reações do público. Estão corretas: (a) apenas I e II. (b) apenas I e III. (c) apenas II e IV. (d) apenas III e IV. (e) todas. Ex. 94 (ITA 2014) De acordo com Bandeira, (a) Carlito é essencialmente triste, apesar de não demonstrar. (b) o público se identifica com Carlito, porque ele re- presenta um tipo universal de simplicidade. (c) Carlito faz sucesso nos Estados Unidos, porque é sonhador como os americanos. (d) Carlito representa o lado heroico do ser humano, embora isso não seja explicitado em seus filmes. (e) Carlito representa o lado debochado e despojado do ser humano, daí seu grande sucesso. Ex. 95 (ITA 2014) Sobre Charles Chaplin, o texto nos permite dizer que (a) sua arte desperta diversas emoções e extrapola os limites geográficos. (b) seu personagem Carlito originou-se das reações do público. (c) seu personagem Carlito é apresentado como um tipo astuto e inteligente. (d) seu personagem Carlito satiriza a miséria material e emocional do ser humano. (e) sua arte desfaz no público sentimentos antagônicos. Ex. 96 (ITA 2014) Segundo o texto, herói é aquele que (a) comove as pessoas que o rodeiam. (b) faz as pessoas levarem a vida de maneira leve. (c) age de maneira corajosa e previsível. (d) enfrenta as adversidades, ainda que tenha momentos de fraqueza. (e) despreza o sucesso, embora o considere importante. Ex. 97 (Unicamp 2017) Leia a seguir a crônica adaptada “O crítico teatral vai ao casamento”, de Millôr Fernandes. Como espetáculo, o casamento da Senhorita Lídia Teles de Souza com o Sr. Herval Nogueira foi realmente um dos mais irregulares a que temos assistido nos últimos tempos. A noiva parecia muito nervosa, nervosismo justificado por estar estreando em casamentos (o que não se podia dizer do noivo, que tem muita experiência de altar) de modo que até sua dicção foi prejudicada. O noivo representou o seu papel com firmeza, embora um tanto frio. Disse “sim” ou “aceito” (não ouvimos bem porque a acústica da abadia é péssima). Fora os pequenos senões notados, teremos que chamar a atenção, naturalmente, para o coroinha, que a todo momento coçava a cabeça, completamente indiferente à representação, como se não participasse dela. A música também foi mal escolhida, numa prova de terrível mau-gosto. O fato de a noiva chegar atrasada também deixou altamente impacientes os espectadores, que mostraram evidentes sinais de nervosismo. A sua entrada, porém, foi espetacular, e rendeu-lhe os melhores parabéns ao fim do espetáculo. Lamentamos apenas – e tomamos como
um deplorável sinal dos tempos – a qualidade do arroz jogado sobre os noivos. Adaptado de Millôr Fernandes, Trinta anos de mim mesmo. São Paulo: Círculo do livro, 1972, p. 78. (a) O cronista recorre à analogia para construir uma aproximação entre o casamento e uma peça teatral. Mostre, com trechos do texto, dois usos desse recurso: um com referência à noiva e outro com referência ao noivo. (b) Identifique duas expressões adverbiais que foram usadas pelo cronista para acentuar sua crítica humorística ao casamento como espetáculo.