LISBOA
do TEJO
RIJARDA GIANDINI
Introdução
Optei por escrever este livro com as primeiras
impressões, os primeiros olhares, virgens olhares, sem
conceitos pré estabelecidos. Fiz um sem número de
fotografias que ajudaramme a captar algumas
emoções, deslumbramentos, encantamento e algumas
tristezas geradas por maus tratos urbanos. O
envolvimento e o desejo de falar para mais gente,
fizeramme uma flaneur por Lisboa. Espero que possa
ser uma agradável e útil leitura como foi um grande
prazer para mim escrever. Andando! Assim começo a
conhecer a cidade. Sem pressa ou pré conceitos
concebidos e cheios de pecados. Como o corpo da
pessoa amada, percorro sem juízos. Simplesmente,
admirando as curvas, as dobras, os montes. Não há o
certo ou o menos. Há a existência do momento e da
percepção.
O flaneur, no qual torneime, é este ser que ama
somente aquilo que apreende.... Uso a palavra “flaneur”
no gênero único. Para mim, o flaneur, nasce com a
cidade pós industrial, com todas as conotações do
tempo, é um ser independente de gênero. Por conta do
livro, a minha inserção no seio urbano lisboeta foi muito
mais rápido. Vivi cada palmo de chão que andei, à pé,
de autocarro, de metrô e de automóvel.
Degustei a comida portuguesa em tascas, pastelarias,
restaurantes e cafeterias como se únicos fossem. Adentrei nos
meandros da vida em Lisboa, suas dificuldades, instituições,
supermercados, lojas e mercados. São os caminhos que
percorreremos juntos. Os detalhes de uma cidade. Os
meandros do convívio com as gentes alfacinhas.
A beleza vista de um outro ângulo a partir, sempre, do Rio Tejo.
É ele referência e guia. De todos os lugares por mim andados,
eu vejo o Tejo, ou estou bem próxima. São Impressões.
Simplesmente impressões de uma Lisboa que ainda tem
jovialidade e caminhos a percorrer.
Apreender a cidade em vários formatos de tempo e sem gastar
muito dinheiro é possível. Lisboa é uma cidade generosa,
humana e linda. Devemos só perceber onde estão os lisboetas
ou os alfacinhas. Meu desejo: que este livro possa ser lhe útil
quando decidir visitar ou viver em Lisboa.
Lisboa, és bela e gentil!
Frutas e legumes na Calçada:
cores, cheiros e formas!
Andando sempre verifico aqui, na cidade de Lisboa, e não
só nos bairros periféricos, a existência do pequeno mercado
de porta ou merceria com frutas e legumes, externamente
expostos. É fabuloso ver em mesas de feiras livres legumes
e frutas de época em frente à supermercados, do lado de
cafés sofisticados, de casas lotéricas. É genial a força de
uma cultura agro urbana. Seja no centro histórico, seja nas
grandes avenidas, ou nos bairros, ali estão os autênticos
mantenedores da cultura portuguesa, genuína.
São produtos vindos das Quintas, dos sítios, próprios dos
vendedores ou de fornecedores antigos. As frutas são de
frescura sã e coloridas. E o melhor é a valorização da
produção agrícola local, do pequeno comerciante e come
se frutas e legumes de época. Custa um pouco mais do que
no supermercado. Mas é absolutamente compensatório por
tudo.
Mercados Lisboetas
A tradição de Mercados, por aqui, anda em alta! Aproveito
muito para andar em mercados recuperados e, atualmente,
com funções de ampla gastronomia turística. Vou bem
mais por sua função estética, de juntar gente e gerar
balbúrdia de muitas línguas e pelo cheiro. Como é
espetacular os odores do mercado! Há a área destinada
aos legumes, frutas, peixes, verduras e produtos regionais
ou típicos como vinhos e azeites
Em torno destes, ou ao lado, encontrase a gastronomia
gerada com os produtos ali vendidos. É certo encontrar
lisboetas almoçando neste locais. E, claro, os turistas que os
descobrem. Os preços são um pouco acima da média. Vou
em horários diversos ao Mercado do Campo de Ourique.
Lindo, foi o primeiro ao qual visitamos quando ainda
estávamos a definir onde morar em Lisboa. Fui em um
Sábado e depareime com uma programação diferente. Era
o primeiro Sábado do mês, quando tradicionalmente, tem a
feira de antiguidades. E no último Sábado, encontrase livros
usados interessantes com preços possíveis.
O Mercado da Ribeira, o mais antigo da cidade, de 1882,
ainda conserva a construção em ferro português. Está bem
localizado e é, turisticamente, o mais visitado, acredito. Fica
em frente ao Cais de Sodré, ligação com todos os bairros. No
Mercado da Ribeira, o que, de fato, interessoume foi a área
dedicada às flores onde fiquei inebriada com a variedade de
cores e perfumes. “As pedras portuguesas formam um
desenho de navio, ou de uma âncora estilizada, no pátio
redondo e cercado de azulejos. Por si, justificam a parada”,
decido, quando saio do mercado mais turístico de Lisboa.
Feira da Ladra
Fui à Feira da Ladra! Um destes lugares tradicionais,
que não se pode deixar de visitar e comprar qualquer
coisa. Sou tomada por uma sensação de antigamente,
por entre as ruelas estreitas e esquinas redondas da
Alfama em dia da Feira da Ladra, no Largo de Santa
Clara. A primeira vez, que lá estive, encantoume à
entrada da Feira, o agora sei, famoso Arco de São
Vicente. Parece que estamos a transpor o tempo. Era
um Sábado de primavera. Prefiro, contudo, a Feira das
Terças. Tem um pouco menos de turista e muitos
portugueses. E como tem turistas e estudantes
brasileiros! O famoso mercado das pulgas de Lisboa, é
um colorido e organizado comércio de tudo.
Literalmente tem de tudo na Feira da Ladra, cujo nome
advém próprio porque não se sabe, e nem se
pergunta, a procedência dos objetos ali expostos e
vendidos
Espaços públicos: Praças, Parques e
Jardins
Os espaços públicos são muito utilizados em Lisboa.
Sempre há alguma atividade acontecendo de acordo,
percebo, com as estações do ano. Um dos nossos
programas preferidos é o de andar pelos parques e
jardins da cidade. Às vezes, levamos de casa um
sanduiche e suco, e vamos ao Parque. É um programa
muito agradável e de custo acessível. No mês de
Agosto começam as atividades artísticas gratuitas após
os meses de Junho e de Julho, quando acontecem os
festivais e os shows internacionais.
Fico sempre muito encantada com o cuidado em preservar o
espaço infantil integrado ao conceito de Parques Públicos.
Sempre há o espaço para os pequenos, com seus jogos,
geralmente feitos em madeiras pintadas de várias cores. É
muito comum os pais levarem suas crianças para jogar,
enquanto assistem ou participam de algum evento cultural.
Esta integração é bem bonita . No Parque Eduardo VII, vi um
edifício lindo em amarelo e com “um sentido de
abandono...preferível não ver”, pensei. Era o Pavilhão Carlos
Lopes, de 1932, ano de construção.
A vista do Tejo, a partir do Monumento 25 de Abril, é
simplesmente deslumbrante. Voltamos algumas vezes ao
Parque. Um tapete de relva sempre muito verde e bem
cuidado, forma labirintos, margeados por calçadas de pedras
portuguesas. Muitas árvores e bancos de madeiras
convidam para um descanso. A Estufa Fria, guarda uma
diversidade de plantas tropicais, lagos, fontes. O Jardim
Amália Rodrigues, uma continuação do Parque Eduardo VII,
em forma de anfiteatro e um lago circular. Nele tem a
escultura de Fernando Botero, Maternidade. O Parque
Eduardo VII, tenho a impressão, representa uma pulsação
lisboeta particular. Uma espécie de coração central de
Lisboa. A esplanada ou quiosque do Eduardo VII tem
sugestivo nome de “Central Parque”, e o acho ótimo.
Enquanto escrevo e tomo um suco, vejo meu filhote brincar
no parque infantil. Neste local, aceitase a presença de
animais.
Outra boa surpresa de Lisboa é o seu pulmão verde, o
Parque Florestal de Monsanto que eu pensei fosse uma
área nativa. Em realidade, foi construído à época do estado
novo, na década de 40, numa vontade política de Duarte
Pacheco, Engenheiro, com muitas obras importantes
atreladas ao seu nome. A história do Monsanto é bem
peculiar. Sobre ele, ainda como Serra de Monte Santo, no
século XVIII, foi construído o Aqueduto das Águas Livres,
abastecedor hídrico de Lisboa. Aliás, em vários pontos da
cidade temse memória de tal fato com ainda chafarizes,
como o belíssimo exemplar de 1821, na Avenida da
Junqueira, e respiradores como o que encontrome, quase,
diariamente no Parque Moinhos de Santana, de onde
escrevo estas páginas. Vejo o Monsanto como um Tejo da
atualidade em importância para a cidade. A extensa
área verde corta boa parte da cidade. E do Restelo, da
minha janela, tenho o privilégio de ver a reserva verde. O
local tem muitos equipamentos de lazer gratuitos e acessos
por trilhas e por auto carros
O “Alvito”, como é carinhosamente chamado o
parque infantil que fica próprio dentro do Parque
Florestal do Monsanto, é um velho conhecido
nosso. Vamos para passear entre as árvores de
predomínio Eucaliptos e Pinheiros, proporcionando
nos um perfume urbano selvagem. É um local
pensado para os miúdos, as crianças, e enquanto o
Artur joga futebol com o pai e os outros amiguinhos,
posso simplesmente admirar este pedaço de
Lisboa. Tem uma boa afluência de nativos, e por
isso mesmo, um ótimo local para tentar uma
aproximação. Para quem é adepto de caminhadas
o entorno é bem propício. Já fizemos os quatro
quilômetros e meio separadores da nossa morada e
do Parque. É uma caminhada bem agradável
Os Parques de Merendas, que é uma das formas
originais de viver Lisboa a baixo custo, estão
presentes em vários parques e Quintas. No Monsanto
tem várias. No Parque Serafim, ainda no Monsanto,
fomos com os Lobitos em um piquenique de
encerramento de atividades anuais. Após a “caça ao
tesouro” estivemos todos em um alegre almoço,
levado por todos. Este é um típico programa, percebi,
das famílias lisboetas. Adotamos como forma de
conhecer os pontos da cidade e o fizemos fora da
estação de verão, excetuando no período mais frio
dos meses de Dezembro a Fevereiro.
As cores em Lisboa
Devagar fui percebendo o quanto
Lisboa tem cor! Suas casas e
prédios formam um colorido todo
particular. Os amarelos, os rosas,
os verdes e suas nuances são
arcoiris urbanos. Mesmo nos
monumentos, ou casas de outrora,
com necessidades de reparação
de paredes, percebo a parte de
cima, quase sempre encontrase,
limpa. É um deleite único. Trazem,
pois, uma alegria colorida e
contrastada com o casario
necessitado de recuperação e
ainda com muitos azulejos
portugueses. A harmonia originada
pelas as cores urbanas e as da
natureza formam um quadro de
especial beleza. De fato, o céu de
Lisboa é quase sempre muito
limpo e de um azul muito próximo
ao azul do céu de Fortaleza ou de
Natal, no nordeste brasileiro. Há
ausência de nuvens em demasia e
quando aparecem formam figuras
leves. A cor amarela do sol tinge o
azul formando uma particular
película de cor única.
As flores de Lisboa
As Flores, como por encanto, vestem Lisboa de lilás. Uma cor
delicada percebo nas esquinas, avenidas, nos trás dos
muros. O perfume evidencia: são as flores do início da
primavera. Os Jacarandás de Lisboa tem um efeito aguçador
da percepção. Esses dias de Maio têm me levado por
caminhos já conhecidos. . A cidade toda fica colorada. Um
quê do Brasil. São os Jacarandás brasileiros aqui plantados,
incialmente, no Jardim Botânico da Ajuda e hoje colore a
cidade. Não sei de quem foi a ideia. Mas deu muito certo. Na
Avenida do Restelo até a Avenida das Descobertas, e
continua nesta, formase uma Alameda de Jacarandás. A
cidade conta com muitos pés da planta que nos meses de
Maio e Junho embelezam e perfumam as ruas e avenidas.
Vale seguir e fazer como os lisboetas. Eles chegam a
competir sobre quem primeiro vê a árvore florir. Estranho que
a Avenida da Liberdade não seja, também ela, colorida por
Jacarandás. Talvez não os tenha percebido.
Ah! os Azulejos!
Os azulejos portugueses, outra marca registrada, estão por
todo lado. Seja em paredes ou em detalhes. “A ida ao Museu
do Azulejo é obrigatória”, pensei, mesmo preferindo os belos
e diversos exemplares desproporcionados das ruas. Em uma
tarde de um primeiro domingo, não recordo de qual mês, e
sem muita pressa, fui ao Museu do Azulej para apreciar as
peças expostas e as histórias. O antigo Mosteiro Madre de
Deus é de 1509, informa o material expositivo. A Igreja, parte
do conjunto arquitetônico, é de uma beleza forte e agressiva.
Época de ouro das Ordens Religiosas que como
representantes de Deus na terra faziam desta seu paraíso,
alfineto, enquanto admiro o exibicionismo resultante que
deixaram à posteridade as obras, admiradas e com as quais
meus olhos fazem festa. São adoráveis! É possível fazer um
bom percurso na história de Portugal, através de seus
azulejos. Para tudo se utiliza o azulejo. Seja em fachadas, em
escadarias, em estações de Metrô, em Palácios, em
Castelos, em casas simples ou suntuosas.
Vi uma painel escondidinho na Travessa Ferreiros de Belém,
no muro já desgastado pelo tempo, do Jardim Botânico, com
vários tipos de azulejos coloridos, o mural “Pato Mudo” uma
instalação de arte. É lindo de se ver.
As pedras portuguesas são lindas!
Sou encantada com o chão calçado
com as pedras portuguesas. Às
vezes, o simples calçamento são
quase sempre verdadeiras obras
com desenhos simétricos,
eloquentes e bonitos. Estão por toda
parte. É lindo! Remanescente da
época do Império Romano, aqui em
Portugal, as pedras não foram
destruídas e desenvolveramse,
viraram obra pública moderna e arte
nas mãos dos mestres Calceteiros.
Lisboa, e não só, tem verdadeiras
obras de artes feitas pelos
Calceteiros. A Avenida da
Liberdade, começando ou
terminando na Praça Marquês de
Pombal, é um caminhar em arte.
Sou fascinada pelo contraste branco
e preto provocado pelas calçadas
desta artéria símbolo da cidade pós
terremoto. Aliás é uma sensação
inesquecível percorrer a Avenida da
Liberdade entre o corredor verde,
cascatas e monumentos em um
tapete de calçada portuguesa. No
Rossio, na Ajuda, em Belém, no
Chiado; nas ladeiras, nas praças,
nas calçadas públicas e particulares,
encontramos sempre.
Aqui vive-se todas as estações!
As estações do ano em Lisboa. Para quem vem de uma
cidade cujas estações do ano estão a perder temporalidade,
Lisboa é uma grata surpresa. Há divisão estacional. Vivi, em
um ano todas as estações, basicamente, com dois tipos de
guardaroupas: um invernal que durou entre os meses de
Outubro e Maio. Nos meses de Outubro, Novembro, clima
outonal e, portanto, roupas invernal leve. É muito agradável
este período.
O cinza não é o predominante do inverno lisboeta. Sorte! O
período invernal vai embora lentamente, mas nada
exasperador para quem é acostumado com sol o ano inteiro.
Entre Março e Maio, vivese a estação das flores, com
temperaturas muito agradáveis, voltase a usar a roupa leve do
inverno. Entre Junho e Setembro, é o período mais quente. Em
final de Maio troquei a roupa invernal pela de verão, deixando
algumas roupas que usamos no período anterior. Como roupa
de cama sempre mantivemos uma coberta ligeira mesmo no
período de verão. Ou seja: não se vive o calor como em outros
países europeus, como França e Itália, ou como no Brasil. Não
temos ar condicionado em casa. É bem agradável a
temperatura.
Lisboa de Viver?
Lisboa é uma cidade convidativa para se viver, mesmo
com os senões. Tem problemas como uma metrópole
média de engarrafamentos, há sujeira nas ruas,
profissionais que não cumprem o prometido, etc. Porém
tem o outro lado da segurança, de respeito ao
consumidor, uma boa oferta de atividades culturais e
acessibilidades educativa e cultural. Tendo como
parâmetros cidades brasileiras e italianas, o nosso
custo financeiro de vida diminuiu em mais de 40% com
qualidade vida superior, em todos os sentidos.
Estudar em Lisboa é bem acessível. Entendendo que
são Universidades pagas, podese pleitear uma bolsa
total ou parcial. Dáse muito valor acadêmico ao
currículo. Aconselhável, para qualquer pleito, ter um
bom histórico escolar e índice de aprovação na
graduação alto. Boas Universidades e Fundações
contam com uma variedade de opções para Mestrados
e Doutorados, também nas áreas de Humanas
Lisboa para
conhecer
e amar
Andar por ruas, vielas, escadas, pedaços de esquinas. O
flaneur é um estado de ânima, um sentimento atávico
expresso em olhar; sentir, com todo o corpo, a cidade. O
ser flaneur é essencialmente urbano porque lhe apetece o
resultado das relações que impregnam os espaços. É um
estado de encantamento que pode durar uma vida. Ou
menos. Descubrome, por Lisboa. E ao deixarme andar,
vagar, escapo do flaneur clássico parisiense, que lhe atraia
os recantos, as noites, as penumbras, o inconfesso. Lisboa
é solar. Diferente de Paris, é acessível. Permite ser
conhecida porque estabelece um vínculo. Penso, talvez,
por ser brasileira, seja tudo mais fácil. Há ancestralidade.
Encontrome de volta à casa de primeira viagem. Tenho
todo o tempo para guardar os sentimentos provocados pela
cidade. As suas cores são mais intensas e contrastantes
durante o dia. As ruelas e as escadarias geralmente
surpreendem, porque sem contar, se nos apresentam e
desembocam em algum lugar escondido, pronto para ser
revelado. Vale entrar, auscultar o fim da linha.
Centro
A Ribeira das Naus, entre a Praça do Comércio e o Cais de
Sodré é o meu espaço preferido para caminhadas no centro
à beira do Rio. É muito agradável caminhar tendo como
cenário o rio e do lado marginal um palácio na cor rosa,
abriga casas institucionais ligadas ao Turismo, Ministério da
Agricultura e do Mar, achei genuíno a junção, e o Tribunal da
Relação. O lado ribeirinho deste edifício cria uma moldura
em forma de amplo e verde jardim de relvas.
Normalmente, fazemos a caminhada do Terreiro do Paço até
o Cais de Sodré. Algumas vezes, fizemos o nosso pequeno
almoço/ café da manhã ou brunch, embaixo das árvores da
“Ribeira das Naus”, próximo ao Quiosque. Fico a apreciar a
ocupação deste espaço pela gentes. A relva verde
contrastante do rosa bem cuidado dos prédios circundantes
fica pontilhada de cores das diversas vestes. São poucas
roupas em dias de sol amarelo forte ou mais em dias de sol
pálido que acarinha a pele. Deitamonos ali a olhar o céu ou
com olhos escondidos por chapéus. Ou sentamos defronte
ao Tejo a cercar seus conselhos. É meu espaço de
preferência à beira do rio, no centro. Daqui palpitou Lisboa
em todos os seus momentos de chegança ou de partida. É
delicioso!
Todo este complexo que vai do Parque das Cebolas, em
frente à Fundação Saramago, passando por Santa
Apolônia, chegando à Praça do Comércio e o calçadão
beira Tejo, até o Cais de Sodré, elejo como meu! Gosto de
parar de costas ao Rio quando chego à Praça Real e
perceber a sensação da primeira vista de tantos que por
aqui aportaram. Imagino os diversos mundos vividos por
este pedaço de Lisboa
As ruas do centro de Lisboa, em continuação à Praça Real,
ou Terreiro do Paço, que gosto mais, é a região
convencionada de Baixa Pombalina, por conta da
reconstrução pós terremoto de 1755. Pois bem, não há
como não se apaixonar por esta zona. Gosto de ir nos finais
de semana quando tudo é um pouco menos caótico.
Passear pela Rua Augusta lisboeta, vemme claramente, o
mesmo desejo realizado quando morava em São Paulo.
Passear na região da Avenida Paulista e entrar na Rua
Augusta
Andei pelo bairro da Graça, em vários momentos. De lá, aliás
de todo bairro, temse uma vista muito boa da cidade e, claro,
do Rio.
O Jardim 9 de Abril, é um pequeno e simpático jardim ao lado
do Museu de Arte Antiga com vista deslumbrante sobre o
Tejo. Segui em direção às Amoreiras e seu jardim, passei pela
Rua das Janelas Verdes. Acho de nome fantástico. E
realmente, reparo, tem as famosas janelas. O Parque das
Amoreiras é de 1759 originado com o nome por conta da
plantação das amoreiras que iniciariam uma fábrica para
produção de sedas, em Portugal. “É um bom lugar para vir
com crianças,” pensei enquanto olho o lago da praça. De lá
pego a minha avenida preferida: da Liberdade.
Digo ser Lisboa uma cidade para se
andar de cabeça erguida. As
construções são convidativas para
manter o corpo ereto, exceto, claro
quando nos deparamos com os bordados
de Pedras Portuguesas. Estas não
resisto. Achoas muito excitante aos
olhos. Inebriam com as curvas em preto
e branco, criando imaginação
psicodélica.
Por outro lado, a cidade ainda tem um quê de sujeira em suas
ruas, que a torna muito próxima do real. Claro, poderia ser
melhor cuidada. Vejo como um bem a iniciativa das Juntas de
Freguesias em colocar placas educativas em relação à limpeza
dos cocôs dos cachorros. Aliás, perto de casa, e vi em outros
bairros, tem uma praça claramente apropriada pela população
para levar seus cachorros. Uma ampla praça com árvores e
vizinho ao Museu de Etnologia.
Gosto de olhar o Teatro Nacional D. Maria. Não
diretamente da Praça, de frente. Mas do lado, da Rua
Portas de Santo Antão. Ë uma visão particular de se
ver o conjunto. Há um ecletismo de gentes e de
estilos naquela área. A rua de pedestres que
dividema com ciclistas, com os mercados de frutas,
os restaurantes à espera dos turistas. As roupas
íntimas estendidas no varal grande rouba a cena do
prédio de lindos azuleijos caídos, abandonado. Ao
lado o Teatro Nacional e o casario do entorno à
Praça. Bem, nesta rua, escondida por um muro está
uma capela ou a Église SaintLouis des Français.
Simpática demais, como seus interlocutores. Adorei
conhecer! Um pouco à frente doume com a Igreja
de São Domingos.
Sigo e caio na Rua da Santa Justa, só a visão do
elevador paga o cansaço e a vontade da parada para
qualquer coisa de fresco. Sou atraída na Rua de São
Nicolau pelas pedras portuguesas da calçada de
pedestre. Não tenho dúvidas, dobro esquina. Na Rua
Áurea, doume com um edifício que fazme parar a
admirálo. Deve ser um órgão público, por conta da
enorme bandeira. Sem querer saber, sentome na
esplanada vizinha olhar a beleza dos detalhes, dos
leões, das sacadas em mármores. A rua merece ser
apreciada em sua totalidade
Lisboa de Conhecer e Amar
Mouraria
o Jardim da Cerca da Graça, achei lindo, a princípio, o
nome: Cerca da Graça. E como por aqui, quase tudo,
iniciase com o sacro, este jardim não podia ser
diferente. Seu traçado nasce aos pés do Convento, em
pleno centro histórico. E também, porque tem tudo que
eu aprecio em um espaço público, aberto e de
confluências. Primeiro, as árvores de frutos, como
acredito devam ser as árvores plantadas em praças.
Tem amendoeiras, laranjeiras e pereiras, formando um
pomar. A confluência, percebo, na ligação estabelecida
entre a Mouraria e Graça, dois bairros que estão a ser
revitalizado. . E o jardim ainda oferece, mesmo um de
pouco longe, a vista do Tejo. Aprecioo de uma
pérgula, emoldurado pelo casario do bairro histórico.
Seguro que faremos piqueniques por aqui. Vi Parque
de Merendas e área de recreio infantil. Gosto da ideia,
ultimamente veiculada pela grande imprensa, de
Lisboa tornarse uma cidade verde. Dãonos conta de
vários projetos de requalificação e criação de novos. E
o que deixame confortável é a perspectiva de
ocupação pelo lisboeta. Nascidos ou não.
Anjos
É, pois, daqui o começo da minha andança por estes lados
da Lisboa antiga. “Descobri minha babel lisboeta!” pensei
enquanto tomo meu café e observo os tipos humanos, dos
mais variados, que entram na Pastelaria onde acostumei
me a vir. Passeiam com suas vestes coloridas ou sóbrias,
em línguas diversas causando uma simpática, e intrigante,
confusão auditiva. Se existe um lugar multicultural em
Lisboa, este bairro é o dos “Anjos”. Uma verdadeiro
emaranhado de cores e idiomas. Sinto, com todos os
sentidos, os inebriantes cheiros dos restaurantes típicos
dos muitos países.
"Viajar! Perder
países! Ser outro
constantemente,
Por a alma não ter
raízes!”
Fernando Pessoa
Rijarda Giandini
A autora do Livro Viver e Amar Lisboa,
mora na cidade portuguesa
desde 2014.
Faz doutoradao em História
Contemporânea.
Adora receber amigos.
www.rijardagiandini.wordpress.com
Um produto
www.criativainternacional.pt