Caro aluno Ao elaborar o seu material inovador, completo e moderno, o Hexag considerou como principal diferencial sua exclusiva metodologia em período integral, com aulas e Estudo Orientado (E.O.), e seu plantão de dúvidas personalizado. O material didático é composto por 6 cadernos de aula e 107 livros, totalizando uma coleção com 113 exemplares. O conteúdo dos livros é organizado por aulas temáticas. Cada assunto contém uma rica teoria que contempla, de forma objetiva e transversal, as reais necessidades dos alunos, dispensando qualquer tipo de material alternativo complementar. Para melhorar a aprendizagem, as aulas possuem seções específicas com determinadas finalidades. A seguir, apresentamos cada seção: De forma simples, resumida e dinâmica, essa seção foi desenvolvida para sinalizar os assuntos mais abordados no Enem e nos principais vestibulares voltados para o curso de Medicina em todo o território nacional. INCIDÊNCIA DO TEMA NAS PRINCIPAIS PROVAS Todo o desenvolvimento dos conteúdos teóricos de cada coleção tem como principal objetivo apoiar o aluno na resolução das questões propostas. Os textos dos livros são de fácil compreensão, completos e organizados. Além disso, contam com imagens ilustrativas que complementam as explicações dadas em sala de aula. Quadros, mapas e organogramas, em cores nítidas, também são usados e compõem um conjunto abrangente de informações para o aluno que vai se dedicar à rotina intensa de estudos. TEORIA No decorrer das teorias apresentadas, oferecemos uma cuidadosa seleção de conteúdos multimídia para complementar o repertório do aluno, apresentada em boxes para facilitar a compreensão, com indicação de vídeos, sites, filmes, músicas, livros, etc. Tudo isso é encontrado em subcategorias que facilitam o aprofundamento nos temas estudados – há obras de arte, poemas, imagens, artigos e até sugestões de aplicativos que facilitam os estudos, com conteúdos essenciais para ampliar as habilidades de análise e reflexão crítica, em uma seleção realizada com finos critérios para apurar ainda mais o conhecimento do nosso aluno. MULTIMÍDIA Atento às constantes mudanças dos grandes vestibulares, é elaborada, a cada aula e sempre que possível, uma seção que trata de interdisciplinaridade. As questões dos vestibulares atuais não exigem mais dos candidatos apenas o puro conhecimento dos conteúdos de cada área, de cada disciplina. Atualmente há muitas perguntas interdisciplinares que abrangem conteúdos de diferentes áreas em uma mesma questão, como Biologia e Química, História e Geografia, Biologia e Matemática, entre outras. Nesse espaço, o aluno inicia o contato com essa realidade por meio de explicações que relacionam a aula do dia com aulas de outras disciplinas e conteúdos de outros livros, sempre utilizando temas da atualidade. Assim, o aluno consegue entender que cada disciplina não existe de forma isolada, mas faz parte de uma grande engrenagem no mundo em que ele vive. CONEXÃO ENTRE DISCIPLINAS Um dos grandes problemas do conhecimento acadêmico é o seu distanciamento da realidade cotidiana, o que dificulta a compreensão de determinados conceitos e impede o aprofundamento nos temas para além da superficial memorização de fórmulas ou regras. Para evitar bloqueios na aprendizagem dos conteúdos, foi desenvolvida a seção “Vivenciando“. Como o próprio nome já aponta, há uma preocupação em levar aos nossos alunos a clareza das relações entre aquilo que eles aprendem e aquilo com que eles têm contato em seu dia a dia. VIVENCIANDO Essa seção foi desenvolvida com foco nas disciplinas que fazem parte das Ciências da Natureza e da Matemática. Nos compilados, deparamos-nos com modelos de exercícios resolvidos e comentados, fazendo com que aquilo que pareça abstrato e de difícil compreensão torne-se mais acessível e de bom entendimento aos olhos do aluno. Por meio dessas resoluções, é possível rever, a qualquer momento, as explicações dadas em sala de aula. APLICAÇÃO DO CONTEÚDO Sabendo que o Enem tem o objetivo de avaliar o desempenho ao fim da escolaridade básica, organizamos essa seção para que o aluno conheça as diversas habilidades e competências abordadas na prova. Os livros da “Coleção Vestibulares de Medicina” contêm, a cada aula, algumas dessas habilidades. No compilado “Áreas de Conhecimento do Enem” há modelos de exercícios que não são apenas resolvidos, mas também analisados de maneira expositiva e descritos passo a passo à luz das habilidades estudadas no dia. Esse recurso constrói para o estudante um roteiro para ajudá-lo a apurar as questões na prática, a identificá-las na prova e a resolvê-las com tranquilidade. ÁREAS DE CONHECIMENTO DO ENEM Cada pessoa tem sua própria forma de aprendizado. Por isso, criamos para os nossos alunos o máximo de recursos para orientá-los em suas trajetórias. Um deles é o ”Diagrama de Ideias”, para aqueles que aprendem visualmente os conteúdos e processos por meio de esquemas cognitivos, mapas mentais e fluxogramas. Além disso, esse compilado é um resumo de todo o conteúdo da aula. Por meio dele, pode-se fazer uma rápida consulta aos principais conteúdos ensinados no dia, o que facilita a organização dos estudos e até a resolução dos exercícios. DIAGRAMA DE IDEIAS
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SUMÁRIO ENTRE ASPAS OBRAS LITERÁRIAS OBRA 14: O ATENEU 4 OBRA 15: A FALÊNCIA 14 OBRA 16: O MARINHEIRO 22 OBRA 17: SEMINÁRIO DOS RATOS 34 OBRA 18: SOBREVIVENDO NO INFERNO 37 OBRA 19: NIKETCHE 47
4 VOLUME 3 LINGUAGENS, CÓDIGOS e suas tecnologias 1. Raul Pompeia “Lembramo-nos, entretanto, com saudade hipócrita, dos felizes tempos; como se a mesma incerteza de hoje, sob outro aspecto, não nos houvesse perseguido outrora e não viesse de longe a enfiada das decepções que nos ultrajam.” (O Ateneu) Filho de Antônio D'Ávila Pompeia e de Rosa Teixeira Pompeia, Raul D'Ávila Pompeia nasceu em 1863, em Angra dos Reis. Foi morar no Rio de Janeiro e estudar no internato do Colégio Abílio, dirigido pelo educador Abílio César Borges, o barão de Macaúbas. Revelou-se exímio caricaturista e também desenhista no periódico O Archote. No Colégio Pedro II, estudou durante o ano de 1879, no ano seguinte publicou seu primeiro livro, Uma tragédia no Amazonas, e destacou-se como um bom orador, falava muito bem e se apresentava em público com muita destreza. Seu engajamento político, sobretudo em questões de suma importância para a época, como os princípios abolicionistas e republicanos, se deu no ínterim de seus estudos para Direito, em São Paulo. Assumiu diversos pseudônimos enquanto escrevia para jornais, nomes inventados como Rapp, Raul D., Pompeu Stell, Raulino Palma etc. Em São Paulo, escreveu para o Jornal do Commercio, e publicou seus poemas prosaicos “Canções sem metro”. Terminou o curso de Direito, no Recife (PE), apesar de nunca ter trabalhado como advogado. Trabalhou em várias frentes do jornalismo, em seu retorno à cidade do Rio de Janeiro, em 1885, e publicou O Ateneu, em formato de folhetim, na Gazeta de Notícias, todavia, o romance foi compilado em um único volume, em 1888. 1.1. Contexto O contexto de produção de suas obras se dá na segunda metade do século XIX e, especialmente, na relação de sua produção com um momento histórico do Brasil, quando se observavam intensas transformações políticas e sociais. Pompeia se engajou ideologicamente na causa abolicionista e, após a Proclamação da República (1889), foi nomeado professor de Mitologia da Escola de Belas Artes e, em seguida, diretor da Biblioteca Nacional. Defendeu de maneira efusiva o governo de Floriano Peixoto, pois acreditava que seu punho de ferro militarista era uma forma de defender o País. Todavia, isso causou uma celeuma entre seus contemporâneos, sobretudo nas rodas intelectuais que convivia – cita-se Olavo Bilac e Mallet. No ano de 1885, faleceu Floriano Peixoto e, com isso, Pompeia acabou sendo demitido da diretoria na Biblioteca Nacional. Por conta de um discurso efusivo na morte de Floriano Peixoto, recebeu a pecha de “Um louco no cemitério”. Amargurado com a vida e humilhado pela imprensa – inclusive dentro do jornal A Notícia –, suicidou-se com um tiro no peito, em plena noite de Natal, no ano de 1895. 2. O Ateneu O ATENEU Raul Pompeia LC OBRA 14
5VOLUME 3 LINGUAGENS, CÓDIGOS e suas tecnologias O Ateneu é um romance de cunho memorialista, mas partes da crítica o classifica como naturalista ou realista. O narrador em primeira pessoa conta seu drama – Sérgio é colocado num internato para estudar, todavia, foi o próprio Pompeia que vivenciou essas experiências no passado, no internato do barão de Macaúbas. É uma espécie de vingança, pensando na perspectiva do autor, contra o pai e o diretor autoritário. Na trama, temos a paixão do menino pela esposa do diretor e a escola destruída pelo fogo. O eixo fundamental de O Ateneu é um estudo psicológico de um adolescente. O foco narrativo é centrado em Sérgio, personagem constantemente em conflito com os valores impostos pela direção do internato. As problemáticas criadas pela educação convencional surgem: as hostilidades, a censura, a homossexualidade, as revoltas e a corrupção. O livro é uma caricatura das falsidades da sociedade da época, do micro para o macrocosmo. 2.1. Estrutura O Ateneu é dividido em doze capítulos e possui o subtítulo “Crônica de saudades”. Inicialmente, o livro foi publicado em forma de folhetim, no jornal Gazeta de Notícias, e é considerado, entre outras coisas, um romance de formação. Estruturado nas possibilidades de ser um romance e uma espécie de diário, gira em torno das experiências do menino Sérgio, no internato dirigido pela mão de ferro de Aristarco de Ramos. Não há um enredo básico que possa ser reproduzido. Trata-se de uma justaposição de quadros narrativos que vão sendo expostos ao leitor. 2.2. Características § Veracidade § Contemporaneidade § Gosto pelos detalhes específicos § Denúncia das injustiças sociais § Função social da arte § Determinismo e relação de causa e efeito § Linguagem próxima à realidade § Cientificismo § Personagens patológicas § Visão determinista § Zoomorfismo § Classes dominadas (pobres e favelados) § Uso de termos técnicos § Romance de tese (experimental) § Influência de Émile Zola (França) 2.3. Personagens § Sérgio: é o protagonista da história e também o narrador de suas memórias, durante cerca dos dois anos que viveu no colégio interno “Ateneu”, aos 11 anos de idade. A obra tem um caráter autobiográfico, visto que Sérgio é o álter ego de Raul Pompeia. § Aristarco: pedagogo e rígido diretor do colégio. Aristarco, todo era um anúncio. Os gestos, calmos, soberanos, eram de um rei — o autocrata excelso dos silabários; a pausa hierática do andar deixava sentir o esforço, a cada passo, que ele fazia para levar adiante, de empurrão, o progresso do ensino público; o olhar fulgurante, sob a crispação áspera dos supercílios de monstro japonês, penetrando de luz as almas circunstantes — era a educação da inteligência; o queixo, severamente escanhoado, de orelha a orelha, lembrava a lisura Sérgio: protagonista e narrador da história. (...) O Dr. Aristarco Argolo de Ramos, da conhecida família do Visconde de Ramos, do Norte, enchia o Império com o seu renome de pedagogo. Eram boletins de propaganda pelas províncias, conferências em diversos pontos da cidade. § Dona Ema: esposa de Aristarco. Sérgio desenvolve um amor platônico e confuso por ela. Ema é um anagrama da palavra mãe, já indicando a problemática edipiana da relação sentimental atrelada a Sérgio. O nome dela é também uma referência à Ema Bovary, personagem principal da obra de Gustave Flaubert, Madame Bovary, demonstrando a clara influência de Raul Pompeia. (...) bela mulher em plena prosperidade dos trinta anos de Balzac, formas alongadas por sua graciosa magreza, erigindo, porém, o tronco sobre os quadris amplos, fortes como a maternidade; olhos negros, pupilas retintas de uma cor só... de um moreno rosa que algumas formosuras possuem, e que seria a cor do jambo... Adiantava-se por movimentos oscilados, cadência de minueto harmonioso e mole que o corpo alternava. Vestia cetim preto justo sobre as formas, reluzente como pano molhado (...) § Dr. Cláudio: elogiado pelo narrador-personagem, é considerado o intelectual na obra. § Egbert: amigo verdadeiro de Sérgio e, por isso, ficam muito íntimos. Conheci pela primeira vez a amizade (...) a ternura de irmão mais velho (...)
6 VOLUME 3 LINGUAGENS, CÓDIGOS e suas tecnologias § Rebelo: é um aluno muito aplicado do colégio. § Sanches: colega de Sérgio e estudante do colégio. Sanches, rancoroso, perseguia-me como um demônio. Dizia coisas imundas. “Deixa estar, jurava entre dentes, que ainda hei de tirar-te a vergonha.” Na qualidade de vigilante levava-me brutalmente à espada. Eu tinha as pernas roxas dos golpes; as canelas me incharam. § Franco: um dos colegas travessos de Sérgio e estudante do colégio. § Barreto: colega beato de Sérgio e estudante do colégio. § Américo: é um aluno novo do internato e considerado um possível responsável pelo incêndio. § Ângela: funcionária de origem espanhola do colégio, considerada por todas muito bonita. § Bento Alves: bibliotecário do colégio e amigo de Sérgio, apesar de ter saído do colégio por uma briga que teve com ele. (...) estimei-o femininamente, porque era grande, forte, bravo; porque me podia valer; porque me respeitava, quase tímido, como se não tivesse ânimo de ser amigo. 2.4. Foco narrativo Sérgio é o narrador que, já adulto, revela suas experiências, quando era interno do colégio Ateneu. A obra é memorialista, conhecida como uma narrativa de confissão, narrada em primeira pessoa por um personagem-narrador. Sobre esse aspecto, vale uma importante ressalva, visto que, tradicionalmente, os romances naturalistas, aos moldes de Émile Zola, são constituídos em terceira pessoa, portanto, O Ateneu pode ser considerado uma exceção. 2.5. Linguagem A linguagem de O Ateneu mescla aspectos oriundos dessa exceção em relação ao supracitado foco narrativo, no sentido de misturar tendências como as realistas, simbolistas e as naturalistas, principalmente. O escritor modernista Mário de Andrade acrescenta ainda que, por conta do rebuscamento, a obra pode ser aproximada também do Barroco. Porém, vale ressaltar que é classificado pela maioria da crítica como um livro naturalista. Pompeia era caricaturista também, logo, este talento também aparecerá no suporte- -palavra, como um vocabulário plástico e sonoro. Todavia, outros aspectos são claramente observados na obra e, claro, abordado nas questões do vestibular. Para quem busca um aprofundamento na questão da linguagem deste romance, não se pode deixar de levar em consideração dois elementos: § Impressionismo: em função da dimensão narrativa vinculada à recuperação da memória, os elementos do passado são recriados como borrões ou manchas cheias de fumaça, em que o colégio interno é reconstituído por meio das impressões que surgem muito mais da dimensão subjetiva do que das objetivas. § Expressionismo: o enredo da história está repleto de metáforas, o que contribui para ratificar a dimensão hiperbólica do texto, marcada pelos exageros da língua. O autor carrega a tinta e o exagero dá plasticidade ao texto: “As mangueiras, como intermináveis serpentes, insinuavam-se pelo chão”. 2.6. Tempo § Cronológico: o desenvolvimento do tempo cronológico se resume a dois anos, que vão desde a entrada de Sérgio no colégio até o incêndio que o destrói totalmente, por volta da última década do século XIX. § Psicológico: predomínio do tempo psicológico, por ser um romance de memória marcada apenas pela impressão sensorial. 2.7. Espaço O Ateneu, quarenta janelas, resplendentes do gás interior, dava-se ares de encantamento com a iluminação de fora (...) O internato do Ateneu está localizado na cidade do Rio de Janeiro, no bairro do Rio Comprido. No âmbito figurativo e, sobretudo, das imagens psicológicas criadas por Sérgio, pode-se construir dois espaços que giram em torno da família – pai e mãe –, e da sociedade – relação com o colégio e seus internos. É de suma importância considerar que o autor defende a tese de que o internato é um microcosmo da sociedade. O espaço na obra naturalista é fundamental para entender a dimensão determinista como um argumento para defender o “experimento” (tese) de Raul Pompeia.
7VOLUME 3 LINGUAGENS, CÓDIGOS e suas tecnologias Ateneu era o grande colégio da época. Afamado por um sistema de nutrido reclame, mantido por um diretor que, de tempos em tempos, reformava o estabelecimento, pintando-o jeitosamente de novidade, como os negociantes que liquidam para recomeçar com artigos de última remessa. O Ateneu, desde muito, tinha consolidado crédito na preferência dos pais, sem levar em conta a simpatia da meninada, a cercar de aclamações o bombo vistoso dos anúncios. 2.8. Temas Personagens e situações do colégio são apresentadas revelando as hipocrisias e falsidades em que até os próprios amigos se tornam delatores e investem contra o grupo. O enredo no internato tematiza a formação sexual e intelectual do adolescente como um reflexo da sociedade, ao mesmo tempo que deflagra a decadência do regime monárquico-escravocrata brasileiro. Existe um sistema de “proteções” no colégio, no qual alguns estudantes mais velhos tomam a guarda de outros mais novos. O cotidiano no internato e a organização sistêmica esconde todo tipo de baixeza, inclusive o assassinato provocado pela criada Ângela. As mentiras criadas para a sociedade pelo diretor Aristarco vão, aos poucos, minando o comportamento de todos (lógica determinista). Vale ressaltar uma exceção, que é a Dona Ema – esposa de Aristarco –, que tem boa vontade para com a atmosfera geral, dos meninos ao colégio, logo, ela vem a ser objeto de uma paixão platônica do garoto Sérgio. 2.9. Os problemas criados pela educação convencional Entrava às nove horas, timidamente, ignorando as lições com a maior regularidade, e bocejava até às duas, torcendo-me de insipidez sobre os carcomidos bancos que o colégio comprara, de pinho e usados, lustrosos do contato da malandragem de não sei quantas gerações de pequenos. 2.10. A homossexualidade Estimei-o femininamente, porque era grande, forte, bravo; porque me podia valer; porque me respeitava, quase tímido, como se não tivesse animo de ser amigo. Para me fitar esperava que eu tirasse dele os meus olhos. A primeira vez que me deu um presente, gracioso livro de educação, retirou-se corado, como quem foge. Aquela timidez, em vez de alertar, enternecia-me, a mim que aliás devia estar prevenido contra escaldos de água fria. interessante é que vago elemento de materialidade havia nesta afeição de criança, tal qual se nota em amor, prazer do contato fortuito, de um aperto de mãos, da emanação da roupa, como se absorvêssemos um pouco do objeto simpático. 2.11. As hostilidades O livro é recheado de uma sensação espinhosa por parte de seu narrador. Sérgio carrega um espírito de vingança, sofrimento e, muitas vezes, de autopunição. (...) envolveu-me a escuridão dos desmaios, vergonha eterna! liquidando-se a última energia… pela melhor das maneiras piores de liquidar-se uma energia. 2.12. A corrupção E não se diga que é um viveiro de maus germens, seminário nefasto de maus princípios, que hão de arborescer depois. Não é o internato que faz a sociedade; o internato a reflete. 2.13. Psicanálise É possível perceber uma noção deste aspecto suscitado pelo gênero memórias, no que diz respeito a uma espécie de antecipação das teorias de Sigmund Freud. Sérgio revela uma série de aspectos edipianos, repulsa à imagem masculina (projeção paterna em Aristarco), sexualidade, o lugar do inconsciente, traumas e cicatrizes do passado. 2.14. Resumo
8 VOLUME 3 LINGUAGENS, CÓDIGOS e suas tecnologias Vais encontrar o mundo, disse-me meu pai, à porta do Ateneu. Coragem para a luta. O Ateneu conta a passagem de Sérgio pelo colégio interno Ateneu, localizado no bairro Rio Comprido, no Rio de Janeiro. O menino já havia passado por um externato e por um professor particular, antes de entrar para o Ateneu. Todavia, o ingresso e as experiência vividas no internato podem ser consideradas um marco do fim de sua infância e, claro, o prenúncio da maturidade. O que de fato acontece é que esse momento de sua vida fará com que ele seja forçado a abandonar a proteção materna em busca de uma educação, digamos, “moral”. Antes do ingresso, Sérgio e seu pai foram visitar o diretor, o pedagogo Sr. Aristarco, e conheceram também D. Ema, que solicitou a Sérgio cortar os cabelos, como despedida dos laços maternos. A justificativa era que, apesar do colégio ser a extensão da casa, do lar, aquele espaço objetivava disciplina e a educação moral dos internos. Ao entrar na sala de aula, o narrador descreve sua primeira impressão dos alunos e futuros colegas de convivência diária, nos dois anos que passou no Ateneu. Sérgio se sentou ao lado do Rebelo – bom aluno –, por orientação do professor. Rebelo foi o primeiro contato de Sérgio. No momento de sua apresentação na frente da classe, Sérgio ficou muito envergonhado e desmaiou. Caminhando pelo pátio depois de recuperado, vai fazendo observações sobre os colegas, o espaço físico e o lugar como um todo e sobre a disciplina aplicada no colégio. Numa dada circunstância, no decorrer de uma aula de natação, acaba se afogando e Sanches o salva. A partir de então, desabrocha uma amizade entre ambos, pois, de alguma forma, Sérgio também buscava um protetor para si. Sanches era um bom aluno e Sérgio passa a fazer suas lições com ele (marca determinista). Todavia, Sérgio percebe um envolvimento, digamos, mais íntimo e os dois brigam. Como era esperado num romance de tese, Sérgio começa a tirar notas baixas, e o diretor, inescrupuloso, expõe esse resultado a todos. Sérgio fica um tempo sozinho, depois do ocorrido da briga, e se aproxima de Franco, que era sempre castigado. Certa vez, Franco resolve jogar pedaços de vidros na piscina por vingança, Sérgio observa tornando-se cúmplice de tudo e vai, com remorso, até a capela rezar. Não acontece nada com os alunos, porém, Sérgio acaba sendo castigado por ter dito que estava no jardim à noite, bem na hora em que Franco arremessou as lascas de garrafa de vidro quebradas. Aristarco castiga Franco e Sérgio na frente de todos, chamando-os de peraltas. Sérgio aproxima-se, então, de Barreto, um amigo beato, e influenciado por ele começa a conversar com Deus, rezar, fazer jejum. Porém, isso não resolve seus problemas com as notas baixas. Sérgio se revolta com Deus e se afasta de Barreto. O garoto quer se tornar vigilante, pois, nesta condição, não precisaria da ajuda de nenhum amigo ou de Deus. Ocorre um assassinato no Ateneu, um jardineiro mata outro funcionário numa disputa por Ângela. Bento Alves segura o assassino durante sua fuga e o imobiliza. Os dois tornam-se amigos íntimos e inseparáveis; leem juntos poesias, livros e histórias. Chegam as férias, e Bento vai visitar Sérgio em sua casa. Depois de voltar às aulas, sem motivo algum, os dois brigam. Porém, no calor da briga, Sérgio agride também o diretor. Enfim, Bento sai do internato. O protagonista conhece então Egbert, considerado na história o seu único amigo verdadeiro, já que era uma amizade sem interesses e sincera. Egbert sempre tirava boas notas e, por essa razão, foi convidado junto com Sérgio para um jantar na casa de Aristarco. Durante o jantar, D. Ema faz várias carícias em Sérgio, o que faz com que se reafirme seu amor platônico. Curiosamente, após esta experiência, ele se sente homem e toma a decisão de se afastar de Egbert. Franco morre de uma doença misteriosa, em paralelo a isso, gerada por maus tratos no Ateneu. Acontece uma solenidade no colégio em que o diretor Aristarco é agraciado com um regalo no formato de um busto em cobre. No desfecho da história, ocorre um incêndio, provocado por Américo (provavelmente) e a escola tem o seu fim. Aplicando para aprender 1. (Enem) Um dia, meu pai tomou-me pela mão, minha mãe beijou-me a testa, molhando-me de lágrimas os cabelos e eu parti. Duas vezes fora visitar o Ateneu antes da minha instalação. Ateneu era o grande colégio da época. Afamado por um sistema de nutrido reclame, mantido por um diretor que de tempos a tempos reformava o estabelecimento, pintando-o jeitosamente de novidade, como os negociantes que liquidam para recomeçar com artigos de última remessa; o Ateneu desde muito tinha consolidado crédito na preferência dos pais, sem levar em conta a simpatia da meninada, a cercar de aclamações o bombo vistoso dos anúncios. O Dr. Aristarco Argolo de Ramos, da conhecida família do Visconde de Ramos, do Norte, enchia o império com o seu renome de pedagogo. Eram boletins de propaganda pelas províncias, conferências em diversos pontos da cidade, a pedidos, à substância, atochando a imprensa dos lugarejos, caixões, sobretudo, de livros elementares, fabricados às pressas com o ofegante e esbaforido concurso de professores prudentemente anônimos, caixões e mais caixões de volumes cartonados em Leipzig, inundando as escolas públicas de toda a parte com a sua invasão de capas azuis, róseas, amarelas, em que o nome de Aristarco, inteiro e sonoro, oferecia-se ao pasmo venerador dos esfaimados de alfabeto dos confins da pátria. Os lugares que os não procuravam eram um
9VOLUME 3 LINGUAGENS, CÓDIGOS e suas tecnologias belo dia surpreendidos pela enchente, gratuita, espontânea, irresistível! E não havia senão aceitar a farinha daquela marca para o pão do espírito. POMPEIA, Raul. O Ateneu. São Paulo: Scipione, 2005. Ao descrever o Ateneu e as atitudes de seu diretor, o narrador revela um olhar sobre a inserção social do colégio demarcado pela a) ideologia mercantil da educação, repercutida nas vaidades pessoais. b) interferência afetiva das famílias, determinantes no processo educacional. c) produção pioneira de material didático, responsável pela facilitação do ensino. d) ampliação do acesso à educação, com a negociação dos custos escolares. e) cumplicidade entre educadores e famílias, unidos pelo interesse comum do avanço social. Leia o texto a seguir para responder às questões 2 a 5. As provocações no recreio eram frequentes, oriundas do enfado; irritadiços todos como feridas; os inspetores a cada passo precisavam intervir em conflitos; as importunações andavam em busca das suscetibilidades; as suscetibilidades a procurar a sarna das importunações. Viam de joelhos o Franco, puxavam-lhe os cabelos. Viam Rômulo passar, lançavam-lhe o apelido: mestre-cuca! Esta provocação era, além de tudo, inverdade. Cozinheiro, Rômulo! Só porque lembrava culinária, com a carnosidade bamba, fofada dos pastelões, ou porque era gordo das enxúndias enganadoras dos fregistas, dissolução mórbida de sardinha e azeite, sob os aspectos de mais volumosa saúde? (...) Rômulo era antipatizado. Para que o não manifestassem excessivamente, fazia-se temer pela brutalidade. Ao mais insignificante gracejo de um pequeno, atirava contra o infeliz toda a corpulência das infiltrações de gordura solta, desmoronava-se em socos. Dos mais fortes vingava-se, resmungando intrepidamente. Para desesperá-lo, aproveitavam-se os menores do escuro. Rômulo, no meio, ficava tonto, esbravejando juras de morte, mostrando o punho. Em geral procurava reconhecer algum dos impertinentes e o marcava para a vindita. Vindita inexorável. No decorrer enfadonho das últimas semanas, foi Rômulo escolhido, principalmente, para expiatório do desfastio. Mestre-cuca! Via-se apregoado por vozes fantásticas, saídas da terra; mestre-cuca! Por vozes do espaço rouquenhas ou esganiçadas. Sentava-se acabrunhado, vendo se se lembrava de haver tratado panelas algum dia na vida; a unanimidade impressionava. Mais frequentemente, entregava-se a acessos de raiva. Arremetia bufando, espumando, olhos fechados, punhos para trás, contra os grupos. Os rapazes corriam a rir, abrindo caminho, deixando rolar adiante aquela ambulância danada de elefantíase. (Raul Pompeia. O Ateneu.) 2. (Unifesp) Indique a alternativa em que os fragmentos selecionados exemplificam, respectivamente, a manifestação clara do ponto de vista do narrador e a opinião do grupo, a propósito de Rômulo. a) Cozinheiro, Rômulo! – Vindita inexorável. b) Vindita inexorável. – Cozinheiro, Rômulo! c) Mestre-cuca! – Vindita inexorável. d) Cozinheiro, Rômulo! – Mestre-cuca! e) Mestre-cuca! – Cozinheiro, Rômulo! 3. (Unifesp) Tendo em vista a função sintática da palavra grifada no fragmento “Para que o não manifestassem excessivamente, fazia-se temer pela brutalidade”, assinale a alternativa em que o termo sublinhado exerce a mesma função. a) Dos mais fortes vingava-se, resmungando intrepidamente. b) Para desesperá-lo, aproveitavam-se os menores do escuro. c) Via-se apregoado por vozes fantásticas, saídas da terra. d) Mais frequentemente, entregava-se a acessos de raiva. e) Viam de joelhos o Franco, puxavam-lhe os cabelos. 4. (Unifesp) Considere as seguintes afirmações. I. A alcunha de mestre-cuca, recebida por Rômulo, advinha do fato de ter praticado, anteriormente, a arte culinária. II. As agressões e humilhações sofridas por Rômulo eram essencialmente motivadas por sua antipatia. III. As reações de Rômulo às provocações dos colegas variavam conforme as circunstâncias. De acordo com o texto, está correto o que se afirma apenas em a) I. b) II. c) III. d) I e II. e) II e III. 5. (Unifesp) Sobre o texto, é correto afirmar: a) A atmosfera tensa presente no cotidiano do colégio era produto, sobretudo, da marcação cerrada dos inspetores, que intervinham nos muitos conflitos. b) Rômulo, devido às provocações que sofre, perde as certezas sobre si mesmo e assume um comportamento que oscila entre a angústia e ataques de fúria. c) Alguns alunos, por serem muito suscetíveis, importunavam outros colegas, puxando-lhes o cabelo ou colocando-lhes apelidos. d) A brutalidade física de Rômulo era a única solução que encontrava para enfrentar a chacota dos alunos mais fortes. e) A unanimidade dos alunos em chamar Rômulo de cozinheiro fazia com que preponderasse sua atitude de entregar-se ao acabrunhamento.
10VOLUME 3 LINGUAGENS, CÓDIGOS e suas tecnologias Para responder às questões 6 a 8, leia o fragmento do romance O Ateneu, de Raul Pompeia (1863-1895), em que o narrador comenta suas reações ao ensino que recebia no colégio. A doutrina cristã, anotada pela proficiência do explicador, foi ocasião de dobrado ensino que muito me interessou. Era o céu aberto, rodeado de altares, para todas as criações consagradas da fé. Curioso encarar a grandeza do Altíssimo; mas havia janelas para o purgatório a que o Sanches se debruçava comigo, cuja vista muito mais seduzia. E o preceptor tinha um tempero de unção na voz e no modo, uma sobranceria de diretor espiritual, que fala do pecado sem macular a boca. Expunha quase compungido, fincando o olhar no teto, fazendo estalar os dedos, num enlevo de abstração religiosa; expunha, demorando os incidentes, as mais cabeludas manifestações de Satanás no mundo. Nem ao menos dourava os chifres, que me não fizessem medo; pelo contrário, havia como que o capricho de surpreender com as fantasias do Mal e da Tentação, e, segundo o lineamento do Sanches, a cauda do demônio tinha talvez dois metros mais que na realidade. Insinuou-me, é certo, uma vez, que não é tão feio o dito, como o pintam. O catecismo começou a infundir-me o temor apavorado dos oráculos obscuros. Eu não acreditava inteiramente. Bem pensando, achava que metade daquilo era invenção malvada do Sanches. E quando ele punha-se a contar histórias de castidade, sem atenção à parvidade da matéria do preceito teológico, mulher do próximo, Conceição da Virgem, terceiro-luxúria, brados ao céu pela sensualidade contra a natureza, vantagens morais do matrimônio, e porque a carne, a inocente carne, que eu só conhecia condenada pela quaresma e pelos monopolistas do bacalhau, a pobre carne do beef, era inimiga da alma; quando retificava o meu engano, que era outra a carne e guisada de modo especial e muito especialmente trinchada, eu mordia um pedacinho de indignação contra as calúnias à santa cartilha do meu devoto credo. Mas a coisa interessava e eu ia colhendo as informações para julgar por mim oportunamente. Na tabuada e no desenho linear, eu prescindia do colega mais velho; no desenho, porque achava graça em percorrer os caprichosos traços, divertindo-me a geometria miúda como um brinquedo; na tabuada e no sistema métrico, porque perdera as esperanças de passar de medíocre como ginasta de cálculos, e resolvera deixar a Maurílio ou a quem quer que fosse o primado das cifras. Em dois meses tínhamos vencido por alto a matéria toda do curso; e, com este preparo, sorria-me o agouro de magnífico futuro, quando veio a fatalidade desandar a roda. POMPEIA, Raul. O Ateneu. Rio de Janeiro: Biblioteca Universal Popular, 1963. 6. (Unesp) Nesta passagem de O Ateneu, romance que a crítica literária ainda hesita em classificar dentro de um único estilo literário, a personagem narradora se refere ao ensino de religião cristã, desenho e matemática, mostrando atitudes diferentes com relação aos conteúdos de cada disciplina. Releia o texto e, a seguir, explique a razão de a personagem narradora declarar, no penúltimo parágrafo, que prescindia do colega mais velho no aprendizado de desenho. 7. (Unesp) Embora no uso popular a palavra agouro apresente muitas vezes a acepção de “previsão ruim”, seu significado original não tem essa marca pejorativa, mas, simplesmente, o de prognóstico, previsão, predição, augúrio. Leia atentamente o último parágrafo do fragmento de O Ateneu e, a seguir, explique, comprovando com base em elementos do contexto, em que sentido o narrador empregou a palavra agouro. 8. (Unesp) No primeiro parágrafo, a personagem Sanches, aluno mais velho que atuava como espécie de preceptor para os estudos de Sérgio, o mais novo, se refere a duas entidades da religião cristã, contextualizando valores opostos a cada uma delas. Identifique as duas entidades e os valores a que estão respectivamente associadas. 9. (UFSC) A seu turno a gramática abria-se como um cofre de confeitos pela Páscoa. Cetim cor de céu e açúcar. Eu escolhia a bel-prazer 3 os adjetivos, como amêndoas adocicadas pelas circunstâncias adverbiais da mais agradável variedade; os amáveis substantivos! voavam-me à roda, próprios e apelativos, como 1 criaturinhas de alfenim alado; a etimologia, a sintaxe, a prosódia, a ortografia, quatro graus de doçura da mesma gustação. Quando muito, as exceções e os verbos irregulares 4 desgostavam-me a princípio; como esses feios confeitos crespos de chocolate: levados à boca, 2 saborosíssimos. POMPEIA, Raul. O Ateneu. 2. ed. São Paulo: FTD, 1991, p. 44. Com base no texto, é correto afirmar que 01) o narrador (Sérgio) não gostava de etimologia, de sintaxe, de prosódia nem de ortografia. 02) as palavras criaturinhas (ref. 1) e saborosíssimos (ref. 2) são adjetivos, e estão, respectivamente, no grau diminutivo e aumentativo. 04) a passagem “[...] os adjetivos, como amêndoas adocicadas pelas circunstâncias adverbiais” [...] (ref. 3) pode ser exemplificada pelos termos destacados na oração “Este livro é BEM INTERESSANTE. 08) o narrador compara os substantivos a “criaturinhas de alfenim ALADO” (ref. 1) com base na relação entre “ter asas” e “voar”. 16) da última frase do texto, pode-se inferir o provérbio: “As aparências enganam”. 32) o sentido negativo do prefixo “des” faz com que o verbo desgostar seja empregado no texto (ref. 4) significando que o personagem passa a não gostar das exceções e dos verbos irregulares a partir do momento em que abre a gramática. 10. (ESPM) (...) Aristarco todo era um anúncio. (...) o olhar fulgurante sob a crispação áspera dos supercílios de monstro japonês, penetrando de luz as almas circunstantes – era a educação da inteligência; o queixo
11VOLUME 3 LINGUAGENS, CÓDIGOS e suas tecnologias severamente escanhoado, de orelha a orelha, lembrava a lisura das consciências limpas – era a educação moral. A própria estatura, na imobilidade do gesto, na mudez do vulto, a simples estatura dizia dele: aqui está um grande homem... não veem os côvados de Golias?!... (Raul Pompeia. O Ateneu.) O fragmento pertence à obra publicada em 1888, época em que se desenvolviam no Brasil o Realismo e o Naturalismo, na prosa. Considerando os períodos literários e o excerto em questão, assinale o que não está de acordo. a) A linguagem acadêmica é utilizada por vários autores da época como Raul Pompeia, incluindo-se aí Machado de Assis. b) As impressões subjetivas sobre a personagem condizem com o princípio de registrar as personagens e o ambiente a partir do que é percebido pelos sentidos. c) A caricaturização (ou deformação) da personagem evidenciada pelos traços exagerados faz do autor um vanguardista do Expressionismo. d) As comparações feitas à personagem são traços da tendência irônica que se opõe à idealização romântica. e) O foco narrativo de primeira pessoa, abjurado pelo Realismo/Naturalismo, não está evidente no trecho. 11. (Ufrgs) Leia as afirmações abaixo sobre o romance O Ateneu, de Raul Pompeia. I. Sérgio, em seu relato memorialista, revela a outra face da fachada moralista e virtuosa que circundava o Ateneu, a face em que se incluem a corrupção, o interesse econômico, a bajulação, as intrigas e a homossexualidade entre os adolescentes. II. A narrativa, ainda que feita na primeira pessoa, evita o comentário subjetivo e as impressões individuais, uma vez que o narrador adota uma postura rigorosa, condizente com o cientificismo da época. III. Através da figura do Dr. Aristarco, diretor do colégio, com sua retórica pomposa e vazia, Raul Pompéia critica o sistema educacional da época e a hipocrisia da sociedade. Quais estão corretas? a) Apenas I. b) Apenas II. c) Apenas I e III. d) Apenas II e III. e) I, II e III. Leia o texto a seguir para responder às questões 12 e 13. “Vais encontrar o mundo, disse-me meu pai, à porta do Ateneu. Coragem para a luta.” Bastante experimentei depois a verdade deste aviso, que me despia, num gesto, das ilusões de criança educada exoticamente na estufa de carinho que é o regime do amor doméstico, diferente do que se encontra fora, tão diferente, que parece o poema dos cuidados maternos um artifício sentimental, com a vantagem única de fazer mais sensível a criatura à impressão rude do primeiro ensinamento, têmpera brusca da vitalidade na influência de um novo clima rigoroso. Lembramo-nos, entretanto, com saudade hipócrita, dos felizes tempos; como se a mesma incerteza de hoje, sob outro aspecto, não nos houvesse perseguido outrora e não viesse de longe a enfiada das decepções que nos ultrajam. Eufemismo, os felizes tempos, eufemismo apenas, igual aos outros que nos alimentam, a saudade dos dias que correram como melhores. Bem considerando, a atualidade é a mesma em todas as datas. Feita a compensação dos desejos que variam, das aspirações que se transformam, alentadas perpetuamente do mesmo ardor, sobre a mesma base fantástica de esperanças, a atualidade é uma. Sob a coloração cambiante das horas, um pouco de ouro mais pela manhã, um pouco mais de púrpura ao crepúsculo – a paisagem é a mesma de cada lado beirando a estrada da vida. Eu tinha onze anos. Frequentara como externo, durante alguns meses, uma escola familiar do Caminho Novo, onde algumas senhoras inglesas, sob a direção do pai, distribuíam educação à infância como melhor lhes parecia. Entrava às nove horas, timidamente, ignorando as lições com a maior regularidade, e bocejava até às duas, torcendo-me de insipidez sobre os carcomidos bancos que o colégio comprara, de pinho e usados, lustrosos do contato da malandragem de não sei quantas gerações de pequenos. Ao meio-dia, davam-nos pão com manteiga. Esta recordação gulosa é o que mais pronunciadamente me ficou dos meses de externato; com a lembrança de alguns companheiros – um que gostava de fazer rir à aula, espécie interessante de mono louro, arrepiado, vivendo a morder, nas costas da mão esquerda, uma protuberância calosa que tinha; outro adamado, elegante, sempre retirado, que vinha à escola de branco, engomadinho e radioso, fechada a blusa em diagonal do ombro à cinta por botões de madrepérola. Mais ainda: a primeira vez que ouvi certa injúria crespa, um palavrão cercado de terror no estabelecimento, que os partistas denunciavam às mestras por duas iniciais como em monograma. Lecionou-me depois um professor em domicílio. Apesar deste ensaio da vida escolar a que me sujeitou a família, antes da verdadeira provação, eu estava perfeitamente virgem para as sensações novas da nova fase. O internato! Destacada do conchego placentário da dieta caseira, vinha próximo o momento de se definir a minha individualidade. Amarguei por antecipação o adeus às primeiras alegrias; olhei triste os meus brinquedos, antigos já! os meus queridos pelotões de chumbo! espécie de museu militar de todas as fardas, de todas as bandeiras, escolhida amostra da força dos estados, em proporções de microscópio, que eu fazia formar a combate como uma ameaça tenebrosa ao equilíbrio do mundo; que eu fazia guerrear em desordenado aperto, – massa tempestuosa das antipatias geográficas, encontro definitivo e ebulição dos seculares ódios de fronteira e de raça, que eu pacificava por fim, com uma facilidade de Providência
12VOLUME 3 LINGUAGENS, CÓDIGOS e suas tecnologias Divina, intervindo sabiamente, resolvendo as pendências pela concórdia promíscua das caixas de pau. Força era deixar à ferrugem do abandono o elegante vapor da linha circular do lago, no jardim, onde talvez não mais tornasse a perturbar com a palpitação das rodas a sonolência morosa dos peixinhos rubros, dourados, argentados, pensativos à sombra dos tinhorões, na transparência adamantina da água... (Raul Pompeia. O Ateneu. Capítulo I.) 12. (Fatec) A crítica especializada já afirmou que o movimento literário realista, ao impregnar-se de uma visão naturalista, acaba por retratar com tons acinzentados as realidades descritas: “É a moral cinzenta do fatalismo que se destila na prosa [...]” e “[...] o autor carrega sempre de tons sombrios o destino de suas personagens”, dirá, por exemplo, Alfredo Bosi. No texto de Raul Pompeia, isso fica patente no seguinte trecho: a) [...] espécie de museu militar de todas as fardas, de todas as bandeiras, escolhida amostra da força dos estados [...], que eu fazia formar a combate como uma ameaça tenebrosa ao equilíbrio do mundo. b) Eu tinha onze anos. Ao meio-dia, davam-nos pão com manteiga. Lecionou-me depois um professor em domicílio. O internato! c) Frequentara como externo, durante alguns meses, uma escola familiar do Caminho Novo, onde algumas senhoras inglesas, sob a direção do pai, distribuíam educação à infância como melhor lhes parecia. d) Apesar deste ensaio da vida escolar a que me sujeitou a família, antes da verdadeira provação, eu estava perfeitamente virgem para as sensações novas da nova fase. e) Lembramo-nos [...] dos felizes tempos; como se a mesma incerteza de hoje, sob outro aspecto, não nos houvesse perseguido outrora e não viesse de longe a enfiada das decepções que nos ultrajam. 13. (Fatec) A leitura do trecho transcrito de O Ateneu autoriza afirmar que a) a história está centrada num narrador que expõe e analisa, em primeira pessoa e da perspectiva do adulto, as lembranças e percepções de um momento crucial da criança que ele foi: o ingresso no mundo social exterior à família, representado pelo regime de internato no Ateneu. b) a gama de ações e situações delineadas no trecho é seu ponto alto, uma vez que é posta em relevo no decorrer dele, por meio de personagens que emergem da narração e assumem de forma direta o discurso e as intervenções na história pessoal do narrador. c) o objetivo central do narrador em terceira pessoa é evocar o romance memorialista francês, pois desfia uma série de recordações, deflagradas pela lembrança das palavras de seu pai quando teve de abandonar a redoma da proteção familiar para ingressar no Ateneu. d) o autor defende, por meio de suas memórias pessoais, a tese da solidão humana, ao evocar a perda do contato social preliminarmente mantido com sua família, passando a dissertar sobre a dureza da vida nos bancos escolares, em particular no seio dos antigos internatos de seu tempo. e) a principal finalidade do trecho é exortar o leitor a participar e recriar, em si mesmo, parte das experiências de vida determinantes da maturação do autor, motivo pelo qual ele investe tamanho esforço em procurar compor momentos descritivos pormenorizados, objetivos e impessoais. 14. (UFSM) Considere as afirmativas sobre O Ateneu, de Raul Pompeia: I. Moleque Ricardo, a personagem principal, conta aventuras vividas na escola. II. A trama é composta por situações e experiências relatadas por um narrador de primeira pessoa. III. A narrativa é caracterizada pelos recortes caricaturais de personagens e pela riqueza plástica das descrições. Está(ão) correta(s) a) apenas I. d) apenas I e III. b) apenas II. e) apenas II e III. c) apenas I e II. 15. (ITA) Sobre O Ateneu, de Raul Pompeia, não se pode afirmar que a) o colégio Ateneu reflete o modelo educacional da época, bem como os valores da sociedade da época. b) o romance é narrado num tom intimista, em terceira pessoa. c) a narrativa expressa um tom de ironia e ressentimento. d) as pessoas são descritas, muitas vezes, de forma caricatural. e) são comuns comparações entre pessoas e animais. 16. (UFMG) Todas as alternativas apresentam afirmações corretas sobre o narrador do romance O Ateneu, exceto: a) O narrador entremeia à narrativa dos acontecimentos da vida escolar as suas opiniões. b) O narrador dá mais ênfase aos fatos sociais do que aos da sua experiência pessoal. c) O narrador estrutura o enredo, revelando a existência de etapas no processo de formação de sua personalidade. d) O narrador apresenta as relações entre os personagens de modo a desnudar alguns aspectos ocultos dessas relações. 17. (UFMG) No romance O Ateneu, de Raul Pompeia, o personagem Aristarco, que apresenta um “vaivém de atitudes”, é visto como portador de uma “individualidade dupla”. Todas as alternativas contêm trechos do romance em que Aristarco passa de uma atitude a outra, exceto: a) Quando meu pai entrou comigo havia no semblante de Aristarco uma pontinha de aborrecimento. (...) Mas a sombra de despeito apagou-se logo, como o resto de túnica que apenas tarda a sumir-se numa mutação à vista; e foi com uma explosão de contentamento que o diretor nos acolheu.
13VOLUME 3 LINGUAGENS, CÓDIGOS e suas tecnologias b) Aristarco, que consagrava as manhãs ao governo financeiro do colégio, conferia, analisava os assentamentos do guarda-livros. De momento a momento entravam alunos. Alguns acompanhados. A cada entrada, o diretor lentamente fechava o livro comercial, (...) oferecendo episcopalmente a mão peluda ao beijo contrito e filial dos meninos. c) (...) viam-no [Aristarco] formidável, com o perfil leonino rugir (...) sobre outro [aluno] que tinha limo nos joelhos de haver lutado em lugar úmido, gastando tal veemência no ralho, que chegava a ser carinhoso. d) A cadeira girava de novo à posição primitiva; o livro da escrituração espalmava outra vez as páginas enormes; e a figura paternal do educador desmanchava- -se volvendo a simplificar-se na esperteza atenta e seca do gerente. 18. (Ufrgs) “Vais encontrar o mundo, disse-me meu pai, à porta do Ateneu. Coragem para a luta.” Bastante experimentei depois a verdade deste aviso, que me despia, num gesto, das ilusões de criança educada exoticamente na estufa de carinho que é o regime do amor doméstico, diferente do que se encontra fora, tão diferente, que parece o poema dos cuidados maternos um artifício sentimental, com a vantagem única de fazer mais sensível a criatura à impressão rude do primeiro ensinamento, têmpera brusca da vitalidade na influência de um novo clima rigoroso. Lembramo-nos, entretanto, com saudade hipócrita, dos felizes tempos; como se a mesma incerteza de hoje, sob outro aspecto, não nos houvesse perseguido outrora e não viesse de longe a enfiada de decepções que nos ultrajam. Assinale a alternativa correta. a) Trata-se da narrativa de uma situação de autoritarismo em que o pai se considera proprietário do destino de seu filho, Sérgio. b) Trata-se de um dos capítulos do romance O Ateneu, valorizado pela crítica por seus aspectos realistas e regionais. c) O texto corresponde à abertura do romance de Raul Pompeia, também chamado de “crônica de saudades”. d) A narrativa em terceira pessoa revela uma série de emoções e percepções que oscilam entre o tempo presente e acontecimentos passados. e) O texto inaugura a narração de uma série de peripécias típicas dos internatos do século XIX, que tinham a missão de formar bons caracteres para a vida militar. 19. (Faap) Durante este período de depressão contemplativa uma coisa apenas magoava-me: não tinha o ar angélico do Ribas, não cantava tão bem como ele. Que faria se morresse, entre os anjos, sem saber cantar? Ribas, quinze anos, era feio, magro, linfático. Boca sem lábios, de velha carpideira, desenhada em angústia – a súplica feita boca, a prece perene rasgada em beiços sobre dentes; o queixo fugia-lhe pelo rosto, infinitamente, como uma gota de cera pelo fuste de um círio... Mas, quando, na capela, mãos postas ao peito, de joelhos, voltava os olhos para o medalhão azul do teto, que sentimento! que doloroso encanto! que piedade! um olhar penetrante, adorador, de enlevo, que subia, que furava o céu como a extrema agulha de um templo gótico! E depois cantava as orações com a doçura feminina de uma virgem aos pés de Maria, alto, trêmulo, aéreo, como aquele prodígio celeste de garganteio da freira Virgínia em um romance do conselheiro Bastos. Oh! não ser eu angélico como o Ribas! Lembro-me bem de o ver ao banho: tinha as omoplatas magras para fora, como duas asas! (O Ateneu. Raul Pompeia.) Dos comentários que se fazem de O Ateneu, assinale o falso. a) Misto de ficção e memória, pendente entre diário e romance, gira em torno das experiências sofridas por um menino ingênuo no internato de Aristarco Argolo de Ramos. b) Sem haver propriamente um enredo, mas justaposição de quadros, vão desfilando diante de nós as personagens e situações de um colégio em que a hipocrisia esconde toda gama de baixeza. c) Diretor e senhora (dona Ema), professores e estudantes, todos vivem numa atmosfera saturada e postiça forjada pela vaidade de Aristarco. d) A sucessão de flagrantes impressionistas termina com o incêndio do colégio, ateado pelo estudante Américo. e) O Ateneu distingue-se na história de nossa ficção por uma série de aspectos originais, entre eles, o realismo exterior tal qual o de Aluísio Azevedo, em O cortiço. Gabarito 1. A 2. D 3. E 4. C 5. B 6. Sanches, o colega mais velho, é destacado ironicamente por sua “proficiência” no ensino da doutrina cristã, em cujas explicações o narrador não acreditava piamente (“achava que metade daquilo era invenção malvada”), mas que, segundo o narrador, excitavam a sua imaginação (“capricho de surpreender com as fantasias do Mal”) e serviriam para posterior reflexão (“julgar [...] oportunamente”). Como o narrador se considera inapto para o cálculo, diverte-se apenas com o desenho (“divertindo-me a geometria miúda”) e prescinde do auxílio do de Sanches, útil apenas no ensino da religião. 7. O contexto em que o termo se apresenta permite inferir a intenção positiva com o narrador o usou. Ao associar o complemento nominal “de magnífico agouro” ao predicado “com este preparo, sorria-me”, exclui-se o significado negativo, comum no uso popular. 8. As entidades referidas no primeiro parágrafo dizem respeito à dualidade Bem e Mal, contextualizadas na religião cristã através de Deus (“céu” e “Altíssimo”) e Demônio (“Satanás”, “chifres”, “cauda”). Enquanto ao primeiro estão associados o Bem e as Virtudes, ao segundo se associam o pecado e a condenação, eterna (Inferno) ou temporária (Purgatório). 9. (04) + (08) + (16) = 28 10. E 11. C 12. E 13. A 14. E 15. B 16. B 17. C 18. C 19. E
14VOLUME 3 LINGUAGENS, CÓDIGOS e suas tecnologias 1. Júlia Lopes de Almeida Escritora, teatróloga, cronista e abolicionista brasileira, Júlia Lopes de Almeida surpreende os leitores com narrativas intrigantes que levam a uma reflexão importante sobre uma ideia de Brasil e o papel da mulher. Por muito tempo esquecida pela crítica, Júlia Valentim da Silveira Lopes de Almeida volta à lista da Unicamp 2020. Ela nasceu no Rio de Janeiro, em 24 de setembro de 1862, e faleceu em 30 de maio de 1934. Filha de Antonia Adelina Lopes e do médico e professor Valentim José Silveira Lopes, ambos portugueses. A escritora é mãe dos também escritores Afonso Lopes de Almeida, Albano Lopes de Almeida e Margarida Lopes de Almeida. Mudou-se ainda na infância para a cidade de Campinas (SP). Apesar de a literatura não ser vista como uma atividade para mulheres, ela reverteu essa lógica machista da sociedade brasileira e, em 1881, publicou seus primeiros textos no periódico Gazeta de Campinas. Foi casada com o poeta português Filinto de Almeida, à época diretor da revista A Semana Ilustrada. A sua primeira obra, intitulada Traços e iluminuras, foi publicada em Portugal, aos 24 anos, e seu romance – A casa verde – sai publicado, como era de costume à época, em folhetins no Jornal do Commercio. Mudou-se para Lisboa em 1886, onde lançou-se como escritora e, junto com sua irmã, publicou Contos infantis, em 1887. Colaborou com artigos na revista Brasil-Portugal (1899-1914), retornando ao Brasil em 1888, onde publicou em folhetins o romance Memórias de Marta. É uma das pioneiras na constituição de obras que compunham a literatura infantil no Brasil, e no que diz respeito ao teatro, compôs dois volumes de textos dramáticos publicados. Em 1919, exerceu a função de presidenta honorária da Legião da Mulher Brasileira. Ânsia eterna, uma coletânea de contos publicada em 1903, evidencia clara influência de Guy de Maupassant. Junto com seu marido, publicou, em 1932, no Jornal do Commercio, seu último romance em vida – A casa verde. Nos anos que se seguiram, entre 1913 e 1918, retornou mais uma vez a viver em além-mar, situando-se em Portugal e, na década seguinte, escolheu viver na França, mais precisamente na capital Paris, lugar onde boa parte de seus textos e obras escritas até então ganharam novas publicações, bem como traduções para a língua francesa. Em função da febre amarela e de complicações linfáticas e renais, Júlia Lopes de Almeida faleceu no Rio de Janeiro, em 30 de maio de 1934, sendo enterrada no Cemitério São Francisco Xavier. No ano de sua morte, todavia em caráter póstumo, foi publicado Pássaro tonto, seu último romance. 1.1. Academia Brasileira de Letras A FALÊNCIA Júlia Lopes de Almeida LC OBRA 15
15VOLUME 3 LINGUAGENS, CÓDIGOS e suas tecnologias Júlia Lopes de Almeida integrava o grupo de escritores e intelectuais que planejou a criação da Academia Brasileira de Letras e suas temáticas literárias, bem como suas posturas, em vida, giravam em torno de um tom crítico e social. Júlia sempre foi uma grande defensora da abolição dos escravos, escrevia sobre o direito ao divórcio e a educação feminina, que eram dedicados à publicação em periódicos voltados para a elucidação e leitura de questões ligadas ao feminino. O seu nome constava na primeira lista, elaborada por Lúcio de Mendonça, dos 40 imortais que fundariam a entidade. Todavia, logo na primeira reunião da Academia, o seu nome foi excluído da lista, uma vez que os fundadores optaram por manter a Academia exclusivamente masculina, segundo eles para seguir o padrão da Francesa. O curioso e, de alguma forma, pesaroso, é que, no lugar dela, o escolhido foi o seu marido, Filinto de Almeida, que chegou a ser chamado de acadêmico consorte. A proibição da participação de mulheres como integrantes da ABL só findou em 1977, quando a escritora cearense Rachel de Queiroz foi escolhida para ocupar a cadeira n° 5. 1.2. Obras Júlia Lopes de Almeida publicou muitas obras na literatura brasileira, como é o caso de A mensageira e a Única, e em revistas e jornais de grande circulação, como O Quinze de Novembro, Kosmos, O Pauiz, A Gazeta de Notícias e A Semana. Publicou A família Medeiros (1892), A viúva Simões (1897) e Eles e elas (1910). Lançou, ainda, A Silveirinha (1913), Pássaro tonto (1934), Correio da roça (1913), entre outros livros. A Falência, Memórias de Marta e Livro das noivas são obras de cunho educativo, contendo conselhos e lições femininas com objetivos morais e econômicos. Junto com sua irmã Adelina Lopes Vieira, publicou também literatura infantil: Contos infantis (1886), Histórias da nossa terra (1907), A árvore (1916), Era uma vez (1917) e Jornadas no meu país (1920). 1.3. Estilo A escritora da Belle Époque tropical, Júlia de Almeida Lopes, tem um estilo muito próprio, porém, é possível perceber influências oriundas do Realismo e do Naturalismo franceses da segunda metade do século XIX, especialmente pelos contos de Guy de Maupassant e pelos romances de Émile Zola. A escritora passou a virada do século XIX para o século XX sendo considerada pioneira e a mais importante escritora do Brasil, da sucessão de Machado de Assis à Semana de Arte de Moderna de 1922. Todavia, o que era uma posição de destaque para a época, mesmo diante de todo o machismo vigente, nos tempo atuais entrou num ostracismo por parte da crítica e, entre outras coisas, passa a ser muito louvável a escolha da Unicamp para sua lista de obras de 2020, uma vez que é necessário retomar a importância da obra desta escritora, que defendeu pontos de vista abertamente feministas. “Com as mãos sujas de carvão, na cozinha, acendendo o fogo para fazer o almoço do marido, cosendo-lhe a roupa, amamentando os filhos, varrendo a casa ou interpretando Chopin; pintando uma aquarela ou amarrando um bouquet, a mulher tem sempre a mesma poesia: a de trabalhar para ser agradável, útil, boa, para satisfazer uma necessidade moral ou intelectual do esposo e da família, revelando-se amorosa e digna do doce e pesado encargo que a sociedade lhe destinou.” Júlia Lopes segue um projeto estético em suas obras que deságua literalmente na relação com um projeto de nação – progresso positivista –, com seu desejo de retratar seu tempo e as vicissitudes de sua época. A autora viajou pelo território nacional fazendo palestras para discutir diversas questões ligadas ao Brasil, mas, sobretudo, as transformações que deveriam acontecer em nossa sociedade, no que diz respeito ao processo de formação das mulheres, desde a infância até a vida adulta, casadas ou não, ressignificando o que era senso comum numa sociedade tradicionalmente machista e de costumes patriarcais.
16VOLUME 3 LINGUAGENS, CÓDIGOS e suas tecnologias Do ponto de vista estilístico, esta verve crítica vai achar espaço também nos temas da Natureza – na obra Viagens no meu país, revela seu descontentamento com o desmatamento em função das indústrias, sobretudo, em sua visita à cidade de Porto Alegre, no sul do Brasil. Ao mesmo tempo em que elogia o progresso dessa que denomina a Manchester local, reclama da destruição das florestas. Além disso, falava sobre os mais diversos temas – já nessa época, dissertando sobre a importância da preservação da natureza, constituindo, de maneira vanguardista, uma consciência incomum no âmbito da ecologia. Para se ter uma ideia, Júlia também abordava temas que incitavam o replante de mudas, o cuidado com as árvores etc. As flores não focaram de fora também, uma vez que escreve, inclusive, sobre jardinagem. Sua consciência da saúde do País, da salvação da natureza é muito forte e avançada para a época em que poucos se preocupavam com isso. Claro que sua postura não pode ser considerada revolucionária, no sentido de tentar subverter qualquer ordem de poder, porém, a maneira que conduz sua literatura, mesclando simplicidade e elegância, carrega competência e equilíbrio no empenho de sua luta pela emancipação feminina. 2. A falência Júlia Lopes de Almeida demorou cerca de 15 anos para escrever A falência, que se tornou, segundo a crítica, sua obra-prima. A personagem central é Camila, uma mulher cheia de contradições, com a alma cheia de dúvidas e que divide seu coração com um amante, o dr. Gervásio, um médico que é um amigo íntimo de seu marido – não se pode pensar em Camila sem essa alma dividida. Surgirá um fator na obra que é quando Mário, o filho mais velho, descobre o amor secreto da mãe por Gervásio. Ele fica insatisfeito e se distancia dos pais. Sua presença e sua ausência são um sintoma da crise familiar. Mário acaba se entregando a amantes sem significado, num primeiro momento da narrativa e, depois, vai se aproximar de uma moça rica chamada de Paquita. Ao expor essa intimidade trágica, a autora denuncia as injustiças de sua época. Sobre a questão das classes sociais, a personagem principal – de origem pobre –, terá no matrimônio a tranquilidade que a fortuna lhe traz. O dramático de tudo isso é, justamente, o fato que, posteriormente, descobre a paixão por dr. Gervásio. Teodoro não desconfia, porém, terá seu ideal perfeito de família abalado após um mau negócio que o leva à falência. A partir da decadência, Camila vai se unir às filhas e às empregadas, uma vez que, juntas, vão demonstrar que não necessitam dos homens para sobreviver. As irmãs mais novas, as gêmeas Lia e Raquel, têm papéis secundários e Ruth, a irmã do meio, dedica-se ao violino e à poesia, pois se vale da arte como um subterfúgio de fuga dos problemas da família. Além delas, surge Nina, a sobrinha de Camila, que funciona como governanta da casa, sobretudo, após a morte de Teodoro. Ela, como é comum na obra, sofre de amor, pois nutre uma paixão por Mário. Numa sociedade obcecada pelo lucro, pelo dinheiro e pelo progresso material que Camila vive seus conflitos íntimos, o sentimento de amor destinado ao doutor Gervásio faz com que ela pense na condição da mulher de sua época. A “falência” dos sentimentos e do casamento que envolvem o drama interno de Camila está diretamente ligada à falência literal no plano econômico de Teodoro. Cresce também entre os homens a desconfiança em relação à figura feminina. Enquanto Teodoro ainda defende uma mulher idealizada e casta, o amigo e rival Gervásio corrobora com o olhar machista impregnado no discurso da sociedade, dizendo que até a mulher mais doce e mais honesta dissimula e engana com uma arte capaz de endoidecer o próprio Mefistófeles. O tema da ruína e da falência material se instala também no cenário com o chiar das cigarras – Camila sentirá a essência dessa destruição no seio da família, ou seja, dentro de seu próprio lar. Sem o marido Teodoro, que se matara, ela recorre à providência divina, diante de um ciclo se encerrou. Há uma sensação que correlaciona o fim da família com a decadência do Brasil, não só a família se desfizera como a ideia de país também é outra. A partir dos destroços, há uma ressignificação da jornada futura, um fundamento de desagregação e fragmentos morais, sentimentais e financeiros para constituir um novo caminho.
17VOLUME 3 LINGUAGENS, CÓDIGOS e suas tecnologias 2.1. Contexto O contexto da publicação da obra e de seu enredo compõem-se de um panorama do que era o Brasil no final do século XIX, sobretudo no que diz respeito ao lugar que a burguesia ocupava neste momento. As temáticas abordadas pela autora são inovadoras para a chamada camada intelectual da República Velha, ou seja, um momento deveras conturbado da realidade brasileira em que o livro foi escrito. O Rio de Janeiro é a capital federal e o contexto de produção se dá num período cuja política e a economia estão em plena transformação e instabilidade. Esse é o cenário que será o pano de fundo das ficções de Júlia Lopes de Almeida, sobretudo de A falência, lançado em 1901, que assim como o ambiente privado das famílias burguesas serve às tramas e à construção de seus personagens. Além do contexto de desenvolvimento literário girar em torno do ambiente nacional, a escritora extrapola os limites geográficos do Brasil e atuará também no exterior, em palestras e conferências sobre temas que eram caros à sua concepção artística, ou seja, os temas nacionais e a reflexão sobre a mulher brasileira. Júlia é pioneira no Brasil, no que diz respeito à reflexão sobre o papel da mulher na sociedade e participa ativamente de sociedades femininas no Rio de Janeiro. 2.2. Tempo O tempo da narrativa de A falência se passa no final do século XIX, no Rio de Janeiro. “Ano de 1891, em que o preço do café assumira proporções extraordinárias” (ALMEIDA, 2003) Francisco Teodoro é um imigrante português que conseguiu, mesmo diante de sua pobreza, ser considerado o maior comerciante de café do Rio de Janeiro. Por intermédio de uma exaustiva carga de trabalho, conseguiu ficar rico. Pensando nas questões contextuais aqui propostas, o personagem, inclusive, faz, diversas vezes, menções ao seu passado como uma forma de justificar sua postura ambiciosa. Entender esse processo é fundamental na análise da obra, uma vez que foi exatamente a partir destas questões aqui colocadas que o personagem se envolve em transações que vão leva- -lo, ao final da obra, à sua falência (justificativa do título da obra), perda de todos os bens, inclusive da casa da família. “Aquela infância de degredo era agora o seu triunfo. Vinha de longe a sua paixão pelo dinheiro; levado por ela, não conhecera outra mocidade. Todo o seu tempo, toda a sua vida tinham sido consagrados ao negócio. O negócio era o seu sonho de noite, a sua esperança de dia, o ideal a que atirava a sua alma de adolescente e de moço (...). Não pudera ser menino, não soubera ser moço, dera-se todo à deusa da fortuna, sem perceber que lhe sacrificava a melhor parte da vida. Para ele, o Brasil era o balcão, era o armazém atulhado, onde o esforço de cada indivíduo tem o seu prêmio. Fora do comércio não havia nada que lhe merecesse o desvio de um olhar (...)” (ALMEIDA, 2003) É possível perceber, a partir do trecho anteriormente destacado, os valores e a implementação dos princípios e ideologia capitalista já disseminada na sociedade burguesa, no final do século XIX. Por meio do trabalho, é possível pensar em subverter a posição social, todavia, muitos momentos de tranquilidade, descanso e tempo com a família são trocados por árduo trabalho. 2.3. Personagens A obra A falência gira em torno da família de Francisco Teodoro, composta pelo protagonista, por sua esposa, Camila, e seus filhos – Mário, Ruth, Lia e Raquel. Surge também Nina, a sobrinha agregada que vive em sua casa. É importante acrescentar um outro núcleo – para além da família de Francisco Teodoro –, outras personagens importantes para o desenvolvimento da trama: o doutor Gervásio (médico da família); o capitão Rino; e Noca, que é um serviçal. Além das personagens principais que desenvolvem as ações centrais na narrativa, é importante mencionar a existência de um número significativo de personagens secundários, que ocupam órbitas de diversos espaços contemplados na obra recebendo, por parte do narrador, uma atenção em momentos específicos. § Francisco Teodoro: é um cafeicultor; gordo, calvo e poderoso. § Gama Torres: negociante de café elogiado por Francisco. § Camila: esposa de Teodoro.
18VOLUME 3 LINGUAGENS, CÓDIGOS e suas tecnologias § Mário: é um dos quatro filhos do casal Teodoro e Camila. § Gervásio: é um médico, que constitui-se como letrado e é, também, amante de Camila. § Joaquim: dono de um armazém. § Senra: guarda-livros; contador. § Rino: é um oficial da Marinha, apaixonado por Camila. § Joana: tia de Camila. 2.4. Espaço O espaço em que se passa o enredo da obra A falência é o Rio de Janeiro urbano, onde os espaços vão se alternando públicos e privados. No romance como um todo, destaca- -se, primordialmente, o espaço urbano, sendo poucas as referências à natureza, exceto aquelas em que é destacado o jardim da casa de Teodoro. A cidade do Rio de Janeiro, na virada do século XX, pode, de alguma forma, ser considerada uma “personagem” – com todas as aspas teóricas –, na história. “O Rio de Janeiro ardia sob o sol de dezembro, que escaldava as pedras, bafejando um ar de fornalha na atmosfera” “Os armazéns, pelas bocas negras das suas portas escancaradas, vomitavam ainda sacas e sacas de café” “Já o trabalho descia torrencialmente por toda a larga rua. Carroções fragorosos abalavam os paralelepípedos, ameaçando esmagar tudo o que topassem adiante” A ideia explorada por meio dessa oposição é a de que estes são dois mundos diferentes, que para o homem se configuram no mundo do trabalho e o do descanso. Embora os espaços públicos sejam descritos detalhadamente sob uma óptica realista/naturalista, é possível perceber que o espaço privado ganha destaque no enredo com ações e descrições do mesmo. Por outro lado, não podemos deixar de mencionar a representação do espaço público em A falência, ou seja, as referências à cidade do Rio de Janeiro estão presentes em toda a obra, sobretudo em três momentos: os capítulos I, IV e XI. O comércio carioca surge no primeiro capítulo, em que é possível sentir o clima e ambiência do espaço. Vale perceber também a maneira como o foco da narração disserta sobre o lugar do trabalho masculino, que pode surgir como um contraponto significativo ao trabalho feminino (capítulo XXII). As cenas descritas na casa de Teodoro são, inicialmente, as refeições, às terças-feiras, quando Camila recebe visitas de outras senhoras da sociedade carioca, o baile e, posteriormente, enfocam mais frequentemente o escritório domiciliar, onde ocorre a cena de suicídio do protagonista. Além da alternância entre o espaço do trabalho e o espaço íntimo, do lar, podemos também estabelecer, mediante a inclusão de capítulos anteriormente não mencionados, uma alternância entre espaços abertos e fechados. Sobre os espaços, deve-se atentar para a seguinte divisão: § Aberto: Francisco Teodoro, o doutor Gervásio e o capitão Rino são apresentados em espaços abertos, ao pegar o bonde ou andar por diferentes bairros da capital. Verifica-se, por meio da voz narrativa, descrição que traz uma nítida sensação de que o espaço público é fundamentalmente masculino. Ao analisarmos tais espaços, percebemos um deslocamento maior das personagens masculinas, que transitam livremente entre a casa e a rua. O narrador revela uma significativa sensação desta premissa, por intermédio das situações das personagens supracitadas. A descrição do espaço público enfoca também a pobreza dos bairros de periferia, o que traz, do ponto de vista imagético, uma oposição à casa de Francisco Teodoro. A descrição do percurso de Teodoro, do escritório até seu palacete, aparece no capítulo II. Já nos capítulos IV e XI, surgem os deslocamentos e caminhadas do dr. Gervásio e do capitão Rino pelas vias públicas do Rio de Janeiro. O capítulo VI traz a visita ao navio do capitão Rino, da qual participam várias personagens. § Fechado: é importante mencionar que os espaços privados da narrativa não se limitam à casa de Teodoro, mas englobam a residência de outras personagens. Nos capítulos III e XIV, a voz narrativa ocupa-se da casa do Castelo, onde vivem as tias de Camila, e no capítulo XVI, da casa de Motta. Por fim, nos respectivos capítulos XXII e XXIII, surge a nova moradia em que a família vai morar, logo após a morte de Teodoro. Ainda no âmbito dos ambientes fechados, chegamos aos capítulos XXIV e XXV, nos quais são retratadas as ambientações relativas às casas do dr. Gervásio e de Catarina. § Casa comercial (trabalho de Teodoro): temos que, nos capítulos I, VII, XI, XIX, a ação se passa no ambiente de trabalho de Teodoro, a casa comercial. § Casa em Botafogo: nos capítulos II, V, VIII, IX, X, XIII, XV, XVIII, XX e XXI, o lugar explorado é o da casa que é um espaço de convívio da família, todavia, também é onde o personagem Teodoro possui o seu escritório. A casa de Botafogo é um dos espaços centrais da obra, pois é nele em que se desenvolve o relacionamento amoroso de Camila e dr. Gervásio.
19VOLUME 3 LINGUAGENS, CÓDIGOS e suas tecnologias 2.5. Foco narrativo O narrador de A falência é determinado como extra-heterodiegético, em que pode penetrar no âmbito psicológico de diversos personagens e se permite destilar opiniões sobre circunstâncias. Tal estratégia discursiva confere ao enredo aspectos de subjetividade – a técnica do monólogo interior, ou seja, quando o leitor tem acesso aos pensamentos e aos conflitos íntimos vividos por meio do discurso indireto. O narrador se encontra em um estrato estamental no que diz respeito à estrutura discursiva externa à obra, em que o espaço da narrativa surge por meio de intromissões estabelecendo uma relação entre os sentimentos das personagens e os espaços que pertencem ou estão inseridas. É justamente sobre a perspectiva da subversão do lugar social que esse aspecto da voz narrativa se constitui a partir do seu fazer no mundo, da sua relação com tempo despendido ao trabalho, ou seja, seu tempo destinado ao negócio. Esta voz narrativa não nega o trabalho em si, porém, Francisco Teodoro é apresentado como um comerciante sério e orgulhoso de seu poder aquisitivo. Como ele tem pouco estudo e formação intelectual, acaba projetando tanto em dr. Gervásio quanto em Inocêncio sua diminuição no plano da intelectualidade. Além disso, o espaço passa a ser determinante na caracterização das personagens. 2.6. Temas e principais conflitos O tema de A falência tem um duplo significado: além da interrupção de funcionamento da Casa Teodoro – origem da riqueza do protagonista –, encaminhará a discussão para uma segunda falência, aquela turbada pelo esgotamento de um modelo familiar corroído e que culmina em seu fim. É importante ressaltar o surgimento de uma nova condição feminina, mais autônoma, independente e corajosa. A questão do feminino passa a ser discutida a partir da uma premissa em que a mulher passa a ser dona de seus atos. Mesmo com suas perdas e negativas, ela não será mais passiva e não mais em simples objeto do amor masculino. O romance traça dois importantes retratos: § A ascensão e decadência do café, expressada na vida do comerciante Francisco Teodoro. § A luta persistente das mulheres brasileiras pela emancipação, encarnada em sua esposa, a frágil, mas determinada, Camila, com quem ele se casa no ano de 1891. O título da obra remete à falência do protagonista, que culminará em seu suicídio. A partir da história de Francisco Teodoro e seus familiares, amigos, amantes e agregados, Júlia Lopes vai cruzando histórias de personagens que retratam a realidade brasileira, na cidade do Rio de Janeiro do final do século XIX. Desde o início, a caracterização de Teodoro e a representação do trabalho vão preparando o interlocutor para seu final trágico. De um lado, a ambição e ganância do protagonista – valor negativo – e, por outro, as ações das mulheres da família, que são obrigadas a se sustentarem. Há uma oposição entre o trabalho masculino, mais valorizado e com mais visibilidade que e o feminino, que consiste na organização do lar e na realização das tarefas. Logo, o foco inicial é direcionado para o trabalho de Teodoro, um bem-sucedido comerciante de café do último quarto do século XIX. Para ele, o dinheiro favorece a possibilidade do luxo em que vive a família, ao contrário das atividades de Nina, por exemplo, que está imersa em atividades tipicamente femininas (para a época) e, claro, não remuneradas, cumprindo seu “destino de mulher”. “Só a Nina não sobravam horas para trabalhos de interesse; precisava dividir-se em todos os misteres domésticos; (...) Era um vai-vem cansativo, e ela sujeitava-se a tudo, pondo o encanto da sua paciência nos trabalhos mais rudes e pesados. Cumpria a sua missão de mulher, adoçando sofrimentos, serenando tempestades e conservando-se na meia sombra de um papel secundário” (ALMEIDA, 2003) O romance apresenta a personagem Camila, que busca grandes feitos, em meio à falência de um exportador de café – a constituição esférica de sua personalidade ressignifica a ideia tradicional da heroína romântica, revelando uma protagonista adúltera em busca de realização. Vale traçar um paralelo da constituição ficcional das personagens femininas com a própria biografia da autora. Por exemplo, ela foi uma das poucas mulheres a participar da série de conferências inauguradas por Coelho Neto e Olavo Bilac, motivando polêmicas a respeito do papel da mulher na arcaica sociedade brasileira. Aplicando para aprender 1. (Unicamp 2021) “Era Noca, que vinha toda alterada. – Nossa Senhora! Quebrou-se o espelho grande do salão! – Quem foi que o quebrou? Perguntou Nina, para dizer alguma coisa. – Ninguém sabe. Veja só, que desgraça estará para acontecer! Espelho quebrado: morte ou ruína. – Morte! Se fosse a minha...” (Júlia Lopes de Almeida, A Falência. Campinas: Editora da Unicamp, 2018, p. 257.) O diálogo apresenta a reação das personagens femininas ao incidente doméstico com o objeto de decoração no palacete de Botafogo. Assinale a alternativa que justifica a fala final de Nina.
20VOLUME 3 LINGUAGENS, CÓDIGOS e suas tecnologias a) A destruição do espelho a leva a desejar a morte, pois sugere o alívio para a frustração amorosa. b) A quebra do espelho lhe provoca o temor da morte, uma vez que antecipa a ruína financeira. c) A destruição do espelho traz a certeza da morte, pois sinaliza o suicídio do ser amado. d) A quebra do espelho a faz desejar a morte, pois sugere a catástrofe amorosa do casamento. 2. (Unicamp 2021) “– Reputação! Ora, mamãe, e é a senhora quem me fala nisso! Camila estacou, sem atinar com a resposta, compreendendo o alcance das palavras do filho. A surpresa paralisou-lhe a língua; o sangue arrefeceu- -se-lhe nas veias; mas, de repente, a reação sacudiu-a e então, num desatino, ferida no coração, ela achou para o Mário admoestações mais ásperas. Percebeu que a língua mais dizia que a sua vontade; mas não poderia contê-la. A dor atirava-a para diante, contra aquele filho, até então poupado.” (Júlia Lopes de Almeida, A falência. Campinas: Editora da Unicamp, 2018, p. 123.) A passagem apresenta a reação de Camila às palavras de seu filho. Assinale a alternativa que explica corretamente o comentário de Mário. a) Mário contrapõe-se à censura materna com sentimento de compaixão. b) Mário rejeita as reservas maternas com censura moral. c) Mário contrapõe-se à censura materna com desdém pela família. d) Mário rejeita as reservas maternas com vergonha pelas dívidas acumuladas. 3. (Unicamp 2021) “A literatura deve, portanto, ser lida e estudada porque oferece um meio de preservar e transmitir a experiência dos outros, aqueles que estão distantes de nós no espaço e no tempo, ou que diferem de nós por suas condições de vida. Ela nos torna sensíveis ao fato de que os outros são muito diversos e que seus valores se distanciam dos nossos.” (Antoine Compagnon, Literatura para quê? Belo Horizonte: Editora UFMG, 2009, p. 46-47.) “E tudo dela repugnava a Ruth: a estupidez, a humildade, a cor, a forma, o cheiro; mas percebera que também ali havia uma alma e sofrimento, e então, com lágrimas nos olhos, perguntava a Deus, ao grande Pai misericordioso, por que a criara, a ela, tão branca e tão bonita, e fizera com o mesmo sopro aquela carne de trevas, aquele corpo feio da Sancha imunda? Que reparasse aquela injustiça tremenda e alegrasse em felicidade perfeita o coração da negra. – Sim, o coração dela deve ser da mesma cor que o meu, cismava Ruth, confusa, com os olhos no altar.” (Júlia Lopes de Almeida, A falência. Campinas: Editora da Unicamp, 2018, p. 235.) a) Indique duas palavras do texto de A falência que marcam a tensão entre matéria e espírito. Explique como essa tensão é vivida pela personagem. b) Relacione as duas últimas frases da passagem do romance com as reflexões de Compagnon, considerando as condições de trabalho na sociedade brasileira ao final do século XIX. 4. (Unicamp 2020) Resumindo seus pensamentos de vencido, Francisco Teodoro disse alto, num suspiro: – Trabalhei, trabalhei, trabalhei, e aqui estou como Jó! (...) – Como Jó! Repetiu ele furioso, arrancando as barbas e unhando as faces. Não lhe bastava o arrependimento, a dor moral, queria o castigo físico, a maceração da carne, para completa punição da sua inépcia. Não saber guardar a felicidade, depois de ter sabido adquiri-la, é sinal de loucura. Ele era um doido? Sim, ele era um doido. Tal qual o avô. Riu alto; ele era um doido! (Júlia Lopes de Almeida, A Falência. Campinas: Editora da Unicamp, 2018, p. 296.) a) O protagonista de A Falência encarna um tipo representativo da sociedade brasileira do século XIX. Aponte quatro características desse tipo social constatadas na trajetória de Francisco Teodoro. b) No excerto acima, o narrador se detém no momento em que o protagonista, atormentado, revê sua trajetória e se recorda do avô. Caracterize a voz narrativa nesse excerto e explique seu funcionamento. Gabarito 1. O acidente com o espelho faz com que Nina, infeliz por não ser correspondida na paixão que nutria pelo primo Mário, deseje que a má sorte atribuída a uma quebra de espelho se abata sobre ela e lhe provoque a morte. Assim, é correta a opção [A]. 2. O comentário de Mário, repreendido por ter um relacionamento amoroso com uma mulher francesa de má reputação, alude ao comportamento imoral da mãe que tinha uma relação extraconjugal com o Dr. Gervásio. Trata-se, pois, de uma forma de contrariar as reservas maternas com uma censura moral, como transcrito em [B]. 3. a) As palavras “alma” e “corpo” marcam a tensão entre matéria e espírito experimentada pela personagem Ruth quando, acompanhada pela tia Joana, vai à igreja assistir à missa. Ao lembrar os castigos que a tia Itelvina tinha infligido a Sancha, Ruth questiona a justiça divina que tinha criado as duas de forma tão oposta: “a ela, tão branca e tão bonita, e fizera com o mesmo sopro aquela carne de trevas, aquele corpo feio da Sancha imunda”.
21VOLUME 3 LINGUAGENS, CÓDIGOS e suas tecnologias b) Segundo Compagnon, um dos efeitos produzidos pela literatura é transmitir ao leitor a experiência de outros que podem estar distantes no espaço, tempo ou vivências do seu cotidiano, o que os tornaria mais tolerantes à diversidade do contexto em que outros vivem ou dos valores que lhe são imanentes. Ao comparar-se com Sancha, Ruth apela a deus que reparasse as injustiças de uma criação tão desigual em seres humanos dotados dos mesmos sentimentos e emoções, mas sujeitos às desigualdades sociais típicas de uma sociedade escravocrata. Assim, o romance, através da fala da personagem Sancha, branca e de origem burguesa, permite ao leitor perceber a crueldade de um sistema social discriminatório do final do século XIX, que impõe ao afrodescendente condições de trabalho humilhantes e adota, para com ele, comportamentos preconceituosos. 4. a) Francisco Teodoro é um negociante português que fez fortuna no Rio de Janeiro, que, na virada do século XIX para o XX, vivia um processo de modernização intensificado pela emergência da República e o preço do café assumira grandes proporções. Imigrante pobre, Teodoro conseguiu, por meio do trabalho árduo, enriquecer. Ambicioso, mas de pouco estudo, vê em Dr. Gervásio e em Inocêncio uma superioridade intelectual que o leva a envolver-se em transações que desembocam, ao final da narrativa, em sua falência e na perda de todos os bens, inclusive da casa da família. Assim, ambição, ganância, inveja e covardia perante o fato de não corresponder ao padrão da sociedade burguesa e patriarcal da época constituem características fundamentais que o levam ao suicídio. b) Trata-se do discurso indireto livre, uma modalidade de técnica narrativa resultante da mistura dos discursos direto e indireto. O narrador pode não apenas reproduzir indiretamente as falas dos personagens, mas também os seus pensamentos e sentimentos, de forma semelhante a um monólogo interior dos personagens, mas expresso pelo narrador e reproduzido na forma como os personagens o diriam.
22VOLUME 3 LINGUAGENS, CÓDIGOS e suas tecnologias 1. Fernando Pessoa Fernando Pessoa (1888-1935) foi um dos mais importantes poetas da língua portuguesa e figura central do Modernismo português. Poeta lírico e nacionalista, cultivou uma poesia voltada aos temas tradicionais de Portugal e ao seu lirismo saudosista, que expressa reflexões sobre seu “eu profundo”, suas inquietações, sua solidão e seu tédio. Foi vários poetas ao mesmo tempo, criou heterônimos – poetas com personalidades próprias que escreveram sua poesia. Nasceu em Lisboa, Portugal, no dia 13 de junho de 1888. Filho de Joaquim de Seabra Pessoa, natural de Lisboa, e de Maria Magdalena Pinheiro Nogueira Pessoa, natural dos Açores. Ficou órfão de pai aos 5 anos de idade. Seu padrasto era o comandante militar João Miguel Rosa, que foi nomeado cônsul de Portugal em Durban, na África do Sul. Acompanhando a família, Fernando Pessoa seguiu para a África do Sul, onde recebeu educação inglesa no colégio de freiras e na Durban High School. Escreveu seus primeiros poemas em inglês, em 1901. No ano seguinte, a família voltou para Lisboa. Em 1903, Fernando Pessoa retornou sozinho para a África do Sul e frequentou a Universidade de Capetown (Cabo da Boa Esperança). Regressou a Lisboa, em 1905, e matriculou-se na Faculdade de Letras, onde ingressou no curso de Filosofia, abandonando-a dois anos depois. Em 1912, estreou como crítico literário, na revista Águia, e como poeta, em A renascença (1914). A partir de 1915, liderou o grupo mentor da revista Orpheu, no qual faziam parte Mário de Sá-Carneiro, Raul Leal, Luís de Montalvor, Almada- -Negreiros e o brasileiro Ronald de Carvalho. A revista foi a porta-voz dos ideais de renovação futurista desejados pelo grupo, defendendo a liberdade de expressão, numa época em que Portugal atravessava uma profunda instabilidade político-social da primeira república. Nessa época, criou seus heterônimos principais. A revista Orpheu teve vida curta, mas Fernando Pessoa publicou poemas que escandalizaram a sociedade conservadora da época. Os poemas “Ode triunfal” e “Opiário”, escritos por seu heterônimo Álvaro de Campos, provocaram reações violentas levando os “orfistas” a serem apontados, nas ruas, como loucos e insanos. (Adaptado de: https://www.ebiografia.com/fernando_pessoa) 1.1. Contexto A monarquia portuguesa passava por um momento de descrença e os primeiros anos de século XX foram deveras conturbados. No ano de1910, foi proclamada a República, mas as mudanças sociais que eram esperadas não aconteceram. Desse modo, surgiram dissidências internas, o que levou à instabilidade da democracia portuguesa. Nessa litografia popular que representa os principais eventos da revolução que proclamou a República, veem-se os seguintes momentos: no primeiro plano, os chefes e os civis que tomaram parte na luta; acima, o bombardeamento do palácio real pelos navios de guerra e o embarque da família real para o exílio; há ainda os jesuítas sendo presos por revolucionários. A Alemanha declarou guerra a Portugal em 1916 e, já no ano seguinte, ao lado dos países aliados, um corpo expedicionário de 55 mil portugueses e muitas tropas seguiram para Angola e Moçambique, países africanos, limítrofes com colônias da Alemanha. Tanto na Europa quanto na África, a guerra causou enormes perdas, mas permitiu que Portugal se incluísse entre os vencedores no Tratado de Versalhes. A Primeira Guerra Mundial havia assolado a Europa e muitos artistas portugueses regressaram a Portugal. O MARINHEIRO Fernando Pessoa LC OBRA 16
23VOLUME 3 LINGUAGENS, CÓDIGOS e suas tecnologias 1.2. Estilo de época O poeta Fernando Pessoa é classificado como modernista, já que foi um dos autores que introduziu o movimento em Portugal. Em conjunto com escritores como Mário de Sá Carneiro, Almada Negreiros e o brasileiro Ronald de Carvalho, publicou, em 1915, a revista Orpheu, marco inicial da escola literária em Portugal. As perspectivas do Modernismo representavam reflexões sobre identidade nacional e verdade existencial do povo e do artista. Além disso, não podemos deixar de citar – sobretudo para o entendimento da obra O marinheiro –, a destreza com que Pessoa criou diferentes heterônimos, com seus diferentes estilos, matérias poéticas etc. O poeta escreveu também poemas em inglês (devido a sua vivência, durante a infância, na África do Sul), poesias líricas e poesias históricas com caráter nacionalista. A instabilidade europeia do início do século XX chegou também a Portugal, marcando um tempo de muita insatisfação, sobretudo em relação à crise liberal-burguesa. Nessa época, surgiu um novo individualismo cultivado pelos primeiros modernistas. Para eles, o eu não deveria estar relacionado com algo imposto pela sociedade. Surgiu, também, o intuicionismo, como um conhecimento do mundo oriundo da espontaneidade. O Cubismo e o Futurismo foram os movimentos das vanguardas europeias que mais influenciaram a escola literária do Modernismo português. 1.3. Tema “O marinheiro” é um texto em que Fernando Pessoa faz uma aprofundada meditação sobre alguns temas, tais como: § Sobre a realidade e irrealidade do mundo e da vida § A angústia da passagem do tempo e da condição humana § Oposição é entre a vida e o sonho (imagens oníricas) § Jogos mentais dinâmicos e contrastantes com a imobilidade das personagens 1.4. Elemento mar Durante a leitura do texto, é possível perceber “o mar” como uma referência fundamental tanto como elemento literal, mas também como símbolo de escrita de um Fernando Pessoa tão atento à importância do mar para seu povo, suscitada no famoso poema da obra Mensagem (1934), com o poema “Mar português”. Em O marinheiro, são várias as referências marítimas, mesmo antes de chegar-se ao sonho do “marinheiro”. Como conta-nos a segunda veladora, que vivera num outro país, em que avistava o mar e, por vezes, também era possível ver uma ilha distante. Tais elementos marítimos servem como metáforas para as suas buscas interiores, que exteriorizavam naquele quarto: “(...) é o gesto com que falam das sereias (...)” “Há ondas na minha alma (...)” “Levei a vida pela mão entre os rochedos, maré-baixa, quando o mar parece ter cruzado as mãos (...)” “À beira-mar somos tristes quando sonhamos (...)” “(...) esse que vedes busca um porto qualquer (...)” “Quando a onda se espalha e a espuma chia (...)” “Ela conhece as palavras que as sereias lhe ensinaram (...)” Durante as recordações ainda não relatadas por completo, a segunda veladora narra a sua infância junto ao mar: “vivia entre rochedos e espreitava o mar”. Conta que um dia viu uma vela de passagem ao longe, contudo era uma vela especial, naquele barco navegava um marinheiro e este, no seu sonho, perdeu-se numa ilha longínqua. Nessa ilha vivia um marinheiro sem meios de regressar à pátria, e sofria toda vez que se recordava desta, passando a idealizar uma pátria que nunca tinha existido. A cada hora que passava, o marinheiro ia, em sonho, construindo, dia após dia (cita-se que isso durou meses e anos), sua falsa ideia de pátria metafísica.
24VOLUME 3 LINGUAGENS, CÓDIGOS e suas tecnologias 2. O marinheiro O marinheiro é um dos poucos, e porque não dizer raros, textos dramáticos de Fernando Pessoa que tematiza, de maneira simbolista, o sonho e as vidas imaginadas (criadas inclusive pela experiência da heteronomia), em que a força da palavra – da poesia – se coloca em primeiro plano. Na peça, três jovens irmãs conversam enquanto velam uma moça, noite adentro. As horas demoram a passar e elas, ali paradas, começam a conversar e lembrar do passado, uma espécie de não-lugar feliz de outrora. Contudo, essa ideia de felicidade fica em suspensão, uma vez que os diálogos se estruturam numa espécie de questionamento sobre o sentido da vida. No desenrolar do enredo, o marinheiro não consegue distinguir realidade e sonho. A dúvida e a irrealidade estão na essência da situação proposta por Fernando Pessoa. Um marinheiro perdido constrói para si um novo passado e povoa o silêncio desse encontro. No raiar do dia, as jovens se dão conta das histórias que permearam aquela noite e percebem-se entre o sonho e a realidade. Fica imbricado, nesta reflexão da aurora, a dimensão ficcional de si mesmas. De alguma forma, podemos inferir que o escritor Fernando Pessoa fornece, de maneira genial, uma sugestão de que nos conformemos com nossas vidas. A proposta pela simbologia das circunstâncias dramatizadas, ao colocar os seus personagens tão vivos como os humanos, é para nos entendermos tão “fictícios” quanto eles. 2.1. Influência do Simbolismo O Simbolismo é um movimento artístico que ocorreu no final do século XIX nas artes em geral, mas costumamos associar seu surgimento sobretudo na poesia, ao princípio da modernidade. Em Portugal, mais do que no Brasil, por exemplo, o Simbolismo influenciou e muito os artistas e, claro, nos interessa pensar como isso ocorreu em Fernando Pessoa, em especial na obra O marinheiro, que é carregada destas premissas. Uma questão do teatro simbolista é que não possui grande caracterização para que o interlocutor imagine a encenação do texto, tudo muito simples, não nos restringindo a algo muito específico. Na primeira conversa das veladoras, misturada à dimensão psicológica – pensamentos – de cada uma, o autor dá uma sugestão de uma história qualquer que seria contada apenas para que se quebre o silêncio. Uma das irmãs propõe que elas conversem sobre o passado. Começa então um mergulho na lógica da memória, em que aquela espécie de “fuga da realidade” irá aprisioná-las no mundo dos sonhos e na dimensão imaterial da realidade descrita sob a égide do lembrar. Idealizar um passado bastava para recusarem o passado que lhes pertenceu, como se o imaginário as redimisse de qualquer dor, pois pode-se recriar a realidade, características típicas do Simbolismo. É preciso observar de que maneira esta recuperação da infância indica que o presente se esvai na metáfora da morte do presente, com a literalidade da presença de um corpo sendo velado. As veladoras tinham medo de encarar as suas vidas na realidade e preferiam os sonhos. 2.2. O sonho A segunda veladora inicia uma recuperação de memória e conta sobre um sonho que teve. A história que ela nos apresenta é de um marinheiro, perdido numa ilha longínqua. Ele também sonha, com uma pátria que inventou. A cada dia, inventa novas paisagens, pessoas e acontecimentos, até que se cansa de sonhar e tenta lembrar-se de sua pátria verdadeira, contudo, não consegue, pois se esquecera de tudo. 2.3. Gênero: drama estático É um drama estático na imagem, no espaço, porque, no correr dos trilhos deste drama, tudo é inquietação. “Chamo teatro estático àquele cujo enredo dramático não constitui ação – isto é, onde as figuras não só não agem, porque nem se deslocam nem dialogam sobre deslocarem-se, mas nem sequer têm sentidos capazes de produzir uma ação; onde não há conflito nem perfeito enredo. Dir-se-á que isto não é teatro. Creio que o é porque creio que o teatro tende a teatro meramente lírico e que o enredo do teatro é, não a ação nem a progressão e consequência da ação – mas, mais abrangentemente, a revelação das almas através das palavras trocadas e a criação de situações (...). Pode haver revelação
25VOLUME 3 LINGUAGENS, CÓDIGOS e suas tecnologias de almas sem ação, e pode haver criação de situações de inércia, momentos de alma sem janelas ou portas para a realidade.” Estética e de teoria literárias. Fernando Pessoa. (Textos estabelecidos e prefaciados por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1966, p. 113. Fernando Pessoa se refere ao caráter dramático de sua poesia em várias circunstâncias, sobretudo em sua heteronomia. Segundo ele, seu próprio drama se projeta na obra de cada heterônimo. Reunidos numa perspectiva de mosaico, formariam ele mesmo e, principalmente, um outro drama, como se fizéssemos a leitura de um drama dentro de outro drama. A literatura é a expressão verbal; e literatura dramática, quando a narrativa sintetiza esta expressão objetiva, logo, o drama é um romance em síntese. De maneira magistral, o poeta Fernando Pessoa irá compor um poema dramático, ou seja, um cross-over entre dois gêneros: a poesia e o teatro. Ao ler esta obra, devemos atentar-nos para essa questão estrutural, no que diz respeito ao objetivo de um texto escrito para ser encenado. E, neste sentido, estratégias, como a estrutura dialógica (rubricas) e a preocupação de escrever pensando que um ator irá ler o texto e encená-lo, devem fazer parte das reflexões de uma boa leitura. Assim como o poeta lida com o verso, o dramaturgo vale-se do diálogo, que requer um encadeamento próprio, porque é transmitido pelo ator. Teatro é um espetáculo que exige vários colaboradores e um público; já o texto teatral é literatura que exige um autor e um leitor. Logo, o poeta dramático – no caso, Fernando Pessoa – cria a sua obra imaginando um público nas duas dimensões, de leitor e expectador no teatro em frente a um palco. Um dado importante e que merece atenção especial é que o texto não carrega muitas indicações cênicas ao longo do texto, em comparação a textos dramáticos tradicionais. Todavia, existem referências, anotações, indicações de cenário, posicionamento de objetos, entonação de voz etc. Podemos citar exemplos de indicações cênicas as “pausas” inseridas no texto. 2.4. Espaço “Um quarto que é sem dúvida num castelo antigo. Do quarto vê-se que é circular. Ao centro ergue-se, sobre uma essa, um caixão com uma donzela, de branco. Quatro tochas aos cantos. À direita, quase em frente a quem imagina o quarto, há uma única janela, alta e estreita, dando para onde só se vê, entre dois montes longínquos, um pequeno espaço de mar.” O marinheiro nos leva até a atmosfera de um “lugar sem espaço”, um tempo sem tempo, onde a alma volta-se a si mesma, desbravando as ilusões e imaginações, uma espécie de pausa no tempo e no espaço. “Um quarto que é sem dúvida num castelo antigo” – com este texto inicial, Fernando Pessoa põe-nos logo em dúvida, dá a ideia que nem isto é certo, poderia ser ali como num outro sítio qualquer. “Ao centro ergue-se (...) um caixão com uma donzela, de branco. (...) há uma única janela, alta e estreita, dando para onde só se vê, entre dois montes longínquos, um pequeno espaço de mar. Do lado da janela velam três donzelas.”. Toda a história transcorre num quarto onde três veladoras conversam sem trânsito, ou seja, jamais saem do seu lugar. O ambiente é caracterizado tipicamente como simbolista: o quarto é isolado do mundo exterior, em que a comunicação se dá apenas através de uma única janela, uma metáfora que reforça a questão do isolamento interior e exterior. O símbolo de toda a peça é o caixão, central na cena, numa indicação da presença constante da morte. As três jovens irmãs não têm nomes, uma espécie de tentativa de despersonalização material para que o foco gire em torno do sentir e do pensar. Essa fugacidade da realidade, a espiritualidade, a subjetiva, a sugestão da ideia de captação do mundo e dos sentidos das coisas são fundamentalmente características oriundas do símbolo. Considerando estes aspectos, é preciso perceber o significante simbólico daquilo que o texto se propõe, no sentido de trazer elementos de correspondência negativa. O espaço é circular, fixo e, principalmente, fechado, portanto, ele se estrutura na contramão da imaginação, que é livre para recriar o passado e suas viagens que transcendem a realidade. No primeiro, está a morte; já no segundo, está o sonho. Em ambos, movem-se quatro personagens: de um lado, as veladoras – pertencentes a ambos – e a morta, que só pertence ao primeiro. O marinheiro só é evocado no segundo plano (imaginação). O quarto é o palco, espaço sinestésico das realizações do pensamento, representado existencialmente pela impotência do homem. 2.5. Personagens “Do lado da janela velam três donzelas. A primeira está sentada em frente à janela, de costas contra a tocha de cima da direita. As outras duas estão sentadas uma de cada lado da janela.” 2.5.1. Veladoras (irmãs) As personagens do poema dramático de Fernando são três donzelas intituladas “veladoras” – primeira, segunda e terceira –, que velam num quarto circular de uma torre. Elas são três irmãs que aguardam o amanhecer participando de um velório. No começo, surgem como personagens distintas, porém, aos poucos, vão suas identidades se diluindo num processo de despersonalização material.
26VOLUME 3 LINGUAGENS, CÓDIGOS e suas tecnologias Em um dado momento, o leitor tem a sensação de serem reduzidas a uma só. Porém, mesmo que as veladoras sejam apenas vozes, e não necessariamente personagens, vale dar atenção ao que elas pensam (imaginação e sonho), ou seja, a simbologia da interioridade simbólica de cada uma. Sonho que pode ser de um marinheiro, perdido numa ilha longínqua e que sonha, também, com uma pátria que perdeu, ou antes, “que nunca tivesse tido”. Assim, a distinção entre sonho e realidade é questionada, quando uma das veladoras se pergunta se, na verdade, não seriam elas o sonho do marinheiro e ele a única coisa real de toda a situação. Enquanto a primeira e a segunda veladoras perguntam- -se sobre imagens de situações misteriosas apresentadas pela memória, a terceira é mais racionalista e normalmente assume dimensão. Do ponto de vista da ficção e de um passado imaginário, as três veladoras relembram o passado vivido, porém, a infância de cada uma é diferente da outra. Uma conta ter vivido em outro país e que era muito mais alegre que no momento da enunciação, onde via o mar e, por vezes, uma ilha. A outra diz ter sido feliz para além dos montes, quando era pequenina. A terceira conta que, à beira da sua casa natal, havia um lago, onde molhava os pés, e que no entorno havia árvores grossas. O leitor descobre, então, que as irmãs não viveram no mesmo espaço na infância, percebe-se que a convivência das mesmas se dá, pela primeira vez, naquele quarto da torre, diante de um caixão. As protagonistas do espetáculo são apresentadas em estado de passividade, que falam de uma vida não propriamente analisada, mas refletida na sua aspiração de imaterialidade onírica e fantástica. 2.5.2. O marinheiro O marinheiro, título do espetáculo, é um ideólogo e um patriota, uma espécie de caracterização que sempre marcou a obra e personalidade poética de Fernando Pessoa. Fica a pergunta: será que talvez este marinheiro não seja ele mesmo? Certo dia, o marinheiro cansou-se de sonhar e buscou lembrar de sua verdadeira pátria. Todavia, não consegue lembrar-se de como ela é, os contornos da cidade e as paisagens em geral. Não há um fim explícito nem inteiramente falso. Da mesma forma que as veladoras lutam por esta necessidade de sonhar, o marinheiro também lutou. 2.6. Tempo (narrativa e psicológico) “É noite e há como que um resto vago de luar.” Para entender a passagem lenta do tempo, as três personagens mergulham em sua imaginação (aspecto e dimensão psicológica) e criam histórias que traduzem seus sonhos. Um deles fala de um marinheiro que, após escapar de um naufrágio, refugia-se em uma ilha e ali cria para si mesmo um passado absolutamente fictício, apenas para combater a solidão e o ócio. A questão dos limites entre o sonho e a realidade é a confirmação de um texto que não se pertence a si próprio, que fala não apenas com a sua voz, mas com a voz que antecipa a de outros. A supressão do tempo remete a elementos claramente simbolistas: a efemeridade das coisas e do tempo; o desejo de viver não a vida, mas o sonho; a vida pacata que delineia o quanto são frágeis e, neste caso é muito importante, os limites entre a vida e a morte. As três veladoras têm medo e tédio. 2.7. A obra na íntegra O marinheiro Drama estático em um quadro A Carlos Franco Um quarto que é sem dúvida num castelo antigo. Do quarto vê-se que é circular. Ao centro ergue-se, sobre uma essa, um caixão com uma donzela, de branco. Quatro tochas aos cantos. À direita, quase em frente a quem imagina o quarto, há uma única janela, alta e estreita, dando para onde só se vê, entre dois montes longínquos, um pequeno espaço de mar.
27VOLUME 3 LINGUAGENS, CÓDIGOS e suas tecnologias Do lado da janela velam três donzelas. A primeira está sentada em frente à janela, de costas contra a tocha de cima da direita. As outras duas estão sentadas uma de cada lado da janela. É noite e há como que um resto vago de luar. PRIMEIRA VELADORA — Ainda não deu hora nenhuma. SEGUNDA — Não se pode ouvir. Não há relógio aqui perto. Dentro em pouco deve ser dia. TERCEIRA — Não: o horizonte é negro. PRIMEIRA — Não desejais, minha irmã, que nos entretenhamos contando o que fomos? É belo e é sempre falso... SEGUNDA — Não, não falemos nisso. De resto, fomos nós alguma cousa? PRIMEIRA — Talvez. Eu não sei. Mas, ainda assim, sempre é belo falar do passado... As horas têm caído e nós temos guardado silêncio. Por mim, tenho estado a olhar para a chama daquela vela. Às vezes treme, outras torna-se mais amarela, outras vezes empalidece. Eu não sei por que é que isso se dá. Mas sabemos nós, minhas irmãs, por que se dá qualquer cousa?... (uma pausa) A MESMA — Falar do passado — isso deve ser belo, porque é inútil e faz tanta pena... SEGUNDA — Falemos, se quiserdes, de um passado que não tivéssemos tido. TERCEIRA — Não. Talvez o tivéssemos tido... PRIMEIRA — Não dizeis senão palavras. E tão triste falar! É um modo tão falso de nos esquecermos!... Se passeássemos?... TERCEIRA — Onde? PRIMEIRA — Aqui, de um lado para o outro. As vezes isso vai buscar sonhos. TERCEIRA — De quê? PRIMEIRA — Não sei. Porque o havia eu de saber? (uma pausa) SEGUNDA — Todo este país é muito triste... Aquele onde eu vivi outrora era menos triste. Ao entardecer eu fiava, sentada à minha janela. A janela dava para o mar e às vezes havia uma ilha ao longe... Muitas vezes eu não fiava; olhava para o mar e esquecia-me de viver. Não sei se era feliz. Já não tornarei a ser aquilo que talvez eu nunca fosse... PRIMEIRA — Fora de aqui, nunca vi o mar. Ali, daquela janela, que é a única de onde o mar se vê, vê-se tão pouco!... O mar de outras terras é belo? SEGUNDA — Só o mar das outras terras é que é belo. Aquele que nós vemos dá-nos sempre saudades daquele que não veremos nunca... (uma pausa) PRIMEIRA — Não dizíamos nós que íamos contar o nosso passado? SEGUNDA — Não, não dizíamos. TERCEIRA — Por que não haverá relógio neste quarto? SEGUNDA — Não sei... Mas assim, sem o relógio, tudo é mais afastado e misterioso. A noite pertence mais a si própria... Quem sabe se nós poderíamos falar assim se soubéssemos a hora que é? PRIMEIRA — Minha irmã, em mim tudo é triste. Passo Dezembros na alma... Estou procurando não olhar para a janela.. Sei que de lá se veem, ao longe, montes... Eu fui feliz para além de montes, outrora... Eu era pequenina. Colhia flores todo o dia e antes de adormecer pedia que não mas tirassem... Não sei o que isto tem de irreparável que me dá vontade de chorar... Foi longe daqui que isto pôde ser... Quando virá o dia?... TERCEIRA — Que importa? Ele vem sempre da mesma maneira... sempre, sempre, sempre... (uma pausa) SEGUNDA — Contemos contos umas às outras... Eu não sei contos nenhuns, mas isso não faz mal... Só viver é que faz mal... Não rocemos pela vida nem a orla das nossas vestes... Não, não vos levanteis. Isso seria um gesto, e cada gesto interrompe um sonho... Neste momento eu não tinha sonho nenhum, mas é-me suave pensar que o podia estar tendo... Mas o passado — por que não falamos nós dele? PRIMEIRA — Decidimos não o fazer... Breve raiará o dia e arrepender-nos-emos... Com a luz os sonhos adormecem... O passado não é senão um sonho... De resto, nem sei o que não é sonho. Se olho para o presente com muita atenção, parece-me que ele já passou... O que é qualquer cousa? Como é que ela passa? Como é por dentro o modo como ela passa?... Ah, falemos, minhas irmãs falemos alto, falemos todas juntas... O silêncio começa a tomar corpo, começa a ser cousa... Sinto-o envolver-me como uma névoa... Ah, falai, falai!... SEGUNDA — Para quê?... Fito-vos a ambas e não vos vejo logo... Parece-me que entre nós se aumentaram abismos... Tenho que cansar a ideia de que vos posso ver para poder chegar a ver-vos... Este ar quente é frio por dentro, naquela parte que toca na alma... Eu devia agora sentir mãos impossíveis passarem-me pelos cabelos — é o gesto com que falam das sereias... (Cruza as mãos sobre os joelhos.
28VOLUME 3 LINGUAGENS, CÓDIGOS e suas tecnologias Pausa). Ainda há pouco, quando eu não pensava em nada, estava pensando no meu passado. PRIMEIRA — Eu também devia ter estado a pensar no meu... TERCEIRA — Eu já não sabia em que pensava... No passado dos outros talvez..., no passado de gente maravilhosa que nunca existiu... Ao pé da casa de minha mãe corria um riacho... Por que é que correria, e por que é que não correria mais longe, ou mais perto?... Há alguma razão para qualquer cousa ser o que é? Há para isso qualquer razão verdadeira e real como as minhas mãos?... SEGUNDA — As mãos não são verdadeiras nem reais... São mistérios que habitam na nossa vida... às vezes, quando fito as minhas mãos, tenho medo de Deus... Não há vento que mova as chamas das velas, e olhai, elas movem- -se... Para onde se inclinam elas?... Que pena se alguém pudesse responder!... Sinto-me desejosa de ouvir músicas bárbaras que devem agora estar tocando em palácios de outros continentes... É sempre longe na minha alma... Talvez porque, quando criança, corri atrás das ondas à beira- -mar. Levei a vida pela mão entre rochedos, maré-baixa, quando o mar parece ter cruzado as mãos sobre o peito e ter adormecido como uma estátua de anjo para que nunca mais ninguém olhasse... TERCEIRA — As vossas frases lembram-me a minha alma... SEGUNDA — É talvez por não serem verdadeiras... Mal sei que as digo... Repito-as seguindo uma voz que não ouço, mas que está segredando... Mas eu devo ter vivido realmente à beira-mar... Sempre que uma cousa ondeia, eu amo-a... Há ondas na minha alma... Quando ando embalo-me... Agora eu gostaria de andar... Não o faço porque não vale nunca a pena fazer nada, sobretudo o que se quer fazer... Dos montes é que eu tenho medo... É impossível que eles sejam tão parados e grandes... Devem ter um segredo de pedra que se recusam a saber que têm... Se desta janela, debruçando-me, eu pudesse deixar de ver montes, debruçar-se-ia um momento da minha alma alguém em quem eu me sentisse feliz... PRIMEIRA — Por mim, amo os montes... Do lado de cá de todos os montes é que a vida é sempre feia... Do lado de lá, onde mora minha mãe, costumávamos sentarmo-nos à sombra dos tamarindos e falar de ir ver outras terras... Tudo ali era longo e feliz como o canto de duas aves, uma de cada lado do caminho... A floresta não tinha outras clareiras senão os nossos pensamentos... E os nossos sonhos eram de que as árvores projetassem no chão outra calma que não as suas sombras... Foi decerto assim que ali vivemos, eu e não sei se mais alguém... Dizei-me que isto foi verdade para que eu não tenha de chorar... SEGUNDA — Eu vivi entre rochedos e espreitava o mar... A orla da minha saia era fresca e salgada batendo nas minhas pernas nuas... Eu era pequena e bárbara... Hoje tenho medo de ter sido... O presente parece-me que durmo... Falai-me das fadas. Nunca ouvi falar delas a ninguém... O mar era grande demais para fazer pensar nelas... Na vida aquece ser pequeno... Éreis feliz, minha irmã? PRIMEIRA — Começo neste momento a tê-lo sido outrora... De resto, tudo aquilo se passou na sombra... As árvores viveram-no mais do que eu... Nunca chegou nem eu mal esperava... E vós irmã, por que não falais? TERCEIRA — Tenho horror a de aqui a pouco vos ter já dito o que vos vou dizer. As minhas palavras presentes, mal eu as digo, pertencerão logo ao passado, ficarão fora de mim, não sei onde, rígidas e fatais... Falo, e penso nisto na minha garganta, e as minhas palavras parecem-me gente... Tenho um medo maior do que eu. Sinto na minha mão, não sei como, a chave de uma porta desconhecida. E toda eu sou um amuleto ou um sacrário que estivesse com consciência de si próprio. É por isto que me apavora ir, como por uma floresta escura, através do mistério de falar... E, afinal, quem sabe se eu sou assim e se é isto sem dúvida que sinto?... PRIMEIRA — Custa tanto saber o que se sente quando reparamos em nós!... Mesmo viver sabe a custar tanto quando se dá por isso... Falai, portanto, sem reparardes que existis... Não nos íeis dizer quem éreis? TERCEIRA — O que eu era outrora já não se lembra de quem sou... Pobre da feliz que eu fui!... Eu vivi entre as sombras dos ramos, e tudo na minha alma é folhas que estremecem. Quando ando ao sol a minha sombra é fresca. Passei a fuga dos meus dias ao lado de fontes, onde eu molhava, quando sonhava de viver, as pontas tranquilas dos meus dedos... Às vezes, à beira dos lagos, debruçava- -me e fitava-me... Quando eu sorria, os meus dentes eram misteriosos na água... Tinham um sorriso só deles, independente do meu... Era sempre sem razão que eu sorria... Falai-me da morte, do fim de tudo, para que eu sinta uma razão para recordar... PRIMEIRA — Não falemos de nada, de nada... Está mais frio, mas por que é que está mais frio? Não há razão para estar mais frio. Não é bem mais frio que está... Para que é que havemos de falar?... É melhor cantar, não sei porquê... O canto, quando a gente canta de noite, é uma pessoa alegre e sem medo que entra de repente no quarto e o aquece a consolar-nos... Eu podia cantar-vos uma canção que cantávamos em casa de meu passado. Por que é que não quereis que vo-la cante? TERCEIRA — Não vale a pena, minha irmã... quando alguém canta, eu não posso estar comigo. Tenho que não poder recordar-me. E depois todo o meu passado torna-se
29VOLUME 3 LINGUAGENS, CÓDIGOS e suas tecnologias outro e eu choro uma vida morta que trago comigo e que não vivi nunca. É sempre tarde demais para cantar, assim como é sempre tarde demais para não cantar... (uma pausa) PRIMEIRA — Breve será dia... Guardemos silêncio... A vida assim o quer. Ao pé da minha casa natal havia um lago. Eu ia lá e assentava-me à beira dele, sobre um tronco de árvore que caíra quase dentro de água... Sentava-me na ponta e molhava na água os pés, esticando para baixo os dedos. Depois olhava excessivamente para as pontas dos pés, mas não era para os ver. Não sei porquê, mas parece-me deste lago que ele nunca existiu... Lembrar-me dele é como não me poder lembrar de nada... Quem sabe por que é que eu digo isto e se fui eu que vivi o que recordo?... SEGUNDA — À beira-mar somos tristes quando sonhamos... Não podemos ser o que queremos ser, porque o que queremos ser queremo-lo sempre ter sido no passado... Quando a onda se espalha e a espuma chia, parece que há mil vozes mínimas a falar. A espuma só parece ser fresca a quem a julga uma... Tudo é muito e nós não sabemos nada... Quereis que vos conte o que eu sonhava à beira-mar? PRIMEIRA — Podeis contá-lo, minha irmã; mas nada em nós tem necessidade de que no-lo conteis... Se é belo, tenho já pena de vir a tê-lo ouvido. E se não é belo, esperai..., contai-o só depois de o alterardes... SEGUNDA — Vou dizer-vo-lo. Não é inteiramente falso, porque sem dúvida nada é inteiramente falso. Deve ter sido assim... Um dia que eu dei por mim recostada no cimo frio de um rochedo, e que eu tinha esquecido que tinha pai e mãe e que houvera em mim infância e outros dias — nesse dia vi ao longe, como uma coisa que eu só pensasse em ver, a passagem vaga de uma vela. Depois ela cessou... Quando reparei para mim, vi que já tinha esse meu sonho... Não sei onde ele teve princípio... E nunca tornei a ver outra vela... Nenhuma das velas dos navios que saem aqui de um porto se parece com aquela, mesmo quando é lua e os navios passam longe devagar... PRIMEIRA — Vejo pela janela um navio ao longe. É talvez aquele que vistes... SEGUNDA — Não, minha irmã; esse que vedes busca sem dúvida um porto qualquer... Não podia ser que aquele que eu vi buscasse qualquer porto... PRIMEIRA — Por que é que me respondestes?... Pode ser... Eu não vi navio nenhum pela janela... Desejava ver um e falei-vos dele para não ter pena... Contai-nos agora o que foi que sonhastes à beira-mar... SEGUNDA — Sonhava de um marinheiro que se houvesse perdido numa ilha longínqua. Nessa ilha havia palmeiras hirtas, poucas, e aves vagas passavam por elas... Não vi se alguma vez pousavam... Desde que, naufragado, se salvara, o marinheiro vivia ali... Como ele não tinha meio de voltar à pátria, e cada vez que se lembrava dela sofria, pôs-se a sonhar uma pátria que nunca tivesse tido: pôs-se a fazer ter sido sua uma outra pátria, uma outra espécie de país com outras espécies de paisagens, e outra gente, e outro feitio de passarem pelas ruas e de se debruçarem das janelas... Cada hora ele construía em sonho esta falsa pátria, e ele nunca deixava de sonhar, de dia à sombra curta das grandes palmeiras, que se recortava, orlada de bicos, no chão areento e quente; de noite, estendido na praia, de costas e não reparando nas estrelas. PRIMEIRA — Não ter havido uma árvore que mosqueasse sobre as minhas mãos estendidas a sombra de um sonho como esse!... TERCEIRA — Deixai-a falar... Não a interrompais... Ela conhece palavras que as sereias lhe ensinaram... Adormeço para a poder escutar... Dizei, minha irmã, dizei... Meu coração dói-me de não ter sido vós quando sonháveis à beira-mar... SEGUNDA — Durante anos e anos, dia a dia, o marinheiro erguia num sonho contínuo a sua nova terra natal... Todos os dias punha uma pedra de sonho nesse edifício impossível... Breve ele ia tendo um país que já tantas vezes havia percorrido. Milhares de horas lembrava-se já de ter passado ao longo de suas costas. Sabia de que cor soíam ser os crepúsculos numa baía do norte, e como era suave entrar, noite alta, e com a alma recostada no murmúrio da água que o navio abria, num grande porto do sul onde ele passara outrora, feliz talvez, das suas mocidades a suposta... (uma pausa) PRIMEIRA — Minha irmã, por que é que vos calais? SEGUNDA — Não se deve falar demasiado... A vida espreita-nos sempre... Toda a hora é materna para os sonhos, mas é preciso não o saber... Quando falo de mais começo a separar-me de mim e a ouvir-me falar. Isso faz com que me compadeça de mim própria e sinta demasiadamente o coração. Tenho então uma vontade lacrimosa de o ter nos braços para o poder embalar como a um filho... Vede: o horizonte empalideceu... O dia não pode já tardar... Será preciso que eu vos fale ainda mais do meu sonho? PRIMEIRA — Contai sempre, minha irmã, contai sempre... Não pareis de contar, nem repareis em que dias raiam... O dia nunca raia para quem encosta a cabeça no seio das horas sonhadas... Não torçais as mãos. Isso faz um ruído como o de uma serpente furtiva... Falai-nos muito mais do vosso sonho. Ele é tão verdadeiro que não tem sentido nenhum. Só pensar em ouvir-vos me toca música na alma… SEGUNDA –– Sim, falar-vos-ei mais dele. Mesmo eu preciso de vo-lo contar. À medida que o vou contando, é a mim
30VOLUME 3 LINGUAGENS, CÓDIGOS e suas tecnologias também que o conto... São três a escutar... (De repente, olhando para o caixão, e estremecendo). Três não... Não sei... Não sei quantas... TERCEIRA — Não faleis assim... Contai depressa, contai outra vez... Não faleis em quantos podem ouvir... Nós nunca sabemos quantas coisas realmente vivem e veem e escutam... Voltai ao vosso sonho... O marinheiro. O que sonhava o marinheiro? SEGUNDA (mais baixo, numa voz muito lenta) — Ao princípio ele criou as paisagens, depois criou as cidades; criou depois as ruas e as travessas, uma a uma, cinzelando-as na matéria da sua alma — uma a uma as ruas, bairro a bairro, até às muralhas dos cais de onde ele criou depois os portos... Uma a uma as ruas, e a gente que as percorria e que olhava sobre elas das janelas... Passou a conhecer certa gente, como quem a reconhece apenas... Ia-lhes conhecendo as vidas passadas e as conversas, e tudo isto era como quem sonha apenas paisagens e as vai vendo... Depois viajava, recordando, através do país que criara... E assim foi construindo o seu passado... Breve tinha uma outra vida anterior... Tinha já, nessa nova pátria, um lugar onde nascera, os lugares onde passara a juventude, os portos onde embarcara... Ia tendo tido os companheiros da infância e depois os amigos e inimigos da sua idade viril... Tudo era diferente de como ele o tivera — nem o país, nem a gente, nem o seu passado próprio se pareciam com o que haviam sido... Exigis que eu continue?... Causa-me tanta pena falar disto!... Agora, porque vos falo disto, aprazia-me mais estar-vos falando de outros sonhos... TERCEIRA — Continuai, ainda que não saibais porquê... Quanto mais vos ouço, mais me não pertenço... PRIMEIRA — Será bom realmente que continueis? Deve qualquer história ter fim? Em todo o caso, falai... Importa tão pouco o que dizemos ou não dizemos... Velamos as horas que passam... O nosso mister é inútil como a Vida... SEGUNDA — Um dia, que chovera muito, e o horizonte estava mais incerto, o marinheiro cansou-se de sonhar... Quis então recordar a sua pátria verdadeira..., mas viu que não se lembrava de nada, que ela não existia para ele... Meninice de que se lembrasse, era a na sua pátria de sonho; adolescência que recordasse, era aquela que se criara... Toda a sua vida tinha sido a sua vida que sonhara... E ele viu que não podia ser que outra vida tivesse existido... Se ele nem de uma rua, nem de uma figura, nem de um gesto materno se lembrava... E da vida que lhe parecia ter sonhado, tudo era real e tinha sido... Nem sequer podia sonhar outro passado, conceber que tivesse tido outro, como todos, um momento, podem crer... Ó minhas irmãs, minhas irmãs... Há qualquer coisa, que não sei o que é, que vos não disse... Qualquer coisa que explicaria isto tudo... A minha alma esfria-me... Mal sei se tenho estado a falar... Falai-me, gritai-me, para que eu acorde, para que eu saiba que estou aqui ante vós e que há coisas que são apenas sonhos... PRIMEIRA (numa voz muito baixa) — Não sei que vos diga... Não ouso olhar para as cousas... Esse sonho como continua?... SEGUNDA — Não sei como era o resto.... Mal sei como era o resto... Por que haverá mais?... PRIMEIRA — E o que aconteceu depois? SEGUNDA — Depois? Depois de quê? Depois é alguma cousa?... Veio um dia um barco... Veio um dia um barco... — Sim, sim... só podia ter sido assim... — Veio um dia um barco, e passou por essa ilha, e não estava lá o marinheiro TERCEIRA — Talvez tivesse regressado à pátria... Mas a qual? PRIMEIRA — Sim, a qual? E o que teriam feito ao marinheiro? Sabê-lo-ia alguém? SEGUNDA — Por que é que me perguntais? Há resposta para alguma coisa? (uma pausa) TERCEIRA — Será absolutamente necessário, mesmo dentro do vosso sonho, que tenha havido esse marinheiro e essa ilha? SEGUNDA — Não, minha irmã; nada é absolutamente necessário. PRIMEIRA — Ao menos, como acabou o sonho? SEGUNDA — Não acabou... Não sei... Nenhum sonho acaba... Sei eu ao certo se o não continuo sonhando, se o não sonho sem o saber, se o sonhá-lo não é esta coisa vaga a que eu chamo a minha vida?... Não me faleis mais... Principio a estar certa de qualquer coisa, que não sei o que é... Avançam para mim, por uma noite que não é esta, os passos de um horror que desconheço... Quem teria eu ido despertar com o sonho meu que vos contei?... Tenho um medo disforme de que Deus tivesse proibido o meu sonho... Ele é sem dúvida mais real do que Deus permite... Não estejais silenciosas... Dizei-me ao menos que a noite vai passando, embora eu o saiba... Vede, começa a ir ser dia... Vede: vai haver o dia real... Paremos... Não pensemos mais... Não tentemos seguir nesta aventura interior... Quem sabe o que está no fim dela?... Tudo isto, minhas irmãs, passou-se na noite... Não falemos mais disto, nem a nós próprios... É humano e conveniente que tomemos, cada qual, a sua atitude de tristeza. TERCEIRA — Foi-me tão belo escutar-vos... Não digais que não... Bem sei que não valeu a pena... É por isso que o achei belo... Não foi por isso, mas deixai que eu o diga... De resto, a música da vossa voz, que escutei ainda mais
31VOLUME 3 LINGUAGENS, CÓDIGOS e suas tecnologias que as vossas palavras, deixa-me, talvez só por ser música, descontente... SEGUNDA — Tudo deixa descontente, minha irmã... Os homens que pensam cansam-se de tudo, porque tudo muda. Os homens que passam provam-no, porque mudam com tudo... De eterno e belo há apenas o sonho... Por que estamos nós falando ainda?... PRIMEIRA — Não sei... (olhando para o caixão, em voz mais baixa) — Por que é que se morre? SEGUNDA — Talvez por não se sonhar bastante... PRIMEIRA — É possível... Não valeria então a pena fecharmo-nos no sonho e esquecer a vida, para que a morte nos esquecesse?... SEGUNDA — Não, minha irmã, nada vale a pena... TERCEIRA — Minhas irmãs, é já dia... Vede, a linha dos montes maravilha-se... Por que não choramos nós?... Aquela que finge estar ali era bela, e nova como nós, e sonhava também... Estou certa que o sonho dela era o mais belo de todos... Ela de que sonharia?... PRIMEIRA — Falai mais baixo. Ela escuta-nos talvez, e já sabe para que servem os sonhos... (uma pausa) SEGUNDA — Talvez nada disto seja verdade... Todo este silêncio, e esta morta, e este dia que começa não são talvez senão um sonho... Olhai bem para tudo isto... Parece-vos que pertence à vida?... PRIMEIRA — Não sei. Não sei como se é da vida... Ah, como vós estais parada! E os vossos olhos tão tristes, parece que o estão inutilmente... SEGUNDA — Não vale a pena estar triste de outra maneira... Não desejais que nos calemos? É tão estranho estar a viver... Tudo o que acontece é inacreditável, tanto na ilha do marinheiro como neste mundo... Vede, o céu é já verde... O horizonte sorri ouro... Sinto que me ardem os olhos, de eu ter pensado em chorar... PRIMEIRA — Chorastes, com efeito, minha irmã. SEGUNDA — Talvez... Não importa... Que frio é isto?... Ah, é agora... É agora!... Dizei-me isto... Dizei-me uma coisa ainda... Por que não será a única coisa real nisto tudo o marinheiro, e nós e tudo isto aqui apenas um sonho dele?... PRIMEIRA — Não faleis mais, não faleis mais... Isso é tão estranho que deve ser verdade. Não continueis... O que íeis dizer não sei o que é, mas deve ser demais para a alma o poder ouvir... Tenho medo do que não chegastes a dizer... Vede, vede, é dia já... Vede o dia... Fazei tudo por reparardes só no dia, no dia real, ali fora... Vede-o, vede-o... Ele consola... Não penseis, não olheis para o que pensais... Vede-o a vir, o dia... Ele brilha como ouro numa terra de prata. As leves nuvens arredondam-se à medida que se coloram... Se nada existisse, minhas irmãs?... Se tudo fosse, qualquer modo, absolutamente coisa nenhuma?... Porque olhastes assim?... (Não lhe respondem. E ninguém olhara de nenhuma maneira.) A MESMA — Que foi que dissestes e que me apavorou?... Senti-o tanto que mal vi o que era... Dizei-me o que foi, para que eu, ouvindo-o segunda vez, já não tenha tanto medo como dantes... Não, não... Não digais nada... Não vos pergunto isto para que me respondais, mas para falar apenas, para me não deixar pensar... Tenho medo de me poder lembrar do que foi... Mas foi qualquer coisa de grande e pavoroso como o haver Deus... Devíamos já ter acabado de falar… Há tempo já que a nossa conversa perdeu o sentido... O que é entre nós que nos faz falar prolonga-se demasiadamente... Há mais presenças aqui do que as nossas almas... O dia devia ter já raiado... Deviam já ter acordado... Tarda qualquer coisa... Tarda tudo... O que é que se está dando nas coisas de acordo com o nosso horror?... Ah, não me abandoneis... Falai comigo, falai comigo... Falai ao mesmo tempo do que eu para não deixardes sozinha a minha voz... Tenho menos medo à minha voz do que à ideia da minha voz, dentro de mim, se for reparar que estou falando... TERCEIRA — Que voz é essa com que falais?... É de outra... Vem de uma espécie de longe... PRIMEIRA — Não sei... Não me lembreis isso... Eu devia estar falando com a voz aguda e tremida do medo... Mas já não sei como é que se fala... Entre mim e a minha voz abriu-se um abismo... Tudo isto, toda esta conversa e esta noite, e este medo — tudo isto devia ter acabado, devia ter acabado de repente, depois do horror que nos dissestes... Começo a sentir que o esqueço, a isso que dissestes, e que me fez pensar que eu devia gritar de uma maneira nova para exprimir um horror de aqueles... TERCEIRA (para a SEGUNDA) — Minha irmã, não nos devíeis ter contado essa história. Agora estranho-me viva com mais horror. Contáveis e eu tanto me distraía que ouvia o sentido das vossas palavras e o seu som separadamente. E parecia-me que vós, e a vossa voz, e o sentido do que dizíeis eram três entes diferentes, como três criaturas que falam e andam. SEGUNDA — São realmente três entes diferentes, com vida própria e real. Deus talvez saiba porquê... Ah, mas por que é que falamos? Quem é que nos faz continuar falando? Por que falo eu sem querer falar? Por que é que já não reparamos que é dia?...
32VOLUME 3 LINGUAGENS, CÓDIGOS e suas tecnologias PRIMEIRA — Quem pudesse gritar para despertarmos! Estou a ouvir-me a gritar dentro de mim, mas já não sei o caminho da minha vontade para a minha garganta. Sinto uma necessidade feroz de ter medo de que alguém possa bater àquela porta. Por que não bate alguém à porta? Seria impossível e eu tenho necessidade de ter medo disso, de saber de que é que tenho medo... Que estranha que me sinto!... Parece-me já não ter a minha voz… Parte de mim adormeceu e ficou a ver... O meu pavor cresceu, mas eu já não sei senti-lo... Já não sei em que parte da alma é que se sente... Puseram ao meu sentimento do meu corpo uma mortalha de chumbo... Para que foi que nos contastes a vossa história? SEGUNDA — Já não me lembro... Já mal me lembro que a contei... Parece ter sido já há tanto tempo!... Que sono, que sono absorve o meu modo de olhar para as coisas!... O que é que nós queremos fazer? o que é que nós temos ideia de fazer? — já não sei se é falar ou não falar... PRIMEIRA — Não falemos mais. Por mim, cansa-me o esforço que fazeis para falar... Dói-me o intervalo que há entre o que pensais e o que dizeis... A minha consciência boia à tona da sonolência apavorada dos meus sentidos pela minha pele... Não sei o que é isto, mas é o que sinto... Preciso de dizer frases confusas um pouco longas, que custem a dizer... Não sentis tudo isto como uma aranha enorme que nos tece de alma a alma uma teia negra que nos prende? SEGUNDA — Não sinto nada... Sinto as minhas sensações como uma coisa que se sente... Quem é que eu estou sendo?... Quem é que está falando com a minha voz?... Ah, escutai... PRIMEIRA e TERCEIRA — Quem foi? SEGUNDA — Nada. Não ouvi nada... Quis fingir que ouvia para que vós supusésseis que ouvíeis e eu pudesse crer que havia alguma coisa a ouvir... Oh, que horror, que horror íntimo nos desata a voz da alma, e as sensações dos pensamentos, e nos faz falar e sentir e pensar quando tudo em nós pede silêncio e o dia e a inconsciência da vida... Quem é a quinta pessoa neste quarto que estende o braço e nos interrompe sempre que vamos a sentir? PRIMEIRA — Para quê tentar apavorar-me? Não cabe mais terror dentro de mim... Peso excessivamente ao colo de me sentir. Afundei-me toda no lodo morno do que suponho que sinto. Entra-me por todos os sentidos qualquer coisa que nos pega e nos vela. Pesam as pálpebras a todas as minhas sensações. Prende-se a língua a todos os meus sentimentos. Um sono fundo cola umas às outras as ideias de todos os meus gestos. Por que foi que olhastes assim?... TERCEIRA (numa voz muito lenta e apagada) — Ah, é agora, é agora... Sim, acordou alguém... Há gente que acorda... Quando entrar alguém tudo isto acabará... Até lá façamos crer que todo este horror foi um longo sono que fomos dormindo... É dia já. Vai acabar tudo... E de tudo isto fica, minha irmã, que só vós sois feliz, porque acreditais no sonho... SEGUNDA — Por que é que me perguntais? Porque eu o disse? Não, não acredito... Um galo canta. A luz, como que subitamente, aumenta. As três veladoras quedam-se silenciosas e sem olharem umas para as outras. Não muito longe, por uma estrada, um vago carro geme e chia. Aplicando para aprender 1. (Unicamp 2021) Certas imagens literárias podem tornar-se nucleares para uma cultura. Assim, por exemplo, a figura do marinheiro em Portugal. Ela adquire significados diferentes em períodos históricos distintos, mas conserva um elemento permanente. A semelhança entre a imagem do marinheiro em Camões e em Fernando Pessoa reside a) no realismo moral do povo português, resultado da era das grandes navegações e da expansão do catolicismo. b) na representação de uma identidade coletiva e individual sob o signo da mudança, do risco e da travessia. c) na alegoria da degradação moral dos amantes e dos aventureiros, movidos pelo desejo sexual e pela cobiça material. d) na simbolização dos ideais econômicos de Portugal, com reflexos na vida espiritual. 2. (Unicamp 2021) Tradicionalmente, o palco pode apresentar uma variedade de estilos cênicos, entre os quais se destacam o estilo realista (põe em evidência detalhes ambientais para sugerir sensações e emoções vividas pelas personagens), o estilo expressionista (os objetos são distorcidos ou estilizados, com o fim de sugerir, mais que mostrar, o ambiente de atuação das personagens), o estilo simbolista (os objetos concretos sugerem ideias abstratas, segundo associações sinestéticas tradicionais: o verde, vestido pelos mágicos, indica a esperança; o vermelho, a cor do demônio, sugere uma paixão violenta; a veste branca simboliza a candura, a castidade). (Adaptado de Salvatore D'Onofrio, Teoria do texto 2: Teoria da lírica e do drama. São Paulo: Ática, 1995, p. 138.) Sem identidade, hierarquias no chão, estilos misturados, a pós-modernidade é isto e aquilo, num presente aberto pelo e. (Jair Ferreira dos Santos, O que é o pós-moderno. São Paulo: Brasiliense, 2004, p. 110.) Com base nas indicações cênicas (as didascálias) que abrem e fecham a peça O marinheiro, de Fernando Pessoa, é correto afirmar que o seu estilo é
33VOLUME 3 LINGUAGENS, CÓDIGOS e suas tecnologias a) expressionista, dadas a ausência de ações dramáticas e a presença de sugestões alegóricas como, por exemplo, o canto do galo. b) simbolista, uma vez que os elementos que compõem a cena dramática sugerem alguns significados de natureza filosófica. c) realista, porque as imagens da noite, do luar e do alvorecer indicam precisamente a passagem do tempo. d) pós-modernista, tendo em vista que os objetos descritos criam uma atmosfera mágica, na qual a ilusão não se distingue da realidade. Gabarito 1. A peça “O marinheiro”, subintitulada como “drama estático em um quadro”, apresenta características que a ligam à estética modernista, entre outras, pela não presença física da figura central da trama que surge apenas na imaginação de uma das personagens. Se, na obra poética de Camões, o marinheiro assume uma voz coletiva representativa do povo português que ousou enfrentar os riscos da travessia pelos oceanos Atlântico e Índico no século XVI, na peça de Fernando Pessoa, publicada pela primeira vez em 1913 na revista “Orpheu”, o marinheiro náufrago elabora a construção interna do herói coletivo, individualmente e sujeito a riscos, na busca de uma nova vida em uma pátria imaginada. Assim, é correta a opção [B]. 2. O fato de o cenário representar um quarto circular com um caixão ao centro onde jaz uma donzela vestida de branco instaura simbolicamente a dimensão cíclica da vida e da morte, que lhe põe fim. As três veladoras são iluminadas por quatro tochas em um jogo de espelhos em que se veem a si mesmas e entre si. Também a descrição final da noite e do amanhecer aparecem carregadas de mistério, ou seja, as didascálias que abrem e fecham a peça O marinheiro, de Fernando Pessoa, apresentam elementos carregados de possibilidades de significação e relações filosóficas, permitindo afirmar que o seu estilo é simbolista, como mencionado em [B].
34VOLUME 3 LINGUAGENS, CÓDIGOS e suas tecnologias 1. A Autora “A criação literária? O escritor pode ser louco, mas não enlouquece o leitor, ao contrário, pode até desviá-lo da loucura. O escritor pode ser corrompido, mas não corrompe. Pode ser solitário e triste e ainda assim vai alimentar o sonho daquele que está na solidão”. Lygia Fagundes Telles. Lygia Fagundes Telles em 1945. Lygia Fagundes Telles (LFT) é uma escritora paulista, nascida em abril de 1923, que muito se destaca na Literatura Brasileira. Ela faz parte da Acadêmia Brasileira de Letras, ocupando a quarta cadeira. Lygia é formada em Direito, mas a vocação literária surge na sua adolescência; vocação essa que seria bastante incentivada por grandes amigos literários: Carlos Drummond de Andrade, o poeta de Itabira, e Érico Veríssimo, ambos modernistas. Embora tenha começado a escrever na adolescência, é de Lygia a frase “a pouca idade não justifica o nascimento de textos prematuros, que deveriam continuar no limbo”, utilizada pela autora como uma forma de negar os escritos juvenis. Autora de uma série de livros de contos e de romances, seu primeiro livro tido pela crítica literária como um livro da maturidade é Ciranda de Pedra (1954), também o seu primeiro romance. O livro foi bem recebido por grandes nomes da crítica, como Antonio Candido e Otto Maria Carpeaux. Na sua trajetória literária, LFT teve participação ativa, considerando, ela mesma, a sua literatura como uma arte engajada. Lygia, afinal, de alguma maneira, compõe a terceira geração modernista, ou seja, possuindo uma obra comprometida com a difícil condição do ser humano em um país comumente marcado por frágeis sistema educacionais e de saúde. "Participante desse tempo e dessa sociedade a escritora buscou apresentar através da palavra escrita a realidade envolta na sedução do imaginário e da fantasia. Mas enfrentando sempre a realidade desse país: em 1976, durante a ditadura militar, integrou uma comissão de escritores que foi a Brasília entregar ao Ministro da Justiça o famoso “Manifesto dos Mil”, veemente declaração contra a censura e que foi assinada pelos mais representativos intelectuais do Brasil." http://www.academia.org.br/academicos/lygia-fagundes-telles/biografia 2. Seminário dos Ratos Seminário dos Ratos é um conto de Lygia Fagundes Telles, mas não só. É também um livro de mesmo nome, publicado em 1977 (momento em que o Brasil estava sob repressão política), no qual o conto está incluído, complementando uma coletânea de histórias com tons semelhantes. O conto, narrado em terceira pessoa, tem tons do fantástico e traz aos leitores uma alegoria do nosso sistema político-burocrático. SEMINÁRIO DOS RATOS Lygia Fagundes Telles LC OBRA 17
35VOLUME 3 LINGUAGENS, CÓDIGOS e suas tecnologias O enredo, bastantes simples, fala de um congresso que é realizado para conter um problema de saúde e segurança pública: o excesso do número de ratos, suplantando o número de homens em uma proporção absurda. O seminário, atividade intelectual, contudo, acaba sendo interrompido por uma invasão dos roedores, que passam a roer toda a estrutura do casarão onde o evento acontece, roendo, inclusive, as pessoas que lá estavam. O conto de Lygia é iniciado por uma epígrafe famosa, os versos finais do poema Edifício Esplendor, de Carlos Drummond de Andrade: Que século, meu Deus! – exclamaram os ratos e começaram a roer o edifício. Os versos trazem à memória a experiência do poema, no qual se fala de homens sem alma e construções sem sentido. 3. O Seminário e suas ironias O Seminário é uma atividade intelectual a ser desenvolvida coletivamente sobre um determinado tema. No conto, estamos diante dos acontecimentos relativos ao VII Seminário dos Roedores, que ocorre em um casarão, afastado da cidade e construído especialmente para o evento. A casa é luxuosa e confortável. Assim, o primeiro personagem a aparecer na história é o Chefe das Relações Públicas, um jovem tímido que pede permissão para adentrar o seminário. O conto terá o final aberto, mas, ao que tudo indica, essa será a única personagem a sobreviver ao ataque dos roedores. Em relação às personagens, é importante destacar o que fala Lygia Massoli, em estudo sobre a obra: As personagens que compõem esse ambiente são denominadas de acordo com os cargos políticos que exercem, ou seja, o foco está no papel social e, além disso, há um tom irônico em cada nomenclatura, a saber, Secretário do Bem-Estar Público e Privado, que menospreza as questões públicas e preocupa-se em manipular a mídia; Diretor das Classes Conservadoras Armadas e Desarmadas, no contexto de publicação da obra os ideais conservadores eram latentes e qualquer oposição era punida severamente no meio familiar ou nas ruas; a delegação americana composta pelo Delegado de Massachussetts, um suposto segurança e uma secretária, Miss Glória. O nome da mulher é relevante, haja vista que ela é a única personagem com identidade, contudo, essa identificação pode remeter a glória conquistada mundialmente pelos Estados Unidos após a Segunda Guerra Mundial. –NARRATIVA DE RESISTÊNCIA: “SEMINÁRIO DOS RATOS”, DE LYGIA FAGUNDES TELLES. Revista (Entre Parênteses)Dossiê Literatura e Resistência. Volume 6, Número 1, 2017 – ISSN 2238-4502. O conto o Seminário dos Ratos trata do desprezo para com o público por parte daqueles que detêm o poder na máquina pública, mas mobilizam interesses privados. Assim, as falas das personagens durante a narrativa podem ser lidas na obra sob a égide do que elas visam representar. Além dos personagens, é válido a colocação do nome do órgão de controle da superpopulação de ratos, a RATESP, que faz alusão à cidade de São Paulo e seus órgãos públicos, claro, de forma irônica. Outra ironia de Lygia é o título, pois o que se vê no seminário é o descaso com a maioria da população que sofre com os roedores, contudo, o título Seminário dos Ratos parece indicar ambiguamente que tanto o tema do seminário seja os roedores quanto os membros do seminário sejam ratos. 3. O Seminário e suas fantasias A conversa que ocorre durante o seminário revela uma situação fantástica diante daquilo que parece cotidiano: uma deliberação de membros do governo sobre problemas públicos. Há, na situação do casarão, assim, simbologias importantes: a escolha da casa e das alas, separando pessoas de acordo com as alegorias que elas representam nas alas do casarão, a ojeriza à cor cinza, o constante jogo entre público e privado (esconder dos estrangeiros a real situação do país). Toda essa situação contribui para elaborar um cenário insólito e de distanciamento. Estamos diante de uma situação que acontece, o seminário, sem se saber as causas, e que irá terminar sem que se saiba as consequências. Há, ainda, durante toda a reunião, um clima de tensão e suspense, com barulhos desconhecidos que indicam a chegada dos ratos. Ao final, ninguém sabe o que aconteceu, pois não se sobra ninguém para contar história. Contudo, algumas cenas parecem indicar que há um sobrevivente, que havia se trancado em uma geladeira, deixando o final em aberto. As cenas finais, retratam o homem saindo do esconderijo e o casarão iluminado, sendo que, antes, os fios de energia elétrica haviam sido roídos. [...] foi andando pela casa completamente oca, nem móveis, nem cortinas, nem tapetes. Só paredes. E a escuridão. Começou então um murmurejo secreto, rascante, que parecia vir da Sala de Debates e teve a intuição de que estavam todos reunidos ali, de portas fechadas. Não se lembrava sequer de como conseguiu chegar até o campo, não poderia jamais reconstituir a corrida, correu quilômetros. Quando olhou para trás, o casarão estava todo iluminado.
36VOLUME 3 LINGUAGENS, CÓDIGOS e suas tecnologias Aplicando para aprender Leia o texto a seguir para responder à questão. O fantástico, contudo, não foi uma temática muito abordada ao longo da história da literatura ocidental como um todo. Vitor Manuel de Aguiar e Silva demonstra que, nas poéticas clássicas – A República, de Platão, e A Poética, de Aristóteles – a produção literária, e artística de uma maneira genérica, era pautada no conceito de verossimilhança. Ele endossa tal proposta citando uma passagem de A poética na qual ele relaciona o verossímil juntamente com a aproximação do poeta ao do historiador, em questão de expressar o conteúdo de teor complacente com realidade em seus escritos. VILHAGRA, Leonardo Teixeira de Freitas Ribeiro. Aspectos da literatura fantástica em Seminário dos Ratos, de Lygia Fagundes Telles. Mafuá, Florianópolis, Santa Catarina, Brasil, n. 21, 2014 1. Levando em consideração o texto de Vilhagra e o conto Seminário dos Ratos, de Lygia F. Telles, responda ao que se pede. a) Qual é a situação que o conto apresenta? b) Por que o conto pode ser lido sob o manto da literatura fantástica? Leia o texto a seguir para responder à questão. A intuição de que estavam todos reunidos ali, de portas fechadas. Não se lembrava sequer de como conseguiu chegar até o campo, não poderia jamais reconstituir a corrida, correu quilômetros. Quando olhou para trás, o casarão estava todo iluminado (TELLES 1998, p. 165). 2. Perceba que um fator pouco comum ocorre na fala do narrador que, embora se apresente como um narrador em terceira pessoa e onisciente, opta por adotar a visão do Chefe de Relações Públicas. Com base nisso, responda: a) Em que momento se situa o trecho? b) De que maneira o nome da personagem contrasta com sua postura durante o conto? 3. A associação RATESP, no contexto da obra, pode ser lida como uma referência: a) às empresas privadas e à cidade de São Paulo. b) aos órgãos públicos e aos animais de São Paulo. c) aos órgãos públicos e à cidade do Espírito Santo. d) aos ratos e à cidade de São Paulo. 4. Análise a capa do livro em sua publicação de 1977. Seminário dos Ratos é o conto que dá nome ao livro. Publicado em contexto de ditadura, a capa da obra faz clara referência ao conto homônimo e apresenta um caráter típico do governo em questão. Assinale a alternativa que exemplifica em um adjetivo o que a capa busca apontar a respeito do governo. a) o autoritarismo. b) a festividade. c) a oligarquia. d) o pluriculturalismo. 5. Por que motivo o secretário se incomoda com a escolha da suíte cinza? a) por ser uma cor triste. b) por ser a cor preferida dos ratos. c) por ser uma cor marcada pela ausência. d) por ser a cor da pelagem dos ratos. Gabarito 1. a) O conto narra o debate de alguns homens a respeito de uma crise que os seres humanos enfrentam: a superpopulação dos ratos b) Vilhagra define: Em todos os eventos manifestados no conto, essencialmente, o comportamento anormal dos ratos na mansão que sedia o VII Seminário dos Roedores, simultaneamente, com a não tomada de posicionamento das personagens e, por sua vez, as dos leitores, fica evidente a presença do Fantástico no conto da escritora paulista. Contudo, não apenas isso, mas em palavras mais claras, um fator de suspense e hesitação, bem como construções dúbias (como o final, que não se sabe real ou delírio), fazem o conto flutuar do fantástico ao real-estranho, caso o leitor comece a procurar explicações lógicas para as quais o texto não precisa se atentar. 2. a) O trecho se situa após a realização do ataque dos ratos, quando o Chefe de Relações Públicas aparenta ser o único sobrevivente, depois de ter se escondido na geladeira. b) O Chefe das Relações Públicas não tem um nome, mas um cargo. Ironicamente, apesar de ser representado como um homem que transparece as ações do governo para a população, ele passa o conto todo em negação, tentando mascarar a real situação, até o momento em que os ratos invadem e ele sente a mordida. 3. D 4. A 5. D
37VOLUME 3 LINGUAGENS, CÓDIGOS e suas tecnologias 1. Sobrevivendo no inferno (obra completa) 1.1. Racionais MC’s Racionais MC’s em foto de divulgação do disco “Sobrevivendo no inferno“ (foto Klaus Mitteldorf) Mano Brown, Ice Blue, Edi Rock e KL Jay são quatro jovens da periferia de São Paulo, cantando no meio das regiões mais violentas do Brasil, onde a opressão, a miséria, a fome e a morte assolam milhares de pessoas. Foi na coletânea Consciência Black (Vol. 1), da Zimbabwe, que surge a primeira aparição dos Racionais MC’s. É importante notar que aparecem numa coletânea dos promotores Kaskatas e Chic Show, que arquitetavam os famigerados “bailes black”. Mano Brown e Ice Blue conheceram Edi Rock (1970) e KL Jay (1969) no fim dos anos 1980 e os quatro se juntaram para formar os Racionais MC’s. A coletânea “Consciência black“ lançou as primeiras músicas do grupo: “Pânico na Zona Sul” (de Mano Brown) e “Tempos difíceis” (de Edi Rock). O grupo gravou cinco discos: ”Holocausto urbano” (1990), ”Escolha seu caminho” (1993), ”Raio X Brasil” (1994), ”Sobrevivendo no inferno” (1997) e ”Nada como um dia após o outro dia” (2002). Edi Rock em foto de divulgação do disco “Sobrevivendo no inferno“ (Foto Klaus Mitteldorf) Quando foi lançando o álbum “Sobrevivendo no inferno“, o Racionais MC’s já era considerado o mais importante grupo de rap no Brasil, mas o reconhecimento ainda não tinha se expandido para o público geral, estando circunscrito aos seguidores e à periferia. No entanto, em 1998, lançaram o clipe de “Diário de um detento“, na extinta MTV Brasil, fato que projetou-os para o mais alto posto da cadeia fonográfica brasileira. 1.1.1. Mano Brown “Rima é bala perdida“ (MB) Nascido em 1970 na cidade de São Paulo, Pedro Paulo Soares é o nome de batismo de Mano Brown – rapper, compositor e líder do Racionais MC’s. Foi criado nos bairros do extremo da Zona Sul da cidade de São Paulo, como Parque Santo Antônio e Capão Redondo. É filho de pai branco e mãe negra, a senhora Ana Pereira Soares, quem o criou. O apelido de Brown surgiu quando tocava repique nas rodas de samba das quais fazia parte, nos idos de 1986, e, nessa época, já imitava as batidas inspiradas no funk estadunidense. Frequentava os encontros de rap na estação São Bento do Metrô e compôs suas primeiras letras, sendo considerada a música “Terror da vizinhança” a sua primeira composição, mas que nunca chegou a ser gravada. SOBREVIVENDO NO INFERNO Racionais MC’s LC OBRA 18
38VOLUME 3 LINGUAGENS, CÓDIGOS e suas tecnologias Em 1970, formou a dupla “BB Boys“ com seu amigo de infância Paulo Eduardo Salvador, o Ice Blue. Os dois juntos rodaram por vários rolês, eventos e shows e começaram a apresentar suas rimas e descrições dilacerantes da realidade periférica de São Paulo. Brown sempre diz que se inspirou no rapper Thaíde, considerado um dos primeiros artistas brasileiros do estilo, durante a década de 1960. Ele o viu cantar na televisão e, em função desta experiência, adquiriu um viés mais crítico e engajado em seu repertório musical. O artista também alçou voo como produtor participando dos projetos de alguns álbuns, como é o caso de “Provérbios 13“ (2000), do 509-E, e “Supernova Samba Funk“ (2011), do Black Rio. Suas referências giram em torno de Jorge Ben Jor, influência inegável na obra de Mano Brown, que homenageou o ídolo dando aos seus filhos nomes que remetem ao cantor – Kaire Jorge e Domênica, em função da música “Domenica domingava num domingo linda toda de branco” (álbum ”Força Bruta”, 1970). Além disso, Ben Jor aparece na obra do Racionais MC’s em outras circunstâncias – extraído e reeditado (sample). Brown comenta que buscou referência nas coisas que sempre escutou e que curtia em sua formação musical, como é o caso de Agepê, Benito di Paula, Roberto Ribeiro, Luiz Ayrão e Fundo de Quintal; dos gringos como referências apresenta o Public Enemy e Bob Marley. Brown participou, em 2010, da gravação de uma versão da música “Umbabarauma”, de Jorge Ben Jor, em uma ação promocional de material esportivo para a Copa do Mundo daquele ano. Dois anos depois, compôs “Mil faces de um homem leal”, para um documentário sobre o guerrilheiro Carlos Marighella (1911-1969), do diretor Silvio Tendler (1950). Em 2009, Brown criou o coletivo Big Ben Bang Johnson, uma parceria entre o grupo e os amigos do RZO – Ice Blue, Helião, Sandrão, DJ Cia, Dom Pixote, Du Bronx. 1.2. Jocenir de Oliveira ”Analisando hoje, percebo quanta estupidez e arbitrariedade cometeram contra mim. (...) Quem mata mais ladrão ganha medalha de prêmio!/ O ser humano é descartável no Brasil/ Como Modess usado ou Bombril (...). Fumaça na janela, tem fogo na cela. Fudeu, foi além, se pã!, tem refém/ Na maioria, se deixou envolver/ por uns cinco ou seis que não têm nada a perder”. (Jocenir de Oliveira) Com o apelido de “Tiozinho da Caneta”, o ex-detento Jocenir é um dos autores da letra de “Diário de um detento”. Seu nome completo é Josemir José Fernandes Prado e sua passagem pelo complexo penitenciário começou quando foi preso em 1994, alegando que foi preso por engano em frente ao depósito que seu irmão mantinha cargas roubadas, sendo obrigado a cumprir pena por formação de quadrilha. Oriundo da classe média, acabou utilizando seu conhecimento para ganhar a simpatia dos companheiros de cela, que o rechaçavam, no começo, por não usar drogas, mas compactuavam com seus dizeres, como é o caso da máxima proferida por ele: “Os policiais militares são cachorros assassinos”. Ali mesmo, conheceu Mano Brown, vocalista do Racionais MC’s. A ideia de uma parceria veio logo depois e, segundo ele, começou a escrever cartas, como uma forma de ser aceito pelos demais companheiros de cela, já que não usava drogas. “Diário de um detento” atravessou as pontes das periferias e conquistou o 52º lugar na lista das 100 maiores músicas brasileiras elaboradas e publicadas pela revista especializada Rolling Stone, o que é um grande feito. Diário de um detento Racionais Mc’s (Sobrevivendo no inferno) São Paulo, dia 1º de outubro de 1992, 8 horas da manhã Aqui estou, mais um dia sob o olhar sanguinário do vigia. Você não sabe como é caminhar com a cabeça na mira de uma HK – metralhadora alemã ou de Israel, estraçalha ladrão que nem papel. Na muralha, em pé, mais um cidadão José servindo o Estado, um PM bom passa fome, metido a Charles Bronson.
39VOLUME 3 LINGUAGENS, CÓDIGOS e suas tecnologias Ele sabe o que eu desejo, sabe o que eu penso. O dia tá chuvoso. O clima tá tenso. Vários tentaram fugir, eu também quero, mas de um a cem, a minha chance é zero. Será que Deus ouviu minha oração? Será que o juiz aceitou a apelação? Mando um recado lá pro meu irmão: se tiver usando droga, tá ruim na minha mão. Ele ainda tá com aquela mina. Pode crer, o moleque é gente fina. Tirei um dia a menos ou um dia a mais, sei lá... Tanto faz, os dias são iguais. Acendo um cigarro, vejo o dia passar. Mato o tempo pra ele não me matar. Homem é homem, mulher é mulher. Estuprador é diferente, né? Toma soco toda hora, ajoelha e beija os pés, e sangra até morrer na rua 10. Cada detento uma mãe, uma crença. Cada crime uma sentença. Cada sentença um motivo, uma história de lágrima, sangue, vidas e glórias, abandono, miséria, ódio, sofrimento, desprezo, desilusão, ação do tempo. Misture bem essa química. Pronto: eis um novo detento. Lamentos no corredor, na cela, no pátio, ao redor do campo, em todos os cantos. Mas eu conheço o sistema, meu irmão, hã... Aqui não tem santo. 1.3. Contexto Mano Brown é considerado um dos artistas mais importantes do rap brasileiro, pelo fato de que possui um estilo particular dentro do gênero que ocupa. Suas letras registram a linguagem do jovem morador da periferia paulistana, no uso das gírias e vocabulário. É seguido por uma legião de fãs, que reconhecem nele uma voz que os representa na sociedade. Em “Diário de um detento”, a canção destrincha o dia a dia de um preso no sistema carcerário brasileiro, que pode ser o de um dia comum, de trabalho, sol e futebol, ou de um como o de 2 de outubro de 1992, no triste episódio do massacre do Carandiru. Casa de Detenção Carandiru Racionais MC's na Basílica de Nossa Senhora do Carmo, em 1997, São Paulo (foto Klaus Mitteldorf/Divulgação) Fernando Henrique Cardoso é quem estava à frente da Presidência da República, no ano de 1997, implementando suas políticas de privatização e sucateamento de empresas públicas e estatais. Este contexto de aplicação dos valores neoliberais caminhava pareada com a falsa ideológica da “democracia racial”, que buscava afirmar, de alguma forma, a inexistência do racismo. Tal política não refletia a realidade social e racial do Brasil, pois a tal “democracia” só não tinha chegado até os negros da periferia. Fato que, ainda hoje, cerca de vinte anos depois, ainda estão escancarados na sociedade, na qual o negro e, principalmente, a mulher negra ainda não recebem tratamento igualitário, com desemprego ou profissões mal remuneradas, que escancarava que a democracia racial ainda não havia chegado para os negros, pois estes ainda são minoria nas profissões mais remuneradas. Nas escolas públicas da periferia, não se discutia a questão com os alunos, todavia, era possível sentir de forma latente a conjuntura do racismo, da exclusão social e da violência policial que mata jovens negros num ritmo cujas estatísticas apenas revela um processo de higienização social ainda presente na sociedade contemporânea: a distância entre o que estava escrito nos livros – o ambiente escolar conteudista – e o que os alunos e alunas viviam em suas desgraças cotidianas nas favelas da cidade de São Paulo, mas que poderiam tranquilamente refletir uma realidade do País.
40VOLUME 3 LINGUAGENS, CÓDIGOS e suas tecnologias Os jovens, por sua vez se sentiram representados pelas letras do Racionais MC’s, que cada vez mais ganhavam uma dimensão de estandarte do que sentiam, mas, sobretudo, da maneira em que se reconheciam. Pensando no contexto do desenvolvimento do grupo e de sua trajetória no período, ou seja, desde o seu surgimento até a contemporaneidade, vale ressaltar que alguns discursos mudaram e concessões foram feitas. Nos primeiros anos de carreira, havia uma atitude radical do Racionais MC’s, ou seja, colocar-se num lugar oposto ao capital, de fazer shows apenas para o público pobre e não conceder entrevistas à mídia corporativa. A partir dos anos 2000, algumas coisas mudaram, mas sem nunca perder a essência da proposta. Participações em programas como “Ensaio” (2003) e “Roda Viva” (2007), na TV Cultura, no “Jornal da Tarde” (2006) e uma entrevista para a revista Rolling Stone Brasil (2009 e 2013). As apresentações em espaços de classe média e alta também começaram a acontecer numa circularidade interessante, aliás, a própria publicação das letras de música por uma das maiores editoras do País soou como uma contradição histórica típica do mercado que se apropria daquilo que é legitimamente popular, da cultura que nega o sistema, para a constituição de um objetivo de desejo comercial e circulação nos meios acadêmicos e reguladores de mercado. Se essa contradição suscita reflexão sobre os pontos positivos e negativos, fato é que mesmo diante das idiossincrasias, a projeção que o grupo conseguiu vale pelo reconhecimento do árduo trabalho, mas, principalmente, pelas questões colocadas no que diz respeito à mensagem enviada. A gravação de “Umbabarauma” trouxe a oportunidade de gravar em parceria com seu ídolo, Jorge Ben Jor. Ainda mais próximo ao contexto contemporâneo, vale a pena mencionar as participações do Racionais MC’s na atividade cultural que dura 24 horas na cidade de São Paulo intitulada “Virada Cultural”. Neste evento público, é possível notar que a quantidade de pessoas é sempre muito grande, sobretudo num país carente de eventos culturais e, sobretudo, com um show gratuito para multidões do Racionais MC’s. Tanto em 2007 como em 2013, os shows foram marcados por discursos fortes de Mano Brown, na primeira ocasião, para tentar baixar os ânimos de um confronto do seu público com a polícia e, na segunda oportunidade, refletindo sobre questões ligadas ao contexto da Virada, da violência que havia presenciado na madrugada anterior. 1.4. Temas ”Cheiro de morte e Pinho Sol” – ”rango azedo com pneumonia” – ”sangue jorrando do ouvido, da boca e nariz” – ”Adolf Hitler sorrindo no inferno” – ”Fleury e sua gangue nadando numa piscina de sangue” “60% dos jovens de periferia sem antecedentes criminais já sofreram violência policial. A cada quatro pessoas mortas pela polícia, três são negras. Nas universidades brasileiras, apenas 2% dos alunos são negros. A cada 4 horas, um jovem negro morre violentamente em São Paulo. Aqui quem fala é Primo Preto, mais um sobrevivente”, afirma o início da faixa 3 – ”Capítulo 4, Versículo 3”. Do ponto de vista temático, suas letras vão retratar circunstâncias cotidianas da periferia paulistana. É curioso que o eu lírico, ou seja, a voz criada em muitas letras de Mano Brown, que seria ele mesmo, é projetado no outro, no sentido de se colocar no papel dos personagens marginalizados. Vale citar como exemplo a letra de “Homem na estrada”, cuja proposta é relatar a dificuldade de um ex-presidiário em retomar uma vida social digna. Em “Diário de um detento”, a opção do foco narrativo assume a primeira pessoa, uma opção interessante, pois os relatos aproximam o leitor (ou público da música) da intimidade proposta por aquela voz criada. De fato, nesta canção é possível sentir na pele a violência que gira em torno deste detento, sobretudo no que diz respeito ao relato dos acontecimentos referentes ao massacre do Carandiru – morte de 111 presos –, registrando as possibilidades que levam a tragédia da violência policial acontecer. Entre as sensações e literalidades propostas do ponto de vista temático, é possível compreender a falta de condições básicas da vida dos presos, sujeira, doenças, violência e, sobretudo, o desprezo que a população despende para a questão e, para piorar, o abuso das autoridades do Estado. Em caráter cronológico, a letra descreve o começo da briga e a progressão à tragédia a partir do recurso imagístico; quem está lendo ou escutando a música é projetado de maneira visceral para dentro do acontecido. Segundo Marília Scriboni, integrante do Laboratório de Ciências Criminais do IBCCRIM, jornalista e estudante de Direito, “No cárcere, nada sabem os condenados sobre o mundo além das grades. Pior: como anda o cumprimento de sua pena. A presença periódica de um juiz de execução é, por vezes, um anseio que não passa de incerteza. Será que Deus ouviu minha oração?/ Será que o juiz aceitou a apelação?/ Mando um recado lá pro meu irmão:/ Se tiver usando droga, tá ruim na minha mão.
41VOLUME 3 LINGUAGENS, CÓDIGOS e suas tecnologias A letra marcada e objetiva, em ritmo crescente, revela dados importantes do cotidiano das celas. Fala, por exemplo, em como o condenado por estupro, o crime dos crimes, é visto pelos demais companheiros. Mato o tempo pra ele não me matar/ Homem é homem, mulher é mulher/ Estuprador é diferente, né?/ Toma soco toda hora, ajoelha e beija os pés,/ e sangra até morrer na rua 10. O condenado pelo crime tem como destino um espaço à parte, o chamado “seguro”, na linguagem do cárcere. É a prisão dentro da prisão. Não há banho de sol. Ele fica, literalmente, nas mãos do Estado. Sobreviver ou morrer depende da existência do local. 1.5. Linguagem Ao contrário do que muitas pessoas pensam, o Mano Brown não deixa de fazer o plural porque ele não sabe que se fala “os meninos“ ao invés de “os menino“. Ele não é ignorante. Acontece que o “s“ é muito difícil de cantar. Ia soar embolado. Então, como todo mundo fala os menino, ele escreve também, pela facilidade de cantar. Ou então substitui os menino por a rapazeada. (KL Jay) A linguagem é um ponto muito importante e que o estudante que prestará o vestibular da Unicamp 2020 deve dar uma atenção especial, sobretudo, porque se trata de letra de música. Ou seja, um recurso que se vale do mesmo signo verbal do poema, mas enquanto gênero tem a função de servir de apoio ao suporte essencial a que serve, que é a música. Logo, a publicação da obra em livro teve essa preocupação de trazer as marcas de linguagem musical para lembrar, o tempo todo, de que aquilo se trata de letra música. Neste sentido, sabendo que literatura é uma coisa e música, outra, o que nos interessa são as intersecções no sentido de que, sem abandonar a origem de cada gênero, as apropriações estéticas vão, no mínimo, acrescentar riqueza umas às outras e, no máximo, nos revelar, de maneira detalhada, a relação das oralidades necessárias neste caso. A começar que o rap é uma sigla oriunda da língua inglesa que significa rhythm and poetry, ou seja, ritmo e poesia, concluindo, de maneira taxativa, a reflexão acima. “Jesus está por vir, mas o diabo já está aqui” – a primeira faixa do álbum “Nada como um dia após o outro dia“ se inicia com uma rajada de arma de fogo, seguida do canto de um galo e da campainha chata do despertador – fatores imprescindíveis para a composição do sentido proposto pelo conjunto da obra. Esses fatores externos à palavra, pura e simples, precisam ser levados em consideração no processo analítico. O Racionais MC’s voltam olhando para uma metáfora do espelho, ou seja, frente a frente para os seus: “Vamos acordar, vamos acordar!”. Enquanto se desenvolve a letra, o eu lírico vai mandando erguer a cabeça e aguarda para as “tretas” da “vida loca”. O ritmo proposto pelo baile toma toda a atmosfera do álbum, como afirma: “Até no lixão nasce flor”. Neste sentido, as mais de vinte faixas do disco, vão dissertando sobre as mais diversas formas de sobreviver no inferno. Segundo o comentário do poeta e advogado Tarso de Melo, no Blog das Letrinhas, ele se utiliza do Nobel de Bob Dylan para explicar a relação entre literatura e música, nessa linguagem poética proposta pelo Racionais MC’s. A resposta que Bob Dylan deu na ocasião, com muita elegância, foi perfeita, no discurso que enviou à Academia Sueca: ”Músicas são diferentes da literatura. Elas são feitas para serem cantadas, não para serem lidas. As palavras das peças de Shakespeare eram feitas para serem apresentadas no palco. Assim como as letras em canções são feitas para serem cantadas, e não lidas numa página. E eu espero que alguns de vocês tenham a chance de ouvir essas músicas da maneira que devem ser ouvidas – em concertos, em discos ou das formas que as pessoas estão ouvindo músicas atualmente”. Dylan deixou bem claro que a vinculação da poesia à página, ao papel, ao livro, é uma possibilidade, não uma condição. Com uma escrita preocupada como os detalhes, a utilização de um narrador e a sequência cronológica fazem com que muitos de seus raps sejam comparados com as narrativas tanto oriundas do jornalismo como do cinema. O estilo de compor apresenta uma mensagem direta com divisões próprias e timbre de voz empostada, com poucos versos – vale citar o rap “Pânico na Zona Sul”, com influência do líder negro estadunidense Malcolm X, que vai aparecer em citação na letra de “Voz ativa”: Precisamos de um líder de crédito popular Como Malcolm X em outros tempos foi na [América Que seja negro até os ossos, um dos nossos E reconstrua nosso orgulho que foi feito em [destroços. No álbum “Sobrevivendo no inferno”, em músicas como “Tô ouvindo alguém me chamar” e o estrondoso “Diário de um detento”, Mano Brown narra experiências em primeira pessoa, com letras que agora não se prendem a limites de tamanho ou qualquer imposição. Em “Nada como um dia após o outro dia”, o rapper segue fiel ao método detalhista, mas traz reflexões novas sobre o sucesso artístico e a aparência. A onomatopeia “ratatatá”, que imita o som dos disparos, marca passagens da narrativa. A imagem mais forte, contudo, talvez seja o trecho “Ratatatá... Sangue
42VOLUME 3 LINGUAGENS, CÓDIGOS e suas tecnologias jorra como água/ do ouvido, da boca e nariz./ O Senhor é meu pastor.../ Perdoe o que seu filho fez./ Morreu de bruços no salmo 23,/ sem padre, sem repórter/ sem arma, sem socorro”. Os versículos da passagem bíblica são conhecidíssimos: Refrigera a minha alma; guia-me pelas veredas da justiça, por amor do seu nome. Ainda que eu andasse pelo vale da sombra da morte, não temeria mal algum, porque tu estás comigo; a tua vara e o teu cajado me consolam. Preparas uma mesa perante mim na presença dos meus inimigos, unges a minha cabeça com óleo, o meu cálice transborda. Além de oprimido, a canção afirma que o detento é um desacreditado. 1.6. Obra Foi com “Sobrevivendo no inferno“ que a juventude negra e periférica se formou. Por causa deste disco, muita gente se graduou em autoestima e não entrou para a faculdade do crime. (Sérgio Vaz) “Sobrevivendo no inferno” ganhou destaque após a indicação para o vestibular da Unicamp, com uma versão no formato de livro, editado pela Companhia das Letras, em que as letras são precedidas por uma importante e decisiva apresentação. As análises ficam a cargo do exímio crítico literário e professor de Literatura Brasileira na Universidade de Pernambuco, Acauam Silvério de Oliveira, que traz sua experiência de ter participado do grupo de doutorandos da USP sob orientação de José Miguel Wisnik. O percurso analítico associa a estrutura do álbum a um culto. A introdução se apresenta em cantos de louvor, a leitura da Gênesis, a apresentação do pastor e relatos de alguns testemunhos. Segundo Acauam, depois vem o grande relato, a atuação do diabo e, em seguida, um processo de reflexão. ”Sobrevivendo no inferno” modifica o termo ”periferia”, que passa a designar não apenas ”pobreza e violência”, como explica Acauam, mas também ”cultura e potência”. O livro possui 160 páginas, trazendo fotos clássicas e inéditas, informações, textos de apresentação, além das próprias músicas que formam o disco. Uma das letras que ganhou mais destaque no álbum e, claro, no livro que os estudantes estão lendo para o vestibular da Unicamp 2020 é ”Diário de um detento”. O texto foi escrito pelo ex-presidiário Jocenir, sobrevivente da tragédia, e entregue nas mãos de Mano Brown, dentro da casa de detenção, no pavilhão oito. Segundo o rapper, o preso entregou a letra em um papel, sem botar muita fé que poderia dar em alguma coisa. Depois de um ano, a música estava tocando em todas as rádios. Jocenir saiu da prisão dias depois. Quase completando três décadas do massacre do Carandiru, cujos mandantes continuam impunes e cujo número exato de mortes permanece desconhecido, ”Diário de um detento” ainda é a melhor manifestação artística da tragédia e seus antecedentes, lançada em 1997, antes de outras grandes obras sobre o presídio. Segundo o poeta Tarso de Melo, que vem estudando o Racionais MC’s nos últimos anos, o que chama atenção, na capa do disco de 1997, é o gerúndio “sobrevivendo”. Naquele momento, os Racionais sabem que continuam sobrevivendo no inferno (“contrariando as estáticas”, como Mano Brown canta), porque sobreviver no inferno é o que une as vozes dos Racionais e as de seus milhões de fãs, da primeira à mais recente gravação. Toda a obra dos Racionais, a seu modo, é um sobrevivendo no inferno. Por isso, a meu ver, antes de entrar nos diversos círculos do disco de 1997, é preciso voltar quase dez anos e ouvir com atenção as primeiras gravações do grupo e tudo que fizeram desde então”, afirma. “Sobrevivendo no inferno“ é gigante também porque é o disco em que o Racionais MC’s rompe com a autoimagem que vinha construindo até ali, tantas vezes colocando-se numa posição de superioridade com relação aos demais jovens negros, normalmente sob a acusação de que não eram conscientes como os rappers. Agora, no entanto, “respeito mútuo é a chave”. No lugar do enfrentamento com aqueles que, no fundo, são seus iguais, entra um esforço tremendo para derrubar as barreiras e mostrar que os rapazes comuns do rap se reconhecem nos rapazes comuns da “vida bandida”, nos rapazes comuns das igrejas, das escolas, do “sonho de doutor”; que “periferia é periferia em qualquer lugar”; e ganha até mesmo uma dimensão mais crítica/autocrítica: “Eu já não sei distinguir quem tá errado, sei lá/ Minha ideologia
43VOLUME 3 LINGUAGENS, CÓDIGOS e suas tecnologias enfraqueceu/ Preto, branco, polícia, ladrão ou eu/ Quem é mais filha da puta? Eu não sei!”. Vem daí, dessa mudança de percepção da sua própria existência e de uma visão mais complexa sobre os demais personagens da vida na periferia (os bandidos, os policiais, os trabalhadores, as tiazinhas, os pastores, os estudantes, que, no fundo, sejam pretos ou brancos, são todos pobres e estão lutando para sobreviver no inferno), alguns dos pontos altos do disco, como esse trecho de “Fórmula mágica da paz”: 2 de novembro era Finados Eu parei em frente ao São Luís do outro lado E durante uma meia hora olhei um por um E o que todas as senhoras tinham em comum A roupa humilde, a pele escura O rosto abatido pela vida dura Colocando flores sobre a sepultura Podia ser a minha mãe, que loucura! Cada lugar uma lei, eu tô ligado No extremo sul da Zona Sul tá tudo errado Aqui vale muito pouco a sua vida Nossa lei é falha, violenta e suicida Se diz, que me diz que não se revela Parágrafo primeiro na lei da favela O assustador é quando se descobre Que tudo deu em nada e que só morre o pobre A gente vive se matando irmão – por quê? Não me olha assim, eu sou igual a você Descanse o seu gatilho, descanse o seu gatilho Que no trem da malandragem, meu rap é o trilho. 1.7. Estrutura Note-se, ainda, ilustrando essa capacidade de organização, uma passagem da introdução do livro, em que o professor Acauam Oliveira – especialista em Racionais MC’s –, chama a atenção para a estrutura do disco, que se assemelha à de um culto religioso: § (...) cântico de louvor e proteção direcionado ao santo guerreiro (“Jorge de Capadócia”); § leitura do evangelho marginal (“Gênesis”); § entrada em cena do pregador do proceder, explicando (ou confundindo, a depender da necessidade) os sentidos da palavra divina (“Capítulo 4, versículo 3”); § o momento dos testemunhos das almas que se perderam para o diabo, com resultados trágicos (“Tô ouvindo alguém me chamar” e “Rapaz comum”); § intermezzo musical para velar aquelas mortes, interrompendo por tiros que fazem recomeçar o ciclo; § a pregação ou mensagem central (massacre do Carandiru), que liga o destino daqueles sujeitos ao de toda a comunidade (“Diário de um detento”), chave de compreensão do destino de todos e descrição do próprio inferno; § exemplos do modo de atuação do diabo no interior da comunidade (“Periferia é periferia”); § exemplos do modo de atuação do diabo fora da comunidade (“Qual mentira vou acreditar”). Ao final, um momento de autorreflexão sobre os limites da própria palavra enunciada (“Mágico de Oz” e “Fórmula mágica da paz”) e os agradecimentos a todos os presentes, verdadeiros portadores da centelha divina (“Salve”). É muito importante que o estudante leve em consideração essa questão estrutural, sobretudo porque esse diálogo com o culto evangélico tem a ver com o crescimento das igrejas neopentecostais no começo da década de 1990, e do ponto de vista literário, essa relação com o contexto e, sobretudo, da forma e do conteúdo na composição estética são fundamentais. Na mídia Diário de um detento (Marcelo Rubens Paiva – articulista da FOLHA) Jocenir narra o “circo de horrores“ do universo da prisão Jocenir, ex-detento que conheceu Mano Brown enquanto estava preso no Carandiru, emprestou versos como “fumaça na janela, tem fogo na cela, fodeu, foi além, e se pã tem refém“ para a música “Diário de um detento“, dos Racionais MC’s. Agora, em liberdade, depois de cumprir pena por receptação de carga roubada, num confuso processo criminal que o condenou a oito anos e três meses de reclusão, Jocenir lança o livro Diário de um detento, em que conta a sua prisão e a rotina sufocante das prisões em que foi forçado a viver: as cadeias públicas de Barueri e Osasco e os presídios Casa de Detenção e Avaré. O rap, lançado em 1997 no disco “Sobrevivendo no inferno“, alavancou a carreira do grupo e certamente pertence ao time das músicas brasileiras que marcaram época. A letra, um épico deslumbrante, com imagens fortes e uma poética única (“ratatatá, mais um metrô vai passar“), que envolve denúncia, coração, crônica e arrojo (“tic-tac, ainda é 9h40, o relógio na cadeia anda em câmera lenta“), já foi cantada por manos, minas e “playbas“, que sabiam de cor refrão por refrão, e impulsionou o movimento rap, exportando-o para fora da “perifa“.
44VOLUME 3 LINGUAGENS, CÓDIGOS e suas tecnologias No livro Diário de um detento, Jocenir refreia a sua semântica assombrosa e parte para uma narrativa simples, didática, com começo, meio e fim, apontando as inúmeras falhas do sistema e navegando em torno do estresse que imprime a vida na cadeia. A todo tempo, todo instante, resolvem-se encrencas, desfazem-se mal-entendidos e namora-se a morte: “Precisávamos de muita cautela nos atos e nas palavras (...)“. O autor contextualiza as ações, descreve em detalhes o inferno em que sobrevive, cadeias cujas celas “X“, com 20 metros quadrados, têm tetos escuros em razão do grande consumo de cigarros e drogas. Os presos estão envoltos em mantas encardidas, dormem sentados ou pendurados em paredes e grades, molestados por sarna e piolho, comem comida azeda e têm a fisionomia atormentada, roupas gastas e surradas. São despenteados, desdentados, pálidos, “um circo de horrores“, como define, em que são criados outros princípios. Sua prisão, segundo conta, aconteceu numa atrapalhada policial: policiais da divisão de narcóticos se envolveram numa operação ilegal com uma gangue de cargas roubadas, que incluía o irmão do autor, Márcio, fora da jurisdição. Jocenir foi obrigado a assumir a culpa, caso contrário “assinaria tráfico de drogas“. O calvário do autor começa em apertadas cadeias públicas. Primeiro, sobreviver à tortura policial. Depois, impor- -se à desconfiança dos presos. Testemunhou uma rebelião. Foi vítima de extorsão de alguns detentos e recebeu a surpreendente solidariedade de outros. Ele conta como as facções de presos se organizam – sempre há um chefe, um cacique, em uma cadeia, que se fortalece na dinâmica do tráfico. Em cada transferência, é de praxe levar uma surra de carcereiros ou policiais; numa delas, o autor viu PMs introduzirem um cabo com fezes na boca dos presos; numa outra, recebeu golpes de um PM com luvas de boxe, que treinava socos em detentos. O autor sangue-bom angariou simpatia da massa carcerária, pois sabia escrever. Redigiu cartas de presos, poemas de amor e, inclusive, o estatuto da facção CDL (Comando Democrático da Liberdade), que disputa com o PCC (Primeiro Comando da Capital) o controle de alguns presídios paulistas. Segundo a narrativa, comparada às cadeias públicas, a Detenção parece um paraíso. Nem sempre. Autogerida pelos próprios presos, diversas confusões são armadas, e as condenações dos julgamentos informais são sempre a mesma: subir com o réu (matá-lo). O leitor pode ler todos os livros de encarcerados já publicados, mas sempre encontra uma surpresa. Em Diário de um detento, descobre-se que a massa carcerária adora telenovelas. Assiste à TV até de madrugada. Grupos inteiros de detentos comentam, nos pátios, cenas e capítulos, fazem previsões e conjecturas, analisam situações e torcem por determinados personagens. Segundo o autor, a morte do personagem Ralph (novela “Rei do gado“, da Rede Globo), considerado na época “o maior vilão da Casa de Detenção“, foi comemorada no presídio, uma comemoração que “igualou-se aos festejos de uma final de campeonato paulista“. Fonte: <www1.folha.uol.com.br/fsp/ilustrad/ fq1205200123.htm em set/2019>. 1.8. Notícia Memórias do cárcere Parceiro do rapper Mano Brown, o ex-detento Jocenir lança livro sobre a sua vida atrás das grades por Cesar Guerrero A poesia cáustica de “Diário de um detento” foi o carro-chefe do sucesso do CD “Sobrevivendo no inferno“, lançado pelos Racionais MC’s, em 1997. A canção levou o disco à marca de 600 mil cópias vendidas no País e arrebatou o prêmio máximo da MTV brasileira. Mas o responsável pelos versos não faz parte do movimento hip- -hop, que ajudou a fazer sucesso. Josemir José Fernandes Prado, o Jocenir, como é chamado por amigos e parentes, nasceu na classe média, tem 50 anos e escassos cabelos grisalhos. “O Mano Brown gostou de um poema meu e resolveu usá-lo”, conta. O encontro entre eles aconteceu durante uma visita do cantor ao complexo Carandiru, onde Jocenir cumpria pena pela condenação de seis anos e três meses por formação de quadrilha. Agora, os manuscritos do presidiário deram origem a outra obra: Diário de um detento: o livro (Labortexto Editorial, 180 páginas, R$ 22,00), lançado na Bienal Internacional do Livro, no sábado 26. O livro é tão contundente quanto o rap homônimo. “Foi a forma que encontrei para sobreviver na cadeia”, conta Jocenir, libertado desde novembro de 1998 por bom comportamento e por ter cumprido quatro anos de sua pena. Jocenir começou a escrever por necessidade. Nos primeiros dias de prisão, foi hostilizado pelos colegas de cela porque não usava drogas. Para ganhar a simpatia dos presos, começou a escrever cartas. Virou uma espécie de Dora, a personagem de Fernanda Montenegro no premiado filme
45VOLUME 3 LINGUAGENS, CÓDIGOS e suas tecnologias Central do Brasil, de Walter Salles. “Os presos mal sabiam escrever os próprios nomes. Meus versos salvaram muitos namoros”, revela. Em pouco tempo, Jocenir ficou popular entre os detentos. Antes da prisão em 1994, ele cursou até o 2º ano da faculdade de Administração, em Osasco, na Grande São Paulo. Além de escrever cartas, Jocenir registrava no papel tudo o que via, além das histórias contadas por colegas detentos. O capítulo que ele dedica ao massacre na Casa de Detenção, onde morreram 111 presidiários, por exemplo, é fruto da memória de oito colegas de cela, sobreviventes da rebelião, em outubro de 1992. “Um dos caras não tinha a batata da perna. Ela foi arrancada por um cão policial”, lembra. “É um livro escrito por quem experimentou a dureza do cárcere”, escreve o médico Drauzio Varella, autor de Estação Carandiru, no prefácio do livro de Jocenir. Fonte: <www.terra.com.br/istoegente/96/reportagem/ memorias_carcere_jocenir.htm em set/2019>. “Um dos caras da minha cela não tinha a batata da perna. Ela foi arrancada por um cão policial”, conta Jocenir em seu livro. Aplicando para aprender 1. (Unicamp 2021) É preciso também que nos questionemos sobre a finalidade última das obras que julgamos dignas de serem estudadas. Em regra geral, o leitor não profissional, tanto hoje quanto ontem, lê essas obras para encontrar um sentido que lhe permita compreender melhor o homem e o mundo, para nelas descobrir uma beleza que enriqueça sua existência; ao fazê-lo, ele compreende melhor a si mesmo. (Adaptado de T. Todorov, A literatura em perigo. São Paulo: Difel, 2009, p. 32-33.) FÓRMULA MÁGICA DA PAZ Essa porra é um campo minado Quantas vezes eu pensei em me jogar daqui? Mas, aí, minha área é tudo o que eu tenho A minha vida é aqui e eu não consigo sair É muito fácil fugir, mas eu não vou Não vou trair quem eu fui, quem eu sou Eu gosto de onde eu tô e de onde eu vim O ensinamento da favela foi muito bom para mim (...) A gente vive se matando, irmão, por quê? Não me olhe assim, eu sou igual a você Descanse o seu gatilho, descanse o seu gatilho Entre no trem da malandragem, meu rap é o trilho (Racionais Mc’s, Sobrevivendo no inferno. São Paulo: Companhia das Letras, 2018, p. 121 e 129.) a) Identifique, nos versos transcritos acima, uma expressão que se opõe ao título da canção e uma outra que o confirma. Explique o título da canção considerando o último verso. b) Com base no trecho de Todorov e no excerto da canção, formule dois argumentos (um ético e um estético) que justifiquem o estudo do rap. 2. (Unicamp 2020) As palavras organizadas comunicam sempre alguma coisa, que nos toca porque obedece a certa ordem. Quando recebemos o impacto de uma produção literária, oral ou escrita, ele é devido à fusão inextricável da mensagem com a sua organização. Em palavras usuais: o conteúdo de uma obra literária só atua por causa da forma. (Adaptado de Antonio Candido, “O direito à literatura”, em Vários escritos. São Paulo: Ouro sobre azul e Duas Cidades, 2004, p.178.) A obra Sobrevivendo no inferno do grupo Racionais Mc’s é composta pelas canções e pelo projeto editorial da capa e contracapa do CD. Nesse projeto editorial, encontram-se elementos visuais e verbais que estabelecem um jogo de formas e sentidos. Com base na afirmação de Antonio Candido, é correto afirmar que a organização desses elementos a) produz uma simetria entre som e sentido, sendo que tal simetria indica que os símbolos religiosos são uma resposta à violência. b) configura um sistema de oposições, uma vez que imagens e palavras estabelecem tensões materiais e espirituais, constitutivas do sentido das canções.
46VOLUME 3 LINGUAGENS, CÓDIGOS e suas tecnologias c) configura uma sintaxe poética de ordem espiritual. Essa sintaxe espelha o caos e as injustiças vividos na periferia das grandes cidades. d) produz uma lógica poética racional. Essa lógica se explicita na vitória do crime sobre a visão de mundo presente nos versículos bíblicos transcritos. Gabarito 1. a) As expressões "é um campo minado" e "a gente vive se matando" opõem-se ao conceito do título da canção, “Fórmula mágica da paz”, que aponta para uma estratégia de pacificação das favelas proposta pelas autoridades, mas que nunca se mostrou eficaz. Na linha contrária, “Descanse o seu gatilho” expressa um pedido de desarmamento como tática necessária para que esses conflitos armados terminem e a população deixe de estar exposta a esse clima violência. Além dessa convocatória ao desarmamento, o poeta considera que o rap, cujo traço marcante é o grito-denúncia do conjunto de espoliações que negros e pobres sofrem cotidianamente nas cidades, também é um instrumento valioso para levar ao conhecimento de todos as dificuldades do meio em que vivem essas comunidades: “Entre no trem da malandragem, meu rap é o trilho”. b) Segundo o trecho de Todorov, a arte permite que o homem entenda melhor o mundo e ele mesmo, conceito expresso no verso do excerto da canção “O ensinamento da favela foi muito bom para mim”. Apesar da violência em que está mergulhado, o poeta consegue visualizar um efeito positivo ao produzir um tipo de música que é entendido não só pela população marginalizada da comunidade, como também por outras fora desse circuito que, dessa forma, passam a entender a realidade de substratos humanos a que antes eram alheios. 2. As imagens de uma cruz na capa e um revólver na contracapa do CD, acompanhadas ambas de frases bíblicas, estabelecem oposição de sentido entre valores religiosos de convivência pacífica e fraterna e comportamentos violentos. A mesma tensão está presente nas letras das canções que compõem o CD “Sobrevivendo no Inferno”, como transcrito em [B].
47VOLUME 3 LINGUAGENS, CÓDIGOS e suas tecnologias 1. Paulina Chiziane Fonte da imagem: Exclusiva!BR. 08 de nov. de 2008. Flickr: Exclusiva!BR. Disponível em: https://flic. kr/p/ 5Aiua3. Acesso em: 23 de dez. de 2020. Paulina Chiziane foi a primeira mulher a publicar um romance em Moçambique. Nascida nos subúrbios hoje Maputo, até então, Lourenço Marques, Paulina cresceu em uma família protestante, onde eram faladas as línguas Chope e Ronga. A língua portuguesa, por sua vez, a autora foi aprender dentro da escola de uma missão católica. Participou ativamente das frentes de luta pela independência de Moçambique. Porém, após a libertação, por desilusão política, parou de se envolver com o movimento e focou na publicação das suas obras. Parte disso, acredita-se, deriva-se do fato de no governo recém formado, as políticas destinadas às mulheres não serem igualitárias, restringindo-as. Seus primeiros contos são publicados em 1984. Em 2003, com o romance Niketche: uma história de pologamia (2002), a autora ganhou o prêmio José Craveirinha. Seus escritos refletem temas polêmicos à cultura moçambicana: da poligamia aos efeitos do carimbo da guerra pela libertação e do domínio colonial. Anunciou, em 2016, que pararia de escrever; cansada de uma vida de lutas ao longo dos anos. 2. A obra Eu acho que o mundo está habituado a pôr rótulos em todas as coisas. Nós queremos liberdade, mas as pessoas nos rotulam e a partir do momento em que a pessoa é rotulada de alguma coisa tem que pertencer a esse gueto. Romance é algo europeu, pelo menos veio com os europeus para o nosso país, faz parte da academia europeia. Eu sou africana, contacto com o romance, sim. Agora se eu se aceito ser romancista, eu tenho que cumprir com as normas do romance, e eu não quero. Eu quero escrever com liberdade, aquilo que me dá na cabeça. Porque se eu me apresento ao mundo como romancista, as pessoas NIKETCHE Paulina Chiziane LC OBRA 19
48VOLUME 3 LINGUAGENS, CÓDIGOS e suas tecnologias vão querer cobrar de mim aquilo que são as regras de um bom romance. Estou a fugir das regras, é só isso. (CHIZIANE, 2013) Niketche é uma obra da escritora Paulina Chiziane que sem sombra de dúvida desdobra-se sobre a condição feminina. Podendo ser lida sob diversas perspectivas, Niketche pode ser lido desde uma percepção a partir da marginalidade da população feminina em Moçambique, o que pode aproximar a obra, inclusive, de traços biográficos da autora, quanto como uma obra capaz de guiar e nortear ao redor do globo os diferentes desdobramentos do pensamento feminino a partir do feminismo africano. [...] Como é que a sociedade recebeu a notícia de que eu estava a escrever o meu livro? Primeiro com cepticismo e muito desprezo da parte dos homens. Muitas pessoas acreditavam e ainda acreditam que a mulher não é capaz de escrever mais do que poeminhas de amor e cantigas de embalar.[...] (ABRIL - Revista do Núcleo de Estudos de Literatura Portuguesa e Africana da UFF, Vol. 5, n° 10, 2013, p. 6.) Nessa direção, a obra de Paulina rompe barreiras muito antes da leitura da primeira palavra. As construções sociais, afinal, sempre impuseram às mulheres um lugar periférico e marginal, na política, na arte, no âmbito social. Essa exclusão é facilmente explicada por um falacioso discurso androcêntrico que produz a mulher como algo dotado de mistério e sensibilidade, incapaz de gerar conteúdo relevante. Assim, cria-se o entendimento equivocado de que os homens têm mais capacidade do que as mulheres para realizar algumas tarefas. As relações que o pensamento masculino estabelece com a mulher, sob o signo da opressão e da repressão, aliado a percepção de que há uma antiga construção na qual se funda o sutil manto de poder que os homens desempenham sobre as mulheres, são exploradas por Chiziane em sua história de poligâmia. Dessa forma, narrado por Rami (Rosa Maria), Niketche é a história dessa mulher, que descobre que seu marido é um poligamo, embora a prática seja proibida por lei. Rami descobre, assim, que o marido tem não somente ela, mas outras quatro mulheres (Julieta, Mauá Sualé, Saly e Luísa). Rami sai em busca de vingança contra essas mulheres, mas descobre, no decorrer da história, que elas serão suas maiores aliadas na luta contra algo maior. Rami entende que o problema da história é Tony, seu marido, representação da sociedade patriarcal de Moçambique. Ao longo do romance, Rami passa a conviver com suas rivais (como chama as mulheres com quem seu marido se relaciona) e vai, pouco a pouco, tecendo reflexões e desconstruções a respeito dessa mesma cultura moçambicana. Ela questiona e problematiza. Simultaneamente, por vezes, vemos Rami reproduzir os modos do opressor, expondo a complexidade desse grande sistema. § monogamia substantivo feminino 1. regime ou costume em que se tem apenas um cônjuge. 2. condição de monógamo. § poligamia substantivo feminino 1. união conjugal de uma pessoa com várias outras. 2. condição de polígamo. O início da obra é marcado pelas contestações de Rami diante da percepção da traição de seu marido. Rami é uma mulher criada a partir da convenção católica, importante ressaltar que esta foi uma doutrina imposta pelos colonizadores portugueses. Seu marido traz a mesma criação e preconceitos. Um marido em casa é segurança e proteção. Na presença de um marido, os ladrões se afastam. Os homens respeitam. As vizinhas não entram em qualquer maneira para pedir sal, açúcar, muito menos para cortar na casa de outra vizinha. Na presença de um marido, um lar é mais lar; tem conforto e prestígio. Essa ideia de que o homem complementa a mulher está ligada ao feminismo africano. Para as moçambicanas, a luta por uma sociedade mais justa se faz junto ao homem e, por isso, Rami lamenta que Tony não esteja presente para resolver os problemas da casa com ela. O discurso libertário, porém, embora já apareça manso nas primeiras indagações, manifesta-se com veemência quando seu duplo, o espelho, uma espécie de alter-ego de Rami, passa a conversar com ela. Quando Rami, então, vai até a casa de uma das mulheres com quem seu marido se relaciona e a agride, o espelho, mais evoluído, é quem a alerta: "agrediste a vítima e deixaste o vilão". No decorrer da narrativa, veremos que o espelho desaparece, simbolizando o amadurecimento e a evolução da personagem. Assim, as diferenças entre os gêneros na sociedade vão sendo desveladas pela autora, como quando coloca na boca de Tony a seguinte fala, ao ser questionado sobre as traições pela esposa: – Traição? Não me faça rir, ah, ah, ah! A pureza é masculina, e o pecado é feminino. Só as mulheres podem trair, os homens são livres, Rami. Durante todo o romance, vemos Rami oscilar entre suas experiências de insubordinação e subordinação a Tony. Trata-se, pois, de uma reconhecença da dificuldade de libertar-se daquilo que é a tradição. Por vezes, fica nítido
49VOLUME 3 LINGUAGENS, CÓDIGOS e suas tecnologias que não importa o quão alto grite, quando tenta expor a poligamia na frente da família do marido, de modo a envergonhá-lo, e o lado masculino relaciona o comportamento a uma ancestralidade anterior aos costumes católicos e portanto justa, a mulher sempre será jogada para um espaço de silenciamento. Rami, inclusive, parece chegar a conclusão de que a condição feminina anda de mãos dadas com a desgraça. As diferenças entre as mulheres do sul e do norte são colocadas na obra e parecem, ainda, também ratificar a presença de uma global cultura machista, pois, mesmo na cultura do norte em que as mulheres aparentam ter mais liberdade, é possível perceber que o mesmo so se dá em função dos desejos patriarcais e masculinos. Há semelhanças, assim, no discurso da professora de Rami, na escola de iniciação: Digo que sempre cumpri meu papel de esposa: lavar cuecas, coser peúgas, pregar botões das camisas dele. Quando sai de casa bonito, aparece alguém e o carrega todo, todinho, e deixame apenas as cuecas por lavar. Por que não o levam todo de uma vez? – Não culpes as outras pelo teu insucesso. Como tu foram conquistadas e responderam aos apelos do corpo. Os desejos de um homem são desejos de Deus. Não se devem negar. com o discurso de sua mãe (sulista): – No norte, a história da moela por vezes gera conflitos conjugais, que terminam em violência e até divórcios. – Não é possível! No sul também é assim. Essa tradição devia ser combatida. – Desafiar? Mudar? Pra quê? Cá por mim devia ser mantida, porque é uma boa isca. Um homem vence-se pela sua gula Por fim, pode-se ainda ressaltar que a obra, ao abordar a vida dessas mulheres, coloca em foco a problemática de ser feminista na África. Afinal, em muitos espaços, em especial, Moçambique, como é retratado na obra, as mulheres, embora não aceitem a dominação, compreendem que na sociedade em que vivem são subalternas e a condição de mulher precisa evoluir bastante Muitas dessas mulheres são feministas, pois afrontam o silenciamento imposto a elas cotidianamente. A posição que elas tomam ao lutar contra o sistema patriarcal muitas vezes é julgada como insuficiente pelas feministas brancas. Um dos aspectos esquecidos por essas críticas ocidentais é que as africanas, devido a sua cultura, não têm alternativas de sobreviver sozinhas em países tão machistas. A revolta a esse sistema se dá de maneira sutil, muito semelhante ao feminismo vivenciado no Brasil. Os africanos aos poucos tornam-se conscientes dessa sociedade opressora. (CARVALHO, J. 2015) Imagem de Maputo, capital de Moçambique 2.1. Enredo Ao perceber que está sendo traída, Rami decide contatar cada uma das mulheres com que Tony, seu marido, se envolve, para efetivar a relação poligâmica e estabelecer uma relação entre as mulheres. Desse modo, faz com que as mulheres sejam reconhecidas na sociedade e loboladas (reconhecidas em casamento). Dessa forma, Rami se torna a primeira esposa, aquela responsável por gerenciar a poligamia do marido, realizando escalas semanais com as esposas e verificando se os deveres de marido e mulheres estão sendo cumpridos. Pouco a pouco, porém, Rami começa a desenvolver uma outra relação com essas mulheres, emprestando, inclusive, dinheiro para que as demais esposas realizem seus pequenos negócios. Assim, as mulheres de Tony começam a conquistar independência financeira e passam a abandonar Tony para se tornarem as primeiras mulheres de outros homens. No final do romance, Tony perde as suas mulheres, fica sozinho e descobre, ainda, que Rami está grávida de Levy, seu irmão, pois, quando Tony foi dado como morto (período de tempo em que esteve com uma amante em Paris), devido à tradição, foi praticado com Rami o levirato (ritual em que se casa uma viúva com o irmão do morto). 2.2. Estilo da Narrativa Niketche é narrado em primeira pessoa e apresenta uma linguagem fluida e, por vezes, sarcástica. A narrativa dá voz à mulher moçambicana que conta sua própria história, expõe seus próprios pensamentos e reflexões sobre o meio em que vive. Não somente, a narrativa é ainda atravessada por outras histórias, de outras mulheres, as quais Rami escuta com atenção e com elas aprende. 2.3. Niketche Afinal, o que significa Niketche? No dicionário, Niketche é uma dança sensual que faz parte da tradição de alguns países africanos. Na obra de Chiziane, é o ápice da revolta das mulheres diante da situação que as oprime. É quando
50VOLUME 3 LINGUAGENS, CÓDIGOS e suas tecnologias as cinco mulheres usam sua beleza empoderada para derrotar o autoritarismo de Tony Somos cinco contra um. Cinco fraquezas juntas se tornam força em demasia. Mulheres desarmadas são mais mortíferas que as cobras pretas. A Saly abre a porta do quarto. A cama estava desmontada e o soalho coberto de esteiras. Achamos a ideia genial e entramos no jogo. Era preciso mostrar ao Tony o que valem cinco mulheres juntas. Entramos no quatro e arrastamos o Tony que resistia como um bode. Despimo-nos, em strip-tease. Ele olha para nós. Os seus joelhos ganham um tremor ligeiro. [...] Tony levanta as mãos à cabeça e depois ao rosto para esconder os olhos e gritar: – Meu Deus! Por favor, parem com isso, por Deus, que azar é este que me dão agora?! Com a dança, as mulheres trazem em símbolo a contestação do poder masculino. Dão a Tony o mesmo tratamento que ele lhes deu durante toda a história: o de objeto sexual. Essa dança que, como os pensamentos de Rami, vai pouco a pouco sendo aprimorada na História, é, na obra, uma celebração da autoafirmação feminina. 2.4. Tempo A obra se passa durante os primeiros anos do século XXI. Nota-se o tempo pelo desenvolvimento das personagens, o tempo cronológico é somente pontuado. 2.5. Espaço A obra se passa na parte sul de Moçambique. É importante destacar que é preciso pensar em um país devastado pela guerra anticolonial e pela guerra civil que se seguiu. 2.6. Guia de Personagens Rami (Rosa Maria): é a narradora, tem quarenta anos e cinco filhas. É uma mulher do sul e esposa dedicada de Tony. Tony (António Tomás): marido de Rami, tem ao todo 17 filhos. É comandante da polícia e tem poder no ambiente em que vive. Ju (Julieta): segunda esposa de Tony, tem 6 filhos e é também uma mulher do sul. Lu (Luísa): terceira esposa de Tony, tem 2 filhos e é uma mulher do norte. Saly: quarta esposa de Tony, de etnia maconde, tem 2 filhos e é uma mulher do norte. Mauá Sualé: quinta esposa de Tony, mais nova das cinco, com cerca de 19 anos, tem 2 filhos e é uma nortenha de etnia macua. Eva: mulher estéril e rica, é uma amante de Tony já em meio à vida poligâmica (é descrita como "mulata". Gaby: outra amante, está em Paris. Para visitá-la, Tony viaja à França por duas semanas, todos pensam que ele morreu. Levy: irmão de Tony, quando pensam que ele morreu, é ele quem efetua o levirato. Saluá: linda mulher de etnia nhanja, é rejeitada por Tony ao final da narrativa. Aplicando para aprender 1. Leia o trecho a seguir Mulher estéril é um ser condenado à solidão, à amargura. Qual a vida da mulher estéril? Marginalidade, ausência. Quais os sentimentos dela? Dor e silêncio. Quais os sonhos dela? Eterna ansiedade, desespero. [...] Uma criatura existindo sem existir. Deformada sem o ser. CHIZIANE, Paulina. Niketche: uma história de poligamia. São Paulo: Companhia das Letras, 2002. Com base na leitura integral da obra, pode-se afirmar que o trecho, extraído da obra de Chiziane, revela uma perspectiva: a) feminista por parte de Rami, que crê na importância do filho como vínculo entre homem e mulher no combate às desigualdades. b) patriarcal por parte de Eva, que por ser uma mulher estéril, não enxerga em si mesma a possibilidade de ser mulher por completo. c) conservadora por parte de Rami, na medida que encarna certo feminismo africano que compreende que a mulher deve ser mãe. d) feminista por parte de Eva, que mesmo sendo estéril age de modo a conquistar um segundo marido, um amante. 2. Na leitura integral de Niketche, é possível retomar um importante aspecto da formação da cultura moçambicana: a oralidade. Um trecho que destaca esse aspecto é: a) "Somos cinco contra um. Cinco fraquezas juntas se tornam força em demasia. Mulheres desarmadas são mais mortíferas que as cobras pretas". b) "a minha felicidade foi ter gerado só homens, diz ela, nenhum deles conhecerá a dor da violação". c) "Quando a lua cresce e incha, há uma mulher que se vê no meio da lua, de trouxa à cabeça e bebé nas costas. É Vuyazi, a princesa insubmissa estampada na lua" d) "Em algumas regiões do norte, o homem diz: querido amigo, em honra da nossa amizade e para estreitar os laços da nossa fraternidade, dorme com a minha mulher esta noite." 3. Leia o trecho a seguir É tempo de começar uma contradança. A vida, até ali, foi conduzida pelo marido, mas agora o canto que se vai ouvir e a dança que se vai dançar será aquela que há-de