The words you are searching are inside this book. To get more targeted content, please make full-text search by clicking here.

CIRCULO DA LÂMIA - A ARTE DAS BRUXAS MICHAEL NEFER

Discover the best professional documents and content resources in AnyFlip Document Base.
Search
Published by mdc.brazil, 2022-03-17 17:11:20

CIRCULO DA LÂMIA - A ARTE DAS BRUXAS MICHAEL NEFER

CIRCULO DA LÂMIA - A ARTE DAS BRUXAS MICHAEL NEFER

Página 1

A Arte das Bruxas

Por Michael Nefer

A Bruxaria, ou como preferimos, a arte das bruxas, se faz presente em várias culturas
ao redor do mundo. Ao longo de séculos, diversas bruxas e bruxos nutriram as raízes
da Bruxaria com o vinho da sabedoria, extraído de diferentes fontes, pois tal como um
rio cujos braços procuram o oceano. Essa Arte hoje se encontra nas mãos de homens e
mulheres do passado e do presente, seus conhecimentos e segredos estão escritos em
grimórios de carne e ossos, pois a própria história dessas pessoas se funde com a
história da Bruxaria. Eles foram magos, bruxas, astrólogos, xamãs, curandeiras e
benzedeiras de um passado não tão distante.

Podemos dizer que bruxaria é o ato mágico de transformar/moldar a Natureza de
acordo com nossa necessidade e não nosso simples desejo, mas ainda assim, sendo
simples e direto, várias coisas podem ser ditas para além disso. Bruxaria é aquele silêncio
que existe quando você acorda no meio da madrugada e não escuta nada, somente seu
coração batendo. Bruxaria também é o estalar da madeira queimando na fogueira
noturna, ou mesmo o estalar da casa velha e fria perante a chegada da noite. Bruxaria é
a vida e a morte, é a porta entre dois mundos. O perfume de terra que surge após a
chuva; o silêncio que existe nas cavernas; a neblina que repousa sobre a floresta
intocada; a luz da lua sobre o campo... são todas coisas que a bruxa percebe e toma para
si como um momento liminal onde ela pode moldar a realidade e transformar maldições
em bênçãos.

Diferente do que se possa imaginar, Bruxaria não é somente sobre feitiços e rituais,
bruxaria é uma jornada dentro do lado escuro de sua alma e a magia é somente o
resultado de nossa busca. O fruto de sua jornada será na mesma medida da sua vontade,
e você será desafiado a ser sempre melhor em tudo o que você é e faz. Como bruxas,
hoje buscamos o controle de nossas vidas, a retomada do poder da bruxa, que é a
consciência plena de que através do poder mágico temos total capacidade de impactar
o nosso mundo interno e o mundo externo.

Diz uma das 'regras' de nossa Arte: você não pode mudar a nada, e nem ninguém, se
não mudar a si mesmo primeiro. Assim o caminho da Arte começa a se desdobrar diante
de você, esse caminho começa chamando para dentro de si mesmo, e depois para fora.

TODOS OS DIREITOS RESERVADOS - PROIBIDA A REPRODUÇÃO OU
COMPARTILHAMENTO SEM CONSETIMENTO DO AUTOR

Página 2

Primeiro você deve aceitar o fato de que você está sozinho nesta tarefa, pois mesmo
que você tenha um mestre, este não pode obrigar você a mudar, a mudança sempre deve
vir de dentro de você. Bruxaria é um caminho de sabedoria, e a sabedoria nunca é obtida
por meios exteriores, mas sempre interiores, você precisa viver para 'saber', tal é o caso
do Amor, que é maior que qualquer religião, credo ou filosofia, justamente por nascer
de dentro para fora.

Aprenda que nesta jornada muitas são as pedras e troncos, os tropeços e os acertos,
você poderá contemplar paisagens dentro e fora de si mesmo que nunca pensou existir,
você irá desvendar seu próprio 'eu', desafiará seus limites e irá tão longe quanto puder
sonhar. Esta é essência do caminho: conhecer (e amar) a si mesmo, em ordem de poder
contemplar o mundo como ele é, e não como você espera que ele seja. Neste caminho
não há muito espaço para ilusões, por isso, se quer mesmo vencer esta jornada, aprenda
a detectar suas ilusões para com o mundo e para consigo mesmo.

Se você acha que este caminho vai libertar você, ou se acha que irá ser uma pessoa
poderosa, ou mesmo rica, infelizmente venho dizer-lhe que este caminho não lhe dará
nenhuma destas coisas se você não for capaz de olhar para dentro com honestidade e
sinceridade. Muitas são as máscaras que vestimos em nosso dia a dia, mas aqui você é
advertido: somente os fortes sobreviverão aos desafios a frente. Tornar-se bruxa é ser
tocado pelas mãos da Transformação e você jamais voltará o mesmo dessa experiência.

Imagine que a magia é uma folha de papel branca limpa, pura, cheia de possibilidades.
Enquanto vazia, ela possui todo potencial, para todas as coisas. Magia não tem e não é
religião, não é uma crença, ela simplesmente é uma fonte cheia de potencial.

Agora imagine que começamos a escrever ou desenhar na folha branca. Uma vez que
começamos a desenhar, a folha passa a ter seu potencial limitado a técnica empregada.
Se pinto de forma similar a um mangá, então me restrinjo a manter o estilo. A folha
vai ganhando cada mais traços, delimitando o que ela é. Em comparação ao que acabei
dizer, se a folha branca é a magia, a Bruxaria seria uma técnica, um estilo de se pintar,
e cada linha ou traço será uma característica daquele artista. Nesse sentido, a magia é
sobre controle e liberdade pessoal. Através dela podemos trazer oportunidade à vida de
alguém ou simplesmente ajudar a nós mesmos, os artistas, ou melhor, os artífices e
artesãos da bruxaria.

Esse também é o motivo da Bruxaria ser uma Arte e um ofício, e não uma religião,
jamais poderia ser uma vez que não possuímos nenhum livro que seja como a Bíblia é
para os cristãos, nem mesmo um deus ou deusa que sejam padronizados. Bruxaria é

TODOS OS DIREITOS RESERVADOS - PROIBIDA A REPRODUÇÃO OU
COMPARTILHAMENTO SEM CONSETIMENTO DO AUTOR

Página 3

metodologia, cada qual deve desenvolver suas técnicas e seguir seus estilos próprios.
Desse modo existem bruxas de todos os tipos, bruxas inseridas em diferentes culturas,
crenças, religiões e em diferentes camadas da sociedade ao longo da história humana.

História da Bruxaria

Assim como é complexo o significado da Bruxaria, sua história, como a teia da deusa
aranha, se enreda por vias mais complexas ainda. A história das bruxas não é um
processo cronológico, mas sim atemporal. Como gotas de chuva, mitos, lendas, contos
e estórias se fundem para criar um rio profundo. A união entre esses elementos não
forma uma ordem interdependente, mas agem como peças de um quebra-cabeças
atemporal que servem a memória e história da Bruxaria.

Não importa onde você vive, provavelmente, existe em sua cidade alguma lenda sobre
bruxas. Apesar das fontes escritas sobre bruxaria serem recentes, há uma enorme
quantidade de informações sobre a bruxa na tradição oral que manifestam conexões e
significados úteis para a bruxa. Existem temas recorrentes que encontramos nessas
tradições que apresentam elementos que formam a “ciência” da bruxa: o uso da magia,
o recurso da adivinhação do futuro, o trabalho com ervas e aliados espirituais vegetais,
o voo noturno das bruxas e a necromancia.

Nas religiões abraâmicas existem muitas informações que nos levam na direção do
espírito transformativo da bruxaria, como na névoa que encobre o mundo no início dos
tempos; na criação de Lilith; na sábia serpente do éden; no mito de Caim; nas lendas
dos anjos caídos e do primeiro salvador da humanidade; na história da Rainha dos Céus;
na história da bruxa necromante de Endor; nas artimanhas de Salomé e sua mãe; entre
tantas outras histórias. Já nas crenças pré-abraâmicas, diversas vezes encontramos
figuras ligadas a bruxa, como o pássaro Zu, espírito cognato da Lilith dos hebreus.

Nos mitos clássicos podemos apontar a história de Hécate e suas filhas, Circe e Medeia.
As lendas de Ártemis e Apolo, Diana e Febo, Selene e Endimião, e nas de muitas outras
deusas e deuses a quem se recorre na hora do parto para proteger o feto, na hora da
morte para não haver dor, nos momentos que se busca um amor não correspondido,
para se ter mais dinheiro e até mesmo para amaldiçoar um rival.

Na era medieval a Igreja Católica toma força através da espada e fome para os inimigos
e assim conquista mais e mais territórios impondo sua tradição de morte aos que não
concordavam com seus preceitos. É durante essa terrível época que a igreja se aproveita
para demonizar as crenças que divergiam dela dando origem ao diabolismo, a

TODOS OS DIREITOS RESERVADOS - PROIBIDA A REPRODUÇÃO OU
COMPARTILHAMENTO SEM CONSETIMENTO DO AUTOR

Página 4

demonização das crenças daqueles que resistiam. Também durante essa época os cultos
pagãos que se tornaram resistentes no seio popular, como o culto das deusas mães que
se tornou o culto de Maria e as tradições pagãs de Páscoa e natal, acabaram por fim
incorporados em sua estrutura. A ideia de diabo, demônios malignos, bruxaria diabólica,
tomam formas cada vez mais terríveis na imaginação popular e os acusados passam a
ser perseguidos com morte na fogueira.

No século 15 surgem os inquisidores e os manuais de caça às bruxas, que a esse ponto
já mataram milhares de pessoas. Os crimes são motivados cada vez mais por intenções
políticas. No século 16, o Rei Luís XIV da França, modifica a lei contra bruxaria
excluindo gatos pretos e todas as hórridas loucuras criadas pela histeria contra bruxas,
o número de acusações começa a cair.

Origens da Bruxaria no Brasil

A figura da bruxa europeia, que vai ao sabá e voa em vassouras, nos foi introduzida por
Portugal como atesta o folclorista e historiador Luís Câmara Cascudo, começamos
então por Portugal.

A cultura de Portugal foi composta por diversas outras culturas anteriores, sendo as
principais o catolicismo, o islamismo e as práticas fetichistas da África. Portugal era
aberta ao mar, recebia diversos povos e possui-a uma religiosidade híbrida.
Adicionando-se a predominância do caráter rural os portugueses eram muito mais
afeitos ao misticismo e a religiosidade pagã do que ao catolicismo.

No século V os suevos, que habitavam parte da região onde seria Portugal, aderiram ao
catolicismo como religião oficial através de São Martinho de Dúmio. Um dos motivos
que se deve tal acontecimento é que o Priscilianismo, uma forma de culto católico
(nesta época ser católico e pagão ao mesmo tempo era comum) que era a continuação
dos cultos pagãos e que disseminava-se até mesmo nos mosteiros da galícia:
Conquistando massas sempre mais numerosas, e onde as mulheres exerciam um papel
preponderante, a síntese teológica de Prisciliano, reinterpretada nas camadas populares,
tinha reencontrado e feito renascer a veneração religiosa dos astros, bem como o
desenvolvimento da adivinhação do tempo.

Assim a igreja começou seu esforço de apagar estas crenças e impor o cristianismo aos
povos rurais, onde era maior o número de adeptos dos cultos pagãos. O povo teve sua
identidade e cultura negadas, de modo que se tornaram 'ninguém': suas culturas foram

TODOS OS DIREITOS RESERVADOS - PROIBIDA A REPRODUÇÃO OU
COMPARTILHAMENTO SEM CONSETIMENTO DO AUTOR

Página 5

simplesmente apagadas, rejeitadas nas trevas e chamadas de maléficas; e assim os cultos
antigos tornavam-se a “porção maldita” da sociedade.

Apesar de seus esforços, como a implantação de catequese e da demonização dos antigos
cultos, a Igreja falhou. As crenças do povo continuaram a se manifestar através do
sincretismo ou mesmo se camuflando através de formas populares do catolicismo,
como as romarias, e principalmente nos santos. Muitos dos deuses do passado foram
‘santificados’ pela igreja, e assim mais uma vez a igreja atraiu o povo para seus recintos
de medo e culpa.

A igreja, apesar de suas tentativas de impor a ortodoxia, acabou por permitir a mistura
dos cultos e religiões primitivas com o catolicismo, formando assim uma nova
religiosidade popular, que foi importada ao Brasil.

Segundo historiador Novinsky, “O Tribunal do Santo Ofício da Inquisição, em
Portugal, foi introduzido exclusivamente para fiscalizar e punir os descendentes de
judeus que haviam sido convertidos à força ao catolicismo, e sob suspeita de praticar a
religião judaica. Foi gradativa a ampliação de seus objetivos até abarcar diversos tipos
de comportamento e crenças. Às heresias em matéria de fé juntaram-se feitiçarias,
bruxarias, sodomia, bigamia, blasfêmias, proposições, desacatos e problemas diversos
de sexualidade”.

É mister recordar que desde o século VI apesar das proibições, os escravos de vários
bairros de Lisboa reuniam-se para bailar e cantar “a seus modos”. De acordo com J. P.
Paiva, o número dos curandeiros era tão importante em Portugal que não existia uma
freguesia, por pequena que fosse, que não tivesse o seu. A sua área de ação era
habitualmente limitada a esta, exceto quando a sua fama extravasava os limites
geográficos iniciais, pois havia naquelas épocas curandeiros de grandiosa fama.

Religiosidade Popular no Brasil Colonial

A religiosidade brasileira era definida na época colonial como “práticas das classes
populares”, tidas, até o começo do século XIX como tudo o que era supersticioso,
vulgar, marginal ou grosseiro, por fim, a religiosidade popular era tudo aquilo que
aqueles que viviam na periferia da sociedade acreditavam, tidas como as distorções da
fé católica ortodoxa. Se você notar bem, em todo conto de fadas ou lenda, as bruxas
vivem ou viveram em áreas rurais, por vezes em locais onde nem mesmo autoridades
iriam.

TODOS OS DIREITOS RESERVADOS - PROIBIDA A REPRODUÇÃO OU
COMPARTILHAMENTO SEM CONSETIMENTO DO AUTOR

Página 6

Diferente da Igreja, os povos mais pobres nunca tiveram hierarquias em seus cultos,
eles não praticavam doutrinas, não sabiam ler, eles só viviam o sagrado em suas vidas e
o transmitiam oralmente. Os deuses e os santos eram vivos, por vezes até humanizados,
trazendo uma relação muito mais íntima com o sagrado.

Em o Trópico dos Pecados, do escritor Ronaldo Vainfas, é relatado que no Brasil os
portugueses praticavam pecados sem punição da Igreja. Aqui não existia a fé cristã nem
mesmo os dez mandamentos. “Era a carne com todos os seus desejos que comandava o
Brasil”. Para colonizar o Brasil, Portugal, utilizou os jesuítas da Ordem de Cristo,
como um braço do Estado, eles seriam os agentes do genocídio cultural e racial de
centenas de povos indígenas.

Portugal não tinha por costume matar os hereges, a maioria era degredada para a África
ou para o Brasil. Nesta lista estão bruxas, prostitutas, hereges, curandeiros, escravos,
judeus e muitos outros. Assim, os católicos acreditavam que a tradição católica do
matrimônio e da família estavam se tornando tradições distorcidas. A ideia inicial é que
a igreja esperava que esses pecadores poderiam formar famílias e se voltar para Igreja,
o que obviamente não acontecia, o Brasil tornava-se o Reino do Exílio, ou mesmo o
Purgatório terreno. Porém com tamanha liberdade essas pessoas continuaram suas
práticas pecaminosas, proibidas em suas terras natais cristianizadas. Os jesuítas,
preocupados com a perda de terreno, solicitaram ao rei que enviasse “pessoas de bem”
para assim formar uma sociedade menos pecaminosa, ou seja, que agradasse a Igreja.

Colonizado na Idade Moderna, tendo início de fato com a chegada do governador geral
Tomé de Souza em 1549 à Salvador, o Brasil recebeu dos galicianos a herança de um
mundo místico. É talvez difícil acreditar, embora seja um fato incontestável, que um
país como o Brasil, cujo nome é praticamente sinônimo de modernidade, e cujos
habitantes veem quase que exclusivamente o futuro, foi em seu começo uma verdadeira
Terra de Santos e de milagres. Realmente, as fontes primárias (e não unicamente a
hagiografia) registram o que a portugueses e índios contemporâneos lhes pareceram
aparições de santos, inclusive a Virgem Maria, no contexto de uma intensa experiência
mística que caracteriza aqueles primeiros tempos [...] Santos protetores eram
invocados (como o seguem sendo) contra todos os tipos de enfermidades ou perigos,
ou para obter um remédio para muitos problemas pessoais, como o das donzelas que
procuravam maridos. Por outro lado, a mistura das crenças dos indígenas, dos negros
e a dos degredados também formavam paralelamente um mundo novo crenças.

TODOS OS DIREITOS RESERVADOS - PROIBIDA A REPRODUÇÃO OU
COMPARTILHAMENTO SEM CONSETIMENTO DO AUTOR

Página 7

O Brasil Colonial foi marcado por interpretações muito livres da teologia, em muitos
casos, livres até mesmo de padres para acompanhar as massas. A religiosidade no
período colonial se dava em muitos casos na forma de cultos locais que misturavam
aspectos das culturas indígenas e negras com as crendices dos brancos, formando rituais
diversos e que davam uma nova tônica ao catolicismo português que já era bastante
híbrido.

As práticas mágicas eram escondidas e reprimidas na época colonial, algumas estão vivas
até hoje em nosso folclore, escondidas numa roupagem cristã. Nesta época colonial
Cristo tinha perdido grande parte de sua importância para dar lugar ao catolicismo dos
santos: a oração dá lugar às fórmulas mágicas, os problemas cotidianos roubaram o
esforço da salvação da alma. Desenvolvia-se um catolicismo extraoficial, de caráter
pragmático, popular e tributário de superstições tomadas à outras religiões.

Semelhante às práticas das bruxas italianas, como exposto por Charles Leland em seu
famoso livro, “O Evangelho das Bruxas”, os santos, cada um com sua “especialidade”,
tornaram-se os companheiros de jornada de muitas bruxas, auxiliando ou impedindo
projetos e sendo por consequência “recompensados” pelos fiéis com festas, pagamentos
de promessas e procissões, ou então “punidos”, seja com blasfêmias, ou com “castigos”
nas imagens. Esse tipo de ato está amplamente espalhado em hábitos de diversos povos,
demonstrando uma profunda ligação da bruxaria com a anarquia, pois o poder da bruxa
provém dela somente e de suas ações, não de um deus ou deusa, ela é soberana de si
mesma.

Casos de Bruxaria no Brasil

O Brasil teve algumas bruxas investigadas, a primeira de nossa lista é Maria Perpétua
de Calafate Souza, ou como ficou conhecida, a Bruxa de Ilhabela. Maria Perpétua foi
uma comerciante de Ilhabela, litoral de São Paulo, que foi acusada de bruxaria após
uma denúncia feita contra ela na igreja local. A escrava de um capitão conhecido como
Domingos adoeceu após uma briga com Maria Perpétua, que na época havia jurado
vingança. Quando sua casa foi inspecionada foram encontrados vários itens de magia
como ossos, cabelos, uma orelha seca e seu grimório. Não foi levada a julgamento, pois
seu marido matou a com facadas após descobrir que ela mantinha um caso com o
capitão Domingos.

Outra vítima da injustiça contra as bruxas foi Maria da Conceição, que era conhecida
como uma mulher versada na arte das ervas e medicamentos. Após um desentendimento

TODOS OS DIREITOS RESERVADOS - PROIBIDA A REPRODUÇÃO OU
COMPARTILHAMENTO SEM CONSETIMENTO DO AUTOR

Página 8

com um padre, ela foi acusada de bruxaria e levada a julgamento e considerada culpada.
Morreu queimada na fogueira em 1798 em São Paulo.

Mima Renard também teve o mesmo fim que Maria da Conceição. Mima era uma
imigrante francesa de beleza ímpar, ela e seu marido, René, foram morar em São Paulo,
onde ela rapidamente ganhou muitos pretendentes. Aconteceu que um desses
apaixonados pretendentes acabou por matar seu marido. Sem o marido, Mima teve de
se prostituir para sobreviver. As prostitutas por sua vez passaram a acusá-la de enfeitiçar
os homens com o propósito de atraí-los. Após um conflito entre dois de seus clientes,
que resultou na morte de um deles, Mima foi acusada pelas mulheres de seus clientes
por bruxaria. Foi julgada e condenada à morte na fogueira.

O Fenômeno da Wicca

Três anos após a extinção da última lei contra bruxaria no Reino Unido, em 1954,
surgia a Wicca através das percepções de Gerald Gardner. Por sua estrutura ela é
considerada uma religião, uma vez que os adeptos fazem uso de elementos em comum
dentro de suas diferentes tradições. Ao mesmo tempo que a Wicca é uma religião ela
também é considerada um tipo de bruxaria, mas não o único meio de se viver a Bruxaria.
A Wicca é uma porta de entrada comum para muitas pessoas que buscam caminhos
alternativos a religião patriarcal. Seus praticantes têm preceitos e dogmas que são
comuns entre si, como a Rede Wicca, a Lei Tripla, o uso das figuras de um Deus e uma
Deusa e rituais iniciáticos.

Todos aqueles que são Wiccanos são considerados bruxas, mas nem toda bruxa é
wiccana. Como já mencionei, bruxas estão inseridas em diferentes contextos. Existem
bruxas dentro de diferentes culturas (brasileiras, europeias, americanas, chinesas,
africanas, espanholas, italianas, japonesas, etc.), mas também existem variados tipos de
bruxas dentro dessas culturas (como no Brasil temos bruxas catimbozeiras,
benzedeiras, curadoras, quimbandeiras, bruxas do candomblé, da umbanda, espíritas,
etc.).

Diferente da Wicca, a Bruxaria desse livro não possui rituais que são comuns a todos
os praticantes. Por sua natureza fluida ela sempre se adapta ao local, pessoas, culturas
e ambientes em que se encontra sendo ao mesmo tempo tanto uma prática atual quanto
ancestral.

As bruxas a quem este livro se dirige são aquelas que abandonaram tudo o que vem
depois da palavra bruxaria, pois essas contam com diversos títulos explorando suas

TODOS OS DIREITOS RESERVADOS - PROIBIDA A REPRODUÇÃO OU
COMPARTILHAMENTO SEM CONSETIMENTO DO AUTOR

Página 9

muitas vertentes, mas sim para aquelas que sabem que para além das nomenclaturas,
para além de tudo que seja adjetivado após a palavra bruxaria (ex: bruxaria moderna,
bruxaria contemporânea, bruxaria ancestral…), a arte é atemporal. Para honrar nossos
ancestrais não mais realizamos rituais agrários ou até mesmo alienígenas a nossas
culturas de nascimento; tudo o que precisamos é comungar com os mundos que existem
aqui e agora e explorar o que temos ao nosso redor e principalmente, dentro de nós.

Ser Um Bruxa Hoje

É realmente árduo ser uma bruxa urbana. Bruxaria é uma das mais poderosas fontes de
acesso a Natureza em sua forma indomável e pura. Quem vive em áreas rurais sabe do
que falo, há momentos do ano em que as coisas ficam estranhas, janelas se abrem, passos
são ouvidos lá fora, os ventos uivam, as velas bruxuleiam e o silêncio toma conta de
cada canto da casa durante a noite.
A bruxa vive no limiar de dois mundos, o mundo dos espíritos e o dos humanos, viver
na cidade pode ser castrante para uma bruxa, já que nossa natureza essencialmente busca
os locais onde onde o homem comum não vai, lá onde habita o poder puro e a conexão
mais forte com a fonte que tantos buscamos para matar nossa sede de conhecimento e
sabedoria.
Se quer ser uma bruxa, ao menos prepare-se e poupe para estar algumas vezes por ano
em pousadas na montanha com locais para visitar e comungar com a paz e silêncio
inerente desses biomas. Lembre-se que os deuses habitam o silêncio ao seu redor, bem
como todas as coisas que você vê e também aquelas que você não vê.
Como bruxas urbanas, nossos rituais não mais celebram a colheita de grãos, mas
celebramos as alegrias da vida que dividimos com nossas comunidades. Nós agora
vivemos um mundo diferente e igualmente nossa Arte deve progredir. É nas celebrações,
nos pequenos encontros e nas idas e vindas da vida que o nosso poder se une com nosso
conhecimento na direção do Fogo da Sabedoria.

TODOS OS DIREITOS RESERVADOS - PROIBIDA A REPRODUÇÃO OU
COMPARTILHAMENTO SEM CONSETIMENTO DO AUTOR

Página 10

OS PRIMEIROS PASSOS NA ARTE

Você pode ver nas páginas anteriores que não há uma forma correta de bruxaria, mas
diversas formas que dão forma ao que atualmente chamamos de bruxaria. Neste passo
falaremos de quais são os passos para criar uma relação com os deuses e espíritos da
Arte sem, contudo, depender de um coven[1].

O Primeiro Passo

Muitos grupos da Arte utilizam um pequeno gesto de grande importância para
marcar o início da jornada de seus novos irmãos. Este pequeno gesto, visa a libertação
das restrições e inibições que você possui e que atuam como obstáculos para o seu
completo desenvolvimento. Que restrições são essas? Bem, na maior parte do tempo
são limitações criadas por crenças religiosas precedentes, já que a maioria das pessoas
é criada dentro de uma religião.

Nosso primeiro passo é renunciar ao que somos. Esse passo, que só pode ser tomado
por iniciativa própria, resguarda a memória do passado da bruxaria: a transgressão como
caminho iniciático. Muitos mitos e lendas relatam a tomada de uma decisão que vai
contra algo anteriormente determinado, indo contra o fluxo do mundo homens comuns
e não despertos de sua condição inconsciente. Há não muito tempo esse passo poderia
ser recitar o pai nosso ao contrário; ou poderia ser uma iniciação num bosque distante
e secreto declarando versos aos espíritos de uma determinada corrente espiritual,
sempre o princípio é o mesmo: esse passo só pode ser tomado sozinho.

A Abjuração

Você deverá elaborar um ritual simples que envolverá somente uma vela, sua voz e
sua vontade. Você pode escolher renunciar sua crença anterior ou pode simplesmente
dedicar seus passos para os serviços de uma divindade bruxa, prometendo ser um
instrumento do coletivo espiritual das bruxas e deixar um legado para outros que virão
depois de você. Lembre-se que bruxas não se submetem a vontade alheia, nem mesmo
dos deuses, você não vai querer dedicar sua vida toda a um espírito ou divindade sem
antes conhecê-lo e ter bons resultados, do contrário, se colocará novamente na condição
de uma ovelha em um rebanho.

TODOS OS DIREITOS RESERVADOS - PROIBIDA A REPRODUÇÃO OU
COMPARTILHAMENTO SEM CONSETIMENTO DO AUTOR

Página 11

Para começar, basta que durante um mês você se dedique a todos os dias, perante a
lua ou mesmo num cantinho de sua cada a demonstrar sua vontade de fazer parte desse
coletivo espiritual que a bruxaria é. Pode ser numa lua nova (excelente para começos)
ou numa lua cheia. Antes de começar, prepare sua vela, algo para acender, observe a lua
ou fique de olhos fechados por alguns momentos, deixe seu coração se acalmar e sua
respiração ficar tranquila e seu pensamento centrado. Imagine tudo o que puder de sua
vida até esse exato momento e do ato de poder e retomada do controle que está para
tomar em sua vida. Então comece a falar algo com base em suas próprias palavras e
vindo direto do coração.

Enquanto você declara sua renúncia e se coloca no caminho das bruxas, imagine que
você abandona todo o peso de uma vida regrada pelas palavras de pessoas infelizes; ouça
o som das correntes que antes te prendiam caírem ao chão; sinta o perfume do sangue
e da terra, a chuva vem se aproximando para lavar o passado; raios ao seu redor iluminam
e tonificam seu corpo com pura luz azul e branca, completando a liberdade que você
tomou para si. Você é livre, você não mais precisa carregar o peso da culpa e do pecado
que foram impostos sobre você. Para finalizar você pode dizer algo como “nema” (que
é amém ao contrário) ou pode escolher outra palavra (alguns exemplos são “ahu”, ‘“hu”,
“eko”, “evoé”...).

O Processo de Catarse

Após o seu ritual é recomendado que você invista um tempo na natureza. A
observação da natureza lhe ajudará a meditar sobre os próximos passos a serem tomados
e sobre todas as outras escolhas que existem a frente. Pode ser que durante esse
processo você venha a se sentir mais agitado ou ansioso que o normal, sentindo calafrios
ou presenças ao seu redor. Não tenha medo, durante um certo período você poderá ver
ecos de medos da infância surgirem. Eles são naturais e servem como lembretes do
trabalho épico a sua frente: descobrir a si mesmo. Persista durante um mês, mantendo
em sua mente o passo que você deu e os motivos por trás de tal decisão.

Durante esse período você deverá se envolver com a natureza de onde você vive. A
habilidade de escutarmos o mundo oculto na paisagem em que vivemos é uma das
muitas habilidades da bruxa nas tradições orais, comumente chamado de ouvir “a voz
dos ventos”. Desenvolver essa habilidade agora irá lhe conferir cada mais vez mais a
capacidade de entrar em contato com correntes de poder mágico naturais em sua cidade.
Para isso precisamos comungar com a natureza, através dos ritos, da observação de
como a natureza age em nossa cidade, da prática de oferendas e da pesquisa e

TODOS OS DIREITOS RESERVADOS - PROIBIDA A REPRODUÇÃO OU
COMPARTILHAMENTO SEM CONSETIMENTO DO AUTOR

Página 12

comunicação direta com os espíritos desses biomas. É a observação quem nos dá o
sentido em direção a comunicações eficientes e consistentes com os guias espirituais
da bruxa: os espíritos familiares.

Então para começar, no dia seguinte após o seu ritual de abjuração, procure se
envolver com a pesquisa sobre o folclore local de sua cidade e escolha alguns locais para
visitar e observar como você se sente nesses locais. Quando decidir ir a algum local para
observar, procure pedir aos deuses e espíritos do caminho uma boa jornada de ida e
uma boa jornada de volta. Muitas vezes, cemitérios são os melhores lugares em centros
urbanos que podemos encontrar. Cemitérios são considerados em nossa Arte como
templos ancestrais da bruxaria, um reino paralelo ao nosso onde nossa deusa bruxa
anciã habita. Quanto ao folclore, estudar como bruxas eram retratadas irá se revelar
muito proveitoso para sua consciência sobre a bruxa e suas funções, muitas sendo
retratadas de formas similares ou até diferentes, mas apontando que é no mundo do
desconhecido e do selvagem que a bruxa encontra os espíritos e realiza seus mais
poderosos atos.

Exercícios do Mês

Aprenda sobre histórias locais sobre bruxas em sua região, expanda essa pesquisa
para causos sobrenaturais e lendas. Você pode contar com a ajuda de seus amigos,
parentes, o Google ou uma biblioteca local.

Vá para uma área verde em sua cidade e busque um local calmo e tranquilo e tente
sentar-se em vários locais diferentes, pode ser inclusive em sua casa. A cada local, anote:
o que você sentiu naquele local; quais pensamentos passaram pela cabeça, mesmo que
pensamentos do dia a dia; o que notou ao seu redor de diferente… essas informações
serão úteis mais tarde em nosso curso.

TODOS OS DIREITOS RESERVADOS - PROIBIDA A REPRODUÇÃO OU
COMPARTILHAMENTO SEM CONSETIMENTO DO AUTOR


Click to View FlipBook Version