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Published by , 2016-05-09 15:43:31

A Ilha Perdida - Maria Jose Dupre

A Ilha Perdida - Maria Jose Dupre

cautelosamente por trás de uma grande pedra, e chegaram a uma nascente que havia lá
embaixo entre avencas e samambaias; beberam a água puríssima e Henrique disse:
— Ih! Está tão fria que parece gelada.
Boni também quis beber, mas não achou graça; Lucas bebeu em grandes goles. Subiram
novamente o caminho que estava bem trilhado por animais que costumavam ir beber na
nascente. Henrique sentia-se cansado e de novo com fome, mas não se queixava para
não interromper a marcha.
Chegaram afinal a um lugar muito limpo no meio da floresta; ali não havia cipós, nem
folhagem cerrada; divisava-se longe através dos troncos das árvores. Era um bosque de
pinheiros, com o chão forrado de folhas secas; havia entre as árvores uma plantinha
rasteira que dava uma florzinha azul muito mimosa.
Viram então uma cena que Henrique jamais pôde esquecer: dois veados grandes
rodeavam uma veadinha ferida na cabeça. Lucas que caminhava sempre na frente deu
dois pulos e aproximou-se do grupo; parecia querer mostrar a Simão o que ele devia
fazer.
Simão olhou a veadinha e pediu a Henrique para iluminar o lugar com a tocha; acendeu
outra tocha que ele mesmo colocou no chão e ajoelhando-se ao lado do animal,
começou a examinar a ferida. Era um ferimento de bala no meio da cabeça; não havia
salvação, a veadinha ia morrer. O sangue corria sem parar.
Simão abriu a caixa de madeira, tirou o bálsamo que derramou sobre o ferimento,
depois procurou extrair a bala, mas não a encontrou, pois o ferimento era muito
profundo. Ficou amparando a cabeça do animal agonizante; olhou os veados que
pareciam os pais da veadinha e viu lágrimas nos olhos deles; Lucas também chorava.
Eram lágrimas verdadeiras que corriam dos olhos dos animais; pareciam sentidíssimos
com a morte da veadinha.
Henrique nunca vira um animal chorar e ficou muito admirado olhando a cena; Simão
murmurou:
— Os caçadores não têm coração. Matam um pobre animal inofensivo pelo prazer de
matar. Veja você: matar um bichinho tão inocente, tão bonito, tão delicado. Para quê? Se
fosse para saciar a fome, ainda bem, mas é para se divertir que eles matam. Matam por
crueldade. Querem apostar para ver quem mata melhor, quem mata primeiro.
E Simão ficou de cabeça baixa olhando a veadinha que já estava morrendo. Henrique
perguntou:
— Foram caçadores que fizeram isso?
— Quem mais se não eles? Matam os pobres animais só por divertimento; se gostam
tanto de matar assim, deviam ir para África caçar leões ou então caçar tigres na Índia.
Isso sim, seria medir forças. Mas matar um animalzinho destes que não faz mal a
ninguém? É crueldade. Nem gostam da carne de veado, acham-na muito seca, dão para
os cães. Mas matam, matam sempre. Por isso vivo sozinho, sou mais feliz assim. E olhe
uma coisa, Henrique, os homens sofrem e são infelizes porque são maus. A maldade só
pode trazer infelicidade.
Levantou-se e fez sinal a Henrique indicando que a veadinha já estava morta; Lucas e os
outros dois veados aproximaram-se e começaram a lamber a cabeça do animal bem no
lugar da ferida, de onde continuava a escorrer sangue.

Henrique teve vontade de chorar; como é que simples animais compreendiam que a
companheira estava morta? Perguntou a Simão:
— Eles choram, Simão? Parecem gente chorando. Nunca vi isso.
— Choram, disse Simão tristemente. Muitos animais choram assim como gente.
Henrique afastou-se para um lado e sentando-se num tronco de árvore, ficou pensativo.
Boni refestelou-se ao seu lado, convencido de que prestara um grande serviço vindo
também: Simão sentado de um lado, esperava o dia clarear. Logo os primeiros raios de
sol atravessaram os pinheiros e iluminaram a cena; Henrique que cochilara um
pouquinho, acordou com uma bicada de Boni no seu nariz. Boni tinha esse costume:
acordar os outros com bicadas no nariz.
Henrique olhou à volta e ficou impressionado com o que viu: havia mais veados à volta
da veadinha, talvez uns dez. E todos pareciam sensibilizados com o que acontecera.
Depois ouviu um barulhinho nas árvores e olhou; viu serelepes, macacos, aves de várias
espécies que olhavam para baixo com ar entristecido. Perguntou a Simão:
— Eles vieram por causa da veadinha?
— Penso que sim, respondeu Simão. Todos se compreendem na floresta.
Henrique tornou a perguntar:
— Simão, estamos no reino dos veados?
— Sim, disse Simão. Quase todos moram neste bosque de pinheiros; só Lucas é que
gosta de andar pela mata.
Henrique estava cada vez mais admirado:
— Então há homens caçando na ilha? Pois mataram a veadinha.
— Não, disse Simão. Esta veadinha foi ferida numa das margens do rio; naturalmente os
caçadores atiraram e quando ela se viu ferida nadou para cá; veio morrer no lugar onde
nasceu.
— E o que será que ela foi fazer lá na margem?
— Ah! Muitos animais às vezes atravessam o rio deste lado que é mais estreito e vão
procurar coisas para comer lá na margem. Com certeza foi isso que aconteceu; são
animais bons que ainda não conhecem a maldade dos homens.
E tudo o que Henrique presenciou depois, mais parecia sonho que realidade. Sabiás
cantavam sem cessai entre os pinheiros como a chorar a morte da veadinha; baitacas,
araras e papagaios desceram ao solo e ficaram ao redor dos veados, todos cochichando
entre si como se comentassem o triste acontecimento. Até os pinheiros pareciam
sentidos: o vento começou a passar entre eles e os galhos secos foram caindo em sinal
de tristeza; o solo ficou forrado de galhos e folhas.
Henrique sentia admiração cada vez maior; seria possível o que estava vendo? Ou seria
sonho? Viu os veados mais velhos arrastarem o corpo da veadinha para a margem do rio.
Só então reparou que o rio corria ali perto do bosque de pinheiros. Com os focinhos,
eles empurraram o corpo do animal até jogá-lo no rio e as águas do Paraíba levaram a
veadinha para longe.
Voltando para o interior do bosque, Henrique viu Simão fechando a caixa de madeira e
o veado Lucas ao seu lado; todos os outros animais haviam desaparecido só o vento
sacudia os galhos das árvores. Simão murmurou:
— Pobre Lucas!

E Boni que era muito novidadeiro, respondeu três vezes com a voz esganiçada:
— Pobre Lucas! Pobre Lucas! Pobre Lucas!
Voltaram para a caverna onde chegaram à tarde, famintos e cansados; Lucas também
voltou com eles. Deitou-se num canto da gruta e ficou quieto, como se dormisse. Simão
preparou uma fritada de ovos e como sobremesa tiveram mangas que os Cinco haviam
trazido aquela tarde do pomar.

A VOLTA

C ORRERAM dois dias sem novidade. De manhã nadavam no lago, depois iam
pescar ou tratar da horta. Quando não havia tarefa determinada por Simão,
Henrique aprendia a subir nas árvores com Um-Dois-Três-Quatro-Cinco;
pulava de uma árvore a outra e trepava pelos cipós até chegar ao topo, sem medo algum.
Passava a tarde brincando com os animais e assim se fazia amigo de todos: até coçava a
barriga da oncinha e ela, contente, ronronava então como gato, os olhos semicerrados.
Boni acompanhava-o por toda a parte e dizia o nome de Henrique cortado pelo meio.
Grilava: Rique! Rique! com toda a força.
Uma tarde, Henrique estava muito triste sentado na beira do lago quando Simão
aproximou-se e perguntou:
— Por que está triste, Henrique?
Henrique ficou muito perturbado e resolveu falar a verdade:
— Penso nos meus pais e no meu irmão Eduardo. Tenho saudades deles; lembro-me
também dos padrinhos que moram em Taubaté e devem estar pensando que eu morri.
Por isso fico triste às vezes. Mas gosto muito desta vida, muito mesmo.
Simão ficou pensativo, depois respondeu:
— Está bem, Henrique, gostei da sua franqueza; e sei que você precisa mesmo voltar.
Quer voltai?
— Quero, respondeu Henrique imediatamente.
- Muito bem. Amanhã levo você até o meio do caminho e ensino de que lado fica a
prainha e você irá até lá. Está contente?
- Estou sim. Muito obrigado. Simão continuou:
— Quando perguntarem onde você esteve, você dirá que esteve com o homem barbudo
e misterioso que mora na Ilha Perdida. E tenho certeza de que ninguém vai acreditar em
você.
Simão deu uma risada e Henrique respondeu:
— Pode ficar certo, Simão, de que nunca esquecerei sua bondade e a maneira como
você trata os animais. Aprendi com você essa grande virtude.
Simão tornou a falar:
— Escute uma verdade, Henrique: Quanto mais culto um povo, melhor ele sabe tratar os
inferiores e os animais. Isso demonstra grande cultura e você nunca deve esquecer.
— Nunca esquecerei, Simão. Pode ficar certo.
À noite, Henrique quase não pôde dormir; pensava na volta. Eduardo estaria ainda na
prainha? E se não estivesse? De que modo voltaria à fazenda dos padrinhos?
No dia seguinte cedo, preparou-se para partir, conforme Simão determinara; Simão
queria que ele voltasse como viera, sem levar nada da caverna a não ser alguma coisa
para comer no caminho. Queria que fosse com os mesmos sapatos e as mesmas roupas.

Henrique perguntou:

— Não me deixa levar nem a machadinha como lembrança?
— Nada.
— Simão, deixa-me levar ao menos as sandálias que teci...
— Não, respondeu Simão.
Deu almoço para Henrique e alguma fruta para ele levar; depois de tudo pronto, disse:
- Então vamos. Acompanho você até o fim desta primeira floresta.
Antes de deixar a gruta, Henrique despediu-se dos seus habitantes; coçou a cabeça da
oncinha, disse um adeus à coruja, ao morcego, à tartaruga, a Um-Dois-Três-Quatro-
Cinco.
Deixou a caverna com o coração triste; Boni quis acompanhá-lo juntamente com Simão.
Não pôde despedir--se de Lucas que estava ausente desde o dia anterior. Partiram.
Simão caminhava na frente, depois Henrique; Boni como sempre, ora no ombro de um,
ora de outro. Durante o percurso, Henrique perguntou:
— Simão, quando eu estiver entre os meus outra vez, posso contar que estive aqui?
Posso contar tudo o que vi ou não quer que conte nada?
Simão parou um pouco para refletir, depois disse:
— Henrique, estive pensando durante esta noite. Acho que você pode contar tudo o
que viu porque ninguém acreditará; vão dar risada das suas aventuras e vão dizer que
você inventou tudo isso, vai ver.
Na frente dele, Henrique tornou a falar:
— Mas, Simão, as pessoas que vivem no mundo civilizado são muito curiosas; são
capazes de organizar uma expedição e vir aqui à ilha para saber se falei ou não a
verdade.
— Deixa que venham, respondeu Simão, ninguém me descobrirá. Sei esconder-me
muito bem, assim como meus bichos. Tenho certeza de que não me encontrarão.
— Muito bem. Farei como você mandou, Simão.
Continuaram a andar por mais algum tempo no meio da floresta; de repente, Simão
parou e disse:
— Henrique, vamos nos separar aqui. Indo direito por este lado, veja bem, você vai dar
na prainha, não demora nem meia hora de marcha. Adeus e seja feliz, Quero ainda fazer
um pedido a você, um pedido muito sério: Ouça bem, nunca maltrate os animais; seja
sempre bom e caridoso para com eles, principalmente para esses que vivem conosco e
nos prestam serviços. Nunca os maltrate. Ouviu bem?
— Ouvi, respondeu Henrique.
Henrique e Simão apertaram-se as mãos fortemente;
Henrique disse:
— Obrigado, Simão. Nunca esquecerei o quanto você foi bom para mim; se algum dia
eu puder voltar, voltarei. Você permite que eu volte para uma visita algum dia?
— Pode voltar, mas sozinho. Quando encontrei você na prainha, pensei que iria ter um
companheiro daí em diante, mas vi você com tantas saudades da sua gente que resolvi
fazer você voltar. Seja feliz.
— Uma coisa ainda, Simão. Se por acaso meu irmão Eduardo não estiver mais na
prainha, o que farei? Ficarei sozinho até vir socorro? E se não vier nunca? Penso que não

saberei voltar para a caverna.
Simão sorriu:
— Seu irmão Eduardo ainda está na prainha tenho certeza. Pode ir descansado.
Henrique perguntou:
— Então a telegrafia sem fio andou trabalhando muito?
— Trabalha sempre, respondeu Simão. Sei tudo o que se passa nos arredores. Seja
feliz. Adeus!
Simão voltou as costas e entrou no mato outra vez sem dizer uma palavra mais. Henrique
beijou a cabecinha de Boni:
— Adeus, Boni. Volte com Simão.
Boni compreendeu; gritou primeiro:
— Que pressa é essa, Simão? Espere um pouco! - Falou as mesmas palavras que Simão
falava para ele quando estavam se aprontando para percorrer a floresta. Depois Boni
bateu as asas e voltou para o ombro de Simão. De lá gritou bem alto:
— Rique! Rique! Adeus!
Henrique sentiu vontade de chorar, falou alto com a voz comovida:
- Adeus, Simão, e obrigado. Adeus, Boni!
Não ouviu resposta, já estavam longe. Caminhou na direção que Simão indicara e foi à
procura da prainha. Vivera todos esses dias uma tão grande aventura que se contasse
ninguém acreditaria, tinha certeza.
Andou mais de meia hora sem encontrar nada. Comeu a última fruta que trouxera e
continuou a caminhar pelo mato adentro. Começou a ouvir o barulho do rio. Resolveu
gritar:
— Eduardo! Eduardo!
Nada de resposta. Estava cansadíssimo, pois caminhava desde muito cedo e já devia ser
tarde. Onde estaria a prainha? Resolveu sentar-se um pouco e descansar; recostou-se no
tronco de uma árvore grossa e ficou quieto, com a cabeça encostada na árvore. Que
horas seriam? Sem sentir, cochilou; acordou assustado, parece que ouvira um
barulhinho. Seria sonho? Tornou a recostar a cabeça e dormiu profundamente. Não
sabe quanto tempo dormiu assim; acordou com um frio esquisito no rosto e uma voz
chamando:
— Henrique! Meus Deus! É Henrique mesmo!
Pensou que era Boni; ia dizer: «Boni, você voltou?» quando reconheceu a voz do irmão.
Abriu os olhos e viu Eduardo na frente dele; estava magro, meio nu, os olhos fundos;
passava um pano molhado no rosto de Henrique, era o resto da sua camisa. Falou para
o irmão:
— Por onde andou, Henrique? Diga logo. O que aconteceu com você?
Henrique esfregou os olhos; não quis falar logo a verdade, deixou para mais tarde, senão
Eduardo pensaria que ele não estava bom da cabeça. Disse:
— Estive perdido na floresta todo esse tempo. E você? Ficou sempre na prainha?
Sozinho?
— Estive procurando você, depois desisti; estou fazendo a jangada para voltarmos para
a fazenda dos padrinhos. Pensei que você tivesse caído no rio e se afogado. Quase morri
aqui sozinho.

— Eu quis voltar, mas não consegui, Eduardo. Aconteceu tanta coisa comigo...
Eduardo estava curioso e queria saber tudo:
- O que foi? Conte depressa. Viu alguém na ilha? Vamos primeiro ver a jangada. Está
pronta?
Eduardo entusiasmou-se:
— Está quase pronta; imagine você que se eu tivesse de trabalhar só com a faca decerto
levaria um ano, mas encontrei outro dia na praia uma machadinha formidável Quer ver?
Henrique acompanhou Eduardo; tinha a cabeça ainda atordoada, nem sabia onde
estava. Perguntou:
— O que você comeu durante todo esse tempo? Você está magro, Eduardo...
— Comi frutas e raízes de árvores. E você?
— Comi de tudo, contarei depois. Eduardo continuou:
— Quando voltei para a prainha naquela tarde, não encontrei você. Onde você foi?
— Fui procurar frutas na floresta, depois encontrei Simão, o morador aqui desta ilha..
— O quê? Henrique, você está maluco? Na ilha não existe morador algum.
Henrique sorriu:
— Ora se existe... Vivi na caverna dele todo esse tempo. Com ele e os bichos...
Eduardo estava cada vez mais admirado:
— Que bichos?
— Uma porção de bichos: micos, papagaio, coruja, onça...
— Qual, você está sonhando... Henrique perguntou:
— E aquela enchente terrível?
- Já acabou há muito tempo; creio que foi essa enchente que trouxe a machadinha
para a praia. Venha
Assim conversando, eles caminharam até o lugar onde estava a jangada. Eduardo
trabalhara muito; não era uma jangada muito grande, mas, os paus estavam bem
amarrados com cipós e com certeza navegaria sem dificuldade. Henrique admirou-se:
— Como você trabalhou, Eduardo! E sozinho aqui?
— Sozinho. Apenas com esta machadinha que encontrei por acaso.
Quando Henrique olhou, reconheceu uma das machadinhas feitas por Simão;
naturalmente Simão encontrara um jeito de dar uma machadinha para Eduardo
trabalhar. Que bom homem era Simão! Henrique não disse que co-nhecia a machadinha;
só perguntou.
— E o canivete também não serviu? Era um bom canivete...
Eduardo respondeu:
— Você levou o canivete... Henrique protestou:
— Não levei, deixei-o espetado numa árvore para mostrar o caminho a você.
— Você está sonhando, Henrique. Em que árvore? Vamos ver...
Logo encontraram o canivete espetado num tronco, tal qual Henrique deixara. Comeram
bananas que Eduardo guardara escondidas sob uns galhos; depois ele mostrou a
Henrique a cama que arranjara debaixo de uma grande pedra.
Quando anoiteceu, dormiram aí nesse lugar; mas Henrique não dormiu bem, acordou
muitas vezes pensando em Simão e na gruta. Bem dissera Simão que ninguém
acreditaria no que ele contasse. Era verdade.

No dia seguinte prepararam-se para voltar à fazenda; o rio estava calmo, mas a viagem ia
ser difícil. Se conseguissem ao menos atravessar o rio e chegar a uma das margens,
subiriam a pé depois até à fazenda;
Antes de partir Eduardo comeu umas raízes e disse a Henrique que comesse também;
não era muito gostoso mas servia para matar a fome. Henrique experimentou, mas não
conseguiu, lembrou-se da caverna e dos quitutes que Simão sabia preparar.
Disse que preferia comer uns ingás que havia na beira do rio; Eduardo disse que ingá era
uma fruta insignificante e não matava a fome; Henrique não respondeu, comeu alguns,
encheu os bolsos com outros e preparou-se para pular na jangada. Arranjaram paus
compridos para servirem de remos; esses paus ao menos serviriam para dirigir um
pouco a embarcação.
Eduardo pulou primeiro, depois Henrique; a jangada começou a balançar sobre as
águas; desamarraram a corda que a prendia e ela deslizou de leve rio abaixo. Então os
dois meninos fizeram um grande esforço para que ela atravessasse o rio e fosse para a
margem oposta; mesmo que aportassem longe da fazenda, encontrariam alguém que os
guiasse por terra; sozinhos na jangada que não obedecia, iriam parar sabe Deus onde e
seria perigoso.
Mas a correnteza estava forte e teimava em arrastar a jangada rio abaixo; Henrique
começou a desesperar.
— Onde iremos parar? Desse jeito, vamos ficando cada vez mais longe da fazenda.
Depois não poderemos voltar.
Eduardo esforçava-se para remar.
— Coragem, Henrique. Não vamos desanimar agora que estamos quase vencendo.
Procure empurrar a jangada com o outro pau; ao menos serve de remo.
— Já tentei e não consegui; ela não obedece.
E os dois esforçavam-se para levar a jangada para a beira do rio, mas a jangada era
puxada pela correnteza e ia descendo o rio, sem esperança de parar. Eduardo
perguntou:
— Onde iremos parar assim? Ela vai nos levar para muito longe.
Henrique disse:
— O pior é esta água que começa a entrar por entre os paus; parece que a jangada vai se
abrir.
— Qual o que, disse Eduardo. Eu prendi tudo muito bem com cipó; levei horas fazendo
esse trabalho.
— Mas você não tem prática, Eduardo.
— Não tenho prática, mas fiz tudo muito bem feito. Duvido que os cipós não estejam
firmes.
— Decerto estão firmes, mas se ficarmos muito tempo assim, eles não agüentarão.
— Garanto que agüentam muito bem. Felizmente naquele lugar o rio corria muito
devagar, de modo que a jangada flutuava de manso e os dois meninos não perdiam a
coragem. De vez em quando Henrique comia um ingá e oferecia a Eduardo, haviam
trazido bananas para comerem mais tarde, se tivessem muita fome. Queriam economizá-
las, pois não sabiam quanto tempo iriam ficar sem ter o que comer.

Foi quando os dois viram, quase ao mesmo tempo, uma
embarcação que vinha em sentido contrário; era dirigida por
três homens. A distância, não percebiam muito bem se eram
três ou quatro homens. Os dois meninos ficaram de pé na
jangada, mudos de espanto e alegria; estavam salvos.
Quando ficaram de pé, a jangada quase virou com eles;
sentaram-se outra vez e Eduardo tirou o paletó e colocou-o na
ponta do pau que servia de remo para que os homens vissem;
Henrique pôs a mão no canto da boca e gritou com força:
— Socorro! Socorro!

Quando ficaram de pé, a jangada quase virou com eles.
Henrique começou a gritar por socorro.
Nada disso era preciso; os homens já haviam avistado a
jangada, pois eram empregados da fazenda do padrinho e há oito dias não faziam outra
coisa senão percorrer o rio à procura dos dois rebeldes. Padrinho estava noutro barco
que passara horas antes.
No momento em que o barco se aproximou da jangada, todos viram com horror que os
paus já estavam se desamarrando uns dos outros; mais meia hora e os meninos se
afogariam no rio.
Bento estava entre os homens da fazenda; quando viu os meninos, foi falando logo:
— Xi! Na fazenda pensaram que vocês haviam morrido afogados. Estão todos
assustados, ninguém tem dormido direito...
Auxiliaram os dois meninos a pularem para o barco; Eduardo que havia construído a
jangada, quis levar ao menos uns paus como lembrança, mas não conseguiu; ela se
separou em duas partes e rodou pelo rio. Os homens queriam saber quem construíra e
quando Eduardo contou que fora ele sozinho, não quiseram acreditar, parecia
impossível.
Bento não parava de falar; disse que Henrique estava bem, mas Eduardo parecia muito
magro; perguntou se haviam passado muita fome. Quando Henrique contou que comera
muito bem na caverna de Simão, todos queriam saber quem era Simão; mas ninguém
acreditou em Henrique.
Os homens sorriam olhando uns para os outros, depois perguntaram se Henrique
estivera com febre, pois era bem possível que ele tivesse tido febre esse tempo todo e
tivesse sonhado.
Eduardo e Henrique sentaram-se no fundo da canoa, exaustos e famintos; a canoa foi
subindo dirigida pelos empregados que não cansavam de perguntar a respeito da ilha.
Queriam saber onde haviam dormido e o que haviam comido. Henrique perguntou:
— Vocês não foram até a ilha? Por que não procuraram lá?
Os empregados contaram que haviam contornado a ilha várias vezes e até percorrido
uma parte dela; haviam gritado pelos nomes deles e como não houvessem encontrado
rasto, nem vestígio algum, tinham voltado.
Os meninos respondiam o que os homens perguntavam, e estavam ansiosos por chegar a
fazenda; meia hora depois, avistaram a canoa em que vinham o padrinho e mais dois
empregados.

Eduardo e Henrique sentiam-se muito envergonhados do que haviam feito; baixaram as
cabeças com vontade de chorar. Padrinho nem acreditou quando os viu; abraçou os
dois meninos com ar meio zangado, dizendo que eles nunca deviam ter feito aquilo
Eduardo fez cara de choro e Henrique pediu logo des culpas.
Padrinho continuou contando que o desaparecimento deles causara grande alvoroço na
fazenda e que madrinha estava inconsolável, chorava todos os dias. Contou também que
duas canoas estavam sempre navegando rio abaixo e rio acima à procura dos dois; e
toda a vizinhança dizia que eles se haviam afogado.
Padrinho levou à boca um apito e tocou demoradamente três vezes; depois disse que
era para avisar madrinha que eles estavam sãos e salvos.
Quando os barcos chegaram à vista da fazenda, viram madrinha, Quico, Oscar, a
cozinheira Eufrosina e outros empregados esperando na margem do rio; houve muitos
abraços misturados com lágrimas e beijos. Voltaram juntos para casa; Oscar queria saber
tudo de uma vez: onde eles haviam estado, por que haviam demorado tanto? Quando
ele e Quico souberam que os dois haviam passado toda essa semana na Ilha Perdida,
abriram a boca cheios de espanto. Oscar disse:
— Impossível!
Quico perguntou logo:
— Há gente morando lá? Henrique respondeu:
— Há um homem muito bom chamado Simão... Eduardo interrompeu:
— Mas eu não vi nada; Henrique é que esteve com ele.
Os dois pequenos, assim como madrinha, ficaram sem compreender. Madrinha disse:
— Mas peço a vocês que nunca mais façam isso; desta vez nós perdoamos, nem
mandamos contar aos seus pais em São Paulo. Mas quero que me prometam nunca mais
deixar a fazenda sem um de nós.
Henrique e Eduardo prometeram solenemente e con taram o arrependimento que
sentiam por terem ido para a Ilha Perdida sem contar nada a ninguém.
Madrinha censurou os dois meninos até chegarem à casa. Eduardo fez outra vez cara de
choro, padrinho disse:
— Está bem, agora vão tomar um banho que estão precisando, depois vamos conversar.
Tomaram banho com sabonete perfumado, depois jantaram muito bem, achando tudo
delicioso, principalmente Eduardo que só comera raízes e frutas. Os dois sentiam-se
fracos e cansados; então madrinha mandou-os para o quarto; precisavam dormir, dormir
muito. Quico pediu:
— Mas nós queríamos saber hoje mesmo tudo o que aconteceu...
Padrinho disse:
— Deixe os dois descansarem bem; amanhã terão tempo de sobra para ouvir as
aventuras.
Quico insistiu:
— Conte alguma coisinha, Eduardo. Por favor.
— Eu fiquei na prainha da ilha, disse Eduardo. Henrique desapareceu e só apareceu
ontem.
— Não diga! Onde ele andou?
Ficaram olhando para Henrique com ar admirado. Oscar falou primeiro:

— Henrique! Onde você esteve? Conte! Henrique que já estava na porta do quarto,
voltou-se para dizer:
— Estive morando na caverna de Simão. Ninguém acreditou; pensaram que Henrique
estivesse delirando e madrinha pôs a mão na sua testa para ver se tinha febre. Depois
falou:
— Está muito bem; amanhã você conta isso. Vá dormir.

AS HISTORIAS DE HENRIQUE

N O dia seguinte os dois meninos acordaram um pouco admirados por
estarem novamente na fazenda dos padrinhos após tantos dias de ausência.
Abriram a porta do quarto e avistaram Quico e Oscar andando de um lado
para outro ansiosos por saberem as novidades.
Foram todos tomar café; padrinho e madrinha apareceram na sala de jantar perguntando
se haviam passado bem a noite e não haviam estranhado o colchão, pois há muitos dias
não sabiam o que era dormir numa cama. Quico perguntou com a boca cheia de pão:
— Conte, Henrique. Onde você esteve? Não estiveram juntos?
Padrinho disse com voz severa:
— Antes de mais nada, quero dizer que vocês fizeram muito mal. Onde se viu tirar a
canoa sem nossa licença? Quero que prometam nunca mais fazer uma coisa dessas.
Os dois disseram quase ao mesmo tempo:
— Prometemos padrinho. Nunca mais faremos isso, pode ficar sossegado.
Madrinha continuou:
— Não mandamos contar nada aos seus pais em São Paulo porque eles ficariam
desesperados, mas passamos uma semana horrível sem saber o que havia acontecido.
Nem dormimos direito, pois nossa preocupação era enorme.
Eduardo e Henrique tornaram a pedir desculpas aos padrinhos pelo mal que haviam
causado e disseram que na véspera estavam tão tontos e cansados que nem sabiam o
que diziam. Padrinho ainda fez um pequeno sermão sobre meninos desobedientes e
terminou falando que daquela vez perdoava, mas que eles nunca mais caíssem noutra.
Depois do café com leite que os dois acharam uma delícia, padrinho pediu que cada um
contasse por sua vez o que havia acontecido. Eduardo falou primeiro e quando contou
que construíra a jangada sozinho e apenas com auxílio de uma faca e depois de uma
machadinha encontrada por acaso, todos ficaram admirados e Quico quis saber de que
jeito ele amarrara os paus.
Eduardo contou tudo bem direitinho e acabou de falar; então Henrique contou sua
própria aventura; desde o momento em que ficara na prainha sozinho e aparecera um
homem barbudo perguntando o que estava fazendo ali.
Padrinho perguntou muito admirado:
— O quê? Vive alguém na Ilha Perdida?
Então Henrique contou a história de Simão; de como ele vivia lá na ilha há quase vinte
anos e dos bichos que viviam na sua caverna. Henrique percebeu logo que ninguém
estava acreditando nas suas palavras; madrinha olhou para padrinho sem dizer nada;
Quico e Oscar também ficaram de boca aberta. Madrinha perguntou meigamente:
— Não seria sonho, Henrique? Você não esteve doente?
— Não, madrinha. Não sonhei, nem estive doente. Tudo isso é verdade.

Oscar perguntou:
— E os sapatos feitos de cipó? Por que não os trouxe para casa?
Quico disse:
— Eu queria ver a machadinha que você usava na cintura. Onde está?

Henrique respondeu:
— Simão não quis que eu trouxesse nada da ilha; quis que eu viesse do mesmo jeito que
lá cheguei.
Voltou-se para o irmão e perguntou:
— Eduardo, onde está a machadinha que você achou na ilha?
— Não sei, ela estava com Você.
— Comigo não, Eduardo. Quem estava com ela era você.
Ficaram tristes ao ver que nenhum deles trouxera a machadinha, uma das únicas ou a
única lembrança da ilha.. Henrique continuou a falar:
— Pois essa machadinha, que serviu para Eduardo construir a jangada, foi feita por
Simão. Vi várias iguais na caverna.
Eduardo sacudiu a cabeça sem acreditar; depois perguntou:
— Então como é que ela foi parar na prainha?
— Não sei, disse Henrique. Quem sabe Simão fez de propósito; deu um jeito de pôr a
machadinha na prainha para ajudar você.
— Impossível, falou Eduardo.
Padrinho pediu:
— Está bem, Henrique, conte mais alguma coisa. Quais eram os bichos que viviam com
Simão?
Henrique então falou sobre os micos e a oncinha; contou como Boni vivia no ombro
dele e os Cinco o ensinavam a pular de galho em galho. Madrinha per-guntou:
— E o que comiam ria caverna, Henrique? Comiam frutas e raízes?
— Comíamos frutas, carne de capivara, ovos, peixe que Simão pescava. Laranjas,
bananas, cocos, mamões, maracujás, ameixas, mangas, fruta-pão...
Arregalaram os olhos. Quico gritou:
— Como passavam bem!
Henrique sorriu e disse:
— Os micos comiam pão-de-ló...
Quico e Oscar pensaram que Henrique estava inventando demais; Henrique terminou:
— Vocês conhecem aquela fruta que tem um pó amarelo — jatai?
Todos sacudiram a cabeça dizendo que conheciam. Henrique continuou:
— Pois o jatai é chamado — pão-de-ló-de-mico. Os miquinhos gostam muito.
Todos deram risada. Henrique tornou a falar:
— Há uma árvore na ilha que dá espécie de fava espinhuda; pois essa fava é chamada
pente-de-macaco. Os micos se penteavam com essa fava quase todos os dias, cada um
tinha a sua.
Quico perguntou com olhos arregalados:
— Um-Dois-Três-Quatro-Cinco precisavam pentear os cabelos?
Eduardo corrigiu:
— Nao penteavam os cabelos, Quico. Penteavam os pêlos. Mico tem pêlo.

Oscar perguntou a Henrique:
— Então você sabe pular de galho em galho? Aprendeu com os micos? Vamos já tirar a
prova!
Quico concordou:
— É mesmo. Se ele aprendeu com os micos, vai mostrar como é que mico faz. Vamos
para o pomar.
Levantaram-se da mesa e foram; Eduardo também estava duvidando do irmão. Padrinho
e madrinha acompanharam; Bento apareceu com o rosto muito desconfiado e foi atrás
deles.
Chegando ao pomar, Henrique tirou os sapatos e as meias, como fazia na ilha; depois o
paletó. Todos ficaram à volta dele esperando as proezas. Henrique deu um pulo e
dependurou-se num galho da mangueira; experimentou saltar para outro galho, mas teve
receio, então deixou-se cair ao chão. Escolheu outra árvore e outro galho; preparou-se
todo e num pulo alcançou o galho. Quico gritou:
— Isso eu também faço...
— Psiu... fez padrinho. Deixem Henrique sossegado.
Henrique ficou dependurado calculando a distância entre um galho e outro; de
repente criou coragem e deu o pulo; quebrou-se o galho onde ele segurou e quase foi
ao chão, padrinho auxiliou-o a descer. Pela terceira vez ele tentou; dessa vez ficou
suspenso no ar sem coragem para saltar; padrinho tornou a auxiliá-lo.
Madrinha olhou padrinho e os dois sacudiram a cabeça duvidando das histórias de
Henrique. Ele disse meio desanimado:
— Eu ainda estava aprendendo, padrinho. Eu não disse que sabia, disse que os micos
estavam me ensinando.
Madrinha disse:
— Está bem, está bem. E que mais? Aprendeu mais alguma coisa com Simão?
Henrique falou sobre a horta e o pomar. Contou que a fruta-pão viera de uma ilha do
Pacífico. Bento que escutava de um lado, perguntou:
— Então tinha horta também? Como é que temperava alface?
— Tinha outras coisas, mas alface não. Abóbora, batata-doce, cará, mandioca...
Oscar perguntou duvidando sempre:
— E a fruta-pão? Você comeu? É como pão mesmo? Henrique tornou a afirmar que
comera; contou que dormiam na caverna sobre xales feitos de penas coloridas de aves.
Qual! Ninguém acreditava. Uns achavam que ele sonhara, outros achavam que ele
inventara isso tudo para fazer bonito. Quico disse:
— Você afirmou que Simão era bom para todos os animais. Então como é que ele
matava as aves para tirar as penas?
— Ele não matava as aves, respondeu Henrique. Essas penas eram encontradas no
planalto quase todos os dias. Perto da gruta havia um planalto onde os pássaros e as aves
vinham todos os dias visitar Simão. E deixavam aí uma porção de penas que Um-Dois-
Três--Quatro-Cinco ajuntavam e guardavam na caverna para depois Simão fazer as
cobertas.
— Hum! resmungou Bento. Tudo isso é bem esquisito ...
Todos os dias era a mesma coisa; pediam a Henrique que contasse alguma história da

Ilha Perdida e quando ele contava ninguém acreditava. Henrique já estava desanimado e
pensando como fazer para que acreditassem nele.

VERA E LUCIA, PINGO E PIPOCA

CHEGAM A FAZENDA

N A mesma semana chegou uma carta de São Paulo contando que Vera e Lúcia
viriam passar as férias de dezembro na fazenda dos padrinhos. Houve
grande alvoroço entre eles. Queriam saber se Pingo e Pipoca também viriam,
mas isso ninguém sabia, a carta não dizia.
Passaram-se mais alguns dias em grandes preparativos; afinal as duas meninas chegaram
acompanhadas pelos dois cachorrinhos.
Quico ficou entusiasmado:
— Ih! Que farra!
Começaram as correrias pelo pomar, pelo campo, pelo riozinho. Organizaram pescarias
onde quase ninguém pescava. Levantavam de madrugada para andar a cavalo. Henrique
e Eduardo iam buscar os bezerrinhos no pasto. Pingo e Pipoca não sabiam o que fazer;
era tanta folia que eles não tinham tempo nem para se coçar.
Tupi, o cachorro da fazenda, ficou desconfiado nos primeiros dias ao ver que Pingo e
Pipoca eram mais queridos; depois não deu mais importância; já estava mesmo velho e
só gostava de dormir. Dormia quase o dia inteiro; mas à noite, ficava alerta tomando
conta de tudo.
Vera gritava:
— Venha, meninada, venha brincar.
Chamava os cachorros de meninos; Lúcia chamava-os para outro lado. Henrique e
Eduardo iam até a margem do Paraíba e queriam que os cachorrinhos fossem com eles.
Os bichinhos pinoteavam para cá e para lá sem saber a quem seguir. Divertiam-se a
valer.
Depois do jantar, a criançada sentava-se no terraço e conversava até a hora de dormir;
Vera e Lúcia ficaram sabendo tudo a respeito da Ilha Perdida.
Lúcia interessou-se muito pelos micos; queria saber como andavam, se tinham rabo
comprido, o que faziam com o rabo quando dormiam. Vera queria saber se Lucas tinha
chifres; Henrique respondeu que os veados que vivem nas florestas não têm chifres. Só
os têm os que vivem nas planícies.
Durante horas e horas faziam mil perguntas a Henrique; queriam saber se ele gostaria de
voltar à ilha; Henrique respondia que tinha vontade, mas era tão difícil, nem pensava
nisso.
Muitas vezes, durante o dia, surpreendiam Henrique sentado no alto do morro
contemplando a ilha lá embaixo, no meio do rio. Ele nada dizia, mas pensava com
saudades em Simão e em todos seus companheiros da caverna.
As duas meninas pediram a Eduardo que fizesse uma jangada do mesmo jeito que ele

havia feito na prainha da ilha, utilizando apenas a machadinha do Nhô Quim. Foram

pedir a Nhô Quim que emprestasse a machadinha. Eduardo prometeu fazer a jangada;
foram todos para a mata que havia na fazenda e Eduardo começou a trabalhar na
presença de todos; mas ninguém auxiliava; sentaram-se à volta dele e ficaram olhando.
Bento também veio espiar.
De vez em quando um perguntava:
— Foi assim que você fez? Outro .dizia:
— Mas assim os paus não ficaram seguros.
Quico pediu:
— Ninguém deve dar palpites. Vamos deixar Eduardo trabalhar.
Eduardo queixava-se de que naquela mata não havia cipós como na ilha; ali eram cipós
duros que não torciam como ele queria. Davam risadas e caçoavam dos esforços que
Eduardo fazia para construir a jangada. Tinham pressa que a jangada ficasse logo pronta
para levá-la ao riozinho; queriam saber se ela navegava mesmo. Eduardo trabalhava o dia
inteiro, mas o trabalho não progredia, ia muito devagar.
Padrinho sorria e dizia que a necessidade faz milagres; Eduardo fizera a jangada para se
salvar, por isso não achara difícil; agora fazia por divertimento, por isso o serviço não
progredia.
Um dia estavam todos no pomar quando Vera veio com a novidade; contou aos outros
que ouvira padrinho dizer à madrinha que pretendia fazer uma excursão à ilha na
semana seguinte.
Quico e Oscar não acreditaram, disseram que achavam isso impossível. Eduardo achou a
idéia esplêndida e queria saber se eles também iriam; então resolveram mandar Lúcia
sondar.
Lúcia era a menor e podia disfarçadamente perguntar qualquer coisa à madrinha:
durante três dias Lúcia andou atrás da madrinha sondando; mas nada descobriu.
Foi então que Oscar veio com outra notícia:
— Acho que vamos ter novidade; papai mandou pedir emprestada a canoa do Seu
Viriato.
Seu Viriato era um fazendeiro vizinho. Ficaram excitados. .
— Então é verdade! Padrinho está projetando uma excursão à ilha!
Quando a canoa do Seu Viriato foi amarrada à margem do rio, nas terras da fazenda,
ninguém perguntou nada ao padrinho, mas cada um por sua vez foi espiar.
Lúcia foi mandada em primeiro lugar; chamou Pingo e Pipoca e foi examinar a canoa.
Voltou desapontada dizendo que decerto padrinho ia sozinho, a canoa era muito
pequena. Durante dois dias, cada um deles ia até o lugar onde estava a canoa, espiava e
voltava dizendo que tudo ia na mesma, não havia novidade.
De repente a excitação das crianças aumentou; viram padrinho mandar buscar outra
canoa, desta vez era uma espécie de barco, onde cabiam muitas pessoas. Quando o
barco chegou, ficaram duas noites sem dormir direito. Iriam mesmo à Ilha Perdida?

A EXPEDICAO

A FINAL, dias depois, à hora do almoço, padrinho falou: — Quem quer ir
comigo à ilha? Quem quiser levante a mão direita.
Os seis levantaram a mão imediatamente e padrinho deu risada, depois
explicou:
— Estou preparando tudo para fazer uma visita a Simão, o amigo de Henrique. Vamos
todos no barco e Bento e Tomásio vão na canoa levando mantimentos e barracas.
Conforme for, dormiremos uma noite na ilha, vamos descobrir o homem barbudo.
Vamos descobrir o mistério da ilha que por enquanto só Henrique conhece.
Foi um sucesso. Desse dia em diante não se falou nem se pensou noutra coisa a não ser
na excursão. Só Henrique ficou tristonho, Simão não queria que o descobrissem; ao
mesmo tempo lembrou-se das palavras dele:
— Podem vir, ninguém me encontrará.
Passaram mais uns dias em preparativos; Vera e Lúcia prepararam as calças compridas e
as blusinhas; madrinha tratava das coisas que levariam. Arranjava cestas com latas de
presunto, patê, compotas. Amarrava frigideiras, panelas, garrafas para água, copos de
papelão, roupas para os meninos, meias.
Padrinho arrumava numa caixinha de injeções contra mordidas de cobra, vários
remédios contra gripe, cortes, queimaduras Todos se sentiam animados e satisfeitos com
a aventura, que seria uma verdadeira expedição.
Escolheram uma quinta-feira e na madrugada desse dia, prepararam-se para embarcar;
levariam os dois cachorrinhos, pois eles poderiam prestar bons serviços na ilha. Levaram
também uma cestinha com ovos cozidos, vários quilos de lingüiça e uns pacotes de
manteiga que Eufrosina lhes deu à última hora para reforçar a matula feita por madrinha.
Madrinha despediu-se deles no terraço da casa, desejando que fossem felizes na
excursão. Ainda estava escuro quando a caravana desceu o morro a caminho do lugar
onde estavam amarrados o barco e a canoa. Embarcaram com coragem e animação.
Assim que os barcos começaram a descer o rio, o sol surgiu no horizonte e Henrique e
Eduardo lembraram-se do dia em que haviam fugido, umas semanas antes; fora numa
madrugada como aquela.
Navegaram durante umas horas e os barcos deslizaram pelo rio levando o bando de
crianças ansiosas pela aventura na ilha; queriam conhecer Simão e ver a caverna onde
Henrique morara durante oito dias. Mas no íntimo não acreditavam nem na existência de
Simão, nem na da caverna, nem em nada do que Henrique contara.
Quando avistaram a ilha, deram gritos de alegria; os cachorros latiram. Padrinho
perguntou:
— De que lado ficará a prainha? Vamos desembarcar na prainha onde Eduardo
construiu a jangada.

Eduardo e Henrique não souberam explicar de que lado ela ficava; tinham ido parar nela
por acaso e não sabiam agora descobri-la. Quando Henrique viu outra vez a ilha de
perto, com suas palmeiras e coqueiros, suas grandes árvores, seu ar de mistério, sentiu o
coração pulsar fortemente.
Com certeza Simão estava nesse momento no ponto mais alto da ilha, olhando os barcos
que se aproximavam. E a telegrafia sem fio estaria trabalhando entre os animais; todos
estavam avisando uns aos outros do perigo que se aproximava. Os animais haviam de se
esconder e Simão desapareceria nalgum lugar misterioso que ninguém descobriria,
Padrinho resolveu encostar os barcos em qualquer ponto da ilha, pois já era tarde e
estavam com fome; a prainha não fora encontrada.
Todos desembarcaram; Bento e Tomásio começaram a preparar as panelas para o
almoço; as crianças foram fazer uma excursão pelos arredores juntamente com
padrinho. De repente ouviram o grito de Bento:
— O almoço está na mesa!
Voltaram dando risada, pois não havia nem sombra de mesa; sentaram-se no chão e com
os pratos de papelão nas mãos, comeram lingüiça com ovos e pão. Depois comeram
pessegada e tomaram café feito pelo Bento. Deitaram se um pouco depois do almoço,
depois padrinho disse:
— Vamos então dar umas voltas.
Penetraram na mata e caminharam abrindo caminho entre cipós e folhagem cerrada;
padrinho e Tomásio iam na frente, depois as crianças e atrás seguia Bento com uma
grande faca de cozinha entre as mãos. Os cachorros pulavam de um lado para outro,
entusiasmados com o passeio. De vez em quando, padrinho parava e perguntava,
indicando uma árvore ou uma rocha:
— Não reconhece este lugar, Henrique?
Henrique sacudia a cabeça; não estava reconhecendo nada, nem árvores, nem pedras.
Parecia nunca ter passado por ali; quando um dos cachorros parava e latia para uma
moita, iam espiar o que havia. Às vezes era um coelho ou uma raposa que se escondiam
ou saíam correndo aos pinotes pelo mato adentro. Assim andando, foram parar num
rochedo muito alto; contornaram o ro-chedo e desceram o caminho que havia atrás
dele. Era uma espécie de trilho existente atrás das pedras. O caminho era batido e
padrinho disse logo:
— Muitos bichos passam por aqui, vejam como a terra está pisada.
Henrique falou:
— Os bichos vão tomar água no riozinho que há lá embaixo, padrinho. É uma nascente
com água muito pura.
Padrinho parou para olhar Henrique:
— Como é que você sabe que há uma nascente lá embaixo?
Todas as crianças olharam Henrique quando ele respondeu:
— Eu vim aqui um dia com Simão e Boni; foi no dia em que a veadinha morreu. Eu me
lembro que paramos, descemos este caminho e bebemos água no riozinho. É um lugar
cheio de avencas e samambaias.
Desceram correndo para ver se de fato havia a nascente que Henrique falara; lá estava ela
entre samambaias muito verdes e avencas que caíam em pencas nas margens. Padrinho

ficou pensativo; tornou a perguntar:
— Então vocês passaram por aqui, Henrique?
— Passamos, sim senhor.
— Nesse caso, você sabe o caminho da gruta.
— Não sei, padrinho. Depois que saímos daqui, fomos diretamente para o bosque de
pinheiros. Quando voltamos de lá, fomos para a gruta sem passar por aqui.
Ficaram durante algum tempo examinando o lugar, tomaram água fresca e voltaram
subindo outra vez por trás do rochedo.
Depois de caminharem mais de uma hora pelo meio da mata sem encontrar nada,
padrinho resolveu voltar para o lugar onde haviam ficado os botes; já era tarde e ainda
tinham que preparar o jantar e armar as barracas para passarem a noite. Voltaram pelo
mesmo caminho, todo marcado com galhos quebrados e cortes de faca nos troncos;
esses cortes haviam sido feitos de propósito para evitar que se perdessem e assim
pudessem chegar ao lugar onde haviam desembarcado pela manhã.
Trataram imediatamente de armar duas barracas, todas as crianças auxiliaram; depois
comeram o jantar preparado por Bento. A noite caiu rapidamente. Padrinho chamou
todos para dentro das barracas, não queria que ninguém ficasse fora.
Uma vela ficou acesa até mais tarde enquanto os mais velhos conversavam; os cachorros
deitaram-se ao lado de Vera e Lúcia e dormiram no mesmo instante; mas era um sono
leve, pois a todo o momento abriam um olho e davam uma espiada para os lados. Se
ouviam um barulhinho qualquer, ficavam alertas, as orelhas espetadas, esperando
alguma coisa.
Quico e Oscar ficaram na mesma barraca com Vera, Lúcia e padrinho; na outra, ficaram
Bento, Tomásio, Henrique e Eduardo. Às dez horas todos estavam dormindo. Apesar de
ser verão, a noite estava muito fresca. Haviam levado oleados para serem usados caso
chovesse na ilha, mas naquela noite não choveu.
Já estava chegando a madrugada quando Henrique ouviu uma espécie de assobio;
lembrou-se que os micos assobiavam assim. Levantou-se sem fazer barulho, arrastou-se
para fora da barraca e espiou à volta; havia uma mancha no céu, era o sol que já vinha
surgindo. O rio corria manso e uma leve brisa passava entre o arvoredo. Pingo estava
fora da barraca olhando para todos os lados, um ar desconfiado, decerto também ouvira
alguma coisa. Henrique chamou baixinho:
— Pingo! Pingo! Vem cá!
O cachorro aproximou-se amistosamente e Henrique segurou-o pelo pescoço dizendo:
— Quieto! Vamos ver o que há!
Olhou as árvores próximas, olhou as moitas, procurou por todos os lados acompanhado
por Pingo e não viu nada; mas tinha certeza de que ouvira o assobio e não se enganara.
O cachorrinho também procurava como se quisesse descobrir alguma coisa escondida
na folhagem. Não seria Boni que estava por ali espiando? Chamou:
— Boni!
Nada. Pingo levantava o focinho e suas narinas aspiravam o ar; Henrique entrou na mata
e chamou Pingo; caminharam juntos procurando por todos os lados; Henrique subiu
numa das árvores, pois parecia que a folhagem movia-se lá em cima. Chegou até quase
ao alto sem nada encontrar; Pingo, vendo-o desaparecer entre os galhos, começou a latir

como que chamando-o.
Henrique desceu outra vez e escutou; ralhou com o cachorrinho; só ouviu o vento
sussurrar entre os ramos e o barulhinho do rio que passava sem cessar.
Voltou para a barraca ainda procurando; foi então que encontrou uma casca de banana
no chão. Como não tinham levado banana para a ilha, isso significava que alguém
estivera por ali; ou Simão, ou um dos micos. Decerto tinham vindo espiá-los enquanto
dormiam. Guardou a casca de banana no bolso.
Quando chegou à beira do rio, viu Bento procurando lenha para fazer fogo; disse que ia
preparar um bom café. Todos já estavam se levantando e Pipoca vinha saindo da
barraca, todo sonolento, atrás de Vera.
Espreguiçou-se e foi beber água no rio. Vera e Lúcia debruçaram-se na margem para
lavar os rostos; disseram que haviam dormido muito bem. Queriam saber o que
Henrique fora fazer na mata tão cedo, só com Pingo.
Henrique não mentia; contou que ouvira um assobio e fora "verificar o que era;
encontrara então a casca de banana. A casca passou de mão em mão; era de uma
qualidade de banana que não existia na fazenda; Bento chegou a cheirar a casca
dizendo que o cheiro era de banana selvagem.
Padrinho examinou-a sem dizer nada.
Depois de terem lavado os rostos e escovado os dentes, padrinho chamou-os para o
café com leite; madrinha pusera uma lata grande de leite condensado na cesta.
Comeram bolachas e queijo.
Guardaram tudo novamente e prepararam-se para outra excursão através da ilha.

HENRIQUE SENTE SAUDADES

E RAM ste horas da manhã quando se embrenharam na floresta; enquanto iam
andando, deixavam sinais de sua passagem para saberem voltar.
Encontraram orquídeas, viram serelepes pulando entre os galhos, subiram em
árvores bem altas para observar os arredores. Assim caminhando foram dar na prainha.
Eduardo deu gritos de alegria quando reconheceu o lugar onde ficara sozinho durante
uma semana construindo uma pobre jangada apenas com a machadinha e uma faca.
Correu e mostrou o pé de ingá, cujos galhos estavam dependurados na margem do rio;
mais adiante mostrou uma touceira de bananeiras; infelizmente naquela ocasião não
havia bananas.
Mostrou a pedra que servia de abrigo quando chovia e sob a qual ele dormia.
.Reconheceu as árvores, das quais tinha cortado os galhos para fazer a jangada.
Ficaram muitas horas na prainha e resolveram almoçar naquele lugar; Bento fez fogo para
o café. Depois do almoço, que haviam levado em cestas, andaram ainda ali por algum
tempo procurando mais alguma coisa; Henrique então mostrou o lugar onde estivera
sentado no momento em que Simão aparecera pela primeira vez.
Mostrou também o lugar onde entrara na mata acompanhando Simão; lembrava-se da
árvore onde deixara o canivete cravado para que o irmão visse quando voltasse.
Todos entraram na mata acompanhando Henrique; ele andava na frente mostrando o
caminho que estava reconhecendo. Seria incapaz de levar a turma até a caverna de
Simão, mesmo que soubesse o caminho. Sabia que isso perturbaria seu amigo e não
queria aborrecê-lo.
Depois de algum tempo de marcha, parou dizendo que não sabia mais o lugar por onde
andara com Simão, olhou de um lado para outro dizendo que se perdera, não sabia mais
nada.
Resolveram então voltar. Como esse lugar era muito cerrado, um andava atrás do outro,
em fila indiana. De repente pan! Henrique sentiu uma pancadinha na cabeça; olhou para
cima e não viu nada. Apenas uma bolota que lhe caíra na testa. Mais adiante pan! Outra
pancadinha; tornou a olhar para cima. Nada. Apenas uns galhos que se moviam lá no
alto. Seriam seus amigos, os micos, que estavam com brincadeiras? Ouviu a voz do
Bento gritar lá na frente:
— Ih! Já levei duas pancadas no coco. Não sei o que será!
Nesse instante Lúcia deu um gritinho:
;— Xi! Eu também. Levei uma coisinha na ponta do nariz!
Todos começaram a rir. Pararam e olharam para cima, não havia nada. Tudo era silêncio
na floresta. Continuaram a andar; Eduardo gritou:
— Eh! Agora é comigo. Levei uma na cabeça. O que será?
Henrique assobiou da maneira que os micos assobiavam; um outro assobio respondeu

longe, depois outro e Outro. Henrique sentiu saudades deles. Gritou com animação:

— São eles! São eles! Um-Dois-Três-Quatro-Cinco! Onde vocês estão? Venham dar um
abraço! Sou Henrin que! Como vai Simão? E Boni? E Lucas?
Todos ficaram parados, esperando. Vera estava até comovida esperando conhecer os
amigos de Henrique; Lúcia teve um pouquinho de medo e chegou-se para perto do
padrinho. Henrique continuava a chamar; ouviram movimento nas folhas das árvores;
todos esperavam ver a turma de micos aparecer de repente, mas nada apareceu. Apenas
o barulho do vento entre a folhagem. Henrique tornou a chamar com delicadeza. Nada.
Eduardo aconselhou:
— Henrique, fique sozinho atrás de todos e você vai ver como eles aparecem só para
você.
Henrique parou no meio do caminho enquanto os outros continuaram; mas percebeu
que o irmão, os primos e Bento voltaram disfarçadamente e esconderam-se por trás dos
troncos das árvores. Henrique tornou a chamar e a assobiar; nenhum mico apareceu. Ele
sabia que os amiguinhos não apareceriam enquanto os outros estivessem ali esperando.
Resolveram continuar a marcha. Mais adiante Bento gritou esfregando a cabeça:
— Oh! Bichinhos danados. Jogaram com toda a força outra bolota no meu coco!
Novas risadas. Vera e Lúcia também levaram bolotadas na cabeça; olharam para cima e
não viram nada. Os cachorrinhos latiam sem saber o que estava acontecendo. Quando
deixaram a mata e chegaram à margem do rio, viram que o tempo havia se transformado
completamente Havia nuvens negras que ameaçavam chuva. Padrinho disse:
— Vamos nos preparar que a chuva vem mesmo. E é das boas!
Bento e Tomásio prepararam rapidamente o jantar. Enquanto
jantavam o vento tornou-se tão forte que parecia querer levar as
barracas; tiveram que amarrá-las de novo com cordas dobradas.
Trovões fortes reboaram no céu e tudo escureceu. Correram
para dentro das barracas onde acabaram o jantar; e as primeiras
gotas de água começaram a cair lá fora. A chuva caiu
torrencialmente durante quase toda a noite e ninguém pôde
dormir muito bem.
Vera queixou-se de uma goteira na cabeça; Lúcia ficou
impressionada com a enxurrada que atravessava o chão da
barraca. Quico espiou para fora e ao clarão de um relâmpago,
disse que viu «as árvores curvarem-se quase até o chão por
causa do vento».
Henrique passou a noite pensando em voltar um dia sozinho à ilha, pois assim com tanta
gente, não veria seus amigos; nem Simão, nem os bichos. Mas como voltar sozinho?
Daria um jeito; tinha saudades dos seus companheiros de caverna, mesmo dos que não
falavam. Eram bons amigos, leais e sinceros.
O dia seguinte amanheceu quente e bonito, mas nova chuva ameaçava cair à tarde;
padrinho resolveu voltar para a fazenda. As crianças protestaram; queriam ficar mais um
dia ou dois; queriam brincar com Boni, ver Simão, brincar com Um-Dois-Três-Quatro-
Cinco. Padrinho prometeu voltar em outra ocasião, deu ordem para desmanchar o
acampamento, no que todos auxiliaram.

Dobraram camas de campanha, guardaram vasilhas nos sacos, empacotaram o pano das
barracas e colocaram tudo nos barcos. Antes de deixar a ilha, deram ainda um pequeno
passeio pelos arredores; a mata estava muito molhada devido à chuva e escorregavam a
todo o momento. Quico levou um tombo e bateu o nariz num galho de árvore. Vera e
Lúcia ficaram com lama até nas blusas. Padrinho disse:
— Voltaremos outra vez sem ser tempo de chuva. Vejam como estão bonitos,
enlameados desse jeito!
Colheram algumas flores para a madrinha; Henrique dizia consigo mesmo: «Um dia
voltarei sozinho».
Entraram nos barcos de volta à fazenda; quando as canoas contornaram a parte sul da
ilha, pareceu a Henrique ver um braço se agitando na direção dos barcos, numa das
árvores mais altas da ilha. Quico e Oscar disseram quase ao mesmo tempo:
— Se Simão vivesse mesmo na ilha, ele viria ver-nos. Decerto ele já foi embora.
Henrique ficou olhando para aquele ponto onde parecera ver um braço se agitando
durante algum tempo, enquanto coçava a cabeça de Pipoca; depois levantou também o
braço num gesto de adeus e gritou bem alto, apesar de saber que Simão não poderia
ouvir:

— Até um dia, Simão!

FIM


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