The words you are searching are inside this book. To get more targeted content, please make full-text search by clicking here.

Revista de Imprensa - 23 de novembro 2023

Discover the best professional documents and content resources in AnyFlip Document Base.
Search
Published by assessoria.comunicacao.csm, 2023-11-23 04:59:08

Revista de Imprensa - 23 de novembro 2023

Revista de Imprensa - 23 de novembro 2023

A48 23-11-2023 Meio: Imprensa País: Portugal Área: 140,94cm² Âmbito: Interesse Geral Period.: Semanal Pág: 15 ID: 108283188 1 Sobe Desce Carlos Rodrigues Diretor-Geral Editorial O Luis Neves Diretor PJ Afastado da operação que virou o País político do avesso, volta a dar cartas no combate ao tráfico de seres humanos, numa operação que varreu as redes de imigração ilegal no Alentejo. Em plena crise existencial da justiça, a Judiciária está bem e recomenda-se. O Javier Milei Presidente da Argentina A América Latina já tem o seu político de ar rebelde a prometer soluções milagrosas. Contra o rosto da espiral inflacionista, o país vota na esperança, provavelmente infundada, da redenção, vira-se para um radical do liberalismo herdeiro de Trump e Bolsonaro, e fica à beira do abismo. O Nuno Lopes Ator Vê-se a braços com uma acusação de violação com base em factos ocorridos em Nova Iorque, há 17 anos. A justiça americana é diferente. Clama inocência e declara-se incapaz de cometer os atos que lhe imputam, mas a via-sacra para provar a sua inocência só agora começou. Página 48


A49 SIC Notícias - Edição da Manhã Duração: 00:01:59 OCS: SIC Notícias - Edição da Manhã ID: 108285885 23-11-2023 08:35 1 1 1 Operação "Gota de Água": direto http://www.pt.cision.com/s/?l=e26a5f48 A Polícia Judiciária deteve 20 pessoas num negócio fraudulento relacionado com a análise de águas. Os suspeitos vão ser ouvidos hoje no Tribunal de Instrução Criminal do Porto para onde vamos em direto. Página 49


A50 TVI - Esta Manhã Duração: 00:00:38 OCS: TVI - Esta Manhã ID: 108285705 23-11-2023 07:36 1 1 1 "Operação Espelho": Detidos presentes a tribunal http://www.pt.cision.com/s/?l=6d7ac868 Começaram hoje a ser ouvidos os 28 detidos no âmbito da Operação Espelho, que envolve tráfico de seres humanos no Alentejo. Ontem foram identificados no Departamento de Investigação e Ação Penal de Évora e também no Tribunal Judicial de Cuba, os suspeitos foram detidos na terça-feira numa mega-operação da Polícia Judiciária de combate ao tráfico de seres humanos, em campos agrícolas no Alentejo. Este caso envolve também a associação criminosa, falsificação de documentos e outros crimes. Repetições: CNN Portugal - Novo Dia , 2023-11-23 07:55 Página 50


A51 23-11-2023 Meio: Imprensa País: Portugal Área: 486cm² Âmbito: Interesse Geral Period.: Semanal Pág: 90 ID: 108282621 1 OPINIÃO José Carlos de Vasconcelos — Fundador da VISÃO Devia António Costa ter-se demitido? 1. António Costa pediu a demissão a (muito) quente, logo após conhecer o comunicado da PGR sobre a agora chamada Operação Influencer. E logo após essa demissão escrevi aqui ter dúvidas sobre se deveria tê-lo feito, explicando porquê. Duas semanas corridas, conhecidas as acusações aos suspeitos, e tendo o juiz de instrução decidido não haver sequer indícios dos crimes de corrupção e prevaricação, tendo a deixar de ter dúvidas de que, na defesa da estabilidade política e no interesse do País, Costa não devia ter-se demitido. Com a convicção de que o decurso do tempo e do “processo” mais o confirmará. Sem prejuízo de compreender, como então disse, a sua atitude, também em parte explicável pela forma como entre nós se faz política, oposição, certo dito jornalismo e comentário político – quase unânime em afirmar que era forçoso demitir-se. 2. Para Costa, aliás, a demissão era talvez, no momento, a atitude mais clara e simples, a mais favorável à sua imagem e até ao seu futuro político. Não foi por isto, porém, que se demitiu, antes apenas pelo teor daquele comunicado. Mas o que creio devia ter feito era falar aos portugueses manifestando a sua surpresa pelo resultado de “suspeitos” haverem citado o seu nome para “desbloquear procedimentos” – o que é nada. E sendo isto nada, garantindo Costa, como fez, não ter praticado nenhum ato criminal, ilícito ou sequer censurável, não se demitiria de imediato, para evitar uma crise política grave; mas que de imediato o faria, independentemente de ser constituído arguido ou de alguma acusação formal, caso o Supremo Tribunal de Justiça viesse a admitir a existência de qualquer suspeita sobre qualquer seu procedimento. 3. Já houve quem dissesse que o primeiro-ministro, por várias razões (incluindo erros que de facto cometeu) desgastado, aproveitou o pretexto para se ir embora. O que não é verdade. Ou dissesse que a investigação recaindo sobre alguns dos seus mais próximos, dada a sua responsabilidade na escolha, tinha de se demitir. É assim? Foi assim com os seus antecessores? Lembro apenas o exemplo do que esteve mais tempo no topo do poder, e líder incontestado do PSD, Cavaco Silva: Oliveira Costa, o do BPN (que deu milhões de contos de prejuízo ao País, e lucros a alguns amigos), foi seu secretário de Estado; Dias Loureiro, seu destacado ministro; Duarte Lima, líder parlamentar do seu partido. Tem comparação possível o que cada um deles fez com aquilo de que Lacerda, Escária ou Galamba são acusados? 4. Mas será que Costa pediu a demissão esperando que Marcelo não a aceitasse? Era óbvio que a aceitaria. Além de por razões de distanciamento, se não conflito, político, que nestes últimos dias se tem agravado – o que a ambos cabe evitar –, porque se não a aceitasse dir-se-ia que passara a (man)ter o Governo ao “colo”… Como era óbvio que Marcelo dissolveria o Parlamento e marcaria novas eleições – com alta probabilidade de ser o PS o principal prejudicado, e o PSD (sobretudo Montenegro) e o Chega serem os principais beneficiados. 5. Nada disto exclui a culpa da situação a que se chegou ser de quem no MP agiu como agiu. Desde prender, e manter presos, para interrogar, suspeitos que nada indicia se notificados para o efeito não comparecessem ou destruíssem documentação, até qualificar como crime o que de clareza meridiana parece não o ser, antes configurar práticas normais, não ilegais, em casos com a importância e a complexidade dos sub judice. E chega a ser confrangedor, inadmissível, considerar corrupção, prevaricação, tráfico de influência ou benefício indevido de vantagem o pagamento de almoços ou jantares; ou uma autarquia receber, em troca de supostos favores, subsídios, aliás mínimos, para um festival de música e para a prática de desporto por jovens; ou a promessa de construção de uma nova estrada num concelho que aceita nele seja feita a exploração de lítio. E muito mais haveria a acrescentar... [email protected] À MARGEM Sobre o MP Sempre defendi a autonomia, que não pode ser irresponsabilidade nem impunidade, do MP. MP que desde o 25 de Abril teve à sua frente (além de nos seus quadros) vários respeitáveis, ilustres, juristas: Arala Chaves foi o primeiro, outros se seguiram, entre eles meus colegas de curso e amigos. Assim, lamento muito o que mais uma vez está a ocorrer, que não se pode imputar à instituição em geral, mas mostra a necessidade de reformar o seu funcionamento – como a procuradora- -geral adjunta, Maria José Fernandes, salientou num excelente e corajoso texto saído no Público. Ainda bem, para o MP e para o País, que o fez. Ainda mal que não o faça o sindicato da classe, entrincheirado numa espécie de velho corporativismo. Ao contrário do Sindicato dos Jornalistas, cujo Conselho Deontológico emitiu uma lúcida e também corajosa recomendação sobre como os média devem, ética e deontologicamente, tratar as escutas telefónicas, “repudiando” a forma como alguns o têm feito. Página 51


A52 23-11-2023 Meio: Imprensa País: Portugal Área: 2945cm² Âmbito: Interesse Geral Period.: Semanal Pág: 50-55,6,1 ID: 108282574 1 50 VISÃO 23 NOVEMBRO 2023 Página 52


23-11-2023 Meio: Imprensa País: Portugal Área: 2945cm² Âmbito: Interesse Geral Period.: Semanal Pág: 50-55,6,1 ID: 108282574 2 23 NOVEMBRO 2023 VISÃO 51 O ASSALTO DOS “NARCOS” AO PORTO DE SETÚBAL Um comando narcotraficante português armado sequestrou um vigilante e invadiu o porto de Setúbal para recuperar uma carga de cocaína da América do Sul. A VISÃO conta como tudo se passou. As autoridades estão alerta após o episódio de violência. Sem pistas, o processo foi agora arquivado — POR JOÃO AMARAL SANTOS Página 53


23-11-2023 Meio: Imprensa País: Portugal Área: 2945cm² Âmbito: Interesse Geral Period.: Semanal Pág: 50-55,6,1 ID: 108282574 3 A A experiência de 25 anos na segurança ensinara Luís D. (nome fictício) a não se deixar maçar pela marcha lenta dos ponteiros do relógio. Colocado naquele posto há menos de duas semanas – em substituição de um colega de baixa médica –, o vigilante rapidamente se habituara ao silêncio das noites, somente interrompido, em intervalos regulares, pelo murmúrio distante das ondas do mar. As madrugadas à guarda do principal terminal de contentores do porto de Setúbal decorriam solitárias e monótonas. Se fosse no início da carreira, talvez Luís D. pensasse em entreter-se à conversa com as almas perdidas de marinheiros e piratas. Hoje, o homem de 50 anos, profissional maduro e experiente, preferia enxotar a imaginação para longe, e manter-se desperto e alerta durante aquela maratona noturna de oito horas. No dia 3 de abril de 2022, porém, o turno não seria igual aos outros. Eram 3h39 quando dois veículos – uma carrinha de mercadorias branca (com matrícula portuguesa) e um carro preto, de alta cilindrada (com matrícula estrangeira) – guinaram em direção ao terminal, estacando frente à cancela, mesmo junto ao posto do vigilante. Luís D. não teve tempo para reagir. Dois homens mascarados, vestidos de preto da cabeça aos pés, dirigiram-se rapidamente ao trabalhador. O primeiro apontou-lhe uma pistola Glock ao nariz. “Está calado! Dá cá o telemóvel e não faças movimentos bruscos... Não te fazemos mal”, disse-lhe. “Só viemos buscar uma encomenda para os nossos cheEram quatro assaltantes no total, com as identidades protegidas por máscaras cirúrgicas nos rostos, gorros ou chapéus na cabeça e luvas pretas nas mãos. Eram todos portugueses. “Tenho a certeza!”, descreveria a única testemunha ocular. Saíram todos dos veículos, incluindo Luís D., que, durante este intervalo, continuava na mira da arma de fogo. A partir desse momento, tudo se passou muito rápido. Um dos assaltantes usou uma escada metálica extensível para chegar a um dos contentores, que se encontrava no segundo piso, a três metros do solo. Com um alicate, cortou facilmente o selo e abriu as duas portas pesadas. Os outros mantinham-se a vigiar ao redor. As caixas que não interessavam foram imediatamente lançadas ao solo. Centenas de bananas frescas ficariam por ali espalhadas pelo chão. Em poucos minutos, o grupo encontrou o que procurava. E, numa dança coreografada, os quatro assaltantes logo começaram a transferir, do contentor para a carrinha branca, pequenos pacotes fes”, acrescentou, num tom que quase lhe soou cordial. O segundo, todavia, não parecia estar para brincadeiras. “Abre a cancela! Como é que se abre a cancela?”, perguntou-lhe, num registo excessivamente agressivo. “Se ele não disser qual é o botão certo [para abrir a cancela], dá-lhe um tiro!”, atirou ainda ao parceiro. Luís D., pálido de pânico, fez tudo o que lhe pediram, sem questionar. Pensava, por esta altura, que iria morrer ali. O vigilante seria depois obrigado a entrar na carrinha e a acompanhar os homens armados. Com via aberta, a coberto de uma noite sem luar, o grupo avançou pelo interior do terminal de contentores, ziguezagueando por centenas de metros, sem qualquer hesitação, parando perto de um conjunto de contentores de 40 pés, que tinha sido descarregado e levado para aquele local apenas três dias antes. “Foram sempre em frente… Era como se soubessem exatamente para onde teriam de ir”, diria Luís D., horas mais tarde, aos inspetores da Polícia Judiciária (PJ). Página 54


23-11-2023 Meio: Imprensa País: Portugal Área: 2945cm² Âmbito: Interesse Geral Period.: Semanal Pág: 50-55,6,1 ID: 108282574 4 de formato retangular. O esforço em contrarrelógio provocou um pequeno desentendimento, na sequência dos lamentos de um dos criminosos, já cansado daquela tarefa. “A ganza dá cabo de ti!”, respondeu-lhe um dos colegas, irritado. “Tens de ajudar!”, disse o homem da pistola a Luís D., colocando um ponto final na altercação. O vigilante, até então mero espectador, seria coagido a engrossar a fila e a participar no trabalho de equipa. “Era um material duro, embrulhado numa película verde ou azul, como aparece nos filmes”, diria a vítima à polícia. Luís D. relatou ainda que os assaltantes “retiraram [do contentor] uns 30 pacotes daqueles, mais ou menos” e garantiu que, quando terminaram, a zona de cargas da carrinha branca – com capacidade para 1 500 quilos de carga útil (de acordo com as referências da própria marca) – “estava completamente cheia”. A investigação não tem dúvidas. À VISÃO, fonte próxima do processo confirma que “este episódio foi protagonizado por um comando narcotraficante, acionado por uma organização criminosa, com vista a recuperar cocaína”. “Alguma coisa deve ter corrido mal, na fase da chegada [da droga] à Europa, e foi necessário ir buscá-la daquela forma. É difícil apurar as quantidades, mas estaremos a falar, no mínimo, de 600 quilos [de cocaína], que podiam valer até dez milhões de euros, mais coisa, menos coisa. Mas até podia ser mais...”, diz. “Foi a primeira vez que algo do género aconteceu em Portugal”, destaca ainda a mesma fonte. O assalto terminou com um pequeno diálogo entre o homem da pistola e o vigilante. “Ficas aqui 30 minutos e só depois é que voltas para a entrada, OK?”, ordenou-lhe o assaltante. “Não me levem o telemóvel”, implorou. “Deixamo-lo na portaria”, assegurou- -lhe. Dez segundos depois, o comando narcotraficante desapareceu, deixando para trás uma nuvem de poeira no ar. O vigilante ficou sozinho no local do assalto, em estado de choque. O silêncio regressaria, gradualmente, ao porto de Setúbal, à medida que o som dos motores se ia afastando. O sequestro tinha chegado ao fim. Luís D. podia respirar de alívio. O CRIME: VELOZ E PERFEITO O assalto não demorou mais de 25 minutos. Eram 4h03 quando os dois veículos se evaporaram, a alta velocidade, pela Avenida Baía de Setúbal, em direção à saída da cidade. A boa qualidade das imagens de videovigilância permitiu perceber como tudo se passou... Mesmo sob ameaça, Luís D. não esperou muito, dirigindo-se para Sem metadados A PJ queria investigar telefonemas feitos pelos “narcos”, mas chumbo da lei dos metadados empurrou investigação para beco sem saída O vigilante Luís D. garantiu à Polícia Judiciária que, durante o assalto ao porto de Setúbal, um dos quatro elementos do grupo criminoso manteve comunicações por telemóvel. Sem mais pistas, esta informação levou as autoridades a “apostar tudo” nesta linha de investigação, apurou a VISÃO. A PJ solicitou às operadoras de telecomunicações (Altice/MEO, Vodafone e NOS) a “preservação dos dados de tráfego”, registados nas antenas daquela área, por 90 dias, período que os investigadores calcularam ser suficiente para aceder às “chamadas e mensagens recebidas e efetuadas (…) no período compreendido entre as 3h30 e as 4h20” daquele dia. A estratégia, porém, viria a ser bloqueada. Três semanas depois dos acontecimentos, o Tribunal Constitucional (TC) chumbou a lei dos metadados, que previa, precisamente, a possibilidade de estas informações – que incluem a identificação do equipamento utilizado, assim como da sua localização, ou o conhecimento da origem, do destino e da duração do telefonema – serem conservadas até um ano, com vista à eventual utilização na investigação criminal. Os juízes do Palácio Ratton concluíram que guardar informações de todas as pessoas restringia “de modo desproporcionado” os “direitos à reserva da intimidade da vida privada e à autodeterminação informativa”, podendo “atingir sujeitos relativamente aos quais não há qualquer suspeita de atividade criminosa”. Ora, este acórdão, datado de 19 de abril, deitava por terra a única pista do caso. A notícia seria recebida, nos gabinetes da Rua Gomes Freire, com “surpresa” e “irritação”, sabe a VISÃO. A Assembleia da República ainda aprovou novo projeto-lei sobre esta matéria (com os votos a favor de PS, PSD e Chega e contra de todos os outros partidos), mas a decisão continua nas mãos do TC, que, entretanto, voltou a receber o documento de Marcelo Rebelo de Sousa, decisão justificada pelo Presidente por “razões de certeza jurídica”. “Viemos buscar uma encomenda para os nossos chefes”, disse o assaltante ao vigilante, enquanto lhe apontava a pistola Página 55


23-11-2023 Meio: Imprensa País: Portugal Área: 2945cm² Âmbito: Interesse Geral Period.: Semanal Pág: 50-55,6,1 ID: 108282574 5 a portaria o mais rápido que pôde. Ainda com as mãos a tremer, procurou o seu telemóvel, que encontraria descartado no caixote do lixo. Tinham passado apenas sete minutos desde que o assalto terminara, quando o vigilante conseguiu contactar o seu supervisor, relatando-lhe tudo o que acontecera. A Polícia Marítima foi contactada pelo responsável pela segurança do porto de Setúbal, deslocando-se prontamente ao local. Aos primeiros raios de sol, dois inspetores da PJ entraram em cena para assumir a investigação. As autoridades não demoraram a estabelecer as ligações com o narcotráfico internacional. O contentor violado tinha sido transportado num navio denominado Cala – que, semanalmente, faz a ligação comercial marítima entre a Colômbia e a Costa Rica e o porto de Setúbal –, o qual partira do porto de Moín, na Costa Rica, com uma carga de bananas que tinha Espanha como destino final. O histórico não deixava margem para dúvidas e o caso seria entregue nas mãos da Unidade Nacional de Combate ao Tráfico de Estupefacientes (UNCTE) da Polícia Judiciária, nas horas que se seguiram. No processo, que a VISÃO consultou, a investigação concluiu que os quatro indivíduos tinham “informação prévia” da localização do contentor no interior do terminal e que atuaram com “a intenção de retirar do aludido [contentor] produto estupefaciente [cocaína] proveniente da América do Sul”. A PJ não tem dúvidas de que “a organização criminosa não logrou retirar o produto estupefaciente como previamente planeado, o que motivou o assalto subsequente às instalações” do porto de Setúbal. À VISÃO, fonte próxima do caso recorda que “já tinham sido registados assaltos naquele local”, mas refere que “nunca tinha acontecido um assalto com estas características e esta violência”. “Tínhamos detetado outras situações, pessoas que saltaram ou destruíram a cerca exterior, mas nunca assim, com recurso a arma de fogo e este nível de profissionalismo”, afirma. Os assaltantes deixaram pistas para trás, mas todas se revelariam inconsequentes. A escada metálica extensível ficou esquecida junto aos contentores, o que permitiu aos especialistas da Polícia Científica da PJ descobrirem duas impressões digitais diferentes – e O (mau) exemplo da Bélgica No mês passado, um comando de narcotraficantes holandês – na posse de três armas de guerra prontas a disparar – foi travado pela polícia belga, quando já circulava no centro de Antuérpia, numa operação com vista a recuperar cocaína que tinha sido apreendida na véspera No dia 16 de outubro, a polícia belga encontrou 7,7 toneladas de cocaína no interior de um contentor carregado de farinha de soja, que chegara, nessa mesma manhã, ao porto de Antuérpia, vindo da Serra Leoa. O segundo maior porto da Europa (apenas atrás do de Roterdão, nos Países Baixos) é, há muito, visto como a principal porta de entrada de cocaína na Europa – foram ali apreendidas, em 2022, 110 toneladas do estupefaciente, o que corresponde a 40% de toda a cocaína localizada, pelas autoridades, no continente. Analisando as estimativas locais – que indicam que os narcotraficantes conseguem fazer passar 90% da cocaína que chega a Antuérpia –, percebe-se o porquê de esta operação não ter alterado, de forma assinalável, o quotidiano do porto. Os “donos da droga” terão recebido informações sobre o local onde a cocaína apreendida estava armazenada e, pouco mais de 24 horas depois, um comando de narcotraficantes, fortemente armado, seria acionado por uma organização criminosa para recuperar a totalidade ou, pelo menos, parte dessa carga – que poderia render algo como €200 milhões, segundo as autoridades. Graças a uma dica, a polícia pôde reagir, colocando-se no terreno para frustrar estas intenções. A carrinha preta dos narcotraficantes já seguia, a alta velocidade, em direção a um armazém localizado na zona de Ijzerlaan, no centro da cidade – onde a cocaína estava, de facto, guardada –, quando foi travada por uma equipa de intervenção rápida da polícia de Antuérpia. Os sete homens que seguiam no veículo – com idades entre 22 e 35 anos, todos de nacionalidade holandesa – não tiveram tempo de reagir. O comando seria detido sem oferecer resistência. Na sua posse, tinham três armas de guerra prontas a disparar. Os momentos da detenção seriam filmados por vídeo amador e divulgados pela comunicação social. “As intenções dos suspeitos e para onde se dirigiam terão de ser determinadas pela investigação. Temos de determinar se existe uma ligação entre estas detenções e a grande quantidade de droga intercetada, ontem, no porto de Antuérpia”, declarou, aos média, Kato Belmans, porta-voz do Ministério Público local. Os jornais belgas, por sua vez, seriam menos prudentes nas palavras. Apoiados por fontes da investigação, apresentaram o caso como “a prova” da “crescente e contínua pressão dos narcotraficantes” sobre a cidade e o porto de Antuérpia – preocupação que tem dominado os responsáveis daquele país. A União Europeia declarou formalmente guerra ao fenómeno. Hoje, o caso do porto de Setúbal, relatado nestas páginas, justifica a pergunta: o (mau) exemplo da Bélgica já chegou a Portugal? GETTY IMAGES Página 56


23-11-2023 Meio: Imprensa País: Portugal Área: 2945cm² Âmbito: Interesse Geral Period.: Semanal Pág: 50-55,6,1 ID: 108282574 6 derrota da investigação –, os carros e as respetivas matrículas passaram a ser as únicas pistas disponíveis. O SUSPEITO ACIDENTAL DE GAIA A Polícia Judiciária tinha na sua posse imagens da carrinha branca em dois locais distintos – na loja de bricolage e no porto de Setúbal. A matrícula estava registada em nome de Carlos M. (nome fictício), de 60 anos, residente em Sandim, no município de Vila Nova de Gaia. A PJ confirmou rapidamente que aquele homem era, de facto, proprietário de um veículo da mesma marca, com o mesmo modelo e a mesma cor. Não havia queixa de a viatura lhe ter sido roubada. A PJ colocou-se, então, no terreno, com inspetores a quem foi pedido que fizessem vigilância “discreta” e “apertada” ao agora principal suspeito. Carlos M. seria, dias depois, chamado para interrogatório pela polícia. Contudo, as informações recolhidas voltaram a fintar a investigação. A PJ esclareceu, facilmente, que Carlos M. nada tinha que ver com o caso. Mas como se viu envolvido um cidadão comum, sem cadastro criminal, num processo de tráfico internacional de droga? A explicação é mais trivial do que interessante: Carlos M. tinha colocado, há três meses, a sua carrinha à venda, publicitando o negócio em vários sites de comércio automóvel, com fotografias em que se via a matrícula do veículo. Os narcotraficantes aproveitaram a oportunidade para duplicar a placa, e confundir as autoridades. A carrinha de Carlos M. encontrava- -se, na verdade, a aguardar por reparação, parada há quase 15 dias, numa oficina no Norte do País. Por sua vez, a matrícula da viatura ligeira também envolvida no assalto ao porto de Setúbal tinha sido roubada em Málaga, Espanha, algumas semanas antes, e pertencia a um carro de outra marca e de outro modelo, cujo proprietário tinha morada nos Países Baixos. Sem alterações no espaço de ano e meio, já em setembro deste ano, a Polícia Judiciária respondeu ao Departamento de Investigação e Ação Penal (DIAP) de Setúbal, sugerindo “o arquivamento do caso, salvo alguma alteração ou novidade”. Fonte da investigação lamenta, à VISÃO, este desfecho: “As coisas poderiam ter sido diferentes.” O crime, para já, saiu impune. Será este o ponto final do caso? [email protected] que não correspondiam ao vigilante –, mas que não serviram para identificar nenhum dos suspeitos, após consultadas as bases de dados nacionais e internacionais. Foram ainda encontradas duas pegadas, impressas nas caixas de cartão das bananas, mas, também aqui, a pista não levou a lado nenhum. A esperança ainda renasceu, horas depois do assalto, quando a PJ confirmou que aquela escada tinha sido comprada, dois dias antes, numa conhecida loja de bricolage, não muito distante do porto de Setúbal. Consultadas as imagens de videovigilância da superfície comercial, foi possível observar um homem, entre os 30 e os 40 anos, robusto, de máscara cirúrgica no rosto, a comprar aquele objeto com a ajuda de um funcionário da loja, e depois ao volante da carrinha branca que viria a estar envolvida no assalto. O suspeito, no entanto, nunca seria identificado. Sem acesso aos metadados das telecomunicações daquela noite (ver caixa na pág. 53) – outra “[Um assalto assim] nunca tinha acontecido (...) com esta violência (...) e este profissionalismo”, diz fonte da investigação Página 57


23-11-2023 Meio: Imprensa País: Portugal Área: 2945cm² Âmbito: Interesse Geral Period.: Semanal Pág: 50-55,6,1 ID: 108282574 7 Assalto dos “narcos” ao porto de Setúbal . . . . . . . . . . . . . 5 0 Um comando narcotraficante português sequestrou um vigilante e invadiu o porto de Setúbal, para recuperar uma carga de cocaína da América do Sul. A VISÃO conta como tudo se passou Página 58


23-11-2023 Meio: Imprensa País: Portugal Área: 2945cm² Âmbito: Interesse Geral Period.: Semanal Pág: 50-55,6,1 ID: 108282574 8 CRIME O ASSALTO DOS “NARCOS” AO PORTO DE SETÚBAL CRIME O ASSALTO DOS “NARCOS” AO PORTO DE SETÚBAL Página 59


Click to View FlipBook Version