The words you are searching are inside this book. To get more targeted content, please make full-text search by clicking here.
Discover the best professional documents and content resources in AnyFlip Document Base.
Search
Published by , 2016-08-04 15:26:39

RAE-176 - Agosto 2016

RAE-176 - Agosto 2016

Número 176
Agosto 2016

O fogo do amor divino

L a nç a mento

Q uarenta anos de con- dos Arautos do Evange-
vívio fazem de Mons. lho oferece uma descrição
João Scognamiglio Clá minuciosa das moções do
Dias, EP, a mais autori- Espírito Santo na alma de
zada testemunha sobre a Dr. Plinio.
vida, a atuação, as virtu-
des e o pensamento de Pli- Observador atento e sis-
nio Corrêa de Oliveira. temático das ações de seu
mestre, Mons. João oferece
Nesta coleção de cinco uma aula de teologia viva,
volumes que acaba de vir personificada num varão
a lume, o Superior-Geral virtuoso e providencial.

29,90o de lançament 29,90o de lançament 34,90o de lançament 34,90o de lançament

R$ R$ R$ R$
Volume III
Volume I Volume II Volume IV
o
o
o
o
Preç
Preç
Preç
Preç

Os quatro primeiros volumes já estão à venda.
Em setembro, mais um volume completará a coleção.

Volume I: 360 págs., 211 ilustrações | Volume II: 392 págs., 268 ilustrações
Volume III: 640 págs., 604 ilustrações | Volume IV: 672 págs., 610 ilustrações | Formato 23 x 15,7 cm

Encomende já sua coleção pela internet:
w w w.arautos.org /domdesabedoria
ou pelo telefone (11) 2971-9040

O dom de sabedoria na mente, vida e obra de Plinio Corrêa de Oliveira
é uma publicação conjunta internacional da

Libreria Editrice Vaticana e dos Arautos do Evangelho

SumáriO

Revista mensal dos 4Escrevem os leitores ���������������������������������������� Você sabia...
5Per ignem… ad pacem! (Editorial). . . . . . . . . .
36. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .
Associação privada internacional de A voz dos Papas –
fiéis de direito pontifício Sacerdócio e santidade Lições da História –
Ano XV, nº 176, Agosto 2016 O enterro da imperatriz
6. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .
ISSN 1982-3193 37. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .
Comentário ao Evangelho –
Publicada por: O fogo purificador! Amigos e intercessores
Associação Arautos do Evangelho do Brasil
10. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 38. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .
CNPJ: 03.988.329/0001-09
www.arautos.org.br A felicidade: Aconteceu na Igreja e
Diretor Responsável: onde encontrá-la? no mundo

Pe. Pedro Paulo de Figueiredo, EP 19. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 40. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .

Conselho de Redação: Nas pegadas do História para crianças...
Ir. Guy Gabriel de Ridder, EP; Ir. Juliane Apóstolo da Índia Combinação entre Anjos
Vasconcelos A. Campos, EP; Pe. Luis Alberto
Blanco Cortés, EP; Ir. Mariana Morazzani 22. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 46. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .
Arráiz, EP; Severiano Antonio de Oliveira
Arautos no mundo Os Santos de
Administração cada dia
Rua Bento Arruda, 89 26. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .
02460-100 - São Paulo - SP 48. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .
[email protected] Beato Pier Giorgio
Frassati – Uma alma feita A lição dos tico-ticos
Assinatura Anual: para os mais altos píncaros
Comum R$  145,00 50. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .
Colaborador R$  200,00 32. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .
Benfeitor R$  255,00
Patrocinador R$  330,00

Assinatura por internet:
www.revista.arautos.org.br

Serviço de atendimento
ao assinante: (11) 2971-9050
(nos dias úteis, de 8 a 17:00h)

Montagem:
Equipe de artes gráficas dos Arautos do Evangelho

Impressão e acabamento:
Divisão Gráfica da Editora Abril S/A.
Av. Otaviano Alves de Lima, 4.400 - 02909-900 - SP

A revista Arautos do Evangelho é impressa em papel
certificado FSC, produzido a partir de fontes responsáveis

Escrevem os leitores

Coleção da Revista na Renovação de assinatura Meio direto de apostolado
Biblioteca da Diocese
É com grande alegria que lhes in- A Revista é o meio mais direto de
Recebo sempre com muita alegria formo a renovação da minha assina- apostolado. Tira-me pessoalmente de
e satisfação a revista mensal Arautos tura da esplêndida revista Arautos do apuros quando preciso ajudar alguém.
do Evangelho e fico muito agradecido Evangelho. Continuo a incluir toda a Sempre que me proponho evangeli-
pelo envio da mesma. Ela é ótima na família dos Arautos do Evangelho em zar algum grupo de pessoas, leio an-
apresentação e oferece muitos arti- minhas orações, a fim de que o Divi- tes um artigo e isto me auxilia muito.
gos com profundidade teológica. Pa- no Espírito Santo siga multiplicando o
rabéns pela Revista! êxito de tão luminoso ramo da Santa Jeannet Beatriz Cornejo de Injoque
Igreja Católica Apostólica Romana. Lima – Peru
Diante de tanta riqueza de ima-
gens e conteúdo, vinha segurando as Salve a Virgem Santíssima, Mãe Vivência do Evangelho
revistas. Estou com o plano de enca- de Nosso Senhor Jesus Cristo!
derná-las, ano após ano, e fiz um le- em nossa vida diária
vantamento das que me faltam. Pe- Gabriel Dias
ço, se possível for, enviar-me os nú- Brasília – DF Uma oportunidade maravilho-
meros faltantes para completar a co- sa de evoluir no conhecimento do
leção e mantê-la na Biblioteca da Artigos para toda a família Evangelho, nos proporcionam a Re-
Diocese. Ficaria muito feliz. Deus vista e a matéria on-line. Grande
abençoe a vossa instituição e forta- Quero manifestar meu comprazi- alegria nos traz acompanhar os tra-
leça a todos. Com um abraço frater- mento a respeito da revista Arautos balhos de evangelização dos Arau-
no em Cristo e Maria, e minha grati- do Evangelho e felicitá-los por suas fo- tos pelo mundo. Este trabalho rea-
dão pelas revistas que recebi. tografias, sua apresentação, seus va- lizado nos presenteia com a vivência
riados temas e seu conteúdo, em tão do Evangelho em nossa vida diária.
Dom Protógenes José Luft, SdC oportunos artigos para toda a família.
Bispo Diocesano Antonia Leila Inacio de Lima de Araújo
Ana Leonor Lizarazo Plazas São Paulo – SP
Barra do Garças – MT Bogotá – Colômbia
Profunda reflexão mariana
Devoção ao Imaculado Consolidar a fé recebida
Coração de Maria Recebo mensalmente o periódi-
na infância co Arautos do Evangelho e tornei-me
A cada mês recebo a Revista que um atento leitor de todos os seus ar-
vocês me enviam, a qual faz tan- Sou participante benemérito des- tigos, escritos com sabedoria e sabor
to bem à minha vida espiritual. Sou ta Associação e venho comunicar de pesquisa. Da Revista número 172,
um sacerdote já idoso e através dos que, certamente por extravio do cor- mês de abril, não podia deixar de elo-
Arautos descobri minha devoção ao reio, não recebi as revistas Arautos do giar e agradecer ao Pe. Felipe Gar-
Imaculado Coração de Maria, e con- Evangelho de número 172 e 173, cor- cia Lopez Ria pela ampla abordagem
sagrei o resto de minha vida a este respondentes respectivamente aos de O maravilhoso afresco da Mãe do
Imaculado Coração. Meu desejo é meses de abril e maio do corrente Bom Conselho. Particularmente não
ter junto a mim uma imagem coro- ano. Estimaria recebê-las, pois já fa- tinha conhecimento do assunto, mas
ada de Nossa Mãe de Fátima e lhes zem parte de minha leitura predileta, o Pe. Felipe instruiu-me com profun-
agradeceria do fundo da alma se me na qual busco, pelos assuntos aborda- da reflexão mariana, pelo fantástico
ajudassem a consegui-la. Abenço- dos, consolidar minha fé recebida na relato histórico e contextual.
ando-os de coração, encomendo-me infância e que ao longo da minha tra-
em suas orações. jetória, pelas dificuldades de trabalho, Obrigado à equipe de redação
estudos, etc., não dei a importância da Arautos do Evangelho. Continue
Pe. Hugo Humberto Pantoja Tapia devida. Mas, graças ao bom Deus, me com a boa semente. Nós, leigos que
Valparaíso – Chile está sendo permitido agora, aos meus não temos tanta familiaridade com
72 anos, conhecer, refletir e fixar os artigos como os desta Revista, pro-
ensinamentos que, se praticados, com curamos ser terra fértil e cada mês
certeza nos levam a ser fermento, sal e aguardamos novo alento.
luz, e nos aproximam do Salvador.
Geraldo Farina
Luiz Schiochett Bento Gonçalves – RS
Joinville – SC

4      Arautos do Evangelho · Agosto 2016

NAúgmosetoro2107166 Editorial

O fogo do amor divino Per ignem… ad pacem!

O Juízo Final, por Alinguagem evangélica é toda feita de doçura. Pensemos, por exem-
Fra Angélico - plo, na parábola do filho pródigo ou do bom samaritano, na imagem
Museus Estatais da galinha com seus pintainhos, dos lírios dos campos, no sermão das
de Berlim bem-aventuranças…
Contudo, este mesmo Jesus terá às vezes um verbo surpreendentemente duro,
Foto: Reprodução que a muitos apraz menos considerar, como quando chama o Templo profanado
de “covil de ladrões” (Lc 19, 46) e os fariseus de filhos do demônio (cf. Jo 8, 44);
sobretudo quando afirma, contra toda expectativa: “Vim trazer não a paz, mas a
espada” (Mt 10, 34)… Ele, o “Príncipe da Paz” (Is 9, 5)! Mais, Cristo ainda ensi-
na que “o Reino dos Céus é arrebatado à força e são os violentos que o conquis-
tam” (Mt 11, 12).
Com efeito, desde os brados “Não servirei!”, de Lúcifer, e “Quem como
Deus?”, de São Miguel, há uma luta entre o bem e o mal que cruza a História de
ponta a ponta e muitas vezes se reveste das aparências de uma constante vitória
do mal.
De fato, não parece relatar o Antigo Testamento o repetido fracasso dos pla-
nos de Deus? O projeto inicial do Paraíso foi frustrado pelo pecado de Adão,
entre cujos filhos se manifesta o crime… Depois do dilúvio, à Aliança feita com
Noé segue-se nova infidelidade, na tentativa de construir a Torre de Babel…
Visando formar para Si um povo, Deus escolhe Abraão, cujos netos perseguem
José… Surge, então, nova Aliança com Moisés, rompida quantas vezes por pre-
varicações com ídolos, das quais o bezerro de ouro fora mero preâmbulo! Fi-
nalmente, Davi parecia ter alcançado uma Aliança definitiva; entretanto, já
com seu filho Salomão, os judeus voltaram à idolatria. Sempre o mal venceria o
bem, a mentira imperaria sobre a verdade e o feio ofuscaria a beleza?
Não. Há um tempo para tudo (cf. Ecl 3, 1) e, desde toda a eternidade, re-
servara-Se Deus o tempo em que se restabeleceria a justiça e triunfaria a san-
tidade: uma leitura atenta do Apocalipse mostra não estar ali apenas uma des-
crição do fim do mundo, mas também a revelação de um momento anterior
no qual Deus vinga sua própria santidade e demonstra o poder de seu braço
(cf. Ap 11, 17-18), seguido de um período em que Ele reina (cf. Ap 20, 4-6) e
no qual o bem triunfa sobre o mal, a verdade esmaga o erro e o belo resplan-
dece, dissolvendo a feiura.
Só assim tomam sentido certas profecias, como as de Isaías (cf. Is 11, 6-16),
que ainda não foram cumpridas.
Longe de ser um Criador que, distante, observa a ruína de seus próprios
planos, entregues aos desvarios dos delinquentes habitantes da Terra, Deus
governa tudo em sua sabedoria eterna, como “Rei dos reis e Senhor dos se-
nhores” (Ap 19, 16). Nada escapa de seu olhar vingador e justíssimo, tanto pa-
ra premiar o bem praticado como para castigar as más ações. Chegará, pois, a
hora de sua intervenção que, embora terrível, trará depois o gáudio da supre-
ma era da misericórdia e da paz de Cristo, no Reino de Cristo: a paz de Ma-
ria, no Reino de Maria. ²

Agosto 2016 · Arautos do Evangelho      5

A voz dos Papas

Sacerdócio e santidade

Ai do presbítero que não sabe comportar-se à altura de sua dignidade, que
desonra o santo nome de Deus perante o qual deve ser santo! A corrupção

dos melhores é a mais grave entre todas.

C omeçamos nossa exor- exemplo e depois pela palavra: “Jesus mãos, como esta consideração nos es-
tação, caros filhos, con- fez e ensinou” (At 1, 1). timularia a levar uma vida digna de
clamando-vos à santida- sacerdotes! Que coisa deixou Deus
de exigida pela dignidade Sem santidade de vida, deixará o de pôr em minhas mãos, se nelas pôs
de vosso cargo, pois quem é eleva- sacerdote de ser sal da terra, pois o seu próprio Filho Unigênito, eter-
do ao sacerdócio exerce o minis- que está corrompido e contaminado no e consubstancial a Si mesmo? Em
tério não só para si, mas também não pode conferir a saúde, e onde minhas mãos depositou os seus te-
para os outros: “Todo pontífice é falta a santidade é inevitável que ha- souros, todos os Sacramentos, todas
escolhido entre os homens e cons- bite a corrupção. Daí que, valendo- as suas graças: pôs as almas por Ele
tituído a favor dos homens como -Se da mesma figura, o Mestre qua- amadas como a pupila dos olhos, as
mediador nas coisas que dizem lifique tais ministros de sal insípido quais amou mais do que a Si mesmo
respeito a Deus” (Hb 5, 1). que “para nada mais serve senão pa- e remiu com seu Sangue; pôs o Céu,
ra ser lançado fora e calcado pelos que posso abrir e fechar aos demais...
O que está corrompido não homens” (Mt 5, 13). [...] Como poderia eu, à vista de tantas
pode conferir a saúde honrarias e tamanho amor, ser in-
Muito oportunamente insistia São grato a ponto de pecar contra Ele, de
Este mesmo pensamento expri- Carlos Borromeu em seus discursos ofendê-Lo e de conspurcar este cor-
miu Cristo quando, para explicar a para o clero: “Se recordássemos, ir- po que Lhe pertence, de profanar es-
função própria dos presbíteros, os mãos caríssimos, quantas e quão pre- ta dignidade, esta vida consagrada a
comparou à luz do mundo e ao sal ciosas coisas colocou Deus em nossas seu serviço?”.1 [...]
da terra.
Sem santidade de Cristo não muda
Todos sabem que eles o são, em vida, deixará o sacer- no decorrer dos séculos
primeiro lugar, pela missão de trans- dote de ser sal da
mitir a verdade cristã a eles encomen- terra, pois o que está Vejamos agora em que consiste
dada. Como ignorar, porém, que a corrompido e con- esta santidade, da qual o sacerdo-
nada conduzirão seus ensinamentos taminado não pode te não pode estar privado sem gra-
se não os confirmarem com o exem- conferir a saúde ve desonra, porque se expõe a gran-
plo? Neste caso, com irreverência, de perigo quem a ignora ou entende
mas não sem razão, poder-lhes-iam de forma equivocada.
objetar seus ouvintes: “Proclamam
que conhecem a Deus, mas na prática Pensam alguns, e até claramen-
o renegam” (Tt 1, 16); e lhes rechaçar te professam, que o mérito do sacer-
a doutrina pregada, sem beneficiar- dote consiste apenas em entregar-se
-se de sua luz. Por isso Cristo, modelo por inteiro ao bem dos outros. Ne-
dos sacerdotes, ensinou primeiro pelo gligenciando quase totalmente as

6      Arautos do Evangelho · Agosto 2016

virtudes que visam ao aperfeiçoa- São Pio X fotografado por Felici Paulo: “Nem o que planta é alguma
mento pessoal – por eles chamadas coisa nem o que rega, mas só Deus,
de virtudes passivas –, apregoam a Ao sacerdote com- que faz crescer” (I Cor 3, 7). [...]
necessidade de empregar todos os pete-lhe a tarefa
esforços em adquirir e exercitar de arrancar as más Somente a santidade nos torna
as virtudes denominadas ativas. ervas, lançar as boas acordes com nossa vocação
sementes, irrigar e
Esta doutrina é, sem dúvida, vigiar para que o Na verdade, uma só coisa ser-
falaz e desastrosa. A respei- inimigo não semeie ve para unir o homem a Deus,
to dela assim se exprime, com entre elas o joio torná-lo agradável a seus olhos
sua habitual sabedoria, nos- e ministro não indigno de sua
so predecessor de feliz memó- obrigações de seu ministério relativas misericórdia: a santidade de vi-
ria: “A ideia de que as virtu- ao bem dos fiéis: pregar a Palavra de da e de costumes. Se faltar ao
des cristãs não são oportunas Deus, atender Confissões, prestar as- sacerdote esta santidade, que é
em todos os tempos, só pode sistência aos enfermos, sobretudo aos a supereminente ciência de Je-
ocorrer a quem tenha se esque- moribundos, instruir os ignorantes sus Cristo, faltar-lhe-á tudo. Pois
cido destas palavras do Apósto- das coisas da Fé, consolar os aflitos, sem esta ciência, a própria vasti-
lo: ‘Os que Ele distinguiu de ante- reconduzir os extraviados e em tudo dão de uma requintada cultura –
mão, também os predestinou para imitar a Cristo, o qual “andou fazen- que nós mesmos nos empenhamos
serem conformes à imagem de seu do o bem e curando todos os oprimi- em promover entre o clero –, bem co-
Filho’ (Rm 8, 29). A Cristo, mestre dos pelo demônio” (At 10, 38). mo a destreza e solércia nas ativida-
e modelo de toda forma de santida- des, mesmo quando produzam algum
de, devem-se adaptar todos quan- E, ao mesmo tempo, grave em benefício à Igreja ou a alguns fiéis,
tos almejam ser acolhidos no Rei- sua mente esta advertência de São são amiúde deplorável causa de pre-
no dos Céus. Ora, Cristo não muda juízos.
no decorrer dos séculos, mas ‘é sem- Por outro lado, numerosos exem-
pre o mesmo: ontem, hoje e por to- plos de todos os tempos comprovam
da a eternidade’ (Hb 13, 8). Portan- o quanto pode empreender e levar
to, aos homens de todos os tempos a bom termo, no povo de Deus, o
se dirige esta palavra: ‘Aprendei de homem ornado de santidade, ain-
Mim, que sou manso e humilde de da que pertença ao grau inferior da
coração’ (Mt 11, 29); a todo momen- hierarquia eclesiástica. Basta recor-
to Ele Se apresenta como ‘obediente dar, entre os mais recentes, o Cura
até a morte’ (Fl 2, 8); e vale para to- d’Ars, João Batista Vianney, que ti-
das as épocas a sentença do Apósto- vemos a alegria de beatificar.
lo: ‘Os que são de Jesus Cristo cru- Somente a santidade nos torna
cificaram a carne, com as paixões e acordes com as exigências da nossa
concupiscências’ (Gal 5, 24)”.2 [...] vocação divina. Ela faz de nós ho-
mens crucificados para o mundo, e
Insistindo vivamente nesse de- para os quais o mundo ­está crucifi-
ver, não podemos, entretanto, dei- cado; homens que caminham numa
xar de advertir, que tendo sido con- nova vida e que, como ensina São
tratado por Cristo como operário Paulo, “nas vigílias, nas privações;
“para sua vinha” (Mt 20, 1), o sa- pela pureza, pela ciência, pela lon-
cerdote não pode santificar-se ape- ganimidade, pela bondade, pelo
nas para si. Compete-lhe também a Espírito Santo, por uma caridade
tarefa de arrancar as más ervas, lan- sincera, pela palavra da verdade”
çar as boas sementes, irrigar e vigiar (II Cor 6, 5-7) demonstram ser au-
para que o inimigo não semeie entre tênticos ministros de Deus, volta-
elas o joio. dos exclusivamente para as coisas
celestes e empenhados por inteiro
Cuide, pois, o presbítero de não em conduzir a elas as almas dos de-
se deixar arrastar por um irrefletido mais.
desejo de perfeição interior que o le-
ve a negligenciar qualquer uma das

Agosto 2016 · Arautos do Evangelho      7

O sacerdote precisa ser comendada, o sacerdote precisa ser no alto será inferior à tristeza de nos
exímio na oração exímio na prática da oração. Com precipitarmos para baixo”.5
demasiada frequência temos a la-
Como todos sabem, a santidade de mentar preces feitas mais por hábi- Ai do sacerdote que se olvida
vida é fruto de nossa vontade, fortale- to do que por devoção; que em de- de si próprio, negligencia a oração,
cida pela graça, da qual Deus nos pro- terminados momentos o Ofício seja rejeita a nutrição das leituras pie-
vê largamente para que nunca nos fal- rezado distraidamente ou substitu- dosas, nunca se recolhe para ou-
te. Basta apenas que a queiramos e a ído por algumas curtas orações; a vir a voz da consciência que o acu-
peçamos por meio da oração. ausência de momentos ao longo do sa. Nem as sangrentas chagas de
dia dedicados a dialogar com Deus, sua alma, nem os prantos da Igre-
Oração e santidade estão tão inti- elevando a alma à consideração das ja, sua mãe, conseguirão reerguer
mamente relacionadas que uma não coisas celestes. este infeliz, evitando-lhe ser golpe-
pode subsistir sem a outra. Assim, é ado por aquelas terríveis ameaças:
decerto verdadeira esta sentença do Mais do que qualquer outro ho- “Obceca o coração desse povo, en-
Crisóstomo: “Julgo ser evidente pa- mem, deve o sacerdote obedecer ao surdece-lhe os ouvidos, fecha-lhe os
ra todos que sem auxílio da oração preceito de Cristo: “É necessário olhos, de modo que não veja nada
é impossível viver virtuosamente”.3 orar sempre” (Lc 18, 1). Com base com seus olhos, não ouça com seus
E com fina argúcia conclui Santo nele, São Paulo insistia: “Sede per- ouvidos, não compreenda nada com
Agostinho: “Sabe de fato viver bem severantes, sede vigilantes na ora- seu espírito. E não se cure de novo”
quem sabe rezar bem”.4 ção, acompanhada de ações de gra- (Is 6, 10).
ças” (Col 4, 2); “Orai sem cessar”
Estes ensinamentos, o próprio (I Tes 5, 17). [...] Que o Deus de misericórdia afas-
Cristo os confirmou com suas pala- te de cada um de vós, diletos filhos,
vras e mais ainda com seu exemplo: Tenhamos pavor de cair este triste presságio. Ele vê que nos-
retirava-Se sozinho nos desertos ou so coração, inteiramente livre de
subia ao cume dos montes, passava Ai do sacerdote que não sabe rancor, é movido apenas pela cari-
noites inteiras orando, ia com frequ- comportar-se à altura de sua digni- dade de pai e pastor: “Pois quem,
ência ao Templo, e até mesmo quan- dade, que por sua infidelidade de- senão vós, será a nossa esperança, a
do rodeado pelas multidões, elevava sonra o santo nome de Deus, peran- nossa alegria e a nossa coroa de gló-
os olhos ao Céu e rezava diante de te o qual deve ser santo! A corrupção ria ante Nosso Senhor Jesus, no dia
todos. Por fim, cravado na Cruz, em dos melhores é a mais grave entre to- de sua vinda?” (I Tes 2, 19).
meio às dores da morte, dirigiu ao das. “Grande é a dignidade dos sa-
Pai a última prece, com lágrimas e cerdotes, maior, porém, é sua ruína Auxiliar e socorrer a Igreja
um alto brado. se pecam. Alegremo-nos por termos em suas angústias
sido elevados, mas tenhamos pavor
Tenhamos, pois, por certo e com- de cair, pois a alegria por ter estado Vós mesmos podeis constatar, em
provado que, para estar à altura de qualquer lugar onde estejais, os tris-
sua dignidade e da tarefa a ele en-

Grande é a dignidade
dos sa­cerdotes, maior,
porém, é sua ruí­na se
pecam. Alegremo-
-nos por termos sido
elevados, mas tenha­
mos pavor de cair

Ordenação sacerdotal nas catacumbas
Gravura do início do séc. XX publicada

por Gérard Desgodets

8      Arautos do Evangelho · Agosto 2016

tes momentos pelos quais passa A árvore divina - Gravura de finais do tos de conquistar e conduzir al-
a Igreja, por impenetráveis de- séc. XIX publicada por Friedrich Pustet, mas a Cristo. Considerai quão
sígnios de Deus. Considerai tam- laboriosos, infatigáveis e deste-
bém o sagrado dever que tendes Regensburg (Alemanha) midos são os inimigos de Deus
de assistir e socorrer em suas an- em sua ação para corromper de
gústias esta Igreja que vos conce- Aliviar, defender, modo irreparável as almas!
deu tão honrosa dignidade. medicar, pa­cificar:
seja esta a vossa Especialmente por este es-
Hoje mais do que nunca, tor- meta, se­dentos de plendor da caridade a Igreja
na-se necessária ao clero uma conquistar e condu- Católica se alegra e se ufana de
virtude superior, sincera, exem- zir almas a Cristo seu clero, que anuncia o Evan-
plar, viva, operosa, prontíssima gelho da paz cristã, que leva a
a tudo empreender e sofrer por Sede incansáveis em fazer o bem a salvação e a civilização até os
Cristo. Isto é o que com mais ar- todos, não só ensinando-lhes o cate- povos bárbaros, onde por seus
dor desejamos para todos e cada cismo, que recomendamos de novo e esforços apostólicos, não rara-
um de vós, e o pedimos a Deus com maior empenho, mas também mente selados com o sangue,
com fervorosíssimas preces. prestando-lhes todo auxílio possível dilata-se dia a dia o Reino de
inspirado por vossa prudência e de- Cristo e resplandece com novas
Floresça, pois, em vós com in- dicação. vitórias a santa Fé.
temerato fulgor a castidade, exí-
mio ornato de nosso clero. Gra- Não manchemos nossa glória! Diletos filhos, se em paga de
ças a ela o sacerdote se torna Aliviar, defender, medicar, paci- vossa caridade receberdes ódio,
semelhante aos Anjos, é consi- afrontas, calúnia, como sói acon-
derado pelo povo cristão homem ficar: seja esta a vossa meta, seden- tecer, não vos deixeis tomar pelo
digno de todas as honras e colhe, desânimo, “não vos canseis de fa-
assim, mais copiosos frutos de zer o bem” (II Tes 3, 13). Tende
seu ministério. diante dos olhos os esquadrões de
homens fortes, insignes tanto pe-
Perene e sincera sejam em lo número quanto pelos méritos, que a
vós a reverência e a obediência so- exemplo dos Apóstolos, se alegravam
lenemente prometidas àqueles que em suportar as mais cruéis torturas
o Espírito Santo constituiu pasto- pelo nome de Jesus Cristo. Eram in-
res da Igreja. Acima de tudo, que sultados e abençoavam (I Cor 4, 12).
a submissão devida a justíssimo tí- Somos filhos e irmãos dos Santos,
tulo a esta Sé Apostólica una a ela cujos nomes resplandecem no Li-
cada dia mais, com estreitíssimos vro da Vida, cuja glória a Igreja cele-
vínculos, vossas mentes e vossos bra. “Não manchemos nossa glória”
corações. (I Mac 9, 10)! ²

Brilhe em cada um de vós aque- São Pio X. Excertos da Exortação
la caridade que em nada procura seu Apostólica Hærent animo, 4/8/1908 –
próprio proveito, de tal modo que, re-
primidos os impulsos da inveja e da Tradução: Arautos do Evangelho
ambição próprios da humana nature-
za, possais unir vossos esforços, com 1 SÃO CARLOS BORROMEU. Hom.
fraterna emulação, para dar maior Orat. II in syn. Dioec. XI, a.1584
glória a Deus. “Um grande número
de enfermos, de cegos, de coxos e de 2 LEÃO XIII. Testem benevolentiæ,
paralíticos” (Jo 5, 3), multidão tão nu- 22/1/1899.
merosa quanto digna de piedade, es-
pera os socorros de vossa caridade. 3 SÃO JOÃO CRISÓSTOMO. De præca-
tione. Orat. I.
À vossa espera estão, sobretu-
do, numerosos grupos de jovens, ri- 4 SANTO AGOSTINHO. Sermo LV (α),
sonha esperança da pátria e da Re- n. 1.
ligião, assediados de todos os lados
pelas insídias e pelos perigos morais. 5 SÃO JERÔNIMO. In Ezech. L.XIII,
c.44, v.30.

Agosto 2016 · Arautos do Evangelho      9

Reprodução

Cristo Juiz cercado de Anjos e profetas (detalhe), por Fra Angélico - Capela da Madonna di San Brizio, Catedral de Orvieto (Itália)

a  Evangelho  A

Naquele tempo, disse Jesus a seus discípu- são. 52 Pois, daqui em diante, numa família
los: 49 “Eu vim para lançar fogo sobre a Ter- de cinco pessoas, três ficarão divididas con-
ra, e como gostaria que já estivesse aceso! tra duas e duas contra três; 53 ficarão dividi-
50  Devo receber um batismo, e como estou dos: o pai contra o filho e o filho contra o
ansioso até que isto se cumpra! 51 Vós pen- pai; a mãe contra a filha e a filha contra a
sais que eu vim trazer a paz sobre a Terra? mãe; a sogra contra a nora e a nora contra a
sogra” (Lc 12, 49-53).
Pelo contrário, eu vos digo, vim trazer divi-

10      Arautos do Evangelho · Agosto 2016

Comentário ao Evangelho – XX Domingo do Tempo Comum

O fogo purificador!

Anunciando o momento em que a face da Terra será
renovada pelo incêndio do amor divino, Nosso Senhor
revela a extraordinária força que nasce de seu sacrifício
e manifesta o ardente desejo de consumá-lo.

Mons. João Scognamiglio Clá Dias, EP

I – As manifestações do que Ele “pertransivit benefaciendo – passou Ainda
de amor do Divino Mestre fazendo o bem” (At 10, 38). maiores do
que as curas
Comoventes e admiráveis são as manifes- Como ouvimos com frequência palavras operadas
tações de misericórdia de Nosso Senhor Jesus cheias de comiseração saídas dos próprios lá- por Nosso
Cristo no decorrer de sua vida pública. Sem ja- bios divinos, o ensinamento do Evangelho deste Senhor eram
mais recusar benefício algum aos infelizes que 20º Domingo do Tempo Comum pode causar- os benefícios
d’Ele se aproximavam necessitando de auxí- -nos certa perplexidade por não se coadunar, à feitos por Ele
lio, realizava curas corpóreas e espirituais nun- primeira vista, com o modo de proceder de Nos- às almas
ca antes testemunhadas. Certa vez, enquanto so Senhor consignado em outras passagens. Ha-
caminhava pela estrada que conduzia à cidade veria, portanto, uma contradição no ministério
de Naim, deparou-se com o funeral de um jo- de Jesus? Ou suas palavras sobre o fogo, a divi-
vem que falecera, deixando a mãe, uma pobre são e o rompimento dos laços familiares contêm
viúva, desamparada e sozinha. Compadecido uma profundidade que exige uma análise mais
da triste sorte que a aguardava, Jesus fez o jo- acurada? O texto proposto pela Liturgia deste
vem voltar à vida e o restituiu à sua progenitora domingo oferece uma privilegiada oportunida-
em excelentes condições físicas, certamente me- de de compreendermos a verdadeira amplitu-
lhores que as anteriores. Noutra ocasião, dez le- de da perfeitíssima pregação de Cristo e os seus
prosos levantaram a voz à distância, imploran- desdobramentos para a vida de cada um de nós.
do a Ele o fim de seus males. Receberam um
olhar benigno do Mestre, seguido da almeja- II – Um novo fogo é trazido à Terra
da cura, mediante a qual regressaram à vida so-
cial, cheios de júbilo. Ainda maiores que estes, Naquele tempo, disse Jesus a seus discípu-
porém, eram os benefícios feitos às almas, pe- los: 49 “Eu vim para lançar fogo sobre a Ter-
lo perdão dos pecados a todos os faltosos com- ra, e como gostaria que já estivesse aceso!”
pungidos. Incessantes eram os milagres e inco-
mensurável o alcance de seus favores. Por isso, Ousada é a afirmação do versículo inicial, no
o Apóstolo Pedro sintetizou tais obras afirman- qual Nosso Senhor declara ter assumido a En-

Agosto 2016 · Arautos do Evangelho      11

Francisco Lecaros

O contexto carnação com a finalidade de propagar um fo- ar de mistério, versam sobre um fogo novo, preco-
deste go, sendo tão veemente o seu desejo de vê-lo ar- nizado apenas pela pregação de São João Batista.
Evangelho der, que aguarda com ansiedade a chegada de
denota que tal momento. Deveríamos entender tal afirma- A humanidade necessitava
o Salvador ção num sentido estrito? Teria Ele vindo como de uma purificação
não alude às uma tocha chamejante, para percorrer todos os
passagens quadrantes a fim de produzir um incêndio uni- À multidão comprimida, ávida por saber
antigas já versal? É evidente que não. se estava ou não diante do Messias, declarou
conhecidas o Precursor em tom solene: “Eu vos batizo na
Por outro lado, sabemos que a figura do fo- água, mas eis que vem outro mais poderoso do
go aparece na Escritura com diversos signifi- que eu, a quem não sou digno de desatar a cor-
cados, na maioria das vezes com uma conota- reia das sandálias; ele vos batizará no Espírito
ção punitiva. No episódio em que uma labareda Santo e no fogo” (Lc 3, 16). Era o anúncio do
saída de junto do Senhor devorou os duzen- Batismo sacramental, incomparavelmente mais
tos e cinquenta que tinham se revoltado con- profundo, eficaz e perfeito que o de penitência,
tra Moisés, tão eficaz foi o efeito produzido e acompanhado por um fogo renovador.
que não restaram sequer indícios dos difama-
dores (cf. Eclo 45, 22-24; Nm 16, 35). Com um De fato, antes do advento de Nosso Senhor,
propósito semelhante Elias fez descer fogo do a humanidade estava pervadida e maculada pe-
Céu sobre dois capitães, cada qual em compa- los efeitos do pecado original, tendo se torna-
nhia de cinquenta soldados, todos imediata- do verdadeira escrava das paixões desordena-
mente incinerados (cf. II Rs 1, 9-12). O Apo- das. Ao longo dos séculos, houve um paulatino
calipse prenuncia o fogo que deve ser lançado enraizamento dessas más tendências, com todas
à Terra na conflagração final para purificá-la as lamentáveis consequências registradas pe-
(cf. Ap 20, 9-10). Além disso, as menções às la História, fazendo-se indispensável uma pu-
penas infernais sempre são acompanhadas pe- rificação. Como operar a santificação da socie-
la imagem de um incêndio peculiar, criado por dade em tais circunstâncias? Pelas vias normais
Deus para este fim, cuja energia é Ele próprio, do esforço ou pela prática de uma virtude natu-
um fogo inteligente que não se apaga.1 ral não se atinge tão elevado objetivo; fazia-se
imprescindível um fator determinante origina-
Ora, o contexto deste Evangelho denota que o do por iniciativa divina, uma vez que o homem
Salvador não alude às passagens antigas já conhe- não tinha meios de vencer sua própria maldade,
cidas pelo público ao qual pregava, nem se refere sendo este o magnífico remédio que o Redentor
às chamas do inferno. Suas palavras, envoltas em nos viera trazer.

12      Arautos do Evangelho · Agosto 2016

O fogo do amor divino Santa Joana d’Arc, por exemplo, montou a As palavras
cavalo, vestiu uma armadura, liderou um exér- de Jesus
Através da união da natureza humana cito e conquistou a liberdade de sua nação. San- versam sobre
com a divina em uma só Pessoa, e pelos mé- ta Catarina de Sena, grande Doutora da Igre- um fogo novo,
ritos infinitos da Encarnação, Paixão, Morte ja, conseguiu que o Papa voltasse à Sé de Roma, preconizado
e Ressurreição de Nosso Senhor Jesus Cris- após mais de meio século de exílio em Avignon, pela pregação
to, desceu à Terra um fogo capaz de purificar e aconselhou com tanta sabedoria os poderosos de São João
o pântano no qual os homens estavam atola- de seu tempo, que ninguém pôde questionar a Batista
dos: “Jesus veio do Céu à Terra para pôr fogo inspiração divina de suas palavras. Para ambas
nas almas a fim de depurá-las, queimar suas não houve lei de prudência humana que signifi-
escórias e torná-las pura prata e ouro diante casse um impedimento. Movidas por esse fogo
de Deus: é o fogo da santidade, da caridade; é abrasador, devotaram-se a uma causa superex-
todo o sistema de santificação que Jesus trou- celente, enfrentaram com determinação sobre-
xe ao mundo”.2 Com a Redenção, fomos ele- -humana as maiores adversidades e mudaram
vados a um patamar espiritual inimaginável, os rumos da História.
pois foi-nos aberta a possibilidade de sermos
agradáveis a Deus e partícipes de sua própria Estas foram almas que possuíram a plenitude
divindade. Conclamados a assumir a mesma da caridade, para cuja representação Nosso Se-
perfeição do Pai Celeste (cf. Mt 5, 48), recebe- nhor não encontrou melhor símbolo que o fogo,
mos para isso a efusão do amor de Cristo que pois a chama é atraente, bela, eleva seu brilho
acrisola nosso próprio amor, torna-o meritório para o céu e ilumina. Ao mesmo tempo, contu-
e fecundo, além de nos oferecer a possibilida- do, queima, e diante deste poder de combustão
de de vencermos o pecado, que embora ainda não há quem cometa a temeridade de julgá-lo
lance seu aguilhão já não impera mais. À me- inócuo.
dida que os homens se deixam penetrar pelo
fogo da caridade, os obstáculos aos ditames da O batismo do Calvário
graça vão sendo transpostos, porque nada po-
de deter a marcha daqueles que amam. Quem 50 “Devo receber um batismo, e como
se entrega por inteiro ao amor sobrenatural estou ansioso até que isto se cumpra!”
torna-se capaz de realizar prodígios, tal como
fizeram os grandes heróis da Fé. Evidenciando ainda mais quanto a pro-
pagação deste fogo depende de seu próprio

Francisco Lecaros

Sacerdotes e levitas interrogam a João Batista - Biblioteca do Mosteiro de
Yuso, San Millán de la Cogolla (Espanha); na página anterior, detalhe da mesma iluminura

Agosto 2016 · Arautos do Evangelho      13

Quem se impulso, o Mestre revela ter necessidade de Tal como se verifica em todos os porme-
entrega passar por um batismo, valendo-Se, para is- nores e ditos da vida do Salvador, um subli-
por inteiro to, da incisiva formulação “devo receber”. me ensinamento dimana desta passagem: Je-
ao amor Já recebera Ele, nos primórdios da vida pú- sus nos mostra quanto devemos anelar por
sobrenatural blica, o batismo de São João – do qual não ver logo realizado o bem que nos cabe fazer.
torna-se precisava, mas quis ser dele partícipe para A partir do momento em que a vontade divi-
capaz de santificar as águas do universo, entre outras na a nosso respeito se torna clara, devemos
realizar razões 3 –, o que torna claro não Se referir ansiar por cumpri-la sem demora, empenhan-
prodígios aqui ao batismo penitencial. Acima deste – do nisso todos os nossos esforços, dedicação
e infinitamente mais valioso! – está o dolo- e sacrifícios, a fim de sermos instrumento da
Sebastian Cadavid roso batismo de sangue operado pelos tor- graça para a salvação do próximo. O fogo da
mentos da Paixão. O autorizado parecer de caridade não comporta delongas, pois estas
Maldonado sintetiza a opinião dos exegetas significam um esmorecimento de fervor; as-
a esse respeito, uma vez que Nosso Senhor sim, Jesus, movendo-Se apenas por amor ao
deixa a afirmação envolta numa penumbra Pai e a nós, caminha ávido para o tormento,
um tanto misteriosa: “Chama batismo, in- como sublinha Santo Ambrósio: “Tamanha é
dubitavelmente, à sua Paixão e Morte, co- a condescendência do Senhor, que testemu-
mo todos os intérpretes admitem […]. De nha ter um grande desejo em seu Coração, de
sorte que ser batizado, que é propriamente infundir-nos a devoção, de consumar em nós
a perfeição e de levar a cabo, em nosso favor,
submergir-se nas águas, interpreta-se sua Paixão”.6
aqui por padecer e morrer; e batis-
mo, por tribulação, paixão e mor- A dadivosidade do Coração de Jesus
te”.4 Dada a suprema perfeição de
A infinita dadivosidade de tal entrega nos
Cristo, compreende-se não redundar conduz à consideração dos benefícios recebidos
este batismo em um benefício para de Cristo: Ele quis encarnar-Se, sofrer todas as
vicissitudes de uma natureza humana padecen-
Ele, que é Deus, mas sim para a hu- te, tais como fome, frio, sede, calor, cansaço, in-
manidade. júrias… e, além de tudo, receber o batismo de
sangue. Realizou o holocausto com o intuito de
Qual seria a razão de estar Ele reparar nossas faltas e oferecer-nos a purifica-
ansioso para que isto se cumprisse? ção de todas as manchas do pecado de nossos
primeiros pais, Adão e Eva, devolvendo-nos o
O resgate do gênero humano a ser estado de graça e reintroduzindo-nos, assim, na
operado através dessa entre- familiaridade com Ele pela participação da na-
ga, pois seu amor infinito tureza divina, concedendo-nos o privilégio de
pelas almas O impelia a sermos filhos do Pai por adoção: seus irmãos e
querer purificá-las quan- co-herdeiros, para gozarmos a eternidade jun-
to antes e fazer com que to a Ele. Desse modo entrevemos, ainda que
de forma muito imperfeita, as dimensões extra-
esse fogo começasse a consumir ordinárias do Sagrado Coração de Jesus, cora-
as misérias humanas, transfor- ção humano unido hipostaticamente a Deus,
mando os homens em per- no qual há inteira conformidade entre o amor
feitos filhos de Deus. Era que parte da humanidade e o que se origina na
o “desejo ardente e genero- divindade. São dois amores coexistentes num
so com que, como Redentor, mesmo Coração, tornando-se, incompreensí-
Jesus queria de alguma ma- veis, inatingíveis e inabarcáveis por nosso limi-
neira antecipar sua Pai- tado intelecto.
xão, devido aos frutos
de salvação que ela Depois do ápice de doação deste Coração
haveria de produzir consumada no Calvário, compreende-se que o
para a linhagem hu- desenrolar da História não mais poderia ser co-
mana”.5 mo antes.

Santa Joana
d’Arc - Praça das
Pirâmides, Paris

14      Arautos do Evangelho · Agosto 2016

III – Uma nova era Sebastian Cadavid

para a humanidade Sagrado Coração de Jesus Movendo-Se
Basílica de Maria Auxiliadora, Turim (Itália) apenas por
Após ter sintetizado em dois extra- amor ao Pai
ordinários versículos o transbordamen- Estamos diante de uma das afirmações e a nós, Jesus
to de amor com o qual trouxe a salvação mais incisivas proferidas pelo Mestre em to- caminha
à humanidade, Nosso Senhor acentua, do o Evangelho: “não vim trazer a paz”. Co- ávido para
nos seguintes, as consequências da ade- mo é que, o “príncipe da paz” profetizado por o tormento
são à sua Pessoa e doutrina. Com efeito, Isaías (9, 5), Ele, que ao invocar a presença
desde o primeiro pecado cometido por do Espírito Santo dirá: “A paz esteja convos-
Adão e Eva até a Encarnação, existia co” (Jo 20, 19), prega não ter vindo trazê-la?
uma força predominante na face da Ter- Eis um versículo que causa perplexidade nos
ra que podemos designar como sendo o espíritos cartesianos. A explicação, porém, é
polo do mal. Embora vigorasse a pro- simples e profunda: sua paz não coincide com
messa divina, assegurando a Redenção, a que é entendida a partir de conceitos detur-
e a solicitude do Criador se exercesse de pados: “não vo-la dou como o mundo a dá”
modo constante em favor dos judeus, é (Jo 14, 27). A autêntica paz é a tranquilida-
patente que entre os demais povos da de da ordem, nos ensina Santo Agostinho.8 A
Antiguidade existia um só consenso hu- paz rejeitada por Nosso Senhor é a que se es-
mano pelo qual o mal reinava em todos tabelece quando as almas estão unidas no pe-
os ambientes, não havendo meios de os cado, pela cumplicidade que leva os perver-
bons realizarem obras relevantes para sos a se protegerem entre si e a viverem em
destruírem o império do demônio. Com aparente concórdia, numa falsa harmonia
base naquela pseudo-harmonia produzi- fundamentada no mal. Por vezes pode haver
da pelo pecado – uma unidade engano-
samente perfeita –, os poderes infernais
estabeleceram a coesão do mal. Era, por
assim dizer, proibido ser bom, e todos os
homens, com raríssimas exceções, adap-
tavam-se à mentalidade dominante. Até
os que praticavam o bem o faziam qua-
se sempre na surdina, sem se tornarem
conhecidos, sob pena de suas boas ações
serem aniquiladas com ímpeto avassalador, ca-
so elas adquirissem vulto significativo.

Ora, a vinda de Cristo ateou o fogo do amor
divino sobre a Terra e inaugurou o polo do bem,
com extraordinária força de expansão. Como
observa o padre Manuel de Tuya: “Este fogo
que Ele propaga na Terra exigirá que se tome
partido por Ele. Incendiará muitos, e por isso
Ele traz a ‘divisão’, não como um objetivo, mas
como uma consequência”.7 Uma radical separa-
ção torna-se inevitável, pois quem adere ao bem
restringe a ação de quem opta pelo mal e impe-
de o seu progresso, abrindo-se, desta forma, um
abismo que os distancia.

Jesus Se opõe à tranquilidade da desordem

51 “Vós pensais que eu vim trazer a paz

sobre a Terra? Pelo contrário, eu vos di-

go, vim trazer divisão”.

Agosto 2016 · Arautos do Evangelho      15

dissensões, originadas sempre em interesses ta conduta das almas virtuosas e pela corrente

pessoais e egoístas, enquanto no campo dos de bons por elas suscitada. Ao fundar a Igreja

princípios mantêm-se de pleno acordo. imortal, Nosso Senhor deu ao bem uma for-

Um adúltero, por exemplo, protege o cúm- ça divina capaz de desmascarar o erro dos que

plice para fruir de seu relacionamento ilíci- abraçam o pecado, de mostrar quão hediondo

to; os membros de uma quadrilha de salte- ele é e opor resistência ao seu domínio. A vir-

adores apoiam-se no momento de roubar, tude e o bem, até a vinda de Cristo, eram de

para se apropriarem mais facilmente do bem limitado alcance. Ele veio dar-lhes onipotência

alheio. A aparente paz reinante entre eles e transformá-los no fator decisivo da História.

é na verdade a conivência no mal, porque o A separação entre bons e maus tornou-se uma

princípio de união que os congrega é o pe- realidade muito mais vincada do que era an-

cado; estão mancomunados numa acomoda- tes, com uma peculiar característica: os bons,

ção de desordem, na qual não há a verdadeira quando são íntegros, sempre saem vitoriosos.

paz, por não haver conformidade com a or- Como sublinha o padre Raniero Cantalames-

dem. Poderíamos comparar tal situação ao sa, “Ele veio trazer a paz e a unidade no bem,

paradeiro de um infecto pântano onde se en- que conduz à vida eterna, e veio eliminar a fal-

contra todo tipo de germe de doença. Embo- sa paz e unidade, que apenas servem para ador-

Poderíamos ra as águas sejam calmas, não estão em or- mecer as consciências e levá-las à ruína”.9 A paz
comparar tal
situação ao dem, porque reina a podridão, proliferam os d’Ele é a paz da virtude, da boa ordenação das
paradeiro de
um infecto micróbios maléficos. A origem desse mútuo coisas e da prática de todos os mandamentos da
pântano onde
se encontra apoio está no fato de ser o homem dotado de Lei de Deus.
todo tipo
de germe vigoroso instinto de sociabilidade e, por isso, Quem abraça a virtude semeia divisão
de doença encontrar dificuldade em praticar o mal sozi-

nho, contrariando sua própria consciência. A 52 “Pois, daqui em diante, numa família
fim de romper a Lei de Deus, procura sempre
uma companhia que o ajude a amortecer su- de cinco pessoas, três ficarão divididas
as resistências internas: o bandido deseja que contra duas e duas contra três; 53 ficarão
outros o sigam na rapina; o impuro procura a divididos: o pai contra o filho e o filho
sociedade de outros impuros. contra o pai; a mãe contra a filha e a fi-

A divisão inaugurada por Jesus se cifra nu- lha contra a mãe; a sogra contra a nora

ma intransigente censura a esta postura de e a nora contra a sogra”.
cumplicidade no mal, feita, sobretudo, pela re- Ao mostrar como a divisão que trouxe-

ra possui uma aplicação

concreta, o Divino Mes-

tre anuncia a cisão no

cerne da família, a ins-

tituição mais cara e ar-

raigada ao coração hu-

mano. Nesta passagem

Jesus não alude às desa-

venças comuns existentes

com frequência entre os

Аимаина хикари (CC0 - 1.0) membros de um mesmo

lar, mas sim à rejeição da-

queles que O amam pelos

parentes mais próximos,

quando estes se fecham

ao convite da graça.

Não se trata, é claro, de

uma regra absoluta, pois,

Pântano formado pelo rio Dniepre, nas proximidades de Kiev caso todos estejam no ca-
minho da santidade, a fa-

16      Arautos do Evangelho · Agosto 2016

Gustavo Kralj

Detalhe do Pórtico do Juízo Final - Catedral de Notre-Dame, Paris

mília experimenta a verdadeira paz. Não obs- abandonar a firmeza de nossas convicções A separação
tante, se a chama do amor divino não penetra cristãs, as quais valem mais que qualquer vín- entre bons e
o conjunto, deixa de existir o principal fator de culo terreno. maus tornou-­
coesão, conforme ressalta o ensinamento de -se uma rea-
Santo Ambrósio: “Se é preciso dar a honra cor- IV – Acendei novamente lidade muito
respondente aos pais, quanto mais ao Criador o fogo do vosso amor! mais vincada
dos pais, a quem tu deves dar graças por teus do que era
próprios pais! E se eles não O reconhecem de Passados dois milênios desta arrebatadora antes, com
modo absoluto como a seu Pai, como podes tu pregação do Salvador, a Liturgia de hoje vem uma pecu-
reconhecê-los? Na realidade, Ele não diz que se repetir a conclamação feita por Ele, desta vez liar carac-
deva renunciar a tudo o que nos é caro, porém, voltada a cada um de nós. Com a mesma ca- terística...
que se deve dar a Deus o primeiro lugar. […] ridade empregada ao dirigir-Se a seus discí-
Não te é proibido amar teus pais, mas sim ante- pulos, Jesus convida a nos deixarmos consu-
pô-los a Deus; porque as coisas boas da nature- mir como uma chama de louvor e adoração a
za são dons do Senhor”.10 Ele, recebendo o fogo sagrado que viera tra-
zer ao mundo. Abramos nossas almas para es-
Como os que vivem em pecado têm graves ta combustão renovadora que queima os ego-
problemas de consciência, insatisfação e inse- ísmos, sana os problemas, eleva as mentes ao
gurança, desejam perverter ou destruir quem desejo das coisas celestes e transpõe as bar-
denuncia sua iniquidade. Este ímpeto maléfico reiras da falta de confiança, de fé e de ânimo.
não respeita nem sequer os laços da natureza, Basta uma leve correspondência de nossa par-
de si tão elevados e abençoados por Deus, co- te a este amor para que maravilhas se operem,
mo vemos no martírio de Santa Bárbara ou na o poder das trevas seja vencido e se consolide
perseguição sofrida por São Francisco de Assis, o polo do bem. E quando o vento contrário da
além do testemunho de incontáveis outros bem- divisão se abater sobre nós, tenhamos presen-
-aventurados. Neles cumpriu-se à risca a predi- te que Jesus já o anunciara e não nos negará as
ção feita neste versículo, pois foram persegui- forças para a vitória, pois os maus não podem
dos pelos próprios pais. triunfar sobre o fogo da integridade, da ino-
cência, da radicalidade no bem; numa palavra,
É esse fogo da caridade que Nosso Senhor da santidade.
veio trazer à Terra que desperta a inimizade
dos adeptos da pseudopaz, produz um com- Com quanto pesar constatamos que a hu-
bate interno na vida familiar e gera uma situ- manidade de nossos dias está precipitada
ação na qual a virtude da fortaleza deve ser num insondável abismo de pecado e, mais do
praticada, tornando inaceitável a união pro- que nunca, necessita de uma purificação. A
pagada pelos que desprezam a Deus. Não ca- gravidade das ofensas cometidas contra Deus
be dúvida de que, em certas ocasiões, deve- e os riscos de salvação eterna pelos quais pas-
mos praticar a prudência e lançar mão de sam as almas indicam a indiferença de mui-
todos os meios para obter de Deus a salvação tos, face à mensagem salvífica do Evangelho.
eterna de nossos parentes, mas tudo isso sem

Agosto 2016 · Arautos do Evangelho      17

Sérgio Miyazaki
Stephen Nami

À esquerda, Plinio Corrêa de Oliveira durante uma conferência, na década de 1990; à direita Imagem Peregrina
do Imaculado Coração de Maria

“A principal Nessa conjuntura cabe-nos fazer uma per- que Lhe trouxe o prêmio por seu fogo de amor:
alegria de gunta, e com ela um exame de consciência: a Encarnação da Segunda Pessoa da Santíssima
Nosso Senhor em que medida temos colaborado na reversão Trindade em seu seio.
durante a deste quadro? Qual tem sido nossa generosi-
vida terrena dade à vista de tal situação, cuja única solu- Conforme comenta o Prof. Plinio Corrêa
estava numa ção se encontra numa total entrega de nossa de Oliveira, “a principal alegria de Nosso Se-
lâmpada acesa vida a Cristo, para a qual devemos caminhar nhor durante a vida terrena estava numa lâm-
na casa de com santa sofreguidão? pada acesa na casa de Nazaré: o Coração Sa-
Nazaré” piencial e Imaculado de Maria, cujo amor
Um exemplo extraordinário de amor desape- excedia o de todos os homens que houve, há e
gado e cheio de fervor é-nos oferecido por Nos- haverá até o fim do mundo”.11 Peçamos à Vir-
sa Senhora. Ela estava consumida pela carida- gem Santíssima que Se digne transmitir-nos
de, preocupando-Se com a situação do mundo, uma centelha da caridade ardente de seu Co-
com o resgate das almas que se perdiam, dese- ração, a fim de que seu Divino Filho Se utili-
jando cooperar na conversão da humanidade. ze de nós como fiéis instrumentos na propa-
Ao Se considerar nada, ardia de zelo e foi, por gação deste fogo purificador por toda a face
esta razão, visitada pelo Arcanjo São Gabriel, da Terra. ²

1 A esse respeito, diz Garrigou- Jesús. Barcelona: Acervo, 1967, 7 TUYA, OP, Manuel de. Biblia
Lagrange: “São Tomás (C. v.II, p.195. Comentada. Evangelios. Madrid:
Gentes, IV, c.90; IIIa; Suppl., BAC, 1964, v.V, p.855.
q.70, a.3) e seus melhores 3 Cf. SÃO TOMÁS DE AQUINO,
comentadores admitem que op. cit., III, q.39, a.1. 8 Cf. SANTO AGOSTINHO. De
o fogo do inferno recebe de Civitate Dei. L.XIX, c.13, n.1.
Deus virtude de atormentar 4 MALDONADO, SJ, Juan de. In: Obras. Madrid: BAC, 1958,
os renegados” (GARRIGOU- Comentarios a los Cuatro v.XVI-XVII, p.1398.
LAGRANGE, OP, Réginald. O Evangelios. Evangelios de San
homem e a eternidade. Lisboa: Marcos y San Lucas. Madrid: 9 CANTALAMESSA, OFMCap,
Aster, 1959, p.153). Ver também BAC, 1956, v.II, p.609. Raniero. Echad las redes.
SÃO TOMÁS DE AQUINO. Reflexiones sobre los Evangelios.
Suma Teológica. Suppl., q.97, a.5, 5 FILLION, Louis-Claude. Vida de Ciclo C. Valencia: Edicep, 2003,
ad 3; a.6, ad 2. Nuestro Señor Jesucristo. Vida p.279.
pública. Madrid: Rialp, 2000, v.II,
2 GOMÁ Y TOMÁS, Isidro. El p.385. 10 SANTO AMBRÓSIO, op. cit.,
Evangelio explicado. Años primero L.VII, n.136, p.415.
y segundo de la vida pública de 6 SANTO AMBRÓSIO. Tratado
sobre el Evangelio de San Lucas. 11 CORRÊA DE OLIVEIRA, Plinio.
L.VII, n.133. In: Obras. Madrid: Conferência. São Paulo, 7 abr.
BAC, 1966, v.I, p.413. 1984.

18      Arautos do Evangelho · Agosto 2016

A felicidade:
onde encontrá-la?

Como a Eva Lavallière, o mundo procura fazer-nos creer que a
felicidade se encontra no prestígio ou nos bens materiais, e não
em Deus. A história desta rica e brilhante comediante francesa
nos mostra ser isto um lamentável equívoco.

Pe. Francisco Teixeira de Araújo, EP

N a Paris da Belle Époque, leites, tanto os lícitos como os peca- uma criada que lhe servia ao mesmo
para onde acorriam visi- minosos, que a então capital mun- tempo de amiga e dama de compa-
tantes do mundo intei- dial do prazer podia proporcionar. nhia.
ro à procura da “felici- E ela os sorvia a largos haustos.
dade” proporcionada pelos prazeres, Ali veio a graça divina bater à
uma jovem provinciana começou a Mas era de fato feliz? Ela mesma porta da alma dessa rica, famosa e
despontar em 1891 como estrela de responde. infeliz mulher cuja vida até então
primeira grandeza no universo das ar- decorrera como se Deus fosse quel-
tes cênicas: Eva Lavallière.1 Ao sacerdote que serviu de ins- la cosa con la quale o senza la quale
trumento para sua conversão, confi-
No auge da fama e da infelicidade denciou: “No meio dos meus maio- tutto rimane tale e quale – uma coisa
res triunfos, trazia da cena uma com a qual ou sem a qual o mundo
Comediante genial aos 25 anos indizível tristeza: chegava a cho- vai tal qual. Sob a direção do pároco
de idade, favorecida por notável be- rar”.2 Algum tempo depois, em con- de Chanceaux, padre Auguste-Dési-
leza e invejável voz, tornou-se lo- versa com uma amiga íntima, escan- ré Chasteigner, rememorou em pou-
go uma das mais famosas atrizes da carou o abismo de sua infelicidade: cos dias as verdades elementares
época. Magnatas das finanças, inte- “Sofri toda a vida e tão cruelmente da Fé e recuperou, por uma sincera
lectuais de prestígio, altas persona- que me vi muitas vezes obcecada pe- confissão, a vida sobrenatural. Pôde
lidades da política e da nobreza não la ideia do suicídio. Uma noite, em então – depois de tantos anos! – re-
perdiam ocasião de vê-la e aplaudi- Londres, quando havia sido mais ceber a Sagrada Eucaristia.
-la nos palcos da Cidade Luz. Ricos aplaudida que nunca, fui depois do
admiradores e “amigos” despejavam espetáculo até o parque do teatro, Naquela alma regenerada pe-
sobre ela uma chuva de dinheiro e que dava para o Tâmisa, e senti um la graça não havia mais lugar para a
de valiosos presentes. Amealhou as- tal horror pela vida que, inclinada à comediante. Quando o padre Chas-
sim considerável fortuna. Chegou-se beira do rio, pensei: ‘E se acabasse teigner lhe perguntou se ela pensava
a dizer que ela changeait de château com isto?’”.3 em retornar a Paris para reapresen-
comme de chapeau – mudava de cas- tar-se nos palcos, ouviu esta cate-
telo como de chapéu. A graça bate à porta de sua alma górica resposta: “Como? Tirou-me
da lama e quer jogar-me nela nova-
Nada lhe faltava, pois, segundo os Encontrava-se ela nesta situação mente? Nunca!”.4
critérios humanos, para ser feliz: à quando, em 1917, alugou um cas-
sua disposição estavam todos os de- telo na cidadezinha de Chanceaux- E não ficou em meras palavras
-sur-Choisille, onde se instalou com sua decisão: cortou todo relaciona-
mento com seus amigos, admirado-

Agosto 2016 · Arautos do Evangelho      19

res e colegas de outrora, a ponto de Em carta de fevereiro de 1918 ao Muito simples. A fonte da infeli-
nem sequer abrir as cartas que estes padre Chasteigner, escreveu: “Esta- cidade de Eva Lavallière estava no
lhe remetiam. mos banhadas de felicidade à ideia egocentrismo: quanto mais sua vida
de o rever, de rever a igrejinha em girava em torno de sua própria pes-
A mulher mais perfeitamente feliz que recebemos Nosso Senhor e obti- soa, de seus interesses, mais tristeza
vemos a conversão”.6 A um membro sentia. Quando, por fim, esquecida
Que mudança na vida da La- da Academia Francesa, que a entre- de si mesma, passou a viver em fun-
vallière! Em lugar dos prazeres e vistou em 1926, afirmou: “Sinto-me ção de Deus, pôde ela afirmar: “Sin-
aplausos de outrora, via-se cheia tão feliz! Não pode calcular quan- to-me tão feliz! Não pode calcular
de sofrimentos e humilhações. Às to sou feliz!”.7 Por fim, ao se despe- quanto sou feliz!”.
comodidades proporcionadas pe- dir do acadêmico, reforçou: “Diga
la imensa fortuna, sucederam-se as àqueles que falarem de mim, a todos Viver em função de Deus, eis a
privações da pobreza, pois, reser- os que me conhecem, diga que sou a única fonte de verdadeira alegria!
vando para sua subsistência uma mulher mais feliz… a mais perfeita- Nas primeiras linhas de suas famo-
renda insignificante, doara sua for- mente feliz…”.8 sas Confissões, Santo Agostinho – o
tuna para obras pias, ou diretamen- qual, como a Lavallière, encontrou a
te a pessoas necessitadas.5 Tudo isto Levou-a Deus da fugaz felicida- felicidade só depois de perder gran-
rematado por uma grave e doloro- de terrena para a eterna do Céu, em de parte da existência procurando-
sa enfermidade, ao que parece, en- 1929. -a onde não podia achá-la – sintetiza
viada pela Providência para acriso- esta realidade numa frase genial: “Ó
lar sua alma. Viver em função de Deus Deus, Vós nos criastes para Vós, e
nosso coração vagueará inquieto en-
Segundo os critérios humanos, Como explicar que, da infelicida- quanto não repousar em Vós”.9
deveria agora estar nadando num de a ponto de encontrar-se à beira
oceano de infelicidade. Entretanto, do suicídio, tenha se tornado ela em Portanto, quem quer levar uma
a realidade era bem outra, conforme pouco tempo a mulher “mais perfei- vida feliz deve se perguntar: “O que
ela mesma testemunha. tamente feliz”? preciso fazer para agradar a Deus,

COLEÇÃO

O inédito sobre os Evangelhos
C omposta de sete volumes, esta original obra
de Mons. João Scognamiglio Clá Dias, EP, em quatro línguas – português, italiano, espa-
tem o mérito de pôr a teologia ao alcance de nhol e inglês – com mais de 250 mil exemplares
todos, por meio de comentários aos Evangelhos publicados dos diversos volumes, a coleção tem
dos domingos e solenidades do ano. Publicada encontrado calorosa aceitação pela sua notável
utilidade exegética e pastoral.

Domingos do Advento, Natal, Preços válidos até 30/8/16
Quaresma e Páscoa – Solenidades
do Senhor no Tempo Comum:
Vol. I (ano A) – 462 págs. – R$ 47,55
Vol. III (ano B) – 464 págs. – R$ 37,65
Vol. V (ano C) – 448 págs. – R$ 46,25
Domingos do Tempo Comum
Vol. II (ano A) – 496 págs. – R$ 49,45
Vol. IV (ano B) – 495 págs. – R$ 39,65
Vol. VI (ano C) – 496 págs. – R$ 48,15
Solenidades
Vol. VII (anos A, B e C) – 432 págs. – R$ 44,90

A coleção O inédito sobre os Evangelhos é uma publicação da Libreria Editrice Vaticana

Encomende já sua coleção pela internet: evangelhocomentado.arautos.org
ou pelo telefone (11) 2971-9040

Volumes em formato brochura (157x230mm) com impressão colorida em papel couchê

20      Arautos do Evangelho · Agosto 2016

Fotos: Reprodução

Sob a direção do pároco, aquela rica, famosa e infeliz mulher rememorou em poucos dias as verdades
elementares da Fé e recuperou a vida sobrenatural

Acima à direita, Eva Lavallière fotografada em 1894 ou 1895 pelo Atelier Nadar; nas outras imagens, antigos cartões
postais mostram o castelo de Chanceaux-sur-Choisille e a igreja paroquial onde se deu sua conversão

meu Criador, meu princípio e últi- Explica Mons. João Scognamiglio Portanto, quem deseja de fato al-
mo fim?”. Clá Dias: “Sabemos que o centro cançar a felicidade deve procurá-la
de nossa vida e a fonte da alegria é no lugar certo: na prática fiel e amo-
O santo é um homem feliz Nosso Senhor Jesus Cristo; contudo, rosa dos Mandamentos.
as ilusões do mundo apontam para
Com sintético e agudo espíri- uma pseudofelicidade baseada em Quer ser feliz? Quer ser muito
to francês, São Francisco de Sales boa carreira, na aquisição de um va- feliz? Compartilhe sua alegria com
afirma: “Um santo triste é um triste lioso patrimônio, numa posição de os irmãos na Fé, ensinando-lhes
santo”. Ora, alegria e santidade são prestígio, num vantajoso casamen- o caminho da verdadeira felicida-
termos inseparáveis e até, em cer- to ou, talvez, em negócios lucrativos. de e ajudando-os a segui-lo. Nossos
to sentido, sinônimos; logo, pode-se Numa palavra, a felicidade para os bens temporais se reduzem quando
dizer: “Um santo infeliz é um santo que assim pensam está na matéria, os partilhamos com outros. Com os
inexistente”. Pois o santo é, por de- e não em Deus. Eis aí o lamentável bens espirituais, entretanto, ocorre
finição, um homem feliz, cumpriu a equívoco”.10 o contrário: quanto mais os distribu-
sua missão nesta Terra. ímos, mais ricos ficamos. ²

1 Eugénie Marie Pascaline Fe- sul da França. Mudou-se pa- 4 Idem, p.40. 9 SANTO AGOSTINHO. Con-
noglio, cognominada Eva ra Paris em 1889. 5 Cf. Idem, p.15. fissões. L.I, c.1, n.1.
Lavallière, nasceu na cidade 2 SKANSEN, Per. A conversão 6 Idem, p.131.
de Toulon em 1º de abril de de Eva Lavallière. Rio de Ja- 7 Idem, p.13. 10 CLÁ DIAS, EP, João Scog-
1866. Obteve seus primei- neiro: Civilização Brasileira, 8 Idem, p.17. namiglio. O caminho pa-
ros sucessos em 1886, numa 1934, p.59-60. ra a felicidade. In: Arau-
troupe de teatro ambulan- 3 Idem, p.60. tos do Evangelho. São Pau-
te que percorria a região do lo. Ano XII. N.144 (Dez.,
2013); p.12.

Agosto 2016 · Arautos do Evangelho      21

Nas pegadas do
Apóstolo da Índia

A distante e legendária Índia alberga vivas as recordações da
passagem de São Tomé por aquelas paragens. Ao percorrê-las
sentimos de algum modo o fogo evangelizador do ardoroso discípulo.

Gustavo Adolfo Kralj

A ntes de iniciar estas li- podemos encontrar nas Sagradas Es- no lugar dos pregos, e não introdu-
nhas, convidamos nos- crituras: “Eu sou o Caminho, a Ver- zir a minha mão no seu lado, não
sos leitores a fazer voar dade e a Vida; ninguém vem ao Pai acreditarei!” (Jo 20, 25).
sua imaginação até mea- senão por Mim. Se Me conhecêsseis,
dos do primeiro século de nossa era, também certamente conheceríeis E quando aparece novamen-
quando, por ação do Apóstolo São meu Pai; desde agora já O conheceis, te aos Apóstolos, agora estando ele
Tomé, nascia no continente asiático pois O tendes visto” (Jo 14, 6-7). presente, Nosso Senhor dirige-Se ao
uma das Igrejas mais antigas da Cris- incrédulo e o repreende com doçu-
tandade. E para melhor realizarmos Não havendo presenciado a pri- ra: “Introduz aqui o teu dedo, e vê
este exercício histórico, comecemos meira aparição do Senhor Ressus- as minhas mãos. Põe a tua mão no
por analisar quem era esse ardoroso citado, Tomé se negou a dar crédito meu lado. Não sejas incrédulo, mas
discípulo de Cristo. ao testemunho dos outros discípu- homem de fé” (Jo 20, 27). Vencido,
los: “Se não vir nas suas mãos o sinal o Apóstolo responde: “Meu Senhor
Apóstolo atirado e incrédulo dos pregos, e não puser o meu d­ edo e meu Deus!” (Jo 20, 28).

Homem de temperamento fran- Fotos: Gustavo Kralj
co, Tomé não vacilava em questio-
nar Jesus caso tivesse alguma dúvi- “Põe a tua mão no meu lado. Não sejas incrédulo,
da, o que, por sinal, dava ocasião a mas homem de fé”, disse Jesus a Tomé
respostas maravilhosas do Divino
Mestre. Dúvida de São Tomé – Vitral da Basílica de Mylapore (Índia)

Durante a Última Ceia, por exem-
plo, quando Nosso Senhor afirma
que irá preparar-lhes um lugar a fim
de que estivessem com Ele, pois co-
nheciam o caminho para onde iria,
não hesita em perguntar: “Senhor,
não sabemos para onde vais. Co-
mo podemos conhecer o caminho?”
(Jo 14, 5). E para atender o pedido
do fogoso discípulo, Jesus formula
uma das mais belas explicações teo-
lógicas a respeito de Si mesmo que

22      Arautos do Evangelho · Agosto 2016

Ide pelo mundo inteiro... O apostolado feito construído por São Tomé para o rei
por São Tomé deu frutos que Gondofares.5
Dias depois o Divino Mestre
parte para o Céu e, antes de fazê- perduram até hoje Gad, então, pede permissão pa-
-lo, transmite aos discípulos a sole- ra retornar ao mundo dos vivos pa-
ne missão: “Ide por todo o mundo e Quadro representando São Tomé ra comunicar ao irmão aquela ma-
pregai o Evangelho a toda criatura. Basílica de Mylapore (Índia) ravilha. Ressuscitando, Gad narra
Quem crer e for batizado será salvo, ao monarca a história do palácio
mas quem não crer será condenado” para encontrar-se com Gondofares construído por Tomé e o rei manda,
(Mc 16, 15). no prazo estabelecido. de imediato, soltar os prisioneiros,
aceita a nova Religião e junto com
Narra Eusébio de Cesareia1 que a O monarca o recebe enfurecido, seu irmão é batizado pelo Apóstolo.
Tomé coube viajar para a Partia, re- cobrando explicações por não haver
gião nordeste do atual Irã. Acres- nem vestígio do palácio encomen- Em seguida, Tomé se retira para
centam outras fontes que, de iní- dado. O Apóstolo responde que, de Kerala, na costa sudoeste da Índia,
cio, ele se mostrou algo reticente em fato, o palácio fora construído de onde permanece até o ano de 69.
empreender tal aventura, mas cer- acordo com os desígnios do rei. Mas Conforme as tradições locais, nes-
ta noite o Senhor lhe apareceu di- não era visível, porque se encontra- se período, Tomé fundou 7 igrejas e
zendo: “Não temas Tomé, vá para a va no Reino dos Céus. Indignado converteu 18 mil pessoas, que cons-
Índia e prega a Palavra, pois minha por se julgar ludibriado, Gondofa- tituíram as primeiras comunidades
graça estará contigo”.2 res manda amarrar Tomé e Habban católicas indianas, as quais perdu-
e lançá-los num caldeirão de azeite ram até nossos dias.
Por providência divina, naqueles fervendo. Espanto geral... Eles saem
dias um mercador chamado Habban ilesos do tormento!4 Mylapore e a pequena
fora enviado a Jerusalém por um rei gruta de São Tomé
da Índia, de nome Gondofares, a Não sabendo o que fazer, Gon-
fim de contratar um arquiteto para a dofares manda prendê-los numa Dirigiu-se ele, depois, para o les-
construção de um novo palácio. Lo- masmorra, enquanto cuida de uma te, para a costa de Coromandel, lo-
go Tomé entrou em contato com o tragédia familiar: a morte repenti- calizada no lendário Golfo de Ben-
mercador e partiu com ele para ter- na de seu irmão Gad. Este é leva- gala. Estabeleceu-se no reino de
ras indianas. do pelos Anjos ao Céu, onde eles Mylapore, nos arredores da atual
lhe mostram os mais fabulosos palá- Chennai, capital do estado de Ta-
Evangelizando a Índia cios. Um, em particular, se destaca mil Nadu. Ali se encontram santuá-
dos demais por sua beleza e rique- rios relacionados com a epopeia do
Conta a Tradição que o Após- za: suas paredes de ouro são orna- Apóstolo da Índia, como veremos
tolo e Habban chegaram ao porto das de diamantes e outras belíssimas adiante.
de Cranganore, no sudoeste da Ín- pedras preciosas. Gad deseja adqui-
dia, no ano de 52. Daí seguiram pa- ri-lo, mas o Anjo que o guardava Mylapore, hoje chamada San-
ra Mylapore, próximo de Madrás avisa que já tem dono: o palácio fora thome em homenagem ao Após-
– atual Chennai –, onde se apresen- tolo, foi cenário das pregações e
taram ao poderoso rei Gondofares. milagres deste varão de Deus. A po-
pularidade crescente do Santo des-
São Tomé aceita o encargo de pertou a inveja dos brâmanes e ou-
construir o novo palácio. Decidido tros representantes das seitas locais.
o local e o projeto arquitetônico, o Da hostilidade passaram à persegui-
Apóstolo garante que o palácio fi- ção física, tentando inclusive matar
cará pronto em seis meses. O rei lhe o Apóstolo. Para fugir de tais inves-
entrega grande soma de dinheiro tidas, São Tomé se escondia numa
como adiantamento e vai visitar ou- gruta das proximidades.
tras províncias de seus domínios.
Descoberto em seu esconderi-
Nosso Santo, por sua vez, em vez jo pelos brâmanes, o Apóstolo fo-
de iniciar os trabalhos da edificação ge milagrosamente, cavando com
contratada, decide distribuir o di- as próprias mãos uma saída na pa-
nheiro aos necessitados. E viaja por rede de rocha, conservada até hoje
várias regiões da Índia, segundo al- com as marcas atribuídas às mãos
guns chegando “até a China, para e aos pés do Santo. Acossado
pregar a Boa-nova”,3 e retornando

Agosto 2016 · Arautos do Evangelho      23

p­ elos perseguidores, Tomé se diri- O Monte de São Tomé O prodigioso fenômeno foi observa-
ge ao alto do monte, onde foi cer- do de 1558 até 1704.
cado e quase morto pelos inimigos Por ordem do Rajá Mehadevan,
da Fé. Mas ainda não havia chega- o corpo de São Tomé foi sepultado Ao lado do altar pode-se vene-
do sua hora. em Mylapore e, mais tarde, no lu- rar a pintura atribuída a São Lucas
gar do martírio foi construído o San- representando a Santíssima Virgem
Algum tempo depois, neste tuário do Monte de São Tomé, que Maria e o Menino Jesus, realizada
mesmo local, a 3 de julho de 72, o perdura até nossos dias e de onde se em vida de Nossa Senhora. A pre-
Apóstolo da Índia deparou-se com avista um cenário paradisíaco. ciosa relíquia fora levada à Índia por
um grupo de brâmanes que se diri- São Tomé. Conta a Tradição que es-
gia a um templo para oferecer sa- Tem-se acesso a ele por uma es- te Santo, pela grande devoção que
crifícios às divindades pagãs. Fu- cadaria de 150 degraus. Junto ao tinha à Mãe de Deus, pedira a São
riosos, quiseram obrigar o Santo a santuário se encontra a Capela de Lucas o retrato, antes de partir para
participar do culto. Tomé não ape- Nossa Senhora da Expectação, cons- aquelas longínquas terras.
nas se recusou a tal, mas traçou um truída pelos portugueses em 1547.
grande Sinal da Cruz em direção ao No altar principal da capela pode-se Encontra-se também no altar a re-
templo, destruindo-o assim, naque- venerar a Cruz talhada na rocha pe- líquia de um dedo de São Tomé, e
le instante. Indignados, os brâma- las mãos do Santo. De acordo com nas paredes laterais podem-se admi-
nes o mataram, ­transpassando-o os registros históricos da época, ela rar pinturas antiquíssimas dos doze
com uma lança. costumava suar sangue e água todos Apóstolos, segundo as tradições do ri-
os dias 18 de dezembro de cada ano. to siríaco, de autoria de Pedro Uscan.

Fotos: Gustavo Kralj

Monte de São Tomé – Junto ao lugar onde o Apóstolo foi martirizado, os portugueses erigiram a capela de
Nossa Senhora da Expectação. Nela, veneram-se um quadro atribuído a São Lucas, a Cruz entalhada na pedra

por São Tomé e a relíquia do dedo do Santo. Pode-se visitar também a gruta onde ele costumava rezar

24      Arautos do Evangelho · Agosto 2016

Fotos: Gustavo Kralj

Basílica de Mylapore – No interior de um belo templo neogótico veneram-se hoje os restos mortais do Santo e
conserva-se, no museu anexo, a ponta da lança com a qual ele foi morto

Imponente basílica em gar o jazigo de um Apóstolo. São registros de peregrinos que estive-
honra do Apóstolo elas: a de São Pedro, em Roma; a de ram na basílica, incluindo o famoso
Santiago, em Compostela, na Espa- Marco Polo, em 1292. A construção
Pouco tempo depois da morte nha; além desta, a de São Tomé, em n­ eogótica atual data de meados do
de São Tomé, a população estava Mylapore, Índia. século XIX.
alvoroçada: Vijayan, filho do rajá,
se encontrava em perigo de morte. Depois disso, ao longo dos sécu- Muito simbolicamente confluem
Todo esforço médico parecia inútil. los, o túmulo de São Tomé foi aber- na basílica de Mylapore as pegadas
Mehadevan decide, então, tomar o to apenas em três ocasiões: entre de dois insignes missionários, gigan-
príncipe moribundo e levá-lo jun- 1222 e 1225, quando as relíquias do tes da Fé: São Tomé e São Francisco
to ao túmulo do Apóstolo da Índia. Apóstolo foram enviadas a Ortona, Xavier. Ambos, a seu tempo, marca-
Ao se abrir a sepultura, o jovem é na Itália; em 1523, para a reconstru- ram a legendária Índia e a História
curado! ção da basílica, empreendida pelo da Igreja no Oriente com o perfume
rei de Portugal; e em 1729, quando de sua santidade, a ousadia de suas
Em homenagem ao Santo foi eri- uma luz celestial emanava do jazi- metas e seu incomparável zelo apos-
gida no local uma imponente basíli- go do Santo. E desde o século VI há tólico. ²
ca, uma das três no mundo a alber-

1 Cf. EUSÉBIO DE CESA- 2 BHASKARAN, Vijayan P. tor segue os Atos de Tomé, 3 Idem, p.48.
REIA. História Eclesiásti- The Legacy of St Thomas, um escrito apócrifo que des- 4 Cf. Idem, p.56-57.
ca. L.III, c.1, n.1. São Paulo: Apostle of India. 2.ed. Mum- creve, com numerosos deta- 5 Cf. Idem, p.57.
Paulus, 2000, p.113. bai: St. Pauls, 2012, p.43. lhes, a missão evangelizado-
Neste e em alguns outros ra deste Apóstolo.
lugares da narração, o au-

Agosto 2016 · Arautos do Evangelho      25

99º aniversário das aparições em Fátima

Uma mensagem
para os nossos dias

e no Antigo Testamento Deus espargindo luz mais clara e intensa Entre 15 e 20 mil pessoas estavam
indicou os rumos a seu po- que um copo de cristal cheio de água presentes no dia 13 de setembro. E na
vo através dos Profetas, no cristalina, atravessado pelos raios do sexta e última aparição, em 13 de ou-
século XX, Ele Se serviu de sua pró- Sol mais ardente”. Ela pediu que os tubro, os que acorreram para a Co-
pria Mãe, aparecida em Fátima, pa- pastorzinhos voltassem seis meses va da Iria somavam entre 50 a 70 mil
ra anunciar ao mundo os desígnios da seguidos no mesmo dia 13 de cada pessoas. Foi então que o Sol bailou no
Providência. mês. ar, fazendo todos exclamar: “Ó mila-
gre! As crianças tinham razão!”.
Seis aparições consecutivas Na segunda aparição já estavam
presentes cerca de 50 curiosos. Nossa A sétima aparição
Seriedade é o que transparecia Senhora disse que, em breve, Francis-
no celestial rosto da Virgem Santís- co e Jacinta iriam para o Céu, mas Lú- A Santíssima Virgem anunciou
sima, quando Lúcia, de apenas 10 cia teria de ficar para difundir a devo- que ainda apareceria uma sétima
anos, Francisco e Jacinta, com 9 e 7 ção ao Imaculado Coração de Maria. vez, e isto ainda não aconteceu.
anos, respectivamente, tiveram a pri-
meira aparição, no dia 13 de maio de Um segredo com três partes Virá Ela para nos fazer uma últi-
1917. Segundo a própria Irmã Lú- ma e suprema advertência à conver-
cia, era “uma Senhora vestida toda Foi na terceira aparição, de 13 de são antes do início dos castigos? Apa-
de branco, mais brilhante que o Sol, julho, que Nossa Senhora lhes reve- recerá, finalizados estes, para declarar
lou as três partes do segredo: a visão o triunfo do seu Imaculado Coração?
do inferno; o anúncio do castigo e os São perguntas que cada vez mais pes-
meios para evitá-lo; e a famosa tercei- soas se fazem à medida que se aproxi-
ra parte, sobre cujo conteúdo e signi- ma o centenário das Aparições.
ficado muito se debate hoje em dia.
Não é, pois, de estranhar o fer-
Em agosto, a aparição se deu no vor mariano que os arautos puderam
dia 15, depois de libertos, pois o Ad- constatar nos corações durante ceri-
ministrador de Ourém havia seques- mônias por eles organizadas no últi-
trado os pequenos para tentar arran- mo 13 de maio. Vejamos fotos de al-
car deles o segredo. gumas delas. ²

César Galarza
Javier García

Raul de Corral
República Dominicana Nicarágua Uruguai

Em união com os pastores – Na Catedral Primaz da América, a Missa foi presidida pelo Núncio Apostólico em Santo
Domingo, Dom Jude Thaddeus Okolo. Em Manágua foi também o Núncio, Dom Fortunatus Nwachukwu, que celebrou a

Eucaristia. E em Montevidéu a Celebração na Igreja do Carmo foi presidida pelo Arcebispo, Cardeal Daniel Sturla.

26      Arautos do Evangelho · Agosto 2016

Fernando Eras/ Jonathan Saavedra Equador Peru Kengi Igei
Costa Rica Estados Unidos
Victor Serrano Porras Cary Lozano

Miguel Ángel Galán Paraguai Colômbia José Bernardo

Nos mais diversos países – Entre as celebrações em honra da Virgem de Fátima realizadas por todo o mundo
destacamos, nas fotos acima, as realizadas na Catedral de Guayaquil (Equador), na Paróquia do Santíssimo Nome de
Jesus (Peru), na Paróquia São Vicente Ferrer em Moravia (Costa Rica), na Igreja do Bom Pastor em Miami (Estados

Unidos), na Catedral Castrense de Assunção (Paraguai) e na Paróquia Santa Gertrudes em Medellín (Colômbia).

David Ayusso Joinville - SC Campos dos Goytacazes - RJ Felipe da Silva França

Por todo o Brasil – Nas cidades do Brasil onde os Arautos atuam foi comemorado com solenidade o 13 de
maio. Em Joinville, mais de trezentas pessoas se consagraram a Nossa Senhora na Catedral. Em Campos dos
Goytacazes, devotos encheram o Santuário de Nossa Senhora do Perpétuo Socorro para prestar homenagem a Ela.

Agosto 2016 · Arautos do Evangelho      27

1 Leonardo Resende

Leonardo Resende Lucas Cordeiro
Roberto Cochorowski
23 4

Consagrações em Pernambuco e Rio de Janeiro

No dia do Imaculado Coração de Maria, oitenta pes- sagração à Santíssima Virgem (foto 2). No mesmo dia, cin-
soas se consagraram a Nossa Senhora segundo o mé- quenta fiéis da Paróquia São João Batista no distrito de
todo de São Luís Maria Grignion de Montfort na casa dos Laranjais (RJ) realizaram sua consagração, sendo acompa-
Arautos em Recife (foto 1). No final da Celebração Euca- nhados por seu pároco, Pe. João Tadeu Tavares de Olivei-
rística, presidida pelo Pe. Celio Luís Casale, EP, cada um ra (foto 3). E na Paróquia de Nossa Senhora de Fátima, em
dos fiéis se dirigiu à Imagem do Imaculado Coração de Ma- Macaé (RJ), um grupo de fiéis se consagrou na Santa Missa
ria, tendo ao pescoço uma simbólica corrente que pendia presidida pelo Vigário Episcopal Litoral, Pe. Gelcimar Peti-
das mãos da imagem, e pronunciou uma fórmula de con- natti Celeste (foto 4). 

Fotos: Matheus Rambo

Campo Grande – No dia 28 de maio foi realizada na Paróquia Maria Mãe da Igreja uma “Tarde de Louvor com
Maria”. O evento começou com carreata, seguido de palestra, apresentação musical, bênção e imposição de

escapulários, Santa Missa, Coroação da Imagem Peregrina e procissão luminosa.

28      Arautos do Evangelho · Agosto 2016

Recepções de hábito

Seguindo
   o exemplo do
Fundador

1

A traídos pelo carisma e espiritualidade do Fundador, recepção de hábito tiveram lugar no mês de abril, na Ba-
Mons. João Scognamiglio Clá Dias, EP, o número sílica Nossa Senhora do Rosário de Fátima, em Caiei-
de jovens que desejam receber o hábito dos Arautos do ras (SP). No dia 22, as recipiendárias foram 36 jovens do
Evangelho aumenta a cada dia. Esse momento é, para setor feminino (foto 4) e no dia 25, 81 rapazes do setor
eles, um marco importantíssimo da vida, pois formaliza masculino (foto 3). Após serem revestidos do escapulá-
o desejo de se consagrarem por inteiro ao serviço da Vir- rio, e receberem o terço e a corrente, os jovens se aproxi-
gem Santíssima no seio dessa Associação Privada de Fi- mavam de seu Fundador para receber umas breves pala-
éis de Direito Pontifício. As duas últimas cerimônias de vras de estímulo e conselho (fotos 1 e 2). ²

João Paulo Rodrigues 23 João Paulo Rodrigues

João Paulo Rodrigues 4 Leandro Souza

Agosto 2016 · Arautos do Evangelho      29

Mauro Taniguchi Jano Aracena

Peru – No dia 17 de maio, participantes da campanha “Salvadme Reina por la Gracia de Jesús” e do Apostolado Fotos: Victor Serrano Porras
do Oratório lotaram a Catedral de Chiclayo para participar da Solene Eucaristia presidida pelo Bispo Diocesano

Dom Robert Prevost, OSA, e concelebrada pelo Pe. José Mário da Silva, EP.

Argentina – De 20 a 26 de junho, foi realizada uma Missão Mariana em Santa Elena, província de Entre Ríos.
Todos os colégios do município, somando cerca de 4,5 mil alunos, foram visitados pela Imagem Peregrina (direita).

Após a Missa de encerramento da Missão, houve uma concorrida procissão pelas ruas da cidade (esquerda).

Costa Rica – Em junho, os Arautos do Evangelho visitaram a Escola Santo Antônio de Pádua, em Curridabat, San
José (esquerda) e a Escola Santa Margarida, no distrito de Santo Antônio de Belém (direita). Em ambos os colégios

houve palestra de formação mariana, apresentação musical e uma encenação teatral.

30      Arautos do Evangelho · Agosto 2016

Ruanda: 10 anos de Apostolado do Oratório

12
3 45

67 Fotos: Jorge Martínez

C onvidados pelo Bispo de Butare, Dom Philippe nários visitaram também igrejas da redondeza, como a de
Rukamba, e pelo Superior da Comunidade Salesia- Nyumba, onde 200 alunos de ensino secundário participa-
na de Rango, Pe. Katanga Wakanda Raphaël, um con- ram da Santa Missa e veneraram a Imagem Peregrina do
junto de missionários arautos do Canadá, liderados pe- Imaculado Coração de Maria (fotos 3 e 4).
lo Pe. Juan Pablo Merizalde Escallón, EP, viajaram até
Ruanda a fim de participar das festividades pelo 10º A seguir, a comitiva partiu para Byumba, ao norte do
aniversário do Apostolado do Oratório nesse país. país. Ali, os doentes do hospital receberam, no dia 11, a vi-
sita confortadora da sagrada Imagem (foto 5). Nesse mes-
Elas tiveram início em 5 de junho na paróquia de Ran- mo dia, dois mil jovens se reuniram para honrar a Nossa
go, primeira de Ruanda a acolher esse apostolado. Após Senhora na Catedral (foto 6), e no dia seguinte o pároco,
uma longa procissão, cerca 1,2 mil fiéis se reuniram pa- Pe. Emanuel, coroou a Imagem da Virgem Santíssima (fo-
ra participar da Missa de Ação de Graças presidida pelo to 7), antes de fazer entrega dos primeiros oratórios que
Bispo Diocesano, Dom Rukamba (fotos 1 e 2). Os misio- vão circular nessa região. ²

Agosto 2016 · Arautos do Evangelho      31

Beato Pier Giorgio Frassati

Uma alma feita para

Ascensão ao pico Lumella, em 7/6/1925 so ali no topo, a mais de 2000 m de dadeiros heróis os homens de gran-
altitude, misturando-se com as vo- de fé.
A alma pura e idealista zes de seus companheiros, os quais,
de Pier Giorgio nunca reunidos a seu lado, respondiam às Terminada a oração, iniciou-se a
se rebaixou aos vales Ave-Marias. Pouco a pouco, outros ruidosa descida: ajustados os esquis,
da mediocridade ou aos excursionistas, a cujos ouvidos che- os jovens deslizavam céleres pela la-
abismos do pecado. Com gava o som daquela prece sincera, deira branca e gelada, em meio a gri-
sua morte prematura se uniam suas vozes ao fervoroso coro. tos e risos animados. Embora par-
tornou um estandarte vivo ticipasse do contentamento geral e
da juventude cristã. Rosário rezado nas alturas! Na- gostasse de enfrentar com galhar-
da causava tanto júbilo ao coração dia as situações de risco que o esqui
“A ve Maria, piena di grazia, idealista e mariano de Pier Giorgio costuma oferecer, Pier Giorgio te-
il Signore è con te, Tu sei Frassati, o robusto estudante de en- ria preferido ficar lá em cima: “Ca-
benedetta fra le donne...” genharia que entoava a oração. No da vez mais forte me é a vontade de
A voz enérgica do vigor de seus 22 anos de idade, ele escalar os cimos, de atingir os mais
jovem alpinista ecoava pelas encos- se destacava entre os colegas: era o altos píncaros e sentir a pureza des-
tas do Pequeno São Bernardo, im- mais arrojado, o mais alegre e dis- ta alegria que a montanha nos dá”,1
ponente monte dos Alpes Graios, posto a sacrificar-se pelos demais. escreveu certa feita a um amigo. E a
na fronteira da Itália com a Fran- Assim como obstáculo algum da na- outro: “Quisera, não fossem os meus
ça. Com o rosário na mão direita e tureza o intimidava e nenhuma con- estudos, passar dias inteiros na ser-
os bastões de esqui na esquerda, ele trariedade abatia seu ânimo, nunca ra, para contemplar, nessa atmosfera
contemplava o panorama coberto se lhe apresentava em vão uma oca- pura, as grandes obras do Criador”.2
pela neve. O vento soprava genero- sião de fazer o bem ao próximo. E,
para ele, isto significava dar bom Quem desejasse um ponto de
exemplo, incentivar às práticas re- partida para analisar com acerto a
ligiosas e criar as condições para a trajetória deste jovem Beato, pode-
virtude triunfar sobre o vício nas al- ria sem dúvida valer-se de iguais pa-
mas de seus amigos. lavras. Sim, pois sua alma ansiava
pelos mais altos píncaros e encon-
Desejo de escalar os cimos trou sua alegria na sublime “monta-
nha que Deus escolheu para morar”
Era o que fazia Pier Giorgio na- (Sl 67, 17), isto é, a Santa Igreja.
quela manhã de fevereiro, um fe-
riado do carnaval de 1923, no cume “Verso l’alto – Às alturas!”3 é a fór-
do Pequeno São Bernardo. Fora ele mula lapidar que ele registrou numa
quem promovera aquele passeio fotografia tirada durante a ascensão
às montanhas, visando proteger os ao Pico Lunella, em 7 de junho de
companheiros dos perigos do ócio e 1925, menos de um mês antes de par-
da cidade, e agora os levava a recitar tir rumo à Pátria Celeste. E é esta a
o Rosário, ciente de que só são ver- principal lição oferecida por sua bre-
ve existência à juventude hodierna:

32      Arautos do Evangelho · Agosto 2016

os mais altos píncaros Simo Räsänen (CC by-sa 3.0)

Ir. Isabel Cristina Lins Brandão Veas, EP

para alcançar a felicidade são neces- para a próxima prova), vais-te tor- Um caráter de granito
sárias a coragem e a perseverança, a nar um homem inútil para os outros
fim de estar a todo momento subindo e para ti mesmo”.4 O pendor natural à piedade, alia-
o pico da perfeição, com a mente e o do à pertinácia de bom piemontês,
coração elevados às alturas da Fé! Quanta razão tinha a humilde fez desabrochar de modo admirá-
serviçal do escritório paterno quan- vel a fé de Pier Giorgio ao entrar na
Família abastada, do, ao ouvir o patrão deblaterar fase das primeiras grandes lutas da
mas carente de fé contra a religiosidade do filho e acu- vida: a adolescência. Ciente de sua
sá-lo de desdourar-lhe a fama nos fraqueza, mas decidido a não ceder
Os sinos da Catedral de Turim re- círculos mundanos, exclamou: às solicitações do pecado, apegou-
picavam ao Glória da Ressurreição -se ao único instrumento capaz de
quando nasceu Pier Giorgio Fras- — Senhor, ainda vereis que ele lhe obter a vitória: a oração. Seguro
sati, a 6 de abril de 1901, Sábado de terá mais fama do que vós! de que só teria forças para perseve-
Aleluia. Para seus familiares, nada rar na Fé se rezasse muito e pudes-
significava a coincidência de datas: Adelaide Ametis, a mãe, possuía se contar com as orações de outras
naquele lar abastado, brilhante nas uma ideia bastante distorcida do Ca- pessoas, escreveu a um colega: “Ro-
altas esferas sociais, a Religião se re- tolicismo, considerando-o como um go-te que rezes um pouco por mim,
duzia a meras exterioridades. conjunto de regras cujo cumprimen- para que Deus me dê uma vontade
to era suficiente para salvar-se. Ape- férrea que não se dobre e não frus-
O pai, Alfredo Frassati, proprie- sar de haver ensinado Pier Giorgio e tre seus projetos”.5
tário do jornal La Stampa, exerceria sua irmã a se comportarem na igre-
mais tarde cargos de grande proje- ja e a serem exímios observantes dos Aliás, era esta a nota saliente de
ção política, assumindo uma cadei- dias de preceito, não se pode dizer seu modo de ser. Um de seus confes-
ra no Senado, em 1913, e em 1920, que fez o mesmo quanto à devoção sores chegou a defini-lo como “ca-
a Embaixada italiana em Berlim. Es- a Jesus e a Maria. ráter de granito”,6 recordando que
perava ver o filho seguir-lhe os pas- ­suas resoluções de retiro poderiam
sos e não escondeu sua desapro- Tal carência não impediu, porém, resumir-se nas palavras “fortaleza
vação quando percebeu que ele se que o gosto pela oração despontasse de alma na luta contra si e contra o
tornava mais e mais piedoso e ati- no menino desde tenra idade. Certo mundo”.7 E ele realizou eximiamen-
vo nos meios católicos, não nutria dia, por exemplo, ele a deixou sur- te tais propósitos, dando mostras de
a mínima apetência por adquirir fa- presa ao colher uma rosa do jardim um viril e sereno domínio do espíri-
ma e fortuna, nem se interessava pe- e entregá-la a uma irmã leiga que se to sobre os sentimentos, nas mais di-
los assuntos de sua profissão. Quis, dirigia a uma capela, pedindo-lhe versas situações.
então, a todo custo dissuadi-lo da- para levá-la a Jesus, de sua parte.
quelas vias e chegou a escrever-lhe Em outra ocasião, quando assistia à Uma vez, quando saía da igreja
o seguinte bilhete: “Agindo sempre Missa junto a algumas crianças, uma com o terço na mão, um de seus co-
irrefletidamente nas coisas que pa- menina lhe fez uma pergunta incon- nhecidos, com intenção de ridicula-
ra ti deveriam ser importantíssimas veniente. Com fisionomia séria ele a rizá-lo, gritou de forma a ser ouvido
(como, no caso concreto, era não es- repreendeu, declarando que nunca pelos transeuntes:
quecer o livro que te deveria servir mais iria à igreja em sua companhia,
pois não queria ter importunadores — Ei, Pier Giorgio, você ficou ca-
a seu lado ao conversar com Jesus. rola?

Agosto 2016 · Arautos do Evangelho      33

Reprodução ativo nos meios católicos, ele des- condição social se atreveria a rea-
conhecia o defeito que faz minguar lizar. Devido à total despretensão
O pai era proprietário do jornal tantas boas obras e tolhe as almas em tais empreendimentos, nem se-
“La Stampa” e exerceu cargos de fracas: o respeito humano. Os que quer os pais desconfiavam da mag-
tiveram a ventura de acompanhá- nanimidade de seus atos. À notícia
grande projeção política -lo nas excursões às montanhas ou de sua morte, uma multidão daque-
mesmo no dia a dia dos estudos e les protegidos veio prestar-lhe as
Aos 12 anos, das atividades apostólicas, testemu- últimas homenagens, aclamando-o
com seu pai, Alfredo nharam a integridade de sua admi- como santo e venerando-lhe o cor-
rável compostura, piedade vivíssima po como relíquia.
— Não. Apenas continuo a ser e devoção filial, manifestadas em
cristão – respondeu tranquilamente. todos os lugares, com límpida coe- No discurso por ele proferido
rência. em junho de 1923, quando da bên-
Em outra circunstância, tomou ção da bandeira do círculo Giovane
a ousada iniciativa de rasgar alguns A partir dos 12 anos, inscreveu- ­Pollone, encontramos uma clara ex-
cartazes que desabonavam o diretor -se em várias associações religio- pressão de seu nobre ideal de fazer
da universidade em que estudava, os sas, dentre as quais o Apostolado da bem às almas, ao distinguir três tipos
quais haviam sido colados no mural Oração, a Companhia do Santíssi- de apostolado a que um jovem cató-
do egrégio estabelecimento de en- mo Sacramento, a Liga Eucarística, lico está obrigado: “Antes de tudo, o
sino por estudantes rebeldes. Estes a Congregação Mariana e as Con- do exemplo: temos o dever de regu-
logo o cercaram, ameaçando-o de ferências de São Vicente de Paulo. lar toda a nossa vida pelas leis mo-
represálias e intimando-o a reparar Ademais, como membro da Asso- rais cristãs. Depois, o da caridade:
aquela pretensa injúria à liberdade ciação de Jovens Adoradores No- devemos procurar os sofredores pa-
de pensamento. Imperturbável, re- turnos, da Igreja de Santa Maria di ra confortá-los, os desgraçados, pa-
plicou-lhes Pier Giorgio que o erro Piazza, em Turim, edificou muitos ra dizer-lhes uma boa palavra, por-
e a calúnia não têm direito a liberda- religiosos e sacerdotes que diver- que a Religião Católica baseia-se na
de alguma, e estava disposto a des- sas vezes o viram chegar por volta caridade, que não é outra coisa se-
truir todos os cartazes semelhantes da meia-noite, ajoelhar-se diante do não o perfeito Amor. […] Finalmen-
que encontrasse. A força de sua con- ostensório e permanecer nesta posi- te, o apostolado de persuasão, um
vicção teve efeito imediato: os revol- ção até as quatro horas da manhã, dos mais belos e necessários; apro-
tosos se calaram e foram embora. em profundo recolhimento. Coube- ximai, ó jovens, vossos companhei-
-lhe também o mérito de ter funda- ros de trabalho que vivem longe da
Intensa atividade nos do um círculo de juventude católica, Igreja e passam as horas livres não
meios católicos ao qual denominou Milites Mariæ, e em divertimentos sadios, mas no ví-
foi admitido como terciário domini- cio. Persuadi estes infelizes a segui-
Com tal têmpera de alma, decer- cano, em maio de 1922. rem as vias de Deus, entremeadas
to nosso Beato seria mártir se vives- de muitos espinhos, como também
se em tempo de perseguição san- Era ele sempre um zeloso após- de muitas rosas”.8
grenta, pois, além de ­intensamente tolo junto aos que viviam afastados
da Fé. Pode-se afirmar que, embo- Alegria que só a Fé pode dar
ra leigo, tinha um coração sacerdo-
tal. Com o intuito de aproximar da Outro aspecto desta alma de es-
Igreja as ovelhas desgarradas, co- col precisa ser ressaltado: sua pro-
meçou a levar auxílio material às funda alegria. Até quando atraves-
famílias pobres da cidade e visitar sava dolorosas provações – como se
os doentes em suas casas, gesto de pode conhecer pelo pouco que con-
caridade que nenhum rapaz de sua tou aos amigos ou registrou em suas

34      Arautos do Evangelho · Agosto 2016

Simo Räsänen (CC by-sa 3.0)

cartas, pois, por humildade, evita- […]. Portanto, é preciso banir toda Luciana Frassati
va falar de si –, mantinha a fisiono- melancolia, a qual só pode existir
mia alegre, iluminada pela cativante quando se perde a Fé”.10 “A cada dia compreendo melhor
luz que a castidade acende na al- a graça de ser católico; pobres
ma. Com palavras incisivas, em car- Estandarte vivo da desgraçados os que não têm Fé”
ta à sua irmã, indicou a causa de seu juventude cristã
ânimo: “Tu me perguntas se estou Pier Giorgio, semanas antes de falecer
alegre; como poderia não estar? En- Em meados de 1925, Pier Gior-
quanto a Fé me der forças, estarei gio foi atacado por uma fulminan- dadeira multidão, foi a primeira glo-
alegre. Um católico não pode não te poliomielite. Terríveis tormen- rificação das virtudes de quem se
estar alegre; a tristeza deve ser algo tos físicos e morais desabaram sobre erguera em pouco tempo como mo-
proibido à alma dos católicos. Dor ele, no breve intervalo de tempo que delo de vida para os jovens. Não em
não significa tristeza: esta é uma mediou entre os primeiros sinto- vão proclama seu epitáfio: “Com 24
doença pior do que qualquer outra, mas da doença e a morte. Como na- anos de idade – nas vésperas de ser
e quase sempre produzida pelo ate- queles dias sua avó entrara em ago- diplomado engenheiro, belo, robus-
ísmo. O fim para o qual fomos cria- nia e falecera, ninguém da família to, alegre e estimado – viu chegar de
dos nos indica o caminho que, em- se deu conta da gravidade do estado improviso o seu último dia. E, co-
bora semeado de espinhos, não é de saúde do rapaz. Sozinho em seu mo fazia em todas as circunstâncias,
triste: é alegre, mesmo em meio à quarto, sofria dores atrozes e cons- saudou-o serenamente como o mais
dor”.9 tatava o tremendo avanço da molés- belo da sua existência. Confessou a
tia que paulatinamente lhe parali- Fé pela pureza de vida e pelas obras
Poucos dias depois, ele reafir- sava o corpo. Com heroico espírito de caridade. A morte o ergueu co-
maria tal ideia, desta vez em mis- de sacrifício, não soltou uma única mo um estandarte vivo da juventu-
siva a um amigo: “a cada dia com- queixa, a ponto de os familiares se de cristã”.11 ²
preendo melhor a graça de ser inteirarem de sua situação só quan-
católico. Pobres desgraçados os do já era tarde demais.
que não têm Fé: viver sem Fé, sem
um patrimônio a defender, sem Na sexta-feira, 3 de julho, fez sua
sustentar a verdade numa luta con- derradeira Confissão e recebeu a
tínua, não é viver, mas arrastar-se Sagrada Eucaristia. Na madrugada
pela vida. Nunca devemos arras- do sábado recebeu a Unção dos En-
tar-nos pela vida, e sim viver, por- fermos e, à noite, entregou sua alma
que ainda em meio às desilusões, a Deus.
precisamos nos lembrar de que so-
mos os únicos a possuir a verdade A notícia de sua morte causou
grande comoção em Turim. Seu se-
pultamento, acompanhado por ver-

1 BEATO PIER GIORGIO 4 SICCARDI, Cristina. Pier 7 Idem, ibidem. 10 BEATO PIER GIORGIO
FRASSATI. Carta a um Giorgio Frassati. In: Com- FRASSATI. Carta a Isido-
amigo, apud MARMOI- munio. Milano. N.186 8 FRASSATI, Luciana. Mio fra- ro Bonini, de 27/2/1925. In:
TON, SJ, Victor. Pedro Jor- (Nov.-Dez., 2002); p.50. tello Pier Giorgio. La fede. SPIAZZI, OP, Raimondo.
ge Frassati. Rio de Janeiro: Milano: Paoline, 2004, p.14. Beato Pier Giorgio Frassati,
Cruzada da Boa Imprensa, 5 BEATO PIER GIORGIO terziario domenicano. 3.ed.
1935, p.142. FRASSATI, apud FRAS- 9 BEATO PIER GIORGIO Bologna: Studio Domenica-
SATI, Luciana. Pier Giorgio FRASSATI. Carta a sua ir- no, 2001, p.85.
2 Idem, ibidem. Frassati. Los días de su vida. mã Luciana Frassati, de
3 CASALEGNO, Carla. Pier Madrid: BAC, 1996, p.171. 14/2/1925, apud FRASSATI, 11 MARMOITON, op. cit.,
Pier Giorgio Frassati. Los dí- p.221.
Giorgio Frassati. Cantalupa: 6 MARMOITON, op. cit., p.87. as de su vida, op. cit., p.160.
Effatà, 2005, p.21.

Agosto 2016 · Arautos do Evangelho      35

Você sabia...

Por que na Missa não se diz “amém” no final do Pai-Nosso?

O “amém”, que expressa a adesão do fiel ao que aca- mantendo as mãos estendidas, prossegue: “Livrai-nos
ba de ser proclamado, conclui quase todas as pre- de todos os males, ó Pai, e dai-nos hoje a vossa paz.
ces cristãs, inclusive o Pai-Nosso. Ora, quando re- Ajudados pela vossa misericórdia, sejamos sempre li-
zada dentro da Santa Missa, a chamada Oração Dominical vres do pecado e protegidos de todos os perigos, en-
não termina com tal palavra. quanto, vivendo a esperança, aguardamos a vinda do
Por que está ela excluída neste caso concreto? Pelo Cristo Salvador”. E os fiéis respondem com a antiquís-
fato de termos, logo a seguir, um embolismo, isto é, um sima aclamação, utilizada desde os primeiros tempos
acréscimo, que desenvolve a última frase da oração: da Igreja: “Vosso é o reino, o poder e a glória para
“livrai-nos do mal”. Após pronunciá-la, o ­celebrante, sempre”.

Qual o sacrário mais “elevado” do universo?

U m dos lugares do mundo em que o Santíssimo Sa- Pe. James H. Kuczynski, ser nomeado ministro extraor-
cramento está colocado a maior elevação é a cape- dinário da Comunhão, pela Arquidiocese de Galveston-
la existente no 33º andar do edifício Torre E­ spacio, -Houston, com autorização para levar uma píxide com
em Madri, a 135 m acima do nível do solo. Mas Michael seis hóstias consagradas, divididas cada qual em quatro
Scott Hopkins, coronel da Força Aérea dos Estados Uni- fragmentos, de maneira a poder comungar semanalmen-
dos e astronauta da NASA, levou as Sagradas Espécies a te, no espaço.
uma “altura” muito maior: a 400 km de distância de nos-
so planeta. Aos domingos, o Coronel Hopkins recolhia-se na
Escolhido em 2013 para uma missão na Estação Espa- cúpula da Estação Espacial e a transformava numa
cial Internacional pelo período de 24 semanas, não quis “capela” onde, após fazer a leitura da Liturgia da Pa-
privar-se da Sagrada Comunhão durante este tem-
po. Obteve, então, por intermédio de seu ­pároco, lavra, recebia Jesus Sacramentado. Também
nos outros dias da semana reservava um
A terra vista da cúpula da Estação Espacial, onde momento para rezar, dispondo inclusive
Michael Hopkins (em destaque) se retirava para comungar das homilias de seu pároco, enviadas por
e-mail.
Uma de suas comunhões não foi no do-
mingo, mas no dia em que deveria fazer
uma saída ao exterior da Estação Espa-
cial. Fez questão de comungar pouco an-
tes, pois, disse ele, “estas situações podem
se tornar estressantes, e saber que Jesus estava

comigo no vazio do espaço sideral era importante
para mim”. E acrescentou: “Meus companheiros de
tripulação sabiam que levava comigo a Eucaristia e
respeitavam minha Fé”.

A respeito da grandiosa vista que se tem da Esta-
ção Espacial, comentou: “Quando se vê a Terra, do
espaço, com todas as belezas naturais existentes, é di-
fícil não se dar conta da existência de um poder supe-
rior que fez tudo isso”. ²

36      Arautos do Evangelho · Agosto 2016

Lições da História

O enterro da imperatriz

Após a última resposta, as pesadas folhas da porta, que se mantiveram
cerradas para a grande “imperatriz e rainha”, abrem-se de par em par,

dando passagem à “pobre mortal e pecadora”.

N o dia 1º abril de E a porta não se abre...
1989, um impo- O mestre de cerimônias dá
nente cortejo fú- outras três batidas e ouve a
nebre percorre as mesma pergunta:

ruas de Viena, conduzindo os — Quem deseja entrar?

restos mortais da Imperatriz Zi- — Sua Majestade Zita, im-

ta à Igreja dos Capuchinhos, on- peratriz e rainha.

de, desde 1633, são sepultados Reprodução — Não a conhecemos – re-

os imperadores do Sacro Impé- pete o religioso.

rio Romano-Germânico e seus Pela terceira vez, o mes-

descendentes. tre de cerimônias golpeia com

Do lado de fora do edifício O mestre de cerimônias chama à porta da igreja sua bengala a porta.
dos Capuchinhos - Captura do vídeo difundido
sagrado, mais de seis mil pes- — Quem deseja entrar? –
soas, entre as quais um repre- pela radiodifusão austríaca pergunta mais uma vez o ca-
sentante do Papa João Paulo II, puchinho.

aguardam a chegada do cortejo pa- Grã-Duquesa da Toscana e Cracó- — Zita, pobre mortal e pecadora.

ra a realização das solenes exéquias. via; Duquesa de Lorena, de Salzbur- — Pois, então, entre!

Oito carregadores esplendidamente go, de Estíria, de Caríntia, de Carní- As pesadas folhas da porta, que se

uniformizados retiram do coche fu- ola e de Bucovina, Grã-Princesa da mantiveram cerradas para a grande

nerário o féretro da imperatriz e se Transilvânia, Margravina da Morá- “imperatriz e rainha”, abrem-se de

postam frente à porta da igreja que, via, Duquesa da Alta e da Baixa Si- par em par, dando passagem à “po-

entretanto, permanece fechada... lésia, de Módena, de Parma, de Pia- bre mortal e pecadora”. Ali repousa

Aproximando-se da porta, o mes- cenza, de Guastalla, de Auschwitz, seu corpo, à espera da ressurreição

tre de cerimônias bate três vezes de Zator, de Ticino, de Friuli, de dos mortos, no dia do Juízo Final.

com a ponta de sua bengala encasto- Ragusa e de Zara; Condessa Palati- *     *     *

ada de prata. na de Habsburgo e Tirol, de Kyburg, No Céu a esperava seu esposo,

— Quem deseja entrar? – per- de Gorizia e de Gradisca; Prince- o Bem-aventurado Carlos de Áus-

gunta, do lado de dentro, o portei- sa de Trento e de Brixen; Margravi- tria, último imperador do Sacro Im-

ro capuchinho. na da Alta e da Baixa Lusácia e de pério Romano Germânico, faleci-

O mestre de cerimônias respon- Ístria; Condessa de Hohenems, de do em 1922 e beatificado em 2004.

de: Feldkirch, de Bregenz, de Sonnen- A Imperatriz Zita também está a ca-

— Zita, Imperatriz da Áustria, berg; Senhora de Trieste, de Catta- minho da beatificação. Aberto em

Rainha Apostólica da Hungria; Rai- ro e de Wendland; Grã-Voivoda da 2009 o processo, com aprovação da

nha da Boêmia, da Dalmácia, da Sérvia, Infanta de Espanha, Prince- Congregação para as Cau-

Croácia, da Eslavônia, da Galícia, da sa de Portugal e de Parma. sas dos Santos, ela já

Lodoméria e da Ilíria; Rainha de Je- — Não a conhecemos – declara o recebeu o título de

rusalém; Arquiduquesa da Áustria, capuchinho. Serva de Deus. ²

Agosto 2016 · Arautos do Evangelho      37

Gustavo Kralj Amigos e
   intercessores

Temos sempre junto a nós intercessores e amigos que, em
qualquer necessidade ou tribulação, nos defendem e nos auxiliam
para alcançarmos o termo final de nossa missão. Quem são eles?

Ir. Rita de Kássia Carvalho Defanti da Silva, EP

uem neste mundo não Organizados de forma tituindo uma como que corrente
gostaria de ter alguém hierárquica em nove coros ou escada que se dirige para o alto.
de inteira confiança ao Quanto mais elevada a posição ne-
seu lado, pronto para Mas, quem são os Anjos? São la ocupada, maior é o conhecimento
atendê-lo a qualquer ho- espíritos puros, inteligentes, cheios de Deus. Contudo, isto não é causa
ra do dia ou da noite, seja da graça divina desde o início de de tristeza aos que ocupam posições
em que situação estiver? Quem não sua existência na aurora da primei- inferiores, porque as capacidades,
desejaria ter a todo instante junto a si ra manhã da criação. Dotados de apetências e glória de todos são sa-
alguém capaz de defendê-lo nos pe- inteligência e vontade, “são criatu- tisfeitas de maneira plena pelo pró-
rigos e, ao mesmo tempo, disposto a ras pessoais e imortais”, que “supe- prio Criador, na visão beatífica. Não
animá-lo, fortalecê-lo e estimulá-lo ram em perfeição todas as criatu- há entre eles, portanto, “sentimen-
nas horas de provação? ras visíveis”.1 to de infelicidade. Pelo contrário, as
Pois bem, em sua infinita bonda- qualidades dos Anjos que lhes são
de e misericórdia para com o gêne- São Tomás de Aquino ensina, com superiores constituem para eles mo-
ro humano, Deus destinou para ca- base nas Escrituras, estarem eles dis- tivo de admiração”.4
da homem um Anjo da Guarda, que tribuídos e ordenados em nove coros:
constantemente lhe vela e cuida: “Isaías fala dos Serafins; Ezequiel, Mestre e protetor no
“Aos seus Anjos Ele mandou que dos Querubins; Paulo, dos Tronos, combate e na prova
te guardem em todos os teus cami- das Dominações, das Virtudes, das
nhos. Eles te sustentarão em suas Potestades, Principados; Judas fala Os espíritos angélicos possuem
mãos, para que não tropeces em al- dos Arcanjos, enquanto o nome dos uma tríplice missão: de serem per-
guma pedra” (Sl 90, 11-12). Anjos está em muitos lugares”.2 pétuos adoradores da Santíssima
Sim, ele é nosso companheiro nes- Trindade, executores dos divinos de-
ta vida e na eternidade. Entretanto, é Não julguemos, todavia, que no sígnios e protetores do gênero hu-
um amigo discreto que, apesar de qua- interior dos coros angélicos rei- mano. Esta última é a função espe-
se nunca se revelar como tal, admoes- na uma monótona uniformidade. cífica dos Anjos da Guarda.
ta, ensina, ajuda e inspira de muitas Os Anjos são tão diferentes en-
maneiras: ora por uma aguilhoada na tre si que cada um deles pode ser São Basílio ensina que “cada fiel
consciência, ora por um conselho, ora considerado uma espécie única. E é custodiado por um Anjo que o
pela sensibilidade a algum fenômeno são de tal modo numerosos, afirma vela como mestre, protetor e pas-
natural. Basta uma condição: sermos Dionísio, “que ultrapassam o defi- tor para conduzi-lo à vida”.5 E diz o
sensíveis às suas moções. ciente e limitado campo de nossos Catecismo que “desde o início até a
números físicos”.3 morte, a vida humana é cercada por
sua proteção e por sua intercessão”.6
Estes sublimes espíritos organi-
zam-se de forma hierárquica, cons-

38      Arautos do Evangelho · Agosto 2016

No entanto, nossa existência nes- dispersando Lúcifer e todos seus se- exemplo, a conhecida oração: “Santo
ta terra de exílio bem pode ser de- quazes, assim também o Anjo da Anjo do Senhor, meu zeloso guarda-
finida como um constante comba- Guarda afugenta o maligno e impe- dor, já que a ti me confiou a piedade
te, pois carregamos uma natureza de que sejamos por ele arrastados. divina, sempre me rege, guarda, go-
tisnada pelo pecado e temos de en- verna e ilumina. Amém”.
frentar enormes dificuldades para Estejamos atentos às
fazer o bem e praticar a virtude: “a suas inspirações Que estas considerações nos aju-
vida do homem sobre a Terra é uma dem a crescer na devoção aos Santos
luta” (Jó 7, 1). Os homens dispõem individual- Anjos da Guarda, nossos valorosos
mente, portanto, de um príncipe da intercessores celestes e verdadei-
Estamos aqui em estado de prova corte celeste que nunca os abando- ros amigos, e estejamos convictos
e só receberemos o prêmio da bem- na, por mais que sejam culpados ou de que, em qualquer necessidade
-aventurança eterna se soubermos passem por terríveis situações. Ele é ou tribulação, ali estão eles para nos
corresponder às graças recebidas um fiel guardião pronto a incliná-los defender e conduzir ao termo final
para, além do mundo e da concupis- ao bem ou comunicar-lhes a von- de nossa missão nesta vida: a bem-
cência da carne, vencermos um ter- tade divina. Porém, é respeitoso e -aventurança eterna. ²
rível inimigo: o demônio, que a to- quer nossa colaboração e atenção às
da hora e sob qualquer pretexto nos suas inspirações. 1 CCE 330.
atormenta com suas farsas, procu-
rando perder as almas. Incumbido por Maria Santíssi- 2 SÃO TOMÁS DE AQUINO. Suma Teo-
ma, Rainha dos Anjos, de nos cui- lógica. I, q.108, a.5, s.c.
Como ser aprovado em tão duro dar, arde em desejo de nos fazer o
exame? Como poderemos nos de- bem, mas muitas vezes não lhe é 3 DIONÍSIO AREOPAGITA. La jerarquía
fender? permitido por Deus tomar a inicia- celeste. C.XIV, n.1. In: Obras completas.
tiva. Com frequência fica ele, por 2.ed. Madrid: BAC, 1995, p.175.
A prova foi posta no caminho de assim dizer, aguardando “de braços
todos os seres inteligentes, até mes- cruzados” que o invoquemos, para 4 GOYARD, EP, Louis Marie Joseph Ani-
mo dos Anjos. E assim como, na nos vir auxiliar. cet. Os anjos falam? In: Arautos do
grande batalha havida no Céu, São Evangelho. São Paulo. Ano IX. N.106
Miguel levantou um brado de guer- Estejamos, pois, atentos à sua (Out., 2010); p.35.
ra – “Quem como Deus”, que é o seu presença e inspirações, e invoque-
próprio nome em hebraico: ‫– לֵא ָכיִמ‬, mo-lo a todo momento dizendo, por 5 SÃO BASÍLIO MAGNO. Adversus Eu-
nomium. L.III, n.1: MG 29, 655.

6 CCE 336.

Francisco Lecaros
Francisco Lecaros

Incumbido por Maria Santíssima de nos cuidar, o Anjo da Guarda arde em desejo de nos fazer o bem
Acima: o Anjo da Guarda - Catedral de Narbona (França) e Virgem com o Menino e os Anjos,

por Jaime Cabrera - Museu Episcopal de Vic (Espanha). Na página anterior: detalhe do mosaico da Natividade,
Basílica de Santa Maria in Trastevere, Roma.

Agosto 2016 · Arautos do Evangelho      39

Sinais da Fé em 1200 anos ses dos Estados Unidos, o Conselho Reprodução to qualquer, mas não é verdade pa-
de Superioras Maiores de Religiosas Diocese de Limburgra toda a vida. Ao fim e ao cabo, os
Com este título é comemora- elaborou um informe desvendando filhos acabam por desprezar os pais
do o jubileu do 1200º aniversá- o significativo número de vocações que não têm firmeza moral”.
rio da Abadia Beneditina de Müns- jovens que florescem nos conventos
terschwarzach, perto da cidade de deste país. Diocese alemã reconhece martírio
Wurtzburgo, na Alemanha, durante de religiosa morta em Auschwitz
o qual ficarão expostos nas 12 cape- Neles, a média da idade das pos-
las laterais da igreja conventual, até o tulantes é de 27 anos, e 29 anos, a Após ouvir mais de 50 testemu-
dia 16 de outubro, objetos históricos das noviças, sendo que a das profes- nhas, o Pe. Georg Schmidt, SJ, de-
relacionados com seus 12 séculos de sas temporais é de 32 anos. Um 15% legado episcopal no Tribunal para
existência. do número total de freiras no país a Causa de Beatificação de Maria
são vocações novas em formação, e Aloysia Luise Löwenfels, religiosa
Não se trata apenas de uma ex- até as próprias comunidades são jo- da Congregação das Pobres Servas
posição, mas de uma iniciativa pas- vens: a terça parte delas tem menos de Jesus Cristo – Ancillae Domini Je-
toral. O tema Santos, por exemplo, de 50 anos de fundação. su Christi –, morta no campo de con-
não apresenta apenas aqueles rela- centração de Auschwitz, declarou:
cionados com o convento, mas trata A sondagem foi feita apenas nas “Minha impressão depois do estudo
da santidade, seu significado, no que 120 comunidades membros do Con- das testemunhas é: sim, aqui pode-
consiste, como atingi-la. Com espe- selho, que reúnem 6 mil irmãs. No to- mos falar de uma mártir”.
cial carinho é apresentado o decreto tal, os Estados Unidos contavam com
de doação e fundação emitido pelo 48.546 religiosas no ano de 2015. A fase diocesana do processo de
Conde Megingaud e sua esposa Im- canonização desta religiosa de ori-
ma, no ano 816. Como símbolo do Publicam conselhos dos santos gem judia chegou, assim, ao seu tér-
jubileu foi escolhida uma chave da- para educar a juventude mino, em Limburg, Alemanha. Ele
tada do século VIII, objeto mais an- foi iniciado em outubro do ano pas-
tigo que o convento possui. A editora brasileira Katechesis sado, a pedido do Administrador
publicou recentemente três livros Apostólico da diocese, Dom Man-
A Abadia de Münsterschwarzach dedicados à educação dos filhos, to- fred Grothe, que incumbiu o estu-
é conhecida por ter modelado com mando como modelos santos de di- do da vida da irmã a um grupo de
características beneditinas a vida re- versas épocas da História da Igreja. teólogos e historiadores. A pergun-
ligiosa, cultural e social da região. ta central a ser respondida por eles
Os trabalhos de sapataria, alfaia- O primeiro deles reúne, sob o le- é se a candidata à canonização mor-
taria, cozinha, criação de animais e ma A educação dos filhos, conselhos reu por causa de sua Fé.
horticultura, realizados em suas de- de Santo Antônio Maria Claret, San-
pendências, sempre foram fonte de ta Teresa de Ávila e São João Crisós- Dom Schmidt fez notar que em-
inspiração para os habitantes dos tomo. O segundo, que leva por títu- bora tivesse bem presente o peri-
povoados circunvizinhos. lo Da Vanglória e da Educação dos go ao qual se expunha, a Ir. Aloy-
Filhos, se baseia em comentários de sia Luise preferiu ficar no convento
Jovens vocações femininas São João Crisóstomo. E no tercei- da Ordem na Holanda, onde residia,
florescem nos Estados Unidos ro, Filhos e Pais – Sabedoria e orienta- após a ocupação do país pelo exér-
ção para os pais, são publicados con- cito alemão, rejeitando oferecimen-
Com base numa pesquisa reali- selhos do Cardeal Fulton Sheen, que tos de sua família para levá-la com
zada em comunidades de 137 dioce- afirma ser a permissividade “uma das segurança aos Estados Unidos. Tam-
mais sérias ameaças ao relaciona- bém rejeitou um oferecimento da
mento entre pai e filho”. Alguns pais, própria Ordem Religiosa de ser le-
explica o purpurado, “acreditam que vada à Inglaterra.
se não derem aos seus filhos tudo o
que quiserem, estes não os amarão.
Isto pode ser verdade num momen-

40      Arautos do Evangelho · Agosto 2016

Ela foi presa no dia 2 de agosto de Crucifixo de
1942, junto com outros sacerdotes e
religiosos de ascendência hebraica, São Damião retorna
entre os quais Santa Teresa Benedi-
ta da Cruz, e deportada ao campo de depois de 8 séculos
concentração de Auschwitz, onde fa-
leceu no dia 9 de agosto do mesmo A missão de São Francisco começou quando o famoso Crucifixo de
ano. Dom Schmidt espera enviar ain- São Damião lhe falou, pedindo lhe para “reparar” a Igreja. No iní-
da neste ano as conclusões da comis- cio, ele pensou que a voz divina apontava para a capela em ruínas, onde
são à Congregação para as Causas se encontrava naquele momento, mas com o tempo foi-se dando conta
dos Santos, em Roma. de que o pedido se referia a algo muito maior.

Madre Catalina Rodríguez, mais De 15 a 19 de junho, o histórico Crucifixo, venerado há oito sécu-
perto de ser reconhecida Beata los no protomosteiro de Santa Clara, em Assis, voltou provisoriamen-
te para o Santuário de São Damião, permitindo
Dom Santiago Olivera, Bispo de que, durante esses 5 dias, os fiéis pudessem ve-
Cruz del Eje, Argentina, anunciou nerar a imagem no local em que teve início a es-
o reconhecimento diocesano de plendorosa obra do Poverello.
um milagre atribuído à fundadora
das Escravas do Coração de Jesus, A figura de Cristo, pintada sobre teci-
Madre Catalina de María Rodrí- do e colada sobre a madeira, por volta do
guez, no século Josefina Saturnina ano 1100, tem 2,1 m de altura por 1,3 m de
Rodríguez de Zavalía. É um pas- cumprimento.
Reproduçãoso a mais rumo à beatificação desta
News TV 2000venerável religiosa, que colaborou
nas serras de Córdoba com a obra
evangelizadora de um outro beato, Chegada do histórico Crucifixo à Basílica de São Damião
o Pe. José Gabriel del Rosario Bro-
chero. tados e assistência a casas de exer- -Eop Thomas, sacerdote falecido em
cícios espirituais. 1861, no condado de Jincheon-gun,
O milagre aconteceu em Tucu- Diocese de Cheongju. Suas virtudes
mán e foi reconhecido como inexpli- Conferência Episcopal heroicas tinham sido reconhecidas
cável cientificamente, por uma junta Coreana reconhece milagre pela Santa Sé no dia 27 de abril. Com
médica: há 19 anos, uma senhora se de missionário local o parecer favorável da comissão en-
curou de uma grave doença cardíaca carregada de analisar o milagre, fica
e permanece em plena saúde. Na primeira quinzena de junho, a finalizada a fase diocesana do pro-
Conferência Episcopal da Coreia do cesso e este passa à Congregação pa-
Madre Catalina nasceu no dia Sul reconheceu um milagre atribuí- ra as Causas dos Santos.
27 de novembro de 1823. Filha da do ao Servo de Deus Pe. Choe Yang-
distinta aristocracia de Córdoba,
ficou órfã de mãe aos três anos,
e de pai aos nove anos. Depois de
enviuvar de um feliz matrimônio
que havia contraído por recomen-
dação do seu confessor, se dedicou
à fundação de uma obra voltada
para a educação dos mais necessi-

Agosto 2016 · Arautos do Evangelho      41

O Pe. Chou Yang-up, diocesa- total de 33.600 km, a maior parte os beatificou no dia 6 de maio de
no, é conhecido na Coreia do Sul caminhando. 1990.
como o “mártir do suor”, pelo in-
cansável zelo pastoral que o levou Mártires de Tlaxcala são Mesmo antes de sua canoniza-
a percorrer zonas rurais e vilas re- declarados padroeiros das ção, a Santa Sé os declarou padroei-
motas do seu país, numa média de crianças mexicanas ros das crianças mexicanas, de acor-
2.800 km ao ano. Ele também tra- do com informações divulgadas por
duziu o Catecismo do chinês para Os três primeiros mártires lei- Dom Francisco Moreno Barrón, à
o coreano e formulou em versos as gos do território mexicano mor- época Bispo de Tlaxcala, durante
verdades da nossa Fé, para facilitar reram muito jovens: aos 12 ou sua recente viagem a Roma. Ele se
sua aprendizagem. O Pe. Chou fa- 13 anos de idade o Beato Cristó- reuniu na Cidade Eterna com o pos-
leceu no dia 15 de junho de 1861, bal, morto em 1527, e aos 13 ou tulador da causa de canonização,
com apenas 40 anos de idade, con- 14 anos os Beatos Antônio e João. Frei Giovan Giuseppe Califano, e
sumido pela febre tifoide, depois Todos eles pertenciam a e­tnias com o Cardeal Dom Angelo Ama-
de haver se dedicado a um aposto- pré-colombianas do estado de to, Prefeito da Congregação para as
lado itinerante por doze anos, pe- Tlaxcala e foram evangelizados Causas dos Santos, que revelou estar
ríodo em que teria percorrido um pelos frades franciscanos e do- o processo “muito avançado”, fal-
minicanos. O Papa João Paulo II tando apenas algumas formalidades.

Relíquias de mártires ingleses

são veneradas nos Estados Unidos

A s relíquias dos mártires ingleses
São Tomás More e São João Fi-
sher peregrinaram pelos Estados Uni-

dos entre os dias 21 de junho e 4 de

julho, com o apoio da Conferência Na- CNS photo/Jim Bovin, Catholic Spirit

cional dos Bispos Católicos dos Es-

tados Unidos. Elas percorreram as

Dioceses de Miami, Baltimore, Pitts-

burgh, Filadélfia, Minnesota, Denver,

P­hoenix, Los Angeles e, finalmente,

Washington, D.C.

Em Minnesota, a afluência de fiéis

foi tanta, que alguns precisaram en-

frentar filas de até uma hora para po-

der se ajoelhar por um momento an- Fiéis veneram as relíquias na Catedral de São Paulo,
te as relíquias e fazer uma prece. Os Minnesota, em 26/6/2016
programas em cada cidade incluíram

palestras, exposições audiovisuais, adorações ao San- A comissão organizadora da peregrinação salien-

tíssimo Sacramento e vigílias de orações. tou que os dois mártires “foram patriotas. Nunca se le-

São Tomás More foi Chanceler do reino da Ingla- vantaram ou incitaram à rebelião ou fomentaram uma

terra, tendo sido decapitado por ordem do rei Hen- revolução. Eles não foram traidores, mas quando a lei

rique VIII, por não aceitar o seu divórcio. O mesmo do rei entrou em conflito com a Lei de Cristo, eles es-

rei mandou matar São João Fisher, Bispo de Roches- colheram Cristo. Estes homens deram suas vidas pela

ter, único prelado a se opor aos desígnios de Henri- liberdade da Igreja e a liberdade de consciência. Eles

que VIII contra a Igreja Católica. Ambos morreram deram testemunho da verdade de que nenhum gover-

no ano de 1535. no pode pretender ser dono da alma da pessoa”.

42      Arautos do Evangelho · Agosto 2016

Milhões de fiéis

adoram o Pai Eterno

E m Trindade (GO) teve lugar a romaria anual do Pai Eterno, a maior
concentração de fiéis do mundo em louvor da Primeira Pessoa da
Santíssima Trindade. Durante os dez dias de duração do evento, mais de
2,7 milhões de peregrinos frequentaram o Santuário Basílica da chamada
Capital da Fé de Goiás.

Os dados são da Associação Filhos do Pai Eterno. O diretor do San-
tuário Basílica, Pe. Edinisio Pereira, afirmou no site da Associação: “A
quantidade de romeiros que participou da festa superou nossas expec-
tativas. Agradeço a todos que vieram de longe e perto para louvar e
bendizer ao Pai Eterno durante esses dez dias de Romaria”.

No decorrer de todo o evento, vários sacerdotes atenderam milha-
res de Confissões. No total foram celebradas 115 Missas, rezadas 45
novenas, realizadas 11 procissões e 30 recitações do Santo Rosário,
além de vigílias, alvoradas e várias centenas de Batismos.

O momento auge foi a Missa campal de encerramento, no dia 3 de ju-
lho, domingo, precedida por uma procissão noturna, conduzindo a imagem
do Divino Pai Eterno ao Santuário Basílica, partindo da Igreja Matriz. Após
uma bela queima de fogos de artifício, o Pe. Edinisio comentou: “Nós nos
despedimos desta Romaria certos de que daremos continuidade à vivência
do amor, aqui renovado, em nossos lares e em nossa comunidade”.
Fides.orgNova comunidade católica
www.aciprensa.comé fundada na Etiópia

Com uma singela e comovedo- Vista aérea da Missa de encerramento
ra cerimônia foi fundada na aldeia
Kokossa, na Etiópia, uma nova co- de de Dinajpur –, oferece um ser- hospitais e creches, Caritas e outras
munidade católica. A notícia foi dada viço de educação com três escolas obras sociais”.
à agência Fides pelo Bispo Emérito primárias, para cerca de 4 mil alu-
de Pádua, Dom Antonio Mattiazzo, nos, e uma escola secundária, para Os católicos em Bangladesh são
atualmente dedicado às missões na- 5 mil alunos; e está comprometida uma pequena minoria num populoso
quele país africano. com muitos serviços sociais, como país: não chegam a 200 mil, mas estão
em constante e fervoroso crescimento.
A cerimônia aconteceu no do-
mingo, dia 19 de junho, data que,
na Igreja Católica Etíope, coinci-
diu com a Solenidade de Pentecos-
tes. Muitos membros da comunida-
de, explicou Dom Mattiazzo, são
tão pobres que assistiam à cateque-
se descalços. Na ausência de igre-
ja, estão sendo usadas uma pequena
ca­ sa e uma tenda, para abrigar os as-
sistentes das cerimônias litúrgicas, à
maneira de matriz.

Mais de 110 jovens são
crismados em Bangladesh

Em meados de junho, recebe-
ram o Sacramento da Crisma, pelas
mãos do Bispo de Dinajpur, Dom
Sebastian Tudu, 63 meninas e 53
meninos, em Bangladesh. A infor-
mação foi enviada à agência Fides,
pelo Pe. Adolfo L’Imperio, missio-
nário nesse país asiático.

“Como ancião” – afirmou ele em
sua mensagem para os crismandos
– “fechei os olhos e sonhei com es-
ta comunidade de Fé, que cresceu,
se desenvolveu e se expandiu, ape-
sar de muitas dificuldades e hesita-
ções. Jesus distribui seu Espírito e
cria esta sua Igreja. Esta pequena
comunidade, com 1.820 católicos
distribuídos numa realidade de 360
mil pessoas – a população da cida-

Agosto 2016 · Arautos do Evangelho      43

Congresso Eucarístico

Arquidiocesano da Guatemala

Dia 5 de junho foi encerrado o do coração o saber que são filhos grande evento. Na abertura, Dom
Congresso Eucarístico Arqui- de Deus, imagens verdadeiras, re- Vian ressaltou que a finalidade
diocesano na capital guatemalteca, flexos vivos e reais do seu Filho, do Congresso era testemunhar ao
coincidindo também com o bicen- e por isso amados com amor in- mundo publicamente que o povo
tenário da consagração da Catedral finito”. guatemalteco reconhece que “Je-
Metropolitana de Santiago de Gua- sus Cristo está vivo em Corpo e
temala. Uma multidão, que supe- Durante duas semanas prévias Sangue sob as espécies do pão e do
rou as expectativas, se congregou na ao Congresso Eucarístico Arqui- vinho, e que nós acreditamos fir-
Praça da Constituição para a Mis- diocesano, que reuniu os departa- memente que, mesmo no menor
sa de encerramento, celebrada pelo mentos de Guatemala e de Sacate- fragmento da Hóstia Consagrada,
Arcebispo metropolitano, Dom Os- péquez, foram realizadas reuniões bate vivo o Coração do Senhor”.
car Julio Vian Morales, SDB. A paroquiais preparativas para o
homilia foi proferida pelo Car-
deal Norberto Rivera Carrera, www.prensalibre.com www.emisorasreunidas.com
Arcebispo Primaz do México,
que esteve presente como Lega- Multidão acima das expextativas se congrega
do Pontifício e principal conce- na Praça da Constituição para a Missa de encerramento
lebrante.

“Hoje” – comentou o Car-
deal – “vejo nos seus olhares,
limpos e sinceros, a convic-
ção de que cada um dos se-
nhores leva no mais profundo

Ordenações presbiterais Arquidiocese de Brasilia
na catedral de Brasília

No dia 25 de junho teve lugar, lista Martins Terra, SJ, Bispo jam presbíteros cheios de compai-
em Brasília, a ordenação pres- Auxiliar Emérito de Brasília, xão, que abraçam generosamente a
biteral de nove diáconos, na Cate- e Dom Rosalvo Cordeiro de missão tão bela descrita pelo pro-
dral de Nossa Senhora Aparecida, Lima, Bispo Auxiliar da Ar- feta Isaías, cumprida plenamen-
lotada com mais de 2500 fiéis. A ce- quidiocese de Fortaleza, as- te por Jesus: ‘levar a Boa-nova aos
rimônia foi presidida pelo Arcebispo sim como numeroso clero. humildes, curar as feridas da alma,
e presidente da Conferência Nacio- pregar a redenção para os cativos e
nal dos Bispos do Brasil, Dom Sérgio Na homilia, Dom Sérgio incenti- a liberdade para os que estão pre-
da Rocha, tendo como concelebran- vou os neopresbíteros com caloro- sos; consolar os que choram; pro-
tes os Bispos Auxiliares, Dom Mar- sas palavras: “Sejam padres santos clamar o tempo da graça’”.
cony Vinicius Ferreira, Dom Jo­sé que nos ajudem a viver na santida-
Aparecido Gonçalves de Almeida e de, pela palavra e pelo testemunho
Dom Valdir Mamede. Também esti- de vida... A santidade dos sacerdo-
veram presentes Dom João Evange- tes deve ser sinal e estímulo para a
santidade do povo de Deus... Se-

44      Arautos do Evangelho · Agosto 2016

“Evangelho da esposa de Jesus”: tudo
indica tratar-se de uma falsificação

m 2012, a professora de História Eclesiásti-

ca da Universidade de Harvard, Karen Leigh

King, deu a conhecer no Congresso Internacional

de Estudos Coptas um fragmento de papiro de 4,5

x 9 cm e 1.300 anos de antiguidade que, por causa

de algumas poucas palavras nele contidas, logo re-

cebeu o irreverente título de Evangelho da esposa

de Jesus. Antes mesmo de ser analisado por outros

estudiosos, como é praxe na comunidade científi- hds.harward.com

ca, o documento foi apresentado como “prova” de

que Nosso Senhor Jesus Cristo teria sido uma pes-

soa casada.

Porém, conforme afirma um recente artigo

do Washington Post, “o que foi recebido com

aplausos, logo deu lugar ao ceticismo”. Des- A Prof.a Karen King mostrando o fragmento de papiro

de o primeiro momento, a gramática e a escri-

ta copta do papiro despertaram receios em especia- As dúvidas sobre a autenticidade do documento au-

listas como Leo Depuydt, da Brown University, que mentam ainda mais ao conhecer a forma rocambolesca

a qualificou como uma anedota que não merecia a e nada fiável com que o papiro chegou às mãos da inves-

atenção do mundo científico. E, embora o papiro tigadora, através de um egiptólogo aficionado que, entre

em si tenha indícios de ser bastante antigo, outros outras atividades, mantinha uma página web pornográfi-

estudiosos vêm mostrando sinais de serem recentes ca. Hoje em dia, até a própria Dra. King reconhece que

as inscrições nele contidas. mais provavelmente se trate de uma falsificação.

Receba Nossa Senhora em sua casa!

Apostolado do Oratório
Maria Rainha dos Corações

Entre em contato conosco:

e-mail: [email protected]
blog: oratorio.blog.arautos.org

Rua Itá, 381 - CEP 02636-030 - São Paulo-SP
Tel.: (11) 2971-9060 - (11) 98872-1366

Agosto 2016 · Arautos do Evangelho      45

História para crianças... ou adultos cheios de fé?

Combinação entre Anjos

Segurando as lágrimas, o Bispo compreendeu a causa
de tudo o que acontecera: cada um dos Anjos da Guarda
queria favorecer seu próprio protegido...

Maria Tereza dos Santos Lubián, EP

Numa pequena e apra- O piedoso Bispo tinha também o de sua filha Adélia, que seriam rea-
zível cidade, em terras costume de rezar diariamente o Ro- lizadas na Igreja da Sagrada Família,
longínquas, vivia Dom sário, caminhando pelas redonde- um belo templo situado nas adjacên-
Pedro, Bispo cheio de zas do palácio episcopal, dando en- cias da cidade. Dom Pedro aceitou

amor a Deus e grandeza de alma, sejo a todos de o verem e receberem o convite, e programou a hora em

sempre disposto a ajudar, como bom sua bênção. que precisaria sair do palácio na da-

pastor, às ovelhas do seu rebanho. Em certa ocasião, o juiz municipal ta do casamento, para ir andando até

Gostava de visitar os enfermos para le- o convidou para celebrar as núpcias a igreja, rezando seu Rosário. Fazen-

var-lhes os Sacramentos, animá- do os cálculos, chegaria ao local

-los a praticar a virtude e ensinar com tempo suficiente para pa-

que o sofrimento, além de ser si- ramentar-se e combinar os deta-

nal de predileção divina, é um lhes da celebração, marcada para

excelente meio de santificação. as seis horas da tarde.

Pela manhã, com arden- No dia das bodas, ele já se

te fervor celebrava a Missa e preparava para a saída, quan-

depois passava horas sentado do seu secretário veio avisá-lo

no confessionário, desejando de que um homem, muito afli-

ser instrumento de Deus pa- to, suplicava para confessar-se

ra reconciliar os pecadores com o Senhor Bispo. Consul-

arrependidos. Algumas vezes tando seu relógio, viu que ti-

por ano organizava soleníssi- nha apenas dez minutos dispo-

mas cerimônias de Crisma e níveis. Se fizesse entrar aquele

com frequência – oh alegria! homem se atrasaria para a ce-

– ordenava novos ministros rimônia…

de Deus. Fazia ele questão Sem duvidar um instante,

de serem os Matrimônios re- ajoelhou-se e rezou:

vestidos de pompa e decoro, — Ó Santo Anjo da Guar-

mantendo acesa nas almas a da protetor desta alma que

noção de ser criado, neste Sa- vem me procurar em mo-

cramento, um vínculo sagra- Horário… Era justamente o que preocupava mento tão inoportuno, faça-
do que nenhum homem pode Dom Pedro! Contudo, não deixou transparecer mos um trato: eu a atende-

desfazer. seus pensamentos rei agora e vós me ajudareis a

46      Arautos do Evangelho · Agosto 2016

não me atrasar para a celebração do de dentro da casa. Dom Pedro quis peço todos os dias ao meu Anjo da

Matrimônio! saber quem era: Guarda a graça de não morrer sem

Confiante, mandou entrar o ho- — É o meu pai – disse a mulher – receber os últimos Sacramentos.

mem. Ouviu-o em Confissão, acon- Ele está mal à morte, todavia afirma Tenho certeza de que me recupera-

selhou-o e o encorajou. Depois de que não vai morrer... rei para levantar desta cama e ir à

dar-lhe a absolvição, despediu-o — Eu poderia vê-lo rapidamen- cidade buscar um sacerdote! Por is-

com uma paternal bênção. te? — perguntou o Bispo. so insisto em dizer que não morre-

— Que Deus o recompense, Ex- — Claro! – respondeu ela, con- rei logo!...

celência! – disse o penitente antes duzindo-o ao quarto do enfermo. Segurando as lágrimas, D. Pedro

de retirar-se – Espero não lhe haver Era um senhor bem idoso, fra- compreendeu, naquele instante, tu-

atrapalhado os horários. quinho, que quase não enxergava. do o que acontecera: fora uma com-

Horário… Era justamente o que Só percebeu a presença do prelado binação entre Anjos da Guarda,

preocupava Dom Pedro! Contudo, quando este se aproximou de seu ou- cada qual querendo favorecer seu

não deixou transparecer seus pen- vido e lhe disse algumas palavras. O protegido! Primeiro, o homem que

samentos, respondendo que ficara doente respondeu com inteira segu- o procurara à hora da saída; ago-

muito satisfeito por ajudá-lo. rança: ra, o devoto moribundo; por fim,

Logo que o homem saiu, o pre- — Não, não morrerei logo! ele próprio, cujo coração sacerdotal

lado levantou-se e, a passo rápi- — E por que o senhor diz isto? exultava de felicidade ao fazer bem

do, iniciou a caminhada. Toman- — Porque sou católico! às almas! Disse então ao doente:

do um atalho, entrou pela velha — Ora, eu também sou! E é por — Meu filho, suas orações foram

estrada de terra que serpeava no caridade que lhe asseguro estar gra- atendidas! Eu sou o seu Bispo e ja-

meio do bosque. Enquanto avan- ve sua saúde, pelo que o senhor pre- mais teria vindo a esta casa se não

çava sob as frondosas árvores, cisa se preparar para encontrar-se me tivesse perdido no bosque! Sem

em cujos galhos gorjeavam passa- com Deus. dúvida, foi o seu Anjo da Guarda

rinhos coloridos, ia desfiando as — Mas eu lhe digo, com toda a que me conduziu até aqui!

contas do Terço. convicção, que não morrerei logo! O enfermo, consoladíssimo e

Depois de uns vinte minutos, Desde os meus sete anos de vida, fortalecido na fé, fez uma excelen-

chegou a uma clareira desconheci- quando fiz a Primeira Comunhão, te Confissão e recebeu a Unção dos

da. Para qualquer direção que Enfermos para no dia seguin-

olhava só havia árvores e mais te, ao raiar do Sol, entregar

árvores... nenhuma trilha se- Ilustrações: Elizabeth Bonyun sua alma a Deus.

quer! Como era possível ter- E o casamento da filha do

-se desviado tanto de sua di- juiz?

reção, a ponto de chegar a Dom Pedro saiu do case-

um lugar tão afastado? bre montado numa airosa ju-

Tentando descobrir qual menta que a senhora e seu

seria o melhor caminho a se- marido lhe deram e, seguin-

guir, viu um riacho e pensou: do as orientações deles, che-

“Vou acompanhar este curso gou em pouco tempo à igreja,

d’água, confiando no Anjo da exatamente quando os sinos

Guarda daquele homem”. E anunciavam o Angelus, ou se-

assim fez. ja, às seis horas em ponto!

De repente, deparou-se — Como aconteceu isto?! –

com uma casinha simples e, perguntou-se a si mesmo, pu-

sem titubear, bateu à porta. xando do bolso seu relógio.

Quem sabe o morador pode- E mais uma vez constatou a

ria dar-lhe alguma orienta- mão poderosa de seu fiel ami-

ção. Uma senhora o atendeu go, o Anjo da Guarda: os pon-

e, percebendo ser o Bispo, fi- teiros estavam parados, in-

cou tomada de admiração. dicando que havia saído do

Neste momento, ouviu-se a O bispo chegou à igreja exatamente quando os palácio episcopal muito mais
voz de outra pessoa, vinda sinos anunciavam o Angelus cedo do que imaginara! ²

Agosto 2016 · Arautos do Evangelho      47

Os Santos de cada dia  ________

1. Santo Afonso Maria de Ligório, 5. Dedicação da Basílica de Santa de Santa Maria Novella, em Flo-
Bispo e Doutor da Igreja (†1787 Maria Maior. rença, Itália. Lutou corajosamen-
Pagani - Itália). Beato Pedro Miguel Noël, te contra os hereges patarinos.
presbítero e mártir (†1794). Por
Santo Etelvoldo, Bispo (†984). se negar a aderir à Constitui- 10. São Lourenço, diácono e mártir
Atuou na restauração da obser- ção Civil do Clero, foi preso nu- (†258 Roma).
vância monástica na Inglaterra, ma galera em Rochefort, França. Beato Agostinho Ota, religioso
como discípulo de São Dunstan. Morreu em decorrência das en- e mártir (†1622). Irmão leigo je-
fermidades ali contraídas. suíta, ardoroso catequista, deca-
2. Santo Eusébio de Vercelli, Bispo pitado no Japão.
(†371 Vercelli - Itália). 6. Transfiguração do Senhor.
Beata Maria Francisca de 11. Santa Clara de Assis, virgem
São Pedro Julião Eymard, (†1253 Assis - Itália).
presbítero (†1868 La Mure - Jesus Rubatto, virgem (†1904). Santo Equício, abade
França). Fundou em Loano, Itália, o (†a. 571). Por sua santidade, po-
Instituto das Irmãs Terciárias voou de mosteiros a antiga pro-
Beata Joana de Aza (†séc. XIII). Capuchinhas. víncia Valéria, Itália.
Dama de nobre família caste-
lhana, mãe de São Domingos de 7. XIX Domingo do Tempo Comum. 12. Santa Joana Francisca de Chan-
Gusmão. São Sisto II, Papa, e compa- tal, religiosa (†1641 Moulins -
França).
3. São Martinho, eremita (†580). nheiros, mártires (†258 Roma). Beata Victoria Díez y Busto de
Viveu como anacoreta no Mon- São Caetano de Tiene, presbí- Molina, virgem e mártir (†1936).
te Mássico, Itália. Atraiu mui- Fuzilada durante a Guerra Ci-
tos jovens desejosos de imitar seu tero (†1547 Nápoles - Itália). vil Espanhola, morreu exortando
exemplo. Beato Jordão Forzaté, abade outros católicos ao martírio.

4. São João Maria Vianney, presbí- (†c.1248). Para escapar do incên- 13. Santos Ponciano, Papa, e Hipó-
tero (†1859 Ars-sur-Formans - dio que se alastrava em Pádua, lito, presbítero, mártires (†c. 236
França). refugiou-se no mosteiro de São Sardenha - Itália).
Bento. Ali permaneceu, atraído Santa Radegunda, rainha
Beato Frederico J­ anssoone, pela vida religiosa. (†587). Rainha dos francos. Ainda
presbítero (†1916). Pregador em vida do rei Clotário, seu ma-
franciscano francês, promoveu 8. São Domingos de Gusmão, pres- rido, entrou para o mosteiro de
peregrinações à Terra Santa. bítero (†1221 Bolonha - Itália). Santa Cruz de Poitiers, França.
São Paulo Ke
Tingzhu, már- 14. XX Domingo do Tempo Comum.
tir (†1900). Foi es- São Maximiliano Maria Kol-
quartejado durante
a perseguição dos be, presbítero e mártir (†1941
Boxer, na China. Auschwitz - Polônia).
Deu extraordinário
exemplo de fortale- São Marcelo de Apameia, Bis-
za cristã. po e mártir (†c. 390). Assassina-
do nesta cidade da Síria por pa-
Francisco Lecaros 9. Santa Teresa Be- gãos enfurecidos, após ter man-
dado destruir um templo de Jú-
Conversão de Santa Joana Francisca de Chantal nedita da Cruz, piter.
Igreja de Notre-Dame, Dijon (França) virgem e mártir
(†1942 Auschwitz, 15. Solenidade da Assunção de Nos-
Polônia). sa Senhora (no Brasil, transferi-
da para domingo, dia 21).
Beato João de Beata Juliana Puricelli de
Salerno, presbítero Busto Arsizio, virgem (†1501).
(†c. 1242). Sacerdo-
te dominicano, fun-
dador do convento

48      Arautos do Evangelho · Agosto 2016

____________________ Agosto

Religiosa agostiniana de Pallan- Reprodução ­Irmãs Missionárias da Ordem
za, Itália. Terceira de São Francisco.
Beato Frederico Janssoone
16. Santo Estêvão da Hungria, rei 26. São Melquisedec. Rei de Sa-
(†1038 Székesfehérvár - Hun- 22. Nossa Senhora Rainha. lém e sacerdote do Deus altís-
gria). Beato Simeão Lukač, Bispo simo (cf. Gn 14, 18-20). Seu sa-
São Teodoro, Bispo (†séc. IV). cerdócio prefigura o de Cristo
Seguindo o exemplo de Santo e mártir (†1964). Exerceu clan- (Hb 5, 6).
Ambrósio, defendeu a Fé Cató- destinamente seu ministério na
lica contra o arianismo, em sua Ucrânia, então sob domínio sovi- 27. Santa Mônica (†387 Óstia - Itá-
Diocese de Valais, Suíça. ético. Morreu vítima da tubercu- lia).
lose contraída na prisão. São Davi Lewis, presbítero e
17. Santa Beatriz da Silva, vir- mártir (†1679). Sacerdote jesuí-
gem (†1492). Jovem da mais al- 23. Santa Rosa de Lima, virgem ta condenado à forca no País de
ta nobreza de Portugal, notável (†1617 Lima - Peru). Gales, onde administrou clandes-
por sua formosura, fundou a Or- Beatas Rosária Quintana Ar- tinamente os Sacramentos du-
dem da Imaculada Conceição da gos e Serafina Fernández Ibero, rante mais de trinta anos.
Bem-Aventurada Virgem Maria. virgens e mártires (†1936). Ter-
ciárias Capuchinhas da Sagrada 28. XXII Domingo do Tempo
18. Beata Paula Montaldi, virgem Família mortas durante a Guerra Comum.
(†1514). Abadessa do mostei- Civil Espanhola. Santo Agostinho, Bispo e
ro de clarissas de Mântua, Itália, Doutor da Igreja (†430 Hipona -
distinguiu-se pela devoção à Pai- 24. São Bartolomeu, Apóstolo. Argélia).
xão de Cristo. São Jorge Limniota, mártir Beato Afonso Maria M­ azurek,
presbítero e mártir (†1944).
19. São João Eudes, presbítero (†c. 730). Monge morto na Bitínia, Prior dos Carmelitas Descalços
(†1680 Caen - França). atual Turquia, por ter reprovado a de Czerna, Polônia, brutalmente
São Bartolomeu de Simeri, impiedade do imperador Leão III, torturado e, por fim, fuzilado.
abade (†1130). Depois de algum que mandara destruir imagens e
tempo de vida eremítica erigiu queimar relíquias dos santos. 29. Martírio de São João Batista.
um mosteiro na Calábria, Itália. Santa Maria da Cruz Ju-
25. São Luís, Rei de França (†1270
20. São Bernardo de Claraval, aba- Túnis - Tunísia). gan, virgem (†1879). Fundou em
de e Doutor da Igreja (†1153 São José de Calasanz, presbí- Saint-Servan-sur-Mer, França, a
Langres - França). tero (†1648 Roma). Congregação das Irmãzinhas dos
Beata Maria Climent Mateu, Beata Maria do Trânsito de Pobres. Afastada injustamente
virgem e mártir (†1936). Terciá- Jesus Sacramentado, virgem do governo, passou o resto da sua
ria franciscana fuzilada durante a (†1885). Fundou em Córdoba, vida em oração e humildade.
Guerra Civil Espanhola. Argentina, a Congregação das
30. Beato Eustáquio van Lieshout,
21. Solenidade da Assunção de presbítero (†1943). Sacerdote de
­Nossa Senhora (transferida do origem holandesa pertencente à
dia 15). Congregação dos Sagrados Co-
São Pio X, Papa (†1914 Ro- rações, falecido em Belo Hori-
ma). zonte. Favorecido com o dom da
cura, alcançou fama de santidade
Beata Vitória Rasoamanarivo, ainda em vida.
viúva (†1894). Princesa de Mada-
gascar convertida à Fé Católica. 31. Santo Aristides, filósofo (†c.150).
Quando os missionários foram Ilustre por sua fé e sabedoria,
expulsos do país, ajudou os cris- apresentou ao imperador Adriano
tãos e defendeu a Igreja. alguns dos seus livros sobre a
Religião Cristã.

Agosto 2016 · Arautos do Evangelho      49

A lição dos tico-ticos

Quantas vezes, nesta vida, nossa atitude não é muito diferente
da de dois passarinhos que brigam por uma migalha de pão,
sem perceber o que está ao seu redor...

Lúcia Nga Thi Vu

Sábio, pela definição filo- Criador, até mesmo as mínimas coi- Ora, quantas vezes nossa rea-
sófica clássica, é quem co- sas, se são contempladas à luz da sa- ção não é muito diferente da atitu-
nhece e julga as coisas, pe- bedoria, nos manifestam sua ligação de destes dois passarinhos… Fica-
la razão natural, por suas com Deus. Sendo este dom infun- mos presos às nossas necessidades
últimas e mais altas causas. Entre- dido no Batismo, é possível a qual- mais imediatas e não percebemos
tanto, quando alguém as julga por quer cristão encontrar nos peque- os aspectos mais altos de nossa exis-
instinto divino, possui o dom so- nos acontecimentos do dia a dia as tência!
brenatural de sabedoria.1 É próprio lições que o Altíssimo deseja trans-
deste dom do Espírito Santo conce- mitir-lhe. Deus, que tem todo o universo
der à alma uma visão profunda de nas mãos, nos derrama com abun-
todas as realidades, segundo o pris- Foi o que se passou em uma de dância suas graças. Nós, todavia, co-
ma divino. nossas casas quando, numa manhã, mo temos as nossas vistas postas nas
entraram no refeitório dois tico-ti- coisas deste mundo, não vemos a
Por isso, pode acontecer que cos procurando o seu “desjejum”… imensidade destas graças em torno
uma alma simples e ignorante, Uma das religiosas que servia à me- de nós e fixamos nossa atenção ape-
sem estudos teológicos, possua sa, vendo que a busca lhes resultava nas nas coisinhas corriqueiras da vi-
“pelo dom de sabedoria um co- difícil, decidiu auxiliá-los, atirando- da concreta.
nhecimento profundíssimo das -lhes umas migalhes de pão. Um dos
coisas divinas que pasma e mara- passarinhos as encontrou e comeu, Em nosso tempo hodierno, on-
vilha aos mais eminentes teólo- satisfeito. Novamente os dois tico- de prevalecem a correria e o po-
gos”.2 Tal foi o que sucedeu, por -ticos receberam mais algumas mi- der do dinheiro, a mentalidade do
exemplo, a Santa Joana d’Arc, an- galhas das mãos amigas. Desta vez, homem se prende ao palpável e ao
te seus pérfidos juízes, ou a San- porém, as avezinhas começaram a programado, fruto de uma concep-
ta Bernadete e aos Pastorinhos brigar pelo mesmo bocado, enquan- ção ateu-prática da existência, em
de Fátima, ao serem inquiridos to a religiosa que tinha o pão na que tudo funciona sem Deus. Quan-
sobre a veracidade das aparições mão lhes jogava mais alimento, para do acontece algo inesperado, uma
de Nossa Senhora, em Lourdes e parar aquele duelo. Eles, contudo, desgraça qualquer, todos procuram
em Fátima. nada viram e continuaram a peleja, uma explicação natural e um modo
despertando o sorriso das outras ir- humano para resolver. Não há lu-
E como tudo no universo criado mãs que observavam a cena. gar para a sabedoria em seus domí-
tem uma estreita relação com seu nios…

50      Arautos do Evangelho · Agosto 2016


Click to View FlipBook Version