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Published by freiroma, 2018-06-21 07:55:47

Devaneios ou uma parte de nós mesmos

O MEU LIVRO

Rogério M. Freire

DEVANEIOS
OU

UMA PARTE DE NÓS MESMOS

Edição do Autor
2011

.
2

AOS MEUS TRÊS FILHOS
EDDIE, TITA E KATHY

QUE SÃO A MINHA OBRA-PRIMA NESTE MUNDO

3

4

ÍNDICE

Prefácio 7
Os Meus Versos 9
11
Ninguém 13
O Egoísmo 15
Moto Contínuo 17
Esfericidade 19
21
Perdido 23
Inanimação 25
Amizade Colorida 27
Marinheiro 29
31
Uno 33
Verão de 42 35
37
Bebum 39
Os Meus Favoritos 41
43
As Frases
Um Conto
Um conto das Arábias
Um Poema
Sobre o Autor

5

6

PREFÁCIO

São os prefácios normalmente escritos por outrem que não o autor. De
preferência, e sempre que disponível, deve ser uma figura notável ligada à
política, às artes ou aos ofícios a fazê-lo. Como não foi encontrada nenhuma
personalidade disponível para o fazer, decidiu o Autor, nesta fase da
publicação do seu livreto ser ele próprio a escrevê-lo.

O Autor acredita que foi chegada a altura de dizer ao Mundo e a afirmar a si
próprio que, apesar de todas as contrariedades e dificuldades não tem tido
propriamente razão de queixa do que a Vida lhe tem proporcionado.

Aproveita também para deixar uma mensagem de esperança no porvir
seguindo a máxima que aprendeu durante a sua vivência no Brasil: “Não
esquenta não, no fim dá tudo certo … o que tem que ser tem muita força”.

Recomenda que, sendo assim então, o melhor mesmo é ir aproveitando a vida
na melhor maneira possível e lembrar sempre o conselho do Chico Aníseo …
“Quem furunfou, furunfou, quem não furunfou, não furunfa mais”. É uma
grande lição que o Autor nos oferece! Oportunidade que deixamos passar e
não a agarramos com as duas mãos é uma oportunidade perdida para sempre.

Lembra que, é voz corrente que todos nós devemos tentar deixar algo neste
Mundo para os vindouros, normalmente traduzido pelo cumprimento de três
tarefas básicas durante a sua vida - ter um filho, plantar uma árvore e escrever
um livro e afirma-se já cumpridor, com perfeição, das duas primeiras tarefas.

Cumpriu a primeira tarefa colocando neste Mundo três filhos lindos, íntegros, e
úteis à sociedade que já lhe deram três netos fora de série. Cumpriu com a
segunda tarefa plantando uma palmeira, duas bananeiras, dezenas de hibiscos
e de cedros e mais recentemente umas quantas árvores de fruto no seu
quintal. Pelo já cumprimento destas duas tarefas o Autor sente-se abençoado e
agradecido.

Quanto à terceira tarefa, a de escrever um livro, o assunto é mais complicado.
O Autor descreve-a como sendo “o seu osso duro de roer”. Não acredita na
sua veia de escritor nem de poeta. Receia a sua incapacidade literária porque
a compara com a sua habilidade para as artes plásticas demonstrada pelo
auto-retrato que ilustra a capa deste livreto. Com tal comparação em mente, o
Autor não antevê como é que, algum dia, possa vir a ter alguma hipótese de
escrever qualquer coisa de jeito.

Vai assim o Autor contentar-se em vos apresentar uma série de devaneios
passados ao papel ao longo dos anos e compilá-los neste livreto pois, não tem
coragem sequer de o considerar tão pouco o prenúncio de um livro.

Reparte também com o leitor, com a esperança de que venham a apreciar, um
conjunto de frases feitas que o Autor retém na memória, bem como dois contos
de autores desconhecidos e um poema fantástico de Camilo Castelo Branco.

7

8

OS MEUS VERSOS

9

10

NINGUÉM

VIVER,
ENREDADO NA MEADA,
PUXADO, EMPURRADO NA PASSADA,
TENTANDO NO NOVELO COMBATER,
VIVEU ELE.

FICAR,
DESFAZER ESTRUTURAS,
LUTAR, FERIR, OUVIR CENSURAS,
OLHANDO O NOVO DIA A TREMER,
TENTOU ELE.

FUGIR,
IR PARA OUTRA DIMENSÃO,
TER NOVO NOME, NOVA PROFISSÃO
TER UM SEU DELE MUNDO ... RENASCER,
QUER ELE.

E VAI.
SEU NOVO NOME NINGUÉM
SEU MUNDO NOVO ALÉM
... ATÉ NOVA MEADA APARECER.

Rogério Freire
Novembro 1976
11

12

O EGOÍSMO

O EU
CRÊ QUE SÓ EU
E NÃO TU;
O TU
CRÊ QUE SÓ TU
E NÃO ELE;
O ELE
CRÊ QUE SÓ ELE
MAS NÃO NÓS;
O NÓS
CRÊ QUE SÓ EU
MAS NÃO VÓS;
O VÓS
CRÊ QUE SÓ TU
E NÃO ELES;
E ELES
CRÊM QUE SÓ ELE
E NÃO EU.

Rogério Freire
Novembro 1976
13

14

MOTO CONTÍNUO
OU

A IMORTALIDADE DA ALMA

ANTES DE MIM … EU.
EU.

DEPOIS DE MIM … EU.

Rogério Freire
Novembro 1976
15

16

ESFERICIDADE

BOLHA Rogério Freire
BOLHAS Novembro 1976
MUITAS BOLHAS
QUE BORBULHAM
QUE SE EMBRULHAM
SE MISTURAM
E DÃO PAZ

BOLHA
BOLHAS
MUITAS BOLHAS
QUE GORGOLHAM
GORGOLHANDO
NA ARGOLA
DO GARGALO
NA GARGANTA
DA GARRAFA
REGURGITAM
E SAI GÁS.

BOLHA
BOLA
BOLA
BEER
UMA BEER
DUAS BEERS
MUITAS BEERS
AMARELAS
CAI NO CHÃO
BEBEDEIRA?
TALVEZ NÃO!

PAZ
PAZ CALMA
CALMA REDONDA
CALMA ESFÉRICA
CALMA ETÉRIA
SERENIDADE.

CUBICIDADE NÃO!

SE PERDE A RAZÃO
SE PERDE A CALMA
SE PERDE A PAZ.
BEBEDEIRA?

PORQUE NÃO
SE SE TEM RAZÃO?

17

18

PERDIDO

EU
ESTOU
PERDIDO
PROCURANDO
IDENTIDADE ESCONDIDA
NO EU
DA SIMPLICIDADE
ENCONTRADA
NOS EUS
DA DUALIDADE
DO AMOR
DA MOCIDADE
DEFLORIDA
POR ILUSÕES
DE FALSIDADE
COMBATIDA
PELA REALIDADE
INCONCEBIDA
DETURPADA
SOFISTICADA.

Rogério Freire
Agosto 1982

19

20

INANIMAÇÃO

EM Rogério Freire
RELAÇÃO SEM NEXO Dezembro 1982
INSOFRIDA
DESENTENDIDA
INFORMAL

DOIS SEXOS
FRIOS
IMPESSOAIS
FAZEM SEXO
SEM EFEITO CAUSAL.

TAL
ROLHA GARRAFA
PORCA PARAFUSO
DEDO DEDAL
TAL
BALA CANHÃO
FACA BAINHA
BARCO CANAL

TAL QUAL
HOMEM MULHER
QUE EM AMPLEXOS DE AMOR
SEM AMOR
TROCAM SEXO
SEM NEXO
POR UM BEM MATERIAL.

SERES ANIMADOS
INANIMADOS
SE JUNTAM
DESJUNTAM
DESANIMADOS
FRUSTADOS
SEM NUNCA ENCONTRAR
O AMOR UNIVERSAL

21

22

AMIZADE COLORIDA

NO FUNDO DA NOSSA MENTE
A CONFUSÃO SE ORGANIZA,
LENTAMENTE,
CALMAMENTE.

ESPERA A ILUSÃO
GERADA NA SOLIDÃO
DE AMOR PERENE ENCONTRAR,
AO COMEÇAR POR TRANSAR,
NUM IMPULSO DE FANTASIA
ANTES DE AMOR SOBRAR
PARA EVITAR DESAMOR.

BOBEANDO NA SOLIDÃO
COMEÇA A CONFUSÃO.

QUER ENSINAR A AMAR.
QUER FORÇAR O AMOR.

CONFUNDE P’RA BAGUNÇAR,
AMOR, DESAMOR,
DESAMOR, AMOR,
DOR.

PÁRA.
PÁRA O TEMPO.
PÁRA A TEMPO.
PÁRA A ILUSÃO.
PÁRA A DOR.

E DEPOIS...
NÃO PONHAS DE NOVO O CARRO À FRENTE DOS BOIS.

DESCOBRE A EMPATIA,
DEIXA A AMIZADE CRESCER,
AMOR VIRÁ UM DIA.

E ENTÃO... Rogério Freire
SE TROQUEM, Dezembro 1982
SE DÊEM,
PROFUNDAMENTE E COM LENTIDÃO,
…E LÁ NA MENTE,
PARA SEMPRE,
FICARÁ PRESA A CONFUSÃO.

23

24

MARINHEIRO

QUANDO O PASSADO ERA CURTO DA PONTE DO MEU NAVIO
E O FUTURO ERA INFINITO RECEANDO A TEMPESTADE
EU QUERIA SER MARINHEIRO O TROVÃO NÃO QUERIA OUVIR
PARA RODAR O MUNDO INTEIRO NAVEGAR NÃO ERA VONTADE.
NUM NAVIO MUITO BONITO. SÓ PARAVA ONDE PODIA
E A GENTE QUE EMBARCAVA
DA PONTE DO MEU NAVIO RÁPIDAMENTE MORRIA
DOMINAVA AS TEMPESTADES, DEIXANDO-ME SÓ A SAUDADE.
DOS TROVÕES NÃO TINHA MEDO
DE CASA NÃO TINHA SAUDADES. QUANDO SÓ PASSADO EXISTE
PARAVA EM TODOS OS PORTOS E FUTURO JÁ TERMINOU
E TODO A GENTE EMBARCAVA TALVEZ O SONHO SONHADO
DANÇANDO, CANTANDO E RINDO REALIDADE SE TORNOU.
SUANDO FELICIDADE.
MAS O MELHOR MESMO DE TUDO
O PASSADO FOI CRESCENDO É NÃO SONHAR ACORDADO
O FUTURO JÁ TINHA UM FIM E FICAR COM A CERTEZA
E EU SEM SER MARINHEIRO, DE VIAJAR PELO MUNDO
SEM RODAR O MUNDO INTEIRO ANTES DO FUTURO ACABADO.
TENTANDO OLHAR PARA MIM.
APRENDER A NAVEGAR
DA PONTE DO MEU NAVIO NO MAR DA VIDA ENCRESPADO
CONTORNAVA A TEMPESTADE; MANTER-SE ORIENTADO
O TROVÃO JÁ ME SOAVA PARA O RUMO NÃO PERDER
COMO UMA BRUTALIDADE. É BEM MAIS QUE UM DEVER.
PARAVA SÓ ONDE QUERIA
E A GENTE QUE EMBARCAVA ENTÃO, SOLTAR AS VELAS
TRABALHAVA E JÁ NÃO RIA NAVEGAR PARA ONDE SE QUER
E POR VEZES ATÉ CHORAVA. RODANDO O MUNDO INTEIRO
EMBARCANDO QUEM QUISER ...
O PASSADO FICOU MAIOR,
O FUTURO SE ENCURTAVA PORQUE É BOM SER MARINHEIRO
E EU SEM SER MARINHEIRO, QUANDO SE SABE NAVEGAR
SEM RODAR O MUNDO INTEIRO
E SEM SABER ONDE ESTAVA.

Rogério Freire
Dezembro de 1983

25

26

UNO

AMOR, NÃO É PRIMAVERA
NEM TÃO POUCO É CÉU AZUL,
NÃO É PÁSSARO VOANDO,
NEM FLOR SORRINDO NO CAMPO,
NEM ÁRVORES, NEM ESTRELAS NO CÉU.
AMOR, NÃO É RIO CANTANDO,
NÃO SÃO MÃOS ACARICIANDO,
NEM LÁBIOS SUSSURRANDO
PALAVRAS DOCES DE AMOR.
AMOR, NÃO É A BELEZA,
DO TÃO BREJEIRO MOMENTO
ENTRE O OLÁ E O ATÉ LOGO.
AMOR É, OLHOS NOS OLHOS,
OLHANDO FUNDO LÁ DENTRO,
PARA ENCONTRAR O ENCONTRO
NO PONTO DE DESENCONTRO
ONDE TU E EU SOMOS DOIS.

Rogério Freire
Dezembro 1983

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VERÃO DE 42

VERÃO PRAIA
SOL AREIA MAR E BARCOS
COQUEIROS PICOLÉS E CALOR.

CORPOS,
BRANCOS AVERMELHADOS AMULATADOS
SUANDO SALGADOS
MUDANDO DE COR,
PULANDO NADANDO CORRENDO DEITADOS
CHEIOS DE VIGOR

NO VERÃO DE QUARENTA E DOIS, NESTA PRAIA TE CONHECI;
TU MULHER FEITA JÁ ERAS, EU DE HOMEM UM APRENDIZ.

VERÃO PRAIA
RAIOS DE SOL ALARANJADOS
PRIMEIRAS ESTRELAS BRILHANDO.

CORPOS,
VESTIDOS QUEIMADOS DOBRADOS
SEDENTOS CANSADOS
PRÁ CIDADE REGRESSANDO,
CARROS TRENS ÓNIBUS APRESSADOS
SILÊNCIO VOLTANDO

SENTADOS NA PRAIA, DE MÃOS DADAS, NÓS DOIS FICÁMOS;
TEUS OLHOS VERDES ME VIAM, NELES ME VI, E NOS AMÁMOS;

VERÃO PRAIA
DO MAR SILÊNCIO E RUÍDOS
COQUEIROS BRISA E LUAR

CORPOS,
NUS ENTRELAÇADOS ESTENDIDOS
GEMENDO ADORMECIDOS
NA BELEZA DE AMAR
SABENDO-SE QUERIDOS
COM ALGUÉM A QUEM SE DAR.

ME ENSINASTE A AMAR COM TEUS LÁBIOS MAIS DOCES QUE DOCE DE CÔCO
E COM TEU CORPO MAIS QUENTE QUE INFERNO E MAIS MEIGO QUE BEIJA-FLOR.

VERÃO PRAIA
SOL NOVO NO ALÉM
DIA NOVO A COMEÇAR

ESTREMUNHEI E ACORDEI DE VEZ. Rogério Freire
SÓ PODE TER SIDO UM SONHO SONHADO Julho de 1984
PORQUE NASCI EM MIL NOVECENTOS E QUARENTA E TRÊS

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30

BEBUM

SEMPRE GOSTEI DE SABER E ENTÃO VI ELES FALANDO
O QUE IRIA ESCREVER FALA QUE NÃO ENTENDI.
QUANDO ESTIVESSE BEBUM. CHEIO DE CURIOSIDADE
PARA ISSO ACONTECER PENSEI QUE A SOLUÇÃO
PREPAREI-ME PRA BEBER SERIA TOMAR O COPO DEZ
ATÉ DEIXAR DE SER SÓ UM. PARA TER MAIS COMPREENSÃO

UMA CADEIRA BEM CÓMODA, ASSIM FIZ E, PARA SURPRESA
UM COPO NA MINHA MÃO, COMECEI A ENTENDER
UM ESPELHO À MINHA FRENTE O QUE OS DOIS EUS DE MIM FALAVAM
E UMA GARRAFA NO CHÃO. E O QUE QUERIAM FAZER.
ENCHI O COPO PRIMEIRO, E AGORA VÃO PASMAR
QUE FOI NUM TRAGO BEBIDO; COM O TRIÁLODO DE TRÊS.
BEBI O COPO SEGUNDO,
QUE DO TERCEIRO FOI SEGUIDO. (PUXA COMO SÔA MAL
APÓS O QUARTO PAREI NEM PARECE PORTUGUÊS)
PARA NO ESPELHO ME OLHAR
ESPERANDO EU JÁ VER MAS É A PURA VERDADE
DOIS EUS A ME ESPIAR. O QUE AGORA LHES VOU CONTAR,
E SE NÃO ACREDITAM
PORQUE SÓ VI UMA CARA PODEM POR AQUI PARAR.
O QUINTO COPO BEBI; BÊBADO AINDA NÃO ESTOU!
O SEXTO E O SÉTIMO SE FORAM, ISSO POSSO EU AFIRMAR,
PAREI, OLHEI E SORRI. PORQUE SE O ESTIVESSE
NO ESPELHO FINALMENTE EU O IRIA NEGAR.
DOIS OLHAVAM PARA MIM.
BEM, PRÓ TRIÁLOGO ENTENDER
UM, ERA TAL COMO EU NOS DEVEMOS ORGANIZAR.
O OUTRO NÃO TINHA UM FIM. O EU À MINHA ESQUERDA
PENSEI QUE JÁ ESTAVA BÊBADO DE LUÍS SE VAI CHAMAR;
AO VER A SOMBRA INFINITA VALDEMAR SE CHAMARÁ
QUE COMIGO SE NÃO PARECIA EU À MINHA DIREITA
NEM TÃO POUCO ERA BONITA. QUE EM TUDO IMITA O LUÍS
SÓ PRA LHE FAZER DESFEITA.
E PELO SIM PELO NÃO O EU EU FORA DO ESPELHO
PRA VER O QUE ACONTECIA SOU EU MESMO O ROGERÃO.
O COPO OITAVO BEBI.
O OUTRO AGORA JÁ SORRIA, AGORA ORGANIZADOS
TALVEZ UM POUCO MAIS NÍTIDO VAMOS LÁ A COMEÇAR.
TALVEZ UM POUCO MAIS EU.
MAS O EU MEU QUE LÁ ESTAVA LUÍS – NÃO DÁ PRA ENTENDER
NÃO ERA BEM AQUELE EU. PORQUE QUIS O ROGERÃO
SE ENCONTRAR CONNOSCO AQUI.
BAITA DE CONFUSÃO TALVEZ ELE QUEIRA FALAR
CONFUSÃO BEM ENGRAÇADA COM ELE PRÓPRIO E NÃO CONSIGA;
SE AQUELE EU, NÃO SOU EU. OU TALVEZ ELE QUEIRA FUGIR
QUEM SOU EU, SE NÃO SOU NADA? DE ALGO QUE O CASTIGA.

NADA NÃO SE VÊ EM ESPELHO VALDEMAR - QUE COISA QUE NADA.
E LÁ ESTÃO ELES OS DOIS; VÊ SE ÉS MAIS OPTIMISTA.
UM SOU EU, ISSO SEI EU, SE ELE AQUI NOS CHAMOU
EU MAIS EU SOMOS OS DOIS … É PORQUE ALGO DE BOM EXISTE.
PARA ACLARAR O ASSUNTO O QUE ELE QUER É CURTIR
O NONO COPO BEBI, O FACTO DE ESTAR BEBUM,
A LIBERDADE SENTIR,
DE DEIXAR DE SER SÓ MAIS UM

Rogério Freire
Maio de 1984 (Inacabado)
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32

AS MINHAS ESCOLHAS

33

34

AS MINHAS FRASES FAVORITAS

De uma maneira ou de outra todos nós temos algumas frases e
provérbios que nos orientam, nos guiam, nos perdoam, nos alegram, nos
divertem e nos fazem pensar.
Também não fujo à regra e porque, creio eu, algumas das minhas frases
favoritas são bastante interessantes, aqui as reparto com o leitor.

A ordem como as apresento não corresponde de modo nenhum à
importância que lhes confiro. As frases não identificadas são de autores
desconhecidos.

 Pior que um génio desmotivado … só mesmo um idiota
entusiasmado.

 Quando se navega sem destino, nenhum vento é favorável.

(Está num painel de azulejo nas furnas na Ericeira).

 Se a vida te dá limões – faz limonada.

 Creio no Deus que criou os homens e não no deus que os
homens criaram.

(Alphonse Carr, jornalista e crítico francês do século XIX).

 Se os factos são contra mim … Pior para os factos

(Nelson Rodrigues, poeta e escritor contemporâneo brasileiro).

 Não bagunces mais a minha bagunça … com perigo de me
bagunçares.

 Em rio de piranhas … até jacaré nada de costas.

 Não confundas as obras de arte do Mestre Picasso com a pica de aço
do mestre-de-obras.

 É mais fácil encontrar um Ernesto do que um Honesto

(Esta, se ninguém contestar, é de minha autoria)

 No meio da tempestade não se escolhe o porto de abrigo.

(Está num painel de azulejo nas furnas na Ericeira).

 Quem furunfou, furunfou, quem não furunfou não furunfa mais.

(Ouvi-a ao Chico Aníseo, humorista brasileiro)

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UM CONTO

Origem e autor desconhecido

SE TE SENTES INFELIZ...

Era uma vez uma andorinha
Que vivia inconformada

Pelo facto de todos os anos, no inverno,
Ter de emigrar para o sul que,
Naquele ano, decidiu não viajar.

Infelizmente quando o inverno chegou
A temperatura baixou tanto e fazia tanto frio
Que ela se viu obrigada a fugir ao encontro do calor.
Fazia pouco tempo que tinha começado a voar
Quando se começou a formar gelo em volta das suas asas,

Fazendo-a perder altura
E levando-a a cair no meio do pátio de uma quinta.

Nesse preciso momento passava uma vaca
Que largou uma enorme bosta em cima da pobre andorinha.

A andorinha pensou que era chegado o seu fim,
Mas o calor da bosta da vaca aqueceu-a e descongelou as suas asas.
Aquecida e capaz de mexer as asas, sentiu-se feliz e começou a cantar.

Um gato enorme que passava por perto
Ouviu o cantar da andorinha e aproximou-se para investigar.

O gato afastou a bosta da vaca,
Viu a andorinha e, comeu-a de imediato.

MORAL DA HISTÓRIA

1- Nem todo aquele que larga bosta em cima de ti é necessariamente teu inimigo;

2- Nem todo aquele que te tira do meio da bosta é necessariamente teu amigo;

3- E, se estás aquecido e feliz, embora dentro de um monte de bosta ...

MANTÉM O BICO CALADO

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UM CONTO DAS ARÁBIAS

Origem e autor desconhecido. Conto reescrito pelo autor deste livreto

No século XVIII, o longínquo Sultanato do Praláestão, era governado
com mão de ferro por um Sultão temido pelas sentenças que aplicava
aos seus súbditos.

Habitava num enorme palácio cheio de riquezas e
luxos e junto ao seu trono tinha uma estátua em
pedra de um leão, símbolo do seu poder e força.

Um dia levaram à presença do Sultão dois ladrões
que tinham sido apanhados a roubar galinhas no
mercado da cidade.

Os dois homens estavam apavorados porque
habitualmente o Sultão em casos de roubo
mandava cortar as mãos ou cortar a cabeça,
dependendo do seu humor no momento do
julgamento.

Amarrados de pés e mãos foram os dois ladrões
presentes ao Sultão que, por acaso nesse dia estava mesmo muito mal
disposto.

Depois de ouvir a acusação, decretou, sem a menor comoção, a morte
imediata dos ladrões, mandando-lhes decepar a cabeça.

Perante tal sentença, o ladrão mais novo, gritou para o Sultão:

- Sultão, Sultão ao mandares matar-me nunca vais poder ter um leão
voador pois só eu tenho esse conhecimento e poder. Se me deres pelo
menos dois anos de vida prometo que, com a ajuda deste meu
companheiro, farei com que esse leão de pedra que está aí ao teu lado
consiga voar.

O outro ladrão, ficou espantado com a proposta e apavorado só de
pensar que o Sultão podia reagir ainda com mais violência que se virou
para o companheiro e disse:

- Estás louco, ele vai pensar que estás a troçar dele e vai-nos mandar
torturar antes de nos matar e, além disso tu nunca conseguirás fazer o
leão de pedra voar.

Perante a aflição do companheiro o ladrão mais novo insistiu com o
Sultão e conseguiu convencê-lo a deixá-lo tentar fazer o leão voar.

O ladrão mais velho diz para o ladrão mais novo:

- E agora como é que te vais sair desta trapalhada?

Ao que o ladrão mais novo respondeu:

- Não te aflijas pois dois anos de vida já ganhámos … e em dois anos,
quem sabe, pode morrer o Sultão, posso morrer eu … ou, quem sabe se
eu não vou mesmo conseguir fazer voar o leão.

39

40

UM POEMA

Camilo Castelo Branco

Os Meus Amigos

Amigos cento e dez e talvez mais
Eu já contei! Vaidades que eu sentia.
Pensei que sobre a terra não havia
Mais ditoso mortal entre os mortais.
Amigos cento e dez, tão serviçais,
Tão zelosos das leis da cortesia
Que eu, já farto de os ver, me escapulia,
Às suas curvaturas vertebrais.
Um dia adoeci profundamente.
Ceguei. Dos cento e dez, houve um somente
Que não desfez os laços quase rotos.
Que vamos nós (diziam) lá fazer?
Se ele está cego, não nos pode ver...
Que cento e nove impávidos marotos!

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42

SOBRE O AUTOR

Rogério Marques Freire nasceu na Póvoa de Santa Iria,
pelas 8,30 da manhã de sexta-feira 22 de Janeiro de 1943.

Nunca demonstrou nenhuma inclinação para as artes
literárias e, felizmente para estas, continua a não o
demonstrar, podendo assim considerar-se, cada um dos
poemas que compõem este livreto, como incidentes de percurso sem
qualquer significado.

Nasceu romântico e aventureiro, remediado e sem ganância, ingénuo e
confiável, curioso e empreendedor. Não nasceu herói nem conquistador.

Aos doze anos ganhou o seu primeiro dinheiro ao construir uma capoeira
de galinhas para uma vizinha.

Aprendeu catecismo, vestiu opa vermelha em procissões, hoje visita
todas as igrejas mas não vai à missa e não é lá muito católico.

Foi sempre um aluno de suficiente, às vezes para menos do que para
mais. A cabulice levou-o a ter de ser transferido do Liceu Passos Manuel
para vários colégios particulares até ser emancipado aos 18 anos para
aceitar a sugestão de seu pai de arranjar um emprego. Foi assim que se
transformou aos 18 anos em funcionário público e estudante pós-laboral.

Aos 21 anos não emigrou para fugir à guerra e serviu quase quatro anos
no Exército, incluindo 22 meses na Guiné-Bissau. Hoje, a Nação
agradecida, dá-lhe uma pensão de 100 euros anuais pelos serviços
prestados.

Enveredou numa carreira internacional na Industria Farmacêutica, e
desempenhou funções na área de vendas, marketing e relações
públicas, em Portugal, EUA e Brasil e noutros países da América Latina.

Com o apoio do seu empregador concluiu em 1988, nos EUA, uma
licenciatura em Gestão de Empresas. Mais vale tarde que nunca.

Faz parte do número restrito de pessoas que circum-navegaram o
Mundo. Esteve em locais tão exóticos, encantadores e estranhos como,
entre outros, Machu Picchu (Peru), Taj Mahal (Índia), Ayers Rock
(Austrália), Catedral do Sal (Colômbia), Vulcão Poás (Costa Rica),
Pantanal (Brasil), Kamakura (Japão). É, sem dúvida, um felizardo!

Porque na vida há sempre uma primeira vez para tudo, está agora aos
68 anos a aprender como viver com um orçamento muito reduzido. O
seu entusiasmo na aprendizagem desta matéria é tão grande que até já
definiu o seu PEC pessoal para o período 2012 / 2043.

Hoje dedica-se ao comércio através da Internet e a jogar no
euromilhões.

Considera, agora que este livreto existe, que das três tarefas já
cumpridas a melhor mesmo das três foi os três filhos que fez.

Bem hajam

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Edição do Autor
1ª Edição – Novembro de 2011 – 30 exemplares não numerados
Capa: Auto-retrato do Autor pintado em 1954.
Composição e Montagem do Autor
Imagens retiradas da Internet
Impresso numa HP Color Laserjet 1600 com toners reciclados.

Grampeado, dobrado e aparado na Gráfica Staff.

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