Celina Bodenmüller
Fabiana Prando
Ilustrações
Tainan Rocha
© Elo Editora / 2020
Texto fixado conforme o Acordo Ortográfico da Língua
Portuguesa de 1990. (Decreto Legislativo nº 54, de 1995).
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Revisão: Ana Maria Barbosa
Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP)
(Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil)
Bodenmüller, Celina
Ubuntu : e outras histórias africanas / Celina
Bodenmüller , Fabiana Prando ; ilustrações Tainan
Rocha ; -- São Paulo : Elo Editora, 2020.
ISBN 978-65-86036-42-8
1. Contos africanos - Literatura infantojuvenil
2. Literatura infantojuvenil I. Prando, Fabiana.
II. Rocha, Tainan. III. Título.
20-41980 CDD-028.5
Índices para catálogo sistemático:
1. Contos africanos : Literatura infantil 028.5
2. Contos africanos : Literatura infantojuvenil 028.5
Cibele Maria Dias - Bibliotecária - CRB-8/9427
1ª edição, 2020
Elo Editora e Distribuidora de Editoriais Ltda.
R. Barão do Triunfo, 427 - cj. 707
04602-001 - São Paulo, SP, Brasil.
Telefone: (11) 4858-6606
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Para Luiz,
com amor.
C.B.
Para Celina, que me ofereceu
o presente das histórias em
um momento sombrio da jornada.
F.P.
Respeito. Cortesia. Compartilhamento.
Comunidade. Generosidade. Confiança.
Desprendimento.Uma palavra pode ter muitos
significados. Tudo isso é o espírito de Ubuntu.
Ubuntu não significa que as pessoas não devam
cuidar de si próprias. A questão é: você vai
fazer isso de maneira a desenvolver a sua
comunidade, permitindo que ela melhore?
Nelson Mandela
Sumário
O caçador e o ratinho ............................... 9
Raio e Trovão .............................................. 14
Ubuntu ........................................................... 17
O leopardo, a cabra e o inhame .................. 20
Montinhos de pedras .................................... 22
O mistério da fruta ....................................... 25
Azul e vermelho ............................................ 30
O homem que nunca mentiu ...................... 34
O çador e o ratinho
Os velhos contadores de histórias africanas dizem que
existiu, há muitos anos, um caçador que costumava sair todos
os dias na companhia de seu cachorro à procura de caça para
alimentar sua esposa e seus filhos. Certa vez, embrenhou-se
com o cão pela mata levando arco, flechas e uma lança. Cami-
nhava por uma trilha desconhecida, quando ouviu uma voz:
— Caçador, por favor, ajude-me a atravessar a encru-
zilhada e eu prometo que um dia o ajudarei também!
— Mas quem está falando? Não vejo ninguém. Fale
novamente para que eu possa ver quem é você.
— Aqui embaixo, por favor, ajude-me na travessia e
você poderá contar comigo numa outra ocasião. Eu sou um
rato almiscarado, um ratinho.
O homem olhou para baixo, viu o animal e disse com
sinceridade:
— Eu ajudaria você a atravessar a estrada, só que
você cheira tão mal que tenho medo de ficar impregnado
com esse fedor…
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— Por favor, se não me ajudar, eu morrerei. Prometo
que um dia salvarei você.
— Você é tão pequeno. Como é que um dia vai me
salvar? Sou tão grande, sou forte, e não quero ficar com o
seu cheiro.
— Levante-me com a sua lança. Sem me tocar, você
não ficará com cheiro esquisito. Depois, é só me jogar para
que eu caia do outro lado da estrada e prometo que um dia eu
o livrarei de uma situação difícil.
O caçador levantou o rato almiscarado com a lança e
o arremessou, fazendo-o cair do outro lado da estrada.
— Muito obrigado, meu bom amigo! – gritou o rati-
nho antes de seguir seu caminho.
E isso foi tudo o que aconteceu naquele dia.
Quando voltou para casa, à noite, o homem contou o
que acontecera à esposa e ela riu das pretensões do bichinho:
— Que tola criatura, tão pequenininha... Como ele
poderia ajudar?
— Também não sei como isso seria possível, mas foi
o que ele me prometeu.
Na manhã seguinte o caçador pediu que a esposa
preparasse uma refeição reforçada, pois seguiria, novamente,
mata adentro. Outras regiões trariam boa caça. Ela caprichou
na papa de farinha com feijão e, com o estômago forrado e
satisfeito, o homem partiu na companhia de seu cão. Eles per-
correram uma grande distância. Era a época da chuvarada, e
o céu ficou abarrotado de nuvens imensas, prenhes de chuva
pesada prestes a desabar.
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O homem buscou um refúgio durante o temporal.
Entrou numa caverna assim que os primeiros pingos começa-
ram a cair. Mas ele e seu cachorro não eram os únicos ali. Bem
escondidinho na escuridão estava o rato almiscarado.
Um leão, que também fugia da tempestade, entrou
na caverna. O homem se apavorou ao ver a fera e tentou silen-
ciar o cão segurando o seu focinho. Com o que restava de brio
e de coragem, o caçador dirigiu-se ao rei dos animais:
— Majestade, antes que você me devore, quero dizer
que sou uma boa pessoa que nunca prejudicou alguém. Sou
apenas um homem do mato que caça para sustentar a famí-
lia. Assim como você, eu procurava por comida e, fugindo da
chuva, vim parar aqui. Pronto, agora você já pode me atacar.
O leão abriu a bocarra e rugiu tão alto que a caverna
tremeu. Uma cascata de lágrimas despencou dos olhos do ca-
çador. Era o fim… Desesperado, agarrou suas armas e a ave
abatida que trazia consigo. A fera disse:
— Deixe que seu cão coma a ave. Depois, você come
o cão e, finalmente, eu comerei você!
Assim que o leão encerrou a sua fala com um rugido,
uma voz firme soou na escuridão da caverna:
— Ótima ideia! Ofereça a galinha ao cachorro. Quan-
do ele estiver alimentado, você pode comer o cão. Em segui-
da, o leão poderá devorar você e, quando ele estiver de barri-
ga cheia, será a minha vez de papar o leão!
Quando o rato almiscarado terminou de dizer isto,
ainda acrescentou:
— Concordam comigo, criaturas da caverna?
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E foi um alvoroço sonoro, com insetos, morcegos e
toda sorte de habitantes das paredes cavernosas ecoando a
provocação do ratinho.
O espanto tomou conta do caçador e também do leão.
Quem seria aquele ser tão assustador? E eles ouviram mais
uma vez:
— Você deve dar a galinha ao cão para, depois, comê-
-lo e, então, ser devorado pelo leão que será o meu jantar. De
acordo, minha guarda real?
— Sim!!!
Responderam em uníssono os milhares de mi-
núsculos residentes da caverna, fazendo as paredes
balançarem.
O magnífico leão perdeu completamente o apetite,
pois agora era ele que temia ser devorado. Naquela confusão,
o homem gritou:
— Segurem a caverna antes que ela desmorone! Vou
cortar madeira para escorá-la!
O leão concordou e ficou segurando as paredes en-
quanto o caçador e seu cachorro correram o mais depressa
que suas pernas conseguiram. Só pararam quando estavam
sãos e salvos em casa.
Muito tempo depois, o rato almiscarado encontrou o
caçador novamente na estrada. Ele primeiro sorriu e, depois,
fazendo cara de bravo, empostou a voz:
— Você deve oferecer a galinha ao cão, depois, comê-
-lo para que, então, o leão possa devorar você e, assim, eu
possa papar o leão!
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— Foi você?!
— Eu não prometi que te ajudaria?
O homem agradeceu o ratinho com entusiasmo e
nem se importou com o cheiro do roedor. Aquele era um
verdadeiro amigo, e os amigos podem nos ajudar de formas
inesperadas.
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Raio e Trovão
Esta história foi muito bem inventada e, por isso, es-
colhi contá-la para você.
Houve um tempo, muito antigamente, em que Tro-
vão, um bode, e Raio, seu filho cabrito, viviam entre as pes-
soas de uma tribo africana.
Ninguém gostava muito deles porque Raio se esquen-
tava por qualquer coisinha e botava fogo em tudo. Trovão,
por outro lado, fazia a maior barulheira para tentar acalmar o
filho, mas nunca conseguia.
Era sempre um deus nos acuda com o fogo lamben-
do as cabanas, comendo o estoque de milho e ameaçando as
plantações da redondeza. Trovão percebia o filho se compor-
tando daquele jeito e abria o berreiro. Mas de nada adiantava,
porque Raio sempre fazia o maior estrago.
Imagine só o rebuliço: fogo de um lado, estrondo de
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outro e, no meio de tudo, o povo num corre-corre danado para
salvar as pessoas e as coisas.
Dá para entender por que os aldeões ficavam aborre-
cidos. Não havia como viver sossegado naquele lugar.
Quando a situação se tornou insuportável, os habi-
tantes foram pedir ao chefe uma solução. Ele logo decidiu:
— Raio e Trovão não devem mais viver entre nós.
Que fiquem morando longe, lá na fronteira do povoado.
Eles obedeceram, mas quando alguém passava por
aquelas bandas, o cabrito, sempre de mau-humor, logo arran-
java confusão e tudo começava novamente: primeiro o fogo
de Raio, em seguida os gritos de Trovão.
Não passou muito tempo para estarem de novo dian-
te do chefe:
— Vocês tiveram uma chance, mas não mudaram. De
agora em diante, viverão na selva. Não quero mais ver os fo-
cinhos de vocês por aqui!
Raio e Trovão cumpriram a ordem. Mal sabiam os al-
deões que os problemas iriam piorar ainda mais. Raio estava
furiosíssimo por ter sido banido e ateou fogo em tudo. Como
estavam na estação seca, o fogo se alastrou na mata com
rapidez. As chamas atingiram as plantações e as cabanas
quase foram queimadas, colocando os moradores em deses-
pero. Trovão esbravejava atrás do filho, mas, como sempre,
de nada adiantava.
Diante do que aconteceu, o chefe reuniu o con-
selho de sábios da tribo e, depois de muito debate,
proclamou:
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— Raio e Trovão, vocês serão enviados para o céu.
Esperamos que, de lá, não causem danos a mais ninguém.
E assim foi feito. Mas Raio de vez em quan-
do ainda perde a paciência e, por isso, quer provocar
incêndios na terra. Você pode vê-lo riscando o céu de rai-
va e ouvir seu pai Trovão o repreendendo com sua voz
estrondosa.
ubuntu
Esta é uma pequena história que revela uma forma
de viver das culturas Zulu e Xhosa. Quando lemos ou ouvi-
mos um conto desses povos, conhecemos um pouco mais suas
almas e seus valores.
Certa vez, um forasteiro que visitava uma tribo afri-
cana quis brincar com as crianças e sugeriu um jogo. Ele colo-
cou uma cesta cheia de doces embaixo de uma árvore e pro-
pôs uma corrida, uma competição. Disse que quem chegasse
primeiro até a árvore poderia ficar com a cesta.
Riscou uma linha de partida no chão e deu o sinal
combinado:
— Um, dois, três e já!
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Imediatamente, os pequenos deram as mãos e corre-
ram até a árvore. Chegaram juntos e compartilharam, felizes,
o prêmio.
O homem ficou bastante intrigado e perguntou:
— Mas por que vocês correram juntos se apenas um
poderia ganhar e ficar com todas as guloseimas?
Uma das crianças respondeu:
— Ubuntu!* Como um de nós poderia ficar feliz en-
quanto os outros estivessem tristes?
O homem ficou muito comovido com a lição que apren-
deu ali e levou a história para todos os lugares que visitou.
Como você se sente quando todos cooperam?
* Ubuntu é um termo das culturas Zulu e Xhosa que quer dizer: “Eu só existo porque nós existimos”. Eles acreditam
que com cooperação se alcança a felicidade, pois todos em harmonia são muito mais felizes.
O Leopardo, a bra
e o inhame
Era uma vez um velho rabugento que vivia sozinho
em sua palhoça numa aldeia no Norte da Nigéria. Cansado
da companhia de seus vizinhos, decidiu fazer uma viagem e
conhecer as terras do outro lado do rio Níger.
— Estou cansado do falatório dessa gente palpitando
na vida alheia. Quero sossego para ouvir meus próprios pen-
samentos – disse para si mesmo enquanto reunia seus perten-
ces: um leopardo, uma cabra e um saco repleto de inhame.
A criançada acompanhou em algazarra o homem car-
rancudo. Pararam às margens do Níger e lá havia apenas uma
pequenina canoa. Era tão pequena que não comportava o ve-
lho e sua bagagem. Ele teria que ir e vir muitas vezes para
transportar suas posses.
A molecada batia palmas, tamanha a excitação em
presenciar o impasse do ranzinza. E falavam alto:
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— Como será que o velhinho vai se virar?
— Se levar o inhame, o leopardo come a cabra!
— Se levar o leopardo, a cabra come o inhame!
— Que fuzuê!
— Silêncio, preciso pensar – ele resmungou.
Os pequenos perceberam a dificuldade do homem e
sentiram pena por ele estar tão desamparado e sozinho. Re-
solveram pedir ajuda porque esse era o precioso ensinamento
da aldeia: juntos somos mais fortes. Recorreram aos anciãos
da comunidade que, em roda, dividiram o dilema com as pes-
soas e, juntos, chegaram a uma solução.
Felizes, as crianças correram até a beira do rio com
a boa notícia. O velhote ficou aliviado e agradecido, bendi-
zendo a ajuda da coletividade. Seguiu à risca as instruções de
seus amigos.
Levou a cabra com ele na canoa e deixou o leopardo
com o inhame, já que o felino, como todos sabem, não come
raízes. Depois, voltou para buscar o saco de inhame, e, ao che-
gar na outra margem, deixou o inhame e pegou a cabra de
volta. Em seguida, desembarcou a cabra e embarcou o leopar-
do, deixando-o na outra margem com o inhame. Finalmente,
voltou para pegar a cabra e, assim, reuniu todos os seus bens
do outro lado do Níger.
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Montinhos de pedras
Era uma vez um montinho de pedras empilhado no
chão. Na pedra mais alta da pilha estava um pardal.
— O que está fazendo, pequeno?
— Estou amolando meu bico.
— Para quê?
— Para te contar uma história, criança, a história dos
montinhos de pedras.
O pardal disse que ali na Nigéria existe o costume de
se empilhar pedras.
— Está vendo esta pilha onde estou? Pois bem, a pri-
meira pedra lá de baixo foi colocada por um sábio deste lugar,
que é considerado sagrado pelo povo daqui. Ele fez isso para
comunicar a quem passar que não se está sozinho neste mundo.
— E as outras, quem colocou?
— Cada pessoa que passou por aqui depositou mais
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uma, e dizem que, ao fazer isso, garantiu o sucesso de sua
viagem. Além disso, o amontoado de pedras pode guiar um
caminhante que pensa estar perdido.
— Eu também posso empilhar?
— Claro, criança, você sempre pode ajudar.
O pássaro bateu asas e voou. A criança escolheu uma
pedra e a empilhou. E esta história curtinha se acabou.
O mistério da fruta
No tempo em que os bichos falavam, todos eles vi-
viam numa mesma região, menos a cobra píton que, para não
ter vizinhos, foi morar bem longe, a quilômetros e quilômetros
da bicharada. Ela era uma criatura sábia e muito reservada.
Chegou o tempo da seca, e uma única árvore resistiu
carregada de frutas. Ela era robusta e atravessava as estações
secas e chuvosas sem perder o viço. Apesar de a árvore estar
verdinha e abarrotada de frutas o ano todo, os bichos conti-
nuavam famintos. Será que a frutinha era venenosa? Ou teria
um gosto horrível?
Que nada! A fruta era de-li-ci-o-sa, su-cu-len-ta, a-pe-
ti-to-sa! E fazia um bem danado: saciava a fome, amansava o
coração, espantava a preguiça, dava muita disposição! Mes-
mo assim, nenhum animal comia essa maravilha. Será que ela
era difícil de colher?
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Na verdade, ela não podia ser colhida e também não
caía de madura, não despencava sozinha do pé. Só tinha um
jeito de provar a tal frutinha. Era preciso saber o seu nome e
o da árvore. Apenas pedindo permissão e pronunciando cor-
retamente os devidos nomes os bichos poderiam saboreá-la.
O problema é que eles não sabiam os tais nomes e
ficavam ali, parados, só imaginando o gostinho, sonhando de
olhos abertos com água na boca e barriga vazia. Quando o
verde voltava a colorir a paisagem, eles tinham comida de so-
bra e até se esqueciam daquele enigma. Mas será que alguém
sabia os misteriosos nomes?
Sim! Um e somente um bicho conhecia os nomes. O
problema é que o sábio animal morava longe, muito longe.
Você já sabe quem é?
Isso mesmo! A píton, aquela cobra que queria sos-
sego e solidão. Era mais fácil esperar a chuvarada voltar do
que fazer a viagem até a toca da cobra, que, verdade seja dita,
não gostava de receber visitas. Mas naquele ano a chuva de-
morou a cair, prolongando a seca e a fome da bicharada. Era
uma emergência! Os animais se reuniram e deram ao ratinho
a missão de viajar até a casa da píton.
Esperto e ligeiro, o ratinho chegou ao seu destino e,
surpresa, foi bem recebido pela cobra. Ela sussurrou os miste-
riosos nomes, o rato agradeceu e despediu-se. Mas, no cami-
nho de casa, acabou se esquecendo das palavras da cobra…
Os animais o aguardavam ansiosos debaixo da árvore:
— Qual o nome da árvore? E o da fruta? Diga logo!
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— Da árvore… acho que é gunlanamagula ou mala-
gula, esqueci…
— E o da fruta?
— Alguma coisa meio marambela, se não era, ai, me
confundi…
Os outros animais esbravejaram, vaiaram e resolve-
ram mandar o porco-espinho para a casa da píton.
Ele também esqueceu os nomes e foi vaiado. En-
viaram o antílope, o búfalo e até mesmo o elefante, e
todos fracassaram, esquecendo os ensinamentos da serpente.
Quem conseguiria triunfar?
Finalmente, a tartaruga se ofereceu, e todos riram de
sua pretensão. Logo ela, a vaga-
rosa da floresta? Ela não desani-
mou. Disse que iria e que só volta-
ria com os nomes bem guardados
no seu valente coração. A mãe
da tartaruga orientou sua filha:
— Minha querida, não beba
água e não coma nada no ca-
minho, apenas quando estiver
de volta.
— Sim, mamãe!
— Leve também um
pandeirinho para espantar a
preguiça e cantarolar durante
a viagem.
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— Sim, mamãe!
A tartaruga seguiu as instruções da mãe à risca e ou-
viu atentamente os nomes sussurrados pela píton. Para aju-
dar a guardar os nomes, veio cantarolando uma canção que
incluía o nome da árvore e do seu fruto e marcando o ritmo
com o pandeirinho.
— Mulunga, a árvore é mulunga! Cantarolando eu não
me esqueço nunca! Formosa árvore, seu nome é mu-lun-ga!
E, para a fruta, ela também versejou:
— Gostosa fruta chamada requenguela-catimbimba-
-mulunga-seriguela! O nome dela, repito, e ninguém erra, é
requenguela-catimbimba-mulunga-siriguela.
E assim, cantando e requebrando, a tartaruga chegou
e foi direto para o pé da árvore. Os animais não deram muita
bola quando a cascudinha retornou. Ela pigarreou para lim-
par a garganta, balançou o pandeiro e entoou:
— Muitos bons dias, dona Mulunga, árvore tão bela!
E não é que a danada da árvore chacoalhou as folhi-
nhas, toda feliz ao ouvir seu nome? Aquilo atraiu a bichara-
da, que se amontoou ao redor de Mulunga para acompanhar
tudo de perto. A tartaruga, que mal se continha dentro da ca-
rapaça, prosseguiu confiante:
— A senhora nos daria a honra, o prazer e a alegria
de provarmos sua magnífica frutinha, a requenguela-catim-
bimba-mulunga-siriguela?
Não foi preciso pedir duas vezes. Uma cascata de fru-
tas foi rolando pelo tronco da árvore e todos puderam final-
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mente experimentar aquela gostosura. E foi uma festança. A
pequena tartaruga foi declarada a mais sábia, valente e ha-
bilidosa moradora da região. Fizeram até uma escultura em
sua homenagem. Mamãe tartaruga não cabia em seu casco, de
tanto orgulho que sentia da filha.
E, a partir daquele dia, quando queriam saborear a
fruta, os bichos pediam permissão à dona Mulunga e diziam
o compridíssimo nome sem gaguejar: requenguela-catimbim-
ba-mulunga-siriguela.
Repita você também se for capaz!
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Azul e vermelho
Você já teve um grande amigo? Poucos presentes na
vida são tão especiais quanto uma verdadeira amizade.
Nossa história aconteceu há muito tempo, numa al-
deia africana. Os meninos Daudi e Kito eram companheiros
inseparáveis. As pessoas diziam:
— Quer saber de Daudi? Procure por Kito. Precisa fa-
lar com Kito? Chame Daudi. Esses dois são a corda e a caçamba!
A parceria correu o tempo da meninice e chegou à
idade adulta. Construíram suas casas uma em frente da outra
e, assim, além de amigos, tornaram-se vizinhos. As pessoas
diziam:
— Amigos e vizinhos? Agora é que nós vamos ver!
Quem passa muito tempo junto acaba brigando… Será que
isso vai dar certo?
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E deu! A amizade ficou ainda mais forte e cresceu, in-
cluindo as esposas e os filhos. Tal fato ganhou fama, e o com-
panheirismo de Kito e Daudi tornou-se o orgulho da aldeia.
As pessoas diziam:
— Assim como o B vem depois do A e o dia só ter-
mina quando a noite começa, Daudi e Kito serão amigos en-
quanto houver peixinhos no mar!
O que ninguém diz, mas que todo mundo sabe,
é que, se tudo fica bem numa história, ela simples-
mente não acontece e, pior, aborrece. Mas não desista!
Estamos chegando ao momento da intriga.
Um viajante chamado Idowu passou pela aldeia e
ouviu falar dos amigos. Quando disseram a ele que os dois
nunca brigaram, gargalhou e disse para quem quisesse ouvir:
— Du-vi-de-o-dó!
Idowu adorava pregar peças e farejou ali uma opor-
tunidade perfeita. Disposto a desafiar a célebre amizade, ti-
rou de sua mala um casaco de duas cores. Ele era vermelho de
um lado e azul do outro. Quando olhado de frente, era pos-
sível ver as duas cores, mas, quando de lado, somente uma
das partes era visível. Vestindo o casaco, Idowu desfilou na
rua em que viviam os amigos, cantarolando alto para ter cer-
teza de ser notado. Kito e Daudi estavam na frente de suas
casas e viram o forasteiro passando.
— “Morderam a isca”, pensou Idowu escondendo-se
atrás de uma árvore no final da estradinha. E os amigos come-
çaram a papear:
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— Que sujeito engraçado, você reparou, Daudi?
— Cantarolando e metido num casaco vermelho,
como não reparar?
— Vermelho? Era azul.
— Você está enganado, Kito, era vermelho, vermelho
vivo!
— Azul, azul, muito azul!
— O amigo está me chamando de mentiroso?
— Você é quem está duvidando da minha palavra.
— Eu não quero discutir com você, mas tenho certeza
do que vi!
— Certeza tenho eu, e não queira me contrariar!
— O amigo está gritando por quê? Não sou surdo
nem tampouco cego e sei que o casaco era vermelho feito o
meu sangue que está fervendo com a sua teimosia!
— Teimosia? Mas olhe só para isso! Se eu disse que o
casaco é azul, não é teimosia, é fato. Não vou negar o que vi!
A discussão estava pegando fogo com os dois aos
berros, quando Idowu voltou exibindo o casaco, mas agora de
frente. Os amigos emudeceram e, finalmente, perceberam que
estavam certos e errados ao mesmo tempo. Certos porque o
casaco tinha as cores que cada um deles viu e errados porque
a cor que o amigo vira estava ali também. Mas o maior engano
deles foi teimar cada um sobre o seu ponto de vista, sem ouvir
o do outro.
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Nesse dia Kito e Daudi aprenderam que um amigo
não tem que concordar com você em tudo. Amigo é aquele
que respeita uma opinião alheia, mesmo que seja diferente
da sua.
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O homem que nun
mentiu
Era uma vez um homem sábio chamado Zaki que era
conhecido por nunca ter mentido. Sua fama cresceu e correu
pelos lugares mais distantes até chegar aos ouvidos reais. O
rei, admirado, quis conhecê-lo pessoalmente e ordenou aos
seus subordinados que o trouxessem ao palácio.
A simplicidade de Zaki contrastou com a suntuosida-
de da corte, e o monarca olhava para ele como que para um
animal exótico, duvidando sinceramente da virtude do bom
homem.
— Sábio Zaki, é verdade que nunca mentiste?
— Sim, é verdade.
— E tu nunca mentirás em tua vida?
— Certamente que não, majestade.
— Fico feliz que tenhas essa intenção, meu homem.
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Mas tenha muito cuidado – advertiu o rei. – A mentira é sagaz
e pode surpreendê-lo, vindo morar facilmente em tua boca.
— Serei atento e vigilante para que isso não ocorra,
nobre senhor.
Ainda descrente da palavra do sábio, o rei resolveu
testá-lo. Vinte e oito dias após o primeiro encontro, o soberano
mandou chamá-lo à sua presença mais uma vez. Havia uma
grande multidão, o rei estava saindo para caçar. Segurando
seu cavalo pela crina, ordenou a Zaki:
— Vá ao meu palácio de verão e avise a rainha que
almoçarei com ela amanhã. Diga-lhe para preparar um gran-
de banquete.
Zaki curvou-se e foi ter com a rainha.
Assim que o venerável homem se afastou, o monarca
sorriu, malicioso, dizendo aos companheiros:
— Não vamos mais caçar, e agora Zaki vai mentir à
rainha. Eu não vou almoçar com ela e amanhã vamos dizer ao
sabichão que ele mentiu.
Aquele que não mente foi ao encontro da esposa do
rei em seu palácio de verão:
— Rainha, Vossa Majestade talvez devesse preparar
um grande banquete para o almoço do rei amanhã e talvez
não devesse.
— Não estou entendendo, o rei virá ou não virá?
— Talvez o rei venha ao meio-dia e talvez não venha.
— Mas que tipo de mensagem é essa? Qual o teu
nome? Quem és tu? – indagou a rainha.
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— Meu nome é Zaki e sou conhecido pelo fato de nunca
mentir. Estou transmitindo à Vossa Majestade a intenção que o
rei, vosso marido, me comunicou. Porque só tenho certeza do que
vejo com meus próprios olhos, digo apenas o que ele me falou. O
que ele fará não posso antever.
A nobre mulher sorriu saudando o bom e sábio homem,
que se despediu.
O rei chegou ao palácio de verão ao anoitecer do dia se-
guinte e disse à rainha:
— O sábio Zaki, que nunca mente, mentiu-te ontem.
Mas a rainha contou-lhe sobre as palavras de Zaki. E o
rei percebeu que o sábio nunca mentia porque só falava sobre o
que tinha testemunhado.
O grande homem garantiu o triunfo da verdade no final.
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CELINA BODENMÜLLER cresceu numa casa com horta,
pés de fruta, jardim, galinhas, um rancho de marcenaria, um for-
no grande à lenha e um tear. Tarefas como cuidar da horta e a
marcenaria eram do pai. Já cuidar das galinhas, do jardim e pre-
parar o pão estavam entre as tarefas da mãe. Para ela o tear, uma
geringonça enorme de madeira com dois pedais gigantes, era um
brinquedo adorado, de onde saíam tapetes para a casa. Enquan-
to escrevia este livro, a palavra Ubuntu lhe trouxe as lembranças
desse lar, onde pais e filhos aprendiam, ensinavam e colaboravam
um pouco cada um e todos usufruíam. Celina é autora de mais de
uma dezena de livros para crianças, radialista e dona de uma linda
livraria na cidade de São Paulo chamada PanaPaná.
FABIANA PRANDO A autora sabe, desde menina, que o
melhor jeito de viver a vida é em boa companhia. Ela desconfia
que sem a parceria o ser humano não teria conseguido sobreviver
como espécie e ela não teria a alegria de ser contadora de histórias,
escritora, radialista e mestra em Letras pela USP. Neste livro, teve
a oportunidade de pesquisar e recontar narrativas que celebram o
princípio da cooperação, honrando a sabedoria Ubuntu, a força da
tradição africana que não nos deixa esquecer que nenhum de nós
é tão bom quanto todos nós juntos. Saiba mais sobre o trabalho da
Fabiana visitando o canal Fabulana no Youtube.
TAINAN ROCHA nasceu em 1989, em São Paulo. Professor
de Ilustração na Quanta Academia de Artes, colaborou com o pro-
jeto multimídia Society of Virtue, de Thobias Daneluz e Ian SBF,
do Porta dos Fundos. Trabalhou nos álbuns Savana de pedra (rotei-
ro de Felipe Castilho, finalista do Prêmio Jabuti) e Que Deus te
abandone (roteiro de André Diniz), também lançado em Portu-
gal. Foi indicado como desenhista revelação ao Troféu HQ-MIX.
Em 2018, expôs seu trabalho no Festival Internacional de Banda
Desenhada ao lado de grandes nomes do quadrinho mundial. Com o
nascimento de seu filho Bento, começou a ilustrar livros infantis.